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domingo, 9 de janeiro de 2011

Pacers do mundo bizarro

Mike Dunleavy sempre foi conhecido pelas belas fotos


Quando comentei aqui sobre a idéia do LeBron James de diminuir o número de times na NBA (ele depois negou ter dito isso), dei o exemplo de como seria a liga sem seis times, um deles o Indiana Pacers. Nos comentários isso provocou a revolta de pelo menos um torcedor que disse que Indianápolis e todo o estado de Indiana eram muito importantes para o basquete e que isso não deveria nem ser cogitado.

Ele tem razão ao dizer que Indiana é um estado importante no basquete. O Pacers e principalmente o Indiana University Hoosiers têm história e tradição no basquete americano, mas isso não é o bastante. O Seattle Sonics tinha 40 anos de NBA e uma base de torcida enorme antes de acabar de vez. Os torcedores então não deveriam se focar tanto na tradição, a cultura americana não é tão apegada a isso, e se preocupar em melhorar sua situação econômica e basquetebolística. Sem saber dos detalhes econômicos do time, nos limitamos a comentar do elenco. E convenhamos, ter um bom time e atrair mais público, TV e jogos de playoff é um bom começo pra arrecadar bufunfa.

No preview da temporada eu disse que considerava o trio do Indiana Pacers com Darren Collison, Danny Granger e Roy Hibbert mais promissor que outros trios de times medíocres e jovens, no caso Wolves (Jonny Flynn, Kevin Love e Wesley Johnson) e Nets (Devin Harris, Derrick Favors e Brook Lopez). As coisas mudaram um pouco de figura quando, depois disso, o Wolves trocou pelo Michael Beasley e ele começou a jogar muito. Hoje prefiro o trio do Wolves, com Beasley e não Flynn, embora nessa temporada o Pacers seja um time melhor.

Não que esteja tudo como planejado, o Darren Collison, por exemplo, não está jogando no mesmo nível da temporada passada pelo Hornets, quando substituiu Chris Paul e foi um dos melhores novatos do ano. Número por número o jogador tem hoje 13 pontos por jogo e acabou a temporada passada com 12, mas o meu critério de comparação é com quando foi titular no Hornets, não reserva. Isso aconteceu nos últimos três meses de 2009-10 e suas médias foram: 21.6 pontos em fevereiro, 17 pontos em março e 19 pontos em abril. Nas assistências foram 8.3, 9.1 e 7.7. Nessa temporada ele tem apenas 4.3 assistências por jogo.

Mas por que diacho o Collison caiu tanto de produção? O Indiana Pacers é um dos times que joga em ritmo mais veloz na NBA, bem mais do que o Hornets, o que eu achei que fosse fazer o Collison se adaptar rápido, mas acabou sendo o contrário. Pode ser só impressão, mas eu acho que ele não funciona muito bem só chegando no ataque e distribuindo um passe preciso para a finalização, como faz o Steve Nash no Suns, por exemplo. Ele funcionava melhor em um ataque de meia quadra que explorava vários pick-and-rolls como no Hornets. O Pacers é um time mais de arremessadores e que deixa o garrafão só para o Roy Hibbert trabalhar, limitando o Darren Collison a arremessos mais distantes ao invés de ter espaço para infiltrações.

A falta de entendimento tático tem influenciado também a confiança do Collison, que muitas vezes aceita ser só um carregador de bola da defesa para o ataque, onde entrega para Danny Granger e Roy Hibbert jogarem como bem entenderem. A passividade do Collison fez ele perder espaço na rotação e não é incomum ver o TJ Ford e até o AJ Price jogando quartos períodos no lugar dele, o técnico Jim O'Brien disse que muitas vezes o Ford joga os finais de jogo por sua agressividade na defesa e experiência no ataque. Quando você perde vaga por causa da defesa furada do TJ Ford e sua "experiência" que faz com que ele tente os arremessos mais imbecis da história do basquete (JR Smith à parte) é porque a coisa tá feia. Às vezes acho que é uma mensagem do tipo "Seja agressivo como o TJ Ford, mas do jeito certo".

Mas é difícil culpar só o TJ Ford por tentar arremessos burros porque esse é um dos times que mais força bolas estúpidas na NBA e eu nem esqueci do Warriors! O Danny Granger arremessa bolas longuíssimas de três com muito tempo no relógio, o Roy Hibbert insiste nos arremessos de Ilgauskas ao invés de jogar perto da cesta e o Brandon Rush só tem um pouco do meu perdão porque ele tem aquela liberdade concedida a todos os grandes arremessadores para arremessar sempre que receber a bola. É o tipo de jogador que se não chutar quando tiver a chance sai do time (embora tenha saído melhor do que a encomenda na defesa individual). O novato Paul George é outro que tenta umas coisas inexplicáveis, mas com a desculpa de ser só um novato, ser um time veloz não justifica tantas bobagens.

O Hibbert e o Granger, aliás, são um caso estranho nessa temporada. Nos primeiros 16 jogos da temporada Granger teve média de 22.6 jogos e Hibbert 16.1. Nos 16 jogos seguintes eles caíram para 19.1 e 11.1 respectivamente, em rebotes o Hibbert ainda caiu de 9 para 7 por jogo. Quer um número pior? Hibbert tem acertado apenas 41% dos seus arremessos! Irgh! Para um ala isso já é ruim, para um pivô é péssimo e para quem começou a temporada tão bem é um colapso inexplicável. E embora eu reclame que ele chuta muito de longe, os números dizem que nos últimos jogos, quando seus números caíram, ele está até arremessando um pouquinho mais de perto. Apenas tem errado, simples assim. O blog especializado no Pacers "Eight Points, Nine Seconds" comenta melhor esses dados.

Com Granger e Hibbert atuando bem, o Pacers tem lugar na briga (medíocre) pelas últimas posições no playoff no Leste, mas com eles jogando como estão, já era. Até porque como alertamos no nosso preview, eles tem dois buracos nas posições 2 e 4 que ainda não foram preenchidos. O Brandon Rush foi o escolhido para algumas ocasiões, mas como ele é muito limitado, costuma vir do banco, deixando lugar para o Mike Dunleavy, o que seria uma boa se ele tivesse só dias inspirados, mas é irregular como uma TPM. Na posição 4 já tivemos o mesmo versátil Mike Dunleavy deixando o time baixo e cheio de arremessadores, o agressivo Josh McRoberts, que é empolgante mas pouco eficiente, e finalmente Tyler Hansbrough nos últimos dois jogos. De todos, o Psycho-T é o que eu acho que vai ficar no time titular porque combina as qualidades dos outros: é agressivo nos rebotes como McRoberts, e tem velocidade e um arremesso decente de meia distância para abrir a quadra como Dunleavy.

Um outro jogador que eu sempre comentei que poderia ganhar espaço é o novato Lance Stephenson, ídolo absoluto nos seus tempos de colegial e que acabou só saindo na segunda rodada do Draft desse ano (uma posição depois do Landry Fields). Mas ele não entra em quadra nem a pau, na sua volta para sua terra natal, Nova York, o NY Daily News entrevistou o garoto e parece que vai demorar para ele entrar em quadra mesmo. O time está tendo paciência com ele, mas ele é ainda, pra falar a verdade, um jogador de streetball. Ainda precisa aprender a se portar como armador, a participar coletivamente da defesa e tantas outras coisas. "Ele precisa trabalhar em todo o seu jogo. Em tudo", disse o técnico Jim O'Brien. Se um dia Stephenson estourar na NBA ele deve muito a essa comissão técnica cheia de paciência.

Ou seja, é um time com bons jogadores, mas todos com muitos defeitos que o fariam reservas na maioria dos bons times por aí. Mas como essa é a realidade do Pacers por muitos anos, alguma coisa tinha que ser feita e o Jim O'Brien, nunca conhecido por sua defesa, fez milagre. Hoje o Pacers é a sétima melhor defesa de toda a NBA! O segredo para essa mudança está na dupla pressão de perímetro e Roy Hibbert . O time rápido pressiona os adversários na linha dos três com defensores atléticos e rápidos (George, Granger e principalmente Posey), evitando penetrações, e o Hibbert, 6º da NBA em tocos, protege bem o garrafão. Os adversários do Pacers acertam em média 43% dos seus arremessos, é a terceira melhor marca da NBA, atrás apenas de Bulls e Heat. Na defesa do garrafão também estão em terceiro, atrás de Celtics e Magic.

A conclusão dessa análise do Pacers é que caímos no mundo bizarro. O Spurs é o time veloz que precisa arrumar sua defesa e tem um dos ataques mais velozes e envolventes da NBA e o Pacers do Jim O'Brien (meu deus!) se mantém na briga pelos playoffs por sua defesa e precisa acertar o ataque para ir longe. Se um dia eu largar o blog é porque estou achando tudo tão estranho que enlouqueci e estou no hospício.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Preview 2010-11 / New Orleans Hornets

- Ai, olha a roupa dela, que mico!


