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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O campeão dançou


O Tyson Chandler tem uma mão esquerda que flutua sozinha

Assim que o Tyson Chandler foi para o Knicks por um contrato de 14 milhões por ano, coisa de estrela, comparei seu caso com o de Kendrick Perkins no Celtics: o valor pago não é tanto para aquilo que o jogador pode fazer de verdade, mas por aquilo que ele representa, para a importância que pode ter na transformação de uma equipe. A saída de Perkins de Boston simbolizou o fim de uma família, de uma mentalidade, e a equipe perdeu uma âncora defensiva que antes de sua saída nem sequer tínhamos certeza de que existia. A chegada de Perkins no Thunder (e do Tony Allen no Grizzlies) foi como a chegada simbólica de uma nova atitude. Ambos instituíram em suas equipes um regime de reuniões de vestiário, de implicação de responsabilidades, e de ajuda mútua constante. Quando o Knicks suou as pitangas para conseguir Chandler, era isso que julgava estar adquirindo.

O lado do Knicks foi amplamente analisado por aqui. Eu só não imaginava que, assim como o Celtics sentiu a saída do Perkins, o Mavs sentiria a saída do Chandler. Então é hora de analisar o lado dos atuais campeões, até agora incapazes de conseguir uma vitória na temporada sem o seu antigo pivô no elenco.

Antes de mais nada, é importante lembrar que o Mavs não foi uma dessas super-equipes montadas de repente para disputar o título e que se sagrou campeã só porque conseguiu gastar mais grana do que as outras. A grana a ser gasta sempre esteve aí, desde que o bilionário nerd Mark Cuban assumiu a franquia, mas o elenco tem sido montado há uma década com resultados diversos. Às vezes, o excesso de grana até atrapalha um pouco: houveram tempos em que qualquer jogador bom dando sopa recebia um contrato do Mavs, que acabava adicionando peças bastante aleatórias e tinha que se virar para dar minutos para todo mundo. Adições de uma temporada para a outra nunca faltaram, aparecem às dúzias, mas não é sempre que elas aparecem com algum critério, tentando assumidamente arrumar algum buraco da equipe. Antes da temporada passada começar o Mavs tinha a consciência de que precisava de um pivô defensivo para segurar as pontas, e aí - porque o dinheiro não falta - acabou adicionando tanto o Brandon Haywood quanto o Tyson Chandler. O Haywood se mostrou um quebra-galho, mas o Chandler acabou por tornar real algo que a franquia sabia possível mas não sabia como executar: uma defesa matadora.

O DNA do Mavs está ligado ao pai bizarro Don Nelson, então é uma equipe em que o primeiro instinto é de jogar na  velocidade, no contra-ataque e abusar dos arremessos do perímetro. Só com a defesa instituída pelo técnico Avery Johnson, no entanto, o jogo ofensivo de velocidade adquiriu consistência. Times como os do Don Nelson ou do Mike D'Antoni abusam da velocidade em todas as situações, repondo a bola o mais rápido possível, correndo para o ataque e tentando pegar os adversários com a defesa desprevenida ou desorganizada. É comum que, impondo esse ritmo de jogo, eventualmente um armador esteja sendo marcado por um pivô, e com decisões rápidas no ataque é possível se aproveitar desses deslizes. O problema é que trabalhar em tanta velocidade aumenta o número de erros, de desperdícios de bola, de arremessos forçados, e ainda cansa os jogadores fisicamente. É complicado manter esse ritmo no ataque e ainda ter disposição física para defender, e quando forçados a jogar em meia-quadra por equipes que conseguem diminuir a velocidade do jogo, essas equipes não sabem como pontuar e acabam se baseando apenas em jogadas forçadas do perímetro. Os times do Don Nelson sempre foram pragueados por decisões ruins tomadas especialmente nos momentos cruciais das partidas, quando é importante saber diminuir o ritmo e ter uma bola de segurança. Já as equipes do Mike D'Antoni, que tomavam boas decisões porque contavam com o Steve Nash, sempre tiveram problemas contra as equipes como o Spurs, que impõe um ritmo mais lento de jogo e forçam os adversários a ter que trabalhar uma jogada.

O Mavs, então, nunca foi um desses times que rouba a bola na defesa e se aproveita do contra-ataque. A correria independia da defesa, era constante, e no caso do Mavs sempre terminou em bolas rápidas de 3 pontos. Quando Avery Johnson melhorou a defesa da equipe, começou uma tímida cultura de contra-ataques, mas ainda assim sempre houve muita dificuldade em jogar sem ser na velocidade. Em geral, quando forçado a jogar na meia-quadra, o Mavs sempre usou jogadas simples de isolação, quase sempre com o Nowitzki. É por isso que o Jason Kidd teve tanta dificuldade em se encaixar no Mavs: sem uma defesa capaz de gerar contra-ataques constantes, como aqueles em que estava acostumado nos tempos de Nets, grande parte da sua função era apenas passar a bola para o lado até que alguém fosse isolado. Definitivamente não era a melhor maneira de usar suas habilidades.

Nowitzki é o jogador perfeito para um basquete lento, cadenciado, mas incapaz de defender de maneira sólida; Jason Kidd  é perfeito para um basquete de velocidade, focado nos contra-ataques, e que depende de uma defesa feroz que cause erros do adversário. O Mavs nunca foi um time que se encaixa muito bem, como podemos ver, as peças sempre chegaram aleatoriamente e o Kidd não foi exceção, mas jogadores talentosos sempre dão um jeito de funcionar juntos.

Tyson Chandler foi mais uma peça aleatória, mas sua capacidade atlética no garrafão e sua mentalidade defensiva permitiu que o Mavs se concentrasse na defesa do perímetro, afunilando os adversários para o miolo do garrafão, onde o Chandler cuidava do resto. De repente o Mavs tinha um plano defensivo eficiente contra todas as equipes, os jogadores adversários passaram a ter medo de infiltrar no garrafão, e até o Kobe fez xixi nas calças e passou uma série inteira dos playoffs arremessando do meio da quadra pra não ter que se aproximar do aro. O Mavs se tornou um time orgulhoso defensivamente, solícito, forte, e que viu seu ataque em velocidade ser finalmente eficiente de verdade. Com mais rebotes, mais tocos, mais erros forçados, o Mavs conseguia impor mais correria, encaixar mais bolas de 3 pontos e não ter que depender tanto das jogadas de isolação. Aquilo que a equipe procurou desde o primeiro segundo em que o Don Nelson foi mandado embora só se consolidou com a chegada do Chandler, e aí o time foi campeão. Grana pra burro, dá pra contratar todo mundo do planeta, mas a coisa só funciona de verdade quando um plano de quase uma década ganha de repente as peças certas, e quando aquela semente do Don Nelson pode ser usada em toda sua potência com uma defesa que a permitiu florescer.

É uma história linda, pode virar filme com o Selton Mello ou novela do SBT, mas pelo jeito o Mark Cuban não entendeu muito bem a situação. Parece ter considerado que suas adições aleatórias à equipe podem continuar, que quem for embora pode ser substituído por outros jogadores aleatórios que estiverem disponíveis. Não percebe como a caminhada do Mavs ao título não foi por causa da grana, mas sim um longo processo até que os jogadores certos tornassem possível o plano tático certo. Deixando Tyson Chandler sair e trazendo outros caras nada a ver, como o Vince Carter, todo aquele longo processo foi para o saco.

Eu nem tenho nada contra o Vince Carter, pelo contrário. Acho o Carter um exemplo de jogador que foi capaz de se reinventar quando tantos outros, supostamente mais talentosos, não conseguiram. Todo mundo deve se lembrar daquela anedota do Carter nos tempos de Raptors, enfrentando o Celtics. Puto da vida querendo ser trocado, insatisfeito com seu time, Carter perdia o jogo por apenas um ponto com um par de segundos sobrando no cronômetro e pediu um tempo técnico para que sua equipe montasse uma jogada. Ao voltar do tempo técnico, o Carter passou na frente do banco do Celtics e falou algumas palavras. Diz a lenda que aquelas palavras eram exatamente qual jogada o Raptors iria fazer naquele arremesso final, o Celtics então defendeu aquela jogada como se soubesse o que iria acontecer e o Raptors perdeu o jogo. A anedota queimou o Carter feio, ficou conhecido como jogador vendido, marrento, estrelinha e causador da fome na África. Quando foi para o Nets jogar com Jason Kidd, deu uma caralhada de arremessos imbecis no final dos jogos, querendo ganhar tudo sozinho. Mas os poucos foi se acalmando, entendendo seu papel na equipe, e quando o Nets resolveu mandar todo mundo embora para se reconstruir, o Carter acabou sobrando por lá. Nem por um segundo reclamou de nada, não pediu para ser liberado ou trocado, não reclamou de passar longos períodos no banco de reservas para que os novatos da equipe jogassem, e o mais importante: não dedou mais nenhuma jogada nos segundos finais. Pelo contrário, todas as notícias vindas de New Jersey dizem que Carter tornou-se um líder no vestiário, ajudava os novatos, passou a obedecer o polêmico esquema tático (que era medonho, admito) e liderava pelo exemplo. Vince Carter ainda está na NBA, mesmo velho e muito longe do potencial que um dia teve, quando era uma das grandes estrelas da liga. Enquanto isso, companheiros da sua época como Marbury, Steve Francis e Allen Iverson, todos tão bons ou melhores do que ele, viraram farofa porque foram incapazes de mudar suas imagens perante a liga. O Carter é bom moço, maduro, focado e tem um emprego. Como isso aconteceu eu não sei, mas é mérito total dele numa época que expurgou como câncer todos os jogadores que ousavam querer brilhar mais do que os outros.

Mas esse Carter, por mais bacana que tenha se tornado, não traz nada de que o Mavs precise. No máximo o Mark Cuban deveria sair com o Carter para tomar um suco e comer um sanduíche, não precisa contratar o sujeito. Muitos dizem que o Carter é tão amaldiçoado quanto o Clippers, e que nenhum time em que ele pise jamais conseguirá ser campeão. Mesmo se não for o caso e o Carter não tiver sido amaldiçoado pelo Valdemort, ainda assim não é uma aquisição que supra os buracos que o Mavs enfrenta. Falta à equipe um pivô à altura do Chandler, capaz de intimidar a infiltração dos adversários, e falta também um jogador capaz de segurar a bola e costurar a defesa agora que JJ Barea escafedeu-se. O JJ Barea não é nenhum gênio, aliás sempre desconfiei que ele jogava melhor justamente nas vezes em que esquecia o cérebro na geladeira de casa, então é fácil substituí-lo - o próprio Roddy Beaubois, que volta de lesão, tem tudo para cumprir bem esse papel descerebrado. Mas sabe quem não tem condições de ficar costurando defesas e atacando a cesta? Vince Carter e seus joelhos de farinha. No máximo será um arremessador de luxo na equipe, algo que o Mavs já tem aos montes.

Mesmo a aquisição do Lamar Odom, que foi praticamente de graça depois que a troca do Lakers com o Hornets foi anulada, simplesmente não funciona - e por vários motivos. Primeiro, o Lamar Odom tem sérias dificuldades em se focar em quadra. Quando está concentrado e motivado, ele é um dos jogadores mais completos da NBA e um perigo constante no ataque porque seu tamanho e sua velocidade não casam com nenhum marcador adversário - ou os jogadores são muito menores do que ele, ou são lentos demais para acompanhar suas infiltrações rumo à cesta. O problema é que os torcedores do Lakers sabem muito bem quão difícil é o Odom estar com a cabeça no jogo, ele facilmente parece desinteressado, toma decisões estúpidas e se torna quase invisível em quadra. Trocado da equipe em que passou os últimos anos, sentindo-se indesejado, mandado para a equipe rival, e além de tudo para longe da cidade em que vive sua nova esposa, a Khloe Kardashian. Como diabos alguém esperava comprometimento do Odom frente a tudo isso? Não é de se espantar que ele tenha chegado tão fora de forma que foi obrigado pelo Mavs a treinar por duas horas, sozinho, no único dia que o time teve de descanso desde que a temporada começou. E não foi só isso: também foi obrigado a chegar algumas horas antes de seus companheiros no jogo contra o Thunder para continuar seus treinamentos físicos. O Odom está uma bolinha desmotivada, não serve pra nada.

