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sábado, 12 de março de 2011

O caso Chris Bosh

Garrafa invisível

No Toronto Raptors, Bosh sempre teve que jogar como pivô - e sempre deixou bem claro como isso lhe incomodava. Magro, leve, rápido, com bom quique de bola e arremesso de média distância consistente, queria receber a bola fora do garrafão e enfrentar seu marcador de frente para a cesta. O Raptors tentou de tudo para usar o Bosh como ala, chegou até a torrar uma escolha de draft com o Baby, baita cagada. Mas nunca foi o bastante para que o Bosh pudesse passar um jogo inteiro sem ter que jogar embaixo do aro. As lesões no seu pé ficavam cada vez mais graves, o Bosh reclamava cada vez mais do improviso, e assim que ele foi pro Heat chegaram as informações de que havia um comprometimento do time de usá-lo como ala. Genial, se ele fazia tanto estrago sendo improvisado numa posição em que não se sentia confortável, imagina o que faria na sua posição natural! Muita gente, incluindo o Bola Presa, apostou que o Bosh ganharia alguns jogos para o Heat sozinho e que poderia brilhar muito sem a atenção que seria dedicada a LeBron e Wade. Funhé.

Eis que o Bosh anda tendo dificuldades enormes no Heat, sua produção anda baixíssima, seu jogo baseia-se em arremessar de fora do garrafão e agora ele está reclamando que não recebe a bola perto o bastante do aro, que quer jogar de costas para a cesta. Ou seja, até ele percebeu que fede como ala e já tem torcedor do Heat falando em trocar o Bosh por uma Playboy da Mara Maravilha e ainda voltar o troco.

Quando o trio fodão formou-se no Heat, eu tinha certeza de que o Bosh era o que se daria melhor na situação. Não tinha aquele papo de "quem vai armar o jogo", ele era a única força no garrafão da equipe e iria ficar numa boa caso nunca recebesse a bola decisiva dos jogos ou não fosse tão assediado pela mídia. Esperava que o Bosh ficasse tranquilo, por baixo dos panos, vencendo jogos sem que a gente percebesse enquanto LeBron e Wade bateriam mais cabeça um com o outro. O que aconteceu foi justamente o contrário e mostra como as concepções que a maioria das pessoas tinham e ainda têm do Heat estão furadas. Uma série de preconceitos com a equipe evita que possamos ver os reais problemas acontecendo no time, então vamos analisar alguns deles e ver como se relacionam sempre com Chris Bosh:

1) O Heat não tem jogadas no ataque

O técnico Erik Spoelstra deu um jeito de deixar suas estrelas fazerem o que bem entenderem e não ter que decidir quem leva a bola, quem finaliza, quem chama a jogada: cada vez que o Heat tem sucesso na defesa e consegue um rebote ou intercepta uma bola, pode fazer o que quiser. Supostamente isso incentiva a defesa, o contra-ataque, evita duelo de egos e deixa o ataque mais espontâneo e orgânico. Como sabemos, isso também transforma o Heat numa máquina de fazer porra-louquice em que LeBron e Wade fazem o que bem entendem. Mas nas ocasiões em que a defesa toma uma cesta ou comete uma falta, o Heat precisa seguir as jogadas desenhadas pelo técnico. Por isso, o Heat está entre as 10 equipes com ritmo mais lento da NBA - algo muito diferente do que uma correria anarquista nos levaria a acreditar.

O time tem uma série de jogadas para liberar Wade e LeBron no perímetro, pick-and-rolls para infiltrações, pick-and-pops com Ilgauskas e Bosh, triângulos ofensivos iniciados de costas para a cesta. O arsenal é muito maior do que era no Cavs de LeBron e é uma preocupação constante do Spoelstra, que não quer de jeito nenhum que os pontos venham sempre da mesma maneira, os pick-and-rolls, porque assim apenas um jogador da dupla LeBron e Wade estaria envolvida de cada vez e o time estaria desperdiçando a capacidade de um deles.

Esse é o grande problema, muito mais difícil de resolver do que os odiadores do Heat parecem entender: como aproveitar as capacidades de LeBron e de Wade ao mesmo tempo? Fazer com que joguem em turnos, "agora vou eu, agora vai você", é jogar no lixo o talento de alguém por uma posse de bola. Toda vez que Wade ou LeBron são isolados em um canto da quadra, o outro fica parado assistindo. Spoelstra não quer aceitar isso, não quer abusar do pick-and-roll. De uns jogos pra cá, o número de jogadas diferentes chamadas no Heat subiu muito, inclusive com algumas jogadas vindas do Hawks junto com o Mike Bibby, e quem está chamando cada uma dessas jogadas não é LeBron ou Wade, mas Spoelstra em pessoa. Lá está ele, no banco, gritando jogada por jogada da equipe. O Heat não está à solta, é um time treinado e controlado. Só que quanto mais LeBron e Wade se entendem, quanto mais dizem na mídia que já sabem como cada um pensa e que estão honrados de jogar juntos, quanto mais fazem jogadas juntos (quando um faz corta-luz para o outro, por exemplo, o resultado é sempre fantástico), mais o Bosh está fora disso.

No esquema tático do Heat, o Bosh é usado como o Ilgauskas era no Cavs. Até aí tudo bem, o pick-and-pop funciona bem, o Bosh tem (quase sempre) um bom aproveitamento nos arremessos de média distância e ele libera espaço no garrafão para as infiltrações de LeBron e Wade. Mas quanto mais longe da cesta o Bosh fica, pior o time é em rebotes ofensivos (estão entre os 5 piores da liga, só o Mike Miller salva) e mais dificil é a vida dos arremessadores de três da equipe. No final dos jogos, as equipes adversárias estão congestionando o garrafão do Heat e forçando LeBron e Wade a arremessarem, enquanto o Bosh não é acionado e não está embaixo do aro para cavar faltas ou tentar o arremesso de maior chance de aproveitamento. O Heat tem jogadas, chama essas jogadas constantemente, mas o Bosh não se encaixa nelas. Passa a maior parte do seu tempo fazendo corta-luz, longe da cesta, sem ser uma ameaça real. Esse é um trabalho que qualquer jogador mais ou menos poderia fazer - e que era feito tão bem pelo Udonis Haslem no Heat dos últimos dois anos. Mas o Bosh pode fazer mais do que isso, desde que jogue debaixo do aro dando cabeçada com os pivôs como fazia no Raptors. Ou seja, o Heat tem jogadas sim - só não tem para o Bosh.

