Mostrando postagens com marcador Nene. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Nene. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

As opções de Nenê

Pré-temporada também é época de fotos bregas! YES!

Uma das declarações mais legais dadas durante o locaute foi uma do Nenê ao Denver Post. Enquanto muitos jogadores pareciam apavorados com a ideia de perder salários da próxima temporada ou que cortes no BRI poderiam significar grandes perdas econômicas, Nenê deixou claro que bufunfa não era problema. "Não tem a ver com dinheiro. Eu guardei o meu todos esses anos, poderia me aposentar hoje se fosse preciso". Claro que não é por isso que eles iriam entregar tudo de bandeja para os donos, mas não fez como Kenny Anderson no locaute de 1999 dizendo que teria que vender sua Mercedes para pagar as contas.

O assunto de Nenê naquela conversa era sua opção por se tornar um Free Agent. Enquanto muitos jogadores quiseram garantir contratos antes da paralisação, com medo que as novas regras pudessem limitar o dinheiro, Nenê optou por sair do seu último ano de contrato e testar o mercado como um Free Agent irrestrito, podendo ir para onde bem entendesse: "É uma grande oportunidade, a única na minha vida de ser um dos melhores Free Agents". 

Nenê tem toda a razão do mundo. Ele já fez sua história no Nuggets, foi parte de bons times e chegou até a disputar uma final de conferência com eles. Mas o momento da franquia mudou. Carmelo Anthony foi trocado e boa parte das peças que formaram um dos times mais divertidos da última temporada já saíram, como Wilson Chandler, JR Smith e Kenyon Martin. Todos os três acertaram contratos na China sem cláusula de volta ao fim do locaute. A troca ainda valeu a pena, acho, já que eles tem o contrato expirante do Andre Miller (conseguido na troca do Raymond Felton, esse sim vindo do Knicks na troca do Melo), várias escolhas de Draft e, claro e mais importante, Danilo Gallinari. Não teriam nada disso se só tivessem deixado o Melo ir embora por nada como Free Agent. Mas mesmo assim o time claramente não tem potencial para ir muito longe no futuro próximo.

Será que valeria a pena para o Nenê continuar por lá? O salário que dizem que vão oferecer para ele é enorme, mas sendo que dinheiro não é problema, vale ficar aguentando derrota atrás de derrota só em nome de um suposto amor à franquia ou à cidade? Acho exagero. Melhor coisa que ele faz é agradecer a preferência, desejar boa sorte e examinar as opções. Segundo o Yahoo!Sports e seu repórter Adrian Wojnarowksi, um dos que melhor cobriu o locaute, nada menos do que sete times já demonstraram interesse claro em ter o pivô brasileiro. Analisaremos aqui os prós e contras de ir para cada um deles.

....
Denver Nuggets - É, um dos sete times é o próprio Denver. Mas deles acho que acabei de falar, né? Financeiramente pode ser o melhor de todos. Com a história dos Bird Rights, o Denver pode oferecer uma fortuna por ele, mesmo que não coubesse no salary cap. Daria para ganhar uma bolada. Mas pararia por aí, Nenê seria um zilionário em um time perdedor e teria que ficar torcendo para que nos próximos anos eles conseguissem um ou outro jogador de destaque para pensar em voltar para os playoffs. A essa altura da carreira não parece algo excitante.


New Jersey Nets - A primeira coisa que vem à cabeça é que Nenê poderia se consagrar recebendo passes do Deron Williams e fazer bons estragos ao lado de Brook Lopez como um dos melhores garrafões ofensivos do Leste. Mas por quanto tempo?

O Deron Williams só tem mais um ano de contrato e já deu a entender que não está totalmente convencido a assinar uma extensão com o Nets. Talvez o Nenê tenha um ano ótimo e depois acabe com um contrato longo e preso a jogadores como o asqueroso Travis Outlaw. E tem outra coisa, o Nets mesmo com Deron Williams, Nenê e Lopez não é time para se candidatar ao título logo de cara. Quando Nenê naquela entrevista ao Denver Post diz que "eu quero conquistar algo" ele está falando de títulos ou basta estar em um time competitivo? Imagino que queira ser campeão. Talvez muitas interrogações para ser uma primeira opção, o Nets provavelmente terá que oferecer mais para convencer o brasileiro.



Golden State Warriors - Ir para o Warriors seria uma aposta do próprio Nenê, uma maneira de testar o seu talento e o quanto ele pode influenciar uma franquia. Ele chegaria a um elenco certamente talentoso, versátil, mas que sente falta de presença de garrafão e defesa. O Nenê é um dos poucos pivôs que poderia entrar no Warriors e não obrigar o time a diminuir muito sua velocidade, o brazuca é ágil, não precisa necessariamente ficar embaixo da cesta o tempo todo, pode sair para bloqueios e até corre no contra-ataque.

Mas será que ele é esse líder defensivo de que eles precisam? O Nuggets nunca teve uma defesa ótima, o melhor ano foi quando chegaram na final do Oeste contra o Lakers e tinham a 8ª melhor da liga. E mesmo assim o crédito por essa melhora está bem mais com Chauncey Billups, Chris Andersen e principalmente Kenyon Martin do que com Nenê. A principal formação de garrafão defensiva usada pelo técnico George Karl, aliás, tinha sempre o Birdman ao lado de K-Mart, com o brazuca no banco. Não é que ele seja um mané na defesa, mas está longe de ser um cara que chega em um time e muda tudo por lá, como fizeram Kevin Garnett em Boston ou Tyson Chandler em Dallas.

Ir para o Warriors também teria esse risco de morrer em um time médio. Claro que terá o desafio de ser importante para a franquia e elevar ela de patamar, mas mesmo que ele jogue muito bem não parece que o time tem elenco profundo o bastante para disputar campeonatos. Aqui, mais uma vez, temos que ver o quanto o Nenê é obcecado por títulos ou se só quer um time bom.


Houston Rockets - Imagino que por mais sucesso inesperado que se faça, uma hora deve cansar ver o Chuck Hayes como o seu pivô titular. E é um bocado animador imaginar a versatilidade de um garrafão com Nenê e Luís Scola, dá pra imaginar perfeitamente porque o Rockets é um dos times dispostos a abrir os cofres e encher a conta do Senhor Hilário de dólares.

O elenco do Rockets é intrigante: Tem o ótimo Kyle Lowry na armação, que brilhou na temporada passada. Tem um dos melhores pontuadores da NBA no Kevin Martin, o já citado Luis Scola e outros ótimos role players como Courtney Lee, Goran Dragic e Chase Budinger. Todos esses comandados pelo ótimo técnico Rick Adelman. Por que diabos eles não foram melhores? Difícil de entender. Mas vai melhorar agora que tem o Kevin McHale como treinador, que foi bem mal nos seus anos de Wolves? Isso pode afugentar o Nenê.

Por outro lado, desde a troca do Tracy McGrady, o Rockets tem se estabelecido como um time que gosta de jogar em equipe e sem estrelismos. Ter Kevin Martin e Luis Scola como suas 'estrelas' mostra bem o espírito dessa filosofia. O Nenê já afirmou se identificar com esse estilo de time e foi um dos muitos que pareceu aliviado quando o Carmelo Anthony finalmente deixou o Nuggets na última temporada.


Indiana Pacers - Nos últimos anos o Pacers se contentou em remontar o seu time em velocidade de Yao Ming correndo embaixo d'água. Foram deixando pouco a pouco alguns contratos acabarem, foram trabalhando jovens jogadores e o máximo de risco que correram foi a troca pelo armador Darren Collison. Agora, com o time que foi bem na temporada passada (acabaram o Leste em 8º e deram um cansaço no Bulls nos playoffs), parece que é hora de tentar uma arrancada.

Mas não é bem assim. O Larry Bird, presidente de operações de basquete do Pacers, já disse que a hora é de ter mais paciência. Não devemos esperar movimentos arriscados deles, mas uma proposta formal e razoável pelo Nenê eles devem fazer. O que atrairia o pivô a Indianápolis seria o fato de jogar no Leste, que apesar da recente adição de Amar'e Stoudemire e Carlos Boozer ainda não é uma conferência conhecida por ter muitos times de garrafão forte, e também a chance de voltar a jogar na posição 4, de ala de força.

Sim, porque uma das principais apostas do Pacers é o jovem e bom pivô Roy Hibbert. Ele é irregular, alternou momentos espetaculares e patéticos na mesma temporada, mas em geral é bom e deve ter futuro. Assim como Collison é bom armador e Danny Granger e Paul George são bons nas posições 2 e 3. Sobra esse buraco na posição de ala de força que nunca foi muito bem completado seja por Tyler Hansbrough ou nos experimentos com Mike Dunleavy Jr. Nenê poderia voltar à sua velha posição no time titular, jogar alguns minutos como pivô e certamente elevaria o nível do time.

O problema é que o Leste não tem pivôs, mas tem super-times. Bem entrosados, com Nenê e sem nenhuma contusão, o Pacers poderia se candidatar a crescer na conferência. Poderia ultrapassar o Orlando Magic, o New York Knicks (caso eles não consigam o Chris Paul como desejam) e até o sólido Atlanta Hawks. Mas como encarar Miami Heat, Chicago Bulls e até o velho Boston Celtics? Nenê poderia acabar ficando em um time de eterno-quase como foi em todos esses anos de Denver Nuggets onde sempre morria no começo dos playoffs.


Portland Trail Blazers - Portland fica longe de tudo, só chove e todo pivô que tenta jogar lá é amaldiçoado e se machuca todo. Marcus Camby, Joel Pryzbilla e Greg Oden devem concordar comigo. Para que ir para lá, não é mesmo? Até o Brandon Roy que não é pivô está todo bichado, a maldição só cresce!

Por outro lado, o Oeste é uma conferência de potências velhas. Dos quatro principais candidatos ao título desse lado da liga, três são de elencos envelhecidos: Lakers, Spurs e Mavs. Quem se destaca nisso é o Thunder, o único time jovem da briga, com o Grizzlies até correndo por fora depois de bons playoffs no ano passado. O que quero dizer com isso é que em pouco tempo o Oeste estará aberto a times mais jovens tomarem esse posto de destaque, e o Blazers tem potencial para brigar por isso. Mesmo com Roy e Oden machucados, o time conseguiu se montar ao redor de LaMarcus Aldridge e tem um elenco talentosíssimo com Nicolas Batum (que jogou demais no Eurobasket e na Euroliga), Gerald Wallace, Raymond Felton e Wesley Matthews. É muita gente boa no mesmo time.

Talvez o Blazers não tenha resultado de tanto destaque logo na primeira temporada, talvez o Nenê tenha medo de maldições e não goste do tempo ruim da cidade. Mas vai ser difícil encontrar time com tanto talento e que possa oferecer bastante dinheiro ao mesmo tempo. Lembrando que provavelmente o Blazers só poderá dar um contrato gordo ao Nenê se usar a nova regra de anistia (explicada nesse post sob o nome de "Allan Houston Rule") no Brandon Roy. Será?


Los Angeles Clippers - Se a maldição do Blazers assustar o Nenê é melhor nem ouvir a proposta do Clippers! Mas a campanha promissora do ano passado, a presença do Blake Griffin e o já citado envelhecimento do Oeste podem fazer o Nenê pensar duas vezes.

Eu achei esse interesse do Clippers estranho porque eles já tem o DeAndre Jordan como promissor pivô defensivo e um bom (e caro) reserva no Chris Kaman, mesmo que esse tenha problemas de contusão. Faz mais sentido o Clippers gastar seu dinheiro procurando um ala melhor do que o Al-Farouq Aminu ou um armador que seja mais confiável que o Mo Williams. Não seria uma boa guardar o espaço no salary cap para ir atrás de Deron Williams ou Chris Paul no ano que vem? E outra coisa, o DeAndre Jordan é bom porque complementa os defeitos do Blake Griffin com tocos e rebotes defensivos, o Nenê não faria isso tão bem. Não vejo Griffin e Nenê como parceiros complementares.

