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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Miami Heat, o retorno

Monstro de três cabeças

Antes da temporada passada começar, muito se especulava sobre como seria o Miami Heat de LeBron, Wade e Bosh. A equipe parecia estar investindo todas as fichas no que podemos chamar de "modelo Celtics": juntar três estrelas, colocar todo o foco na defesa, deixar que se virem como bem entenderem no ataque, e tapar os buracos da equipe com pivetes ou jogadores veteranos dispostos a receber salários minúsculos pela chance de ganhar um título. No caso do Celtics, a pivetada deu muito certo (Rondo, Perkins) e os vovôs continuam topando a brincadeira até hoje (Shaquille O'Neal ficou até onde deu, Jermaine O'Neal deve fazer o mesmo).

O modelo parecia perfeito para o Heat imitar, LeBron e Wade só falavam em defesa durante os primeiros treinamentos com o técnico Erik Spoelstra, o time apostou em um pirralho na armação (Mario Chalmers) e um no garrafão que só sabia defender (Joel Anthony), e os veteranos se acotovelaram pela chance de jogar: passaram pelo Heat em seu primeiro ano vovozinhos como Jerry Stackhouse, Ilgauskas, Dampier, Juwan Howard, Mike Bibby, Jamaal Magloire, Mike Miller e Eddie House (esse último, aliás, havia participado também desse modelo no Celtics). Não dava pra culpar o Heat, copiaram um modelo recentemente vencedor e, por não serem um grande mercado na NBA, aproveitaram o fato de que o Wade trouxe seus amiguinhos para finalmente se tornar um lugar interessante para jogadores veteranos. Afinal, como fica bem fácil de perceber, jogadores bons e velhos querem jogar em equipes boas, não nas franquias mais famosas.

O problema é que nenhuma cópia sai exatamente como o original, e já no primeiro mês de temporada dava pra ver os deslizes do projeto. O primeiro, e mais sério, era que a defesa simplesmente não funcionava como deveria. Contra equipes mais fracas, a defesa era sufocante e vencia o jogo sozinha como esperado, mas contra equipes dispostas a rodar a bola, atacar o garrafão, ou com pivôs um pouco mais competentes do que o normal, a defesa não conseguia acertar a rotação, cometia erros bobos, batia cabeça e acabava se frustrando, tentando tanto roubar bolas que acabava deixando jogadores completamente livres quando os roubos não aconteciam. No ataque a coisa também era bastante bagunçada e o time foi alvo de críticas, especialmente com aquele papo de que "não tem na equipe um armador de verdade pra botar ordem na casa". Na prática, o ataque do Heat era tão organizado ou mais do que aquele do Celtics que foi campeão em 2008, justamente porque jogadores tão talentosos sempre dão um jeito de pontuar mesmo que seja na marra - por isso o foco das duas equipes sempre foi na defesa e há um desdém de ambos com relação à parte ofensiva.

Mas o técnico nerd Erik Spoelstra resolveu não deixar o ataque à deriva. Com seus bilhões de números e estatísticas, constatou que o Heat usava sempre as mesmas jogadas no ataque e que eventualmente isso seria um problema. A solução que ele propôs é um tanto videogame: sempre que o Heat tivesse sucesso na defesa, conseguindo um roubo de bola, um toco ou um rebote defensivo, o ataque poderia fazer o que bem entendesse; mas toda vez que o Heat levasse uma cesta era obrigado a seguir uma das jogadas "não-convencionais" que o Spoelstra havia desenhado para variar o ataque. A tática deu certo o bastante, afinal o Heat chegou a uma Final de NBA, mas ela tem vários problemas. Primeiro, ela assume que os problemas defensivos do Heat eram uma questão de comprometimento, não de posicionamento e entendimento da função de cada um em quadra. Depois, ela arrancou completamente pela raíz a espontaneidade do ataque da equipe. O sucesso que o Heat tinha com jogadas de velocidade ou um pick-and-roll simples era imenso, mas nos momentos de aperto cansei de ver a equipe se embananando toda tentando colocar em prática alguma movimentação do Spoelstra na linha de fundo da quadra. LeBron James passou boa parte da série contra o Mavs, na Final, acionando Chris Bosh para arremessos de média distância - em parte porque o garrafão do Mavs intimidava qualquer infiltração, é verdade, mas em parte também porque não tinha permissão para jogar na velocidade como bem entendesse. Os contra-ataques com LeBron e Wade são fulminantes, eles adoram, se divertem, fazem dancinhas, mas são muito raros numa equipe que poderia fazer isso o tempo todo se quisesse. A equipe tentou tomar para si uma identidade que não lhe correspondia. E até que simulou razoavelmente bem esse papel, uma Final de NBA não cai no colo de ninguém, mas em nenhum momento pareceu algo natural, orgânico. Os jogadores foram tirados de sua zona de conforto, do modo em que renderiam mais, e com isso tiveram dificuldades em contribuir em algumas situações.

