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domingo, 2 de maio de 2010

Preview dos Playoffs - Lakers x Jazz

"Parem tudo, parece que tem um torcedor legal do Jazz para aquele lado!"


O final da série entre Lakers e Thunder teve um clima muito pouco comum nos playoffs. A torcida derrotada aplaudiu de pé o seu time e os jogadores se cumprimentaram com muitos sorrisos e abraços do tipo "Até a temporada que vem, manda um beijo para a mulher e as crianças". Mas apesar de diferente, dava pra entender.

O Lakers estava mais aliviado do que feliz em ver a série acabar em 4 a 2. Um jogo 7 seria pressão demais e teriam que enfrentar um time jovem, confiante e com absolutamente nada a perder. Com a vitória no jogo 6 ficou aquela sensação de missão cumprida e sem nenhuma raiva do Thunder, nenhum dos jogos, mesmo os que a torcida esteve mais envolvida, teve situações de provocação ou raiva. E para o Thunder a única razão de raiva seria o movivo dessa única derrota em casa: um arremesso sem marcação que o Westbrook errou, seguido de um rebote ofensivo do Gasol, que fez a cesta da vitória no último segundo do jogo. Se o Nick Collison tivesse bloqueado o espanhol ao invés de bloquear um ser invisível que só ele viu na quadra, o Thunder teria vencido o jogo.


Passada essa raiva é uma sensação de missão cumprida. No ano passado o Thunder foi um dos piores times da NBA e o Lakers o time campeão, um ano depois, sem nenhuma grande mudança nos dois elencos, e o Thunder estava lá jogando de igual pra igual.

E igual pra igual mesmo, a vitória do Lakers deve-se basicamente a duas coisas: garrafão mais forte e elenco com mais capacidade de adaptação. Acho que aqueles campeonatos com final em jogo único tem todo o seu charme, é legal saber que tudo será decidido em um jogo, mas ao mesmo tempo é ainda mais legal uma série de 7 partidas. É jogo demais e dá tempo dos times se conhecerem de verdade e serem obrigados a mudar de características para continuar vencendo. Vencer os dois primeiros jogos com facilidade não é necessariamente sinal de que tudo continuará assim, existem as adaptações.

O Lakers soube se adaptar à surra que estava tomando do Russell Westbrook, a solução foi colocar o Kobe para marcá-lo ao invés do Derek Fisher. Kobe não deixou o Westbrook infiltrar e limitou o jogo do pivete a alguns arremessos de meia distância. O mesmo Kobe soube se adaptar à marcação do Kevin Durant que estava tão complicada nos primeiros jogos, abusou dos cortas para mudar a marcação e forçou mais as infiltrações do que os arremessos de giro, em que a altura do Durant estavam atrapalhando. O mesmo Durant não soube o que fazer com a marcação do Artest, que o dominou em todos os 6 jogos. Na última partida o Durant ao invés de achar uma solução, acertou 3 dos 20 arremessos que tentou. O Thunder é um timaço e tem muito futuro, mas essa série serviu ao mesmo tempo para provar isso e para mostrar que o time ainda tem muitas limitações.

No mesmo dia acabou a série entre Denver Nuggets e Utah Jazz. Também por 4 a 2 mas em um clima bem diferente. Ao contrário dos empolgados jogadores do Thunder, o Nuggets jogou a partida inteira com cara de bunda, tentando provar para eles mesmos que poderiam virar a série, coisa que, no fundo, nem eles acreditavam. O Billups parecia frustrado e forçando o jogo (o Billups! Forçando o jogo!), o Carmelo perdido nas falta de ataque e o JR Smith discutindo até com as cheerleaders se elas passassem na frente dele.

O jogo nem foi tão fácil assim, mas em nenhum momento realmente pareceu que o Nuggets tinha um time melhor. Mesmo sem o Okur desde o começo do jogo 1, o garrafão do Jazz dominou toda a série, aliás me arrisco a dizer que essa contusão foi boa, porque obrigou o Jerry Sloan a usar mais o Paul Millsap, que conseguiu a proeza de ter mais energia que um garrafão que sempre pareceu pilhado, de Chris Andersen, Nenê e Kenyon Martin.

Com as atuações monstruosas do Millsap e o Boozer atacando mais a cesta do que se conformando com o seu arremesso que bate no teto do ginásio, o Jazz venceu a batalha do garrafão. Sobrava para o Nuggets vencer a batalha da armação com o Billups, mas ao invés disso o Deron Williams foi o melhor jogador da primeira rodada dos playoffs e arrasou com qualquer um que tentou marcá-lo. Infiltrou quando quis e acertou as bolas de longe quando deu na telha, dominante!

Faltava mais o quê para o Nuggets tentar? Carmelo Anthony. Mas nem isso deu certo. Mais uma contusão deu certo para o Jazz e sem Andrei Kirilenko o Jerry Sloan teve que colocar o novato Wesley Matthews para marcar o Melo e deu certo demais. Matthews incomodou, sofreu faltas de ataque e ainda foi útil no ataque. Sem Melo em seu melhor nível, sem Billups vencendo o duelo com Deron e sem o garrafão dominante pode-se dizer que o Nuggets foi até longe demais com esse jogo 6. Vitória mais que merecida do Utah Jazz, e olha que eu não falo isso porque sou puxa-saco deles.

Com tudo isso dito, preview da série que começa daqui a pouco!


O que o Lakers precisa fazer para vencer:
Já são dois anos seguidos derrotando o Jazz nos playoffs, o Lakers sabe o que fazer para derrotar seu adversário, a pergunta é se o corpo vai obedecer a mente.

Nos últimos dois anos o Lakers venceu primeiro porque dominou todos os jogos em Los Angeles. Nos jogos em casa o ataque fluiu, o time rodou bastante a bola e o Pau Gasol ganhou todas as batalhas contra Boozer e Okur. Ao mesmo tempo o mesmo garrafão obrigou o Jazz a viver de bolinhas forçadas de longa distância. Para vencer o Utah você precisa obrigá-los a ficar longe do garrafão, onde eles conseguem cestas fáceis e as dezenas de lances livres que cobram por jogo.

O problema do Lakers contra o Jazz sempre foi repetir essas atuações em Salt Lake City. Lá a torcida pressiona, o Jazz joga melhor, ataca mais a cesta e o Lakers acabou dependendo mais do Kobe Bryant, aliás algumas das atuações mais impressionantes do Kobe nos últimos dois anos foram contra o Jazz em Salt Lake. Mas quem está acompanhando o Lakers de perto nessa temporada está vendo que o Kobe está mais irregular que o normal, misturando jogos incríveis com atuações típicas de jogadores comuns. Sem o Kobe ser espetacular é difícil de imaginar o Lakers roubando um jogo em Utah, obrigando o time a vencer todos os jogos em Los Angeles.

Por fim a parte mais difícil para essa série: parar Deron Williams. O Lakers tem um problema crônico com armadores velozes e tomou uma surra do Russell Westbrook, o que esperar do Deron, que está na melhor fase da sua carreira? É bem plausível imaginar que o Jazz rouba um jogo em LA só com ele carregando o time nas costas. Talvez a solução seja colocar o Kobe marcando ele, como fizeram com o Westbrook, mas a estratégia de deixar arremessar é suicídio contra o armador do Jazz. Será que o Ron Artest, mesmo sendo bem lento, salva o Lakers dessa?

O que o Jazz precisa fazer para vencer:
De maneira simplista daria para dizer "Dê a bola para o Deron Williams e assista". Mas acho que é melhor deixar isso para o quarto período, até lá é melhor jogar basquete de verdade.

O Jazz já venceu o Lakers várias e várias vezes em Salt Lake sem maiores dores de cabeça. Basta um ataque agressivo, que deixa o garrafão do LA com problemas de falta e cobra um monte de lances livres, foi o que eles fizeram com o Denver. Talento eles tem de sobra também, não vão perder porque não tem elenco. Nesses dois anos de derrotas para o LA nos playoffs o grande problema foi que nos jogos fora de casa não foram metade do time que são em casa. Acredito de verdade que o problema do Jazz seja mais psicológico do que tático ou técnico, isso eles tem de sobra para lutar pelo título.

E se nos anos anteriores eu achava que era bem improvável o Jazz vencer porque não tinham o mando de quadra, hoje acho que eles podem superar isso por causa dessa fase especial do Deron Williams. Mesmo que continuem jogando mal longe de Utah, basta um joguinho mais inspirado do seu armador para roubar esse mando de quadra e decidir em casa, lá eles sabem o que fazer. Também vai ser bem importante ver como o Wes Matthews marca o Kobe Bryant, já que nos anos anteriores era o Ronnie Brewer e o Kirilenko que tomaram as surras. Se ele fez um bom trabalho no Melo é possível que também faça contra o Kobe.

Palpite: Lakers 4 x 3 Jazz. Acho que o Jazz tem mais chance do que nunca de vencer o Lakers, aliás acho o Jazz favorito se levarmos em consideração apenas o fim da temporada regular e a primeira rodada dos playoffs. Mas meu coração Lakeriano e a confiança quase cega no Kobe me fazem pensar que a série vai chegar no jogo 7 e que o Lakers não irá perder um jogo 7 em casa.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Repeteco

Kobe, assim como Mavs e Nuggets, choram mais uma vez


Todos nós sabemos que o Oeste é tão difícil quanto conseguir dar uns amassos na Alinne Moraes, e por isso mesmo temos motivos para esperar séries disputadas, partidas imprevisíveis, jogos inteiros sendo decididos em alguma mudança tática, com um time vencendo um jogo apenas para perder o próximo graças a alguma sacada conquistada na prancheta ou a um arremesso de último segundo. Se o Phil Jackson tomou um nó tático num jogo, o que esperamos é que ele resolva os problemas e volte com o time mudado, vença a partida, e então permita ao Thunder tentar criar um novo nó tático na partida seguinte. Em séries disputadas, esperamos um jogo de xadrez mas com menos gente nerd (deixemos os nerds apenas cuidando dos blogs), com vitórias e derrotas intercalando-se até o final da série, em que todos os conhecimentos adquiridos sobre as estratégias dos adversários são postos à prova.

Mas não foi exatamente isso que aconteceu nas partidas mais recentes da Conferência Oeste. Vantagens táticas conseguidas pelos times mais fracos acabaram se repetindo. Três times sem mando de quadra (Thunder, Spurs e Jazz) conseguiram duas vitórias seguidas, e a sensação é que conseguirão emplacar mais uma. Sabe aquela história de que um golpe de um Cavaleiro do Zodíaco não funciona duas vezes contra o mesmo adversário? Pois bem, se funcionou duas vezes - sem qualquer tipo de resposta ou solução do adversário - então por que não funcionaria três?