Objetivo máximo: Tornar disputada uma série de playoff
Não seria estranho: Passar longe de se classificar para os playoffs
Desastre: Mais uma temporada com Chris Paul contundido

Forças: Um carinha lá que dizem que até que é bonzinho armando
Fraquezas: Um elenco sem pontuadores nem jogadores capazes de chamar a responsabilidade

Elenco:








....
Técnico: Monty Williams

Novo técnico do Hornets, Monty Williams não tem qualquer experiência como técnico de basquete. Sequer treinou o time de basquete do filho no colégio. Não deu tempo, já que Monty era jogador da NBA e acabou de se aposentar faz pouco tempo, em 2003. Era um jogador mediano feliz da vida por ter passado 9 anos jogando na NBA após ter sido avisado, ainda no basquete universitário, que um problema cardíaco lhe impedia de praticar qualquer esporte. Foi obrigado a passar dois anos parado até que, segundo ele, Deus fez um milagre e sumiu com qualquer traço da doença cardíaca. O médico responsável pela cura, que não chamava "Deus" mas sim Lameh Fanapazir, usou procedimentos muito arriscados que deram incrivelmente certo e Monty Williams foi capaz de ter uma longa carreira no basquete. Assim que se aposentou, foi chamado para passar uns tempos com o técnico do Spurs Gregg Popovich, acompanhando o time, vendo os treinos, os vídeos, as análises táticas, pra ver se ele gostava da ideia de ser técnico um dia. Acabou ficando por lá, aprendendo as funções básicas dos estagiários, até que lhe chamaram para ser assistente técnico no Blazers. Sua fama é de ser um cara simpático, divertido e educado, completamente focado no desenvolvimento dos jogadores. Dizem que sua casa está sempre aberta caso algum jogador queira descansar, comer ou assistir a algum filme, e nas viagens seu quarto é sempre tomado por jogadores querendo conversar e desabafar um pouco. Nos treinos, Monty Williams foi responsável pela melhora nos arremessos de Travis Outlaw, Martell Webster, e até na melhora nos lances livres do Joel Przybilla. Enquanto o técnico do Blazers, Nate McMillan, não tem saco pra bobagem e está sempre intimidando os jogadores a obedecerem ou darem o fora, Monty Williams é o cara legal que sempre diminui os confrontos.

Sua experiência tática vem apenas da observação de caras com quem trabalhou, como Popovich e McMilan, ou de técnicos para quem jogou, como Larry Brown e Pat Riley. Mas sua compreensão de todos os aspectos de uma equipe técnica, como análise de vídeo, preparo dos jogadores e estudo do adversário permitem que ele faça parte de todo o precesso ao invés de ser apenas o cara que fica na quadra dando ordens. Sua contratação pelo Hornets permite não apenas acalmar e ouvir Chris Paul, mas também trabalhar com cada um dos jogadores individualmente, o que será essencial para o núcleo do time que é muito jovem e ainda cheira a fralda. A princípio, veremos um Chris Paul mais calmo e um time disposto a melhorar, mas o desempenho do Monty Williams com a prancheta é que será decisivo para o sucesso do Hornets. Ao menos no papel, o técnico deverá passar os próximos 3 anos com a equipe - e se o Chris Paul der o fora, Monty Williams vai ter um longo trabalho reconstruindo a equipe e lidando com novatos, que é realmente seu ponto forte.

...

O Hornets gira ao redor do Chris Paul assim como o Universo gira em torno da Alinne Moraes e o mundo da gastronomia gira em torno do bacon. Quando Chris Paul foi obrigado, no começo da temporada passada, a ser um dos cestinhas da NBA porque não tinha ninguém para passar a bola, o time ia mais ou menos mas não passava vergonha. Sem ele, contundido, o time se viu diante de um dos ataques mais estagnados de toda a liga. As coisas só não ficaram piores porque o então novato Darren Collison tinha, assim como Chris Paul, as características perfeitas para render naquele esquema tático, mas ainda assim não tinha como levar o time muito longe.

Desde o começo fui a favor de trocar Chris Paul ou Collison, porque não faz sentido seus dois melhores jogadores terem características parecidas, jogarem na mesma posição e não renderem juntos. Como em filme de Velho Oeste, o Hornets era pequeno demais para eles dois, e o escolhido para ir foi Collison. Em troca dele, Trevor Ariza veio compor um elenco que precisa desesperadamente de ajuda depois do Chris Paul ter passado as férias inteirinhas reclamando que o time fedia e que ele queria ser trocado. Convenceram o rapaz a ficar, trouxeram o Ariza, mas ainda acho o elenco muito limitado.

Na troca do Darren Collison, o Hornets fez questão de se livrar do James Posey, que é um jogador espetacular para times que já estão formados mas que não faz nada de mais em times que estão apenas brigando para ir aos playoffs. Quando Posey foi contratado, o Hornets tinha acabado de fazer uma campanha completamente atípica e acharam, depois de uma boa dose de cachaça, que faltava apenas um bom reserva para serem campeões. Agora que caíram na real, pagar 13 milhões para um cara que deveria ser apenas uma peça final num elenco vencedor é a maior burrada. O que o Hornets não sabe, no entanto, é que ao adquirir o Trevor Ariza está pegando praticamente a mesma coisa. Pelo menos ele ganha apenas 7 milhões, mas ele também só rende de verdade num time que já lute pelo anel de campeão. No tempo em que esteve no meu Houston, foi muito eficiente e versátil em quadra, mas fugiu de toda e qualquer responsabilidade e mostrou todas as suas limitações em quadra, como a dificuldade de criar o próprio arremesso ou de bater bola. Ao lado de Chris Paul, vai render milhões de vezes mais do que rendia no meu Houston, mas não deve chegar a fazer uma diferença muito grande em quadra - especialmente se levarmos em conta que o Chris Paul disse, ao receber o Ariza em New Orleans, que "chegar aos playoffs não será o bastante", que ele quer "vencer tudo".

Com David West cada vez mais limitado conforme as defesas foram se acostumando com ele, não resta nenhum outro pontuador sólido na equipe. West está em seu auge quando as defesas estão olhando para o outro lado ou para outro jogador e ele pode aproveitar os espaços vazios da quadra, o que não é mais o caso desde que Stojakovic só falta andar de cadeira de rodas. As aquisições do Hornets tentam, mas não devem ajudar muito: Belinelli é um bom arremessador mas carece de fundamentos em todo o resto, Willie Green não tem critério e mais prejudica do que auxilia quando se mete a arremessar, Joe Alexander só sabe enterrar e não consegue nem escovar os próprios dentes. A grande esperança do time na parte ofensiva é Marcus Thornton, que teve uma excelente temporada de novato durante a ausência de Chris Paul. O pirralho é bom arremessador e sabe colocar a bola no chão, com infiltrações eficientes. Se ele puder se tornar um pontuador consistente, David West vai ter mais espaço em quadra, vai parar de bater cabeça com o Okafor, e Trevor Ariza poderá render melhor sendo apenas aquele jogador faz-tudo que garantirá as vitórias. No entanto, sem um pontuador constante, o Hornets se torna um time limitado, exposto, e nem Ariza nem David West são capazes de colocar um time nas costas. Caberá ao Chris Paul, pra variar, salvar o dia, mas ele pode encher o saco logo e retomar os papos de troca assim que o negócio não dar certo.

Há uma nova esperança na área, contudo. Temos o costume por aqui no Bola Presa de ter um post para cada uma das trocas que acontecem, mas na correria de tentar publicar todos os previews antes da temporada começar deixei para falar de uma delas aqui: o Blazers mandou Jerryd Bayless para o Hornets em troca de uma escolha de primeira rodada. O Blazers há uns dois anos já sofre com o excesso de jogadores bons nas posições de armação, e Bayless é um excelente pontuador que gosta de ter a bola nas mãos enquanto Brandon Roy exige a bola nas próprias mãos na maior parte do jogo e o resto da armação cabe ao Andre Miller. Bayless simplesmente não tinha espaço, e agora o Blazers ganhou mais uma escolha de draft - plano fantástico que gerou todo o talento jovem que forma a equipe incrível e divertida que vemos hoje em dia. Para o Hornets, foi uma maravilha porque Chris Paul precisa ver sinais de esperança agora, não num draft futuro. Bayless é um pontuador nato que poderá armar o jogo quando Chris Paul sentar (já que o armador reserva, Darren Collison, agora arma o jogo do Pacers) e quando jogarem juntos o fardo ofensivo deverá recair no Bayless, liberando Chris Paul para a armação pura e simples. O problema nessas horas será a defesa, mas o cobertor é mesmo curto demais mesm e depois é hora de ver isso. No momento, o Hornets está colocando em vigor a "tática Cavs": traga quaisquer jogadores que tenham duas pernas e pareçam poder ajudar, porque precisamos enganar, digo, ajudar, o Chris Paul para convencê-lo a ficar.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Dor de cabeça adiada


Chris Paul feliz em ver Ariza na sua frente



Vamos continuar hoje a falar da troca gigante que aconteceu ontem. Pra quem quer saber dos jogadores envolvidos, é só ler o post do Danilo, que analisou como Pacers, Rockets, Nets e Hornets ficam após trocarem alguns jogadores importantes. Hoje, nesse post, daremos mais atenção ao Hornets, que foi meio deixado de lado ontem porque merecia um texto só para ele. A história dessa troca, para eles, é mais demorada e envolve algumas questões mais complexas e até polêmicas.