O segundo motivo pro Odom não dar certo nesse Mavs é que não existe posição em que ele possa jogar. Em sua posição natural joga o Nowitzki, que deve sentar o mínimo possível. Como reserva do Nowitzki, o Odom teria como função ser isolado e arremessar, justamente o ponto fraco do seu jogo. Caso jogue como ala de força e o Nowitzki seja rebaixado para pivô, o Mavs passa a ser uma equipe ainda mais medonha em parar e intimidar infiltrações adversárias, comprometendo na defesa. Se jogar apenas como ala, Odom terá que defender grande parte das estrelas da NBA, algo que não conseguiria fazer e que atualmente é função de Shawn Marion. Vindo do banco, o papel de pontuador e de armador vai para o Jason Terry, e o Odom seria apenas um reserva secundário. Cabe a ele, então, uma função ainda menor do que tinha no Lakers ou então uma função enorme que vai comprometer o garrafão e o funcionamento da equipe que foi campeã da temporada passada.

O Lamar Odom veio de graça e é um belo jogador, Playboy dada não se olha os dentes, mas às vezes você dá de frente com a Playboy da Mara Maravilha e percebe que é melhor ter cautela se não quiser ter sua infância traumatizada por toda a vida (experiência própria). Odom só terá espaço nesse Mavs se houver um chato trabalho de reconstrução do funcionamento tático, algo que não aconteceu sequer quando o Jason Kidd chegou. Será que Odom é talentoso e focado o bastante para se adequar à equipe, ao que precisam que ele faça, e conquistar seus minutos? A resposta veio rápido: em seu primeiro jogo com o Mavs, completamente fora de forma, Odom reclamou do juíz e foi expulso rapidinho. No segundo jogo, errou as 5 bolas de três pontos que tentou (acertando só um de dez arremessos de quadra). No terceiro jogo, errou as 4 bolas de três que tentou (acertando 2 dos seus 11 arremessos de quadra). Temos então um Odom fora de forma que só arremessa uns tijolos do perímetro sem parar.

Mas também não é como se o resto da equipe estivesse fazendo muito diferente. Com uma defesa que não força erros, não tapa o aro e não consegue rebotes, o Mavs acaba dependendo de novo de jogadas de isolação e de arremessos de três pontos forçados. Contra o Heat, o Mavs tomou 44 pontos no garrafão, pegou 20 rebotes a menos do que o adversário, e tentou 28 bolas de três pontos (acertando 9). No segundo jogo, pequena melhora: foram "apenas" 40 pontos tomados no garrafão contra o Nuggets, acertando 8 das 27 bolas de três pontos que tentou.

O terceiro jogo, comentado pelo Denis no resumo da rodada de ontem, foi mais promissor: o Mavs conseguiu apertar mais a defesa e forçou muitos erros do Thunder. O problema é que o Thunder já mostrou que basta forçar o Westbrook a jogar em velocidade para que ele cometa 8 bilhões de erros por jogo, colocando tudo a perder, então há pouco mérito do Mavs. No resto, tudo igual: levou 36 pontos no garrafão e acertou 9 das 26 bolas de três pontos que tentou.

O ataque tenta se arrumar como pode, Delonte West entrou bem no time titular e foi capaz de girar mais a bola e criar algum espaço para os arremessos. Nowitzki continua sendo isolado, criando seus pontos, e encontrando companheiros livres no perímetro. Mas não se fala em outra coisa nos vestiários a não ser na defesa do Mavs que foi embora: teve o Nowitzki recentemente dizendo que é difícil jogar em velocidade quando não se consegue rebotes ou erros adversários, teve o técnico Rick Carlisle dizendo que terá que ensinar defesa tudo de novo para sua equipe, melhorar seu próprio trabalho, começar de novo.

Um time campeão capaz de começar a temporada com 3 derrotas seguidas, parecendo perdido em quadra e regredindo quase uma década em seu estilo de jogo? É pra já. Ficamos então com uma lição valiosa: Tyson Chandler não é gênio, não vai descobrir a cura da AIDS, não é o melhor defensor da NBA; mas se você finalmente monta um elenco capaz de colocar em prática um estilo de jogo que foi campeão da NBA, agarre esse elenco com unhas e dentes e dinheiros. Porque acreditar que dinheiro é capaz de trazer outras peças, reposições quaisquer, e que ninguém vai sentir falta dos jogadores que forem embora, isso é furada. Vimos com o Clippers que dá pra formar um bom time mesmo sem depender da grana. Agora vimos com o Mavs como dá pra jogar um time no lixo apesar de ter grana saindo pelas orelhas. Se não houver um reforço nesse garrafão, se o Mavs não encontrar um modo de retomar a defesa que lhe levou ao título, essa será uma temporada perdida para Nowitzki e seus amigos.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Tocos de David Stern

-Vou dormir na sua casa hoje se Mamma Stern deixar


Quem estava fora da Twittosfera ontem perdeu uma das noites mais malucas que eu já acompanhei na NBA. De tarde surgiu mais um dos mil boatos diários que levam super estrelas ao Los Angeles Lakers. No meio de notícias de que o Los Angeles Clippers e o Golden State Warriors haviam feito boas propostas pelo armador do New Orleans Hornets, apareceu essa história de uma troca envolvendo também o Houston Rockets e que tiraria Lamar Odom e Pau Gasol do Lakers. Ignorei, provavelmente outra bobagem querendo levar estrelas para o Lakers como as que nos últimos anos prometeram Shaq, LeBron, Bosh, Yao, Dwight e tantos outros.

Então, tranquilo, preparei um texto explicando a regra da anistia e assim que entrei no Twitter para divulgar o texto, dei com a confirmação. Era verdade e Lakers, Hornets e Rockets haviam acertado uma troca que levaria Chris Paul para o Lakers, Luis Scola, Goran Dragic, Lamar Odom e Kevin Martin para o Hornets e Pau Gasol para o Rockets. Meu post ficou secundário e o Twitter virou um alvoroço de análises, discussões, xingamentos e troca de impressões.

Eu, como torcedor do Lakers, tinha odiado a troca. Claro que Chris Paul e Kobe Bryant iriam dar um jeito de se entender, os dois são gênios. Mas isso não quer dizer que seus estilos combinem, assim como não batem o jogo de LeBron James e Dwyane Wade e mesmo assim eles dão um jeito de ir para a final da NBA. Mas será que valia perder um dos melhores pivôs da NBA e mais o melhor reserva da última temporada por um armador em último ano de contrato que já disse publicamente que quer ir para o Knicks jogar com seu amigo Carmelo Anthony? Confiar só no Andrew Bynum no garrafão era arriscado e confiar que o Bynum seria moeda de troca para o Dwight Howard, mais ainda. O Lakers teve seis bolas no saco para ter a coragem de fazer algo desse tipo, mas coragem não quer dizer que foi algo inteligente.

Para o Hornets não parecia um negócio horrível, mas certamente tinha seus defeitos. O Kevin Martin era o menino da troca, com quase 29 anos de idade. Scola e Odom já passaram dos 30. Jogadores nessa idade não costumam ter saco e motivação para entrar em um time em reconstrução, o Odom em especial tem sérios problemas para colocar sua cabeça no lugar e ontem até ameaçou não aparecer nos treinos do Lakers porque havia sido envolvido em discussões de troca. Vocês imaginam a Khloe Kardashian trocando Hollywood por New Orleans? Até o casamento do cara ia pro saco.

E, pensando bem, mesmo que eles se motivassem, esse não é elenco para ir muito longe. Vão para os playoffs esse ano, talvez no ano que vem e aí Scola e Odom já estão arranhando os 35 anos de idade. Talvez tivessem outras trocas engatilhadas envolvendo esses veteranos, não sei, mas ela parecia incompleta.

Por fim o Rockets era um time que perderia muito, que assumiria riscos, mas que poderia se sair muito bem. Abriria mão de seus dois melhores jogadores, mas manteria o espetacular Kyle Lowry para ajudar um dos melhores pivôs de toda a liga, que ainda poderia receber a ajuda do brazuca Nenê. O time do manager Daryl Morey não só já tem bastante espaço na folha salarial como ainda abriria mais 3,5 milhões de doletas com essa troca. Daria para oferecer um contrato tão gordo para o Nenê (cerca de 12 milhões por ano) que seria difícil dele recusar. Role players não faltam no time (Courtney Lee, Chase Budinger, possível renovação de Chuck Hayes) e eles estariam prontos para impressionar.

O que você tira dessa troca depois dessa análise? Eu tiro que os times se arriscaram, que todos abriram mão de muitos talentos para receber outros em troca. Ao contrário da troca do Kwame Brown por Pau Gasol, o Lakers dessa vez abriu mão de muita coisa para receber um All-Star, assim como fizeram Hornets e Rockets. Ou seja, uma troca grande, de destaque, mas normal.

Mas o resto da NBA não pensou assim. Em um acesso de fúria muitos donos de times chegaram até a NBA e pediram para que a troca fosse vetada. E ela foi. A liga geralmente não tem poder para vetar trocas e contratações, senão certamente outros times teriam interferido no Big 3 de Miami, mas dessa vez havia uma diferença: O Hornets é propriedade da NBA, na prática os donos dos outros 29 times é que são donos da franquia de New Orleans. Explicamos nesse post do ano passado a confusão que foi esse lance do Hornets, e na época fomos ingênuos de dizer que a NBA por lá não causaria tantos danos. Geralmente donos não interferem tanto nos negócios dos General Managers, apenas dão sinal verde ou não para ultrapassar o teto salarial ou não, permissão para ultrapassar o luxury tax ou não, essas coisas. Então sabíamos que a NBA apenas não deixaria a gastança rolar solta, mas haviam prometido não interferir nas decisões tomadas pelo Manager Dell Demps.

Porém não foi a primeira vez que deu briga. No ano passado o Hornets mandou Marcus Thornton para o Kings em troca de Carl Landry, no negócio o Hornets teve que mandar dinheiro para o Kings para compensar a diferença de salários, o que provocou a fúria do Mark Cuban, dono do Mavs. "Poucos times na NBA podem se dar ao luxo de fazer negócios assim e deixamos que a franquia de quem a NBA é dona faça isso?";  Também no ano passado uma troca que envolvia Indiana Pacers, Memphis Grizzlies e New Orleans Hornets, envolvendo o OJ Mayo como peça principal, foi estranhamente cancelada no último dia possível de trocas. A coisa ficou mal explicada na época, mas depois de ontem parece que entendemos a razão, o resto da liga não curtiu.

Vazou ontem para o Yahoo!Sports uma carta que o Dan Gilbert, dono do Cleveland Cavaliers, enviou ao David Stern. Ninguém negou que a carta fosse verdadeira e confio no repórter que a publicou. Na carta, Gilbert (em Arial, não em Comic Sans) pede que a troca entre em votação pelos outros 29 times, donos do Hornets. Ele também diz que o Lakers, com esse negócio, economizaria cerca de 20 milhões de dólares em multas e que era inaceitável que um time saísse da troca com o melhor jogador e ainda economizando dinheiro ao mesmo tempo. Gilbert assume assim que Paul é muito melhor que Gasol (e somado ao Odom). E se preocupa com o seu bolso já que o dinheiro das multas pagas pelos times acima do limite são divididos entre aqueles abaixo do teto salarial. Para terminar com um toque dramático e brega típico dele, diz "quando vamos simplesmente mudar o nome das outras 25 franquias da NBA para Washington Generals", em referência ao time que sempre joga e sempre perde para os Harlem Globetrotters.

O Dan Gilbert certamente não foi o único a enviar uma mensagem desse tipo e como a troca foi mesmo cancelada, dá pra imaginar o tipo de pressão que o David Stern recebeu. Na cabeça dos donos essa troca iria contra tudo o que foi discutido durante o locaute, em que os times de mercado pequeno estavam sempre perdendo para os de mercado grande, o que, para eles, é inaceitável. Aliás, isso é uma falácia que vai ganhar mais um post, tem muita gente acreditando nessa bobagem de que só os times ricos ganham.

Uma troca desse tipo logo no primeiro dia de Free Agency seria uma ofensa, segundo eles. O que os donos, aparentemente ignorantes em basquete, deixam passar é que o Lakers abriu mão de dois dos seus três melhores jogadores para conseguir um outro grande jogador. Não foi simplesmente um roubo das mãos do pobre Hornets. E como eles tinham tanta certeza assim que o Lakers seria um time melhor? Deveriam eles é estar preocupados em contratar um bom ala de força para chutar a bunda do garrafão ridículo do novo time do Kobe.

