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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Por amor

Vinde a mim as criancinhas

Kevin Love
, o jogador que fez 18 double-doubles em suas última 19 partidas, que venceu o Clippers num arremesso de último segundo, que marca 25 pontos por jogo (quarto melhor da NBA) e que pega 14 rebotes por partida (segundo melhor da NBA), acaba de aceitar uma extensão de contrato de 60 milhões de doletas por 4 anos com o Wolves. Com o Wolves, crianças, aquele time que fica em Minessota, lugar em que nem os ursos querem viver. Aquele time que era motivo de piada e vergonha desde que Garnett saiu de lá. Aquele time de que os jogadores deveriam fugir desesperados assim que seus contratos acabassem. 

A extensão de contrato de Kevin Love é muito mais do que um jogador bom aceitando continuar em sua franquia, ela é também a vitória do General Manager David Kahn e de todos os mercados pequenos da NBA. Hoje em dia, basta um jogador se destacar numa franquia porcaria para começar a aguardar com ansiedade o fim do seu contrato e assinar com, adivinha, Lakers, Knicks, Mavs, Heat. Todo mundo quer jogar nos grandes mercados, nas grandes equipes, ter chance de título. É normal, todos nós vimos como jogadores fantásticos são tratados como cocô caso não ganhem títulos (LeBron, alguém?) ou como são completamente esquecidos quando jogam em pequenos mercados (Bosh em Toronto, Elton Brand no Clippers). Muito se falou, durante as negociações entre donos e jogadores no locaute, de novas regras que favorecessem as equipes pequenas, que incentivassem os jogadores a não ir parar todos em Los Angeles ou  em New York. Mas insistimos aqui: os jogadores querem ir jogar nas cidades mais legais, algo que independe das regras do basquete, e querem também equipes com chances de título, algo que varia muito de tempos em tempos. Já houve uma época em que todo mundo queria ir jogar em Sacramento só porque o Kings da década passada chutava traseiros, e agora todas as estrelas já estão colocando o Clippers como eventual possibilidade de destino. 

Minessota nunca vai convencer ninguém a ir lá curtir o turismo, e também não pode oferecer chances de título a curto prazo. Equipes assim acabam perdendo suas jovens estrelas, draftadas com tanto esforço, para equipes melhor estabelecidas. Mas aí é que entra David Kahn e sua política com o Wolves. Desde que assumiu a brincadeira, instituiu uma comunicação clara tanto com a imprensa quanto com seus jogadores. Explica porque está contratando cada jogador, o que espera deles, deixa que façam cagadas em quadra para aprender, e insiste em ter um time rápido e veloz. Trocou jogadores insatisfeitos ou que mereciam mais espaço em quadra como Al Jefferson e Jonny Flynn para deixar o elenco contente e ficar com fama de que trata bem seus jogadores, nem que seja liberando eles para ir jogar em outros lugares. Ao invés de fazer como o Clippers, que era uma prisão de jovens estrelas que só queriam dar o fora dali assim que pudessem, Kahn apostou em criar um lugar legal para se jogar, chamou o Rick Adelman para ser o técnico e colocar em prática seu esquema ofensivo livre e criativo, e segurou com unhas e dentes o novato Ricky Rubio. O armador choramingou quando foi draftado pelo Wolves, quis ficar na Espanha, dizem que pediu para ser trocado para o Knicks, mas Kahn insistiu em mantê-lo mesmo tendo que esperar anos para que o armador voltasse da Europa, e durante esse tempo manteve contato constante com o pirralho, acompanhou treinos e jogos, cuidou da papelada e tranquilizou o menino com definições claras de qual seria seu papel em quadra, quantos minutos teria e qual seria o estilo de jogo da equipe. Agora temos o fenômeno Ricky Rubio, que o Denis explicou tão bem em um post recente, o Wolves se tornou um time obrigatório de se assistir mesmo que não ganhe bulhufas, e o Kevin Love está feliz por lá: dando espaço aos trocadilhos panacas, Love agora ama sua equipe e vai ficar justamente por isso, por amor. Poderia ir para outra equipe melhor, mas está satisfeito lá, num mercado pequeno e sem chances de título, ao menos por enquanto.

Os mercados pequenos precisam ser bem gerenciados, precisam criar estruturas funcionais e que respeitem seus jogadores. Com o Wolves tem funcionado, e até o Clippers agora é um time respeitado. Kevin Love continuará na sua equipe, enchendo as orelhas de grana, e o Wolves pode voltar aos playoffs em breve com um elenco divertidíssimo de acompanhar, lembrando os tempos em que Garnett (nesse mesmo mercado pequeno) levava o Wolves às finais do Oeste. E olha que ele nem tinha Ricky Rubio. Os mercados grandes possuem vantagens naturais, é claro, mas as outras equipes estão dando um jeito e o Wolves deu, hoje, seu maior passo rumo aos grandes.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Aceitando feder

Al Jefferson e sua cara de alegria ao conhecer os torcedores do Jazz


Quando o Wolves resolveu finalmente trocar o Kevin Garnett, parabenizei a franquia. Não tem nada mais horrível para um time da NBA do que ser exageradamente mediano, ter um elenco grotesco, uma baita estrela que consegue segurar as pontas, brigar desesperado por uma classificação para os playoffs e perder sem chances na pós-temporada. O formato da NBA é brutal com os medianos, com os times que não estão brigando por título e nem são ruins o bastante para conseguir bons jogadores no draft. Basta uma ou duas cagadas com contratações desesperadas para sair desse limbo e uma equipe pode ficar trancada por anos a fio nesse grupo intermediário que não fede nem cheira. É preciso muito culhão para desmontar um time desses, no entanto. Uma equipe que vai aos playoffs todo ano, mesmo sem chances de fazer estragos por lá, tem dificuldades em explicar para os torcedores que o time vai feder de vez por uns tempos. Pior ainda é quando a equipe quase vai para os playoffs mas não consegue por uma ou duas posições, e fica aquela impressão de que só falta um jogador para que eles cheguem lá. Mas se chegarem finalmente aos playoffs, vão conseguir ganhar por lá? Essas equipes ficam condenadas à uma esperança que não se transforma em nada até que alguém jogue tudo fora e resolva começar de novo.