Mas de qualquer maneira a notícia é que o Clippers já está sondando o pivô brasileiro. Dinheiro eles tem, elenco promissor também e um clima melhor que o de Portland. Tem tudo para atrair o brasileiro, mas não vejo como uma combinação ideal.

.....
Os jornais americanos citam essas sete equipes, mas sempre podem aparecer novas. Ninguém descarta, por exemplo, que o Miami Heat deva pelo menos tentar oferecer algo para o Nenê, embora seja mixaria financeira em comparação com o que as equipes citadas podem dar. Por outro lado, se isso realmente acontecer, pode ser a maior chance de título que o Nenê terá na vida. Se o pessoal em Miami leu a declaração dele dizendo que quer conquistar algo e não precisa de dinheiro, pode mandar a notícia em anexo junto com a proposta de salário reduzido e um aviso dizendo "TEMOS LEBRON JAMES, DWYANE WADE E CHRIS BOSH NO NOSSO TIME". O lado ruim para o Nenê seria encontrar uma tonelada de brasileiros nas ruas de Miami cobrando ele na seleção brasileira. Nem tudo pode ser perfeito.

Outro nome que corre bem por fora é do San Antonio Spurs. Pouco se fala deles na briga pelo Nenê, mas conheci umas pessoas mais próximas do Nenê e de gente do Spurs dizendo que é uma possibilidade. Sentido faz, já que o time de San Antonio está doido atrás de um pivô para jogar ao lado do Tim Duncan e não sabe se pode confiar tanto em DeJuan Blair e Tiago Splitter. E para Nenê faria sentido porque, afinal, estão lá Duncan, Ginóbili, Parker e Popovich. Não sei o quanto disso é verdade, mas é mais do que plausível, ainda mais se o Spurs usar a nova regra de anistia com o Richard Jefferson, liberando 9 milhões do seu salary cap.

Esse post foi uma comemoração ao basquete ter voltado a ser assunto ao invés do locaute. Claro que voltaremos ao locaute assim que os últimos detalhes do novo acordo forem divulgados e confirmados, mas não custa falar um pouco de coisas divertidas antes! Nada de concreto, eu sei. Mas tentei me ater às propostas que parecem mais concretas e que fazem sentido. E, ao contrário dos boatos envolvendo Chris Paul, algo tem que acontecer com Nenê, ele tem que escolher um time. Com o CP3 é um monte de boataria e a chance de acontecer algo de verdade só lá pro meio da temporada é enorme, por enquanto é só gente matando a saudade da boataria.

E você, para onde iria se fosse Nenê? (Não vale responder que iria para a Seleção Brasileira defender seu país e honrar sua pátria, por favor!)

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

FAQ - Seleção Brasileira

Eu não tinha a menor ideia de quem era o cara que chutou a bunda do Scola


No glorioso 7 de setembro, independência da nossa grande nação das garras portuguesas, um grupo de heróis resolveu homenagear a nossa pátria acertando uma bola laranja dentro de um cesto defendido por um grupo de estrangeiros. Ao fim de 40 minutos de batalha, o número de bolas acertadas nesse cesto foi grande o bastante para que 190 milhões de pessoas (ou pelo menos umas 300 no Twitter) conclamasse que Rafael Hettsheimer tinha um valor tão grande quanto o de Dom Pedro I para essa data.

Ao ver que o Bola Presa, esse blog da imprensa imperialista/golpista/mala-sem-alça/anti-patriota não tinha comentado nada sobre o jogo, pipocaram muitas perguntas no nosso Twitter e Formspring questionando o motivo de não tocarmos no assunto e, ao mesmo tempo, nos pedindo opiniões sobre a seleção brasileira e seus jogadores, em especial perguntas suuuper novas como "Por que o Machado ainda está na seleção?" e "Por que o Huertas não está na NBA?".

Resolvemos então fazer um FAQ respondendo as perguntas repetidas que recebemos e encerrando o assunto. E faremos isso antes do decisivo jogo de amanhã contra a República Dominicana para não ser uma resposta motivada por resultado.


Pergunta 1
Versão educada: "Por que vocês não falam do Pré-Olímpico e do Eurobasket?"
Versão troll: "Te peguei no flagra assistindo a seleção! Cadê os Mr.NBA? Cadê? Tão vendo outras coisas agora, é?"

Se você acompanha o blog desde os tempos mais remotos, quando éramos underground, pouco conhecidos e não eramos modinha mainstream, você irá lembrar que já fizemos cobertura de Pré-Olímpico, Pré-Olímpico Mundial, de Mundial, de Olimpíada (mesmo com o Brasil fora) e até de Paraolimpíada! Ou seja, já tentamos.

Mas depois de fazer tudo isso, eu e o Danilo paramos para refletir se realmente valeria a pena partir para essa mais uma vez. A proposta do blog quando o criamos era falar de NBA, não de basquete em geral, e isso foi uma decisão baseada nos nossos gostos, talentos e conhecimentos. Mudamos no meio do caminho e não gostamos do resultado, o que não quer dizer que não gostamos do assunto. As revistas INFO ou Capricho evitam o assunto política porque não é a proposta delas, não porque os seus repórteres e responsáveis não achem o assunto digno de atenção, a mesma coisa da gente com o basquete fora da NBA.

Sentimos que estávamos saindo fora do nosso meio, que não nos divertíamos no processo e, mais importante e broxante, não acrescentávamos nada de novo à discussão. Modéstia à parte, acho que trazemos à tona assuntos, pensamentos e informações que são novas e interessantes para o público da NBA. Mas quando falamos de outros torneios acabamos caindo no lugar comum e só repetindo informações e opiniões que estão em toda a parte. Estão aí o Rodrigo Alves, o Balassiano, o BasketBrasil, DraftBrasil e o novo Basketeria cobrindo a seleção com gosto, vontade e conhecimento, não somos necessários nessa frente.


Pergunta 2
Versão educada: "Então quer dizer que você só assistem NBA?"
Versão troll: "Bando de paga pau dos EUA, só assiste o que acontece lá, né?"

Eu volta e meia estou assistindo a NBB, Euroliga, ACB e NCAA, no Chipre eu até assisti a jogos da bizarra Divisão A Cipriota, mas não quer dizer que assista todo dia/semana e entenda do assunto. Um dos motivos que faz com que eu me sinta à vontade fazendo um post sobre, por exemplo, o Bucks, é que eu já assisti uns trocentos jogos deles antes de escrever. E assisti ainda mais no ano passado e no anterior e no anterior. E acompanho a carreira do Michael Redd, do Brandon Jennings, do Richard Luc Mbah a Moute, do Andrew Bogut e de quase o elenco inteiro desde o começo. Sei das brigas e doideiras do Scott Skiles e do seu estilo de jogo. Ou seja, é um assunto que eu posso contribuir de maneira profunda e interessante.

Em contrapartida, o que eu poderia falar sobre o grande nome (em todos os sentidos) do último jogo entre Brasil e Argentina, o Rafael Hettsheimer? Nunca tinha ouvido falar até alguns meses atrás, não sabia onde o cara jogava, nada. Acabaria fazendo o que eu mais odeio que façam em jogos da NBA: que comentem só o momento, aquele segundo, sem saber nada da história do jogador, suas características ou função no time. Quantas vezes um jogador está fazendo uma temporada espetacular mas aquele jogo que calhou de passar na ESPN é um dos seus piores? Aí dá-lhe os comentaristas desinformados dizendo que o cara é um prego. Sim, naquele dia o cara está sendo e isso merece ser dito, mas não sempre e a informação passada fica toda errada.

Pergunta 3
Versão educada: "Mas vocês não acham que tem que dar uma força para o basquete nacional?"
Versão troll: "Por isso que o basquete brasileiro não vai pra frente, ninguém dá atenção. A SporTV fica passando o US Open ao invés de Venezuela x Panamá!"

Nessas 4 temporadas de NBA que acompanhamos no Bola Presa muita gente veio nos dizer que tinha desanimado da NBA e de basquete por muitos anos, mas que voltou a acompanhar o esporte por causa dos nossos textos. Alguns se animaram até a começar/voltar a jogar! Para dar uma força ao basquete basta fazer com que as pessoas achem ele um esporte interessante e dá pra fazer isso falando de qualquer torneio.

O futebol americano e o rugby cresceram em número de praticantes no Brasil porque assistimos aos gringos jogando. Para crescer ainda mais precisamos de mais jogos da NFL por semana ou precisamos passar jogos amadores dos brazucas? Na minha opinião é de mais NFL, é vendo o jogo em seu melhor que as pessoas se encantam e desejam praticar e consumir o jogo.

Nossa intenção com o Bola Presa nunca foi nobre e não pensamos em fazer um site sobre NBA para incentivar o esporte no território brasileiro. Fizemos porque achamos que seria legal, mas naturalmente vimos que ajudamos algumas poucas pessoas a criarem gosto pelo basquete. E para isso não precisamos mentir dizendo que a Liga Sub-13 do Mato Grosso do Sul é interessante.

Pergunta 4
Versão educada: "Mas já que vocês assistem, podem dar a opinião de vocês sobre a seleção?"
Versão troll: "Comenta aê, porra!"

Agora que vocês já sabem que nossa opinião não vale muita coisa, sim, comentamos.

Pergunta 5
Versão educada: "O que acham do Marcelinho Huertas comandando a seleção?"
Versão troll (na íntegra e direta do formspring): "Como voces podem dizer que o Huertas não tem vaga na NBA? O cara destrói, inclusive contra os caras da própria liga americana"

O curioso da segunda pergunta é que a gente nunca disse que ele não tem vaga na NBA! E pior, no ano passado fizemos mais de um post só discutindo o assunto de maneira mais profunda do que uma mera especulação mereceria. Vou tentar ser mais breve dessa vez.

O Huertas é o cara mais importante dessa seleção. Até o jogo contra a Argentina, quando o time (sei lá porque) começou a movimentar a bola e jogar como um time, ele segurava a bola durante 23 segundos dos 24 de posse de bola do time. Quando o Brasil jogava bem era por causa dele, quando estava mal era por causa dele, quando era o melhor time do mundo, era graças ao Huertas. Por um lado vimos um jogador amadurecido, de visão de jogo espetacular e um "floater" quase infalível. Por outro um cara que parecia não confiar em ninguém que não fosse o Tiago Splitter e que queria ganhar sozinho. Não dá pra culpar totalmente ele, o resto do time não é de inspirar tanta confiança assim, mas não é o papel dele como armador. No maior estilo Kobe Bryant, ele é fantástico, mas seus times são melhores quando eles tentam controlar menos o jogo.

E lembram quando entrevistei o Splitter? Parei e conversei um pouco com o Huertas também para uma matéria para o site do Clube Paulistano, onde estou trabalhando. Ao fim da conversa não resisti e disse "Todo mundo fica enchendo o saco de você na NBA, o que VOCÊ acha disso tudo?". Ele me disse que o sonho de ir pra lá sempre existe e que ele acha que tem jogo pra atuar lá, mas que teria que ser no time certo (ele não queria ir para o Miami Heat assistir o Wade e o LeBron controlar a bola, por exemplo) e nem queria ser um novo Sarunas Jasikevicius, ídolo/deus na Europa e que foi para a NBA ser um arremessador que jogava 5 minutos por jogo.