2) O time precisa de um armador, o LeBron é um ala

postei aqui antes: assim como nos enganamos achando que o Bosh era ala improvisado de pivô, e na verdade só rende de verdade debaixo da cesta, o LeBron também é um armador que pensamos ser ala e prefere jogar na armação. Jogou como armador no Cavs a maior parte de sua carreira sem ninguém perceber direito, e quando faz isso no Heat acham que falta um armador para a equipe? O problema não é a armação do LeBron, mas o que ela significa. Quando outro armador está em quadra com ele, como Mario Chalmers, antigamente o Arroyo, ou agora o Mike Bibby, eles passam a ser basicamente arremessadores. Isso porque o Heat precisa de arremessadores desesperadamente, e grande parte das últimas derrotas aconteceram porque o elenco de apoio, apesar de receber arremessos de três bastante livres, não tem conseguido converter. Mas Bibby e Chalmers são essencialmente armadores, então deixá-los apenas para o arremesso é perder algo enorme que eles podem contribuir para a equipe. Diversas vezes durante o jogo os dois acabam trazendo a bola e iniciando algumas jogadas, mas o que poderia ser diversificação acaba sendo bagunça. Se o Bibby inicia as jogadas com o LeBron, Wade fica de fora e lhe sobra apenas os arremessos livres de três - que definitivamente não são seu ponto forte. Como Bibby e Chalmers são melhores arremessadores, a movimentação ofensiva fica invertida. O problema do Heat não é que o LeBron arme o jogo, pelo contrário: o problema é que tanta gente diferente arme o jogo o tempo inteiro, com Wade, Chalmers e Bibby iniciando as jogadas. Isso tira as chances de um padrão ofensivo, dos jogadores se acostumarem com os locais de arremesso, do armador saber exatamente qual jogador acionar, e do armador assumir a responsabilidade de escolha das jogadas. É por isso que o Spoelstra tem que ficar lá na lateral chamando as jogadas quenem um panaca. Enquanto isso, com tantos armadores passando a bola uns para os outros, o Bosh é constantemente ignorado. As jogadas evitam isolações, que só acontecem quando Wade e LeBron fazem o que querem após um sucesso defensivo (ou no final dos jogos, em que a insistência nas isolações me intriga um bocado), mas o Bosh tinha que ser isolado no garrafão constantemente para que esse time funcione. Menos armadores, mais bola nas mãos do LeBron, e jogadas de isolação pro Bosh para abrir espaço pra todo mundo. LeBron depende de Wade, Wade depende de LeBron, mas o resto do elenco precisa muito que o Bosh faça algo embaixo do aro.

3) O ego de Wade e LeBron vai implodir a equipe

Os dois estão apaixonados um pelo outro em todas as entrevistas, então quem reclamou dizendo que quer a bola embaixo da cesta foi o Bosh! Essa eu nunca iria adivinhar! Reclamou que não existem jogadas para acioná-lo perto do aro, e o Spoelstra respondeu que o time inteiro precisa atacar o aro, não tem que ter jogada para o Bosh fazer isso. De todo modo, LeBron e Wade estão jogando bem juntos, cada vez mais acostumados um com o outro, e mostraram contra o Lakers como sabem distribuir a bola entre os dois (de novo, menos no final dos jogos em que apenas escolhem quem é que vai jogar sozinho). Bizarramente a maior chance dessa brincadeira implodir está no tranquilo Bosh, insatisfeito e mal aproveitado - e recebendo críticas de todos os lados de gente que alega que ele tem fobia de garrafão. Pois bem, ele está querendo voltar atrás, fingir que não fez manha sua carreira toda, e deixar essa fobia de lado. Se não der certo, aí é hora de se preocupar com o trio.

4) O Erik Spoelstra é um bunda e o Pat Riley vai assumir a qualquer momento

O Spoelstra tomou muitas decisões polêmicas, mas todas elas caminham na direção de construir um ataque equilibrado e um elenco voltado para a defesa. Pode não funcionar sempre, pode ter um trilhão de arestas, mas Spoelstra é um nerd que sabe perfeitamente o que está acontecendo, exige variação ofensiva dos jogadores (enquanto a maioria dos técnicos só diria "faça um pick-and-roll", o Mike Brown não foi técnico do ano com isso?) e montou uma defesa sensacional muito antes de LeBron e Bosh chegarem em Miami. Seu maior problema é apenas em não saber lidar com o Bosh. Ele quer um time que ataque o aro mas com o Bosh fora do garrafão para abrir esse espaço, quer o Bosh participativo mas sem receber a bola a não ser para arremessos de média distância, quer o Bosh defendendo mas ele jogar como ala lhe afasta dos rebotes defensivos e impede que use sua velocidade para defender na cobertura e interceptar passes para os pivôs. Ele está usando o Bosh como usava o Udonis Haslem, e continua fã do Joel Anthony como pivô por ele ser silencioso, obediente e dedicado. Spoelstra está tão obsessivo em aproveitar bem suas duas estrelas que está esquecendo aquilo que todos sabiam desde o começo: a chave das vitórias nos playoffs estará na terceira estrela que agora, nas suas mãos, sequer é uma estrela mais. Tem gente querendo trocar o Bosh pelo Samardo Samuels... resumindo, o Spoelstra só é um bunda porque insiste em não estabelecer um ataque que comece no garrafão e aí vá para fora, usando o Bosh.

5) O Heat afoga gatinhos em piscinas

Foi apenas uma vez e ao contrário do que dizem os boatos, o gatinho não estava dormindo. Eles não são assim tão malvados.

sábado, 29 de janeiro de 2011

A revolução será calculada

O que os números dizem sobre o desempenho de Kobe no último segundo?


Eu peço desculpas pela demora com um post nos últimos dias, nem estava tão ocupado assim, mas sempre que começava a escrever sobre esse assunto eu ficava meio inseguro e corria atrás de mais dados, mais informações e repensava o que eu mesmo tinha para escrever. No fim das contas foram dias preso no mesmo assunto. É sobre talvez o meu assunto favorito dentro do basquete e queria fazer um texto digno sobre o assunto, mesmo que isso custe uns dias de vocês entrando no blog só pra ver a mesma coisa.

O tema que eu tanto amo são as estatísticas. Sou perdidamente apaixonado por elas desde sempre, e me incomodava não existirem sobre o futebol, em especial o brasileiro. Passei um bom tempo desde a era da internet discada fuçando essa internet de meu deus atrás de estatísticas sobre futebol, vocês não sabem o quanto de pornografia barata eu passei nessa jornada! Mas é uma batalha em vão, as opções são poucas e limitadas. Engraçado saber que o Datafolha tem um link para estatísticas de esporte no seu site e os últimos dados são do Brasileirão de 2005. Mas o problema é que enquanto o público americano argumenta sobre MVPs e All-Stars com os números debaixo do braço para a discussão, o futebol é o esporte em que o atacante pode tocar na bola uma vez em todo o jogo e ser o herói, melhor jogador, ídolo e mito. No futebol até existe um prazer secreto em ver um time dominar o jogo em posse de bola, chutes a gol e mesmo assim perder o jogo, é o triunfo do imprevisível sobre o racional.

Mas eu sempre tentei não enxergar assim, os números não precisam ser sempre frios e eu acredito, ingenuamente, que o esporte, principalmente o basquete, pode ser medido por eles. Se eles parecem mentir é porque ainda não achamos o jeito certo de medir. O grande exemplo disso foi dado pelo Rob Mahoney, um blogueiro do New York Times e do blog Two Man Game sobre o Dallas Maverick, em um post recente sobre o Kendrick Perkins. Ele começa o texto citando outro blogueiro do NYT que chamou o Shane Battier de "No-Stats-All-Star". Isso porque o Shane Battier é um defensor preciso, chato, pentelho, técnico, mas que não transforma a sua defesa em roubos ou tocos, ele é capaz de ter sido um jogador decisivo no jogo e não ter nenhum número relevante no box score.