Tudo começou com uma mudança radical no New Orleans Hornets. O presidente de basquete Hugh Weber mandou embora o ótimo treinador Byron Scott no começo da temporada passada. Tudo bem, dizem que a relação dele com alguns jogadores não era boa, mas para o lugar entrou o então General Manager Jeff Bower, que ficou no time até o fim da temporada com jeitão de técnico temporário. Aí logo depois do Draft, Weber atacou de novo. Mandou embora Bower dos cargos de técnico e GM ao mesmo tempo e chamou o ex-jogador Monty Williams para ter seu primeiro trabalho como técnico à frente do Hornets. (O leitor Lucas me corrigiu dizendo que o Weber primeiro demiriu Bower apenas como técnico, ele continuou como GM, nomeou Monty Williams técnico e aí sim foi mandado embora) Depois nomeou Dell Demps como novo General Manager. Embora Demps tenha experiência como vice-presidente de basquete no Spurs e até como olheiro do mesmo time, nunca havia trabalhado como GM, era outro estreante. Foi o bastante para enfurecer Chris Paul.

O armador já passou da fase de adaptação à NBA e não há duvidas de que ele está na elite da liga atualmente. Alguns podem preferir Deron Williams, Steve Nash ou até Rajon Rondo, mas não há uma pessoa que não coloque o Chris Paul como um dos três melhores armadores do mundo na atualidade. E ele está morrendo de medo de viver o auge da sua carreira em um dos times mais pobres da NBA, que faz trocas pensando mais em questões financeiras do que em basquete e que é treinado e gerido por dois novatos.

Uma vez eu vi o Chris Webber, ex-jogador, dizendo que os jogadores não tem problema em obedecer técnicos novos, mas que dificilmente confiam nele logo de cara. Nas palavras dele, "Jogadores que querem vencer querem ter em volta outros que já venceram antes". Engraçado que todo técnico campeão tem que ter sido campeão pela primeira vez um dia, mas para os jogadores isso não existe, não querem se arriscar.

O CP3 foi até à direção do time e então exigiu uma troca. Foi o bastante para pipocarem rumores dele no Blazers, no Knicks, no Magic e, claro, no Lakers, o único time que está envolvido em qualquer boato mesmo quando não há qualquer chance de conseguir o jogador. E aqui é o primeiro tema polêmico. O que achar de jogadores que exigem ser trocados?

Eu acho esse um dos temas mais difíceis de ter uma opinião formada. Penso nisso faz tempo porque faz tempo que jogadores pedem para ser trocados, mas é complicado de decidir. Por um lado o jogador tem contrato com o time, acertou por uma quantia zilionária por muitos anos e faz parte do jogo estar em um time bom ou ruim, que tivesse escolhido melhor quando assinou o contrato. Por outro, dinheiro não manda em tudo, não é porque o cara é empregado que ele deve ficar quieto e aceitar tudo. Se ele sente que o time está sendo mal gerido, que foram por caminhos diferentes daqueles prometidos na época do contrato, ele deve ter o direito de contestar.

Pra sair de cima do muro, fico contra os jogadores na maior parte dos casos. Geralmente a razão dada é "quero jogar em um time vencedor". Tá bom, e eu quero ser rico e comer a Alinne Moraes. Não dá pra ter tudo. A Alinne Moraes é uma só e só tem um namorado, a NBA tem 30 times e não dá pra todos serem bons, alguns jogadores tem que ficar nos ruins, faz parte da brincadeira. Faz mais sentido pedidos de troca como o que o JJ Redick já fez para o Magic, ele estava afundando no banco e queria ir para um lugar onde tivesse tempo de quadra, aí sim!

Tem ainda as consequências do pedido (ou exigência, depende do nível de educação e raiva do jogador). O time não é obrigado a trocá-lo porque ele pediu, mas e como fica o clima no time? Ele vai jogar no mesmo nível ou vai boicotar, como fez o Vince Carter quando estava doido para sair do Toronto Raptors e chegou a contar para um adversário como seria a última jogada do seu time em um jogo empatado?

Talvez a solução para isso esteja nos contratos. Assim como alguns jogadores (poucos) tem a opção de vetar trocas envolvendo eles, alguns jogadores poderiam colocar termos que dão a opção dele poder cobrar uma troca em tal período de tempo. Os times não gostariam, mas talvez jogadores do nível do Chris Paul conseguissem.

Outra polêmica foi o envolvimento do LeBron James, sempre ele, na história. Hoje em dia qualquer história polêmica tem o LeBron no meio, é um Alonso/Schumacher da NBA. Ele é grande amigo do Chris Paul, ficaram muito próximos depois que passaram bastante tempo junto nas Olimpíadas de 2008. E em conversas nessa offseason o LeBron teria (nenhum jornalista americano teve as bolas de afirmar com 100% de certeza que isso aconteceu) aconselhado o Chris Paul a exigir uma troca para não perder tempo em times sem chance de vitória.

Os dois tem, inclusive, o mesmo agente, Leon Rose, que também cuida da carreira de Carmelo Anthony, que junto com CP3 foi cogitado para ir para o New York Knicks no ano que vem para formar um outro trio de ferro com Amar'e Stoudemire. Esse envolvimento de outros jogadores e de outros times com o Leon Rose fez até a NBA soltar uma carta para todos os times dizendo que é proibido abordar um jogador que está sob contrato, deve-se negociar diretamente com o time.

De novo pode-se ver a história sob duas perspectivas. Ou você acha normal o LeBron aconselhar um amigo próximo sobre suas decisões na carreira, ou você acha um absurdo o LeBron ficar metendo o nariz em equipes de que ele não faz parte. Além de ser odiado em Cleveland, seria mal recebido em New Orleans também, que fase! Eu acho normal um amigo dar conselhos para o outro. Os dois são próximos, tem a mesma profissão e eventualmente querem ou precisam de um conselho. Se o Leon Rose ficou oferecendo e negociando com outros times antes da hora, aí sim é sacanagem, mas deixa o LeBron falar o que quiser para o Chris Paul, que é grandinho e vai saber decidir por conta própria.

O Hornets tinha a opção de trocar o Chris Paul e resolver logo essa dor de cabeça. Como o Danilo disse ontem, CP3 é bom, caro, todo mundo sabe disso e dava pra tentar conseguir uma coisa boa em troca, melhor do que conseguiram pelo Darren Collison. Mas isso é a teoria, como seria na prática? O que ofereceram por Chris Paul? Teriam que contar também com o prejuízo que daria perder um dos jogadores que ainda rende venda de camisas, ginásio cheio e jogos na TV. Tanto que para compensar a parte econômica, todos que tentassem Paul teriam que levar o contrato-monstro do Emeka Okafor junto.

Para a imprensa americana, chegaram três propostas de troca. Os times não confirmam que foram exatamente assim, mas as fontes são confiáveis:

1. Blazers: Eles teriam oferecido Nicolas Batum, Andre Miller, Joel Pryzbilla, Jerryd Bayless e a escolha 22 do último Draft pelo Paul. É a típica troca de quantidade por qualidade que o Hornets fez certo em recusar. Mas dizem que houve outra em que ofereceram Greg Oden ao invés de Pryzbilla e Bayless. Essa dava pra considerar, mas seria ainda trocar a certeza pela dúvida.

2. Knicks: Pelo o que dizem, as conversas não avançaram muito, mas o Knicks teria oferecido qualquer coisa do elenco deles com exceção do Amar'e Stoudemire. Isso antes de terem assinado o Ray Felton. Será que valeria a pena trocar Chris Paul por, digamos, Danilo Gallinari e Wilson Chandler? Ou Gallinari e Anthony Randolph? Os dois são bons, mas Ariza faz mais sentido para eles e veio por menos.

3. Magic: A oferta do Magic era de Vince Carter, escolhas de draft e mais alguns jogadores que ninguém sabe, talvez Brandon Bass e/ou Marcin Gortat. A oferta tinha que envolver Carter por causa dos salários e seria uma boa porque o contrato acaba no próximo ano. Ou seja, eles iriam trocar o Paul para usar o Vince por um ano e depois perdê-lo, razões econômicas, não técnicas.