Quando comentei sobre a primeira vitória do Thunder em cima do Lakers, fiquei pagando pau para o técnico Scott Brooks. Não por ele ser gatinho, mas porque sua leitura do Lakers foi de dar inveja. Com um garrafão mais fraco, a solução foi colocar seus pivôs apenas para impurrar Gasol e Bynum para longe da cesta, deixar os rebotes a cabo de outros jogadores, e dobrar a marcação sempre que a bola chega no garrafão. No ataque, a decisão do Thunder foi de correr o máximo que der, atacar a cesta para cavar faltas sempre que possível, e aumentar ao máximo o ritmo de jogo. Como resultado, o Lakers passa a também jogar com velocidade, fica desencorajado a jogar dentro do garrafão e aí começa a dar arremessos rápidos de três pontos. Foi uma grande sacada perceber que arremessar de fora é o grande ponto fraco da equipe e explorá-lo. Além disso, cabe ao Westbrook atacar a cesta porque o Lakers não tem um armador que saiba defender, e ao Durant marcar o Kobe no final do jogo, quando as bolas ficam apenas na sua mão. Perfeito.

Para o jogo seguinte, o Phil Jackson sabia que a solução seria jogar dentro do garrafão o máximo possível, para evitar os arremessos de três pontos e punir os pivôs meia-boca do Thunder. No começo do jogo o plano se manteve, mas a frustração com a marcação dupla foi levando Gasol cada vez mais pra longe da cesta, o Bynum perdeu uma bola, e aí o time inteiro vai inconscientemente desistindo do plano de jogo e arremessando cada vez mais de longe. Perderam feio a partida, o técnico Scott Brooks é um gênio, e agora - como eu disse no nosso Twitter - todos os técnicos da NBA estão sentados em casa, com cara de bunda, tentando entender o porquê de não terem pensado nessa estratégia para vencer o Lakers antes. O Kobe pode estar machucado, Bynum pode não estar em plenas condições físicas, mas essa estratégia para frustrar o Lakers deveria ter sido usada por cada uma das equipes da NBA durante a temporada. Phil Jackson é um dos melhores técnicos da história, mas se a sua resposta a essa tática deu tão errado no último jogo, não vejo como dará certo na partida de amanhã. Mais do que nunca, acredito no Thunder eliminando o Lakers - mesmo que pareça tão difícil.

Na série entre Spurs e Mavs, o time de San Antonio não ganhou as duas partidas seguidas do mesmo jeito, mas parece ter conseguido uma consistência dentro da própria equipe. Quando analisei os problemas da temporada do Spurs, botei a culpa no Popovich - não por ele ser um treinador ruim, mas por seu esquema tático ser muito rígido e exigir jogadores que o elenco atual não possui. O time precisava basicamente de um bom defensor, bastante físico, que pudesse arremessar de três pontos (de preferência da zona morta). Como Richard Jefferson não é esse jogador e só brilha nos contra-ataques, acabou se afundando na rigidez do esquema tático do Popovich. Mas eis que, então, a contusão de Tony Parker acabou revelando o talento de George Hill.

A princípio ele era apenas um cosplayer de Tony Parker, ou seja, se fantasiava do armador francês em concursos de animes e mangás e tentava descolar uns prêmios, sem no entanto poder comer a Eva Longoria. No Spurs, apenas puxava contra-ataques solitários e volta e meia dava um tear drop típico do Parker (aquele arremesso com uma mão só, por cima da marcação adversária no garrafão). Mas o Popovich se apaixonou pela disciplina do rapaz, por sua vontade em quadra, e pela capacidade defensiva. Aos poucos ele foi deixando a fantasia de Parker de lado e foi se tornando único, ganhando mais responsabilidades na defesa e treinando cada vez mais arremessos. Na vitória do Jogo 3, o Spurs usou Parker, Ginóbili e George Hill ao mesmo tempo, forçando o técnico Rick Carslile a usar Kidd, Barea e Terry ao mesmo tempo, como vimos na análise da partida feita pelo Denis. Na vitória do Jogo 4, em que Parker teve um jogo muito fraco, quem venceu a partida foi mesmo o George Hill. Sabe como? Com arremessos de três pontos da zona morta. É isso mesmo: ele deixou de ser cosplayer do Tony Parker para virar cosplayer do Bruce Bowen.

Na última vitória do Spurs, George Hill foi o cestinha do jogo com 29 pontos - e 5 bolas de três pontos certeiras da zona morta. Mais bizarro do que isso, George Hill acabou marcando o Nowitzki em uma série de posses de bola, trabalhando como o Bowen em desequilibrar a linha da cintura do alemão e forçá-lo a cortar para um dos lados, onde a marcação dupla do Spurs pode obrigá-lo a parar. O Spurs sempre teve a melhor rotação defensiva de toda a NBA, já faz quase uma década. Nenhum time se recupera tão bem após fazer uma marcação dupla e ver a bola rodando em busca de um arremessador livre. O Spurs faz bem a rotação, sempre pega o cara que está livre e obriga a movimentação de bola a começar de novo. Ao fazer o Nowitzki bater para dentro, e portanto chegar mais perto do garrafão, o Spurs decidiu dobrar sempre, e aí a rotação defensiva fez um ótimo trabalho impedindo os arremessos. O alemão não ficou à vontade, os arremessadores do Dallas reiniciavam a movimentação ofensiva, e o Spurs desafiou o Mavs a jogar debaixo da cesta - sendo que eles não querem acionar Dampier e Haywood de modo nenhum, ainda mais com a insistência em jogar com três armadores em quadra ao mesmo tempo.

Ontem nada deu certo para o Spurs, o Duncan teve a pior partida da carreira, o Parker não acertava nada, o Ginóbili não calibrou a mira, mas foi a marcação dupla, a rotação defensiva e o trabalho de George Hill que garantiram o jogo. O jovem armador destruiu na defesa, nas bolas da zona morta e deu até uma cotovelada para deixar o Bruce Bowen orgulhoso. Além dele, mais sangue novo apareceu dentro do rígido esquema de Popovich: o ala nanico mas brigador DeJuan Blair lutou por rebotes, salvou bolas importantes e fez o trabalho do Duncan quando nosso cara-de-nada favorito não estava nos seus melhores momentos. A gente já sabe: se o Spurs tem uma partida de merda, em que tudo dá errado, e eles saem de quadra com a vitória (graças à defesa e às bolas de três da zona morta), é porque vão ganhar a série. Não tem nem conversa, o Mavs não tem muita chance contra essa equipe que agora acha ter as peças certas.

O bizarro é que, ainda que o Tony Parker seja muito melhor que o George Hill (o Parker está sempre nas listas de melhores armadores da NBA, e pra mim é, junto com o Monta Ellis, o melhor a finalizar dentro do garrafão), o George Hill é atualmente muito mais útil para o Spurs do que o armador francês. Jogue o Parker no lixo, lhe dê umas férias, tranque-o num quarto escuro com a Eva Longoria dentro, e o Spurs ainda ganhará do Mavs se tiver o George Hill. Nesse esquema tático do Popovich, é muito mais importante aquilo que o Hill traz à mesa, enquanto o Parker pode salvar jogos mas é, comparativamente, descartável. Outros podem pontuar, o Spurs precisa é de defeza e zona morta. Deram a sorte de que o George Hill, ainda que baixinho, é forte pra burro e treina como um débil mental. Disse estar arremessando milhares de bolas da zona morta em treinos particulares, e isso é algo que o Parker nunca conseguiu fazer. Não tem como não odiar o Spurs, até quando dá tudo errado, dá certo. Conseguiram a peça de que precisavam na hora certa, quando nós, pobres mortais, achávamos que a contusão do Tony Parker afundaria o time. Coisa nenhuma, é agora que eles parecem ter os primeiros minutos de consistência tática na temporada.

A gente também achou que o Jazz ia virar farofa com as contusões, mas no fundo isso apenas forçou o time a se focar mais em Boozer, Deron Williams e Paul Millsap. Todo mundo sabe que, num mundo ideal em que a Alinne Moraes andasse pelada, o Millsap seria titular em algum time da NBA. Com tantas lesões, Millsap ao menos ganhou mais espaço na equipe, e puniu duramente o Nuggets no garrafão. Aliás, o Jazz conseguiu expor as grandes fraquezas do Nuggets, coisas que a gente não desconfiava: o garrafão e o psicológico.

É uma espécie de lugar comum dizer que o garrafão do Nuggets é um dos mais fortes da NBA. No entanto, Nenê, Kenyon Martin e Chris Andersen são limitados no ataque. A defesa perto da cesta é o ponto forte dos três, mas Kenyon Martin está seriamente limitado - e o Jazz joga cada vez mais fora do garrafão. O Deron Williams está jogando melhor do que nunca, e o foco do Nuggets é claramente pará-lo. A equipe de Denver tem optado por dobrar a marcação, o que abre espaço para os arremessos do Boozer, e obriga os pivôs do Nuggets a saírem um pouco do garrafão - tanto para impedir os pick-and-rolls com o Deron quanto para o jogo refinado de meia-distância do Carlos Boozer. Se o Martin estivesse em melhores condições, poderia até marcar mais tempo o próprio Deron Williams, mas em suas atuais condições físicas cabe a ele ficar só olhando enquanto o melhor armador dos playoffs trucida o Nuggets. Deixando de lado todo o patriotismo que nós achamos tão idiota, posso falar também que o Nenê mostra que fede pra valer quando precisa marcar alguém no corpo-a-corpo fora do garrafão. Quando ele é colocado no Boozer, não consegue evitar cortes para dentro e nem os arremessos constantes. O Chris Andersen também é daqueles defensores fajutos, que dá tocos na cobertura mas não segura ninguém no mano-a-mano. O resultado é que na batalha do garrafão, ninguém do Nuggets pontua lá dentro, e na defesa Deron Williams e Carlos Boozer tiram os jogadores de garrafão do Nuggets de sua zona de conforto.

Mas pior do que isso é o lado psicológico. Já comentei antes que o JR Smith é um daqueles clássicos jogadores que joga muito melhor quando seu time está na frente. Seus arremessos sem critério machucam mais o Nuggets quando o time está atrás do placar e precisa de cestas fáceis e com alta porcentagem de aproveitamento. Por outro lado, esses arremessos quando o time está na frente são o que falta para terminar de aniquilar o adversário, e se eles não caem não chegam a deixar o Nuggets atrás no placar. O Jazz está jogando essa série com muito mais vontade e agressividade do que o Nuggets, com um monte de jogadores nada a ver tentando mostrar serviço e provar que a temporada não vai pro saco só por culpa de algumas contusões. A garra do Jazz é óbvia na briga por rebotes, na defesa, e nas séries de pontos seguidos que surgem de repente durante a partida, fruto apenas de algumas bolas recuperadas, rebotes ofensivos e defesa mordendo. Com isso o Nuggets fica repentinamente atrás no placar - e aí o time, assim como o JR Smith, deixa de jogar.