Para conseguir medir a eficiência do Battier então ele buscou as estatísticas de plus/minus (+/-) que medem o placar do jogo para o seu time enquanto certo jogador ou combinação de jogadores estão em quadra. Mas o plus/minus também tem seus defeitos, afinal um jogador nem sempre joga nas melhores situações. Um jogador pode só estar em quadra com companheiros de time ruins ou contra os melhores do outro time, enquanto outros só enfrentam os reservas dos adversários. Pensando nisso foi criado o "Adjusted plus/minus", a conta para explicar o valor é muito maluca e vários analistas nem tentam, fica para a próxima, mas o objetivo é corrigir o plus/minus original de acordo com a situação em que cada jogador atua. Nesse ranking o Shane Battier se destaca absurdamente e figura entre os nomes famosos e de destaque da NBA. Outro número buscado para explicar a produtividade do ala do Rockets foi medir a produtividade dos jogadores marcados por ele e o resultado é que todo mundo que o enfrenta fica abaixo da sua média de eficiência. Finalmente, depois de anos sendo o "No-Stat-All-Star", Shane Battier poderia contar em números como era bom.

A revolução estatística no basquete americano nasceu com o beisebol. Primeiro nos anos 60 com o livro "Percentage Baseball" de Earnshaw Cook, mas só ganhou atenção popular no final dos anos 70 com Bill James, que ao invés de analisar o beisebol como todos os outros de sua época, cheio de romantismo e mística, ao invés disso levantava questões como "Que arremessador sofre mais roubos de base?". A princípio muitos jornais não gostaram da abordagem dele, achando que não interessava ao público, o que lhe fez lançar seus dados em um livro por uma editora pequena, era o  "The Bell James Baseball Abstract" em que analisava o ano anterior do baseball baseado somente nos números. Aos poucos outros membros da imprensa abraçaram a idéia e a cultura da estatística avançada começou a florescer.

No começo dos anos 80 a evolução do beisebol nas estatística chamou a atenção do basquete, em especial de jovens universitários, em especial Dean Oliver e Daryl Morey. Anos depois, Oliver foi o responsável pela criação do fórum APBR Metrics, o grande centro de discussões sobre estatísticas avançadas no basquete em toda a internet. Em 2003 Oliver lançou o livro "Basketball on Paper" que até hoje guia todos os que procuram entender o basquete pelos números, suas contribuições para o basquete renderam para ele um emprego como consultor no Seattle Supersonics e depois no Denver Nuggets, onde trabalha até hoje. Em 2003 também foi lançado o livro "Moneyball: A arte de vencer um jogo injusto", a segunda revolução estatística no beisebol. O livro de Michael Lewis mostrava como o General Manager do Oakland A's usava estatísticas nunca antes consideradas em um jogo de beisebol para conseguir contornar a dificuldade que era comandar um time com recursos bem mais escassos que os gigantes da MLB. Esse livro foi uma das grandes inspirações de Daryl Morey, formado em ciências da computação com ênfase em estatísticas e que trabalhou como assistente de estatísticas para o Celtics antes de virar o General Manager do Houston Rockets.

Esses são apenas dois exemplos de uma tendência crescente na NBA, a de respeito às estatísticas. Até o criador do site Basketball-Reference.com, Justin Kubatko, o maior banco de dados sobre estatísticas da NBA na internet, tem sua vaga dentro da liga como consultor do Portland Trail Blazers, que, por sinal, tem como General Manager o engenheiro com forte formação matemática Rich Cho.

Os números no beisebol são mais fáceis de medir porque não existe muita interação entre os jogadores como no basquete, é mais fácil para eles medir o que é uma ação individual e avaliar o jogador em separado do seu time. No basquete a porcentagem dos arremessos é influenciada pela qualidade dos passes que se recebe, da ameaça que seus companheiros são para a defesa adversária e muitas outras coisas. Tem também a questão das assistências, afinal quantos bons passes não entram para a estatística por causa de um arremesso torto ou uma bandeja parada por falta? Ou mesmo nos rebotes, um jogador pode pegar vários por jogo, mas será que ele pega aqueles mais difíceis, com três ou quatro jogadores batalhando pela bola?  Pouco a pouco é o que as novas estatísticas tentam responder.

Assim como a matemática avançada, quanto mais a fundo se vai para as respostas, menos precisas elas ficam, embora isso perturbe quem busca os números atrás dessa precisão. Elementos como a eficiência, adjusted plus/minus e porcentagem de rebotes estão mais para estimativas do que para certezas concretas, mas são elas que guiam a mente de todos os citados acima. A porcentagem de rebotes é uma conta que diz quantos por cento dos rebotes de uma equipe são pegos por aquele jogador, o atual líder da NBA é Kevin Love com 23.5%, seguido de muito muito perto por Marcus Camby, ou seja, é uma estatística apoiada pela média de rebotes por jogo. Mas a de porcentagem de roubos, por exemplo, mostra Tony Allen liderando com folga! Na frente dos consagrados Chris Paul e Rajon Rondo. Alguns poderiam argumentar que a média por 36 ou 48 minutos corrigiria isso, mas igualar o número de minutos jogados não considera que times jogam em velocidades diferentes e, logo, têm mais ou menos oportnuidades de roubar bolas, arremessar, pegar rebotes, etc.

Possivelmente a maior contribuição de Dean Oliver para o basquete foi a contagem do jogo de basquete pelas posses de bola. Afinal, é mais fácil ter a maior média de pontos por jogo se você joga em extrema velocidade e tem 110 posses de bola por jogo, certamente fará mais pontos do que um time que joga com cuidado e acaba tendo 90 posses de bola, o que não quer dizer que é um ataque mais eficiente. O mesmo vale para a defesa. A questão da posse de bola é também uma das diferenças entre a contagem de eficiência feita apenas somando e subtraindo estatísticas e o famoso PER, criado pelo analista John Hollinger e que, apesar dele mesmo admitir que prejudica jogadores com qualidades defensivas como Shane Battier, é o melhor jeito de analisar com um número único os jogadores mais eficientes da liga. Mas não esqueçam, como diz Oliver no seu livro: "Não tenha esperanças em um sistema definitivo para medir o talento dos jogadores. Isso não existe. Mas existe muito valor nas tentativas". Eu falo mais sobre o PER e sua fórmula nessa coluna de alguns anos atrás.