Analisando as propostas que chegaram nas mãos do Hornets, deu para entender o que fizeram. Na teoria era bom trocar o Paul e em troca receber uma outra estrela de uma posição que eles precisavam mais, mas na prática ninguém tinha esse jogador para oferecer. Até porque para o Chris Paul aceitar a troca, ela tinha que envolver um time com potencial. O Pacers poderia mandar o Danny Granger, por exemplo, mas aí o Paul sairia de um time ruim para outro pior.

Outro motivo é que o Collison é pivete, não sabemos até onde ele vai, o Chris Paul já sabemos que é espetacular e pode levar mesmo um time limitado muito longe, como já fez com o mesmo Hornets há 2 anos. O elenco não era tudo isso e eles chegaram até um jogo 7 de semi-final de conferência, o cara é foda!

Depois de toda essa negociação e boataria, o Chris Paul decidiu se reunir com a nova direção da equipe para resolver sua situação. Ele não disse que saiu feliz da reunião, mas que iria dar um tempo com os pedidos de troca e esperar para o time fazer alguma coisa. Eis que ontem eles conseguiram Trevor Ariza e Marco Belinelli, que em uma troca paralela, veio do Raptors em troca do fracassado Julian Wright, um cara que chegou cheio de nome na NBA, mas que nunca teve espaço. Tá bom que quando teve não correspondeu à altura, mas sua grande chance foi no ano passado, quando o técnico Byron Scott disse que ele começaria a temporada como titular. Nove jogos depois Scott foi demitido e Wright afundou de novo no banco.

O italiano pode ser uma boa para o Hornets, mas não o bastante para animar o Chris Paul. Ele, assim como o provável titular Marcus Thornton, é um bom arremessador de longa distância, tipo de jogador que o Paul precisa para ter espaço para infiltrar.

Quem deve fazer mais diferença mesmo é o Trevor Ariza, que é uma espécie de Shawn Marion: tem todas as características de um role player, mas é tão bom, tão bom, que acham que é estrela. Mas não dá pra montar um time em volta do Marion, assim como não dá pra fazer com o Ariza. Em New Orleans ele vai render bem melhor sendo só a terceira, às vezes quarta, opção ofensiva e atuando mais em contra-ataques e se movimentando sem a bola. Vai fazer a festa recebendo bons passes e vai cometer bem menos erros e arremessos forçados do que no ano passado no Rockets.

O Ariza, além de deixar o ataque mais dinâmico, menos previsível e mais veloz, deve oferecer mais opções de contra-ataque e deixar a defesa de perímetro mais forte. Com Paul e Ariza dá pra esperar o Hornets como um dos times com mais roubos de bola por jogo na NBA.

O time ainda tem um garrafão forte com David West e Emeka Okafor. Nenhum dos dois é fora de série, o David West depende muito dos seus arremessos de meia distância e ajuda pouco na defesa e nos rebotes. Mas dá pra entender sua queda de rendimento no ano passado, ele funciona bem quando é bem usado pelo Chris Paul, sem ele não é a mesma coisa. Já o Okafor é um cara de lua, pode fazer 15 pontos, 15 rebotes e 5 tocos numa noite e ficar se ferrando com problemas de falta na outra. Um pouco de regularidade, mesmo sem os jogos espetaculares no meio, já seria um alívio para o torcedor do Hornets.

Não tenho dúvidas de que o time assim ficará bom. Tá bom, tenho um pouco de dúvida porque não conheço o técnico, mas mais importante do que isso é a competição no Oeste. Porque mesmo se o time ficar ótimo, o bicho vai pegar.

Pensa bem, dos oito classificados para os playoffs, qual ficou pior? Talvez o Suns, mas que mesmo assim não está fora da briga depois de trazer Hedo Turkoglu e Josh Childress. E além dos oito, o Warriors ficou bem melhor com David Lee, o Rockets está mais forte com a volta de Yao Ming, chegada de Brad Miller e um tempo maior para entrosar Brooks, Kevin Martin e Luis Scola. Ainda tem o Memphis, com o mesmo bom grupo do ano passado e o Clippers, com a estreia do Blake Griffin. Ou seja, é certeza absoluta de que mesmo bons times, com bons jogadores e que fizeram bons movimentos nessa offseason, vão ficar fora dos playoffs.

O Hornets melhorou e Trevor Ariza deve brilhar por lá, mas quanto tempo até o Chris Paul começar a choramingar por uma troca de novo? Ele disse com todas as palavras "quero lutar por títulos todos os anos". Se ele pensa assim mesmo, o Hornets só adiou a dor de cabeça.

...
Já participou da nossa promoção para ganhar uma camiseta do Suns e uma bola autografada pelo Leandrinho? Então participe, ainda tem bastante tempo.

E já respondeu à nossa pesquisa? Estamos querendo conhecer melhor nossos leitores e até agora tem sido muito divertido. Descobrimos que pelo menos duas garotas lêem o Bola Presa, que pelo menos dois caras acham a Maria Rita a mulher mais linda do mundo e que, até agora, só dois times não tem torcedores no Brasil. Responda, será divertido e daqui um tempo vamos divulgar o resultado.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Trocando figurinhas

Darren Collison joga como o Chris Paul, se move como o Chris Paul, 
se veste como o Chris Paul, mas tem a cara do Rajon Rondo

Tudo começou com o Hornets tendo duas figurinhas repetidas. A gente bate nessa tecla faz um tempo por aqui, de que adianta ter seus dois melhores jogadores jogando na mesma posição sendo que eles não podem estar em quadra ao mesmo tempo? Isso é legal se o resto do time chuta traseiros, mas não, o Hornets tem um elenco muitíssimo limitado e não pode se dar ao luxo de ter um jogador tão bom no banco. Um dos dois precisava dar o fora, ser trocado por outros jogadores para serem titulares, e na minha cabeça sempre foi o Chris Paul por ser mais cobiçado e muito, muito mais caro. Quando ele começou a chorar as pitangas querendo ir para o Knicks, achei que era a hora finalmente do Hornets fazer a troca e comecei a pensar na terrível maldição que às vezes parece assolar as camisetas de NBA no Brasil, sempre que lançam uma camiseta aqui o cara é trocado (não faz muito tempo que fiquei babando numa camiseta do Chris Paul numa loja por aí). Mas parece que convenceram o Chris Paul a ficar, então o escolhido foi seu coleguinha pirralho de posição: Darren Collison.

Do Hornets a gente fala melhor amanhã, em outro post. O que importa é que o Collison vai para o Pacers, que fez até sacrifícios de carneiros para conseguir um armador qualquer. Quando escrevemos sobre cada um dos times que não foram para os playoffs, ainda na temporada passada, afirmei que o Pacers com um armador de verdade provavelmente estaria na elite do Leste. A equipe de Indiana é uma daquelas que caiu no famoso "conto do TJ Ford": você olha pra ele e vê um armador veloz, explosivo, com pulmão pra ir ali na Lua e voltar, mas quando coloca ele em quadra descobre que ele não passa a bola, enlouquece o resto da equipe, não toma uma única decisão correta e não tem qualquer coisa que lembre vagamente um arremesso. Muitos times se apaixonaram pelo TJ até descobrirem que ele te ganha um jogo e depois te perde dez, e nem adianta melhorar o elenco ao redor dele porque ninguém vai ver a cor da bola. Fora que ele se contunde o tempo inteiro porque não tem noção do que está fazendo, invade o garrafão como estiver, e o corpo dele não aguenta tanta porrada depois das lesões na coluna vertical que ele sofreu em quadra. A situação do TJ em Indiana ficou tão complicada que resolveram guardar ele no armário e não tirar mais. Não chegou ao absurdo que foi o Jamaal Tinsley, que um dia chegou pra trabalhar no Pacers e não tinha mais o nome dele em nenhum armário do vestiário, mas sempre deixaram claro que o TJ Ford não jogaria mais pela equipe. Acabaram voltando atrás, no desespero ele até entrou em quadra, mas o armador está oficialmente sendo oferecido em trocas desde que o homem inventou a roda. 

Se o TJ Ford fosse um pivô grandão, alguém teria aceitado a troca porque o talento dele é uma tentação mesmo, mas a fama de destruir equipes não pega nada bem justo numa geração que repentinamente ficou com fobia de sujeitos como Marbury e Allen Iverson. Uma década atrás o TJ Ford venderia milhões de camisetas e teria espaço em qualquer equipe da NBA, mas hoje em dia a mentalidade é outra e esses tipos são considerados cânceres a serem exterminados. Então, na falta de uma troca possível e depois de uma proposta pro Bobcats pelo DJ Augustin ter miado, o Pacers foi com tudo atrás do Darren Collison. Só tiveram que envolver outros dois times na parada e aí conseguiram, foi facinho.