No fundo não faz sentido para ele arriscar uma carreira ótima na Europa (grandes times, torneios importantes, atenção, salário, fãs apaixonados, etc) para jogar na NBA sem garantia nenhuma. Acho que ele tem toda razão, jogo para ir para a NBA é claro que ele tem, mas vale mais a pena você gastar o auge da sua carreira sendo armador titular do Barcelona ou correndo o risco de algum técnico que nunca viu basquete europeu na vida dar piti e te jogar na reserva do Mardy Collins? Se fosse para ir para um time onde ele se encaixasse e tivesse espaço e tempo para se adaptar, ótimo, ir só para dizer que foi é furada.


Pergunta 6
Versão educada: "Por que o Nezinho e o Marcelinho Machado, tão criticados, ainda estão na seleção?"
Versão troll: "O que os técnicos ainda veem nesses merdas do Nezinho e do Crazy Shooter?"

Triste choque de realidade aqui, mas até eu que não assisto basquete brasileiro tão de perto assim já percebi que quando o Marcelinho Machado e o Nezinho jogam, eles dominam. Não é à toa que eles estão todos os anos disputando os títulos mais importantes, não é sorte, no nosso cenário nacional eles ainda estão entre os melhores. De longe.

Talvez, por questão de princípios, de implantar uma nova mentalidade e de forçar uma renovação, você até pode não querer chamá-los, mas se for para levar os melhores jogadores de suas posições eles tem que estar lá. Eles tem uma tonelada de defeitos condenáveis? Sim, e isso mostra como o basquete brasileiro, com ou sem vaga olímpica, é pior do que gostaríamos de admitir.


Pergunta 7
Versão educada: "Se classificarmos, precisamos de Nenê, Varejão e Leandrinho ou isso é uma prova que eles não são necessários?"
Versão troll: "Chupa Leandrinho! Chupa Nenê! Não precisamos de quem não ama o nosso país!!!!1"

Reproduzo aqui uma resposta que o Danilo deu no nosso formspring:

"Olha, o Leandrinho já topou jogar pela seleção antes. Já topou jogar por uma CBB bagunçada, com técnico medíocre, elenco medonho, fora da sua posição natural em quadra, chance de não ter seu seguro pago (como já sabemos que aconteceu), botando em risco seu emprego na NBA, seu salário milionário e sua carreira lá fora, a contragosto dos chefes que assinam seus cheques e pagam suas contas. E sabe o que aconteceu? O Leandrinho foi Leandrinho, ou seja, assumiu um papel secundário, que é o que ele sabe fazer e onde se sente confortável, e a torcida brasileira caiu matando. Gente que não entende bulhufas de basquete, que não faz ideia do que significa o cara ir contra a NBA e vir jogar aqui pra essa zorra da CBB, querendo pendurar o Leandrinho num poste porque ele é "amarelão" e "cagão". Sério? Então foda-se, o Leandrinho tem mais é que não jogar mesmo. Mesma coisa com o Nenê, que além de ser desrespeitado quando joga por aqui, ainda se lesiona sempre porque tem ossos de vidro.

Seleção brasileira é uma escolha, não é serviço militar obrigatório. É um time aí que você joga se estiver com vontade, com pique, com clima, com saúde, se você for respeitado, e se não quiser gastar seu tempo com sua filha recém-nascida, que merece bem mais atenção.

E eu já desencanei desse papo de que "os nossos melhores jogadores precisam vir pra cá para tirar o basquete brasileiro desse buraco". Isso é furada e uma baita falácia. Se tivermos uma geração fantástica aqui e formos para as Olimpíadas, a estrutura do basquete no Brasil vai continuar a mesma, com os mesmos campeonatos, o mesmo nível técnico, a mesma administração, e o público comum vai continuar assistindo só quando for contra a Argentina para extravasar um mal colocado patriotismo. Andei lendo por aí que a "geração de ouro" argentina não é fruto de categorias de base fantásticas como se imaginava, que não mudou a estrutura do basquete no país, e que a renovação da seleção é um pesadelo. Mesma coisa por aqui. Ainda acredito que a popularização do esporte passa por acompanhar com qualidade a melhor liga de basquete do mundo ao invés de ficar se preocupando se o Nenê ou o Leandrinho vão enfrentar a Venezuela."

...
E completo com minhas palavras. Caso o Brasil fique com uma vaga, terá provado que não precisa de Nenê, Leandrinho e Varejão para ser melhor que República Dominicana e Porto Rico. Nada mais do que isso. Mesmo vencendo a Argentina é ingenuidade achar que a equipe brasileira é melhor, em geral, que a deles. Se ir para os Jogos Olímpicos basta e estar lá deva ser um prêmio para quem conquistou a vaga, algo no espírito Dunga de ser, então não precisamos dos jogadores da NBA. Agora se o importante é levar os melhores jogadores e tentar ganhar umas partidas, é óbvio que eles tem que ser chamados. Mas pelo o que eu vejo por aí o público do basquete é muito patriota e não vai querer alguém que "fugiu à luta" os representando na próxima guerra Olimpíada.


Pergunta 8
Versão educada: "Como dá ponte aérea no NBA2K11?"
Versão troll: "Como dá ponte aérea no NBA2K11?"



.....
Eu sei que essas respostas vão gerar mais perguntas, mais trolls e mais discussões, mas acho que serviu para deixar claro o motivo do assunto ser geralmente ignorado por aqui. E que ironia um assunto deixado de lado ter rendido algo tão grande, não? É hora de parar.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Um mês depois

JR Smith não entende esse troço de "coletividade" que comentam agora no vestiário


Muita atenção está sendo dada para o fato do Denver Nuggets estar com uma campanha muito melhor do que a do New York Knicks depois da troca do Carmelo Anthony. Mas eu só não sei se as pessoas estão dizendo isso para zoar com o Knicks, já que todo mundo ultimamente parece ter criado um gostinho especial em odiar equipes que fazem tudo por superestrelas, ou se é porque realmente achavam que o Knicks seria melhor que o Nuggets. Eles não eram antes, não são agora e não dá pra saber se serão no futuro.

O Knicks deixou bem claro nessa troca que o que eles queriam era juntar Carmelo Anthony com Amar'e Stoudemire, o resto do time eles dariam um jeito de conseguir depois. O único jogador além de Amar'e que eles não estavam dispostos a mandar era o Landry Fields, de resto topariam mandar tudo e foi o que fizeram. Danilo Gallinari, Wilson Chandler, Raymond Felton e Timofey Mozgov todos foram titulares no time durante toda ou algum período da temporada em Nova York, não dá pra perder todo um time assim de uma vez no meio do campeonato e esperar que tudo vai ficar bem. O plano deles era para o futuro e só no futuro vamos poder julgar com mais convicção se a decisão foi boa ou ruim, tudo vai depender de novas contratações no próximo ano e de treino, muito treino.

Um dos problemas do Knicks nos últimos jogos tem sido o desempenho no quarto período, e não é por acaso e nem porque seus jogadores são amarelões, muito pelo contrário; Chauncey Billups, Carmelo e Amar'e tem milhares de cestas importantes e decisivas nas suas carreiras para provar que sabem resolver no final. O que acontece é que com poucos treinos nesse primeiro mês de parceria eles só tem as jogadas individuais para apelar e assim fica mais fácil do adversário defender. Temos que lembrar que é no último período em que as defesas costumam ser mais fortes e é quando os times usam as suas jogadas de segurança. Que jogada de segurança tem um time que pouco treinou? Sem contar que existe o problema bem comum de equipes que tem muitos jogadores bons, todos acham que podem resolver no 1-contra-1 e se restringem a isso. Jogadores mais ou menos podem não ter treinado junto com ninguém, mas não acham que vão vencer jogos sozinhos como pensam Billups, Carmelo e Amar'e no Knicks ou LeBron e Wade no Heat, por exemplo.

Por outro lado, o Nuggets tinha tudo para melhorar. Perdeu dois jogadores bons mas ganhou outros quatro bons para as mesmas posições, sem contar que deu mais espaço para outros que já estavam lá só esperando atenção. O Ty Lawson agora pode brilhar com mais minutos e as loucuras individualistas do JR Smith parecem machucar menos o time quando ele é o único maluco individualista no elenco. Na parte tática o técnico George Karl disse que a adaptação dos novos jogadores foi fácil porque eles já conheciam muitas das jogadas e porque ele manda todo mundo sempre correr muito e jogar fácil no contra-ataque, ou seja, sem bíblias de jogadas complexas para eles aprenderem, a transição de equipe é mais tranquila. Alguém poderia argumentar que o Nuggets também deveria ter problema nos finais de partida por ter treinado pouco, mas duas coisas explicam porque isso acontece com o Knicks e não com eles:

1- O Nuggets está vencendo fácil, com diferenças gigantescas de pontos. Alguns quartos períodos eles só tiveram que administrar uma boa vantagem. Poucas vezes tiveram que lidar com jogos duros de meia quadra com adversários fortes.

2- Quando tiveram, como ontem contra o Spurs, realmente tiveram dificuldade no ataque e acabaram chutando bolas forçadas de longe. Mas compensaram defendendo muito bem! Nesse último mês o Nuggets tem números defensivos, como o de pontos sofridos a cada 100 posses de bola, muito parecidos com o Chicago Bulls, que é o Once Caldas da NBA. O Knicks, em compensação, tem uma defesa pior desde que Melo e Billups chegaram.

Números e tática à parte (só por um parágrafo), o fator psicológico tem sido importante nessa embalada que o time de Denver deu. Enquanto muita gente esperava um desmanche, ocorreu o oposto. Nenê afirmou que quer fazer carreira em Denver e negocia uma extensão de contrato, eles não trocaram imediatamente Gallinari e Chandler como especulado na época e disseram aos dois que fazem parte do futuro da equipe, mesma coisa que aconteceu com JR Smith. A saída do Carmelo criou uma sensação de alívio e união. A perda de uma estrela por várias vezes já uniu equipes, isso acontece o tempo todo. Aconteceu ano passado com a contusão do Andrew Bogut no Bucks, acontece agora com o Grizzlies sem Rudy Gay até o fim da temporada, aconteceu quase 10 anos atrás quando Antonio Davis liderou uma sequência impressionante de vitórias que levou o Raptors sem Vince Carter aos playoffs. E, por que não, foi esse sentimento que fez o Cavs sem LeBron James começar a temporada jogando tão bem. Se o elenco não fosse tão ruim e minado por contusões e se aquele jogo contra o Heat tivesse tido um resultado diferente, certamente não seriam a piada que são hoje. Em esportes competitivos e com tantos times com jogadores bons, coisas como motivação podem fazer toda a diferença.

O Dean Oliver, autor do livro Basketball on Paper, importantíssimo para o mundo das estatísticas de basquete, trabalhava com o Denver Nuggets no começo da temporada até sair do emprego semanas antes da troca do Melo para trabalhar na ESPN. Ele lembra em um artigo para o TrueHoop de uma declaração do dono do Nets, Mikhail Prokhorov, dizendo que só tentar trocar pelo Melo já havia custado muitas derrotas a seu time. A insegurança causada por ver tantos nomes diferentes envolvidos em trocas fazia o time não se concentrar e não render. Assim o Nets venceu apenas 10 jogos nas primeiras 12 semanas de temporada, então o russo disse que iria desistir de Carmelo e o time respondeu vencendo 7 das próximas 13 partidas, isso antes de conseguir o Deron Williams.