Mas bom, eu tinha comentado no começo do texto que o post no blog do New York Times era para explicar como o Kendrick Perkins era bom na defesa, não só Shane Battier. Acontece que tudo o que usaram para provar que o ala do Rockets era um bom defensor não funcionava com o Perkins. Como era possível que todos estivessem vendo que ele era uma das pedras fundamentais da melhor defesa da NBA (segundo todas as estatísticas) e os números não mostravam nada? O seu adjusted plus/minus foi um dos piores da NBA na temporada passada mesmo sendo onde os jogadores com as suas características brilhavam. E medindo o valor dos pivôs que jogam contra ele, a eficiência dos adversários continuava na média contra Perkins, com poucas exceções. E é nessa hora que devemos ou jogar os números fora e acreditar nos nossos instintos, ou renegar os instintos e criticar Perkins pelos números. Ou, como fez Mahoney, ir cada vez mais fundo para achar um número que pareça dizer a verdade. Ele usou os números fornecidos pelo genial (e ainda fechado para o público nessa temporada) Synergy Sports e percebeu que nos arremessos próximos ao aro, quando os jogadores recebem próximos a cesta, Perkins permite apenas 0.7 pontos por posse de bola, uma das melhores marcas de toda a NBA, e isso acertando apenas 38% dos arremessos, um número dominante se considerarmos o quanto estão perto da cesta. Por fim, o Perk comete faltas em apenas 6% dessas situações. Em outras palavras, Perkins não tem os melhores números porque enfrenta muitos dos "novos pivôs", caras como Andrew Bynum, Andrew Bogut ou até os famosos alas de força improvisados, como Amar'e Stoudemire ou Pau Gasol, jogadores que tem um bom jogo de meia distância e sabem causar impacto mais longe da cesta. Aí quando enfrenta jogadores que querem se impôr embaixo da cesta, como Dwight Howard, Perkins garante a sua reputação como um dos grandes defensores da NBA.

Como bem descrito no texto do NYT, Shane Battier é um jogador que se destaca quando nos afastamos e vemos o jogo num nível geral, enquanto Perkins se destaca quando vemos o jogo em um "micro level". Pode parecer confuso, talvez até uma sacanagem, sempre buscando números atrás de números até achar um que beneficie ou prejudique o jogador. Mas não é algo que precisa ser visto da perspectiva do bom e ruim, as estatísticas não estão aqui para serem usadas para provar quem é melhor que quem (algo desnecessário e, como defendemos fortemente aqui, só diminui o basquete a algo simplista). O número mostra que o Perkins é bom naquele tipo específico de defesa e ponto, é isso.

A acusação de manipulação dos números surgiu nos últimos dias com um polêmico post de Henry Abbott no blog True Hoop, "A verdade sobre Kobe Bryant nos momentos decisivos". Nessa análise ele não usa nenhum número muito avançado, mas inova por ir atrás dos números em uma área em que costumamos ser guiados apenas pelos nossos instintos. Quando o Lakers perdeu um jogo em uma air ball de três pontos do Lamar Odom anos e anos atrás contra o Pistons, eu lembro de ter xingado por horas dizendo "Por que não deram a bola para o Kobe?". Milhares de outros fizeram um questionamento parecido quando LeBron James passou a última bola do jogo, o da vitória, contra o mesmo Pistons em um jogo de playoff, para o arremesso de três de ninguém mais ninguém menos que Donnyell Marshall. A chuva de críticas continha coisas como "Uma estrela como LeBron James deve chamar a responsabilidade em uma hora como essa". É natural, queremos o que consideramos o melhor jogador para decidir, é algo até da cultura americana que valoriza tanto o "franchise player", se é o time do LeBron é ele quem deve ganhar e perder pelo time.

O artigo de Abbott lembra a pesquisa feita com os 30 General Managers da NBA (incluindo todos os nerds como Cho e Morey) em que 77% responderam que se tivessem todos os jogadores da NBA para escolher para um arremesso final, escolheriam Kobe. Mas analisando os dados de todos os jogos da NBA desde 1996-97 até hoje, em momentos com 24 segundos ou menos e jogos empatados ou perdendo por até dois pontos, Kobe tem apenas 31% de aproveitamento nesses arremessos decisivos. É apenas o 25º melhor entre os com 30 tentativas ou mais. O líder, disparado, é Carmelo Anthony com 47%. Sem querer puxar sardinha para o nosso lado, mas um estudo muito parecido foi públicado pela gente quando tínhamos uma coluna sobre estatística no BasketBrasil. O texto pode ser lido aqui e contém o seguinte trecho:

"'Kobe Bryant é o melhor jogador para dar o último arremesso'
Falso. Segundo os dados coletados pelo 82games.com, Kobe Bryant é apenas o quarto jogador que mais acertou bolas decisivas e é o que mais bolas errou nas últimas 5 temporadas.


Kobe acertou 14 arremessos vencedores e errou 56, um aproveitamento de 25% das tentativas. Também acertou 12 de 15 lances livres, deu apenas uma assistência e cometeu 5 desperdícios. Podemos dizer que o padrão é Kobe não passar a bola na posse de bola final, arremessar por conta própria e acertar uma a cada quatro."

No mesmo texto mostramos como Carmelo Anthony era o mais decisivo desde aquela época e como jogadores com fama de amarelões como Dirk Nowitzki e Peja Stojakovic eram na verdade acima da média. Enquanto isso Chauncey Billups, o famoso "Mr. Big Shot", tem um aproveitamento terrível. O que é bem curioso é que os nomes e os aproveitamentos não são muito diferentes quando analisados não só a posse de bola final mas também os últimos cinco minutos de um jogo apertado.

A acusação feita por muitos admiradores do Kobe é que essa é uma das formas de manipular os números contra um jogador, que as estatísticas não poderiam ser ousadas a ponto de contrariar toda a maioria de torcedores, jogadores, General Managers e até de alienígenas que acham Kobe o maioral. Mas a verdade é que o Kobe interpreta ao máximo a teoria do "O time é meu e eu decido" e o final dos jogos é com ele. Contando só os números dessa temporada, por exemplo, Kobe é líder absoluto em arremessos tentados nos últimos 5 minutos de jogos decididos por poucos pontos. São 34.7 arremessos tentados a cada 48 minutos do chamado "crunch time", perto dele somente Derrick Rose e Carmelo Anthony, mas com a diferença que Kobe tem 38% de aproveitamento, enquanto Rose tem 39% e Melo impressionantes 45%.

Ou seja, não é exagero. O Kobe acha que a responsabilidade nos finais do jogo é só dele e ele só passa a bola se realmente for a última opção, mas logo pedindo a bola de volta. Mas sejamos sinceros, nos últimos três playoffs em muitas vezes ele soltou a bola, mais do que é normal para ele. Foi assim com aqueles pick-and-rolls no alto da quadra com Pau Gasol e Lamar Odom e os passes que ele deu para Derek Fisher e Ron Artest meterem bolas decisivas de três pontos. Decisões importantes, inteligentes e que renderam títulos, mas raras, não há como negar. Podem argumentar que o Kobe tenta arremessos mais difíceis que os outros, mas isso só acontece porque o adversário sabe que ele só passa a bola em último caso. Não queremos que Kobe perca a sua magia por causa de meia dúzia de números, mas quando se analisa estatísticas dessa maneira você deve estar aberto a engolir coisas que até pouco tempo atrás pareciam verdades absolutas.