Se o David Stern tem razão e nenhuma equipe da NBA conseguiu ter lucro nos últimos tempos, não faz sentido manter uma equipe que não vencerá títulos, te dá prejuízo e não tem esperanças de melhora. A melhor saída é feder bastante para conseguir boas escolhas de draft, encerrar todos os contratos longos e imbecis que foram assinados, esperar a pirralhada amadurecer, e então assinar grandes estrelas para formar um elenco decente. Trocentas equipes da NBA seguiram esse plano especialmente esse ano, com vários times liberando muito espaço salarial para assinar grandes estrelas em elencos formados por novatos e outros jogadores baratinhos, como o Heat ou o Knicks. Algumas outras franquias apostam nos novatos para formar um elenco jovem e forte, até que possam contratar alguma estrela consagrada para levar o time ao campeonato, como é o caso do Bulls e do Nets, por exemplo. Outras apostam inteiramente no draft e em trocas por jogadores inexperientes e montam um time do nada, como o Blazers e o Thunder, fazendo contratações maiores e trocas por jogadores caros apenas para dar uma arrumadinha no elenco bem depois. Imaginei que o Wolves, ao trocar o Garnett, conseguiria um núcleo bastante jovem com uma futura estrela em Al Jefferson, e que a reconstrução duraria pouco tempo. Era só esperar a pirralhada pegar o jeito e depois conseguir um ou outro jogador para fechar algumas posições. Mas não funcionou.

Por um lado, promessas como Corey Brewer demoraram demais para se firmarem na NBA. Por outro, Al Jefferson tornou-se uma estrela rápido demais, num elenco incapaz de acompanhá-lo. Como todo time apostando em novatos, algumas escolhas não deram muito certo, alguns jogadores não souberam jogar juntos. Foi então que o engravatado David Kahn apareceu para pisar no freio e fazer todo mundo entender que reconstruções não podem ser feitas às pressas. Basta ver o Pistons: ao demolir acertadamente um time em declínio que não ganharia mais nada, assinou correndo dois jogadores disponíveis na hora para não ficar com um elenco furado e deu no que deu, o time fede, não tem flexibilidade para assinar outros jogadores porque torrou tudo em dois meia-bocas, e está fadado a ficar entre os medianos por muito, muito tempo. Falha épica, já diriam os gringos. É melhor assumir a bosta, no famoso "pisou na merda abre os dedos", e deixar o time fedendo com calma do que correr e assinar qualquer um.

O projeto de reconstrução do Wolves começou do zero. Primeiro um técnico novo, o Kurt Rambis, para usar o sistema de triângulos do Lakers. Depois, escolhas de draft com o sistema em vista. O problema é que vai levar anos para os pirralhos entenderem o sistema, criarem consistência, amadurecerem ao lado do técnico - que também é meio iniciante. A suposta estrela do time, Ricky Rubio, só deve vir na próxima temporada porque preferiu ficar na Europa do que jogar num time lixo. O processo é lento, o Wolves tem que ir com calma testando todos os jogadores, dando minutos para os novatos apanharem e aprenderem, aguardar o Rubio, consolidar o sistema de jogo. Mas enquanto isso lá está o Al Jefferson, estrela consolidada, querendo vencer agora, querendo um time de verdade. Foi trocado mais rápido do que o SBT cancela seus telejornais.

Pelas escolhas duvidosas no draft, em que pega vários jogadores de uma mesma posição, David Kahn está ganhando fama de ser uma anta, quase um Isiah Thomas que pelo menos sabe contar usando os dedos. A troca do Al Jefferson não ajudou muito sua causa. Mas a lógica está bem clara: ele não tem pressa nenhuma. Se o time vai perder, feder, ser uma droga, tudo enquanto espera a pirralhada ganhar uns pelos no saco, por que ficar pagando o contrato monstruoso do Al Jefferson? Quando o Wolves se tornar um time decente, o Al Jefferson já teria dado o fora por conta própria mesmo. O melhor a se fazer é economizar umas verdinhas até lá.

O plano lembra um pouco o Grizzlies, que ia para os playoffs todos os anos mas nunca ganhou uma partida sequer de pós-temporada. Ao trocar o Pau Gasol por escolhas futuras e feder pra burro, criou um time muito jovem, cheio de novatos, levou uns anos para que começassem a render juntos, e aí contratou um ou outro veterano para ajudar. Sem estourar o teto salarial, economizando uma grana, o Grizzlies tem grandes chances de ir para os playoffs na próxima temporada apesar de todo mundo ter chamado a troca de burrada. Ter mantido o Gasol seria cagada, o salário era grande demais e ele queria vencer imediatamente enquanto o time precisava feder um pouco durante uns anos para se reconstruir. E não dá pra feder muito se você tem o Gasol, claro.

Como sabemos, a troca do Gasol para o Lakers desequilibrou a liga. A troca do Al Jefferson, que vai permitir que o Wolves feda de verdade enquanto espera seus pirralhos virarem estrelas, não deve desequilibrar tanto. Mas com certeza tornou o Jazz um time muito melhor que vai fazer mais estrago do que nunca nos playoffs. Ou seja, podem esperar uma legião de torcedores do Jazz fazendo muito barulho por aqui, torrando nosso saco e eventualmente descobrindo onde eu moro e queimando minha família na fogueira, amém.