Mas o que pegou mesmo para mim na noite de ontem foi a questão ética. O Hornets está sendo claramente prejudicado se ele tem os outros 29 times decidindo o que eles fazem com o Chris Paul. O New York Knicks e outros times com espaço salarial vão sempre votar para que o Hornets mantenha o jogador e o perca por nada ao fim da temporada, claro. Os times que são candidatos ao título vão votar contra outros candidatos se eles derem um jeito de receber o armador, assim o Hornets, desesperado por uma reconstrução, não pode simplesmente aceitar a proposta que julga melhor, mas deve se adaptar ao que seus adversários, os times que querem derrotá-lo, decidem. E se é injusto com o Hornets, não deixa de ser contra o Lakers também. Eles tem as peças para a troca e não podem fazê-la por complô dos adversários. Pior que, apesar de antiético, é possível e válido e dentro das regras já que a NBA é dona do Hornets.

Recebi a seguinte pergunta no nosso formspring em relação à decisão da NBA em vetar a troca. Vejam:

"Calma, a gente está falando de uma associação privada, com 29 sócios, todos com o mesmo peso de voto. Portanto, não pode ser considerado justo ou não a troca, pois, no final,o time pertence a esses 29 donos e eles que decidem o que é melhor pra esse time.. O Hornets é como se fosse uma extensão do time deles. Eles possuem, cada um, 3,45% das ações dessa equipe, então se mais de 50% acharem que a troca não deve ser feita pois isso iria prejudicar os negócios deles, ela não será feita,fim de papo. O dinheiro é deles.


Mesmo sendo um lugar onde existe paixão e, como vocês já discutiram durante o locaute, ninguém pode falar o que eles devem fazer com o dinheiro deles, afinal, eles não falam o que vocês devem fazer com o seu. Eles são, acima de tudo, investidores, não apaixonados pelo basquete. Eles querem o melhor para o bolso deles e se 51% acha que o CP3 em LA iria atrapalhar nos negócios deles, então não se pode fazer nada. E outra, não é antiético eles comprarem o Hornets. É como se o Pão de Açúcar estivesse sendo vendido e outros 29 grandes supermercados comprassem ele, todos com a mesma fatia acionária. O problema de todos os fãs da NBA é que vemos ela mais com o coração do que com a cabeça. Lá é o mundo dos negócios, como tudo no mundo"

Eu entendo os argumentos do nosso leitor, mas os questiono. O Pão de Açúcar e os outros supermercados não estão disputando uma competição com um campeão. Todos querem ter lucro e competem entre si, claro, mas não é um esporte em que eles se enfrentam diretamente na briga por um campeonato. Simplesmente não faz sentido ter um time controlando o seu adversário em uma competição esportiva, é como se a NBA tivesse um time a menos na disputa, com os outros brigando para manipular o 30º de um jeito que os agrade mais. Se no mundo empresarial isso funciona, tudo bem, mas apesar de ser um negócio, a NBA é um campeonato de basquete, um esporte.

Ainda acho que os outros times terem controle de um adversário não é ético, e só concordava com a NBA ser dona do Hornets por ser algo temporário e pela promessa, claramente não cumprida, de deixar o GM Dell Demps trabalhar sem interferência externa. Os próprios donos pediram uma maior igualdade de condições para as equipes e onde está a igualdade ao impedir um time de realizar o negócio que ela julga melhor para si? Estão obrigando o Hornets a fazer um outro negócio qualquer, ou até a perder seu melhor jogador por nada, só pelo medo do Lakers ficar forte. Um adversário ser dono do outro é claramente conflito de interesses e a promessa de não interferência só durou até a água bater na bunda.

A posse temporária do Hornets pela NBA foi curta e já desastrosa. Durante o locaute David Stern disse que havia pelo menos 5 pessoas ou grupos interessados em comprar o Hornets, era hora da franquia ser vendida logo de uma vez para que tomasse suas próprias decisões e deixasse de ser fantoche dos seus adversários.

A melhor definição sobre o que aconteceu ontem foi dada no Twitter e eu perdi o autor no meio de tantas mensagens. Algum sábio disse que "a NBA tentou escapar de um iceberg e bateu em outro maior". Eles quiseram fugir da polêmica da estrela indo para um time grande de novo e no fim o veto provocou revolta maior ainda, dessa vez de jornalistas, público, agentes e principalmente de outros jogadores. O Adrian Wojnarowski, jornalista do Yahoo! que deu todas as notícias de ontem em primeira mão, chegou até a dizer que esse veto de ontem poderia mudar muita coisa dentro da NBA. Ah, e enquanto eu escrevo esse post, dizem que o Brandon Roy vai se aposentar por razões médicas. Sim, o mesmo Roy que o técnico Nate McMillan afirmou que seria titular há dois dias. Essa liga pirou, pessoal.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Fim da linha

Bynum tenta abraçar Barea para dar parabéns pela vitória

Eu sei que o último post foi sobre o Lakers e que algumas pessoas vão se irritar que falamos sobre eles de novo. Mas podem ter certeza que dessa vez é a última pra valer. O atual campeão está eliminado, varrido pelo Dallas Mavericks e só joga na temporada que vem, que nem sabemos quando começa. Mas é que a repercussão da derrota categórica do Lakers na série, 4 a 0, e no jogo 4, 122 a 86, está rendendo mais comentários do que qualquer outra nos últimos anos. São todos os tipo de espécimes achados na fauna torcedorística: os indignados, os que colocam a culpa em tudo, os conselheiros da ONU que só querem saber da paz entre os atletas, os piadistas, os torcedores adversários, os Kobe-haters, os Kobe-lovers, os que sempre vão achar que o Lakers perde só para si mesmo, as viúvas de Phil Jackson, os que querem explodir tudo e começar do zero, os que culpam a arbitragem e por aí vai. Sério, ficar bem do lado de fora e só ver o circo pegar fogo pode ser uma experiência interessante sobre o comportamento humano diante de eventos que não podem controlar.

Vamos ter outras chances de comentar o Dallas Mavericks, no mínimo mais uma série, mas antes de falar do Lakers temos que lembrar que eles jogaram contra outra equipe de basquete e ela jogou bem demais. Eu sempre digo que vitórias muito expressivas em um jogo não são só mérito de um time e nem demérito de outro, diferenças de quase 40 pontos são uma soma das duas coisas, o mesmo vale para varridas em séries inteiras. Se só o Dallas fosse melhor a série poderia ter sido 4 a 2, se só o Lakers tivesse mal e o Dallas não espetacular poderia ter sido 4 a 1, sei lá, mas quando as duas coisas acontecem ao mesmo tempo dá no que deu. O Lakers foi superior mesmo nos três primeiros quartos do jogo 1 e durante pelo menos metade do jogo 3, só.

O interessante é que é muito normal um time começar uma série mais forte e o outro mudar algumas coisas, deixar mais difícil e aí o outro time responde e essas pequenas mudanças táticas ou de atitude que deixam uma série divertida. É o Zach Randolph e o resto do garrafão do Grizzlies dominando o jogo 1, sendo anulado no 2 e vencendo o 3 na série contra o Thunder. Ou o Celtics tomando pau em dois jogos para, em casa, vencer com um armador de um braço só. E isso é que decepcionou nessa série entre Lakers e Mavs, a série começou com uma estratégia tática do Dallas, o Lakers não conseguiu responder e a série acabou. Histórico para a NBA, sensacional para os torcedores do Mavs, mas uma série bem desinteressante de assistir.

A análise tática pode ser vista um pouco no nosso último post e nesse excelente texto do Fábio Balassiano em seu blog. A defesa do Mavs forçou os arremessos de longe, impediu a entrada da bola no garrafão (Kobe só fez uma bandeja e nenhuma enterrada em toda série!!!) e forçou o Lakers a arremessar, mas as bolas nunca caíram e a série acabou. Funhé. Fim de papo. Mas aí começa a parte difícil de aguentar e de responder: De quem foi a culpa e o que mudar para o ano que vem.

Culpa, antes de mais nada, do Rick Carlisle que reconheceu uma deficiência no jogo do Lakers e a explorou. Culpa também de enfrentar um garrafão que tinha defensores bons o bastante para segurar Gasol e Bynum, coisa que boas duplas como Perkins e Garnett, Boozer e Millsap ou K-Mart e Nenê não conseguiram no passado. Mas ok, ok, tem gente aí querendo tacar pedras, então vamos lá.

O Pau Gasol não jogou nada e ele admitiu isso, ao final da série disse: "aprendi a não deixar problemas de fora da quadra interferirem no meu jogo". Não sabemos exatamente do que ele está falando, mas as Sônia Abrão e os Nelson Rubens dos EUA afirmam que a história é a seguinte: Pau Gasol queria que sua namorada fizesse mais amigos em Los Angeles, ela então começou a sair com Vanessa Bryant, mulher de Kobe. A senhorita Bryant, porém, teria dito coisas sobre os bastidores do Lakers que teriam feito a namorada de Gasol dar um pé na bunda dele. Gasol então culpou Kobe por falar demais para a sua mulher e o clima teria ficado péssimo. Não sabemos se isso é verdade, de confirmado só a frase do Gasol dizendo que algo na vida pessoal dele tirou o foco do basquete. Só que eu preciso realmente me dar ao trabalho de responder todos os torcedores que estão xingando ele? Sério? Como disse um cara gringo no Twitter, "Quem reclamar do Gasol e exigir trocas merece ter Kwame Brown e Smush Parker de volta". Se o Lakers é um time de elite hoje é porque o espanhol chegou por lá.

O próximo alvo é Kobe Bryant, claro. E aqui mais do mesmo: "Ele deveria ter carregado o time nas costas", "ele não envolveu os companheiros", "ele não é capaz de carregar o time nas costas" e todo aquele papo que eu escuto desde que ouvi o nome de Bryant pela primeira na vez na vida. Sinceramente, Kobe teve nessa série os mesmos defeitos e qualidades que teve durante toda a temporada e durante boa parte da carreira, nada de novo. O que acontece é algo que pode surpreender muita gente: não se ganha ou perde jogos sozinho. Mas ei, shhh, não conta esse segredo pra ninguém, poucos sabem. Outro segredo de bônus para os assinantes VIP: Kobe Bryant não é o centro do universo, coisas podem acontecer sem que ele esteja diretamente envolvido.

Próximo tópico: O Lakers não sabe perder. Primeiro foi a falta dura de Ron Artest sobre o JJ Barea no jogo 2 e ontem duas expulsões, Lamar Odom e Andrew Bynum. Ambos, com o jogo já perdido faz tempo, fizeram faltas covardes sabendo que seriam mandados para fora do jogo. Coisa de gente nervosa, frustrada, que não sabe perder e que certamente merece e terá punição. Mas que note-se a diferença: Ron Artest ficou claramente arrependido e decepcionado no mesmo segundo que fez a falta, Odom e Bynum saíram com ares triunfantes de "foda-se o mundo, eu bato mesmo". Então por favor, xinguem o Artest por jogar mal, por não conseguir ser nessa série o bom defensor que geralmente é, o critiquem por não saber arremessar mesmo depois de uma década como profissional, mas não venham com o papo de que ele nunca mudou e pra sempre será um bad boy. E outra coisa, Kobe e outros jogadores do Lakers foram, depois do jogo, atrás de Barea para pedir desculpas por Bynum e perguntar se ele estava bem. A atitude idiota de uns não quer dizer que o time inteiro não sabe perder.

Alguns estão colocando a culpa dessas agressões no Phil Jackson, já que o comportamento dos jogadores em quadra deveria ser controlado pelo técnico. E isso vale principalmente para o Bynum, já que o Odom tinha sido expulso antes e dado uma razão para Phil chamar todo mundo de canto e dizer para eles se acalmarem. Mas quem diz isso nunca viu o Zen Master em uma partida de basquete. O Phil Jackson é o oposto daquela sua ex-namorada controladora e acha que os jogadores são homens adultos com capacidade de aprender sozinhos, se for pra chutar eu diria que Phil acha que o Bynum aprendeu e amadureceu mais sendo o vilão idiota e imaturo da noite do que se tivesse tomado só um puxão de orelha no banco de reservas. É como quando ele vê o seu time errando sem parar e não pede tempo para que eles aprendam a se virar sozinhos. Para um torcedor em desespero essa atitude pode parecer suicida, mas a longo prazo sempre vemos os times dele como um dos mais autoconfiantes da NBA. Autoconfiança que facilmente vira frustração se os resultados não confirmam sua expectativa, diga-se de passagem.