O JR Smith, depois de tantos conflitos com o técnico George Karl, sequer tem coragem de forçar seus arremessos idiotas quando o time está perdend nos playoffs. O resto do time acaba seguindo o mesmo padrão, e sobra para o Carmelo e para o Billups jogarem de verdade. A sensação, quando o Jazz passa à frente, é de que o Nuggets simplesmente desiste - principalmente na defesa. Falta ao Nuggets aquela calma de "time superior", aquela certeza de que sairá de quadra com a vitória não importa de quantos pontos estejam perdendo no meio do jogo. Essa calma era a marca registrada do Pistons campeão da NBA que tinha Billups na armação, e é notável a frustração do armador com a postura do Nuggets em quadra. É fato que o Billups conseguiu colocar um orgulho no time, uma calma de time vencedor, mas nada disso se aplica quando o time está perdendo. Na última partida o Jazz começou o terceiro período com uma força absurda, fez uns 10 pontos seguidos, o Nuggets simplesmente desistiu e de repente perdia por 16 pontos uma partida que tinha liderado com tranquilidade. Dali em diante o jogo foi apenas desistência, com um Billups frustrado sequer querendo envolver os companheiros, e um Carmelo Anthony puto da vida tentando resolver sozinho no ataque enquanto berra com seus colegas de equipe. Não dá pra negar a vontade de Billups e Carmelo de vencer essa série, mas o resto do time tem preguiça. Jogam maravilhosamente bem quando estão na frente, desistem quando estão atrás. Basta ao Jazz jogar com vontade e forçar uma sequência de pontos para que o Nuggets inteiro venha abaixo.

Também vejo o Nuggets com poucas chances de se recuperar das duas últimas surras que tomou do Jazz. Tanto o Thunder quanto o Spurs e o Jazz parecem ter alcançado aquele grau de compreensão do adversário que nos leva a nem acreditar que a série possa ter outro fim que não a vitória deles. A outra série do Oeste, entre Blazers e Suns, é a única cheia de altos e baixos e que vai ter um final surpreendente. As séries do Leste também estão bem surpreendentes, até mesmo com uma vitória heróica do Dwyane Wade sozinho (tinha uns outros caras em quadra, mas eles não jogavam basquete) em cima do Celtics para manter o time vivo na série. Do mesmo modo, o Bucks conseguiu uma vitória em casa fácil fácil em cima do Hawks e joga hoje novamente tentando empatar a série. Amanhã daremos uma olhada, então, no lado Leste, depois de acompanhar Bucks e Hawks hoje de noite e gritar loucamente "fear the deer" - ou, em hilário português, "tema a rena"!

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Nova geração de armadores

Cadeiras vazias para ver Chris Paul e Deron Williams, duas peças de museu


Houve um tempo, muito distante, em que a rivalidade entre dois armadores dominava os debates sobre NBA. As donas de casa fofocavam sobre eles na calçada, os bêbados escolhiam o prefererido e ficavam defendendo o queridinho nas mesas de bar, e o pessoal que acompanha basquete e comenta nos fóruns jogava a vida na privada teorizando sobre qual dos dois era melhor sempre que dava um tempinho no Ragnarok. Os armadores eram Deron Williams e Chris Paul, e mesmo que ficar alegando que um era melhor do que o outro fosse a mair perda de tempo (assim como nós dizemos, desde o começo do blog, que é uma perda de tempo surreal comparar dois jogadores diferentes), a rivalidade era muito divertida de se acompanhar.

Os dois foram draftados em sequência, com o Williams indo para o Jazz com a terceira escolha e o Chris Paul indo para o Hornets com a quarta. Por algum tempo Paul pareceu o jogador mais completo enquanto Deron era o melhor pontuador e arremessador, mas os dois foram mostrando mais e mais aspectos de seus jogos até que não dava mais para dizer o que um fazia melhor do que o outro. O que podemos dizer, sim, é que o Chris Paul sempre tinha seu traseiro chutado quando os dois se enfrentavam e, no entanto, começou a receber mais atenção do público com sua atuação monstruosa nos playoffs. Foi parar no All-Star Game duas vezes, muitos consideram o rapaz o melhor armador da NBA, e o Deron Williams foi ficando um pouco de lado e ainda não foi parar no jogo das estrelas, o que é um crime tão grande quanto deixar a Alinne Moraes tetraplégica.

Mas essa rivalidade agora é velharia, tipo Kinder Ovo que custava 1 real. Os dois armadores estão fora das quadras por uns tempos e seus reservas, dois novatos, estão chutando traseiros. Todo aquele papo de que o draft desse ano tinha uma boa safra de armadores não era só papo pra te comer, temos Brandon Jennings marcando 55 pontos e transformando o Bucks, Tyreke Evans assumindo a armação do Kings e tornando o time bizarramente bom, tem o Stephen Curry quebrando um galho no Warriors sem Stephen Jackson e tentando sobreviver ao circo, o Ty Lawson fazendo miséria no Nuggets quando o Billups vai pro banco, o Toney Douglas sendo um dos poucos aspectos positivos do Knicks e jogando melhor do que o titular Chris Duhon, o Jonny Flynn impedindo o Wolves de ter a pior campanha da NBA apesar das contusões (o Nets também ajuda o Wolves a não ter a pior campanha) e além de todos eles temos os novatos que substituem Chris Paul e Deron Williams: são o Eric Maynor e o Darren Collison.

Os dois também foram draftados em sequência, também com o Jazz escolhendo primeiro. Mas ao invés da terceira e quarta escolha, foram draftados na vigésima e na vigésima primeira. Mas, nessa safra de armadores abençoada por deus e bonita por natureza mas que beleza, os dois chutam traseiros como não se imaginaria de escolhas tão altas, principalmente levando em conta que armadores costumam levar mais tempo para pegar as manhas da NBA do que jogadores de outras posições.

Quando o Chris Paul torceu o pé, a impressão que deu foi a de que o time estava fedendo tanto que ele até preferiu se contundir pra ir assistir ao filme do Pelé. Das dez partidas que disputou, Chris Paul venceu apenas três, e isso enquanto marcava quase 24 pontos por jogo. Era bem claro que ele estava tendo que pontuar completamente sozinho, e como o Tracy McGrady aprendeu nos seus tempos de Orlando, dá pra fazer 60 pontos num jogo e ainda perder se o teu time não souber nem amarrar o cadarço. Sem o Chris Paul, quem assumiu a responsabilidade de armar esse time incapaz de acertar a cesta foi o Darren Collison, e o pirralho já ganhou três partidas - e só tendo disputado cinco. A derrota de ontem para o Heat, por exemplo, só veio nos segundos finais depois de um arremesso certeiro do Udonis Haslem, o que mostra que o rapaz não apenas está no caminho certo mas também está tornando seu time mais eficiente sem carregar tanto o fardo ofensivo. Com 15 pontos e 6 assistências de média nas partidas como titular, Collison está abrindo espaço para outros jogadores aparecerem, como o também novato Marcus Thornton, escolha de segunda rodada, que marcou 22 pontos por jogo desde que o Chris Paul foi passear. A verdade é que esse time fede, fede muito, e fedia mesmo quando o Paul levou a equipe aos playoffs e impressionou todo mundo a ponto da gente não perceber o tamanho da bomba (tipo um cara feio com uma namorada gostosa, você acaba pensando algo como "ele não deve ser tãaaaao feio assim). Se ele continuar segurando o rojão sozinho, o time não apenas vai estagnar como vai acabar torrando os últimos traços de paciência do armador, que pode, no maior estilo "Tropa de Elite", simplesmente pedir pra sair.

Enquanto isso, em Utah, parece existir uma espécie de maldição que aflige as filhas dos armadores do Jazz. Assim como o Fisher enfrentou problemas com a saúde de sua filha que, por fim, acabaram gerando um acordo que permitiu ao armador voltar a Los Angeles (e ao Lakers) para poder estar perto dos maiores centros médicos, Deron Williams também pediu dispensa do Jazz por uns tempos para lidar com problemas de saúde de sua filhota. Ficamos na torcida de que não seja nada sério, que o Deron Williams possa voltar às quadras feliz e tranquilo, e que essa maldição não seja tão séria quanto a que faz o Clippers sempre feder ou o Wizards sempre ter alguém contundido. Nas duas partidas em que o Eric Maynor teve que assumir a armação titular da equipe, suas atuações foram incríveis. Contra o Sixers foram 13 pontos e 11 assistências, e contra o Cavs foram 24 pontos e 4 assistências. Mais do que isso, Maynor mostrou domínio nas jogadas de "pick-and-roll" que tanto fizeram a fama de Stockton e Deron Williams, apresentando um grande entrosamento com o Carlos Boozer. Parte disso parece ser culpa do Jerry Sloan, porque parece que se um anão de biquini for colocado pra armar o jogo no Jazz vai dar tudo certo, lembro de ver jogadores bizarros assumindo a posição em momentos de desespero e funcionando bem, como Gordan Giricek, o Raja Bell por quase uma temporada inteira, e até o Kirilenko, todos bem fora de sua posição natural.

Para o Jazz, saber que o Maynor se deu tão bem na função e que o Sloan deixa a vida dos armadores tão fácil é uma descoberta essencial. Esse começo de temporada não está sendo fácil para a equipe e Carlos Boozer e Paul Millsap são como pistoleiros de faroeste, ou seja, a cidade é pequena demais para os dois juntos. Ambos precisam de minutos, mas os dois precisam de bons armadores que permitam o "pick-and-roll" para que possam render satisfatoriamente. Se Millsap entrar em quadra acompanhado do Maynor, o Jazz ganha um banco de reservas que não deve muito à dupla titular Boozer-Deron, e isso não é pra qualquer um. Além de ser uma base para o futuro, já que a equipe se comprometeu com o Millsap pelos próximos anos, é uma garantia de que as mesmas jogadas podem ser usadas pelo escalão reserva, que sempre foi um dos grandes pontos fracos do Jazz.

Da próxima vez que Jazz e Hornets se enfrentarem, e provavelmente o Hornets vai estar fedendo bem mais do que o Jazz, ninguém mais vai estar de olho no duelo entre Chris Paul e Deron Williams. Todo mundo vai querer ver Eric Maynor e Darren Collison se pegando, porque as duas equipes parecem destinadas a ter uma tradição de armadores rivais. O universo conspira para que sejam draftados em sequência, para que tenham chances no time titular ao mesmo tempo, e vai conspirar para grandes partidas entre os dois pelos próximos anos. Tudo graças à melhor safra de armadores puros que a NBA já viu, e olha que nem temos o Ricky Rubio nessa brindadeira ainda. Se bobear, é sorte dele: no meio de tanto, tanto talento, ele teria que suar as pitangas para fazer jus aos seus companheiros de posição. Afinal, armadores que substituem Chris Paul e Deron Williams à altura tem que ser espetaculares - e olha que nenhum deles fez 55 pontos. Ainda.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Na correria

John Kuester tenta impedir o técnico Mike Brown de enfiar o dedo no nariz


O Detroit Pistons foi parar numa daquelas situações em que nenhum time quer estar, que é quando a equipe não fede e nem cheira. Esse limbo, em que o time claramente não vai conseguir ser campeão mas é bom demais para conseguir boas escolhas de draft, exige decisões ousadas e polêmicas. Como os times que encontram-se nessa situação intermediária são bons, fica difícil tacar tudo na privada e não deixar os fãs descontentes com o desmanche. Os torcedores sempre acham que falta apenas uma peça final, apenas uma arrumadinha no elenco, apenas um técnico novo, apenas uma Alinne Moraes na torcida, e fica difícil convencer qualquer um de que seria melhor desmontar o time bom e feder por uns tempos, na esperança de montar um elenco que realmente possa chegar ao topo no futuro. O caso que me vem imediatamente à cabeça é aquele Nets que foi campeão do Leste em 2002 e 2003, mas que claramente não tinha qualquer chance de ganhar das grandes potências do Oeste. Foi ficando claro que o time não seria campeão, foi perdendo fôlego, e ao perder o topo do Leste para o Pistons, percebeu que não dava para ficar nesse limbo do "quase-lá". Aos poucos, o time foi desmontado num óbvio processo de reconstrução que dura até hoje mas que já mostra seus primeiros resultados.