Já o Nuggets, na análise de Oliver, rendeu bem até o dia 15 de dezembro, como se nada tivesse acontecido. Essa data marcava o dia em que muitos Free Agents do último verão americano, como Raymond Felton, poderiam ser envolvidos em trocas. O Nuggets venceu 15 de 24 jogos até então. Aí os rumores começaram a ficar mais reais e o bicho pegou. Como funcionário do time, Oliver viu tudo de perto e disse que o clima no vestiário era diferente depois que os rumores ficavam mais reais e principalmente quando passaram a envolver o Chauncey Billups, herói da torcida. Nesse período o Nuggets teve 12 vitórias e 10 derrotas, com números defensivos que beiravam os piores da liga. Como já mostramos ontem, eles embalaram de novo depois da troca com 11 vitórias e 4 derrotas desde que Melo saiu.

Sem Carmelo Anthony para controlar a bola, a mídia, as atenções e os holofotes, os outros jogadores viram isso como a chance deles de brilhar e montar um time vencedor e coletivo. George Karl passou a fazer discursos enfatizando o jogo em equipe e a dedicação que cada um dava dentro de quadra, e o resultado é um time mais focado na defesa, mais esforçado, que batalha mais em quadra e que joga mais do que assiste. Voltando aos números, com Carmelo o Nuggets tinha 54% de suas cestas vindas de assistências, agora esse número subiu para 63%. É mais gente passando a bola e menos gente resolvendo por conta própria.

Também não podemos esquecer da profundidade que esse elenco tem agora. Se pensarmos no que já vimos de todos no elenco do Nuggets nos últimos anos, é bem fácil admitir que Lawson, Afflalo, Gallinari, Kenyon Martin, Nenê, Felton, JR Smith, Al Harrington e Wilson Chandler podem ter, facilmente, pelo menos uns 12 pontos por jogo. Isso dá 108 pontos por partida sem ninguém precisar acordar muito inspirado. Claro que não dá pra dividir assim tão racionalmente, mas o que eu quero dizer é que com esse elenco eles sempre vão ter opções de ataque e podem se adaptar a qualquer estilo de defesa ou sobreviver a alguém em um dia ruim. Eles perderam um cara que resolvia bem no fim dos jogos, mas ganharam muita gente que resolve em muitas outras situações. A teoria de que não dá pra ser campeão sem uma estrela pode ir contra o que eu vou dizer, mas o Nuggets é um time melhor hoje e os jogadores que recebeu foram tão bons que era uma troca que faria sentido mesmo se o risco de perder o Carmelo ao fim da temporada não existisse.

O George Karl já deu muitas entrevistas nos últimos anos e até nas últimas semanas dando a entender que não gostava do desinteresse que o Carmelo mostrava em algumas partidas, principalmente na defesa, e nem de como ele muitas vezes jogava as táticas no lixo para resolver sozinho. Isso influenciava o time de uma maneira negativa. Agora Karl vê ele mesmo como o líder da equipe e as suas atitudes cobrando defesa e coletividade têm dado resultado em quadra.

No fim das contas dá pra dizer que a troca só teve vencedores, quer dizer, pelo menos todo mundo conseguiu o que queria: O Carmelo ir para Nova York, o Knicks uma estrela de nome e o Nuggets um time de basquete melhor.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Perguntas e respostas: a troca do Carmelo Anthony

Carmelo e Amar'e: trutas

A troca do Carmelo Anthony é a troca com mais assuntos paralelos que eu já vi na minha vida. Mais de 200 dias depois da primeira notícia de que ele estava querendo ir para o New York Knicks, Melo finalmente conseguiu ter seu desejo atendido. No meio do caminho estão envolvidos o futuro do Knicks, do Nuggets, outros 11 jogadores, o Minnesota Timberwolves, Isiah Thomas, a relação entre o presidente do Knicks James Dolan com o manager Donnie Walsh e o técnico Mike D'Antoni, e o homem mais misterioso da NBA, William Wesley. Ou seja, como uma boa novela ela dura quase um ano e tem diferentes núcleos e personagens, é a NBA aprendendo com Manoel Carlos.

São tantas perguntas e questões para entender essa megalomania que decidimos que só com um FAQ para responder tudo. Tudo relacionado ao Knicks fui eu, Denis, quem respondeu. Ao Nuggets e ao Wolves foi o Danilo. A decisão foi feita por sorteio e aprovada por nossos advogados (adoramos eles!).



Q: Amigos do Bola Presa, quem foram todos os envolvidos na troca? Abs 


New York Knicks recebe: Carmelo Anthony, Chauncey Billups, Shelden Williams, Anthony Carter, Renaldo Balkman (Denver Nuggets) e Corey Brewer (Minnesota Timberwolves)

Denver Nuggets recebe: Raymond Felton, Danilo Gallinari, Timofey Mozgov, Wilson Chandler (NY Knicks) e Kosta Koufos (Minnesota Timberwolves). Também recebem uma escolha de 1º round de Draft do Knicks (2014) e duas 2º round (2012, 2013, do Warriors que estavam com o Knicks). O Nuggets também recebe 17 milhões de dólares em "trade exceptions"

Minnesota Timberwolves recebe: Eddy Curry, Anthony Randolph (NY Knicks). Também recebem uma escolha de 2º round do Denver Nuggets.



Q: Epa, mas o que é essa tal de "Trade Exception" que você citou? É de comer? Aposto que você já explicou dez vezes mas eu nunca leio os posts inteiros. 

Uma trade exception é um "Vale Salary-Cap" que pode ser usado pelo time para usar em outras trocas para igualar salários. Se o Nuggets quiser mandar um jogador que ganha 5 milhões por outro que ganha 7 milhões eles podem deixar tudo igual usando essa trade exception. É uma mão na roda para times que estão planejando movimentações no elenco e foi criada no governo Lula.

Q: Carmelo Anthony e Amar'e Stoudemire juntos? Como isso vai dar certo?

Essa é uma excelente pergunta, amigo assinante. Dependendo de como você enxergar pode parecer uma idéia bisonha e por outro lado parece perfeita, tudo depende de como o Mike D'Antoni vai montar o time, qual vai ser o esquema tático e tudo mais. Tanto Amar'e como Carmelo são bons o bastante para simplesmente receber a bola em uma jogada de isolação e tirar pontos disso, mais ou menos como o Heat faz de vez em quando (47 minutos por jogo) com Wade e LeBron. É o jeito mais fácil e apelão de conseguir pontos, mas quando não dá certo com o Heat eles tem uma puta defesa para compensar, já o Knicks e o Carmelo...

E o problema das isolações é que o esquema tático do Mike D'Antoni é justamente o oposto disso tudo! Ele é o cara que gosta de ver o seu time rodar muito a bola, de passar ao invés de individualizar e de só concentrar a bola na mão de um jogador se ele for o armador do time, sempre com ele se movimentando entre corta-luzes.

Q: Então o Carmelo vai se adaptar ao D'Antoni ou o contrário? Quem manda na relação?

É o que eu quero saber também! Como já vimos na seleção americana, o Carmelo Anthony pode ser muito útil para o seu time mesmo quando não concentra a bola na sua mão o tempo todo. Nas Olimpíadas de 2008 muitas vezes a gente mal percebia ele em quadra, com a bola controlada por Kidd, Kobe, Wade e LeBron, e no fim das contas ia ver as estatísticas e ele era o cestinha. Com boa movimentação e sabendo pontuar de todos os lugares da quadra ele estava sempre contribuindo com ótimo aproveitamento.

O problema é que na seleção ele tinha todos esses nomes de peso para jogar enquanto ele só pontuava, no Knicks vai ser quem? Corey Brewer, Toney Douglas e Landry Fields? Amar'e Stoudemire também não é nenhum Tim Duncan na hora de encontrar seus companheiros livres para o arremesso, só faz o óbvio. Carmelo vai precisar tocar mais na bola e quando ele faz isso ele não movimenta a bola como seu técnico idealiza. A última opção é Chauncey Billups comandando o show e distribuindo a bola.

Q: Billups? Você está ousando insinuar que o cerebral Chauncey Billups, o coração do Pistons de 2004, o time mais em câmera lenta da história, irá ser o líder de um Run and Gun?

A minha primeira reação também foi de "é mais fácil a Deborah Secco ganhar o Oscar por 'Surfistinha'", mas para e pensa: Embora nossa memória do Billups sempre remeta ao Pistons campeão de 2004, ele está faz tempo no Nuggets e eles também são um time que jogam com extrema velocidade. O Knicks, aliás, é o segundo com mais posses de bola por jogo e o Nuggets vem logo atrás em terceiro. E em termos de eficiência ofensiva, onde o Knicks é oitavo, o Nuggets é o primeiro. Eu lembro de quando o Billups foi trocado para o Nuggets e eu disse aqui que a troca só daria certo se houvesse um entendimento das duas partes. Ou Billups se adaptaria à correria do Nuggets, ou o time aprenderia a lidar com o fato de ter um armador que gosta de mandar no jogo. Acabou sendo um pouco dos dois, Billups mandava e segurava a bola, principalmente logo no começo quando chegou, mas não deixou de impôr a velocidade. Bisonhamente deu certo. Só temos que lembrar que nesse ano o Billups não está jogando tão bem assim e que cedo ou tarde a idade pesa.

Então por mais estranho que seja, acho que sim, o Billups pode comandar esse ataque sem fazer o time perder tanta velocidade como a gente imagina. Se o D'Antoni confiar o time a ele e deixar Melo e Stoudemire não jogarem tanto assim sozinhos (talvez só no último período), o time pode manter a identidade do seu técnico e ter suas estrelas rendendo ao mesmo tempo.


Q: Tá bom, estou começando a me animar com o Knicks, mas não foi uma aquisição muito cara?

Sim, foi MUITO cara, um asburdo de cara. É daquelas compras em que o produto é bom, de qualidade, funciona, mas mesmo assim bate aquele peso na consciência toda vez que você lembra o quanto custou. Eles mandaram 3/5 de um time titular que estava atuando muito bem junto e mais um bom reserva, todos jovens, com bons contratos e vivendo o melhor momento de suas carreiras por uma estrela e o Billups em fim de carreira. Eles abandonaram tudo isso por esse sonho de ter mais uma superestrela ao lado do Amar'e Stoudemire, sem dúvida vivemos uma era em que os times estão montando elencos na estratégia do "mande até a alma por uma estrela e pesque veteranos depois".

Q: Soa como algo terrível, mas não está dando certo por aí?

Se você considerar que os principais adversários do Knicks no Leste são o Celtics e o Heat, que fizeram a mesma coisa, dá pra entender a inspiração. Mas a grande diferença no caso do Knicks é que talvez não precisasse ser tão caro. Desde o começo da novela o Carmelo deixou bem claro que queria jogar no Knicks, não em Nova York com o Nets, queria o Knicks. Recusou todas as ofertas do Nets e não levou muito a sério propostas do Rockets, Warriors ou Mavericks. Eu acredito que em qualquer um desses times ele iria deixar seu contrato acabar e então virar Free Agent, a pressão dele mesmo (e de outras partes, que veremos depois) para ele jogar no Knicks era enorme, eu acho que ele iria mesmo que isso significasse um salário menor.

No fim das contas o Knicks perdeu para o próprio desespero, pressa e história recente de fracassos. Preferiram mandar até as calças pela certeza de ter o Carmelo Anthony, não quiseram correr mais riscos esperando. Imagina perder o Melo porque não quiseram incluir o Timofey Mozgov ou uma escolha de 2º round na troca, eles nunca iriam se perdoar.

Q: Polêmica no Mesa Redonda, é verdade que o Mike D'Antoni não queria que o time fosse desmontado assim?