Se o Phil Jackson errou nessa série foi ao não conseguir mudar o time taticamente para conseguir furar a defesa do Dallas Mavericks, mas quando a coisa chega ao ponto que seus jogadores não acertam um arremesso sem marcação, a coisa complica pra qualquer técnico. Não diria nem que Phil Jackson errou, mas que ele só não conseguiu ser fora de série como sua fama e história sugerem. História essa que acabou na humilhante derrota de ontem, como prometido antes da temporada ele é agora um senhor aposentado. Até cheguei a pensar que talvez Phil Jackson ficasse envergonhado em sair de cena desse jeito e pensasse em continuar, mas logo mudei de idéia. Lembrei de Michael Jordan e Yao Ming: Jordan teve o final de carreira mais cinematográfico que alguém poderia imaginar, um arremesso vencedor depois de um drible desconcertante em um jogo de final da NBA, e mesmo assim não ligou de voltar, velho e sem metade do físico anterior, para jogar em um time horrível e passar dois anos sem ver a cara dos playoffs. Era a vida dele, a vontade dele e o cara foi lá e fez. Se alguém está preocupado com legado, imagem e em endeusar alguém somos nós, não eles. Mesma coisa com o Yao Ming respondendo aos tristes com sua centésima contusão que ele está bem, vivo e feliz. Imagino o Phil pensando da mesma forma, ele queria se despedir com um título (quem não quer?), mas não deu, paciência, hora de ir pra casa, descansar, fazer sexo e fumar charuto.

Ou seja, tentamos dar muita importância para essa derrota do Lakers mas os motivos são meio tolos. São muitos torcedores a favor, muita gente contra, muita expectativa sobre nomes como Kobe Bryant, Pau Gasol e Phil Jackson e aí tudo o que acontece fica muito grande. Mas o Kobe perde como outros jogadores perdem, o Lakers perde por motivos que outros times perdem. E esse pensamento é importante na hora de pensar o futuro da equipe, se fosse outra equipe, com menos pressão e atenção em cima, alguém pensaria que é hora de destruir tudo e começar do zero?

Eu acho que não. O Andrew Bynum e o Pau Gasol tiveram momentos ótimos na temporada e são claramente talentosos, com saúde física para um e mental para o outro podem ser a melhor dupla ofensiva da NBA. Kobe Bryant aos poucos vai perder mais e mais sua potência física, mas ainda faz muito estrago. Lamar Odom foi o melhor reserva da temporada com méritos. Ron Artest não jogou bem na maior parte do ano, mas em determinados momentos também foi ótimo, talvez seja o caso de procurar um titular para que ele fique no banco, mas trocá-lo seria não só tolo como inviável. Quem jogou mal durante quase o ano todo e precisa de mudanças é o banco de reservas, o Steve Blake foi a maior decepção do mundo pra mim, o Matt Barnes não fez grande coisa e chegamos a um ponto triste da nossa vida como torcedor quando ficamos sonhando em ter Vlad Radmanovic ou Sasha Vucjacic no banco só para acertar pelo menos uma bolinha de três num jogo. Só não me venham com esse papinho de torcedor megalomaníaco do Lakers de "Por que não trazemos Deron Williams e Dwight Howard?". Se fosse tão fácil eles não estariam esperando perder para o Mavs para contratar os caras, acreditem.

Eu sei que tem gente que vai discordar, que vai dizer que os adversários já sabem os defeitos do Lakers e que o time está velho. Para esses eu digo, de novo, olhem para o outro lado da quadra, o Lakers não joga sozinho. Para quem eles perderam? Para um time velho, que perdeu anos seguidos na primeira rodada e que toda temporada decide adicionar peças ao seu bom grupo ao invés de se desesperar e explodir tudo. Me parece um bom exemplo a ser seguido.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Lakers na beira do abismo

Uma imagem diz mais que um post inteiro do Bola Presa


Torcedor do Lakers é como nós, paulistas: Se acham o centro do mundo. Mas com uma diferença, os torcedores do Lakers não tem razão. Sempre depois de uma derrota, duas derrotas ou algumas partidas mal jogadas eles aparecem malucos, enfurecidos e perdidos exigindo uma explicação, como o Lakers pode estar perdendo? O que estamos fazendo de errado? Afinal o Lakers é o melhor time do planeta e ninguém pode nos vencer a não ser que a gente deixe.

Eu sou torcedor do Lakers, eu sou paulista, eu entendo como é isso. Mas simplesmente não é assim que funciona. Se vocês caçarem o histórico do blog, que acompanhou os três títulos seguidos do Oeste que Kobe e seus fiéis escudeiros venceram, irão encontrar uma enxurrada de críticas à equipe. Já que eu torço pra eles gosto de assistir aos caras jogarem e quanto mais você assiste, mais fácil é achar defeitos e qualidades. Escrevi muito sobre os defeitos deles. Em 2008 era a defesa que não acompanhava a boa produção ofensiva, em 2009 o time que tinha apagões constantes, em 2010 a ineficiência de furar defesas por zona. Nos três anos as inúmeras surras sofridas contra armadores velozes, os dias em que não tínhamos um arremessador confiável de três pontos e a eterna mulher de TPM que é o banco de reservas angelino. Isso sem contar as acusações de time soft, do Kobe forçar demais o jogo, das contusões do Andrew Bynum, da velhice do Derek Fisher, etc, etc, etc.

Não quero dizer que o Lakers é um time ruim, muito longe disso, posso mostrar uns vídeos do Minnesota Timberwolves se vocês querem ver um time ruim de verdade, mas não é porque eles ganharam títulos que isso apaga os erros. Aliás, só deixa o feito mais impressionante, já vimos times muito mais perfeitinhos como o San Antonio Spurs de 2005 ou 2007, o Boston Celtics de 2008 ou o Detroit Pistons de 2004 não conseguir sequer fazer duas finais seguidas, que dirá três e com dois títulos. Esse sucesso do Lakers se dá a uma qualidade essencial: Eles tem altos e baixos, mas jogam o seu melhor quando precisam. Foi assim quando viraram aquele jogo 1 quase perdido para o Spurs na final do Oeste de 2008, quando estavam tomando um pau do Phoenix Suns na final do Oeste do ano passado ou naquela série contra o Denver Nuggets em que parecia que Kenyon Martin, Nenê e Chris Andersen iriam cortar o garrafão do Lakers em pedacinhos e comer com azeite de oliva e pedacinhos de queijo. Foi contra a parede que eles acharam uma maneira de se safar e sair com a vitória. Vencer quatro vezes em sequência uma conferência, como o Lakers está tentando agora, é tão difícil que a última vez que um time fez isso a maioria dos nossos leitores nem tinha nascido! Foi o Celtics que venceu o Leste em 84, 85, 86 e 87.

Portanto, antes de mais nada, se o Lakers realmente perder para o Dallas esse é um dos motivos: É muito difícil para qualquer time manter o alto nível por tantos anos, sem encontrar pelo caminho nenhuma contusão, má fase, azar ou simplesmente um adversário que tenha assistido tanto ao Lakers vencer que tenha sacado uma nova estratégia para vencê-lo. No caso dessa série, eu apostaria muito nesse último caso.

O Dallas Mavericks tem um técnico da linha nerd-bitolado que tem dominado a NBA ultimamente. Rick Carlisle é conhecido por ter um livro do tamanho da envergadura do Lamar Odom de diferentes jogadas, ele estuda basquete e aos poucos transformou esse Dallas Mavericks de um time de jogadas de isolação (mais ou menos como é o Hawks hoje) em uma equipe cheia de variações que pode se adaptar a qualquer adversário. E que, isso é assustador de pensar, está sem Caron Butler, um cara que sabia atacar muito bem a cesta e dava ainda mais opções ofensivas para o time.

Mas sabe que apesar do massacre que o JJ Barea causou na defesa do Lakers no quarto período do último jogo (lembram do problema em marcar armadores velozes?), não é ali que a derrota está acontecendo. Tá, nem Pau Gasol e nem Lamar Odom são Gamarras defendendo o Dirk Nowitzki, o alemão acertou 9-16 arremessos contra Gasol e 8-16 contra Odom, mas é só ele que está deitando e rolando. Nenhum outro jogador tem média superior a 12 pontos por jogo nas duas primeiras partidas e a média de aproveitamento dos arremessos do Dallas está em 45%, não longe dos 44% a que o Lakers manteve seus adversários para ter a 5ª melhor marca da temporada regular.

É no ataque que o Lakers tem se complicado. E o motivo, por mais impressionante que isso pareça, é que o Mark Cuban, dono do Mavs, é um bilionário que não liga de gastar dezenas de milhares de dólares com pivôs. Na última offseason ele ofereceu uma extensão de contrato enorme para o Brendan Haywood, mas quando viu o Bobcats trocando o Tyson Chandler foi lá e conseguiu o cara quase de graça. Não importa que ele deixasse o milionário Haywood no banco e jogando só uns minutinhos por jogo. Agora são Chandler e Haywood que revezam minutos junto com Dirk Nowitzki para segurar Lamar Odom, Pau Gasol e Andrew Bynum. O Lakers quase sempre joga com uma escalação mais alta que a do adversário e toma vantagem disso, mas nessa série não é sempre que isso é possível. Quando Odom e Gasol formam o garrafão angelino contra o Nowitzki e Haywood, por exemplo, são mais baixos. Nos minutos em que o Lakers não é o time mais alto em quadra eles tomaram 43 pontos e marcaram 25 nesses primeiros jogos.

A combinação alta e de talento defensivo do Mavs tem feito o Lakers penar para marcar pontos dentro do garrafão. Kobe Bryant, por exemplo, tentou em média 7 arremessos perto do aro contra o New Orleans Hornets, contra o Mavs tem sido metade disso. E pior, de 58% de aproveitamento caiu para 28% nessas ocasiões. Outro número que mostra como o Mavs tem defendido bem o Lakers é o que mostra o número de vezes que o Andrew Bynum participou do jogo; ele esteve em quadra durante 78 posses de bola e apenas recebeu a bola em 15! Arremessou em 11 delas e acertou 8, um ótimo aproveitamento. Pau Gasol recebeu mais a bola, mas onde não devia. Nas posses de bola em que Pau Gasol recebeu a bola fora do garrafão, o Lakers como um todo acertou 6 de 16 arremessos, quando recebeu dentro da área pintada o aproveitamento foi de 7 em 10.

Para compensar a falta de jogo dentro garrafão, o Lakers tentou arremessar de longe e aí o bicho pegou. Tentaram 20 bolas de três pontos e acertaram duas, ambas quando o jogo já estava perdido nos minutos finais. O aproveitamento de 10% é o pior da história dos playoffs entre os times que tentaram pelo menos 20 bolas de três em um jogo. É pouca zoeira? Com dificuldades em marcar pontos perto e longe da cesta é de se surpreender que o Lakers não tenha tomado uma surra maior ainda.

Para a próxima partida, hoje, o Dallas tem uma estratégia simples: Mais do mesmo. Congestionar o garrafão, marcar por zona de vez em quando e continuar vendo por quanto tempo eles conseguem assistir ao Lakers errar arremessos de longe. Mas isso não impede o Rick Carlisle de dar um puxão de orelha em alguns jogadores, o Jason Terry precisa acordar. Contar que o JJ Barea vai fazer uma boa série em geral tudo bem, mas ele não é cara para decidir no quarto período sempre.

Já o Lakers precisa de uma pequena revolução. Primeiro de confiança e motivação, na última partida dava pra sentir no ar o desespero de não saber o que fazer, eles precisam da frieza que tiveram nos jogos importantes dos últimos anos. Só com essa frieza é que eles vão poder executar o seu ataque com a precisão necessária para chegar mais perto da cesta e conseguir vencer o duelo contra Haywood e Chandler. E se tiver dando errado não podem se contentar com arremessinhos forçados de meia distância, tem que forçar, tentar de novo, de outro jeito. É perto da cesta, com enterradas, bandejas e rebotes ofensivos que o Lakers ganha seus jogos. Admitir a derrota nesse duelo e tentar mudar o estilo de jogo é admitir a derrota em toda a série. Também é importante que Kobe pense assim, todos sabemos que ele pode acertar arremessos de qualquer lugar da quadra, o que não quer dizer que ele deve tentar arremessos impossíveis o tempo inteiro. O jeito mais fácil de abrir espaços no garrafão adversário é ter um jogador driblador que costure a defesa, Kobe precisa ser esse cara. Temos que ver se ele vai ser o Kobe frio que vai fazer tudo certo ou se vai ser o cara com cara de maluco que quer arremessar todas as bolas como se ele fosse o herói do universo.