Eu adoro o Carlos Boozer, acho seu arremesso espetacular e ele funciona perfeitamente bem com Deron Williams. Mas como maluco que sou por perder vários dias da minha vida acompanhando os jogos do Wolves, posso afirmar que o Al Jefferson vai ser ainda mais útil para o Jazz. O cara é um monstro embaixo da cesta, justamente onde o Boozer era menos efetivo. Seu arremesso é consistente, vai funcionar perfeitamente bem nas jogadas com o Deron Williams, mas seu trabalho de pernas e pés muito rápidos vai simplesmente dominar o garrafão ofensivo. Ele é um monstro refinadíssimo, do tipo que bebe sangue mas arrota em francês, e vai pontuar horrores com muitos movimentos diferentes no esquema tático rígido e cadenciado do Jazz. Quando o Wolves corria demais, o Al Jefferson ainda rendia bem, mas é de costas para a cesta num jogo lento que ele mostra que pode vencer jogos sozinho. Na defesa também é muito inteligente, tem bom tempo de bola, distribui seus tocos e não compromete muito - algo que já é um avanço frente ao Boozer, que é um dos piores defensores da NBA, disparado.

É cedo demais para chamar o Kahn de burro. Ao menos ele tem os bagos de deixar o time fedendo sem ficar pagando salários absurdos desnecessariamente. Vai se focar na pirralhada, ir com calma, esperar o Rubio e não vai deixar ninguém descontente por lá. Veteranos que querem vencer só devem chegar muito depois, quando o elenco já estiver maduro o bastante. E o Jazz aproveitou essa barbada para conseguir um assalto a mão armada nos moldes do Gasol-para-o-Lakers, capaz de fazer muito estrago se o resto do time jogar bem. Levante a mão quem é o doido que viu o Al Jefferson jogar nas temporadas passadas. Se você não levantou, pode ter certeza de que ele é um dos melhores jogadores de garrafão da NBA, muito mais versátil do que o Boozer, muito mais físico embaixo da cesta, e vai chutar muitos traseiros. Se você levantou a mão, então já sabe o tamanho da encrenca que o Jazz vai causar na liga. Os mórmons foram abençoados, vai ver rezar dá resultado.

No Wolves, o garrafão agora tem Kevin Love e Darko Milicic - por mais bizarro que seja, é um dos garrafões que mais valerá a pena acompanhar na temporada que vem. O Love é um dos jogadores mais inteligentes da NBA, faz cruzadinhas no nível "Putaquemepariu", passa a bola como poucos armadores e é famoso por dar assistências de um lado da quadra para o outro, é espetacular. Arremessa também de todos os cantos, inclusive da linha de três (e até da quadra de defesa).



Além disso, sempre toma a decisão certa, é até chato. Vai ser uma estrela na liga, sem dúvidas, e tendo muito mais minutos em quadra sem Al Jefferson, nos dará mais chances de vê-lo atuando. Seu parceiro de garrafão será o Darko, também conhecido como "um dos maiores fracassos da história do draft". Desde que foi escolhido com a segunda escolha do melhor draft de todos os tempos, passou de um time para o outro sem nunca render grandes coisas. Mas isso depende do que se espera dele, claro. Todo time que contrata o Darko espera um jogador que domine o garrafão e mostre o potencial que justificou sua segunda escolha no draft, mas o que todo time encontra é um jogador de apenas 25 anos, excelente defensor, com problemas para manter a calma dentro de quadra. A maior dificuldade do Darko sempre foi sua cabeça, ele precisava ouvir o pagodinho "deixa acontecer naturalmente", porque desde que entrou na NBA - novo demais para conseguir sequer cortar as próprias unhas - queria mostrar que merecia ter sido escolhido tão cedo no draft no lugar do Carmelo Anthony. Dê a bola para Darko e ele vai tentar fazer milagre, errar uma bola, ficar puto da vida, forçar uma outra bola para compensar, errar de novo porque está nervoso e forçando o jogo, se desesperar porque esperam mais dele, forçar de novo, e assim por diante. Ele fica tão puto consigo mesmo que chegou até a rasgar a própria camiseta:



Também deu aquela clássica entrevista jogando pela sua seleção nacional, em que afirma que vai foder as mães dos três juízes que "lhe roubaram o jogo" (e foder a filha deles se tiverem também). Mesmo tão descontrolado, nas poucas vezes em que ganhou minutos e conseguiu manter a calma em quadra mostrou seu talento defensivo e seu jogo refinado perto da cesta. Se tivesse sido escolhido na segunda rodada, teria jogado a vida toda, nunca teria sido trocado e seria tido com uma baita sorte do time que o pegou. Para ele, assim como para Kwame Brown, a merda é o medo da expectativa dos outros. O David Kahn disse recentemente que convenceu Darko a ficar na NBA ao invés de voltar para a Europa, como pretendia, dando-lhe estabilidade, segurança, um papel limitado em quadra (puramente defensivo) e muita confiança. Deu uma longa entrevista apenas falando sobre o que ele vê no Darko que os outros não percebem. É difícil imaginar que aquele jogador afoito e nervoso pra burro renderá no Wolves com carinho e paciência, mas é nisso que o Kahn aposta e é mais um motivo para acompanharmos esse garrafão. Love e sua genialidade nos passes, Darko e sua cabeça-de-bagre tentando não arrancar sua própria cabeça. Não vai ser tão legal quanto o Al Jefferson destruindo com o Deron Williams, mas é um dos poucos motivos para acompanhar a pirralhada do Wolves na temporada que vem. E se der certo, pelo menos vão parar de xingar tanto o Kahn. Ele, ainda, não merece.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Começou!



Belo movimento, JJ, aqui estão 120 milhões de dólares


Lembra quando anos e anos atrás a gente falava "Quando o LeBron for um Free Agent..." ou nos últimos meses quando toda troca tinha como objetivo "abrir espaço salarial para assinar grandes nomes em 2010"? Pois é, depois de tanto falar no futuro, virou presente.

Hoje, dia 1º de julho de 2010, começa a temporada de Free Agents mais esperada da história da NBA. Sem brincadeiras ou exageros, nunca se falou tanto sobre um período de contratações como esse. Não à toa, claro. Entre Free Agents restritos (aqueles que depois de receber uma proposta, podem ter ela igualada pelo seu antigo time) e irrestritos (os que são praieiros, guerreiros, solteiros e podem curtir com quem quiser), são MUITOS (em Caps Lock mesmo) os jogadores que podem mudar a cara das franquias com grana sobrando. Querem nomes?