O que o Pacers mandou foi o Troy Murphy, ala fodão que não muito tempo atrás teve seu talento roubado pelos Monstars, do "Space Jam". Ele tem um jogo muito refinado, arremessa de qualquer lugar da quadra - inclusive da linha de três pontos - com naturalidade, e é uma máquina de pegar rebotes. Tem dificuldades defensivas e não joga bem de costas para a cesta, mas seria útil em qualquer time. Quando chegou no Pacers, simplesmente desaprendeu a jogar basquete e sumiu da mídia, mas voltou aos poucos e ainda quebra um belo de um galho. O jogador de garrafão será mandado para o Nets, que precisava muito de um jogador da posição. No elenco atual do Nets, o novato Derrick Favors seria titular imediato ao lado de Brook Lopez. Por um lado é bem legal colocar um calouro direto no fogo e mandar um "se vira", dar moral, crédito, e deixar o cara feder bastante até pegar o jeito, como foi o que aconteceu com o Kevin Durant. Mas é que tem gente, como o Kwame Brown, que simplesmente desapareceria da NBA se fizessem algo desse tipo (tá explicado, o Kwame desapareceu mesmo). Não é todo mundo que tem cabeça pra aguentar a pressão de ser titular num time que só perde, como deve ser o Nets na temporada que vem, e ninguém quer queimar o jogador. O Troy Murphy garante que o Favors possa vir do banco ou então ser titular e jogar menos minutos, quando a coisa estiver mais pesada. Ao fim da temporada que vem o contrato do Troy Murphy vira farofa, o Favors já pode ser titular absoluto com uns pelinhos pubianos a mais no corpo, e o Nets ainda fica com espaço salarial para tentar - de novo - uma grande estrela para talvez salvar a franquia. Foi um plano seguro, de quem não tem pressa para ganhar mas que sabe exatamente o que está fazendo (ao contrário do Wolves, mas isso é outra história).

Já o Nets, pra participar dessa suruba, mandou o Courtney Lee para o Houston Rockets, que por sua vez mandou o Trevor Ariza para o Hornets. Como torcedor do Houston que assistiu a praticamente todas as partidas da equipe na temporada passada (e que bizarramente assistiu a uma caralhada de partidas do Nets pra entender o porquê deles federem tanto), posso dizer que estou muito feliz com a troca. Por mais fã que eu seja do Ariza, seu estilo de jogo era completamente descartável no Houston. Ele é um baita defensor, mas para estar em quadra exigia que o Shane Battier (um dos melhores, se não for o melhor, defensor da NBA) estivesse no banco. No setor ofensivo, lhe faltava domínio de bola para criar o próprio arremesso, coisa que o Kevin Martin passou a fazer, e seus arremessos de três são inconsistentes, ao contrário do novato Chase Budinger, que é um monstro no perímetro. As bolas de três são essenciais para o esquema tático do Houston e o Ariza sempre ficou desconfortável em quadra. Brilhava mesmo nos contra-ataques, e nisso deixará saudades, mas não muitas. O Courtney Lee também é espetacular nos contra-ataques, é um excelente defensor, e desde novato já se sentia mais à vontade para criar o próprio arremesso. Nos playoffs com o Magic, era normal ele ser o único jogador da equipe a ter coragem de arremessar nos primeiros minutos, e acabou recebendo o fardo de decidir um punhado de partidas (lembro dele errando um arremesso decisivo no final de uma partida das Finais contra o Lakers). É notório o quanto ele ficou puto de ser trocado para o Nets porque queria vencer, decidir jogos, estar nos playoffs, nunca aceitou estar na equipe de New Jersey e foi um dos que mais criticou o começo historicamente ruim de temporada do time, exigindo explicações do elenco e da comissão técnica. Ou seja, o Nets claramente se livrou dele porque ele é chato demais para ficar numa equipe que ainda pretende feder por mais uns anos. No Houston, vai criar o próprio arremesso, arremessar de três, jogar no contra-ataque e defender - e o melhor, nada disso é na mesma posição que o Shane Battier! Vai ser reserva do Kevin Martin e talvez até do Battier, em escalações mais baixas, e ainda terá minutos e oportunidade de ir para os playoffs. A troca é melhor do que parece para o Houston primeiro porque o Courtney Lee é melhor do que se imagina, é excelente ladrão de bolas e arremessador de três pontos, e segundo porque ele é mais barato do que o Ariza e o Houston já está acima do teto salarial. O Ariza não saiu caro, mas reassinar Luis Scola e Kyle Lowry era mais essencial e saiu uma pequena fortuna, foi preciso dar um jeito nas finanças.

O Ariza deve se sentir muito mais à vontade no Hornets com os contra-ataques puxados pelo Chris Paul e sendo o principal defensor da equipe. Não é nenhuma estrela para que o Chris Paul queira jogar em New Orleans até o fim da vida, mas é melhor do que o resto do elenco e o Hornets ainda conseguiu mandar para o Pacers, além do Darren Collison, o James Posey. O Posey fez fama no Celtics campeão uns anos atrás, porque ele é realmente um jogador sólido pra burro que ajuda qualquer equipe que queira ganhar um título - coisa que o Hornets não é nem nunca foi. Seu salário é grande demais para um simples carregador-de-pianos, mas será útil no Pacers se eles conseguirem ir para os playoffs. A equipe de Indiana sempre jogou numa correria excessiva (talvez fosse o simples fato de estar dentro do raio de 2 quilômetros da presença do TJ Ford) e não conseguia acionar as armas ofensivas que tem, nem o espetacular jogo de costas para cesta do Roy Hibbert. Eu sou todo apaixonadinho por essa nova safra de pivôs da NBA, porque além dos jogadores que estão mais na midia, como Dwight, Kaman, Bogut e Brook Lopez, ainda tem sujeitos como o Marc Gasol e o Roy Hibbert que podem ser os melhores da NBA na posição e a gente nem percebe direito. São todos muito técnicos, com pés rápidos e muita habilidade perto da cesta, e o Roy Hibbert (que já teve umas atuações monstruosas na temporada passada, tipo quando ele humilhou o Dwight Howard) é um dos melhores dessa safra. Com um armador de verdade, deve mostrar mais serviço e o Pacers passa a ser um time a ser levado a sério.

Meu único medo, no entanto, é com a qualidade do Darren Collison. Quando ele virou modinha na temporada passada todo mundo cravou ele como um dos melhores armadores dessa geração, e ele realmente chuta uns traseiros, mas grande parte da responsabilidade por isso era o esquema tático do Hornets. Analisei um pouco isso ainda na temporada passada, quando o garoto começou a explodir. Não é que o esquema do Hornets tenha feito o Collison bom, mas é que o Collison é bom para o esquema do Hornets. Por ser excelente ladrão de bolas, ter muita calma na hora de armar, cuidar bem da bola, ser um dos armadores mais rápidos da NBA e arremessar todo torto, se encaixava bem no papel do Chris Paul, em que ele passava o tempo inteiro com a bola nas mãos e só puxava contra-ataques depois dos roubos de bola. Se no Pacers a bola passar tempo demais nas mãos de Danny Granger e o time só jogar no contra-ataque, veremos algumas fraquezas do Collison expostas (como seu arremesso simplesmente quebrado), e algumas de suas melhores qualidades (como acalmar o jogo e tomar as decisões mais simples na hora de passar a bola) serão ignoradas. Se o Pacers não mudar o modo de jogar e simplesmente colocar o Darren Collison no meio daquela bagunça, ele será apenas um jogador normal. O truque é lhe dar a bola e não exigir que ele seja acionado para arremessar, mas será que o Granny Danger topa a brincadeira?

segunda-feira, 29 de março de 2010

Filtro Bola Presa - Um resumo fenomenal

Benny The Bull conseguiu um terno digno de Craig Sager para entrevistar Craig Sager


E aí pessoal, tudo certo? Semana passada não tive tempo de fazer o Filtro Bola Presa, um apanhado de todas as notícias e estatísticas relevantes que não viraram posts, o que quer dizer que tenho muita coisa para postar no Filtro de hoje. Então vamos lá, sem enrolar muito nessa introdução, nem vou perder linhas e linhas comentando do desfecho do Jorge na novela. Vocês acreditam que ele deve acabar com a Ariane e não com a Mirna ou a Paixão? Um absurdo! Ele devia ficar com a Mirna e casar com ela no último capítulo junto com o casório da Luciana com o Miguel, só pra mãe deles assistir um filho casando com uma puta e o outro com a aleijada.


- A EA Sports vai lançar um novo NBA Jam! É, aquele jogo onde duplas de jogadores da NBA se enfrentam, pulam até o teto para enterrar, a bola pega fogo, todo mundo tem a cabeça maior que a do Shelden Williams e o narrador grita BOOM SHAKALAKA! Tirando o saudosismo de quem jogou isso com 10 anos de idade no seu Mega Drive, por que alguém jogaria esse jogo?