Uma última notícia muito interessante que acabei de ler é que o Phil Jackson resolveu substituir o Ron Artest, que foi suspenso por essa falta no JJ Barea, pelo Lamar Odom no time titular! É muito, mas muito raro o Lakers jogar com Odom, Gasol e Bynum ao mesmo tempo. Phil Jackson percebeu que precisa do time mais alto e provavelmente vai usar os três para atacar a cesta e tentar pegar todos os rebotes ofensivos do mundo. Mas como fica a rotação? Odom joga mais minutos que o normal? E o entrosamento? Faz tempo que o Lamar Odom não joga na posição três. Medidas extremas para situações extremas, vai ser divertido de assistir.

E sobre o Artest: Foi uma falta dura, desnecessária e a punição até que é compreensível. Mas pegar todo o passado distante do cara e jogar na cara dele dizendo que "ele nunca mudou" é uma injustiça enorme. Faz anos que ele só aparta briga e não se envolve em nenhuma contusão, dessa vez fez uma falta dura e obviamente se arrependeu no mesmo segundo, dá pra ver na cara de bunda dele. Está suspenso, beleza, mas não cometeu nenhum crime e não merece a hostilidade que tem recebido da maioria dos torcedores e da imprensa.

domingo, 3 de abril de 2011

O melhor é ficar parado

Ron Artest, modelo e atriz

Fiz dois posts falando sobre o que aconteceu um mês depois daquela fase cheia de trocas na NBA. Mas a grande mudança aconteceu mesmo com o time que, graças a Deus (leia-se Alinne Moraes), não fez troca nenhuma. Desde o All-Star Game o Los Angeles Lakers só perdeu um jogo, para o Miami Heat, e venceu os outros 15. Nesse período o time melhorou em todas suas estatísticas: defensivas, ofensivas, rebotes, assistências, tamanho do pênis, level do Farmville, qualquer coisa que possa ser medida.

Aqui a gente não tem lá um histórico muito bom com palpites. Somos bons analisando o que já aconteceu, tentamos ser profundos e sérios na hora de achar a causa das coisas, mas não temos o mesmo talento com futurologia. Por isso mesmo a gente tem que se gabar quando algo finalmente dá certo: Eu tinha dito que o Lakers tinha um elenco certinho, que poderia render muito e que não era hora de fazer mudanças drásticas. O tempo passou e tudo foi voltando ao normal, o time desinteressado e previsível do começo da temporada começou a se motivar e a duas semanas do fim da temporada regular estão a apenas um jogo e meio atrás do San Antonio Spurs (que perdeu 6 seguidas pela primeira vez desde 1997!) pela primeira posição no Oeste. Alguns fatos explicam bem o desinteresse do Lakers no começo do ano: um deles é a série de entrevistas de vários membros de times campeões dizendo que é realmente difícil encontrar motivação para um joguinho sem graça no meio de dezembro sabendo que o que fica para a história é o que acontece a partir de abril. O outro é do Ron Artest, que disse que era muito chato jogar umas partidas contra times fracos que eles sabiam que iam vencer a qualquer hora. Típico do Artest dizer coisas polêmicas e verdadeiras que a maioria dos jogadores compartilha nas idéias mas não na imprensa.

Na NBA a parada do All-Star Game é bem simbólica. Não é exatamente no meio da temporada, é um pouquinho depois, mas para os jogadores e times é o sinal da segunda metade do ano, o momento de dar aquela embalada rumo aos playoffs. Porém, será que essa arrancada continua na pós-temporada? Não é lá que ouvimos todo ano o clichezão de que nos playoffs tudo é diferente? Bom, a NBA.com fez uma rápida pesquisa nos dois últimos anos e achou uma resposta bem aceitável. No ano retrasado a maioria dos times que teve melhor campanha depois da parada do All-Star venceu as suas séries de playoff, mesmo os times que no geral tinham menos vitórias na temporada. No ano passado o número não foi tão significativo, mas as vitórias foram dos times mais experientes: Celtics, Lakers e Spurs. O Boston do ano passado, aliás, é a maior prova da armadilha que é acreditar cegamente no que essa parte da temporada pode indicar. No final da temporada passada eles estavam se arrastando pela quadra, perdendo jogos idiotas em casa e conseguiram ficar atrás do Atlanta Hawks na classificação geral. Em quarto, eram a grande aposta de todo mundo como derrotado para o Miami Heat, quinto, na primeira rodada. O Heat tinha a melhor defesa da segunda metade do campeonato e tinha subido de nono para quinto no Leste nesse período de menos de dois meses. Como vocês bem lembram, em junho era o Celtics, não o Heat, disputando a final da NBA.

A conclusão deles é que times que tem jogadores mais rodados e/ou que jogam juntos há muito tempo tem mais essa capacidade de apertar um botão e começar a jogar com todas suas forças. Times em formação ou mais jovens simplesmente dão o máximo que podem e às vezes podem mais, às vezes menos. Seguindo essa linha de pensamento dá pra pensar que essa queda de produção do Spurs não é motivo para começar a apostar em uma derrota na primeira rodada ou que o Celtics está fadado ao fracasso pós-Perkins (ou pós-Kendrick Abdul-OlajuEwing, como o chamam aqueles que acham que se está dando muita bola para o pivô).

Podemos perceber também que o Lakers, por precaução, exigência do Phil Jackson ou qualquer que seja a inspiração, apertou o botão nessa mudança simbólica do calendário da liga. Passou o All-Star Break, enrolamos muito bem até aqui e é hora de jogar pra valer. Nesse período o Derek Fisher jogou mesmo sentindo contusões, o Kobe Bryant também (embora ele faça isso há uns 5 anos, no mínimo), o Artest começou a se envolver mais nas partidas, o Gasol voltou a render como no começo da temporada e o Andrew Bynum está jogando o melhor basquete da sua vida. Não dá pra achar um jogador que não tenha elevado o nível do seu jogo, parece mágica.

O Artest é o exemplo mais óbvio. Cansei de ver jogos nessa temporada onde a maior contribuição dele era ficar na zona morta esperando a bola para dar um air ball daqueles de pelada. Agora ele corre atrás do cara que deve defender, rouba muitas bolas e no ataque resolveu atacar a cesta. É engraçado demais ver como ele é desengonçado correndo, mas é rápido e de uns tempos pra cá resolveu que está jovem de novo e pode falar gírias iradas (uh tererê!) e enterrar. No jogo contra o Clippers acertou uma à la Shannon Brown na cabeça do Chris Kaman (saiu dando pulinhos depois) e aí se empolgou a ponto de tentar mais duas e errar bisonhamente ambas. Ele faz bobagens, isso está no pacote Artest (e não estou falando de bobagens de comportamento!), mas quando está interessado joga demais. Os números podem dizer que o Tony Allen é o melhor ladrão de bolas dessa temporada, mas ver o Artest em ação é uma coisa de doido, ainda me pergunto como ele pode tocar a bola tantas vezes e incomodar tanto sem fazer falta. Tem mãos fortes e um tempo de bola preciso, dentre esses defensores mais físicos e agressivos é o mais eficiente que eu já vi.

Aqui o vídeo com um resumão do jogo contra o Clippers. Vale ver tudo, tem umas enterradas mais ou menos do Blake Griffin, aquele overrated, as três que eu citei do Artest e mais uma do Shannon Brown que é de ficar tentando na cestinha do quintal depois.



O Andrew Bynum também aparece no vídeo fazendo o que sabe, ser enorme. O Yao Ming pode ser 10 centímetros mais alto, mas não parece tão grande quanto o Bynum. Ele é alto, forte, largo e tem braços de Tayshaun Prince. O time funciona bem com Odom e Gasol no garrafão, mas a defesa fica muito mais forte com Bynum impedindo cestas lá perto. Ele é o grande responsável por uma estatística bem impressionante divulgada pela NBA essa semana. O Lakers é o time que causa o segundo pior aproveitamento dos jogadores de garrafão adversários se contarmos apenas os alas de força e pivôs mais bem ranqueados ofensivamente na NBA. Contra LaMarcus Aldridge, Chris Bosh, Carlos Boozer, Tim Duncan, Blake Griffin, Dwight Howard, Al Jefferson, Brook Lopez, Kevin Love, Zach Randolph, Amare Stoudemire e David West, o Lakers permite que eles acertem apenas 44% de seus arremessos, só o Magic de Dwight Howard é melhor.

Também é bom lembrar que do jeito que ele domina o Tyson Chandler sempre que pega o Dallas Mavericks, e como a maioria dos outros concorrentes ao título não aposta em pivôs fortes, ele pode ser o grande trunfo do Lakers na pós-temporada. Talvez Kendrick Abdul atrapalhe os planos, mas só ele. O Bynum nem precisa marcar 25 pontos para causar impacto no jogo, o negócio dele é ser a bola de confiança no começo do jogo, manter o Lakers na frente, ser a referência quando os reservas entram para jogar, impedir cestas bobas na defesa e sempre deixar os pivôs preocupados e sem ir ajudar na defesa quando Odom, Gasol e Kobe estão fazendo seu trabalho ofensivo.

Embora não sejam sempre perfeitos, Gasol e Kobe levaram o time nas costas com regularidade em boa parte dos jogos e continuam jogando bem. Surpreendentemente Lamar Odom foi regular também nessa temporada, ele que sempre foi o mais de lua do elenco, mas agora estão todos esses jogando bem e mais os dois que citei. É sempre raro e especial quando todos os jogadores de um bom time estão em um momento bom técnica e fisicamente. O Lakers é o melhor time dessa segunda metade da temporada, melhor que o Nuggets até, embora isso seja tarefa para poucos atualmente; se mantiver o ritmo, entra nos playoffs com a etiqueta de grande favorito, posição que tinha antes da temporada começar e que perdeu aos poucos naquela fase em que uma renca de gente implorou para que mandassem Bynum por Carmelo Anthony. Acho que essa boa fase é um sinal que mesmo se algo impedir um título, não havia motivo forte o bastante para motivar um desmanche.

E não dá pra deixar isso de fora de um post do Lakers:

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Resto do peru - A rodada do Natal

Essa alegria contagia, parem!


A rodada de Natal foi marcada mais pelos comentários sobre ter que jogar no Natal do que pela real qualidade dos jogos. Fechando o assunto de ter que jogar no feriado eu só preciso registrar aqui o que o Stan Van Gundy disse antes da partida contra o Celtics. Lembra que ele tinha sido multado no ano passado por comentários contra os jogos de Natal e que nesse ano não pretendia fazer o mesmo? Pois ele não resistiu e para fugir da multa apelou para a sempre saborosa ironia: "Eu acho que a NBA é tão importante para o Natal que precisamos aumentar o número de jogos de 5 para 10. E precisamos que eles comecem assim que der meia-noite na véspera de Natal, assim não teremos um minuto de Natal sem um jogo na TV. A NBA é o Natal". Como o Shaq conseguiu se desentender com esse cara? Era porque ele tinha piadas melhores?

O primeiro jogo do dia foi um divertido e desastrado Knicks-Bulls, que valeu por algumas jogadas lindas do Derrick Rose e pela emoção, mas foi um desengonçado jogo que quase somou 50 turnovers entre as duas equipes! Foi legal para o Knicks ganhar um jogo contra um time forte tendo como destaque a defesa no fim do jogo, mas muito foi culpa do Bulls que fez um último quarto péssimo no ataque, passando mais da metade dele sem marcar um ponto sequer enquanto assistia Kurt Thomas e Omer Asik fazendo falta atrás de falta no Amar'e Stoudemire. Como bem disse o cara do blog ShamSports, um torcedor fanático do Bulls: "O Bulls sentiu falta essa noite de bom passe, um segundo jogador para segurar a bola além do Rose, defesa, energia e alguém para marcar o Amar'e. Joakim Noah faz tudo isso". Eu concordo.

O segundo jogo não foi muito bonito também, mas impressionante. Dwight Howard não se encontrou no ataque, Jason Richardson e Gilbert Arenas foram quase nulos, a defesa do Celtics fez o nunca treinado ataque do Magic parecer um time de pelada e mesmo assim o Magic venceu. Eu vi todos os minutos do jogo e ainda não entendi. Simplesmente eles conseguiram na defesa manter o placar apertado e no final contaram com Jameer Nelson e JJ Redick acertando bolas decisivas. Vou falar mais do Magic daqui um tempo quando eles tiverem o mínimo de um padrão de jogo, mas quando você vence Spurs e Celtics em sequência sem nunca ter treinado junto e jogando feio é porque a coisa está boa pro seu lado.