Eu dou um exemplo que aconteceu comigo e é bem recente. Vocês devem se lembrar desse meu post analisando o San Antonio Spurs, certo? Eu disse que o Spurs estava se enganando, mas enganaram a mim também. Um dos meus argumentos para explicar a mudança do Spurs em relação aos últimos anos era a velocidade com que eles jogavam, e sustentei a teoria com o número de posses de bola que eles tem por jogo, um dos maiores da NBA. Mas alguns problemas aparecem, como uma jogada com vários rebotes ofensivos conta como uma grande e longa posse de bola. Turnovers também criam mais posses e nem sempre estão ligados a velocidade dos times. Surgiu uma nova maneira de medir a velocidade com que os times jogam e elas desmentem o que eu disse. Rohan Cruffy do SBNation.com (e não da seleção holandesa de 74) criou um método em que se mede a velocidade dos ataques da NBA de acordo com o tempo que eles gastam para efetuar cada posse de bola. Nessa medida os times mais rápidos continuam sendo os mais rápidos se em comparação com os de número de posses de bola por jogo: Nuggets, Knicks, Warrirors e Suns. Mas o Spurs, para a minha surpresa, despenca na tabela.

O time de Tim Duncan é o 13º mais veloz em posses de bola (chegou a ser o 8º mais veloz no início da temporada) e é o 19º se contando o tempo do relógio. E a razão é simples, quando se mede o tempo de arremesso do adversário o Spurs é, sei lá diabos porquê, o time que sofre os arremessos mais rápidos em toda a NBA. Os times que enfrentam o Spurs ao invés de trabalhar a bola partem pra cima e sempre aceleram o jogo, arremessando cedo, causando uma inflação no número de posses de bola por jogo. Sim, o Spurs tem um pouco mais de pontos por contra-ataque por jogo e está usando mais os seus jogadores velozes, mas eles não são um time que joga em um ritmo tão veloz como eu supunha.

O curioso é que isso não parece ter relação com a qualidade da defesa também. Times bons na defesa como o Hornets, Magic, Bulls e Bucks forçam seus adversários a arremessos depois de muito tempo no relógio. Mas outras boas defesas como Lakers, Heat e Celtics forçam arremessos velozes, não parece existir um padrão. Ou, claro, a gente que não ainda não soube analisar os dados direito.

Portanto, precisamos ter a cabeça aberta para admitir que algumas coisas nos enganam. Ver o Spurs tentando puxar mais contra-ataques do que o normal e ter a confirmação numérica dos placares altos e das posses de bola excessivas me fez cometer o erro de ver um Spurs excessivamente rápido, quando na verdade são os adversários deles que impõe essa velocidade. Se para alguns fãs é difícil admitir a derrota para os números, imagine para os jogadores. Esse é o desafio de outro nerd do basquete atual, Erik Spoelstra, treinador do Miami Heat.

Ele foi chamado pelo Pat Riley há mais de 10 anos para buscar novos dados estatísticos para ajudar o Miami Heat a evoluir nesse nicho crescente dentro do basquete. Então Spoelstra chamou um desenvolvedor de software só para o time, Shmuel Einstein. Nas palavras de Spoelstra: "Achei que seria uma boa chamar um cara com o sobrenome Einstein". Juntos eles desenvolveram novas maneiras de analisar o jogo, especialmente separando diferentes tipos de jogadas e analisando a sua eficiência, o sistema é complexo ao ponto de que cada posse de bola defensiva é analisada sob a perspectiva de 54 diferentes critérios, "É um trabalho entediante", admite o técnico.

Assim que o Spoelstra descobriu que teria o árduo trabalho de treinar LeBron, Wade e Bosh ao mesmo tempo, começou a se debruçar sobre toneladas de vídeo do seu Heat, além de Cavs e Raptors. Afinal, como esses jogadores eram mais eficientes e em que jogadas mais se destacavam? A análise foi feita e mesmo assim o tempo para treinar foi pouco e o começo de temporada foi desastroso, especialmente no ataque. O que chamava mais a atenção era como o time tinha números péssimos com LeBron e Wade ao mesmo tempo em quadra. Foi quando Spoelstra chamou todos, disse que os dois não estavam funcionando juntos e afirmou que eles deveriam aprender a jogar juntos, afinal não ia colocar ninguém no banco. Para mostrar o que esperava deles apresentou um gráfico de pizza dividido com todas as maneiras que eles deveriam pontuar: duas ou três enterradas ou bandejas em contra-ataques, algumas cestas cortando em direção à cesta, dois arremessos de longe, duas jogadas de costas pra cesta e assim por diante. Se realizassem tudo isso teriam a liberdade de jogar no high pick-and-roll (com o corta-luz na linha dos três) no final de cada período, situação em que os três mais se destacavam em seus antigos times.

Segundo Spoelstra não são todos os jogadores que sabem lidar assim com os números, então sempre o melhor jeito é mastigar o máximo possível. Segundo ele só 5% de tudo o que eles calculam chega aos jogadores e muitas vezes assim, em gráficos desenhados e fáceis de entender. A experiência com o Heat tem dado certo, nos últimos jogos os gráficos de como cada jogador marca têm mudado para mais perto do ideal pensado por Spoelstra, segundo ele principalmente com Wade, que marca seus pontos das maneiras mais variadas possíveis, como ele havia proposto.

O que podemos tirar disso tudo é que a revolução estatística já chegou na NBA e só cresce. Mas por enquanto ainda é um território dividido, longe da certeza absoluta que o tema a princípio propõe. General Managers, jogadores e mesmo (ou principalmente) os torcedores estão pensando duas vezes em aceitar a revolução. Eu diria, até, que cerca de 65,7% dos torcedores casuais da NBA consideram as estatísticas avançadas uma bobagem. Mas é só uma estimativa.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Resto do peru - A rodada do Natal

Essa alegria contagia, parem!


A rodada de Natal foi marcada mais pelos comentários sobre ter que jogar no Natal do que pela real qualidade dos jogos. Fechando o assunto de ter que jogar no feriado eu só preciso registrar aqui o que o Stan Van Gundy disse antes da partida contra o Celtics. Lembra que ele tinha sido multado no ano passado por comentários contra os jogos de Natal e que nesse ano não pretendia fazer o mesmo? Pois ele não resistiu e para fugir da multa apelou para a sempre saborosa ironia: "Eu acho que a NBA é tão importante para o Natal que precisamos aumentar o número de jogos de 5 para 10. E precisamos que eles comecem assim que der meia-noite na véspera de Natal, assim não teremos um minuto de Natal sem um jogo na TV. A NBA é o Natal". Como o Shaq conseguiu se desentender com esse cara? Era porque ele tinha piadas melhores?

O primeiro jogo do dia foi um divertido e desastrado Knicks-Bulls, que valeu por algumas jogadas lindas do Derrick Rose e pela emoção, mas foi um desengonçado jogo que quase somou 50 turnovers entre as duas equipes! Foi legal para o Knicks ganhar um jogo contra um time forte tendo como destaque a defesa no fim do jogo, mas muito foi culpa do Bulls que fez um último quarto péssimo no ataque, passando mais da metade dele sem marcar um ponto sequer enquanto assistia Kurt Thomas e Omer Asik fazendo falta atrás de falta no Amar'e Stoudemire. Como bem disse o cara do blog ShamSports, um torcedor fanático do Bulls: "O Bulls sentiu falta essa noite de bom passe, um segundo jogador para segurar a bola além do Rose, defesa, energia e alguém para marcar o Amar'e. Joakim Noah faz tudo isso". Eu concordo.