- Veja essa notícia sobre o Stephon Marbury e sua aventura no basquete profissional chinês. Não é um triste resumo de toda sua carreira?
"Marbury foi eleito o MVP do All-Star Game da Liga Chinesa de Basquete com uma partida de 30 pontos e 10 assistências. Em 15 jogos com o Shanxi Zhongyu Kyllins ele também atingiu o recorde de assistência do campeoanto com média de 9.6 por jogo. Contudo o seu time não conseguiu uma vaga para os playoffs".

No nosso Tumblr eu já tinha postado na semana passada um trecho do All-Star Game Amarelo onde o Marbury acerta 3 bolas de 3 seguidas de muito longe!


- No último sábado o novato Rodrigue Beaubois do Mavs destruiu o Warriors com 40 pontos. Ele acertou 9 bolas de 3 na partida, foi apenas o terceiro jogador a temporada a acertar tantas bolas de 3 num jogo. Os outros dois foram do Nuggets, JR Smith acertou 10 contra o Hawks e o Chauncey Billups fez 9 em uma partida contra o Lakers.

Foi a segunda maior pontuação de um novato na temporada. O líder ainda é Brandon Jennings, que fez 55 pontos também contra a fortíssima defesa do Warriors.

- Os 55 pontos do Jennings ainda são a maior marca de toda a temporada para todos jogadores, e apenas um dos três que passou de 50 nesse ano. Os outros são Andre Miller, que marcou 52 contra o Mavs e Carmelo Anthony, que fez 50 contra o Knicks.

Essa marca de apenas 3 partidas com um jogador marcando 50 pontos é muito baixa para os padrões da NBA. Em 08-09 foram 11 jogos com mais de 50 pontos, em 07-08 tivemos 5 e na temporada 06-07 foram simplesmente 18 partidas com alguém fazendo pelo menos 50 pontos.

- O Atlanta Hawks conseguiu na última semana não ser varrido pelo Orlando Magic na temporada. E fez isso com uma enterrada no último segundo do Josh Smith! O jogo também marcou a classificação matemática do Hawks para os playoffs, o que significa a primeira aparição do Jamal Crawford na pós-temporada em toda a sua carreira. Coincidência macabra que essa classificação aconteceu no jogo número 666 da carreira do Crawford! Não precisamos de mais provas para concluir que ele vendeu a alma para o diabo para ter o talento que tem.

Mas o melhor momento do Hawks nas últimas semanas foi esse momento Serginho entre Josh Smith e Mike Bibby. Alguém consegue explicar esse vídeo?


- Já perguntaram uma centena de vezes no nosso Both Teams Played Hard se houve um fim de carreira tão melancólico como o do Allen Iverson. Para quem quer saber, o site streetlevel fez uma lista com as aposentadorias mais decepcionantes da história da NBA.

- Acho que o Gilbert Arenas concorda comigo que "O homem da pistola de ouro" é um dos melhores filmes do 007 apesar do nome parecer mais uma produção do Brasileirinhas. Olha só a arma que ele tinha no vestiário!



- O Phoenix Suns é líder da NBA em produção de vídeos. Já tivemos Avatar, o Leandrinho cantando Lionel Richie e até um vídeo mostrando que o Jared Dudley tem "as mãos mais atléticas da história". O mais novo trabalho deles é sobre estatística, eles contaram quantos "high-fives", como eles chamam o nosso "toca aí", ele dá durante um jogo.

Pra quem não pode ver o vídeo porque está no trabalho chato, eu conto: Ele deu 239 'tocaís' numa partida! O Leandrinho chega a dizer no vídeo que machucou o pulso por culpa de tantos cumprimentos durante o jogo, genial.



- Mas não vamos ser ridículos, o melhor vídeo da semana que o Phoenix Suns produziu foi essa enterrada do Amar'e Stoudemire no Anthony Tolliver.


- Na ótima música "Empire State of Mind" o Jay-Z canta um verso que chamou a atenção de muita gente que gosta da NBA. Ela diz "If Jeezy is paying LeBron, I'm paying Dwyane Wade", em português "Se Jeezy está pagando LeBron, eu estou pagando Dwyane Wade".

No nosso Both Teams Played Hard um cara comentou que isso tinha a ver com o preço que os caras pagam por cocaína, mas fui mais longe pra saber mais. Acontece que usam lá nos EUA o número das camisetas dos jogadores da NBA para dizer quanto pagam pelo quilo de cocaína no mercado. Quilo esse que, segundo o último World Drug Report da ONU, tem o preço médio de 28 mil dólares.

O rapper Jeezy, em sua horrível música 24-23, diz que "antes pagava Kobe (24) e agora pago LeBron (23)". Usando a gíria para dizer que antes pagava 24 mil mas comoé malandro agora paga 23 mil pelo quilo. Como resposta o Jay-Z, fodão como sempre, diz que paga só um Dwyane Wade, um mísero número 3. Achei até um gráfico muito engraçado que comenta a situação:



8 ou 80 - O cantinho das estatísticas desnecessárias
Hoje estou com uma coleção gigantesca de números imbecis, vamos lá!

- Em uma coluna "8 ou 80" que postei um tempão atrás ainda no BasketBrasil, mostrei as estatísticas que colocavam o Carmelo Anthony como um dos melhores, senão O melhor, arremessador em bolas decisivas. Na época ele tinha 13 bolas vencedoras nos segundos finais! Mas o curioso é que nenhuma das bolas era um buzzer-beater (aquela bola que entra com o cronômetro já encerrado, leia mais sobre esse e outros termos em inglês aqui)!

Mas nessa semana o Melo conseguiu seu primeiro buzzer da carreira, vencendo o Toronto Raptors no estouro do cronômetro depois de um rebote ofensivo heróico do Nenê. Veja o vídeo aqui.

- Na última quarta-feira o Rajon Rondo empatou com o Nate Archibald pelo recorde de mais jogos com pelo menos 15 assistências em uma temporada na história do Celtics. No jogo seguinte ele igualou o máximo de sua carreira com 18 assistências e agora detém o recorde sozinho. E olha que pra ter recordes no Celtics não é fácil, já passou muita gente boa por lá!

- Na derrota para o Lakers na semana passada o Tim Duncan acertou apenas 2 de 11 arremessos que tentou. Foi a terceira vez nos últimos 20 jogos que o Duncan acertou menos de 20% de seus arremessos, coisa que ele só tinha feito 6 vezes em 947 jogos na sua carreira. Alguém imaginou que ele ia ficar velho tão rápido?

- Essa derrota para o Lakers foi a 40ª partida entre Tim Duncan e Kobe Bryant em temporadas regulares. É o maior número de confronto entre dois jogadores pelos mesmos times. Em seguida aparecem os confrontos Duncan-Nowitzki, com 39 jogos e Kobe-Nowitzkicom 38. Nesses 40 jogos o Spurs venceu 21 e o Lakers 19.

- Semana passada o Gerald Wallace fez um jogo de 17 pontos e 19 rebotes, foi a 7ª vez na temporada que ele conseguiu pelo menos 15 pontos e 15 rebotes numa partida. Nenhum outro jogador com a sua altura, 2,01m, ou menor conseguiu sequer um jogo com esses números nessa temporada.

- Na segunda-feira passada o Spurs venceu o Thunder, mas no caminho tomou 45 pontos do Kevin Durant. Foi a primeira vez que um jogador marcou pelo menos 45 pontos contra o Spurs desde 1999, quando Allen Iverson marcou 46. Foi a sequência mais longa da história da NBA sem deixar um jogador marcar 45 ou mais pontos.

Agora o Pistons, com 617 jogos, tem a maior sequência em atividade. A última vez que eles tomaram pelo menos 45 pontos foi quando T-Mac marcou 46 no natal de 2002.

- Essa é pra quem tem saudade da gente zoando os gordinhos do Bola Presa! O Brook Lopez conseguiu a proeza de marcar 26 pontos e pegar apenas um mísero rebote na derrota do Nets para o Heat na semana passada. A última vez que um pivô tinha marcado mais de 20 pontos e pego só um rebote em um jogo tinha sido em 2007 com, claro, o saudoso Eddy Curry! Ah, ele era um especialista em não pegar rebotes!

- Na derrota de ontem do Kings para o Cavs o Beno Udrih se tornou o segundo jogador a conseguir um triple-double ao enfrentar LeBron James. Curiosamente o primeiro havia sido também um armador do Kings, Mike Bibby, em 2005.

- O novato Darren Collison se tornou ontem o segundo jogador na temporada a conseguir um jogo tentando pelo menos 10 arremessos e não errando nenhum. Ele chutou 10 bolas na derrota para o Blazers e acertou todas, o primeiro tinha sido Dwight Howard com aproveitamento de 11-11 contra o Rockets. A pergunta que não quer calar é porque não tentaram mais arremessos...