O que foi divulgado pela imprensa americana é que o D'Antoni não estava nem um pouco satisfeito em ver o time que ele montou ser dilacerado em nome de uma estrela. E se você ver como o George Karl, técnico do Nuggets, não parecia lá muito triste de ver o Melo ir embora dá pra entender a posição do técnico. Ele tinha feito o Felton jogar o melhor basquete da sua vida, foi quem fez, pouco a pouco, o Wilson Chandler um jogador completo em relação ao cara cru que chegou na NBA; e foi influência direta na escolha do Danilo Gallinari no dia do Draft. Era um time com sua identidade que foi desfeito enquanto sua voz não foi ouvida na hora de dar a confirmação na troca.


Q: Então foi o General Manager Donnie Walsh o responsável por essa limpeza no elenco?

Aí que entra a parte divertida da coisa: Também não! A negociação tinha entrado em mais um impasse porque o Nuggets estava pedindo o Timofey Mozgov além de todo o resto e o Knicks estava se sentindo assaltado, o Donnie Walsh, com o apoio do D'Antoni, não queria enviar o russo até porque mesmo o resto dos jogadores já era demais pra eles. Aí o presidente da equipe James Dolan interviu dizendo para colocar o russo e mais qualquer coisa que pedissem para conseguir o Carmelo de uma vez por todas.

Não é nada comum ver presidentes interferindo assim no trabalho do General Manager, muito menos no trabalho de um cara como o Donnie Walsh, que pegou o Knicks afundado em contratos horripilantes da Era Isiah Thomas (Jerome James, Eddy Curry, Jamal Crawford, Stephon Marbury, nenhuma escolha de Draft) e conseguiu zerar as contas da equipe, abrir espaço salarial, contratar Amar'e Stoudemire e começar uma boa reconstrução. E o pior, segundo informações do repórter Adrian Wojnarowski do Yahoo!, uma das influências na cabeça do presidente James Dolan é o mesmo Isiah Thomas, que planeja voltar ao time!!!


Q: Que porra é essa? Isiah Thomas de volta para o Knicks depois de toda merda que já fez?

O James Dolan é muito próximo do Isiah Thomas, que já quase conseguiu um emprego no Knicks na temporada passada e só desistiu por pressões de Walsh e de outras pessoas lá dentro, mas o contrato do General Manager acaba ao fim dessa temporada e James Dolan pode decidir não renovar e achar um novo nome. Isiah Thomas espera que seja ele.

Segundo Wojnarowski, Walsh, por exemplo, nunca quis colocar Felton, Gallinari e nem mesmo Billups na troca, mas foi forçado a isso pelo presidente. Ele, por sua vez, tem usado Isiah Thomas como um consultor informal, os dois são bem amigos e fontes próximas dizem que é Isiah quem dita as coisas de fundo. A contratação de Carmelo, a saída de Gallinari e Felton seriam vitórias de Isiah Thomas para voltar ao poder em Nova York.

Q: E, por favor, quem poderá impedir essa desgraça?!

A oposição que também quer mandar no Knicks é um dos nomes mais misteriosos da NBA, William Wesley, conhecido (mas não muito) pelo apelido de Worldwide Wes. Já se referiram mais de uma vez a ele como "o homem mais poderoso do basquete", o que é bizarro já que pouquíssimas pessoas conhecem ele! Eu não sabia até um ano atrás quando um leitor nosso mandou um e-mail com uma história sobre o cara.

Ele é a definição de low profile e oficialmente não está associado a nada e nem a ninguém, mas tem seus contatos em todos os cantos, o mais importante deles é o seu amigo Leon Rose, empresário de Carmelo Anthony, Chris Paul, Eddy Curry e LeBron James. Lembram da minhoca plantada na cabeça do CP3 no começo da temporada dizendo para ele exigir uma troca? Wes teve sua influência lá. Curry no Knicks? Também. Carmelo no Knicks? Com certeza absoluta, seu empresário Leon Rose não queria ver seu jogador em qualquer outra franquia e usou a negação da extensão de contrato para podar as melhores ofertas enviadas ao Nuggets.

Q: E como Worldwide Wes influencia o Knicks?

Como eu disse ele nunca se envolve diretamente com as coisas, apenas conhece todo mundo e influencia suas decisões. Como disse o jornalista Henry Abbott depois de uma extensa pesquisa sobre um cara que recusa qualquer entrevista, "Se você olhar de perto todas as forças do mundo do basquete em todos os níveis - AAU (Associação de Atletas Universitários) que leva os jogadores às universidades, agentes interessados em achar clientes, as empresas de calçados interessadas em garotos propaganda, técnicos, donos de times, executivos, jogadores - todos tem uma coisa em comum: William Wesley".

E no Knicks ele tem Mark Warkentien como consultor de Donnie Walsh e Allan Houston, ex-jogador e atual assistente do General Manager do time. Worldwide Wes quer um desses dois assumindo no lugar de Walsh, não Isiah Thomas.

Q: Entre os dois, qual é melhor para o Knicks?

O Isiah Thomas já teve sua chance como técnico e como General Manager e teve, nos dois casos, a passagem mais desastrada de qualquer pessoa que eu já vi na NBA. Resultados patéticos, trocas que nunca fizeram sentido, relação péssima com torcida e atletas, um desastre do começo ao fim.

Por outro lado Worldwide Wes é daqueles caras que só pensam no benefício próprio e em agradar à sua panelinha. Ele vai botar toda sua turma de influência e seus jogadores onde quiser. Canalha, cafajeste ou só mais um megalomaníaco na NBA, não sei, mas ele tem muita influência sobre o Chris Paul. Talvez isso fale mais alto que qualquer outra coisa.

Q: Tudo isso para falar de uma troca! E eu aqui com preguiça de ler esses posts gigantes. Dá uma resumida aí, valeu a pena para o Knicks?

A troca valeu para conseguir o Carmelo Anthony, só. A história da NBA mostra que times com só um ou nenhum jogador fora de série, estrelas, ganham uma vez a cada dez milhões de anos, então eles foram para o home run. Trocaram a base sólida, os bons jogadores, o médio, pela chance do espetacular. Combina com o espírito nova-iorquino de se achar o centro do mundo e não se contentar em ser um bom time, dão tudo só pela chance de ser o melhor.

Mas sem dúvida é um risco. Hoje o elenco é raso, tem um banco de reservas ridículo e terão que trabalhar para descobrir o que Melo e Amar'e precisam a mais para funcionar juntos e ir buscar isso na próxima temporada. Aí vem a questão de quem irá procurar, já que eles arruinaram o clima entre a direção do time e o General Manager e isso talvez possa até levar o técnico Mike D'Antoni embora em um futuro próximo. Para os que não gostam dele é um alívio, para os que gostam fica o medo do que vem a seguir: Talvez Isiah Thomas escolhendo ele mesmo como o mais preparado disponível (de novo!) ou o Worldwide Wes retribuindo algum favor a alguém que não esteja a altura do cargo.

O New York Knicks voltou a ser relevante de novo nessa temporada, com essa troca volta a ser o centro das atenções no mundo do basquete. Os próximos meses irão dizer se pelo motivo certo.

...


Q: E o Nuggets, não podia conseguir um troço melhor em troca do Carmelo, tipo uma superestrela?

Na verdade o Nuggets teve é muita sorte de conseguir o que conseguiu. Quando se troca uma estrela que está encerrando seu contrato, é muito difícil conseguir valor igual em troca. Em geral o time troca sua estrela admitindo a derrota e tendo que aceitar apenas jogadores secundários e escolhas de draft. Mas, ainda que o Nuggets tenha recebido propostas melhores pelo Carmelo, o time não podia aceitar o que mais lhe interessasse. Isso porque qualquer time só faria a troca com o Nuggets se houvesse a confirmação de que o Carmelo assinaria um novo contrato ou uma extensão, ou seja, era o Carmelo quem decidia para onde ser trocado.

Q: Então o Carmelo é um safado filho de uma quenga?

Danilo: Na verdade não, a única safadeza aqui é do Nuggets. Para o Carmelo, a coisa é simples: seu contrato termina e, se ele não quer continuar jogando pelo Nuggets, sai ao fim da temporada e assina com o time que ele preferir. É isso que está previsto nas regras e é isso que deveria acontecer - acaba o contrato do Carmelo, ele assina com o Knicks e todos vivem felizes para sempre. O Nuggets, no entanto, ficaria sem sua estrela (assim como aconteceu com o Cavs) e apenas o espaço salarial para contratar outro jogador, mas quem iria querer jogar num Nuggets sem estrelas? O que o Nuggets fez, então, é uma brecha no sistema, um migué, um jeitinho brasileiro: trocar o Carmelo antes do fim do contrato e receber qualquer merda em troca pra não ficar de mãos abanando. Nada mais justo, no entanto, que o Carmelo escolha o time para o qual quer ir como seria o normal.

Q: Mas por que o Nuggets não trocou só o Carmelo e enfiou o Billups junto na troca?

Danilo: O Nuggets era um dos 5 times que mais gastava com salários na NBA, ou seja, tinha gastos de time que quer ser campeão. Sem o Carmelo, o time admite implicitamente que não dá pra manter o time com o mesmo rendimento e não faria sentido então manter os mesmos gastos. Apenas parte do salário do Billups é garantido para a próxima temporada (3 milhões), então o time que quiser se livrar dele pode pagar esse grana e pronto. Para mantê-lo, o salário seria de mais de 14 milhões, algo impensável para o Nuggets agora. Então eles aproveitam e mandam o Billups embora agora, poupando a grana que teriam que pagar para ele até o fim da temporada. Por estar acima do limite salarial, o Nuggets já paga mais de 13 milhões de taxas. Mandando o Billups junto com o Carmelo eles ficam abaixo do limite e chegam a economizar quase 25 milhões de dólares só esse ano! Para um time que não tem mais chances de ser campeão e passou os últimos 5 anos endividando até as calças para tentar um título, é uma economia que não dá para ignorar.

Q: É verdade que o Nuggets vai trocar os jogadores que conseguiu com o Knicks?

Danilo: Existe a possibilidade, mas ela é muito difícil. Os engravatados do Nuggets se mostraram muito tristes de não conseguir uma extensão com o Carmelo, mas estão felizes com os jogadores jovens e baratos que conseguiram. Wilson Chandler é uma versão light do Carmelo Anthony, aprendeu a arremessar de três nessa temporada, sabe jogar dentro do garrafão de costas para a cesta, e é melhor defensor do que o Carmelo. Danilo Gallinari é um excelente arremessador que vem mostrando ser capaz em outras áreas, Tomfey Mozgov e Kosta Koufos são pivôs com potencial para um futuro projeto de reconstrução, e Raymond Felton é bom o bastante para garantir que Ty Lawson possa continuar vindo do banco de reservas e prosseguir em seu desenvolvimento gradual. O mais importante é que são todos jogadores muito baratos - o mais caro é o Felton e seus 7 milhões de salário que duram apenas até o fim da próxima temporada. O Nuggets agora tem talento, várias escolhas de draft para reconstruir o time, vários role players competentes, e espaço salarial para tentar uma nova estrela ou economizar dinheiro até que o time possa render alguma coisa.

Q: Sou brasileiro com muito orgulho e com muito amor e quero saber se o Nenê agora vai ter um papel central no Nuggets

Danilo: O Nenê disse esperar uma extensão de contrato, já que ele só continua no Nuggets na temporada que vem se ele quiser, o próximo ano do contrato é escolha do jogador. É capaz que o Nuggets até extenda o contrato, mas ao ver a folha salarial do Nuggets percebemos que os únicos jogadores mais caros do que o Raymond Felton e seus 7 milhões de salário são o Kenyon Matin (16 milhões injustos, mas que acabam nessa temporada) e o Nenê (11 milhões). Se o time feder e entrar em processo de reconstrução total, cuidando da pirralhada e esperando as escolhas de draft, não faz sentido pagar o maior salário da equipe para o Nenê. Meu palpite é de que ele só terá o contrato renovado e um papel importante na equipe se o time se sair, desde já, muito melhor do que o esperado e acharem que não precisa fazer uma reconstrução total. Vamos descobrir isso, e analisar a fundo o modo de jogo do novo Nuggets, assim que os jogadores fizerem sua estreia pela equipe.