O segundo jogo não foi muito bonito também, mas impressionante. Dwight Howard não se encontrou no ataque, Jason Richardson e Gilbert Arenas foram quase nulos, a defesa do Celtics fez o nunca treinado ataque do Magic parecer um time de pelada e mesmo assim o Magic venceu. Eu vi todos os minutos do jogo e ainda não entendi. Simplesmente eles conseguiram na defesa manter o placar apertado e no final contaram com Jameer Nelson e JJ Redick acertando bolas decisivas. Vou falar mais do Magic daqui um tempo quando eles tiverem o mínimo de um padrão de jogo, mas quando você vence Spurs e Celtics em sequência sem nunca ter treinado junto e jogando feio é porque a coisa está boa pro seu lado.

Mas o jogo mais esperado da noite era mesmo Lakers e Heat. O Lakers está no terceiro lugar do Oeste, mas depois de perder por quase 20 pontos em casa para o Bucks (sem contar o vareio que levaram do Earl Boykins) está começando a assustar os torcedores, já o Heat está destruindo quase todo mundo e o 'quase' machuca porque as derrotas são justamente para os grandes concorrentes como Magic, Celtics e Mavs. No fim das contas o Lakers conseguiu manter o ritmo e tomar outra surra em casa e o Heat passeou com muita facilidade e em um dos melhores jogos do Chris Bosh no Heat, venceram por 16.

Como eu sempre defendo aqui no blog, vitórias elásticas nunca são só mérito de um time e nunca só desgraça do perdedor. Em uma liga forte como a NBA tem que acontecer as duas coisas para um time vencer bocejando como foi o caso desse jogo. O Lakers entrou em quadra com um plano defensivo bem claro, era fechar o garrafão e dobrar a marcação sempre que necessário em Dwyane Wade e LeBron James para tirar a bola das mãos deles. A estratégia não é novidade para o Miami, que mesmo tendo dois dos melhores (senão os dois melhores) jogadores em infiltração da NBA é o último colocado da liga em arremessos tentados próximos à cesta, bandejas ou enterradas, com 16 por jogo, 10 a menos que os líderes Denver e Chicago.

No começo da temporada a resposta do Miami para essa estratégia era continuar insistindo em infiltrar, o que gerava toneladas de erros, ou em arremessar bolas de três, o que causava estranhas estatísticas como ver James Jones e Eddie House arremessando mais vezes que o Chris Bosh ou decidindo bolas importantes ao invés de Wade e LeBron. Com o passar do tempo a estratégia mudou e eles decidiram arremessar longas bolas de dois. Embora ao redor da NBA os tenebrosos long-2s sejam considerados (com apoio estatístico) os arremessos com menor porcentagem de acerto no basquete, eles se encaixam bem nesse caso do Miami. LeBron, Wade e Bosh são melhores nesse tipo de arremesso do que quando tentam se aventurar na linha dos três pontos, assim como Udonis Haslem, Zydrunas Ilgauskas e Carlos Arroyo. Então se a defesa não abre eles arremessam longas bolas de dois e os times que não querem tomar um show de enterradas pagam pra ver.

O Dallas Mavericks pagou pra ver e viu o LeBron passar boa parte do jogo zerado, o Lakers pagou e viu todo mundo meter um arremesso atrás do outro. O LA só no segundo tempo assumiu que a estratégia não estava dando certo e passou a pressionar mais a bola, mas aí o resultado foi uma embaraçosa lição de como não defender um pick-and-roll. Com cortas simples, LeBron, Wade e principalmente Bosh puderam atacar a cesta e marcar os pontos perto do aro que o Phil Jackson tentou evitar no primeiro tempo. Segundo a ESPN.com o Heat fez um terço dos seus pontos em jogadas de pick-and-roll sem cometer nenhum turnover nessas tentativas. Foi um ótimo exemplo do cobertor curto que pode ser enfrentar o Miami Heat quando os seus arremessos de média e longa distância estão caindo. Detalhe que o Lakers apanhou desse jeito mesmo conseguindo outro sucesso defensivo, segurar o Heat a apenas 4 pontos de contra-ataque em toda partida.

No começo da sequência de vitórias do Miami Heat foi divulgado pelos jogadores (e visto por quem assistiu aos jogos) que o técnico Erik Spoelstra resolveu ir pelo caminho mais fácil, ele treinou incansavelmente a defesa e no ataque deu liberdade para LeBron e Wade correrem, era contra-ataque por merecimento: Se um dos dois conseguisse um roubo de bola, toco ou rebote tinha autorização para correr e improvisar. Isso fez o time se empenhar mais na defesa e rendeu pontos fáceis no ataque, tudo para não ficar naquela estagnação ofensiva que eles tinham nas primeiras semanas.

Outro fator importante para a melhora do Heat foram as duas mudanças no elenco, Zydrunas Ilgauskas e Mario Chalmers ganharam muito mais tempo de quadra. O Big Z não é rápido na defesa, mas o trio formado por Wade, LeBron e o ótimo defensor Chalmers faz com que o o pivô lituano não precise lidar muito com armadores rápidos e jovens batendo para cima dele. E no ataque o Chalmers está acertando os arremessos que Arroyo não conseguia e Ilgauskas é um dos que tiram proveito da tática que os outros times usam de forçar o Miami a ganhar os jogos com os chutes de longe. Volta e meia eles ainda tem momentos péssimos e os passes voando no meio do nada em direção à arquibancada ainda estão lá, mas aos poucos o Heat está descobrindo como usar os talentos que cada jogador levou para South Beach. Mesmo com todas as dificuldades desse começo eles já tem, no ranking de pontos por 100 posses de bola, o sexto melhor ataque e segunda melhor defesa da NBA.

Mas chega de elogiar o time mais odiado da NBA, afinal quem aqui quer ver eles terem sucesso? Ninguém! Vamos falar do Lakers e tentar entender porque eles estão jogando tão mal. Mas antes de eu tentar me arriscar acho que o Kobe tem mais moral e entende mais o que acontece lá dentro. Tá aqui o que ele disse depois do jogo contra o Miami Heat:

"Nossa filosofia é que temos que estar todos na mesma página, nós somos tão fortes quanto o mais fraco no nosso time. Temos que nos juntar e seguir lutando, estamos jogando como quem já tem dois anéis de campeão. Não vai ser fácil, se fosse veríamos muitas equipes vencendo três vezes seguidas. Para conseguir você precisar trabalhar e ralar demais. (...) O jogo é a parte mais importante, você precisa se concentrar e jogar todos como se fossem o último, o negócio é sério. Você não pode ganhar dois títulos e ficar satisfeito com isso. Eu não estou e não vou deixar as coisas ficarem assim". 