O Pistons chegou a ganhar um anel de campeão e dominou o Leste por muitos anos consecutivos, logo depois do auge do Nets, mas a sensação sempre foi de que faltava alguma coisinha a ser arrumada na temporada seguinte para que eles dominassem pra valer. Muito se falava sobre motivação, sobre o time não ter mais saco de ficar aguentando joguinhos meia-boca pra no final acabar perdendo por algum motivo idiota, e talvez fosse isso que tanto incomodava a equipe. Em todo caso, óbvio a todos que o Pistons não tinha mais chances de ser campeão num Leste cada vez mais forte e competitivo, chegou a hora de começar de novo. Admitir que o time vai feder por uns tempos, não se apressar, e construir uma franquia vencedora com calma e inteligência. Afinal, não foi assim que o engravatado Joe Dumars construiu o Pistons que foi campeão em 2004?

Só que, pra mim, não parece ser bem isso que anda acontecendo em Detroit. Já critiquei as novas aquisições da equipe (ao que alguns fãs do Pistons caíram matando, afinal só existem dois pecados no mundo: questionar o Joe Dumars, e questionar sorvetes), mas agora é hora de criticar o novo técnico da equipe. A contratação já está até velhinha, mas aqui nunca é tarde para a gente meter a colher. Bola Presa, orgulhosamente trazendo notícias do mês passado com um saborzinho de lentilha de ontem.

Após as negociações com o Avery Johnson falharem, o escolhido para o emprego de técnico do Pistons foi o assistente técnico do Cavs, John Kuester. Convenhamos, é muito engraçado contratar o assistente de um dos piores técnicos da NBA, mas justiça seja feita: se o Cavs parece um time, se eles tem mais de uma jogada ofensiva, e se são minimamente suportáveis de assistir, é tudo culpa do Kuester. Antes dele o ataque do Cavs era uma bagunça, completamente amador, consistindo apenas de jogadas de isolação para LeBron. Agora, o time só isola o LeBron quando as jogadas (que existem!) não dão certo, e dá até gosto de ver como o Cavs cuida bem da posse de bola, sendo um dos times com menor número de desperdícios em toda a NBA. O técnico de verdade, Mike Brown, aprendeu no Spurs a montar defesas fortes - algo que sempre estabeleceu no Cavs com moderado grau de sucesso, mas nada mais. Se levou o título de melhor técnico do ano para casa, é apenas porque o prêmio não faz sentido nenhum e o John Kuester ajudou a balancear o time que dominou o Leste durante toda a temporada regular.

Mas o cara é um assistente técnico. Passou uns tempos com o Larry Brown no Pistons e com o Mike Brown no Cavs, só que sempre com a função de ensinar os esquemas de ataque. Aposto que Ben Gordon e Charlie Villanueva vão ficar muito felizes com o técnico que vem focar na parte ofensiva do jogo (Marbury deve pedir para ir jogar em Detroit em breve, assim que ouvir as boas novas), mas resta a dúvida quanto ao talento de Kuester nas outras áreas do jogo, incluindo o relacionamento com os atletas. Sem sombra de dúvida, Avery Johnson era uma escolha muito melhor: ele foi o homem que ensinou o Dallas a defender, sem desmantelar o ataque, e sagrou-se como um grande motivador dentro e fora das quadras. O problema foi que, além de pedir um pouco de grana a mais do que os engravatados no Pistons queriam pagar, Avery queria a garantia de um trabalho de longo prazo, ao menos 3 anos à frente da equipe, de modo que pudesse ter segurança para lidar com um time em reconstrução. Essa garantia não lhe foi dada, porque Joe Dumars pode ser gênio, mas todo gênio é maluco.

Desde que Dumars assumiu em 2001, o Pistons está em seu quinto técnico. O último, Michael Curry, era assistente técnico da equipe e assumiu o cargo principal com a fama de ser um motivador respeitado por todo o elenco, algo de que a equipe tanto precisava. Recebeu apoio irrestrito do Dumars quando começou seu trabalho e, ao término da temporada, mesmo com o fracasso nos playoffs e todas as brigas e desavenças com Richard Hamilton, recebeu a promessa do Dumars de que continuaria à frente da equipe. Promessa "se o Pitta não for um grande prefeito, nunca mais votem em mim" essa, porque o Curry foi pro olho da rua rapidinho.

Pelo jeito, não há paciência por aquelas bandas. É preciso aceitar que o time vai feder por uns tempos e entregar o elenco nas mãos de alguém que possa fazer um trabalho duradouro e sólido, principalmente quando se está lidando com jogadores jovens e um time sem identidade. Afinal de contas, esse Pistons é baseado em defesa e trabalho coletivo, como o que foi campeão em 2004, ou é baseado em ataque e superestrelas? Vai ter um jogo de perímetro ou um jogo de garrafão? É bastante maluco compor um elenco quando você não lhe deu uma identidade antes, mas agora que a merda está feita e Ben Gordon e Villanueva estão contratados de forma meio aleatória, que ao menos entreguem esse elenco para um técnico versátil e que possa colocar um padrão de jogo específico nesse grupo de jogadores. Não garantir um contrato longo para um técnico é, implicitamente, estar julgando diariamente o novo técnico e cada ação que ele faz. Haverá a pressão para que ele vença, e o próprio Dumars avisou que o processo de reconstrução deve ser quase imperceptível, muito rápido. O sujeito está correndo demais, acho que o pessoal tem medo de feder e acabar virando o Grizzlies.

A própria contratação de Gordon e Villanueva foi um pouco precipitada. Jogadores como Boozer e Okur, frente a uma economia abalada e um teto salarial que deve diminuir, decidiram manter seus contratos por mais um ano para garantir suas verdinhas. Isso significa que mais jogadores terão o fim de seus contratos em 2010, junto com LeBron, Wade, Bosh, Amar'e, Nowitzki, Joe Johnson e outros mais. Vários times estarão com espaço salarial pronto para tentar abocanhar as maiores estrelas, mas os salários devem estar menores, os tempos são outros no Banco Imobiliário do mundo real. Ninguém dará ao Boozer os 14 milhões que ele procura, alguns jogadores assinarão por menos do que pretendiam e muitas oportunidades surgirão para os times com espaço salarial e que queiram apenas um jogador para fechar o elenco, para suprir uma área específica. Entendo a vontade do Dumars de garantir seus jogadores agora, quando a maioria dos times está se focando no ano que vem, mas pagar 10 milhões por ano para o Ben Gordon não pode ser lucro para ninguém (a não ser para o próprio Ben Gordon e a mãe dele).

Temos também que concordar que Richard Hamilton não é um jogador fácil de ser trocado. Longe do seu auge, ganhando 12 milhões por ano durante mais 4 anos, e famoso por só render em esquemas táticos muito específicos. Qual time comprometerá seu espaço salarial, indo para 2010, arriscando encaixar Hamilton no elenco? Qual time em que ele se encaixaria bem teria grana ou jogadores de salários equivalentes para mandar em troca? Fica bastante complicado, mas já sabemos que ele não será capaz de render jogando ao lado de Rodney Stuckey e Ben Gordon. Por enquanto, o Pistons é apenas um amontoado pequeno de jogadores aleatórios, sem um critério óbvio, sem uma identidade, sem um cérebro, e que negou a um bom técnico a chance de estabelecer um trabalho duradouro. Joe Dumars está correndo desesperadamente, torcendo para que ninguém perceba que o time vai feder.

É claro que estou cutucando um ícone sagrado, afinal ele é o homem que entregou um título ao Pistons com um elenco montado na unha, vindo do nada, com sobras que outros times não quiseram. Mas ele também é o homem que draftou Darko Milicic e que disse que Amir Johnson era o futuro do garrafão do Pistons (pra depois contratar até o Kwame Brown). Por enquanto, a tentativa de fugir de 2010 rendeu, na minha opinião, contratos exagerados para jogadores que não se encaixam muito bem. Mas acompanharemos com bastante atenção como Dumars fará para compor o resto do elenco e estabelecer uma voz comum à franquia. Se deu certo uma vez, ele merece ao menos a nossa torcida para que funcione de novo.

Enquanto isso, o Jazz também deu um jeitinho afoito de escapar da bagunça de 2010. Certamente não estava nos planos da equipe que Boozer e Okur escolhessem manter o último ano do contrato, mas é que nos tempos de crise (em que um lanche do Mc Donald's custar 5 reais é uma promoção) os dois jogadores não achariam contrato melhor em lugar nenhum. Acontece que, em 2010, o contrato acaba e eles fogem para qualquer lugar que possa pagar alguma graninha. Imaginava-se um aumento muito grande dos salários (quando um time como o Grizzlies não conseguir o LeBron ou o Wade, vai acabar dando um contrato máximo para um jogador mais-ou-menos), mas com a diminuição do teto salarial da NBA e nenhum time disposto a pagar multas por excedê-lo, arrisco que vai ter muito jogador topando jogar por bem menos do que suspeitava em 2010. O Jazz, então, provavelmente vai perder o Boozer e o Okur na temporada que vem, e estará apto a brigar por esses grandes nomes que estarão disponíveis. Mas não, preferiram cuidar disso agora: igualaram a oferta do Blazers pelo Paul Millsap, que foi de 32 milhões por 4 anos.

Eu entendo o Jazz, eles gostaram realmente do Millsap no tempo em que ele foi titular quando o Boozer, pra variar, se contundiu. O garrafão da equipe é essencial para que Deron Williams possa continuar seu trabalho, e Millsap garante isso com o bônus de já ter sido titular, conhecer a formação tática e se dar bem com o técnico Jerry Sloan. Quando a gente lembra que o Marcin Gortat, que não fez nada de mais na vida, assinou um contrato de 33 milhões por 5 anos, percebemos que o Millsap saiu barato também. Mas agora o Jazz tem uma situação bizarra nas mãos: ou troca o Boozer imediatamente, por um pacote de biscoitos se for o caso, ou então vai pagar multas astronômicas por ter deixado o teto salarial da equipe mais esticado do que a Monica Mattos. Ou seja, Jazz e Pistons não quiseram brincar em 2010, correram com sede ao pote e garantiram contratos o mais rápido possível. Mas agora os dois precisam fazer trocas essenciais para o bom funcionamento de ambas as equipes. Vamos aguardar mudanças significativas, ou então teremos equipes muito bizarras em quadra - as duas, vejam que engraçado, com reservas ganhando por volta de 10 milhões de doletas.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

MIPWAL3SPITL

Vai você, Granger!


Principalmente por figurões como o Gilbert Arenas e o DeShawn Stevenson, o Wizards deve ser um dos times que mais foram citados aqui no Bola Presa. Nessa temporada, sem Arenas e sem vitórias, eles ficaram um pouco de lado. Mas vou dizer, eu gosto desse time, espero falar mais deles na temporada que vem e gosto porque eles têm alguns dos jogadores mais legais da NBA. Não dá pra torcer contra.