No ano passado, escrevi sobre a diferença entre essência e aparência na hora de definir a posição de um jogador, e para isso usei uma cena do Chaves que infelizmente foi tirada do ar. Coloco um vídeo similar abaixo para retomar aquela ideia:



Tem jogador que parece de tamarindo e tem jogador que é de tamarindo, como saber a diferença? Definimos uma coisa pelo modo que ela se apresenta a nós, por como nos parece, ou há um modo de descobrir o que ela verdadeiramente é, além das aparências? Essa questão filosófica é importante para nós graças a dois jogadores: LeBron James e Chris Bosh. Ambos parecem alas: LeBron é alto, forte, gosta de infiltrar e é pontuador; Bosh é magro, fisicamente fraco, e sempre se lesionou tendo que jogar de pivô no Raptors. Na essência, naquilo que eles verdadeiramente são, embora o Bosh seja considerado um ala de força exatamente como ele aparenta (mesmo tendo jogado de pivô improvisado no Raptors por toda a carreira), considero LeBron um armador puro (como jogava no colegial, e assim que entrou na NBA) e não um ala como insistem para que ele seja.

LeBron foi o armador principal do Heat na maior parte da temporada, com Mario Chalmers ou Mike Bibby em quadra apenas para marcar o armador adversário na hora de defender, e para arremessarem de três pontos na hora do ataque tendo em vista a falta de arremessadores que o Heat tem (e a inconsistência de LeBron e Wade na função). Armando, LeBron teve alguns problemas para manter o esquema semi-rígido do técnico Spoelstra, muitas vezes tendo que se conter ou se limitar no ataque para cumprir as jogadas estabelecidas. Por outro lado, LeBron simplesmente desapareceu nos momentos em que a armação foi passada para outra pessoa e teve que jogar de ala. Quando LeBron e Wade revezaram a armação, com um fazendo corta-luz para o outro na cabeça do garrafão, foi tudo fantástico, mas com LeBron isolado no perímetro o negócio desandou. Está na hora de admitirmos que LeBron é o armador dessa equipe - talvez até deixando que ele finalmente marque o armador adversário, agora que Shane Battier pode garantir a marcação na ala - e que está tudo bem ele assumir essa função. Como comentamos anteriormente, grande parte dos problemas do Heat na temporada passada foram tentar ser um time que eles não eram.

O caso do Bosh, no entanto, é mais complicado. Depois de uma vida inteira como pivô improvisado (e de uma franquia que se destruiu tentando conseguir pivôs melhores para deixar que sua estrela fosse para a ala, onde queria), finalmente Bosh conseguiu jogar como ala de força no Miami Heat. Em geral o pivô foi Joel Anthony, que todo mundo adora dizer quão ruim é mas que na verdade está no topo da NBA naquelas estatísticas difíceis de contabilizar e que ninguém dá a mínima, como sucesso no corta-luz, proteção nos rebotes (box-out), faltas de ataque sofridas, etc. Bosh conseguiu então realizar seu sonho e jogar longe da cesta, marcar jogadores mais fracos e usar mais seu arremesso - e foi um fracasso. O arremesso do Bosh é ótimo, mas não tão bom quanto seus movimentos embaixo da cesta; sua velocidade na defesa não fica tão evidente contra jogadores mais ágeis e que jogam mais fora do garrafão; sua capacidade de bater para dentro do garrafão no ataque fica diminuída enfrentando alas, mais capazes de acompanhar sua velocidade. Descobrimos que o Bosh só era genial (e sim, ele foi absurdamente genial nos seus tempos de Raptors) porque era rápido, leve, ágil e inteligente contra pivôs grandões e descoordenados.

A parte legal é que o Bosh percebeu tudo isso. Recentemente alegou que ter arremessado abaixo de 50% (teve 49% de aproveitamento na última temporada) e ter conseguido menos de 10 rebotes (foram 8) é algo inaceitável para ele, que ele tentou fugir de ser pivô e que isso sempre volta e pega ele de algum jeito, então que para essa temporada resolveu fazer diferente: adicionou 5 quilos de massa muscular durante a greve e está decidido a ser o pivô da equipe sempre que necessário. Isso é ótimo porque Udonis Haslem volta da contusão que lhe tirou quase toda a temporada passada, e os dois tem tudo para serem muito melhores juntos do que qualquer outra dupla de garrafão do Heat.