Q: Para quê o Nuggets vai usar as player exceptions, que parecem vale-CD?

Danilo: Com elas o Nuggets pode mandar um jogador muito barato, com salário risível, em troca de um jogador muito caro. Uma delas, de 17 milhões, permite mandar qualquer mané com salário de novato em troca do jogador mais caro do planeta. Mas esse tipo de troca só acontece se algum time quiser se livrar de seu jogador caro para começar um processo de reconstrução, o que é raro. Se o próprio Nuggets estiver em processo de reconstrução, para quê vai querer um jogador caro pra burro? Essas player exceptions são mais para fazer a troca funcionar do ponto de vista burocrático do que úteis de verdade. Serão usadas caso os jogadores adquiridos sejam trocados, o Nets está interessado, mas por enquanto parece bastante improvável de acontecer.

Q: Por que o Wolves entrou na troca?

Danilo: O Knicks não tinha espaço salarial para receber o Carmelo, então tinha que se livrar do contrato expirante do Eddy Curry de mais de 10 milhões. O Wolves, abaixo do teto salarial, agarrou a chance de receber o jogador - e o Knicks ainda mandou um incentivo financeiro para o Wolves usar e pagar uma parte do seu salário nessa temporada (caso queiram mandar o Curry embora, após um regime que lhe permitisse ao menos passar pela porta de saída). Pela ajudinha do Wolves, outras trocas aconteceram: o Knicks mandou o Anthony Randolph, que eles conseguiram nessa temporada achando que seria um jovem gênio e sequer recebeu minutos de jogo, e o Wolves mandou o Corey Brewer, que é um defensor atlético excelente para ser role player em time vencedor, mas que era cada vez mais desnecessário no Wolves. Além disso, o Nuggets mandou uma escolha de segunda rodada do draft em troca do Kosta Koufos, o pivô que eles nunca usavam porque são apaixonados pelo Darko. Ou seja, o Wolves se aproveitou da brincadeira apenas para dar uma chance ao Anthony Randolph, jogador de potencial que estava apodrecendo no Knicks, do mesmo modo que eles já fizeram com o Darko Milicic e têm orgulho disso.

.......

Se você tiver mais alguma pergunta pode mandar nos comentários. Só não prometemos responder logo, afinal temos uma troca do Deron Williams já comentada e agendada para entrar no ar amanhã de manhã!

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Critérios para o All-Star

Não não, Nenê


Saiu ontem finalmente a escolha dos reservas para o All-Star Game. Como sempre, tem muita gente indignada com as decisões e falando em complô, teoria da conspiração, alienígenas e na culpa do Justin Bieber (que no fundo é só um adolescente com cara de panaca e todas as ninfetas que quiser, igualzinho a todo mundo quando era adolescente, quer dizer, tirando a parte das ninfetas, claro). O problema é que todas as pessoas descontentes com a escolha dos reservas, achando um absurdo que o Duncan foi escolhido ou que o Nenê vai ficar em casa comendo pipoca, não pararam pra pensar que não existem critérios definidos para chamar os reservas. Isso quer dizer que todos os técnicos da NBA, que participam da votação, precisam bolar critérios próprios que não coincidem entre si. Quando alguém diz que o Nenê merecia ir para o All-Star, com certeza está usando critérios bem diferentes da maioria dos técnicos. Vamos então dar uma olhada em alguns dos critérios possíveis para convocar reservas e quais jogadores ficariam ou não de fora se eles fossem empregados.


Critério "É ritmo de festa": escolher os jogadores mais legais, engraçados e divertidos

Se o All-Star Game não vale bulhufas e é uma festa para agradar os torcedores e trazer mais audiência para a NBA, então muita gente acha que apenas os jogadores que se encaixam nesse perfil Sessão da Tarde de festa, azaração e curtição deveriam ser chamados. No fundo, faz sentido. É meio ridículo usar a convocação para o All-Star como se fosse uma espécie de prêmio para os melhores jogadores sendo que esses prêmios já existem na forma de MVP, melhor quinteto da temporada, jogador que mais evoluiu, essas coisas. Então o All-Star seria algo único, que premiasse os jogadores mais divertidos e voltados para a torcida.

Pra mim, isso funciona muito bem para os titulares do All-Star, que são definidos pelos votos públicos na internet. Aí a galerinha vota nos "mais legais" e pronto, a festa está garantida. Para os reservas, que são definidos pelos técnicos, não acho que esse critério funcione porque provavelmente os técnicos são chatos e acham legal o Shane Battier e o Joel Anthony, pra fazer corta-luz.

Para os que usam esse critério, Vince Carter e Shaquille O'Neal deveriam ter cadeira cativa no All-Star Game. Da nova safra, muita gente estava exigindo que o Blake Griffin fosse chamado não pelos seus números, mas por aquilo que ele pode fazer na festança, enterrando na cabeça de todo mundo. Na minha opinião ninguém usa esse critério, só os torcedores mais românticos, mas foi ele que levou Blake Griffin para o All-Star esse ano. A imprensa cobrou, os técnicos ouviram, viram as enterradas no YouTube, e acharam que fazia sentido. Caso raro, mas os fãs da festa agradecem.



Critério "Um por todos e todos por um": escolher os jogadores que fazem parte dos times que estão no topo da tabela de classificação

É desse modo que a mente da maioria dos americanos funciona: os melhores jogadores são aqueles que fazem seus times vencerem. Isso gera distorções bizarras, como um Pistons que não tinha nenhuma estrela tendo quase o elenco todo chamado para o All-Star porque o time estava no topo da tabela. Esse critério é usado também na escolha do vencedor do prêmio de MVP, e nós insistimos que ele é um absurdo. Funciona assim: o jogador, para receber o prêmio, tem que ser muito bom, ter bons números. Mas ele também precisa estar num time vencedor, de preferência no alto da tabela. Mas se ele está num time no alto da tabela, com certeza é porque o resto do elenco também é espetacular. Mas se o resto do elenco também é espetacular, o jogador então é menos necessário do que se estivesse num time ruim, então corre o risco de não ganhar o prêmio. Ué, então o cara precisa ser bom, jogar num time bom, mas o time não pode ser bom demais, senão ele perde? Afinal, o prêmio é para o melhor jogador ou para o jogador mais importante para sua equipe? É um prêmio individual ou um prêmio coletivo, para o jogador-símbolo de uma equipe com um elenco bom e vencedor?

No All-Star Game, não tem esse lance do prêmio de MVP de que apenas um pode ganhar, então a  mentalidade gringa faz com que vários dos jogadores que estão nos times do topo sejam agraciados com o prêmio. No Leste, todos os reservas estão nos 4 primeiros times da conferência: Celtics, Heat e Hawks (apenas o Bulls ficou de fora). O Celtics, líder da conferência, teve 4 jogadores convocados dentro das 7 vagas, mais da metade. Todos eles merecem? Apenas se você levar o critério do "time vencedor" em conta, premiando o líder da tabela. A ideia é que, se o Celtics é bom o bastante para ser o líder do Leste, deve ter os melhores jogadores e então o maior número possível deles deve ser chamado para a festa.

No Oeste, 5 dos reservas estão nos 4 primeiros times da conferência (Spurs, Lakers, Mavs e Thunder). O Spurs, que é o líder do Oeste, levou dois jogadores como reserva. O Duncan está tendo uma temporada mais fraca, é velho, está longe dos seus melhores dias de All-Star, mas a mentalidade de quem usa esse critério é essa: "como levar um reserva só do time que é o melhor da temporada até agora?" O Duncan não vai pelo nome que tem, mesma coisa com o Garnett, não é isso. Não é questão de fama ou cadeira cativa. Eles vão por jogarem nos dois melhores times da NBA no momento. Eu acho ridículo, All-Star não é um prêmio para os melhores times, um cara jogar num time vencedor não deveria lhe favorecer na escolha dos melhores jogadores, mas essa é a mentalidade que predomina na imprensa e nos técnicos. Duncan e Garnett jogam no All-Star porque seus times chutam traseiros, e Kevin Love, Zach Randolph e LaMarcus Aldridge ficam de fora porque seus times fedem. O Kevin Love é ignorado porque sua habilidade "não gera vitórias", assim como o Monta Ellis, enquanto os próprios técnicos admitem que a vitória depende do conjunto, já que chamam 4 jogadores do Celtics e 2 do Spurs. Paradoxal, inconsistente, mas é o mesmo critério que se usa para o prêmio de MVP e para dizer que "um jogador é melhor porque ganhou mais anéis de campeão". Se você está bravo porque o Duncan foi convocado mas é daqueles que dizem que o Kobe é melhor porque tem mais anéis, está misturando tudo. O critério, em todos os casos, é de que as vitórias são mais importantes do que tudo para definir a qualidade de um jogador - mesmo que as vitórias dependam do resto do elenco.


Critério "Nerd de estatística": escolher os jogadores com as melhores estatísticas na temporada

Com esse critério, os jogadores chamados são aqueles que estão tendo o melhor ano estatisticamente. Seria um prêmio para as melhores performances, não teria nada a ver com seus times vencerem ou não. O resultado também é uma certa distorção, porque acaba priorizando jogadores que jogam sozinhos em times ruins, onde é mais fácil pilhar estatísticas, mas pra mim faz mais sentido. O Kevin Love não vai ganhar prêmios individuais ou coletivos ao fim da temporada, nada mais justo então que ele seja escolhido para jogar o All-Star em homenagem às suas atuações na temporada. Chamar reservas apenas de times bons é uma punição a mais para aqueles que estão em times sem chance de nada, é ser jogado definitivamente no limbo, na privada. O cara só perde, que participe ao menos da festa e coma de graça se está jogando bem o bastante. Quando o LaMarcus Aldridge foi informado que não tinha sido convocado, ele disse que já sabia, que já tinha avisado os companheiros que não seria chamado. Isso porque seu Blazers hoje está apenas na oitava posição do Oeste, de modo que passa invisível pelos técnicos se esse critério aqui não for usado. E ele não foi. Zach Randolph, nosso gordinho favorito, passou anos e anos sendo ignorado no All-Star porque seus times eram uma droga (e todo mundo dizia que o Randolph era o culpado por isso). O único jogador que pode mostrar que esse critério foi usado é o Blake Griffin, que tem médias espetaculares e seu Clippers amarga a terceira pior campanha do Oeste, mas ainda acho que ele foi chamado apenas pela cobrança da imprensa de que ele se encaixa na festança do All-Star, critério que vimos acima.



Critério "A primeira vez a gente nunca esquece": escolher os jogadores que ainda não estiveram no All-Star ou estão tendo a melhor temporada da carreira

Tem gente que acha que perde a graça ficar todo ano indo os mesmos sujeitos para o All-Star Game. A repetição acontece porque os jogadores continuam a ser os favoritos da torcida, ou continuam em times vencedores, ou mantém os mesmos bons números. Mas e se o All-Star levasse sempre sangue novo, os caras que estão se destacando agora e não tiveram oportunidade de ir no ano passado? 