Veja essa declaração do Caron Butler na semana passada, por exemplo:

"Eu sei, pessoalmente, que estarei na melhor forma da minha vida. Na melhor condição física que já estive. Fisicamente, mentalmente, eu vou estar melhor do que nunca, vou ter a melhor temporada da minha carreira. Estou botando isso no papel, vou ter o melhor ano da minha carreira dentro e fora da quadra. Estou falando sério."

Ele também disse que planeja usar o seu verão de férias para treinar com dois ex-companheiros de time, dois frangotes chamados Kobe Bryant e Dwyane Wade. Quantas vezes vemos jogadores comprometidos a trabalhar tanto nas suas férias?

Talento o Caron Butler tem de sobra. Não para ser o próximo Kobe ou o Wade, mas ele é bom o bastante para fazer muito estrago na NBA, ainda mais com essa motivação toda e um ótimo preparo físico. Mas como uma andorinha só não faz verão (disse essa enquanto fazia tricô e guardava a dentadura), o Butler espera o mesmo dos seus companheiros de time:

"Eu acho que todo mundo estará sedento como eu nesse verão. Nós não temos tempo a perder, nosso momento é agora."

E ele tem razão. O Antawn Jamison tem 32 anos, o Arenas tem 27, o próprio Butler tem 29 e o Brendan Haywood também. Seguindo a teoria de que o atleta da NBA está no seu auge por volta dos 28 anos, o Wizards está no momento certo para brilhar. A questão é se eles precisam de mais alguém para que esse brilho signifique chance de título.

Para o Caron Butler eles precisam de alguém sim, mas que ele espera que esse alguém não seja um pivete qualquer conseguido com a terceira escolha do draft. Segundo o Butler, ou o Wizards garante a primeira escolha do draft e leva o Blake Griffin pra casa ou é melhor trocar a escolha por algum veterano.

Eu estou de acordo. Ficar pegando pivete pra cuidar quando a intenção do time é ganhar agora simplesmente não vale a pena. Eles já fizeram isso anos atrás quando trocaram sua quinta escolha (que veio a ser o Devin Harris) pelo Antawn Jamison e deu resultado, com o Jamison virando um all-star enquanto o Devin Harris ia pegando o jeito das coisas em Dallas. O Blake Griffin parece ser um cara bom o bastante pra assumir a posição 4 e dar conta do recado, qualquer outro novato acho que é melhor o Wizards trocar mirando times que tem muito talento e que estão buscando renovação, como o Suns, o Clippers e o Mavs.

Mas voltando à questão da vontade de melhorar do Butler, acho que isso faz muita diferença na NBA. Se no campeonatinho da escola o moleque que é o melhor não está afim de jogar, ele é o melhor mesmo assim e o time dele ganha, na NBA tem tanta gente boa que são nessas coisas que o Parreira chamaria de detalhes que um time ou um jogador é melhor que o outro.

O Kobe chegou na NBA como um grande jogador de colegial com ótimo físico e arremesso irregular, assim como o JR Smith e Gerald Green, mas ele é tão bitolado em basquete e tão obstinado a ser o melhor (deve ser um cara muito chato por isso, é verdade) que ele acabou conseguindo virar o que é. Eu não tenho dúvida de que o JR Smith tem o talento necessário para ser um jogador com média de 25 pontos por jogo, mas ele quer isso? Ele quer melhorar o jogo 1-contra-1 dele? Quer treinar jogadas no pick-and-roll? Quer ser uma ameaça como passador para conseguir mais espaço? Quer ser melhor defensor para garantir a vaga de titular? Para isso o cara tem que passar horas e horas treinando, tem que contratar treinador particular e tudo isso sem a certeza de que alguém irá perceber a mudança e jogar um biscoito pra ele.

Essa discussão nos leva a um dos prêmios que eu mais gosto na NBA, o de "Most Improved Player", o jogador que mais evoluiu em relação à temporada passada. O prêmio é dado a quem mais evoluiu, não importando os motivos que os levaram para tal evolução.

Hoje estava vendo a lista dos principais candidatos a jogador que mais evoluiu na temporada lá no NBA.com e eles listam o Nenê, o Kevin Durant, o Jeff Green, o Danny Granger, o Devin Harris e o Paul Millsap, todos candidatos fortíssimos.

O Nenê na verdade sempre foi bom, o que aconteceu foi que nesse ano juntou que ele estava finalmente saudável, mais maduro e com um armador ótimo do lado. Acho que foi mais a situação que melhorou do que ele. Parecido é o caso do Millsap, que evoluiu o jogo ofensivo dele mas que foi com a contusão do Boozer e o maior tempo em quadra que definiu esse status de candidato ao prêmio.

Também podemos colocar o Devin Harris nos que melhoraram porque a situação mudou. No Nets ele é a base do ataque e assim tem mais liberdade pra mostrar seu jogo. Mas não vejo ele atacando a cesta muito melhor do que já fazia em Dallas, apenas faz mais frequentemente e com menos medo de ir parar no banco quando errar. Devin Harris é o mesmo jogador mas mais à vontade e com um esquema de jogo feito pra ele.

O Kevin Durant eu já disse aqui que evolui a cada passo que dá, a cada noite de sono bem dormida, a cada empada de palmito que come. Simplesmente a cada jogo que ele joga o cara parece melhor e mais completo. Pensando por esse lado eu daria o prêmio a ele, mas pensando por outro lado eu acho natural demais que um jogador de segundo ano melhore bastante depois de apanhar no ano de novatos.

Não é à toa que o seu companheiro de Thunder, o Jeff Green, também esteja na discussão. Mas assim como eles, o Mike Conley está melhorando demais, o Joakim Noah, o Spencer Hawes, o Thaddeus Young, o Rodney Stuckey, o Nick Young, o Wilson Chandler, o Aaron Brooks e por aí vai. Se eu pudesse inventar uma regra pra deixar nesse prêmio seria que só vale para jogadores que estão em pelo menos seu terceiro ano na liga, quando a evolução técnica é menos esperada.

Talvez essa mudança não fosse legal porque o prêmio teria que se chamar "Most Improved Player with at least 3 seasons played in the league" e a sigla MIPWAL3SPITL não iria pegar entre os fãs da NBA. Mas pelo menos iria premiar o jogador que evoluiu seu jogo quando é mais difícil, quando a maioria está estagnada, acostumada. Por isso eu daria nesse ano o meu voto para o Danny Granger.

O nosso querido Granny Danger foi draftado em 2005 e não parou de melhorar o seu jogo até hoje. Começou bem, melhorou no ano seguinte, aproveitou quando foi abrindo espaço no seu time e nesse ano ele não só evoluiu ainda mais como evoluiu a parte mais difícil, que é deixar de ser só um grande jogador para ser espetacular.
É mais fácil passar de 10 pontos por jogo para 18 do que de 20 para 25. Para chegar aos 18, 19 pontos por jogo, basta você ser bom ou ter um bom armador do lado, para chegar aos 25 de média você precisa ser muito bom e ter uma variedade de jogadas ofensivas que façam com que você tenha jogos de muitos pontos contra qualquer adversário, e é isso que o Granger desenvolveu.

Desenvolveu com treino, com vontade de jogar basquete melhor mesmo depois de assinar um bom contrato. Mais ou menos como o Butler está disposto a fazer.

Hoje o Granger chuta de 3, de 2, infiltra e vai quase 7 vezes por jogo para a linha de lance livre. Pode jogar como um shooter, se posicionando para o arremesso, ou com a bola na mão. Jogador fora de série!

Danny Granger, meu palpite para esse ano. Caron Butler para o ano que vem.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

As quebradeiras - parte 1

O texto é sobre contusões de verdade, dá o fora Paul Pierce!

Ontem estava assistindo a lavada espetacular que o Lakers deu no Suns e em determinado momento a transmissão da ESPN gringa mostrou na tela uma lista com dados muito interessantes. Era uma lista com todos os machucados dos principais times do Leste e Oeste. Basicamente todos os 9 candidatos a vaga nos playoffs do Oeste e os 3 favoritos do Leste sofrem ou sofreram com contusões de peças importantes nessa temporada.

Eles ainda fizeram um paralelo legal dizendo como no ano passado, nessa mesma época do ano, a graça da temporada estava em ver como os times estavam lidando com suas novas aquisições (Gasol, Shaq, Kurt Thomas, Kidd, Korver, etc.) e nesse ano o interessante está em ver como as equipes estão se saindo ao perder jogadores.

Vou tentar não me alongar muito porque são muitos times, mas é essencial comentar como cada time está lidando com as perdas. Nesse ano não é um time ou outro que perdeu um grande jogador por contusão, foram praticamente todos e em uma liga disputada isso faz toda a diferença. E não, não vou comentar do Wizards sem o Gilbert Arenas, podem ficar tranquilos.



Los Angeles Lakers - O Lakers perdeu o Andrew Bynum como no ano passado mas não está com nenhum problema. Sem ele o Lakers venceu o Celtics em Boston e logo depois foi o único time a bater o Cavs em Cleveland. Na ausência do Bynum, o Gasol voltou a jogar de pivô, jogando até melhor do que antes, e o Odom está com atuações que renderiam até um lugar no All-Star Game se fossem no começo da temporada.

Desde a contusão do Bynum, o Kobe tem mais ou menos uns 6 pontos a mais de média, o Gasol mais uns 4 e o Odom quase o dobro, os três estão dando conta do recado e até defensivamente o Lakers não tem sentido tanto a falta do Bynum como sentiu no ano passado. Quer dizer que o time de LA vai ser campeão mesmo se o Bynum não voltar? É possível, mas eu não apostaria dinheiro nisso.


San Antonio Spurs - Primeiro foi o Ginobili fora no começo da temporada, logo depois o Tony Longoria. As duas contusões comprometeram um pouco o começo da campanha dos Spurs em termos de números mas serviram para outras coisas: mostraram que o George Hill e o Roger Mason dão conta do recado e que o Bruce Bowen já pode começar a procurar por asilos confortáveis na região de San Antonio.


Com os dois de volta, as vitórias apareceram e o Spurs entrou de novo entre os favoritos. Aí o Ginobili se machucou de novo, ficará de fora por pelo menos duas semanas e o Duncan está com fortes dores no joelho, desfalcando o time também. O resultado disso? 35 e 39 pontos para Tony Parker em jogos consecutivos contra Dallas e Portland. Como disse o Popovich, "O importante é todos estarem saudáveis nos playoffs". Até lá, de alguma maneira que a ciência não explica, o Spurs dá um jeito.


Utah Jazz - Se para o Spurs as contusões de Parker e Manu serviram para revelar Mason e Hill, no Jazz a contusão de Carlos Boozer serviu para eles verem que mesmo se perderem o ala na temporada que vem, o Millsap dá conta do recado. Quer dizer, mais ou menos.

Muita gente disse que a surpresa do Millsap aparecer fazendo trocentos pontos na ausência do Boozer foi ótima porque assim o Jazz não precisa se preocupar em gastar uma grana preta pra manter o Boozer na temporada que vem. Mas acho que essa pode ser uma aposta errada. O Millsap jogou muito bem, teve números dignos do próprio Boozer, é mais jovem e nunca teve problemas de contusão. Mas até onde ele levou o Jazz? Com ele jogando muito bem o Jazz não foi tão bem, ficou sempre ameaçado de ficar fora dos oito classificados para os playoffs e só se recuperou mesmo quando o Deron Williams voltou da sua contusão e, com a ajuda de Kirilenko e Okur, botaram o time nas costas.