No caso do ataque pouco orgânico do Heat e do LeBron contido na armação, Spoelstra também percebeu o problema e oficialmente tirou as amarras. Não haverá mais jogadas chamadas pelo técnico, eles não terão a obrigação de fazer jogadas específicas caso sofram cestas, não terão que evitar as jogadas mais eficientes apenas para "não usá-las demais". Bosh, Wade e LeBron deram entrevistas dizendo que o ataque será livre, que seguirão o ritmo natural do jogo e usarão a experiência e a inteligência que possuem para fazer o que acharem melhor. Claro que com o foco na defesa, agora com mais tempo para que ela bata menos cabeça. É o "modelo Celtics", agora livre e solto, com permissão para correr a quadra e jogar no contra-ataque como todo mundo pensou que eles fariam. E com o Bosh de pivô se precisar, enfim.

E como o "modelo Celtics" não está completo sem veteranos topando a brincadeira, vamos seguir nossa análise das contratações da offseason e dar uma olhada em como os recém-contratados se encaixarão no Heat:

Mario Chalmers
Miami Heat - 12 milhões por 3 anos

Volta para o Heat o armador que não precisa quase nunca armar o jogo, mas cujo arremesso de três é muitas vezes o desafogo da equipe. Com LeBron e Wade sendo tão bons na infiltração, faltou para o time na temporada inteira uma bola consistente de três pontos para abrir espaço no garrafão. Mike Miller chegou à equipe só para isso, passou boa parte da temporada contundido e aí quando finalmente jogou, fedeu. Chalmers não é o melhor arremessador disponível, mas criou fama como o cara cheio de bagos que converte os arremessos de três nas horas mais importantes, e o Heat precisa disso. Quer dizer, é meio bizarro ter LeBron, Wade e Bosh e acabar passando a bola importante para o Chalmers, mas não deveria ser vergonha pra ninguém, o Super Mario Chalmers merece.

Shane Battier
Miami Heat - 20 milhões por 4 anos

A melhor contratação que o Heat poderia fazer na história da humanidade conhecida. Shane Battier é o cara que torna um time bom em um time fantástico, é a peça que falta em qualquer equipe que esteja às portas de ganhar um título. Assisti a ele desperdiçar seus talentos no meu Houston Rockets porque, olha que estranho, o Houston realmente achava que dava pra vencer um titulo e por isso seguraram o Battier a todo custo (aliás, ao custo do Rudy Gay, mas isso é outra história). Battier ainda é um dos melhores defensores de perímetro da NBA, é um ótimo defensor no garrafão, o melhor da liga em cavar faltas de ataque, é tão obediente taticamente que fica até chato, e ainda não compromete no ataque - tem um ganchinho confiável e uma bola de três pontos mortal na zona morta. O Heat finalmente terá uma bola da zona morta para acionar depois das infiltrações de Wade e LeBron, e nenhum dos dois terá que se matar parando a estrela adversária. Colocando Wade, LeBron e Battier em quadra (com LeBron jogando de armador, como deve ser), o perímetro fica espetacular; mas dá pra colocar o Battier de ala de força com o Bosh de pivô dependendo do adversário. Defende, joga várias posições e acerta bolas de três pontos, é tudo que o Heat precisava da vida. E o Celtics. E o Mavs. E o Lakers. E o...

James Jones
Miami Heat - 6 milhões por 3 anos

A necessidade que o Heat tem por arremessadores é enorme. LeBron e Wade nem arremessavam uns anos atrás, melhoram a cada temporada, e na última melhoraram o aproveitamento na marra, porque as defesas fecham o garrafão e deixam os dois chutarem. O problema é que com tanto espaço para o arremesso de três, faltam no Heat especialistas. O James Jones é tão especialista, mas tão especialista, que levou meses na temporada passada para fazer seu primeiro ponto dentro do garrafão. Ou seja, faz aquilo que precisa. Seria péssimo para o Heat perdê-lo, não existem muitos arremessadores disponíveis no mercado por um preço bacana, e o James Jones acabou saindo a preço de banana.