Raymond Felton, Carlos Boozer, Amar'e Stoudemire, Ray Allen, Paul Pierce, Dirk Nowitzki, LeBron James, Chris Bosh, Dwyane Wade, John Salmons, Derek Fisher, Brandan Haywood, Richard Jefferson, David Lee, Tyrus Thomas, Chris Duhon Luke Ridnour, Matt Barnes, Randy Foye, Ryan Gomes, JJ Reddick, Brad Miller e, ufa, a estrela da classe de 2010 de Free Agents: Brian Scalabrine.

Vamos tomar muito cuidado nessa cobertura para não perder nosso tempo e sua paciência comentando boatos. A todo momento surgem pessoas lá na gringolândia que tem certeza absoluta que o LeBron vai para Chicago. Um minuto depois com certeza que ele vai para o Heat junto com Wade e Bosh. Comentar tudo isso seria muita idiotice. Embora eventualmente a gente possa brincar de "já pensou se...", o nosso foco vai ser comentar e analisar o que já temos de concreto.

E embora faça menos de um dia que o período de Free Agency começou, já temos coisas para comentar!

A primeira notícia, na verdade, aconteceu no primeiro minuto do dia, quando os times tinham autorização oficial da NBA para começar as negociações. Sem perder tempo o Atlanta Hawks quebrou todos os seus porquinhos, juntou as moedas, se prostituiu e ofereceu um contrato máximo para o Joe Johnson continuar na equipe. São 120 milhões de dólares por 6 anos de contrato. Alguns sites dizem que o contrato é um pouco menor e de 5 anos, mas, de qualquer forma, grana pra cacete em um contrato para além do fim do mundo.

O Joe Johnson ainda não respondeu à proposta e nada indica que ele tenha pressa em fazer isso, já que outros times (Knicks, Celtics, Nets, Clippers, Mavs) estão interessados no jogador. O legal do Hawks oferecer esse contrato monstruoso para o Joe Johnson é que agora é nossa hora de julgar os valores do atleta, e me sinto muito poderoso e superior nessa situação!

Na última temporada o Hawks manteve o bom time que foi à 2ª rodada dos playoffs em 2009, apenas adicionando o melhor reserva da temporada, Jamal Crawford. Assim a temporada regular do time melhorou, mas nos playoffs aconteceu a mesma coisa: varrida na 2ª rodada. E foi a varrida mais feia da história dos playoffs, a com maior média de diferença de pontos do vencedor sobre o perdedor, uma surra. Nessa série decisiva o Joe Johnson foi anulado por Matt Barnes e Mickael Pietrus e acabou com média ridícula de 12 pontos por jogo.

Ou seja, se o Hawks continuar com o Joe Johnson por essa grana toda, provavelmente (para não dizer com certeza absoluta) o time vai ser exatamente o mesmo do ano passado. Mesmo com o Celtics ainda mais velho e talvez sem Ray Allen e o Cavs possivelmente sem LeBron, alguém arrisca dizer que com o mesmo elenco o Hawks vai mais longe? Esse time tem alguma chance de título de conferência? Eu adoro esse time do Hawks e vários de seus jogadores, mas não apostaria 10 centavos nisso. Para JJ, aceitar esse contrato pode ser um sinal de amor e lealdade ao time de Atlanta, mas também um certo conformismo em aceitar ser rico, reconhecido e nunca ter chance de ir longe na pós-temporada. E já disse rico?

Se ele negar, no entanto, vai mostrar aquela sede de vencer que todo veterano cansado de ver os amiguinhos ganharem anéis sentem. Depois de anos sendo o líder do Hawks, o mais perto que JJ já chegou de uma final foi quando era coadjuvante do Suns em 2005. Deve bater uma saudade de jogar ao lado de Nash, Amar'e e jogar partidas emocionantes de final de conferência. Em entrevistas no último mês o próprio jogador até disse não se incomodar em deixar de ser a estrela de um time desde que essa equipe seja boa e vitoriosa.

Para o Hawks eu acho que eles não tinham muita saída. Pelo Joe Johnson ser um jogador deles, têm o direito de oferecer um novo salário gigante como esse mesmo com o time acima do teto salarial, mas caso eles não consigam, o time continua acima do limite e sem espaço para assinar qualquer outro jogador. A situação era bem simples, ou ofereciam um contrato gordo e sedutor para o JJ, ou ficavam sem nada e ninguém, não tem plano B. Entre ser um time mediano no Leste ou despencar e voltar a ser o saco de pancadas que era antes do Johnson chegar, preferiram a primeira opção.

Daqui alguns anos é bem capaz que eles se arrependam, que dê vontade de reconstruir tudo e trocar o salário monstro do JJ, mas é muito mais lucrativo ter um bom time que vai para os playoffs, mesmo que perca por lá, do que ter um saco de pancadas. Isso é comum na NBA, já vimos vários times oferecerem contratos gigantes para jogadores que todo mundo sabia que não merecia só pelo medo de ficar de mãos abanando. A conta bancária do Michael Redd tá aí pra provar isso.

Outro time que já entrou em ação no primeiro dia de contratações foi o Timberwolves. O General Manager David Kahn honrou mais uma vez a sua marca registrada de conseguir vários jogadores da mesma posição no mesmo dia. No ano passado foi aquela enxurrada de armadores no draft, nas escolhas desse ano foram alas e na Free Agency já são 2 pivôs em pouco mais de 12 horas. Parabéns, Kahn!

O primeiro é Nikola Pekovic, escolhido pelo Wolves no draft de 2008 e que estava jogando (muito bem) no Panathinaikos da Grécia. Acho muito difícil prever como esses pivôs europeus vão render na NBA (é uma velocidade de jogo diferente, garrafão diferente, adversários diferentes, arbitragem, etc, etc.) mas hoje acordei otimista. Acho que foi uma contratação boa e barata para um time que estava atrás de pivôs para liberar o Al Jefferson para sua posição natural de ala de força.