Mas o jogo mais esperado da noite era mesmo Lakers e Heat. O Lakers está no terceiro lugar do Oeste, mas depois de perder por quase 20 pontos em casa para o Bucks (sem contar o vareio que levaram do Earl Boykins) está começando a assustar os torcedores, já o Heat está destruindo quase todo mundo e o 'quase' machuca porque as derrotas são justamente para os grandes concorrentes como Magic, Celtics e Mavs. No fim das contas o Lakers conseguiu manter o ritmo e tomar outra surra em casa e o Heat passeou com muita facilidade e em um dos melhores jogos do Chris Bosh no Heat, venceram por 16.

Como eu sempre defendo aqui no blog, vitórias elásticas nunca são só mérito de um time e nunca só desgraça do perdedor. Em uma liga forte como a NBA tem que acontecer as duas coisas para um time vencer bocejando como foi o caso desse jogo. O Lakers entrou em quadra com um plano defensivo bem claro, era fechar o garrafão e dobrar a marcação sempre que necessário em Dwyane Wade e LeBron James para tirar a bola das mãos deles. A estratégia não é novidade para o Miami, que mesmo tendo dois dos melhores (senão os dois melhores) jogadores em infiltração da NBA é o último colocado da liga em arremessos tentados próximos à cesta, bandejas ou enterradas, com 16 por jogo, 10 a menos que os líderes Denver e Chicago.

No começo da temporada a resposta do Miami para essa estratégia era continuar insistindo em infiltrar, o que gerava toneladas de erros, ou em arremessar bolas de três, o que causava estranhas estatísticas como ver James Jones e Eddie House arremessando mais vezes que o Chris Bosh ou decidindo bolas importantes ao invés de Wade e LeBron. Com o passar do tempo a estratégia mudou e eles decidiram arremessar longas bolas de dois. Embora ao redor da NBA os tenebrosos long-2s sejam considerados (com apoio estatístico) os arremessos com menor porcentagem de acerto no basquete, eles se encaixam bem nesse caso do Miami. LeBron, Wade e Bosh são melhores nesse tipo de arremesso do que quando tentam se aventurar na linha dos três pontos, assim como Udonis Haslem, Zydrunas Ilgauskas e Carlos Arroyo. Então se a defesa não abre eles arremessam longas bolas de dois e os times que não querem tomar um show de enterradas pagam pra ver.

O Dallas Mavericks pagou pra ver e viu o LeBron passar boa parte do jogo zerado, o Lakers pagou e viu todo mundo meter um arremesso atrás do outro. O LA só no segundo tempo assumiu que a estratégia não estava dando certo e passou a pressionar mais a bola, mas aí o resultado foi uma embaraçosa lição de como não defender um pick-and-roll. Com cortas simples, LeBron, Wade e principalmente Bosh puderam atacar a cesta e marcar os pontos perto do aro que o Phil Jackson tentou evitar no primeiro tempo. Segundo a ESPN.com o Heat fez um terço dos seus pontos em jogadas de pick-and-roll sem cometer nenhum turnover nessas tentativas. Foi um ótimo exemplo do cobertor curto que pode ser enfrentar o Miami Heat quando os seus arremessos de média e longa distância estão caindo. Detalhe que o Lakers apanhou desse jeito mesmo conseguindo outro sucesso defensivo, segurar o Heat a apenas 4 pontos de contra-ataque em toda partida.

No começo da sequência de vitórias do Miami Heat foi divulgado pelos jogadores (e visto por quem assistiu aos jogos) que o técnico Erik Spoelstra resolveu ir pelo caminho mais fácil, ele treinou incansavelmente a defesa e no ataque deu liberdade para LeBron e Wade correrem, era contra-ataque por merecimento: Se um dos dois conseguisse um roubo de bola, toco ou rebote tinha autorização para correr e improvisar. Isso fez o time se empenhar mais na defesa e rendeu pontos fáceis no ataque, tudo para não ficar naquela estagnação ofensiva que eles tinham nas primeiras semanas.

Outro fator importante para a melhora do Heat foram as duas mudanças no elenco, Zydrunas Ilgauskas e Mario Chalmers ganharam muito mais tempo de quadra. O Big Z não é rápido na defesa, mas o trio formado por Wade, LeBron e o ótimo defensor Chalmers faz com que o o pivô lituano não precise lidar muito com armadores rápidos e jovens batendo para cima dele. E no ataque o Chalmers está acertando os arremessos que Arroyo não conseguia e Ilgauskas é um dos que tiram proveito da tática que os outros times usam de forçar o Miami a ganhar os jogos com os chutes de longe. Volta e meia eles ainda tem momentos péssimos e os passes voando no meio do nada em direção à arquibancada ainda estão lá, mas aos poucos o Heat está descobrindo como usar os talentos que cada jogador levou para South Beach. Mesmo com todas as dificuldades desse começo eles já tem, no ranking de pontos por 100 posses de bola, o sexto melhor ataque e segunda melhor defesa da NBA.

Mas chega de elogiar o time mais odiado da NBA, afinal quem aqui quer ver eles terem sucesso? Ninguém! Vamos falar do Lakers e tentar entender porque eles estão jogando tão mal. Mas antes de eu tentar me arriscar acho que o Kobe tem mais moral e entende mais o que acontece lá dentro. Tá aqui o que ele disse depois do jogo contra o Miami Heat:

"Nossa filosofia é que temos que estar todos na mesma página, nós somos tão fortes quanto o mais fraco no nosso time. Temos que nos juntar e seguir lutando, estamos jogando como quem já tem dois anéis de campeão. Não vai ser fácil, se fosse veríamos muitas equipes vencendo três vezes seguidas. Para conseguir você precisar trabalhar e ralar demais. (...) O jogo é a parte mais importante, você precisa se concentrar e jogar todos como se fossem o último, o negócio é sério. Você não pode ganhar dois títulos e ficar satisfeito com isso. Eu não estou e não vou deixar as coisas ficarem assim". 

Outro que estava nos dois últimos títulos, Lamar Odom, concorda e deu uma declaração bem sincera: "Parte do nosso problema é que estamos muito convencidos e achando que não vamos e nem deveríamos perder. Acho que nessa temporada estamos com excesso de confiança e foi assim que começamos, desde o período de treinos". 

Isso explica basicamente porque o Lakers tem perdido. Contra times fracos o time é preguiçoso, contra os mais fortes parece que acha que o resultado virá naturalmente, aí acaba fazendo tudo do jeito mais simples e quando não dá certo simplesmente ficam nervosos ou com cara de bunda ao invés de ralar para mudar as coisas. E eles não podem se dar ao luxo de fazer isso.

Essa equipe do Lakers é provavelmente a menos dominante a ter vencido três vezes seguidas o Oeste e a menos espetacular a ter sido bi-campeã em muito tempo. E isso é um grande elogio ao espírito de luta e de superação desses jogadores. Acompanhamos essas temporadas de perto e não só escrevemos aqui como lemos ao redor da internet muita gente apontando vários defeitos do time nessas últimas temporadas. Era sempre uma das melhores, mas faltava defesa, depois um armador, depois jogadores explosivos, banco de reservas, arremessadores de três, etc, etc. O segredo foi que o time sempre jogou bem quando precisava. No ano passado estava tomando sufoco do OKC Thunder e do Phoenix Suns nos playoffs e chegou a empatar as duas séries em 2 a 2 antes de jogar com o coração no jogo 5 e dar uma aula de basquete no jogo 6. Foi exatamente a mesma coisa que aconteceu na final do Oeste de 2009 contra o Nuggets, durante boa parte da série parecia que o Denver tinha o melhor time, mas aí o Lakers venceu o jogo 5 com uma atuação heróica do Lamar Odom e o jogo 6 foi possivelmente o melhor do Lakers desde o saída do Shaquille O'Neal em 2004. Na final contra o Orlando Magic, Trevor Ariza e Odom resolveram aprender a arremessar de três, contra o Celtics foi Ron Artest que salvou o time no jogo 7. Defeitos do time que foram superados quando a água bateu na bunda.

Foi por isso que eu achava que esse jogo contra o Miami Heat seria diferente. Sim, o Lakers estava com problemas, mas sempre esteve e conseguia superá-los nos jogos importantes e nesse Natal, um jogo para mostrar quem ainda manda na NBA, jogou como time pequeno e foi dominado como se fosse um Grizzlies da vida. Mostrou as mesmas deficiências dos jogos anteriores, como falta de movimentação, excesso de jogadas individuais, baixo aproveitamento dos arremessos de três e um banco de reservas que nem parece o mesmo grupo de jogadores que estava ganhando jogos por conta própria nas primeiras semanas da temporada. Sem contar a defesa que já comentamos acima.

Com o elenco mais forte do que nos anos anteriores, mesmo técnico e mesmo tudo só dá pra colocar a culpa no fator psicológico mesmo. Vai ser interessante ver como isso se desenvolve sob o comando do Phil Jackson, que por anos foi considerado o melhor em justamente motivar seus atletas e por Kobe Bryant, que beira a loucura de tão tarado por basquete e por vitórias. Sabe no Natal quando ninguém queria jogar? Kobe também disse que está cansado de sempre seu Lakers jogar no feriado todos os anos, mas mesmo assim chegou 3 horas antes de todo mundo para ficar treinando seus arremessos e depois foi o último a sair, sozinho e esfriando aos poucos a cabeça quando até sua família já tinha voltado sozinha pra casa.
Sim, ele é workaholic. "Vou chutar uns traseiros nos próximos treinos. Vou bater com umas coisas na cabeça de todo mundo até eles entenderem".

Bônus do Natal
Um vídeo com uma raridade: Marcaram 10 segundos na cobrança do lance livre do Dwight Howard. Garanto que muita gente nem conhecia essa regra de tão rara que ela é! Se o jurássico Hubie Brown ficou surpreso durante a transmissão é porque é realmente bem difícil de ser marcado.



"E os outros jogos? Nenhuma palavra sobre Ellis e Durant?"
- Boas vitórias de Warriors e Thunder nos jogos que não deveriam ter acontecido. Jogaram bem, estão de parabéns! Esses garotos tem futuro!

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Preview 2010-11 / Los Angeles Lakers


Adeus número 37. Artest agora usará o número 15, o primeiro que usou na NBA



Objetivo máximo: Terceiro título seguido
Não seria estranho: Perder na final do Oeste
Desastre: Cair antes da final de conferência

Forças: Time experiente, talentos em todas as posições, um dos melhores técnicos da história e Kobe Bryant
Fraquezas: Às vezes é um time relaxado e dependendo da formação que usa tem dificuldades nas bolas de três.

Elenco:

Los Angeles Lakers
Titulares
Reservas
Resto
PG
Derek Fisher
Steve Blake
Shannon Brown
SG
Kobe Bryant
Sasha Vujacic
Devin Ebanks*
SF
Ron Artest
Matt Barnes
Luke Walton
PF
Pau Gasol
Lamar Odom
Derrick Caracter*
C
Andrew Bynum
Theo Ratliff

...
Técnico: Phil Jackson

Quando o cara tem mais anéis de campeão do que dedos na mão (e não é o Lula), o negócio é sério, ele é bom mesmo. Os malas sempre vão falar que ele teve sorte por sempre ter à mão elencos ótimos, sendo campeão com Jordan, Pippen, Shaq, Kobe e Gasol. Bom, Jordan não foi campeão nos anos que passou sem Phil Jackson no Bulls. Shaq ganhou 3 títulos em 5 anos com Jackson e só um nos outros 13 anos de carreira, e a única vez que Kobe não foi para os playoffs foi no ano que o técnico tirou de férias. Phil Jackson é como o arremesso feio do Leandrinho, você acha que é sorte na primeira vez que acerta, na segunda também, mas na décima primeira você se convence que ele sabe o que está fazendo.

Phil Jackson, junto com Greg Popovich, são os treinadores que melhor sabem combinar tudo o que um treinador precisa ter para ser bem-sucedido. Ambos tem um sistema tático definido há muito tempo e sabem ensinar isso para os novos jogadores, os dois são bons em motivar e tirar o melhor do elenco que tem e também sabem fazer os pequenos ajustes dentro de um jogo quando as coisas não andam bem. Não dá pra pedir mais nada de um técnico.

A tática de Phil Jackson é o internacionalmente conhecido sistema de triângulos. A criação não é de Phil Jackson, ele aprendeu com seu assistente Tex Winter, que por sua vez aprendeu o sistema com seu antigo técnico Sam Barry. Mas foi com Jackson que ela foi consagrada, sendo usada em todos os 11 títulos vencidos pelo treinador.