Acho esse critério bem idiota, mas ele sempre acaba sendo usado todo ano. Alguém que poderia ser considerado para o All-Star mas nunca é lembrado ganha comentários como "mas ele quase foi na temporada passada", "ele ainda não teve uma chance", e acaba indo jogar. Em geral são jogadores meio mequetrefes ou que ainda não estão em nível de All-Star, como aconteceu com o David West um tempo atrás. Foi também o que no ano passado finalmente levou o Zach Randolph, que merecia há um tempão mas não ia porque seus times sempre fedem. Nesse ano, apenas dois jogadores foram chamados pela primeira vez para o All-Star, Russell Westbrook e Blake Griffin, e eles não se encaixam nesse critério. Mas aqueles que afirmam que o Josh Smith deveria ter sido chamado se encaixam aqui, e o mesmo se aplica ao Nenê. Ele tem um ano melhor estatisticamente do que Kevin Love, LaMarcus Aldridge ou Zach Randolph? Não. Ele joga num time que está no topo da tabela? Não. Ele é um jogador divertido para a festa e vai cravar na cabeça de todo mundo? Não, aliás é por isso que nunca chamam pivôs se podem chamar alas no lugar. O que está do lado do Nenê é que seu ano está sendo muito bom para os seus próprios padrões e não existem muitos pivôs no Oeste, mas isso não é o bastante. Sei que todo mundo queria ver o Nenê indo para o All-Star, eu entendo, mas ele só iria pela falta de pivôs e, após as votações populares, esse lance de posição não importa mais. Como vimos, os critérios usados são outros (melhores times, melhores estatísticas, show) e o Nenê não se encaixa neles. Resta então para os que insistem que o brasileiro vá (e por que, mesmo?) que a imprensa choramingue muito que o Nenê merecia, que ele teve um bom ano, que ele sempre foi ignorado, para que o David Stern o escolha como substituto do Yao Ming, machucado. Mas não vai acontecer simplesmente porque a choramingação por outros jogadores, melhores, é maior. Provavelmente será escolhido alguém de um time entre os 8 melhores, com boas estatísticas. Como o Randolph já foi All-Star, ele não se encaixa nesse critério, então a choramingação deve ser por Love e Aldridge mesmo. 

domingo, 22 de agosto de 2010

Uma zona

O Nash dá conselhos para o Leandrinho: "no Canadá tem 
muito urso, mas é melhor que apodrecer no banco"


Volta e meia, sempre tem um carinha perdido por aí dizendo que na NBA não é permitida a tal "defesa por zona", tão usada no basquete da FIBA que se joga no resto do planeta. Assim, quando a seleção dos Estados Unidos enfrenta outras seleções em torneios mundiais, em que valem as regras da FIBA, haveria uma suposta dificuldade em se acostumar, em aprender tudo correndo e em cima da hora. Balela. A partir da temporada 2001-02 a marcação por zona, tão implementada no basquete universitário e portanto conhecida pela imensa maioria dos jogadores, passou a valer sem frescura. Antes, um monte de regras chatinhas dificultava as marcações duplas e a defesa sem a bola, mas já faz quase 10 anos que isso mudou. Todo time decente da NBA eventualmente marca por zona, e a gente viu como o Thunder conseguiu usar essa defesa para dar uma canseira no Lakers nos playoffs passados.

O que não pode é um defensor ficar dentro do garrafão por mais de 3 segundos sem estar acompanhado por outro macho do time adversário. Isso não impossibilita as defesas por zona de forma nenhuma, apenas impede que um gigante chinês fique embaixo do aro o tempo inteiro, obrigando que ele esteja sempre próximo a algum jogador adversário que ocupe aquela área. Se não tiver nenhum adversário no garrafão, o gigante chinês precisa sair do garrafão também. Além disso, aquele desenho de um semi-círculo no chão também impede os defensores de ficarem ali "guardando cachão", como se diz em linguagem de esconde-esconde. Dentro daquele semi-círculo, não importa se o defensor está parado lendo um livro, filosofando, trocando figurinhas ou contando anedotas: se tocar num jogador que esteja atacando a cesta, vai ser falta do defensor, e toca ter sua retina derretida pelas imagens do Ginóbili ou do Dwyane Wade cobrando lances livres.

Ou seja, a marcação por zona existe e está lá, em todas as partidas da NBA (menos as do Warriors, eles nem fingem que defendem). Mas a regra dos três segundos de defesa e o semi-círculo garantem que exista um caminho mais aberto para a cesta, favorecem o time que ataca, e facilitam a vida do jogador que ataca o aro lhe presenteando com muitas faltas e lances livres. O resultado disso é que, na NBA, os placares são mais altos e há um foco maior no jogo de garrafão - não necessariamente dos pivôs, mas de todos os jogadores, incentivados a infiltrar mais. Há mais de um ano atrás, o Rodrigo Alves do Rebote fez um levantamento estatístico fenomenal para descobrir quantos arremessos de três pontos tenta-se por jogo em diversos países, com a finalidade de tentar entender o motivo dos jogadores brasileiros arremessarem tanto de fora. Mesmo eu tendo desenterrado isso de um armário mofado virtual, todo mundo deveria dar uma olhada nesse artigo e nos dados levantados. É fácil perceber que, mesmo jogando partidas mais longas, o pessoal da NBA arremessa muito menos da linha de três do que o resto do planeta. E olha que o Orlando Magic sozinho deve ter inflado essa estatística um bocado.

Sem dúvida nenhuma isso faz parte da cultura de cada país, que pratica o esporte com seu temperinho próprio. No Brasil, por exemplo, a gente arremessa de três como se todo mundo fosse o JR Smith e a marcação por zona é associada a "covardia", coisa de quem "não sabe jogar". Isso fica bem claro no desabafo idiota do Nezinho ao ser campeão do NBB:



Mas há também um grande fator para os jogadores da NBA arremessarem bem menos de três pontos: as regras. Como vimos antes, as infiltrações valem a pena. Nas regras da FIBA, todo time marca por zona o tempo todo, o garrafão fica uma bagunça, infiltrar é quase impossível, e os jogos viram um festival de arremessos de três pontos. As grandes equipes do mundo sabem jogar de várias maneiras, mas se consagram com grandes arremessadores no elenco. Pior do que a seleção brasileira de basquete arremessar demais de três pontos é como os arremessos saem, se jogadas foram planejadas para que saiam livres, se os jogadores são bons arremessadores, se há técnica e velocidade no arremesso. Pelas estatísticas coletadas pelo Rebote, os brasileiros não arremessam tãaaao mais do que o resto do mundo, o que assusta é mesmo o aproveitamento, que fede muito.

Entendo perfeitamente a euforia da torcida brasileira com a presença de um garrafão realmente forte no Mundial de Basquete, formado por Varejão, Nenê e Tiago Splitter, galerinha toda da NBA reunida. Entendo também o receio com a seleção americana, que está mandando para o Mundial um time de reservas dos reservas dos reservas, formado por uns carinhas aí que toparam não tirar férias, e não tem absolutamente ninguém relevante para jogar dentro do garrafão. Mas a verdade é que, contra as melhores defesas do mundo dentro das regras da FIBA, o garrafão acaba sendo muitíssimo secundário. Os Estados Unidos podem colocar 5 jogadores em quadra capazes de arremessar de todo lugar, defender forte pra burro, e aí infiltrar no garrafão nos únicos momentos em que isso é possível: nos contra-ataques. O Brasil, mesmo que ainda tivesse Nenê, que volta para casa agora por estar contundido, teria dificuldades em impor um jogo de garrafão e não tem arremessadores técnicos e inteligentes o bastante para derrotar defesas por zona.

A seleção dos Estados Unidos demorou, mas eles finalmente aprenderam um troço importante: o problema não é levar para o Mundial uma seleção de restos, sem as maiores estrelas da NBA. O problema é levar os jogadores errados para as regras que irão enfrentar. Já vi seleção americana sem um único arremessador, e aí eles levam cacetada na orelha mesmo, não tem jeito. Isso também tem a ver com cultura e com as regras: como na NBA os jogadores que infiltram são beneficiados, é normal que haja uma maior admiração por eles do que pelos simples arremessadores. O Ray Allen nunca vai ter tantos fãs quanto o Dwyane Wade, é simples assim. Então muitas vezes leva-se aquela estrela fodona que não sabe arremessar de três e a equipe não funciona, quando um monte de jogadores secundárias teriam rendido muito mais. Claro que na NBA existem muitos jogadores que podem fazer de tudo ao mesmo tempo, mas levar gente focada nos arremessos é sempre o passo mais fácil para vencer no âmbito internacional. Não é mero acaso que o Carmelo Anthony, apaixonado pelo próprio arremesso, sempre acaba sendo cestinha da seleção americana, e que LeBron e Wade voltaram das Olimpíadas com arremessos de três pontos bem mais calibrados depois de tanto treino. Some a isso o fato de que a linha de três pontos na FIBA é cerca de um metro mais perto do aro do que a da NBA e teremos arremessadores muito eficazes e felizes. Não precisa levar LeBron, Carmelo, Wade e Dwight Howard, tá tudo bem colocar uns pirralhos para arremessar, como Eric Gordon, Stephen Curry, Danny Granger, Kevin Durant, e deixar qualquer manezinho dentro do garrafão mesmo. No basquete internacional, isso é o mais importante para vencer.

A FIBA parece estar ciente disso e colocou em prática algumas mudanças de regras. Pra começar, a linha de três pontos ficará mais longe uns 50 centímetros, o garrafão terá o mesmo formato retangular que o da NBA e o semi-círculo embaixo do aro será adotado. O formato atual do garrafão faz com que os jogadores tenham mais dificuldade de se aproximar da aro com um jogo de costas para a cesta, porque os 3 segundos máximos que um jogador ofensivo pode ficar no garrafão começam a contar mais cedo. Isso também leva vários pivôs europeus a arremessarem de três pontos, pra fugir do jogo lento e truncado do garrafão. Agora a vida de quem joga de costas para a cesta ficará mais tranquila, os arremessos de três ficarão mais dificultados pela distância e o semi-círculo vai recompensar um pouco os jogadores que decidirem infiltrar mais. Não sei exatamente quando as regras passam a valer oficialmente (ouvi dizer que é apenas em 2012, alguém me tira a dúvida?), mas vários torneios do mundo já estão implementando as mudanças, inclusive o NBB. Será uma ducha de água fria na nossa cultura apaixonada pelo arremesso e talvez, aos poucos, mude mesmo o nosso modo de jogar. Não ficaria nada surpreso se daqui a alguns anos a FIBA também colocasse em vigor a regra dos três segundos de defesa, de modo a abrir ainda mais o caminho para a cesta. Embora as diferenças sejam culturais e tem muita gente que gosta bem mais do basquete internacional do que do estilo de jogo da NBA, não dá pra negar que o modelo da NBA é mais dinâmico, privilegia o ataque e é muito mais popular. Se o objetivo é colocar doce na boca da criançada, o caminho é mesmo inibir a bagunça que é o garrafão do basquete internacional.

Mas, por enquanto, em que as regras da FIBA são o paraíso dos arremessadores, o basquete brasileiro ainda sofre mesmo é com a falta de arremessadores competentes e inteligentes. É curioso como nosso trabalho de base, que é limitado por verbas escassas e dificuldades culturais, parece gerar em maior quantidade jogadores enormes de garrafão e forma arremessadores sem critério ou sem a técnica de arremesso adequada. Nos arremessos, Leandrinho sempre deixou muito a desejar (antes mesmo de entrar no draft os relatos de sua mecânica esquisita já espantavam algumas equipes), e sua capacidade de infiltração é muito limitada fora da NBA, em que o garrafão é mais fechado. Seu estilo de jogo simplesmente não casa com o basquete internacional, assim como sua personalidade não casa com ser líder uma equipe como esperam que ele seja na seleção brasileira.