O outro pivô já estava no time e havia sido motivo de muitos elogios do próprio Al Jefferson justamente por tê-lo deixado sair do pivô. Darko Milicic, a antológica segunda escolha do draft de 2003 e uma das maiores piadas da última década, continua na NBA. Recebeu um contrato de 20 milhões de dólares divididos em 4 anos para ficar no Wolves. Na última temporada o Darko chegou no Wolves no meio do campeonato e não fez feio. Está longe de dominar jogos e é capaz de zerar alguns jogos no ataque, mas é um defensor acima da média. Apesar de tanta gente odiá-lo pela expectativa em cima dele quando chegou na liga, tem obviamente talento o bastante para ser útil na NBA.

Com um garrafão de Pekovic, Darko, Al Jefferson e Kevin Love, o Wolves está reforçado na área pintada, fica só em aberto a questão do entrosamento e da distribuição dos minutos. Love nunca se entendeu dentro de quadra com Jefferson e parece ser bom demais para ser um mero reserva com 20 minutos por jogo. A que tudo indica, muita coisa ainda deve mudar no Wolves. Eles agendaram duas visitas com Free Agents nessa semana, Rudy Gay e David Lee. Os dois são de posições que o time já tem muitos jogadores, então a possibilidade de trocas estarem nos planos é grande. Vamos aguardar qual vai ser o próximo movimento (provavelmente uma cagada envolvendo muitos jogadores da mesma posição) de David Kahn.

Para terminar, o terceiro time que já se mexeu no primeiro dia de Free Agency foi o Milwuakee Bucks, sem dúvida o time mais ativo das últimas semanas. Já trocaram para ter Corey Maggette e Chris Douglas-Roberts na última semana, draftaram uns jogadores com bom potencial para fazer parte da rotação e hoje assinaram um contrato de 32 milhões de dólares (por 5 anos) com o Drew Gooden. E ainda há notícias (ou boatos, depende do seu nível de ceticismo) de que as negociações para uma renovação com o John Salmons estão bem encaminhadas. Nada de confirmado, no entanto.

Eu gostei da contratação. O Drew Gooden nunca foi genial na sua carreira, mas nunca comprometeu os times por onde passou, só ajudou. É contratado para acertar arremessos de média distância, pegar rebotes e eventualmente até cobre um pivô por alguns minutos. Sua carreira só não deslanchou nunca porque ele é mais trocado que o Quentin Richardson e esposas do Fábio Jr juntos. O coitado já passou por 9 times em 8 anos de NBA: Grizzlies, Magic, Cavs, Mavs, Clippers, Spurs, Wizards, Bulls e Kings.

É um jogador bom e até bem completo, falta apenas defender um pouco melhor. Mas se o técnico Scott Skiles fez o Bogut virar um dos líderes da NBA em tocos e o Ridnour defender, pode fazer outro milagre com Gooden.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Deu tudo errado

Jonny Flynn é a cara da breguice


Todo mundo fala do Clippers como time amaldiçoado e todos tem inúmeras razões para isso. Também dizem que agora o time B de Los Angeles passou parte de sua maldição para o Blazers, que sofre com uma contusão atrás da outra. Primeiro foi Oden, depois Pryzbilla, depois Outlaw, Webster, Rudy Fernandez, Brandon Roy e a última foi que o Pryzbilla precisa operar o joelho de novo porque se machucou ao tomar um tombo no chuveiro! Um tombo no chuveiro, não tem como fazer piada com isso porque o fato já é mais engraçado e patético que qualquer coisa que eu possa falar, a realidade sempre supera o humorista. Vale pelo menos lembrar um velho post com as contusões mais bizarras da NBA.

Ninguém na liga chega perto de Clippers e Blazers na hora do azar, isso é claro, mas se hoje existe um time que luta pelo terceiro lugar é o Timberwolves. Eles também entram no clube dos times que tem talento, que parecem fazer a coisa certa, mas que depois, por qualquer razão, essas decisões parecem as mais erradas possíveis.

Vamos resgatar o Wolves ao fim da temporada passada. Mais uma temporada ridícula, mas que serviu para consolidar Al Jefferson como um dos melhores pivôs da NBA (ano passado houve quem defendesse que o pivô só não foi para o All-Star Game pelas poucas vitórias do Wolves, mais ou menos o que houve com Brook Lopez nesse ano). Depois de vir como uma mera aposta na troca de Kevin Garnett, um cara que ninguém sabia se conseguiria render como pivô ou só como ala de força, Jefferson provou não só que era bom mas que conseguia ser bom toda noite. O time fedia e perdia, mas sempre com uma boa atuação do pivô. No caminho ele até desenvolveu um dos melhores "fakes" de um pivô na NBA. O fake não é aquele perfil ridículo que você tem no Orkut, é quando o jogador finge que vai arremessar mas não arremessa, um bom exemplo está nesse vídeo, onde ele engana o Yao Ming umas três vezes.

Sem contar que o cara tem um grande coração, vocês já viram quando ele beijou o Tim Thomas na boca depois que o Thomas, seu adversário, acertou uma bola de 3? Al Jefferson, o último romântico.



Além da ascenção e consolidação de Jefferson, a temporada passada serviu para todo mundo perceber que Kevin Love seria um dos poucos americanos brancos a vingar na liga. No começo pareceu uma decisão estranha ter trocado OJ Mayo por ele no dia do draft, mas alguns meses depois e Kevin Love já estava sendo a máquina de rebotes que é até hoje. Ao lado de outro branquelo, o David Lee, é um dos jogadores que você já conta com um double-double antes do cara pisar na quadra.

Essa temporada era para simbolizar uma nova franquia. Eles tinha uma dupla de garrafão bem sólida com Jefferson e Love para construir um time em volta, tinham escolhas boas de draft e ainda trocaram de General Manager, mandando embora Kevin McHale e contratando David Kahn, e um novo técnico, Kurt Rambis. Jogadores bons, jovens, garrafão forte e novo técnico era tudo para apostar no Wolves para ser o que Thunder e Grizzlies estão sendo.