Outro que estava nos dois últimos títulos, Lamar Odom, concorda e deu uma declaração bem sincera: "Parte do nosso problema é que estamos muito convencidos e achando que não vamos e nem deveríamos perder. Acho que nessa temporada estamos com excesso de confiança e foi assim que começamos, desde o período de treinos". 

Isso explica basicamente porque o Lakers tem perdido. Contra times fracos o time é preguiçoso, contra os mais fortes parece que acha que o resultado virá naturalmente, aí acaba fazendo tudo do jeito mais simples e quando não dá certo simplesmente ficam nervosos ou com cara de bunda ao invés de ralar para mudar as coisas. E eles não podem se dar ao luxo de fazer isso.

Essa equipe do Lakers é provavelmente a menos dominante a ter vencido três vezes seguidas o Oeste e a menos espetacular a ter sido bi-campeã em muito tempo. E isso é um grande elogio ao espírito de luta e de superação desses jogadores. Acompanhamos essas temporadas de perto e não só escrevemos aqui como lemos ao redor da internet muita gente apontando vários defeitos do time nessas últimas temporadas. Era sempre uma das melhores, mas faltava defesa, depois um armador, depois jogadores explosivos, banco de reservas, arremessadores de três, etc, etc. O segredo foi que o time sempre jogou bem quando precisava. No ano passado estava tomando sufoco do OKC Thunder e do Phoenix Suns nos playoffs e chegou a empatar as duas séries em 2 a 2 antes de jogar com o coração no jogo 5 e dar uma aula de basquete no jogo 6. Foi exatamente a mesma coisa que aconteceu na final do Oeste de 2009 contra o Nuggets, durante boa parte da série parecia que o Denver tinha o melhor time, mas aí o Lakers venceu o jogo 5 com uma atuação heróica do Lamar Odom e o jogo 6 foi possivelmente o melhor do Lakers desde o saída do Shaquille O'Neal em 2004. Na final contra o Orlando Magic, Trevor Ariza e Odom resolveram aprender a arremessar de três, contra o Celtics foi Ron Artest que salvou o time no jogo 7. Defeitos do time que foram superados quando a água bateu na bunda.

Foi por isso que eu achava que esse jogo contra o Miami Heat seria diferente. Sim, o Lakers estava com problemas, mas sempre esteve e conseguia superá-los nos jogos importantes e nesse Natal, um jogo para mostrar quem ainda manda na NBA, jogou como time pequeno e foi dominado como se fosse um Grizzlies da vida. Mostrou as mesmas deficiências dos jogos anteriores, como falta de movimentação, excesso de jogadas individuais, baixo aproveitamento dos arremessos de três e um banco de reservas que nem parece o mesmo grupo de jogadores que estava ganhando jogos por conta própria nas primeiras semanas da temporada. Sem contar a defesa que já comentamos acima.

Com o elenco mais forte do que nos anos anteriores, mesmo técnico e mesmo tudo só dá pra colocar a culpa no fator psicológico mesmo. Vai ser interessante ver como isso se desenvolve sob o comando do Phil Jackson, que por anos foi considerado o melhor em justamente motivar seus atletas e por Kobe Bryant, que beira a loucura de tão tarado por basquete e por vitórias. Sabe no Natal quando ninguém queria jogar? Kobe também disse que está cansado de sempre seu Lakers jogar no feriado todos os anos, mas mesmo assim chegou 3 horas antes de todo mundo para ficar treinando seus arremessos e depois foi o último a sair, sozinho e esfriando aos poucos a cabeça quando até sua família já tinha voltado sozinha pra casa.
Sim, ele é workaholic. "Vou chutar uns traseiros nos próximos treinos. Vou bater com umas coisas na cabeça de todo mundo até eles entenderem".

Bônus do Natal
Um vídeo com uma raridade: Marcaram 10 segundos na cobrança do lance livre do Dwight Howard. Garanto que muita gente nem conhecia essa regra de tão rara que ela é! Se o jurássico Hubie Brown ficou surpreso durante a transmissão é porque é realmente bem difícil de ser marcado.



"E os outros jogos? Nenhuma palavra sobre Ellis e Durant?"
- Boas vitórias de Warriors e Thunder nos jogos que não deveriam ter acontecido. Jogaram bem, estão de parabéns! Esses garotos tem futuro!

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Não farei uma piada com a frase "Houston, nós temos um problema"

Facepalm!

Quando o Houston Rockets, na temporada passada, estava chutando uns traseiros e surpreendendo todo mundo apesar da ausência de Yao Ming, o maior pânico do técnico Rick Adelman era que Tracy McGrady ficasse saudável novamente. Não importava que T-Mac fosse uma estrela, e que pudesse vencer um ou outro jogo sozinho - a dúvida diária sobre ele entrar em quadra ou não, dadas suas lesões constantes, não valia a pena. Nada é tão eficiente para acabar com um time do que lhe tirar a certeza da rotação, dos papéis em quadra e do padrão de jogo. Uma equipe que tem que jogar de um jeito diferente todas as noites não aguenta o tranco. Aquele Warriors do Don Nelson, em que os jogadores nunca sabiam se iam jogar, por quantos minutos, e em qual posição, era um pesadelo kafkaniano. Aposto que jogadores como o Marco Belinelli até hoje acordam chorando no meio da noite após um pesadelo em que o Don Nelson é contratado para treinar o Hornets. O Belinelli agora está muito bem obrigado, e o próprio Warriors é um time bastante diferente só de saber quem vai entrar em quadra.

Mesmo estando supostamente saudável, o Houston se livrou do T-Mac o mais rápido que conseguiu. Agora ele está lá no Pistons e mesmo jogando cada vez mais minutos ainda é uma dúvida constante, nunca dá pra saber se ele estará em condições de jogo. Somando isso ao fato que o Pistons não faz ideia se está tentando vencer ou se está reconstruindo o time, temos casos bizarros como o Austin Daye ser titular num dia e sequer entrar em quadra no outro. E os resultados são sempre catastróficos.

O Houston da temporada passada, sem T-Mac, não foi para os playoffs - mas foi por pouco. Com Kevin Martin na melhor forma física da carreira, as chances de se sair melhor nesse ano eram grandes. Mas aí o Houston passou a lidar com a volta de Yao Ming. Seria ridículo achar que o time piora com sua presença em quadra, pelo contrário, só de estar lá existindo e respirando, sem nem levantar os braços, o Yao Ming já faz o Houston um time melhor. Seu tamanho por si só altera infiltrações no garrafão defensivo e cria espaços ao ser marcado no garrafão ofensivo. Mas seus minutos limitados por ordens médicas (sempre os sugestivos 24 minutos por jogo) e a proibição de jogar em dias seguidos trouxe para o Houston aquele fantasma de Tracy McGrady.