O sistema é bem simples no fim das contas, é uma movimentação ofensiva em que os jogadores se adaptam ao que a defesa oferece, respondendo com os passes rápidos e cortes para os espaços vazios, sempre se movimentando em busca da formação de um triângulo que tenha um jogador no pivô e duas opções de passe para ele. Do outro lado da quadra os dois jogadores que sobram fazem o chamado “jogo de dupla”. Essa movimentação tem como objetivo abrir espaços na defesa adversária e o ataque responde sempre da maneira mais eficaz de acordo com o que lhe é oferecido. Por isso que sempre dizemos que jogador burro não funciona nesse sistema, precisa entender de basquete. Quem quiser mais detalhes do sistema de triângulos pode ver esse site que usa umas animações em flash.

Já na parte da motivação o Phil Jackson é gênio. Não é amigão e incentivador como Doc Rivers, mas mais um provocador. Sabe quando elogiar e quando criticar um jogador publicamente, sabe quando dar tapinha nas costas e quando dar um esporro. Ele também ficou famoso por distribuir livros para seus jogadores. Anualmente, geralmente antes de uma longa viagem para jogos fora de casa, ele compra livros e dá de presente para os jogadores. É um jeito sutil e inteligente de conhecer melhor os jogadores, passar uma mensagem para eles que não seja através de um discurso e também para se aproximar deles, afinal, é um presente.

No ano passado ele comprou “Montana 1948”, sobre uma família de classe média abalada por um escândalo nos anos 40 para Kobe Bryant, “2666”, um livro de quase 1.000 páginas sobre assassinatos não resolvidos no México para Pau Gasol e “Sacred Hoops”, um livro escrito pelo próprio Phil Jackson sobre o que ele acredita e prega dentro do basquete para Ron Artest.

O próprio Phil Jackson diz ter sido muito influenciado na sua vida por um livro, que, aliás, foi o que lhe rendeu o apelido de “Zen Master”. O livro tem o hilário título “Zen and the art of Motorcycle Maintenence” ou “Zen e a arte da manutenção de motocicletas”. Logo no começo do livro o autor explica que o título é uma brincadeira com o livro “Zen in the art of Archery” (Zen na arte do tiro com arco) e que na verdade não tem nem a ver com o Zen Budismo e nem com manutenção de motos. Na verdade conta a história do autor e da viagem que fez de moto de Minnesota até a California com o seu filho e as conversas entre os dois sobre, segundo a Wikipedia, epistemologia, filosofia da ciência e emotivismo ético, seja lá o que isso queira dizer.

O técnico também tem ficado conhecido nos últimos anos por seus problemas de saúde. Ele tem uma cadeira especial que leva a cada jogo fora de casa para suas dores nas costas e não assina mais contratos longos. Ao fim de cada temporada diz que precisa consultar seus médicos antes de se comprometer com um novo contrato. Por isso e por ser um chato com a imprensa já disse umas mil vezes que “essa é minha última temporada como técnico”. Se vencer mais um título nesse ano irá conseguir o seu quarto “three-peat”, o tri-campeonato consecutivo, sendo o primeiro e provavelmente o único em muito tempo a ter alcançado esse feito.

....

O Lakers não começou bem sua pré-temporada, perdendo para o Wolves e ontem para o Barcelona. Contra o Barça eles até tentaram ganhar no final, colocando os titulares em quadra, mas não foi o bastante e o JC Navarro é bom demais. Gasol não voltou bem do banco depois de muito tempo sentado e Kobe, ainda se recuperando de uma cirurgia no joelho, jogou mal e foi muito bem marcado por Pete Mickael. Achei legal um jogo entre o campeão da NBA e o da Euroliga, mas o jogo significou muito pouco e não foi disputado em alto nível por nenhuma das duas equipes.

O que podemos esperar do Lakers nessa temporada é mais do que vimos nos últimos dois anos, em especial na última temporada: Um time com algumas dificuldades nas bolas de três, com eventuais apagões mas que, sem ser perfeita, é a melhor equipe da NBA. Além disso tem um garrafão que, nesse ano, só pode ser superado pelo do Boston Celtics. Sempre ganhando nos rebotes, em especial nos ofensivos e com um ataque que flui bem, o Lakers é novamente o favorito.

O que será mais interessante de acompanhar na temporada regular são as novas contratações e os novatos. O Lakers contratou bem demais para um time que acabou de ser campeão. Já declarei nesse post o meu amor ao Steve Blake e acho que ele vai se adaptar muito bem ao Lakers. Não há necessidade de colocá-lo de titular já que o Derek Fisher ainda sabe jogar e é um líder, mas até para poupar o vovô para os playoffs (quando ele melhor joga, sempre) é importante ter Blake adaptado e jogando muitos minutos. O armador chegou nos ginásios do time algumas semanas antes dos demais para receber treinamento especial sobre o sistema ofensivo e quando o training camp começou de fato todos rasgaram elogios ao Blake, dizendo que ele aprendeu muito rápido e já está adaptado ao estilo de jogo antes mesmo da temporada começar.

Quando Kobe estava elogiando Steve Blake ele também fez menção ao Matt Barnes, dizendo que era um jogador esperto e que estava treinando bem também. A posição de Barnes é mais fácil de aprender que a do Blake e, pra falar a verdade, ele nem precisaria ser um gênio tático para se adaptar. Barnes foi contratado para defender e acertar bolas de três, se fizer isso está ótimo. Nessa semana foi divulgado pela NBA o "GM Survey", uma pesquisa anual feita entre os General Managers de cada equipe, e nela Kobe e Artest foram eleitos os melhores defensores de perímetro da liga. Barnes, portanto, nem era tão necessário, mas deixa o time ainda mais forte, com mais opções e oferece as bolas de três.

Como se não fosse o bastante, o Lakers ainda tem um promissor defensor no novato Devin Ebanks, que, já aviso, posso eventualmente chamar de Trevor Ariza. Eles tem as mesmas características de jogo, o mesmo tamanho, o mesmo físico, o mesmo arremesso feio. É um clone! Bom ir treinando o garoto para quando o Artest se aposentar. Nessa semana Ron Ron afirmou que esse atual contrato é o seu último na NBA. Quando ele acabar irá tentar uma carreira no futebol americano e depois no boxe. Na mesma entrevista disse que "O único jeito de parar Kevin Durant é sendo Ron Artest. Se você não for Artest, não tem chance".

No garrafão o Lakers conseguiu um senhor de idade e um pirralho gordo, mas, apesar do que parece, é uma coisa boa. O senhor é Theo Ratliff, que já teve seus bons tempos na liga há muito tempo, uns 10 anos atrás, quando tinha média de 4 tocos por jogo, mas ainda pode fazer um ou outro estrago defensivo jogando 5, 10 minutos por jogo. É uma versão menos desastrada e com menos força nominal do DJ Mbenga, digamos. O pirralho é Derrick Caracter, novato que se mostrou um ótimo reboteiro nas summer leagues, mas recebeu a exigência de perder peso para ganhar um contrato. Ele pode ser um Josh Powell que pode jogar de pivô, nada mal, vamos ver no que dá.

Essa ajuda, mesmo que discreta, é bem vinda porque Andrew Bynum está sempre machucado. Ele demorou para fazer sua cirurgia ao fim da temporada porque queria ter tempo de viajar para a África do Sul para assistir a Copa do Mundo. Nem ele e nem o Lakers imaginavam que no fim das contas a reabilitação demoraria tanto e ele correria o risco de voltar só no final de novembro ou no meio de dezembro. Mas apesar disso Phil Jackson não ficou bravo, disse que a viagem para ver a Copa era importante para o Bynum se recuperar de uma temporada estressante e que não se incomoda de ficar sem o pivô no começo da temporada, que o que importa é o que acontece em maio e junho. Ele tem razão, o Lakers sempre soube se virar sem Bynum na temporada regular, ele é importante contra outros garrafões fortes na pós-temporada. Pensando nisso até estão considerando usar o Bynum apenas por cerca de 24 minutos por jogo na temporada regular, como o Rockets pretende fazer com o Yao Ming.

Times campeões costumam relaxar, bi-campeões mais ainda, mas acho que o jogo 7 da final contra o Boston mostrou como é bom sempre decidir em casa. Espero um Lakers competitivo e interessado na maioria dos jogos da temporada regular.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O post do título


"I got Wheaties!"


O jogo 7 entre Lakers e Celtics parecia embaçado, difícil de ver, de tão pesado que era o clima dentro de quadra. Nervosismo e tensão não são coisas físicas, mas pareciam ter criado corpo durante o jogo de ontem. Nunca foi tão óbvio ver as emoções dos jogadores. Foi completamente diferente do último jogo 7 que a NBA tinha presenciado, a disputa entre San Antonio Spurs e Detroit Pistons em 2005. A atmosfera do jogo estava tão diferente que até a torcida do Lakers, geralmente blasé, com mais celebridades e ricos do que torcedores e que só pega no tranco, esteve ativa, barulhenta e vibrante desde o primeiro momento do primeiro quarto até o fim do jogo, quando explodiu com a conquista do 16º título da história da franquia.

Esse jogo embaçado, difícil de assistir, fez ele ser percebido de quatro maneiras diferentes:
1- Um jogo histórico e um dos mais tensos da história para os torcedores do Lakers
2- Um jogo histórico e traumático para os torcedores do Celtics
3- Um jogo roubado para os torcedores idiotas que não sabem perder do Celtics
4- Um jogo feio e com muitos erros para quem só estava lá pra ver um jogo de basquete

Eu, torcedor assumido do Lakers, me encaixo no primeiro grupo, mas entendo quase todos os outros. Derrotas assim são traumáticas e o jogo foi cheio de erros, não foi um espetáculo do basquete. Só não aceito dizer que foi roubado. Apesar de alguns erros (para os dois lados, diga-se de passagem), foi a melhor arbitragem desses 7 jogos da final.

A grande polêmica da arbitragem foi que o Lakers bateu 20 lances livres no último período, mas não é que o Lakers ganhava os arremessos toda vez que tentava infiltrar, mal se conseguia penetrar com duas defesas tão apertadas, mas é que o Celtics fez muitas faltas idiotas e já nos primeiros minutos do último período tinha ultrapassado o limite de faltas no período.

Assim até faltas tolas em rebotes viraram lances livres para o Lakers, simples assim. Posso listar várias faltas imbecis que custaram o jogo ao Celtics: o Kobe pegou um rebote de defesa e na queda o Rondo tentou roubar a bola dele, cometendo uma falta completamente imbecil. Em outro lance o Gasol tinha 1 segundo para fazer um arremesso difícil quando o Garnett pulou para o toco e caiu inteiro em cima do espanhol, falta clara que nem o próprio KG reclamou. Em outro momento a defesa inteira do Boston estava no lado esquerdo do Ray Allen, que marcava o Kobe individualmente, então ele dá o lado aberto para o Kobe, que infiltra e sofre uma falta clara do Paul Pierce para evitar a cesta. Após fazer uma boa marcação pressionada o Boston obriga o Gasol a sair driblando do campo de defesa, então Paul Pierce acha que é uma hora de cavar falta de ataque e se joga na frente do espanhol. Sem sucesso. Ele se moveu quando viu que o Gasol passava por ele e o Lakers ganhou mais dois lances livres.


Só nessa sucessão de lances que eu descrevi (e ainda tiveram outros tão idiotas quanto, muitos em rebotes) o Lakers ganhou 8 lances livres. Se o Celtics não tivesse ultrapassado o limite de faltas, teriam sido somente 2. Considerando os 32% de aproveitamento do Lakers nos arremessos, duvido que as jogadas que tiveram falta teriam acabado em cesta.

Já do outro lado o Lakers não deu pontos de graça para o Celtics, fez o time verde merecer cada cesta. Mas aí valeu uma das melhores performances defensivas da história recente do Lakers. Todos os jogadores marcaram muito bem e mesmo trocando a marcação a cada pick-and-roll, os grandalhões seguraram os armadores do Celtics. Nunca havia visto tanta dedicação defensiva do Lakers num jogo, em especial no último período. Também pesou o fato do Celtics ter tomado algumas decisões bastante questionáveis ofensivamente, nem sempre escolhendo o melhor arremesso. E às vezes custou para eles confiar muito nos arremessos e não tentar as infiltrações, partindo para dentro talvez desse para pelo menos arrancar uns lances livres.