Eu não conhecia o Kahn, mas gostei dele por ele ser o manager mais aberto que já apareceu na NBA. Lembro que não economizou entrevistas quando chegou, no dia do draft, e ainda mandou uma carta aos fãs do time (aquela meia dúzia de viúvas do Garnett) explicando todas as suas ações. E, para nossa surpresa, elas até que faziam sentido.

Uma dessas decisões era a contratação do Kurt Rambis, o cara mais brega da história da NBA. Ele tinha sido assistente técnico do Phil Jackson por anos e era muito cotado para ser o herdeiro do Zen Master no Lakers quando ele se aposentasse, mas preferiu assumir o risco de pegar um time que estava começando do zero. A escolha de Rambis, pelo o que Kahn disse (alguém consegue ler esse nome sem lembrar do Gengis Khan ou do Shao Khan?), foi porque se interessava em implantar o sistema de triângulos que o Rambis ajudava a aplicar no Lakers. Porém, ao mesmo tempo, o novo Manager disse que no dia do draft escolheu dois armadores, Jonny Flynn e Ricky Rubio, porque queria copiar a combinação de Isiah Thomas e Joe Dumars que o Pistons do fim dos anos 80 usava.

Essa indecisão entre estilos de jogo parecia o primeiro sinal de que a temporada do Wolves poderia não dar certo, mas acabou não dando em nada porque outra coisa deu errado. Não dá pra usar os dois armadores juntos se eles nem estão no mesmo país. Ter a sorte de conseguir draftar o jogador mais esperado dos últimos anos veio seguida do azar de o pirralho espanhol decidir passar mais tempo na Espanha. O experimento Flynn-Rubio ficou adiado por pelo menos um ano, talvez dois e talvez para nunca, já que dizem que é possível que o Wolves troque os direitos do Rubio antes que ele vá para os EUA.

Kahn, Love, Jefferson, Rambis e Flynn. Tudo parecia lindo e promissor até começar a cheirar mal. Vamos por partes:

Al Jefferson: Mesmo talentoso e romântico, ele fedeu nessa temporada. Começou muito devagar e por um tempo achamos que era porque ele não fez pré-temporada, afinal estava voltando de contusão e parecia ainda fora de forma. Mas o tempo foi passando, passando e agora, a um mês do fim da temporada, ele só jogou no mesmo nível da temporada passada um punhado de vezes, uma decepção. Só não vai ganhar o prêmio Monstars de jogador que mais involuiu na temporada porque o outro Jefferson, o Richard, conseguiu ser pior. Se ano passado ele era talvez o melhor pivô do Oeste, nessa temporada ficou atrás de, no mínimo, Nenê, Kaman e Bynum.

David Kahn: Errou ao chegar no dia do draft antes de ter escolhido um técnico, depois falhou (tá bom que não foi só culpa dele, mas falhou) ao não conseguir trazer Rubio para a NBA. Depois ainda deu o azar de a sua outra escolha, Jonny Flynn, não estar nem perto de ser o melhor armador do draft. Muitos acreditavam nisso na época da escolha e até por isso não dá pra jogar toda a culpa no Kahn, mas é no mínimo um baita azar que, alguns meses depois, Flynn seja cotado para ter um futuro menos promissor que Steph Curry, Brandon Jennings, Ty Lawson e Darren Collison, todos outros armadores principais escolhidos depois de Flynn. Lawson chegou até a ser escolhido pelo Wolves e trocado por uma escolha futura.

Jonnt Flynn: Como acabei de dizer, está longe de ser o melhor armador do draft, mas nem é pelo ranking entre os novatos que ele decepciona. Mesmo sem comparar com outros e só olhando a sua atuação no Wolves, parece que ele não se achou dentro da equipe. Às vezes segura demais a bola, às vezes quer ser herói no final dos jogos e por muitas vezes lembra o lado ruim do TJ Ford por ter uma velocidade absurda e não saber usar isso para mudar o jogo. Talvez acabe sendo melhor que outros armadores de sua classe, mas é hoje, ao lado de Jrue Holiday, o armador mais cru, despreparado para a NBA, do Draft 2009.

Kevin Love: Até o que está dando certo, dá errado. Love continua jogando bem, sendo um ótimo passador, reboteiro e tudo mais, mas não conseguiu se entrosar direito com Al Jefferson e acabou sendo opção do técnico para o banco de reservas. Com isso Love divide menos tempo com Jefferson e deixa o quinteto que vem do banco um pouco mais forte. Uma solução até inteligente, mas até onde vai o Wolves se Love e Jefferson não sabem jogar juntos? Em entrevista recente Love jogou boa parte da culpa no técnico Kurt Rambis.

Kurt Rambis: Sempre sobra para o técnico. Como havíamos previsto no começo da temporada, aplicar o sistema de triângulos em um time jovem como o Wolves seria um desafio. O Señor Amor jogou a culpa no técnico porque disse que hoje, depois de mais de 60 jogos na temporada, o time ainda não sabe direito o que fazer em quadra. Não sabe como se movimentar, quando vão receber a bola, nada, um bando de gente perdida como vestibulandos em dúvida entre Direito, Artes Plásticas e Engenharia Química.

O Sistema de Triângulos é um conjunto de movimentações básicas dos jogadores, e nessa movimentação costumam existir poucas jogadas desenhadas e fechadas, em geral é um ataque que funciona reagindo às ações da defesa. Então costuma funcionar com jogadores que sabem ler a defesa, que sabem explorar bons matchups, que tem paciência e que não se desesperam esperando o momento e o lugar certo para atacar. Ao contrário disso, o Wolves é um time apressado, que pensa pouco e que tem o terceiro maior ritmo de jogo da NBA, é muita correria para poder dar certo.