Quando Yao está em quadra, o time precisa aproveitá-lo ao máximo, afinal ele terá que ir para o banco em breve. E isso é até bom, porque os passes chegam em sua mão e o time é realmente melhor quando as jogadas ofensivas se focam nele e em sua capacidade de passar a bola para o perímetro. Mas quando ele senta e não pode mais entrar em quadra, é como se o time inteiro precisasse encontrar um outro modo de jogar que tivesse esquecido durante o jogo. Os jogadores não estão envolvidos, as movimentações de bola precisam ser diferentes, é como começar um novo jogo no meio de outro. E aí, no jogo seguinte, caso seja um jogo em dia seguido, Yao está fora desde o começo da partida, então é preciso se acostumar com Brad Miller em quadra. Mas no jogo seguinte é o Yao Ming quem joga, e aí a bola tem que ir pra ele. E assim o Houston não tem padrão nem ofensivo, nem defensivo.

É claro que os problemas se extendem: com a saída de Trevor Ariza para dar espaço para Kevin Martin, a defesa de perímetro do time sofre um absurdo. Tirando Yao Ming, nenhum jogador do elenco é capaz de dar um único toco, então impedir infiltrações é ainda mais essencial - coisa que Kevin Martin e Aaron Brooks não conseguem fazer. Kyle Lowry, que é um defensor melhor na armação, passou todo o começo de temporada contundido. Quando voltou, Aaron Brooks já estava fora e assim permanecerá por mais um mês. E o próprio Yao Ming, quando começou a reclamar que deveria no mínimo voltar a jogar partidas em dias seguidos para não ferrar com a química do time, acabou torcendo o pé e ficando fora pra valer. E com o Yao nunca tem lesão simples, a torção deixou uma lasca de osso no pé dele, e o tempo de recuperação foi mais longo do que o esperado. O retorno deve ser no comecinho de dezembro.

Mas dentre todos esses problemas, o que mais afeta o Houston é mesmo a impossibilidade de criar uma rotação e um padrão de jogo definidos. As primeiras derrotas da equipe foram todas por muito pouco, nos minutos finais, em bolas decisivas. Era preciso manter um ritmo e deixar que o time aprendesse a fechar os jogos. Mas não, a rotação mudou tanto que a equipe não sabe mais o que precisa fazer para mudar o placar da noite anterior. Uma hora joga com Brad Miller, que arremessa de três e não defende, na outra joga com Chuck Hayes, que só defende mas é nanico, aí coloca o Jordan Hill em quadra, que consegue pular mas é desmiolado. Não seria surpresa uma hora dessas o Tiririca entrar em quadra e passarem a bola pra ele normalmente, como se nada estivesse acontecendo. Não basta apenas ficar esperando o Yao Ming voltar de contusão e rezar pra ele não se contundir de novo - o que já é difícil o bastante - porque quando ele estiver em quadra ainda haverá incerteza, minutos limitados, padrões diferentes de jogo. Nessas circunstâncias, a temporada do meu Houston provavelmente foi pelo ralo.

As coisas no Miami Heat são um tanto parecidas. Não tem ninguém com minutos limitados, mas assim que o time começou a mostrar fraquezas e precisava buscar um ritmo para engrenar, começou a ficar claro que quase todo mundo lá é quebra galho e não tem, ainda, papel definido. Culpa, em parte, das contusões. Mario Chalmers poderia ser titular na vaga do Carlos Arroyo, mas se machucou nas férias e ainda está fora de forma. Mike Miller poderia jogar de SF para que finalmente o LeBron pudesse ser escalado oficialmente como PG e resolveria, em parte, as dificuldades da equipe com o arremesso de três pontos, mas ele só volta no fim de dezembro. Udonis Haslem, que não decidiram ainda se é reserva do Bosh ou se joga ao lado dele, sofreu uma lesão séria no pé e agora pode estar fora por toda a temporada. E para tapar o buraco no garrafão, o Heat acaba de contratar Erick Dampier, que pega a temporada no meio e vai ter que correr tanto na parte física quanto na parte tática.

Todo mundo tinha aquela pergunta básica sobre o Heat, "quem é que vai decidir os jogos?", mas essa é menor das preocupações do elenco. Wade e LeBron continuam batendo cabeça no perímetro porque nenhum deles é um arremessador consistente de três pontos, e a resposta para isso nunca aparece porque uma hora o James Jones está em quadra, outra hora é o Eddie House quem tem mais minutos, tem hora que o Arroyo é que arremessa mas sempre com a incerteza sobre ter a posição porque ele não defende nem tem a função de armar o jogo, tem hora que é o Wade o responsável pela armação, o Mario Chalmers é sempre um dúvida se vai entrar ou não, e o Mike Miller continua lá lesionado e com cara de menina. Sabe como o Pacers deu um pau no Heat? Toda vez que LeBron e Wade fizeram o pick-and-roll, a marcação da equipe de Indiana deixou o armador livre e seguiu os jogadores de garrafão, fechando o caminho para a cesta. Pronto! Não requer prática tampouco habilidade! O treinador do Pacers, Jim O'Brien, chegou a dizer que se o Heat tivesse acertado alguns dos seus arremessos teria dado uma surra no Pacers, porque é sempre uma tática arriscada deixar jogadores tão bons constantemente livres para arremessar. Mas nessa equipe em que os coadjuvantes não têm papéis e rotações definidas, sem arremessadores de três designados, dá pra arriscar numa boa.

O meu Houston vai ter que tomar decisões duras que vão definir, agora, a carreira de Yao Ming. Quando voltar da nonagésima contusão de sua vida, jogará em dias seguidos? Continuará jogando apenas 24 minutos? Vale a pena arriscar a saúde de um jogador numa temporada praticamente perdida? Pior: vale a pena manter um jogador que pode arriscar sua saúde num time de temporada perdida? Como o contrato do Yao termina ao fim dessa temporada, o Houston precisa decidir até onde está disposto a seguir com essa bagunça - e começar a dar as respostas agora, o quanto antes, para definir o que fará mais para frente.

No caso do Heat, parte da solução para o problema é aguardar os jogadores voltarem de contusão, mas o mais importante é tomar um banho de água bem gelada. O time precisa de estabilidade na rotação e nas funções em quadra, mas como esperava estar vencendo tudo logo de cara e todo mundo quer arrancar o coitado do técnico Erik Spoelstra de lá para colocar seu chefe Pat Riley no lugar, cada hora o time acaba tentando um troço novo pra ver se funciona. Não dá pra criar um padrão se o técnico precisa fazer qualquer coisa pra vencer ou seu emprego vai pro saco, o cara nunca vai pensar em criar uma equipe a longo prazo, ele vai pensar é em pagar o leitinho das crianças. O Spoelstra é um bom técnico, ele só está com a cabeça a prêmio, um elenco cheio de buracos, lesões pra burro, e muita dificuldade de coordenar o ataque. E o problema é que, pra consertar o ataque, ele deixa de se focar na sua especialidade, que é a defesa, e aí o Heat se ferra ainda mais por culpa das falhas defensivas. É preciso respirar e se concentrar em coisas específicas e transformá-las em padrão. Vamos ganhar os jogos com a defesa e se focar só nisso? Vamos. Vamos tornar o James Jones o arremessador designado e deixar ele em quadra o tempo todo? Vamos. O buraco no garrafão ainda vai continuar, LeBron e Wade ainda vão sofrer com o arremesso, e o Mike Miller ainda vai ter cara de menina lesionado no banco de reservas, mas as coisas já iriam melhorar um bocado.