Eddy Curry
Miami Heat - 1 ano, 1 milhão

Como sabemos, o fato de que o Eddy Curry perdeu 30 quilos (trinta!) para jogar pelo Heat acabou mudando a estrutura do espaço-tempo e quase fez com que a temporada não acontecesse! O Curry já foi um jogador relevante, é muito sólido atacando embaixo da cesta, muito técnico, e muito, muito, muito gordo. Recebeu um contrato bilionário no Knicks mas nunca conseguiu ficar em forma, teve problemas pessoais bizarros (de assédio sexual a homicídio na família), foi ficando uma bola e então finalmente saiu da órbita da Terra, girando ao redor do planeta como uma lua pequena. Nos seus bons tempos era bom no ataque, ruim na defesa, e um dos piores reboteiros a já jogar basquete. O Heat tem problemas sérios com rebotes defensivos (especialmente com o Bosh jogando longe da cesta como ala de força, e com o Haslem machucado), então o Curry não acrescenta muito. Só é legal de ver um cara tentando retomar a carreira, correndo as tripas para fora, perdendo tanto peso e conseguindo um lugar numa equipe como o Heat. Na falta de gente de garrafão, terá sua chance. O problema é que não garantirá rebotes nem acompanhará a velocidade dos contra-ataques. Se estiver bem fisicamente, no entanto, é sempre uma ajuda nem que seja para fazer faltas no Dwight Howard. Vale também lembrar o quanto já zoamos o Zach Randolph por ser gordo e hoje em dia ele é tão bom reboteiro que parece ter cola nas mãos. Aliás, o Randolph também andou perdendo peso e até pegando umas ponte-aéreas nos treinos do Grizzlies. Se o Curry fizer isso também, aí já era a nossa temporada, o espaço-tempo, vai ter greve mundial dos seres humanos e a Lua vai se chocar contra a Terra.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Resto do peru - A rodada do Natal

Essa alegria contagia, parem!


A rodada de Natal foi marcada mais pelos comentários sobre ter que jogar no Natal do que pela real qualidade dos jogos. Fechando o assunto de ter que jogar no feriado eu só preciso registrar aqui o que o Stan Van Gundy disse antes da partida contra o Celtics. Lembra que ele tinha sido multado no ano passado por comentários contra os jogos de Natal e que nesse ano não pretendia fazer o mesmo? Pois ele não resistiu e para fugir da multa apelou para a sempre saborosa ironia: "Eu acho que a NBA é tão importante para o Natal que precisamos aumentar o número de jogos de 5 para 10. E precisamos que eles comecem assim que der meia-noite na véspera de Natal, assim não teremos um minuto de Natal sem um jogo na TV. A NBA é o Natal". Como o Shaq conseguiu se desentender com esse cara? Era porque ele tinha piadas melhores?

O primeiro jogo do dia foi um divertido e desastrado Knicks-Bulls, que valeu por algumas jogadas lindas do Derrick Rose e pela emoção, mas foi um desengonçado jogo que quase somou 50 turnovers entre as duas equipes! Foi legal para o Knicks ganhar um jogo contra um time forte tendo como destaque a defesa no fim do jogo, mas muito foi culpa do Bulls que fez um último quarto péssimo no ataque, passando mais da metade dele sem marcar um ponto sequer enquanto assistia Kurt Thomas e Omer Asik fazendo falta atrás de falta no Amar'e Stoudemire. Como bem disse o cara do blog ShamSports, um torcedor fanático do Bulls: "O Bulls sentiu falta essa noite de bom passe, um segundo jogador para segurar a bola além do Rose, defesa, energia e alguém para marcar o Amar'e. Joakim Noah faz tudo isso". Eu concordo.

O segundo jogo não foi muito bonito também, mas impressionante. Dwight Howard não se encontrou no ataque, Jason Richardson e Gilbert Arenas foram quase nulos, a defesa do Celtics fez o nunca treinado ataque do Magic parecer um time de pelada e mesmo assim o Magic venceu. Eu vi todos os minutos do jogo e ainda não entendi. Simplesmente eles conseguiram na defesa manter o placar apertado e no final contaram com Jameer Nelson e JJ Redick acertando bolas decisivas. Vou falar mais do Magic daqui um tempo quando eles tiverem o mínimo de um padrão de jogo, mas quando você vence Spurs e Celtics em sequência sem nunca ter treinado junto e jogando feio é porque a coisa está boa pro seu lado.

Mas o jogo mais esperado da noite era mesmo Lakers e Heat. O Lakers está no terceiro lugar do Oeste, mas depois de perder por quase 20 pontos em casa para o Bucks (sem contar o vareio que levaram do Earl Boykins) está começando a assustar os torcedores, já o Heat está destruindo quase todo mundo e o 'quase' machuca porque as derrotas são justamente para os grandes concorrentes como Magic, Celtics e Mavs. No fim das contas o Lakers conseguiu manter o ritmo e tomar outra surra em casa e o Heat passeou com muita facilidade e em um dos melhores jogos do Chris Bosh no Heat, venceram por 16.