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O melhor dos quebra-galhos

Jason Richardson tenta roubar a carteira
do Darren Collison no meio do jogo


Em novembro, exatamente três meses atrás, escrevi um post porque Deron Williams e Chris Paul se contundiram quase ao mesmo tempo - se um pular da ponte, como diriam as mamães do mundo, o outro pula atrás. Dois novatos selecionados em escolhas seguidas de draft, um na vigésima e outro na vigésima primeira (assim como Deron e Chris Paul foram selecionados seguidamente, na terceira e na quarta), assumiram a vaga de titulares e começaram a chutar traseiros. Pelo Jazz, o novato era Eric Maynor, que desde então foi mandado para o Thunder (assim como o Ronnie Brewer acabou de ser mandado para o Grizzlies) apenas para economizar uma grana, e agora lhe cabe ser reserva num time jovem que ainda tem muito a crescer. Mas o outro novato, jogando pelo Hornets, é Darren Collison. Na ausência do Chris Paul provavelmente pelo resto da temporada, se recuperando de uma cirurgia no joelho, Collison está dominando partidas e de repente ficou famoso, com seu nome aparecendo em todas as listas de melhores novatos do ano.

O engraçado é que essa oportunidade só surgiu para o Collison graças à burrice do David West. Numa partida contra o Bulls, a oito segundos do final, o Hornets ganhava por dois pontos e o David West só tinha que cobrar um maldito lateral nas mãos do Chris Paul. Com medo do passe ser interceptado, ele mandou a bola para a putaqueopariu na quadra de defesa, o Paul teve que se atirar parar salvar a bola (que foi parar nas mãos do time do Bulls a tempo deles empatarem a partida, irem para a prorrogação e ganharem o jogo) e o coitado do Chris Paul acabou contundindo o joelho quando se jogou no chão. Ou seja, deu mais errado do que a terceira edição da "Casa dos Artistas" no SBT, e o Darren Collison teve que assumir a armação outra vez. Três meses atrás, quando escrevi o post, era só por tempo limitado, graças a uma torção de tornozelo, mas agora é pra valer.


O Hornets dessa temporada é uma bela de uma porcaria, basicamente porque não existem pontuadores no elenco. Conforme Chris Paul foi ficando mais e mais frustrado no começo da temporada, foi passando a atacar mais a cesta e pontuar por conta própria. Quando o Collison começou a substituí-lo, o grande medo foi perder todo o poder ofensivo, então outros jogadores começaram a se concentrar mais nesse aspecto. O também novato Marcus Thornton passou a ganhar minutos, Peja Stojakovic foi acordado de seu sono na câmara criogênica, e Collison fez um bom trabalho envolvendo todo mundo. O grande lance sobre ele é que, mesmo tendo um arremesso não muito confiável (e de mecânica esquisitinha), sendo magrelo, fracote e mais-ou-menos na defesa, ele sabe perfeitamente bem como liderar um time e tomar as decisões corretas. O ultimo draft foi a melhor leva de armadores de todos os tempos, sem brincadeira, mas acho que o Collison é o mais inteligente em quadra quando se trata de dar os passes certos do modo mais fácil. Além disso, ele pode ser também o armador mais rápido do draft sem deixar com que isso lhe faça jogar na correria. Ele prefere segurar a bola, dar a assistência mais simples, e utiliza sua velocidade apenas quando faz sentido. Ele pode não ser o mais talentoso dessa safra, e eu tendo a achar que ele está pronto demais e não deve melhorar muito o seu jogo (e nem a estrutura física, dizem que ele é naturalmente magrelo), mas é certamente perfeito para jogar no Hornets e isso fica óbvio no seu desempenho.

Alguns estilos realmente fazem a vida dos jogadores. O Jazz do técnico Jerry Sloan é famoso por fazer com que qualquer humano bípede pareça um bom jogador na posição de armador - Brevin Knight, Raul Lopez e até o Raja Bell já chutaram traseiros no sistema de pick-and-rolls da equipe. No Hornets de uns anos para cá, o sistema tático consiste em dar todo o poder do mundo para o armador da equipe, pode até comer a esposa do dono. A bola passa o tempo inteiro nas mãos do Chris Paul, o ritmo do jogo fica em suas mãos, o resto do time só toca na bola quando ele quer, e na defesa cabe ao armador cuidar das linhas de passe na cabeça do garrafão enquanto o resto da defesa afunila o ataque adversário em direção à linha de fundo. É claro que, com tanta responsabilidade e tanto tempo com a bola nas mãos, qualquer armador do Universo (estou falando do espaço sideral, não do time brasuca) vai conseguir bons números. Mas o Darren Collison não é um fruto desse sistema, ele é apenas perfeito para esse sistema. Dê a bola o tempo inteiro para o Aaron Brooks ou o Louis Williams e você terá um pontuador maluco que terá belos números mas perderá todos os jogos. Collison é calmo, não tenta passes impossíveis, cuida bem da bola, sabe o que consegue e o que não consegue fazer em quadra, e é perito em controlar o ritmo da partida. Além disso, é um bom ladrão de bolas - perfeito para um sistema que exige apenas isso de sua defesa.

Nos 20 jogos em que foi titular, Darren tem uma média de 18 pontos, 4 rebotes, 8.4 assistências e 1.5 roubos de bola por jogo. Mas aos poucos, assim como Chris Paul, tem percebido que sua equipe fede muito e tem que pontuar cada vez mais. Nos últimos 10 jogos a média é de quase 22 pontos, assustador para um novato de arremesso mequetrefe. Contra o Houston, jogo que assisti recentemente, Collison engoliu o Houston com azeite e sal simplesmente em penetrações no garrafão, rápido demais para que o Aaron Brooks fosse capaz de marcá-lo. Passa boa parte do tempo dando os passes certos, obrigando o time a se mover, e de repente bate para dentro com uma velocidade surreal. Acabou decidindo o jogo assim no quarto período, o que é o mais importante: ele está fazendo o Hornets vencer de vez em quando em uma temporada que deveria ter sido jogada no lixo com a contusão do Chris Paul. O Hornets está atualmente em nono no Oeste, não muito longe do oitavo colocado Blazers e apenas meia vitória à frente do Grizzlies, que também luta pelos playoffs. Num Oeste tão disputado quanto o desse ano, lutar pela última vaga é uma conquista incrível. Ainda mais porque, insisto, o Hornets fede. De verdade.

Mesmo se não levar o time para os playoffs, no entanto, o Darren Collison se coloca imediatamente pela briga de melhor novato do ano. O problema é que não dá pra vencer o Tyreke Evans, que já é um dos melhores jogadores do planeta e de novato não tem nem a cara, mas a briga é boa com o Stephen Curry, que está jogando demais no Warriors, e com o Brandon Jennings, que cada vez mais tem "novato" escrito na testa. O engraçado é que Collison e Jennings teriam se enfrentado no basquete universitário se o Jennings tivesse jogado na Universidade de Arizona, como quase aconteceu, ao invés de preferir o basquete europeu pra ganhar uma graninha. Quando eles finalmente se pegaram pela primeira vez na NBA, trocaram cestas decisivas no quarto período, Jennings cobrou dois lances livres que colocaram o Bucks três pontos na frente, mas o Collison acertou um arremesso de 3 para forçar a prorrogação. No tempo extra, o Collison bateu a carteira do Jennings e cobrou os lances livres da vitória do Hornets, num jogo fantástico entre dois armadores sem idade para beber cerveja. Na noite de ontem eles se enfrentaram de novo, Collison teve uma atuação incrível, com 22 pontos e 9 assistências, deu um pau no Jennings - que é incapaz de acompanhá-lo na corrida, defendê-lo, e anda tendo problemas terríveis para acertar seus arremessos - e mostrou que vai acabar na frente do armador do Bucks na corrida por novato do ano, mas ainda assim o Hornets perdeu. Enquanto o Bucks tem a ajuda de Andrew Bogut (aliás, o time é dele e pronto), o Darren Collison só vem tendo ajuda do outro novato Marcus Thornton. Desde o dia 10 de janeiro ele só deixou de ter dígitos duplos em pontos por duas vezes, e desde que ganhou minutos na primeira contusão do Chris Paul três meses atrás, tem mostrado que é melhor pontuador do que qualquer um daquele elenco mequetrefe. Além de ter um arremesso muito bom com os pés parados, sabe colocar a bola no chão e bater para dentro do garrafão com agressividade. Ele tem uns problemas de confiança e se intimida muito com defesas mais agressivas, mas quando seu arremesso está caindo é imparável e joga como veterano. Será uma peça fundamental no Hornets tão desesperado por pontuadores, mas o Darren Collison precisa de mais ajuda do que isso. O problema é que, quando essa ajuda chegar, Chris Paul já estará na equipe e Collison será reserva, vai poder aproveitar menos a festa. O importante, no entanto, é não ter pressa. É sensacional ver o Chris Paul dando dicas para o novato em cada parada de bola e treinar com ele deve ser um privilégio. Jogar num esquema que o favorece tanto também, então o Hornets ganhou um belo reserva. É triste saber que ele deu 18 assistências em seu primeiro jogo desde a contusão do Chris Paul, que ele fez um triple-double com 18 pontos, 13 rebotes e 12 assistências, e que mesmo assim não poderá ser titular porque ele e Paul juntos, em quadra, seria um terrível problema defensivo. Mas resta a certeza de que, ao menos, o Hornets terá alguém decente no banco de reservas. Quando foi a última vez que isso aconteceu?