Como se não bastasse o ataque ser perdido, a defesa é um lixo. Em pontos sofridos a cada 100 posses de bola o time tem a 3ª pior defesa da NBA. Para se ter uma idéia de como o Rambis não sabe mais o que fazer com esse time, no último jogo contra o Nuggets ele mandou Kevin Love marcar o Carmelo Anthony! Love olhou assustado para o treinador e respondeu "Você tem certeza?". Carmelo Anthony acabou cestinha do jogo e o Nuggets venceu.

Se haviam expectativas altas para tanta gente e tudo deu errado, é ainda mais irônico que o lado positivo dessa temporada tenha sido um jogador por quem não se dava mais nada, Corey Brewer. O ala foi espetacular naquele time da Florida bi-campeão universitário e esperava-se muito dele na NBA. Acabou passando anos sendo um cara apenas mediano e nessa temporada explodiu. Enterrou na cabeça do Derek Fisher, teve muitos jogos acima dos 20 pontos e começou a mostrar um pouco do potencial defensivo que tinha na sua carreira universitária.

Outro destaque positivo dessa temporada, embora bem menor que Brewer, é Darko Milicic. O "Human Victory Cigar" foi contratado como uma aposta final de David Kahn, ele disse que sempre achou que Darko tinha algum talento e queria dar uma última chance para ele, que já disse que deve voltar para a Europa na próxima temporada. Em poucos jogos pelo Wolves o Darko já foi titular, defendeu bem, pegou vários rebotes e tem mostrado ser bem útil. Não sei se ele vai se sentir bem o bastante para querer ficar na NBA, mas não dá pra dizer que foi uma aposta ruim, até porque eles só perderam o Brian Cardinal pra isso. O grande problema do Darko foi mesmo aquele draft onde ele foi a segunda escolha. Se ele fosse o pivô regular que é e tivesse sido escolhido na posição 40 do draft ele seria considerado hoje um ótimo reserva com potencial para ser titular em alguns times. Melhor ser reserva bom do que ser uma piada ambulante, certeza disso.

Com essa temporada do Wolves no lixo fica a pergunta para a próxima temporada. Dará certo da próxima vez? Difícil prever, tudo depende do time entender melhor seu esquema tático, defender melhor e da vinda de Rubio para os EUA. Mas o futuro não é tão negro assim, na pior das hipóteses eles tem todos esses jovens bons jogadores para trocar e começar tudo de novo, dessa vez torcendo para que a medalha de bronze da maldição da NBA já tenha mudado de mãos.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Foi namorar, perdeu o lugar

Ricky Rubio dá em si mesmo um belo de um abraço por trás


Todo mundo sabe dos apuros pelos quais passa um homem apaixonado por uma garota que não lhe dá bola. Por parte do rapaz, há sempre muito esforço, cuidado e uma certa dose de humilhação. O poder está todo nas mãos da garota, que pode fazer o que quiser com a decisão que lhe cabe. Por fim, o homem apaixonado consegue o que queria ou então toma uma porta na cara e segue a vida, como se nada tivesse acontecido.

Não tem como não nos identificarmos com os derrotados que não conseguem as menininhas e que tomam portadas no nariz (até porque eu ainda me lembro da vez em que você bateu a porta na minha cara, garota!), a gente dá aquele sorriso cheio de pena e perdoa todos os erros desses sujeitos, todas as humilhações e a perda de tempo de cada um dos que tentaram e falharam em suas consquistas amorosas.

Na lista de fracassados, podemos acrescentar agora um novo nome: David Kahn, engravatado responsável pelo Wolves. Após três viagens para a Espanha num período de dois meses tentando conquistar o coraçãozinho de Ricky Rubio, Kahn volta para casa como um dos nossos, um fracassado de coração partido e mãos abanando. Essas ninfetas são sempre as mais difíceis mesmo, deveriam ter avisado o pobre do Kahn, que foi pensando ser capaz de conquistar o ingênuo pirralho espanhol. Não deu certo.

Na época do draft, a multa da recisão de contrato do Rubio já era uma preocupação para todas as equipes. Saía por uma bagatela de 8 milhões de dólares, sendo que as equipes da NBA só podem entrar com 500 mil mangos para ajudar nesse valor. Basicamente, o que se pede é que Ricky Rubio tire 7 milhões e meio de dólares das próprias orelhas.

Foi por isso que David Kahn, todo galanteador, foi tentar provar para o menino que esse dinheiro surge fácil quando se está na NBA. O Rubio pensava em ser a primeira escolha do draft, o que aumentaria seu salário e lhe daria um marketing inacreditável. Draftado apenas na quinta escolha por um time horrível, desconhecido, enfiado em Minessota, sem visibilidade, com um salário menor, e pior de tudo, dividindo minutos com outro armador draftado logo depois dele, Jonny Flynn, ficou difícil para o Rubio acreditar que seria capaz de bancar a multa para interromper seu contrato.

Kahn é um homem apaixonado. Falou em carta aberta aos fãs, explicando que Rubio e Flynn jogariam juntos. Além disso, jurou de pé junto que o armador espanhol seria o titular absoluto da equipe desde o primeiro dia, o que é o equivalente a prometer para uma garota que ela será a titular do harém (irrecusável, vai!). Conseguiu negociar um abatimento na multa pela recisão do contrato, deixando em apenas 5 milhões. Garantiu um amistoso do Wolves contra a equipe que detém o contrato, o Joventut, com toda a renda adquirida indo para financiar a multa. Arrumou uma série de patrocinadores que bancariam o Rubio nos Estados Unidos, através de investimentos e empréstimos, permitindo ao jogador apenas um mínimo de gastos e deixando que ele mantivesse grande parte do seu salário bem gordinho de 15 milhões por 4 anos.

Cada um desses mimos, que foram como versões de Itu de bombons recheados, vieram com muito esforço e negociação. Foi um processo lento e gradual, e só em viagens para a Espanha o David Kahn poderia ter pagado umas trezentas multas contratuais. Quando o Ricky Rubio estava cercado de presentes, segurança e um amor incondicional, foi dormir e acordou no dia seguinte com certeza de que não iria pra NBA. Resolveu dar um pé na bunda do Kahn.