Ou seja, esse time funciona bem se Deron, AK47 e Okur estiverem bem, o talento de Millsap e Boozer são "apenas" o diferencial, entre o Jazz ser um time mediano e um que briga pelo título.

O Millsap é muito bom, isso é fato. Mas não tem o arremesso do Boozer, o que é importante demais pra esse Jazz. E ele pode levar o time tão longe quanto o Boozer? Se eu tivesse os dois como Free Agents e pudesse pagar apenas um, levaria o Boozer. E tudo indica que o Jazz não concorda comigo.


New Orleans Hornets - Nunca um time pareceu envelhecer tanto de um ano para o outro. Passou apenas um verão nos Estados Unidos e de repente o Stojakovic e o Morris Peterson pareciam ter 90 anos de idade, rugas e um estranho gosto por bocha.

O sucesso do Hornets ficou na mão do Chris Paul, do David West e do Tyson Chandler. Até que o Chandler perde quase a temporada inteira e um time candidato a título se tornou um time de dois jogadores.

Para o Hornets ser um time bom eles precisam demais do Chandler como o principal reboteiro ofensivo da NBA, como um dos líderes em tocos e da sempre ameaçadora ponte-aérea dele com o Chris Paul. A contusão dele serviu para mostrar um Hornets limitado, dependente das suas poucas boas peças e mostrou também como o Chris Paul é o melhor armador do mundo. Sério, se ele fosse um armador só bom, não espetacular, esse time estaria em nono no Oeste facilmente.


Houston Rockets - O Rockets agora é um time forte. Ontem eles bateram o Cavs, limitaram o LeBron James a seu primeiro jogo na carreira sem assistências e o Yao se mostrou um novo homem: machucou o Ben Wallace (depois de uma trombada o Ben Wallace saiu do jogo com a perna quebrada) ao invés de sair machucado e enterrou na cabeça do LeBron James ao invés de ser marretado. É o mundo às avessas!

Essa nova fase do Houston que venceu 8 dos últimos 10 jogos se deve a duas perdas, a do Tracy McGrady e a do Rafer Alston. A troca do Alston foi uma injeção de confiança no Aaron Brooks que transformou o Houston em um time com um ataque mais dinâmico, e ainda trouxe o Kyle Lowry que joga demais e é ótimo para se ter no banco. Já a perda do T-Mac foi bom porque fechou o grupo, ele finalmente parou com esse vai não vai e afirmou com certeza que não volta mais nessa temporada.

O Houston, então, agora sabe que não tem mais ninguém pra ser trocado, sabe ao certo quem é o time titular e sabe o papel de todo mundo. Depois de uma temporada cheia de lenga-lenga mais chato que a atual novela das 8, o Houston agora tem identidade, tem uma rotação fixa. É, afinal, um time. Um time bem forte, aliás, que o diga o LeBron, que além da enterrada do Yao sofreu com um mix de marcação do Artest e do Shane Battier. Eu prefiro apanhar de cinta a ser marcado pelos dois no mesmo jogo.


Denver Nuggets - Em comparação aos outros, é um dos times que menos sofreu com as contusões. Perdeu o Carmelo Anthony por 10 jogos (6 vitórias, 4 derrotas) mas acabou no fim das contas servindo apenas para a liderança da divisão noroeste ficar um pouco menor sobre o Portland, nada comprometedor. Mais preocupante é a atual contusão do Nenê, que ainda bem não parece séria. Se eles perdem o Nenê, dão adeus a qualquer resto de esperança de passar da segunda rodada dos playoffs.



Você acha que as contusões param aí? Que nada, foi só metade. Amanhã falaremos mais de como as contusões de jogadores importantes em absolutamente todos os grandes times das duas conferências estão definindo os rumos dessa temporada.

Ainda temos que falar de Boston Celtics, Cleveland Cavaliers, Orlando Magic, Dallas Mavericks, Portland Trail Blazers e Phoenix Suns. Pra quem gosta de sangue e dor é um prato cheio!

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Das coisas que aprendi com a pré-temporada

"Não tá valendo nada? Então eu enterro a bola!"


Estava eu, criança, numa aula entediante de soma ou subtração, essas coisas de primeira série. A monotonia me consumia, não havia nada a fazer, nada com o que se divertir. Foi então que, do mais puro e simples tédio, puxei a trancinha da garota da minha frente, que gritou de dor - e passou a saber quem eu era. Foi assim que descobri o sexo, as garotas e como fazer para que notem que nós, homens, existimos. E tudo isso sem ter um carro, veja bem.

O aprendizado mais profundo, no entanto, era que havia a possibilidade de descobrir algo, de compreender algo, mesmo na mais completa e absoluta chatisse. O que isso tem a ver com basquete? Simples: a pré-temporada é simplesmente uma das coisas mais chatas que existem no mundo e, portanto, o lugar ideal para colocar em prática minha teoria. O que somos capazes de aprender apesar do tédio desses jogos que não valem nada?

Bem, a primeira coisa que todos os que assistem à pré-temporada compreendem é que seus vícios foram longe demais. Ser maluco por NBA é compreensível, mas tente manter sua paixão pelo esporte no instante em que LeBron James senta no banco de reservas ainda no primeiro quarto, a quadra fica tomada por anônimos sem talento, e você sabe que LeBron não voltará mais porque tem coisas mais importantes para fazer, tipo cutucar o nariz ou aparar os pêlos do suvaco. Continuar acompanhando o jogo de seu time favorito quando todos os jogadores de verdade sentam é prova de que você está exagerando um pouco. Assistir a Bucks e Wizards sem torcer para nenhum dos dois é uma lição importante de que você foi completamente consumido por seu vício. Ou que precisa urgentemente de uma namorada ou de um peixinho dourado, o que estiver mais à mão.

Outra coisa que aprendemos com a pré-temporada é não confiar na pré-temporada. Os minutos são fajutos, as rotações absurdas e as atuações não valem coisa alguma. Ainda assim, alguns números revelam detalhes interessantes e é necessário saber filtrá-los. Se um jogador faz 40 pontos em um jogo de pré-temporada, o que isso significa? É preciso muita calma, tato, talento e vontade de chutar usando pouco fundamento para saber ler nas entrelinhas o que está acontecendo. Por isso, usarei minha experiência de muitos anos assistindo a esses jogos insuportáveis que não valem nada para separar os jogadores em alguns tipos mais comuns e, aproveitando, dar uma olhada em como estão se saindo alguns jogadores nessa pré-temporada que está rolando agora.


O jogador-máquina

Alguns jogadores são máquinas de precisões matemáticas: possuem a mesma produção não importa o que aconteça, pode ser na pré-temporada, na temporada regular, nos playoffs, nas férias, na festa de aniversário do sobrinho. Exemplos não faltam, mas são em geral jogadores de garrafão que vêm do banco de reservas mas quando são titulares na pré-temporada mantém os mesmos números. Ou seja, são eternos reservas mesmo quando são titulares.

Como exemplo, podemos citar o Brandon Bass, do Mavs, com seus 12 pontos e 5 rebotes por jogo, o Carl Landry, do Houston, com 12 pontos e 6 rebotes, o Paul Millsap, do Jazz, com 8 pontos e 6 rebotes, e o Leon Powe, do Celtics, com 11 pontos e 3 rebotes mas salvando o Celtics em praticamente todos os jogos até agora com cestas decisivas e lances livres nos segundos finais. Ou seja, igualzinho na temporada regular.


O astro de pré-temporada


Alguns jogadores só gostam de jogar pra valer quando não está valendo nada, o que é uma inversão bizarra de valores. É como se eles fossem muito tímidos e só pudessem mostrar o real talento quando ninguém está olhando (todos eles deveriam, então, ir jogar no Grizzlies - ninguém assiste uma partida sequer deles). Esses jogadores já são figurinhas carimbadas, todo mundo sabe com antecedência que eles vão destruir quando não servir pra nada.

Os mais clássicos membros dessa categoria são o Louis Williams, do Sixers, que está com 16 pontos por jogo, o Belinelli, do Warriors, com 11 pontos por jogo, o Aaron Brooks, do Rockets, com 12 pontos e 4 assistências, e o Tony Allen, cestinha do Celtics com 15 pontos por jogo. Quando o negócio esquenta eles vão sempre esquentar o banco, mas na pré-temporada chutam traseiros. Aí fica todo mundo comentando como dessa vez eles vão explodir pra valer, fazer estrago, ganhar minutos. Rá, tem gente que não aprende, é tipo os manés que acham que o Gugu ainda vai roubar minutos do Silvio Santos.


O "Agora vai"

A diferença entre o "Astro de pré-temporada" e o "Agora vai" é uma questão de fé e de experiência. Da primeira vez que o Aaron Brooks destruiu, eu (como bom torcedor do Houston) gritei "aê, agora vai!", só que não vou cair no mesmo truque duas vezes. Todo jogador com potencial e que mostre sinais de que pode ser bom mas nunca tenha feito nada se encaixa nessa categoria quando vai bem na pré-temporada.

O chinês Yi Jianlian, agora no Nets, está com média de 16 pontos por jogo, por exemplo. Além dele, David Lee está com absurdos 20 pontos e 12 rebotes por jogo no Knicks, o Mike Conley está finalmente armando alguma coisa no Grizzlies com 11 pontos, 5 rebotes e 4 assistências de média, e o Bargnani está com 14 pontos e 5 rebotes por jogo pelo Raptors. Até o Zach Randolph se encaixa aqui, mas não pelos 18 pontos e 11 rebotes por jogo, coisa que ele sempre fez. O nosso gordinho favorito cabe aqui porque está se saindo muito bem em quadra, correndo pra burro e se diz apaixonado pelo esquema de jogo do D'Antoni. Acho que agora vai!

Alguns parecem que finalmente vão mas não convencem tanto assim, tipo o Nenê com 10 pontos e 7 rebotes de média, o Sergio Rodriguez no Blazers com 9 pontos e 8 assistências por jogo e o Stuckey no Pistons com 11 pontos e quase 5 assistências de média. Os números são bons, o Nenê vai ser titular e o Stuckey deve ter minutos de titular, então parece que a coisa vai engrenar para os dois. O Rodriguez até pode se tornar o armador reserva, veja que honra. Mas o Nenê nunca ficou saudável, o Pistons fica completamente perdido com o Stuckey armando o jogo e o Blazers tem quinhentos jogadores por posição, fica difícil botar muita fé nos três.


O "Quem diabos é você?"

Na pré-temporada sempre surge uns carinhas aleatórios com atuações épicas, andando sobre a água, multiplicando pães, com números absurdos, mas você nunca ouviu falar nos sujeitos. Alguns têm nomes feitos para te enganar, tipo "B. Wallace", e você só percebe que o "B" é de "Bruno" e não de "Ben" ao notar que o cara acertou vinte bolas de 3 pontos ao invés de dar 20 tocos. O mais engraçado sobre esses caras é que, não importa quão bem eles joguem, não vão arrumar espaço num time nunca. Acho que todo mundo pensa "se eu não conheço o cara, ele não deve ser bom o bastante" e então ficam todos desempregados, desmoralizados e indo de um lado para o outro em busca de gana - tipo a bunda da Gretchen.