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Nova geração de armadores

Cadeiras vazias para ver Chris Paul e Deron Williams, duas peças de museu


Houve um tempo, muito distante, em que a rivalidade entre dois armadores dominava os debates sobre NBA. As donas de casa fofocavam sobre eles na calçada, os bêbados escolhiam o prefererido e ficavam defendendo o queridinho nas mesas de bar, e o pessoal que acompanha basquete e comenta nos fóruns jogava a vida na privada teorizando sobre qual dos dois era melhor sempre que dava um tempinho no Ragnarok. Os armadores eram Deron Williams e Chris Paul, e mesmo que ficar alegando que um era melhor do que o outro fosse a mair perda de tempo (assim como nós dizemos, desde o começo do blog, que é uma perda de tempo surreal comparar dois jogadores diferentes), a rivalidade era muito divertida de se acompanhar.

Os dois foram draftados em sequência, com o Williams indo para o Jazz com a terceira escolha e o Chris Paul indo para o Hornets com a quarta. Por algum tempo Paul pareceu o jogador mais completo enquanto Deron era o melhor pontuador e arremessador, mas os dois foram mostrando mais e mais aspectos de seus jogos até que não dava mais para dizer o que um fazia melhor do que o outro. O que podemos dizer, sim, é que o Chris Paul sempre tinha seu traseiro chutado quando os dois se enfrentavam e, no entanto, começou a receber mais atenção do público com sua atuação monstruosa nos playoffs. Foi parar no All-Star Game duas vezes, muitos consideram o rapaz o melhor armador da NBA, e o Deron Williams foi ficando um pouco de lado e ainda não foi parar no jogo das estrelas, o que é um crime tão grande quanto deixar a Alinne Moraes tetraplégica.

Mas essa rivalidade agora é velharia, tipo Kinder Ovo que custava 1 real. Os dois armadores estão fora das quadras por uns tempos e seus reservas, dois novatos, estão chutando traseiros. Todo aquele papo de que o draft desse ano tinha uma boa safra de armadores não era só papo pra te comer, temos Brandon Jennings marcando 55 pontos e transformando o Bucks, Tyreke Evans assumindo a armação do Kings e tornando o time bizarramente bom, tem o Stephen Curry quebrando um galho no Warriors sem Stephen Jackson e tentando sobreviver ao circo, o Ty Lawson fazendo miséria no Nuggets quando o Billups vai pro banco, o Toney Douglas sendo um dos poucos aspectos positivos do Knicks e jogando melhor do que o titular Chris Duhon, o Jonny Flynn impedindo o Wolves de ter a pior campanha da NBA apesar das contusões (o Nets também ajuda o Wolves a não ter a pior campanha) e além de todos eles temos os novatos que substituem Chris Paul e Deron Williams: são o Eric Maynor e o Darren Collison.

Os dois também foram draftados em sequência, também com o Jazz escolhendo primeiro. Mas ao invés da terceira e quarta escolha, foram draftados na vigésima e na vigésima primeira. Mas, nessa safra de armadores abençoada por deus e bonita por natureza mas que beleza, os dois chutam traseiros como não se imaginaria de escolhas tão altas, principalmente levando em conta que armadores costumam levar mais tempo para pegar as manhas da NBA do que jogadores de outras posições.

Quando o Chris Paul torceu o pé, a impressão que deu foi a de que o time estava fedendo tanto que ele até preferiu se contundir pra ir assistir ao filme do Pelé. Das dez partidas que disputou, Chris Paul venceu apenas três, e isso enquanto marcava quase 24 pontos por jogo. Era bem claro que ele estava tendo que pontuar completamente sozinho, e como o Tracy McGrady aprendeu nos seus tempos de Orlando, dá pra fazer 60 pontos num jogo e ainda perder se o teu time não souber nem amarrar o cadarço. Sem o Chris Paul, quem assumiu a responsabilidade de armar esse time incapaz de acertar a cesta foi o Darren Collison, e o pirralho já ganhou três partidas - e só tendo disputado cinco. A derrota de ontem para o Heat, por exemplo, só veio nos segundos finais depois de um arremesso certeiro do Udonis Haslem, o que mostra que o rapaz não apenas está no caminho certo mas também está tornando seu time mais eficiente sem carregar tanto o fardo ofensivo. Com 15 pontos e 6 assistências de média nas partidas como titular, Collison está abrindo espaço para outros jogadores aparecerem, como o também novato Marcus Thornton, escolha de segunda rodada, que marcou 22 pontos por jogo desde que o Chris Paul foi passear. A verdade é que esse time fede, fede muito, e fedia mesmo quando o Paul levou a equipe aos playoffs e impressionou todo mundo a ponto da gente não perceber o tamanho da bomba (tipo um cara feio com uma namorada gostosa, você acaba pensando algo como "ele não deve ser tãaaaao feio assim). Se ele continuar segurando o rojão sozinho, o time não apenas vai estagnar como vai acabar torrando os últimos traços de paciência do armador, que pode, no maior estilo "Tropa de Elite", simplesmente pedir pra sair.

Enquanto isso, em Utah, parece existir uma espécie de maldição que aflige as filhas dos armadores do Jazz. Assim como o Fisher enfrentou problemas com a saúde de sua filha que, por fim, acabaram gerando um acordo que permitiu ao armador voltar a Los Angeles (e ao Lakers) para poder estar perto dos maiores centros médicos, Deron Williams também pediu dispensa do Jazz por uns tempos para lidar com problemas de saúde de sua filhota. Ficamos na torcida de que não seja nada sério, que o Deron Williams possa voltar às quadras feliz e tranquilo, e que essa maldição não seja tão séria quanto a que faz o Clippers sempre feder ou o Wizards sempre ter alguém contundido. Nas duas partidas em que o Eric Maynor teve que assumir a armação titular da equipe, suas atuações foram incríveis. Contra o Sixers foram 13 pontos e 11 assistências, e contra o Cavs foram 24 pontos e 4 assistências. Mais do que isso, Maynor mostrou domínio nas jogadas de "pick-and-roll" que tanto fizeram a fama de Stockton e Deron Williams, apresentando um grande entrosamento com o Carlos Boozer. Parte disso parece ser culpa do Jerry Sloan, porque parece que se um anão de biquini for colocado pra armar o jogo no Jazz vai dar tudo certo, lembro de ver jogadores bizarros assumindo a posição em momentos de desespero e funcionando bem, como Gordan Giricek, o Raja Bell por quase uma temporada inteira, e até o Kirilenko, todos bem fora de sua posição natural.

Para o Jazz, saber que o Maynor se deu tão bem na função e que o Sloan deixa a vida dos armadores tão fácil é uma descoberta essencial. Esse começo de temporada não está sendo fácil para a equipe e Carlos Boozer e Paul Millsap são como pistoleiros de faroeste, ou seja, a cidade é pequena demais para os dois juntos. Ambos precisam de minutos, mas os dois precisam de bons armadores que permitam o "pick-and-roll" para que possam render satisfatoriamente. Se Millsap entrar em quadra acompanhado do Maynor, o Jazz ganha um banco de reservas que não deve muito à dupla titular Boozer-Deron, e isso não é pra qualquer um. Além de ser uma base para o futuro, já que a equipe se comprometeu com o Millsap pelos próximos anos, é uma garantia de que as mesmas jogadas podem ser usadas pelo escalão reserva, que sempre foi um dos grandes pontos fracos do Jazz.

Da próxima vez que Jazz e Hornets se enfrentarem, e provavelmente o Hornets vai estar fedendo bem mais do que o Jazz, ninguém mais vai estar de olho no duelo entre Chris Paul e Deron Williams. Todo mundo vai querer ver Eric Maynor e Darren Collison se pegando, porque as duas equipes parecem destinadas a ter uma tradição de armadores rivais. O universo conspira para que sejam draftados em sequência, para que tenham chances no time titular ao mesmo tempo, e vai conspirar para grandes partidas entre os dois pelos próximos anos. Tudo graças à melhor safra de armadores puros que a NBA já viu, e olha que nem temos o Ricky Rubio nessa brindadeira ainda. Se bobear, é sorte dele: no meio de tanto, tanto talento, ele teria que suar as pitangas para fazer jus aos seus companheiros de posição. Afinal, armadores que substituem Chris Paul e Deron Williams à altura tem que ser espetaculares - e olha que nenhum deles fez 55 pontos. Ainda.