Há alguns dias comentei das estatísticas de rebotes e afirmei que venceria os últimos dois jogos o time que vencesse a batalha dos rebotes, era o que essa série estava indicando. E foi assim, o Lakers ganhou com sobra os rebotes nos últimos dois jogos e levou o caneco. Mas no mesmo post eu tinha postado uma outra estatística interessante sobre a defesa do Celtics: Em 20 ocasiões durante a temporada e pós-temporada o Celtics havia segurado seu oponente a um aproveitamento abaixo dos 40% e em todos (TODOS!) os jogos os verdes ganharam. A exceção foi ontem, quando o Lakers venceu apesar de acertar apenas 32% de seus arremessos.


E o Lakers não compensou o aproveitamento baixo com muitas bolas de 3, acertou apenas ridículas 4 de 20 tentativas. Também não foi nenhum espetáculo na linha de lance livre, acertando só 67% das tentativas. Então como conseguiram o milagre de superar uma desvantagem que chegou a 13 pontos na metade do terceiro período? Além da defesa fora de série, foram 37 cobranças de arremessos livres. Mesmo com aproveitamento baixo, foram 25 pontos só nesse quesito. Em um jogo com placar tão baixo (83-79) faz toda a diferença. O Celtics cobrou apenas 17 lances livres (acertou 15) e teve 40% de aproveitamento dos arremessos.

Pode-se dizer, portanto, que no jogo mais nervoso da temporada o Lakers foi nervoso e precipitado no ataque durante boa parte do jogo, mas melhorando aos poucos e nunca nervoso demais na defesa. Já o Celtics foi nervoso e precipitado dos dois lados da quadra. Apenas no começo do terceiro quarto é que atacou com mais calma e paciência, explorando os bons jogos de Garnett e Rasheed Wallace no ataque. Nunca a batida frase "Ganhou quem errou menos" fez tanto sentido num jogo, e olha que eu queria morrer antes de usar essa frase aqui no Bola Presa.


Agora que falamos do jogo, que tal falar de atuações individuais? Há muito a se falar de muita gente nesse jogo 7. Vamos lá:

Kobe Bryant: Como torcedor do Lakers eu já enjoei de ver o Kobe jogar e sempre tenho mais medo do que confiança nele em jogos muito importantes. Não que ele seja ruim em momentos decisivos, longe disso, está mais perto de ser o melhor, mas é que sua cabeça pira antes desses jogos muito esperados. Ele é mortal quando começa os jogos caminhando, tranquilo e vai ficando com cara de assassino durante o decorrer da partida. Quando ele sabe da importância do jogo, tem o hábito de já começar o primeiro minuto de jogo hiper-ativo, assim se cansa mais rápido e, nervoso, toma más decisões durante a partida.

Claro que ele não é um dos melhores jogadores da história à toa, também deu pra enjoar de ver ele começar o jogo como um doido e depois conseguir colocar a cabeça no lugar e voltar a ser o jogador frio e matador que nos acostumamos a ver. Mas de qualquer jeito eu sempre fico com um pé atrás nesses jogos que ele quer vencer tanto, mas tanto, que acaba atrapalhando a si mesmo.

Ontem foi um caso desse e nas entrevistas pós-jogo ele mesmo admitiu que queria tanto vencer o jogo que isso acabou indo contra ele. Não foram poucas as vezes em que ele nem tentou executar uma jogada, apenas driblou em excesso até forçar um arremesso sem direção. Até o seu arremesso estava saindo mais reto e forte que o normal, ao contrário do mais arqueado e suave que ele costuma soltar.

Durante o jogo ele conseguiu colocar um pouco da cabeça no lugar, fez um segundo tempo um milhão de vezes melhor que o primeiro e mesmo fazendo uma das piores partidas de playoff que eu já vi ele fazer, foi decisivo. Quando ele viu que mesmo mais calmo os seus arremessos não estavam caindo, tratou de confiar mais em seus companheiros, passou um pouco mais a bola de lado e ficou buscando situações de infiltração para conseguir faltas. Além disso foi espetacular na defesa marcando Rondo, às vezes correndo atrás de Ray Allen e principalmente ganhando todos os rebotes. Foram 15 rebotes, 11 defensivos e 4 de ataque. Quando alguém ia imaginar 15 rebotes e um aproveitamento de só 6-24 arremessos do Kobe em um jogo assim? É como se o deus do basquete olhasse e pensasse "E se o Lakers tivesse o Ben Wallace ao invés do Kobe, será que eles ganhariam?". Ganharam

Tirando todas as tiradas já antológicas do Artest, o Kobe disse a melhor frase das entrevistas de ontem. Um repórter perguntou qual era o significado pessoal daquele título, ignorando a importância dele para o time. Kobe respondeu sem pensar por mais de um segundo: "Agora eu tenho um a mais que o Shaq". Clássico.

Ray Allen: O Ray Ray é Free Agent ao fim dessa temporada e existe uma grande discussão em Boston sobre se vale a pena ou não manter o veterano. E, se for manter, por qual salário? Ele não deve sair barato. Ao fim do primeiro tempo do jogo 2 da final, quando Ray já tinha 7 bolas de 3 convertidas no jogo, o comentarista e ex-técnico Jeff Van Gundy disse "Se eu fosse do Boston Celtics assinava um contrato novo com ele agora no vestiário". Será? No resto da série ele não conseguiu acertar mais a pontaria e ontem não foi exceção: acertou 3 de 14 arremessos. Se serve de prêmio de consolação, fez um bom trabalho defensivo em cima de Kobe Bryant em todos os jogos.

Pau Gasol: Não foi bem nos lances livres, teve aproveitamento baixo dos arremessos e não fez sua melhor partida na série. Mas quem ousa usar "Gasol" e "soft" na mesma frase de novo? Quando Kobe estava mal o ataque o Lakers confiou nele e ele respondeu sendo a principal arma ofensiva do Lakers no quarto período. E com 9 rebotes ofensivos (mais do que o Celtics inteiro) foi quem deu a maioria das segundas chances do Lakers pontuar. Kobe, ao receber o troféu de MVP das finais (merecido pelo conjunto da obra, não pelo jogo 7, claro) fez questão de agradecer ao espanhol por toda a ajuda.

Rasheed Wallace: Poderia ter sido o herói da noite de ontem. Entrou como titular no lugar de Kendrick Perkins e fez todo mundo voltar a se perguntar pela milésima vez: Rasheed, por que você tem fobia de garrafão quando é tão bom lá? Nunca saberemos. Pecou ao cometer muitas faltas bobas no último quarto, mas fez um bom jogo. Depois do jogo o Doc Rivers disse que acha que esse pode ter sido o último jogo da carreira do grande Sheed.

Lamar Odom: Não jogou bem durante quase toda a série, mas se redimiu com bons jogos 6 e 7. No jogo de ontem foi ele quem me deu esperança de que o Lakers poderia virar mesmo com o Kobe jogando mal. Ele ameaçou tocar para o Kobe numa jogada em que ele sempre passa para o Kobe, aí no meio do caminho desistiu, partiu para cima de Garnett e fez uma bandeja bem difícil. Foi a prova de que o Lakers estava afim de ganhar e não afim de esperar o Kobe ganhar pra eles.

Paul Pierce e Rajon Rondo: Mesmos comentários para os dois. Até que foram mais frios que o resto dos jogadores em quadra ontem, mas os dois também entraram na onda das faltas bobas no meio do quarto período quando era hora de tomar cuidado e não mandar o Lakers para a linha de lance livre. Os dois também tinham que ter liderado o ataque do time quando este estagnou em pontos. Foram bem, mas não o bastante.

E finalmente... Ron Artest: Contei essa história um tempo atrás e bastante gente lembrou dela ontem no Twitter. Em 2008, logo após o jogo 6 da final quando o Lakers perdeu para o Celtics, o Ron Artest, ainda jogador do Sacramento Kings, invadiu o vestiário do Lakers, foi até o Kobe e disse "Eu ainda vou te ajudar a ganhar um título". No ano seguinte ele acabou trocado para o Rockets, mas depois, finalmente, foi para o Lakers e cá está ele, campeão ao lado de Kobe e justamente contra o mesmo Celtics.

A atuação do Artest durante a série e durante todos os playoffs (para não dizer a temporada toda) foi bem irregular. Mas nos momentos decisivos ele estava sempre lá fazendo a coisa certa. Quando o Thunder complicou com o Lakers na primeira rodada ele estava lá para anular Kevin Durant, quando o Suns ameaçou na final do Oeste ele apareceu com a cesta decisiva no jogo 5 e trocentas bolas de 3 no jogo 6.

Na final foi a vez de marcar Paul Pierce como eu nunca tinha visto alguém defender. Foi bem durante toda a série, mas nesse jogo 7 foi especial, não desgrudou do ala do Celtics por um segundo e não deixou que ele desse um único arremesso fácil. Os pontos que ele fez foi por mais puro merecimento, porque o Artest estava lá com a mão na cara, roubando bolas, atrapalhando, sendo um pentelho. Posso dizer com certeza e sem nenhum exagero por torcer para o Lakers que foi uma das mais brilhantes atuações individuais na defesa que eu já vi na minha vida.

Só por isso ele já teria sido o melhor jogador em quadra. Mas calhou dele marcar 11 pontos só no segundo período, quando mais ninguém conseguia um pontinho sequer no Lakers. Depois ainda fez mais no terceiro quarto quando o Lakers começou a reação para cortar os 13 pontos de diferença e, para terminar, fez uma bola de 3 surreal (com direito a beijinhos para a torcida depois do acerto) como resposta a uma outra bola de 3 dificílima que o Rasheed Wallace tinha acabado de acerta no minuto final de jogo.

E como se não bastasse ser o melhor em quadra, foi o melhor fora dela também. Logo depois do jogo ele foi entrevistado pela repórter Doris Burke da ESPN e ao invés de responder às perguntas delas, abraçou-a e começou a agradecer pra todo mundo. A mulher, os filhos, a família, aos camaradas da quebrada e, a jóia da coroa, a sua psiquiatra! Que outro jogador da história da NBA seria capaz de agradecer à psiquiatra depois do título que não fosse o Ron Artest? Depois ainda anunciou que sua carreira de rapper continua, agora vai lançar uma música escrita há um ano chamada "Champion".


Mas era só o começo! Depois teve a entrevista coletiva, que começou com ele gritando e vibrando "Eu tenho Wheaties!", fazendo referência à caixa de cereais que estava sobre a bancada da entrevista. O Wheaties é um cereal matinal conhecido por ser "o café da manhã dos campeões" e por estampar sempre grandes atletas nas suas caixas.

Depois ele ameaçou ir embora porque as pessoas que estavam lá não pareciam animadas como ele. Aí chamou a família inteira para acompanhá-lo e apresentou todo mundo um por um, dedando, no caminho, os familiares que estavam felizes por ter acabado de conhecer o Kobe. Então ouviu a primeira pergunta, falou sem parar e disse "esqueci completamente qual era sua pergunta". E prosseguiu falando sobre qualquer coisa que viesse à sua cabeça.

Em um dos trechos mais legais da entrevista ele faz uma declaração de amor ao Jeff Foster! Sim, aquele pivô branquelo que pega muito rebote ofensivo no Pacers. Ele disse que aquele cara faz qualquer coisa pelo time. O Artest chegou no assunto quando disse que tinha sido muito egoísta e infantil no começo da sua carreira e tinha perdido uma grande oportunidade de ser campeão naquele time que tinha Jamaal Tinsley, Stephen Jackson, Jermaine O'Neal, Jeff Foster e o próprio Artest. Contou que se sente mal até hoje quando encontra os ex-companheiros porque acha que ele mesmo estragou a chance dos outros de ganhar um anel de campeão. Por isso não acreditava que teria outra chance e que não poderia desperdiçar a chance quando teve.

Assistam a uma das entrevistas mais fantásticas que você vai ver depois de um título. E, sem dúvida alguma, a mais maluca.


Qual foi a sua cena favorita? A minha foi no final quando ele comenta sua bola de três no final do jogo dizendo "O Kobe me passou a bola! Ele nunca me passa a bola. Uhu! Kobe me passou a bola". E completa com "Eu podia ouvir o Phil Jackson dizendo para eu não chutar. Ele é o Zen Master, ele fala no seu ouvido de longe, eu podia ouvir ele dizendo 'Ron, não chute, não chute'. Mas eu disse, tanto faz, arremessei e acertei".

Sasha Vujacic: Jogou 4 minutos e acertou dois lances livres decisivos. Você está na história, The Machine!

O resultado da promoção das Finais sai amanhã, sábado!