O Barcelona topou pagar a multa reduzida de 5 milhões pelo armador-ninfeta mais cobiçado do planeta, e o guri simplesmente resolveu ficar por lá quando tudo estava pronto para que ele fosse pra NBA. Alegou que sempre quis jogar na NBA, mas que essa mudança nesse momento complicaria demais a sua vida e blá, blá, blá. É a versão esportiva de "o problema não é você, sou eu, acabei de sair de um relacionamento e quero um tempo para mim".

O motivo pode até ter sido financeiro, já que no Barcelona o Ricky Rubio vai poder enfiar seus milhões de euros nas orelhas e comprar seu primeiro carro, casa, piscina e cartucho do Pokémon, enquanto no Wolves receberia um dinheiro mais modesto. No entanto, Rubio seria free agent em 2014, com apenas 23 anos, e estaria apto a assinar um contrato biliardário. Seu primeiro contrato na NBA sempre terá o mesmo valor mais-ou-menos, não importa quanto ele espere, e correr agora para o Wolves apenas encurta sua espera por se tornar realmente endinheirado.

A única explicação que realmente faz sentido para o jovem Rubio ficar na Espanha é medo. Talvez ele ache que não está pronto para a NBA nesse momento, que não tem físico ou maturidade, e que sua imagem ficará arrasada se ele feder no Wolves. Provavelmente ele teme ter uma temporada mais-ou-menos num time que ninguém acompanha, não conseguir assinar um novo contrato bom o bastante e não cair nas graças da mídia. Tudo a maior burrice: o Wolves lhe garantiu a melhor escola que um jogador de basquete pode querer.

O time vai jogar um basquete de pura correria, o que mostraria os talentos do Rubio em seu explendor. Ele seria titular desde o começo, comandado por um técnico que tem ordem para deixar a pirralhada em quadra aprendendo, mesmo que isso custe a eles algumas derrotas a mais. O time tem pouca visibilidade e, portanto, Rubio teria que lidar com pouca pressão - seus acertos apareceriam no Top 10 da NBA.com, mas seus erros estariam meio camuflados. E tudo isso durante quatro anos, tempo o bastante para ele se tornar um jogador melhor e, aí sim, encontrar um time que lhe dê toda a visibilidade que ele quer (Knicks, alguém?).

Dá pra imaginar situação mais perfeita para um pirralho-sensação? Mas não, Rubio preferiu não mudar de ares, ficar num basquete mais fraco, não trabalhar seu físico, não ter minutos garantidos. Pior que isso: Rubio deixou Kahn de coração partido e o engravatado, com a elegância digna dos grandes fracassados, partiu para outra e ameaçou sua ex-paixão com o típico desdém dos rejeitados. Ou seja, Kahn avisou que Jonny Flynn será o titular absoluto e que, quando Rubio decidir ir para a NBA, Flynn já terá a vaga e estará muito adiantado em questão de aprendizado.

O armador espanhol ficará ao menos 2 anos no Barcelona, quando então a multa de recisão cai um pouco e fica mais pagável. Mas pode acabar ficando lá por 3 anos, se quiser, enquanto o Flynn vai certamente consagrar-se como um dos grandes armadores da NBA. Já chutou traseiros nas Ligas de Verão, de que o Rubio já não participou, e só tem a crescer no Wolves, que é a melhor escola de pirralhos atualmente da NBA: conjunto de incentivo, tempo de quadra, e pressão zero.

Mas Kahn não parou por aí em sua esnobada: no maior estilo "você não me quer, mas olha quem tá ligadão na minha!', o Wolves acabou de assinar Ramon Sessions com um contrato de 16 milhões por 4 anos. Sessions saiu de "quem diabos é esse maluco" para tornar-se um dos armadores com mais potencial na NBA, capaz de reger qualquer time, correr como um maluco, e colocar a bola nas mãos de quem precisa. Desde que ele não tenha que arremessar, tudo sempre ficará bem e é uma delícia ver o garoto jogar. Pois bem, depois de ser disputado por Knicks, Heat e outras equipes, tem tudo para ir diretamente para o Wolves. O Bucks ainda pode cobrir a proposta para ficar com o armador, mas levando em conta o fato de que eles draftaram Brandon Jennings (mais um armador-ninfeta-sensação) e já têm no elenco Luke Ridnour e o surpreendentemente bom Roko Ukic, não vejo muito motivo para que eles o façam.

Ramon Sessions tem tudo para brilhar em Minessota. Quando lhe deram minutos e a bola nas mãos no Bucks, fez jogadas incríveis e colecionou alguns recordes de assistências. Com tempo de quadra e carta branca, Sessions e Flynn formarão uma dupla que atormentará a NBA. Se Kahn mantiver seu critério, os dois devem inclusive jogar juntos em quadra, ao mesmo tempo, durante boa parte das partidas. Será maravilhoso de ver e um motivo para, desde já, arrumar um modo de acompanhar alguns jogos do Wolves (alguém aí vu o Wolves jogar desde os tempos do Kevin Garnett?).

Quando o Ricky Rubio chegar na NBA, em dois ou três anos, encontrará um time jovem com dois excelentes armadores, padrão de jogo, time entrosado, e um Kahn puto da vida e ressentido que simplesmente continuou a vida, ao invés de chorar pelos cantos. É isso aí, Kahn, mostra pra essas ninfetas metidas à besta do que você é capaz. Esse namorinho do Rubio com o Barcelona pode sair caro demais para sua carreira. Talvez sua grande chance tenha sido jogada fora e não haja mais espaço quando ele quiser entrar na brincadeira. Torço pelo garoto, de verdade, mas vejo suas chances de dar certo na NBA seriamente comprometidas. O Kahn fez o que deu, e com a consciência limpa pode um dia cantar o sucesso da Kelly Key, "isso é para você aprender a nunca mais me esnobar, baba baby, baby baba", ou algo assim. Filosofia pura, a Kelly Chave manja das coisas.