Os casos mais recentes são o Von Wafer, com média de 12 pontos por jogo e que dia desses acertou meio milhão de bolas de 3 pontos num jogo, o Bobby Brown, com 15 pontos e 3 assistências por jogo mas que não foi nem draftado em 2007, e o Mike Taylor, a quinquagésima quinta escolha do draft desse ano, que está com incríveis 18 pontos e 5 assistências por jogo. O Mike Taylor foi assinado pelo Clippers e vai ter um emprego nessa temporada, mas como ninguém tinha ouvido falar dele até ontem, a lógica de pré-temporada é que ele desapareça em breve, talvez engolido por leões.


O "Eu fedo até na pré-temporada"

Alguns jogadores mostram a verdadeira face na pré-temporada. Na temporada regular o cara parece bom e você acha que ele pode até ser genial um dia, mas aí quando enfrenta um monte de adversários meia-boca na pré-temporada, fede. Isso significa que o cara não consegue ser genial nem contra os melhores jogadores nem contra os piores, e aí a coisa começa a ficar feia.

Apesar de adorar o Luol Deng e dele ter chutado traseiros jogando pela Inglaterra nas férias, seus 11 pontos e 5 rebotes de média em exorbitantes 33 minutos por jogo (deve ser recorde de pré-temporada) mostram que ele não será um jogador dominante e que o contrato do Bulls foi, no mínimo, exagerado (evitei usar uma palavra escatológica aqui). Além dele, tem o Mo Williams mostrando que ele arremessa como um débil mental não importa quem sejam os adversários, e seu aproveitamento está em 30%. Ou seja, não dou nem 5 jogos quando estiver valendo para o LeBron dar umas porradas nelel. E tem também o Granny Danger (muito mais legal do que Danny Granger e algo que o Chapolim "não priemos cânico" adoraria dizer) acertando 15% dos seus arremessos, mostrando que o futuro do Pacers está em boas mãos mas em péssima mira. Mesmo caso do Ramon Sessions, que fez tanto sucesso no final da temporada passada dando milhares de assistências pelo Bucks, mas que na pré-temporada está acertando 21% dos arremessos e vai perder a vaga para o Ridnour, que fede mas que está com 9 pontos e 8 assistências de média, uma boa enganada.


O "Eu engano bem"

Pré-temporada é o momento em que uns malucos recebem carta branca para fazer o que quiser. O Mike James, por exemplo, está chutando o quanto quer e anda com 15 pontos de média. O JR Smith, por sua vez, é o cestinha do Nuggets com 18 pontos por jogo. Quem não conhece os dois acha até que eles são sujeitos bacanas e quer chamar os dois para uma cerveja, sem saber que assim que chegarem no bar eles vão tentar arremessar você dentro dos copos. Quando são as estrelas do time, se saem muito bem, mas na hora de jogar num time de verdade, ainda acham que são as estrelas - é um tipo de altismo. Para eles, a vida é uma eterna pré-temporada, hora de chutar muito e pensar pouco. O JR está acertando 21% de seus arremessos de 3 pontos, justo algo que deveria ser sua especialidade.


A cobaia

Alguns jogadores são colocados no meio de uma experiência bizarra e precisam usar a pré-temporada para se acostumarem com seus papéis. Não dá pra saber se o cara vai ser um bom jogador ou não através desses jogos, mas dá pra ter uma idéia se o cara está se acostumando com sua função.

O Devin Harris, por exemplo, está tendo que manter a bola nas mãos como um armador de verdade no Nets, o que não anda dando muito certo - são 4 desperdícios de bola por jogo. O Duhon está sendo obrigado a tornar-se o novo Nash, e apesar dos 12 pontos e quase 6 assistências, está perdendo a bola quase 5 vezes por jogo, inaceitável. O Bynum teve que tentar jogar ao lado de Gasol, e depois jogar vindo no banco, e depois sozinho, e depois com um anão de biquini, e com 10 pontos, 7 rebotes e 1 toco de média, parece que está tudo bem. Matt Barnes, que pra mim foi uma bela sacada do Suns, se encaixou muito bem no estilo do time e tem 11 pontos, 7 rebotes e 3 assistências por jogo. Outro que se deu bem é o Turiaf tendo que correr a quadra toda, até assistências o francês começou a dar. O único problema é que, com 3.3 assistências por jogo, ele é o líder da equipe no quesito. Ou seja, o negócio tá ruim.


O novato

Vamos ser sinceros, a gente aguenta os jogos chatos de pré-temporada porque fica morrendo de vontade de ver os novatos jogarem um pouquinho e ter alguma noção de como serão quando a coisa estiver valendo. Alguns novatos chutam traseiros mas nunca mais vão entrar em quadra porque não terão espaço, jogarão poucos minutos ou simplesmente vão desaprender a jogar. É difícil encaixar novatos nos outros grupos anteriores, então é melhor falar deles aqui, vendo cada caso.

O pivô Brook Lopes, do Nets, está com médias de 8 pontos, 11 rebotes, 2 roubos e 2 tocos. Os roubos são surpreendentes, o resto é mais do que sólido, e se ele não for titular é porque o técnico Lawrence Frank come meleca. Seu irmão, o Robin Lopez, está mostrando a veia defensiva com quase 3 tocos por jogo, mas está se mostrando um estabanado em quadra e comprometendo um pouco o Suns no ataque. Já o OJ Mayo, do Grizzlies, está com 14 pontos por jogo, o que era esperado, mas os dois roubos de bola por partida são um brinde extra. Seu companheiro de equipe, o Marc Gasol (também conhecido como "o Gasol que comeu demais"), até que não está fedendo tanto quanto eu imaginava, com 9 pontos e 5 rebotes. Já o Derrick Rose está fedendo como eu imaginava, embora mesmo assim seja espetacular: são 10 pontos e 6 assistências por jogo, mas quase 5 desperdícios de bola também. O Chalmers também tá fedendo um pouco, são apenas 3 assistências por jogo e a vaga de titular já era, deve ficar nas mãos do Marcus Banks. Com 10 pontos e 4 assistências, o Banks é candidato a "agora vai" mas está mais para "eu engano bem". Ele deve armar para o Beasley, que vai vir do banco porque não sabe defender mas que deve manter uma produção alta como na pré-temporada, em que tem 16 pontos e 8 rebotes de média, tudo enquanto boceja e coça as costas.

Dos que realmente surpreenderam tem o Roy Hibbert, pivô do Pacers com 12 pontos e 2 tocos de média, algo que ele deve ser capaz de manter porque em Indiana ninguém levanta os braços, a não ser em assalto. Outro pivô, o JaVale McGee, também deve ter muitos minutos porque o titular do Wizards, o Brendon Haywood, deve ficar de fora da temporada com uma contusão (sim, eles são mesmo o novo Clippers). Por enquanto ele foi muito bem, com 12 pontos e 6 rebotes por jogo.

E por falar em contusões, o Nicolas Batum, um dos cem alas disputando minutos no Blazers, deve ser o titular depois de atuações sólidas na pré-temporada e uma ajudinha do destino, que contundiu o Martell Webster. Quando eu analisei as possíveis escalações do Blazers, nem sonhei com o Batum, que supostamente deveria estar cru demais. Mas com 8 pontos por jogo, acertando mais da metade de seus arremessos, além de 1 roubo e quase 2 tocos por jogo, ele tem tudo para ser o ala defensivo que começa o jogo e senta logo para o Rudy Fernandez entrar.

...

Dá pra acreditar nos números? Não. Dá pra acreditar na virgindade da Sandy? Não. Mas dá pra ter uma noção de quem pode produzir, quais serão os papéis, quem deve se tornar titular e quem arrumará um lugar na rotação, mesmo que vindo do banco de reservas. Dá pra ver quem não consegue dominar nem quando a competição é fraca, quem tenta mostrar serviço, quem preferia ir ver o filme do Pelé. Dá pra ver que se você assiste demais essas partidas com gosto de chuchu, tem problemas. E se você vai atrás dos números dos jogadores da pré-temporada para fazer um post para o seu blog, precisa de ajuda médica. Urgente.

Mas, em breve, começa a temporada de verdade. Dê uma olhada nos jogadores acima e desista de assistir esses jogos porcarias, leve a namorada para sair, assista a uma peça de teatro, solte pipa e estude grego, porque em breve a coisa começa de verdade e você não terá tempo para essas coisas de gente normal. Arrume desde já um jeito de ler o Bola Presa até mesmo no banheiro. Eu avisei.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Máquina de fazer Jason Maxiells

Dois outros Jason Maxiells se enfrentam em quadra


Existe por aí, na NBA, uma máquina capaz de fazer Jason Maxiells em série. São centenas deles, produzidos em linha de montagem, circulando pelas ruas dos Estados Unidos, fazendo compras, comendo Big Macs. No entanto, a grande maioria deles tem empregos menores. Vários, após serem criados pela tal máquina, viraram caixas de supermercado, atendentes de telemarketing e seguranças de boate. Mas alguns estão jogando na NBA, já que felizmente alguns times já perceberam a importância de ter um Jason Maxiell no time.

Não estou falando apenas do Pistons, que teve nele a grande razão da vitória de ontem contra o Celtics, mas também de outras equipes da Liga: Houston, Wolves, Jazz. Meu amado Rockets fez um Jason Maxiell com a máquina de fazer Maxiells e batizou-o de "Carl Landry", um dos principais fatores da sequência de vitórias histórica durante a temporada. Já o Utah Jazz batizou sua cópia de "Paul Millsap", essencial no domínio do garrafão que levou o time dos mórmons chorões para o segundo round dos playoffs. E o Wolves, que amarga os últimos lugares da Liga, também tem sua cópia, chamada por eles de "Craig Smith", e que deve ser importante na recuperação da equipe de Minessota.

Eu adoraria saber o motivo que leva os outros times da NBA a não pegarem a máquina de fazer Maxiells emprestada para criar uma cópia para eles. Várias equipes alegam, seja durante o draft, as summer leagues ou os períodos de contratação, que jogadores assim são baixos demais para o garrafão da NBA, que eles serão dominados por jogadores mais altos e mais físicos. Preferem tentar jogadores mais altos e sem talento, e o que temos é um belo punhado de Patrick O'Bryants e Kwame Browns andando pelos ginásios enquanto cópias rejeitadas do Jason Maxiell engraxam sapatos nas ruas e ganham trocados como figurantes do Teste de Fidelidade do João Kléber. A vida não é fácil para esses alas de força com altura abaixo da média. Mas a vida dos times que apostam em seus talentos é bastante fácil depois de que percebem que tipo de ajuda estão recebendo.