Engraçado é que descobri recentemente, numa entrevista da revista Dime, que o Leandrinho é quem pediu para ser trocado. Depois de tantos anos em que sair de Phoenix era o grande pavor de sua vida (lembro de um causo em que ligaram para o quarto de hotel do Leandrinho avisando que ele tinha sido trocado só de brincadeira e ele saiu chorando na frente dos colegas de equipe), parece que agora ele quer um papel maior, mais oportunidade de jogo, novas chances de ganhar minutos em quadra. Pediu para ir para o Raptors porque é amigo do engravatado Bryan Colangelo e acha que lá terá oportunidades para ser titular. Bacana. Mas mesmo essa maturidade e vontade de jogar não conseguem camuflar o fato de que Leandrinho não quer liderar uma equipe e tem uma enorme dificuldade em organizar as jogadas ofensivas de qualquer time (papel que Goran Dragic faz muito melhor e tornou o Barbosa desnecessário no Suns). Seu jogo depende da velocidade, não dos arremessos, e de receber a bola em contra-ataques, não de chamar jogadas. Seria muito tolo imaginar que ele pode chegar chutando traseiros na seleção brasileira quando tudo que acontece por ali vai contra seu estilo de jogo.

Do mesmo modo, Varejão e Splitter devem render muito bem na NBA na próxima temporada, mas serão limitados pelas possibilidades do basquete internacional. Varejão deve render muito, apesar da forma física meio baleada, quando se trata de defesa. Mas as principais armas ofensivas adversárias estarão no perímetro e, ofensivamente, Varejão não conseguirá segurar as pontas. Splitter é um jogador refinadissimo embaixo da cesta, do tipo que arrota em francês, mas a defesa por zona torna suas atuações muito mais complicadas - dificilmente conseguirá dominar uma partida por completo. Curiosamente os melhores momentos da seleção brasileira surgem quando Marcelinho "irch" Machado acerta a mira, então não dá pra esperar milagre nem do Splitter, nem da seleção - a gente já sabe que o Marcelinho vai ganhar um jogo e perder outros dois se receber sinal verde para arremessar.

Não acredito que o Splitter vai chegar na NBA chutando traseiros e dominando o garrafão do Spurs, falta físico e levará um tempo para que ele se acostume com mais contato e mais espaço para se mover perto do aro. Mas arrisco dizer, sem muito medo, que ele será eventualmente melhor na NBA do que foi na Europa, tudo graças às regras diferentes. Dar espaço para o Splitter atuar é pedir para ele te fazer de bobo, assim como o Duncan faz tão bem até hoje e terá o maior prazer (embora a cara não vá mostrar) de ensinar para o Splitter como lidar com os brutamontes que estarão lá para marcá-lo.

As notícias são boas para os brasileiros na NBA, mas no Mundial não consigo ver qualquer traço de esperança. Como expliquei em outro post, não vemos muito motivo em ficar torcendo para a seleção só porque compartilhamos as mesmas linhas imaginárias, idioma e piadinhas com a Preta Gil - mas dessa vez o sucesso da seleção apontava para uma atenção que o esporte não recebe há décadas no país e que traria recursos, incentivo e apoio para a base. Infelizmente não será dessa vez. Com ou sem Nenê, iriamos enfrentar defesas por zona incríveis durante todo o Mundial e o jogo de garrafão estaria imediatamente limitado, exigindo um preparamento ofensivo que - focado na defesa - o técnico Magnano não conseguiu colocar em prática. Sem Nenê, então, pior: perdemos defesa no garrafão e voltamos a olhar apenas para o perímetro, onde Leandrinho estará pensando em como será legal jogar na terra de seu colega Steve Nash, o Canadá, onde não terá que liderar uma equipe e nem ficar arremessando o tempo inteiro.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Saída pela direita

Devin Harris apela para o "ora que melhora"


O Nets nem é tão ruim assim. No ano passado dissemos como o time era promissor, e quando eles apertaram o botão do apocalipse e trocaram Vince Carter para o Magic, apoiamos a decisão e cheguei a afirmar que a equipe não passaria muito tempo fora dos playoffs. No entanto, eles estão prestes a fazer história: perdendo para o Mavs na quarta-feira, o Nets terá o pior início de temporada de todos os tempos, tendo perdido suas 18 primeiras partidas.

Devin Harris, estrela do time, lesionou feio a virilha e só jogou 7 partidas na temporada. Yi Jianlian, que impressionou a imprensa com seus treinos públicos em New York durante suas férias, ferrou o joelho e está fora por tempo indeterminado. Jarvis Hayes jogou muito bem na pré-temporada mas lesionou o punho nos primeiros dois minutos da estreia do Nets na temporada (isso é que eu chamo de ejaculação precoce) e não jogou desde então. Keyon Dooling e Tony Battie, que vieram na troca do Carter, se machucaram na pré-temporada e ainda não jogaram oficialmente pelo Nets. Chris Douglas-Roberts, que finalmente estava se tornando a arma ofensiva que se esperava dele na noite do draft, pegou gripe suína. O Courtney Lee, que ficou tão puto de ser trocado pelo Magic que jurou vingança contra toda a humanidade, também se machucou e passou uns jogos fora. O Bobby "só jogo em ano de contrato" Simmons ficou gripado e não jogou, mas pelo menos era uma gripe comum. Até o Eduardo Najera, que é tão secundário que nem as lesões lembram dele, acabou contundindo as costas. O Trenton Hassel teve problemas pessoais e passou um tempo afastado. Ou seja, o Nets está mais amaldiçoado do que o set do "Poltergeist".

O time chegou ao cúmulo de jogar apenas com o Brook Lopez da lista de titulares, e apenas dois jogadores no banco de reservas. Todo o resto do elenco estava de terno, fazendo o Nets parecer mais uma reunião de executivos ou vendedores de seguro do que um time de basquete. Tendo isso em vista, não é surpresa que tenham perdido tanto. Já vi time pior jogando e ganhando uma vez ou outra, esse Nets só tem um azar descomunal que lembra bastante o Clippers e sua lendária maldição. Mas é claro que o técnico, o Lawrence Frank, não ajuda. A gente sempre bateu na tecla de que ele era um dos piores técnicos da NBA (o que imediatamente coloca ele na lista de prováveis ganhadores do prêmio de Melhor Técnico do Ano, vai entender!), jovem demais, nerd demais e incapaz de lidar com a equipe. Estava na hora de mandar o sujeito empilhar coquinho na descida, mas ao menos tiveram a decência de se livrar dele antes que seu nome ficasse para sempre como o dono do recorde de pior começo de temporada.

Os atuais recordistas são o Clippers de 1999 e o Heat de 1988, com 17 derrotas para começar a temporada com o pé esquerdo. Quando o Nets perdeu sua décima sexta partida, o Lawrence Frank ganhou o respiro de que precisava: foi demitido, escapou do recorde negativo, fugiu pela famosa saída pela direita. Quem assumiu o Nets contra o Lakers fora de casa, na certeza óbvia de que iria igualar o recorde, foi um técnico interino de que nunca lembraremos o nome, tipo os oitocentos novos presidentes de Honduras. Ou seja, o fardo da vergonha ficou meio diluído e ninguém vai ter sua foto na Wikipedia do lado do verbete "fracasso".

Mas agora o negócio começa a ficar sério: se perder a próxima partida, dessa vez contra o Mavs, o pobre-coitado do Nets vai ter o pior começo de temporada já visto pelo homem. Essa sim é uma vergonha que faria até o Clippers corar constrangido, e é preciso ao menos uma tentativa de evitar o vexame. Para isso, assume o Nets o Kiki Vandeweghe. Além do nome filho-da-mãe que exige uma consulta no Google toda vez que se quer escrever, um fato curioso sobre o Kiki é que ele é justamente o responsável pelo pior time que eu já vi jogar.

Infelizmente não tenho muitas memórias basquetebolísticas em 1988, mas eu acompanhava NBA a fundo em 1999 quando o Clippers igualou o recorde de 17 derrotas para começar a temporada. O problema é que naquela época não era tão fácil acompanhar partidas pela internet, ainda havia até aquela coisa bizarra conhecida como "net discada", o modem fazia barulho ao se conectar, quase como se fosse uma robô prenha dando a luz, e a gente ficava nas mãos basicamente das transmissões para a tevê brasileira. Isso significava, na época, que a gente só via jogos da chatisse do Spurs, ninguém em sã consciência iria transmitir para o Brasil uma partida do Clippers. Isso quer dizer que aquele Clippers pode ter sido um dos piores times de todos os tempos e eu infelizmente não pude ver o elenco jogar. Por isso, o pior time que já presenciei foi o Nuggets de 2002: o Nenê tinha acabado de ser draftado e a televisão brasileira adorava a ideia de mostrar o novato tupiniquim. O resultado foi uma tortura em massa que deve ter afastado milhares de brasileiros do basquete e causado uma série de suicídios coletivos, porque aquele Nuggets fedia demais! A estrela do time era Juwan Howard, que seria terceira opção ofensiva em qualquer timezinho razoável, e todos os outros jogadores desapareceram em pouquíssimo tempo, incluindo um dos maiores desastres da história do draft da NBA, o lendário Nikoloz Tskitishvili, o "Skita". Draftado antes do Nenê, o pivô da Geórgia faz o Kwame Brown parecer um gênio do basquete e da física quântica.

O Kiki Vandeweghe montou aquele Nuggets terrível, mas também draftou Carmelo Anthony e levou o time para os playoffs. Mas como o elenco nunca melhorava e a torcida queria sua cabeça, acabou indo pra rua, para enfim ser acolhido pelo Nets para dar palpite na reconstrução do time. Por mais polêmico que o cara seja, por mais que ele feda, conseguiu pegar o pior time que eu já vi jogar e levar para os playoffs alguns anos depois. Era exatamente do que o Nets precisava. Mas agora, no desespero, ele assumirá o cargo de técnico do Nets - um nome ao menos conhecido o bastante para receber o peso de perder para o Mavs, e que talvez tenha um nome a zelar o suficiente para tentar impedir o desastre. Ele não tem experiência como técnico, embora tenha sido assistente no Dallas por uns tempos, mas o negócio dele é reconstruir, cuidar da meninada e lidar com jovens talentos. Foi ele quem lidou pessoalmente com o Nowitzki no começo de carreira, e o Nets precisa mesmo se focar mais na parte administrativa, indo com calma com os jovens talentos, do que se preocupando com um baita técnico de ponta para ganhar partidas agora. Olha, já foram 17 partidas pelo ralo em sequência, a temporada já foi pras cucuias, não resta nada para o time além de sentar na guia, chorar as pitangas, tomar uma pinga e esperar pela próxima escolha de draft. Então, que se lasquem as próximas partidas, o negócio é cuidar do núcleo jovem e tentar não queimar ninguém nem permitir que a depressão se instaure no ambiente fracassado do time. Convencer todo mundo de que as derrotas são normais, de que em dois anos eles vão estar nos playoffs, que as lesões foram apenas azar. E impedir, a todo custo, que a décima oitava vitória seguida venha. Esses garotos não merecem seus nomes injustamente na história da NBA, eles não fedem o bastante e isso pode complicar suas pretensões futuras.

É por isso que não importa quantos jogos bons estejam passando na quarta-feira, quantas estrelas estejam em quadra, o jogo a se assistir é o Nets e Mavs. Se o Kiki conseguir uma vitória, será um feito histórico de um time que não merecia se lascar tanto e que em um par de anos estará maduro e brigando com os grandes. E se o Nets perder, será uma chance de ver história sendo feita, algo que maculará para sempre o ânimo dessa equipe. Não perca história sendo feita, você não quer ficar como eu, lamentando não ter assistido o Clippers de 1999, não é mesmo?