Muita gente, ao apontar os motivos da vitória do Pistons ontem em cima do Celtics, vai falar sobre McDyess e Rip Hamilton, e com certa razão. A defesa-supostamente-poderosa do Celtics deixou McDyess livre para uma infinidade de arremessos de média distância e ele dominou nos rebotes, enquanto Hamilton mostra um jogo cada vez mais agressivo e surpreende mais e mais esse blogueiro que vos escreve. Mas mesmo assim, o real fator decisivo da noite foi o homem feito em linha de montagem. Maxiell trouxe uma intensidade defensiva para o Pistons, desde o primeiro segundo em que enfiou os pés na quadra, que acabou com o jogo imediatamente. Suas jogadas na defesa, sua explosão no ataque e sua paixão à flor da pele, decidiram o jogo logo no começo, deixando apenas uma carcaça de Celtics apodrecendo para o resto do elenco acabar de matar.

O Maxiell e suas cópias são jogadores físicos, intensos, que dão cabeçadas até em disputa de par-ou-ímpar. Contra o ataque desestruturado do Celtics, colocar um cara desses em quadra é uma humilhação, é ter a certeza de que os jogadores de Boston vão fugir, correr, chorar e errar todos seus arremessos. Até o Kevin Garnett, que come carne crua no café da manhã, queria voltar pro colo da mamãe. Duvida? Então dê uma olhada no vídeo abaixo e repare, dá até pra ver umas gotinhas amarelas escorrendo pelas pernas do KG.



E não é como se fosse a primeira vez, vale dar uma olhada no que o Maxiell já fez com o Garnett nessa série. Ele é simplesmente demais para o Celtics, principalmente se dita o ritmo para uma defesa forte de todo o resto do elenco. Aliás, se eu ganhasse um centavo para cada vez que digo que o ataque do Celtics é terrivelmente desorganizado, eu teria, tipo... uns 7 centavos.

O Pistons tira uns cochilos longos, às vezes, e ontem deixou o Celtics vivo no jogo tempo demais, ao invés de acabar logo com a brincadeira dando o golpe final, um "me dê sua força Pégasus" ou um "Cosmic Laser", pra quem lembra do golpe que o Jaspion dava usando o robô Daileon pra liquidar o inimigo. Dava para ter ganhado por uns 50 pontos ao invés de ficar dando mole. E se parece que eu estou puxando muito a sardinha para o lado de Detroit, vale lembrar que eu acho que ficar dando chance para o Celtics ao invés de liquidar a fatura pode custar caro demais. Num possível jogo 7, aposto minhas fichas no Boston simplesmente porque alguém lá pode fazer 80 pontos pra encerrar com tudo. Se o Pistons quer levar essa, é bom que aprenda com o Jason Maxiell e jogue com intensidade total desde o primeiro segundo, todos os jogos. Ou então será tarde demais e só vão ter intensidade no banheiro, em dia de caganeira.

Também torço para que os outros times olhem o Pistons e sua cópia do Maxiell e aprendam a lição. Da próxima vez que um ala de força dominar no basquete universitário e for parar no segundo round do draft porque é "baixo demais", vou vomitar. Mas feliz, porque pelo menos o meu Houston Rockets já garantiu o seu. Carl Landry, eu te amo!

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Eu taco fogo!

A bola é completamente secundária nesse esporte


Sempre existe aquela coisa em que somos especialistas embora não nos orgulhemos disso nem um pouco. Pode ser todas as coreografias da época áurea do "É o Tchan" com a Carla Perez, o nome de todos os pokémons ou então todas as discussões do Toninho do Diabo e do Inri Cristo no programa da Luciana Gimenes. No meu caso, como blogueiro de basquete, a especialidade da qual não me orgulho é justamente sobre NBA: sou especialista quando o assunto é perder para o Utah Jazz.

Como torcedor do Houston Rockets, conheço cada pequeno detalhe que possa levar a uma derrota para o time de Salt Lake durante os playoffs. Basta um jogador do Jazz dar uma cutucada no nariz e eu sei dizer se seu time ganhará ou não. Ontem, no duelo entre Lakers e Jazz, todos os sinais da vitória vindoura estavam presentes: Okur passeando livre na linha de 3, Deron Williams deitando e rolando nos passes picados, Kirilenko participando do ataque, Millsap acertando jumpers da cabeça do garrafão.

Aliás, pode acreditar, já vi o Houston perder trocentas vezes assim: se o Millsap acertar arremessos da cabeça do garrafão, nem que seja apenas um ou dois, o Jazz vai acabar ganhando. É tipo o Sixers de uns anos atrás que era invicto nos jogos em que Iverson desperdiçava mais de 4 bolas na partida. Faz sentido? Não. Mas que funciona, ah, funciona.

O Lakers pode ser amplamente favorito, pode ter o MVP, pode ter feito a troca mais café-com-leite da história da NBA, mas nada disso importa quando se trata do Jazz. O negócio com esse time é que eles são capazes de vencer qualquer jogo de qualquer equipe e ninguém, nem mesmo eles, sabem o que vai acontecer em quadra. Talvez não vençam 4 jogos numa melhor de 7, é verdade, mas nenhum dos jogos terá um favorito: seja com quem for, o Jazz poderá vencer. Eles são simplesmente profundos demais, com recursos demais, e quando as coisas dão bastante certo, a vitória acaba saindo. Basta uns arremessos do Millsap, um par de bolas seguidas de 3 pontos de Okur ou Deron Williams (aliás, alguém sabia que o D-Will está acertando 56% de suas bolas de 3 pontos nos playoffs?!), uma cravada de Kirilenko, um arremesso de Kyle Korver e lá está, o time dos mórmons ganhou mais uma.

Na partida de ontem, Kobe Bryant estava sofrendo com dores nas costas, tomou uma pancada na perna esquerda e a dor pareceu torná-lo um psicótico completo. No quarto período e na prorrogação, arremessou sem parar de todos os lugares da quadra - sem acertar coisa alguma. Em um punhado de jogadas, Kobe ignorou movimentações ofensivas, tática ou mesmo bom senso e simplesmente arremessou por cima de seu marcador. Arremessos forçados e desnecessários, principalmente tendo em vista que Kobe estava engolindo seus marcadores vivos quando jogava de costas para a cesta, dentro do garrafão. O atual MVP estava fora de si, num estado mental lastimável. Se ele fosse técnico, provavelmente teria aceitado ir treinar o Knicks.

Apesar de Kobe numa noite atípica, bolas certeiras de Fisher no final do tempo regular colocaram o Lakers na partida, até Odom acertar um improvável arremesso de 3 pontos para empatar o jogo. Eu adoro Lamar Odom e Monta Ellis, são jogadores monstruosos que atacam a cesta como ninguém, mas prenda os dois num ginásio e só permita que saiam quando um deles acertar dois arremessos seguidos - meses depois, um terá assado o outro numa fogueira para sobreviver. Quando Odom acertou o arremesso sem sequer mexer a redinha da cesta e Fisher deu um toco em Deron Williams na posse de bola final, levando o jogo para a prorrogação, os torcedores do Lakers ficaram esperançosos. Ah, pobres ignorantes! Por acaso não viram o Millsap acertando arremessos da cabeça do garrafão logo no começo do jogo?! Não sabem o que isso profetiza?

A prorrogação foi demais para o Lakers numa noite em que Kobe estava com a barra de energia vazia e tudo funcionava para o Jazz na hora em que precisava funcionar, ainda mais com a partida sendo em Utah. Todos aqueles que apostavam num 4 a 0 para o Lakers obviamente não torcem para o Houston e não conhecem a minha especialidade. O Jazz pode perder as próximas partidas mas pode ganhar a série sem muitas dificuldades, o que fará 400 bilhões de chineses torcedores do Houston levantarem placas de "Eu já sabia". E depois voltarem a comer arroz.

Mas não se pode acertar todas, não é mesmo? Se eu apostava no empate do Jazz desde o princípio, mostrando toda minha genialidade, também apostei numa varrida do Hornets em cima do Spurs, mostrando toda minha burrisse, insanidade e ingenuidade. No entanto, eu tinha alguns argumentos para não acreditar numa recuperação do Spurs. Pra começar, a defesa que o Hornets arrumou para lidar com o Duncan é algo para ser ensinado nas escolas, de preferência no lugar das aulas de Química. Quando Tim Duncan começa a bater bola, a marcação dobra nele mas há uma rotação imediata, antes mesmo de Duncan passar a bola, de modo a manter um marcador sempre em cima dos jogadores mais próximos do Spurs na linha de 3 pontos. Um jogador corre para cobrir o espaço deixado por seu companheiro até que o jogador do Spurs que sobre livre esteja no canto oposto da quadra, dificultando assim os passes de Duncan pela distância e até pela imprevisibilidade da marcação. Some a isso o fato do técnico do Spurs, Gregg Popovich, ser um dos caras mais chatos e metódicos da história da humanidade. Ele é do tipo que taca a mulher pela janela se não puder dormir no seu lado de sempre da cama. Quem acompanha o San Antonio sabe o quanto Tony Parker sofreu até ganhar a pseud0-liberdade que tem hoje em quadra, e se o francês tivesse um pouco menos de paciência, estaria jogando gamão. Consequentemente, concluí que Popovich não iria mudar o estilo de jogo do Spurs de modo algum, algo que, aliás, ele pessoalmente afirmou depois de perder o segundo jogo em New Orleans. Mas o sujeito resolveu parar de frescura e colocou Ginobili como titular (afinal, ele já ganhou o prêmio de melhor 6o homem mesmo, não precisa mais manter as aparências), para meu espanto. Quando achei que isso era ousado, me deparei com as outras coisas que Popovich fez na série.

Depois de perder dois jogos para Chris Paul, o técnico do Spurs resolveu tirar Bowen de cima do homem. A idéia, provavelmente, era deixar Paul fazer o que quisesse e incentivar Tony Parker a fazer o mesmo, dando o troco. A série virou um duelo pessoal entre os dois que beira o ridículo e Bowen ficou livre para anular uma das armas ofensivas do Hornets na linha de 3 pontos: Stojakovic. Agora, Chris Paul faz o que quer mas tem menos ajuda no perímetro, enquanto Parker também faz o que bem entende e o Spurs ainda se garante nas bolas de fora. Além disso, Duncan foi instruído a agir diferente quando dobram a marcação em cima dele, sendo agora mais agressivo e aproveitando sua altura para passar a bola diretamente para o homem livre que fica do lado oposto da quadra. A defesa do Hornets ainda é eficiente nesse sentido, mas os passes de Duncan foram certeiros e Tyson Chandler, também agora vítima de sua versão do hack-a-Shaq, tem sido obrigado a descer o braço no Duncan mais do que seria o ideal.

Agora, virou xadrez. Se o Byron Scott nos fez acreditar, com sua defesa ousada, que o Hornets iria levar a série fácil, agora Gregg Popovich nos leva a crer que o Spurs vai ganhar as próximas partidas graças a contra-ataques certeiros às ações do adversário. E agora, qual será a inovação tática dos dois lados no Jogo 5 da série?

Lakers e Jazz fazem uma série imprevisível enquanto Spurs e Hornets jogam xadrez nas pranchetas. Não posso perder mais nenhum jogo, finalmente os playoffs estão mais legais do que aquelas discussões do Toninho do Diabo com o Inri Cristo que eu mencionei antes. Aliás, os dois dariam excelentes mascotes na NBA. Já consigo até imaginar uma propaganda na TV gringa, falando sobre como os playoffs estão pegando fogo, ao som do Toninho do Diabo cantando "Eu taco fogo!". Imperdível.