Como eu sempre defendo aqui no blog, vitórias elásticas nunca são só mérito de um time e nunca só desgraça do perdedor. Em uma liga forte como a NBA tem que acontecer as duas coisas para um time vencer bocejando como foi o caso desse jogo. O Lakers entrou em quadra com um plano defensivo bem claro, era fechar o garrafão e dobrar a marcação sempre que necessário em Dwyane Wade e LeBron James para tirar a bola das mãos deles. A estratégia não é novidade para o Miami, que mesmo tendo dois dos melhores (senão os dois melhores) jogadores em infiltração da NBA é o último colocado da liga em arremessos tentados próximos à cesta, bandejas ou enterradas, com 16 por jogo, 10 a menos que os líderes Denver e Chicago.

No começo da temporada a resposta do Miami para essa estratégia era continuar insistindo em infiltrar, o que gerava toneladas de erros, ou em arremessar bolas de três, o que causava estranhas estatísticas como ver James Jones e Eddie House arremessando mais vezes que o Chris Bosh ou decidindo bolas importantes ao invés de Wade e LeBron. Com o passar do tempo a estratégia mudou e eles decidiram arremessar longas bolas de dois. Embora ao redor da NBA os tenebrosos long-2s sejam considerados (com apoio estatístico) os arremessos com menor porcentagem de acerto no basquete, eles se encaixam bem nesse caso do Miami. LeBron, Wade e Bosh são melhores nesse tipo de arremesso do que quando tentam se aventurar na linha dos três pontos, assim como Udonis Haslem, Zydrunas Ilgauskas e Carlos Arroyo. Então se a defesa não abre eles arremessam longas bolas de dois e os times que não querem tomar um show de enterradas pagam pra ver.

O Dallas Mavericks pagou pra ver e viu o LeBron passar boa parte do jogo zerado, o Lakers pagou e viu todo mundo meter um arremesso atrás do outro. O LA só no segundo tempo assumiu que a estratégia não estava dando certo e passou a pressionar mais a bola, mas aí o resultado foi uma embaraçosa lição de como não defender um pick-and-roll. Com cortas simples, LeBron, Wade e principalmente Bosh puderam atacar a cesta e marcar os pontos perto do aro que o Phil Jackson tentou evitar no primeiro tempo. Segundo a ESPN.com o Heat fez um terço dos seus pontos em jogadas de pick-and-roll sem cometer nenhum turnover nessas tentativas. Foi um ótimo exemplo do cobertor curto que pode ser enfrentar o Miami Heat quando os seus arremessos de média e longa distância estão caindo. Detalhe que o Lakers apanhou desse jeito mesmo conseguindo outro sucesso defensivo, segurar o Heat a apenas 4 pontos de contra-ataque em toda partida.

No começo da sequência de vitórias do Miami Heat foi divulgado pelos jogadores (e visto por quem assistiu aos jogos) que o técnico Erik Spoelstra resolveu ir pelo caminho mais fácil, ele treinou incansavelmente a defesa e no ataque deu liberdade para LeBron e Wade correrem, era contra-ataque por merecimento: Se um dos dois conseguisse um roubo de bola, toco ou rebote tinha autorização para correr e improvisar. Isso fez o time se empenhar mais na defesa e rendeu pontos fáceis no ataque, tudo para não ficar naquela estagnação ofensiva que eles tinham nas primeiras semanas.

Outro fator importante para a melhora do Heat foram as duas mudanças no elenco, Zydrunas Ilgauskas e Mario Chalmers ganharam muito mais tempo de quadra. O Big Z não é rápido na defesa, mas o trio formado por Wade, LeBron e o ótimo defensor Chalmers faz com que o o pivô lituano não precise lidar muito com armadores rápidos e jovens batendo para cima dele. E no ataque o Chalmers está acertando os arremessos que Arroyo não conseguia e Ilgauskas é um dos que tiram proveito da tática que os outros times usam de forçar o Miami a ganhar os jogos com os chutes de longe. Volta e meia eles ainda tem momentos péssimos e os passes voando no meio do nada em direção à arquibancada ainda estão lá, mas aos poucos o Heat está descobrindo como usar os talentos que cada jogador levou para South Beach. Mesmo com todas as dificuldades desse começo eles já tem, no ranking de pontos por 100 posses de bola, o sexto melhor ataque e segunda melhor defesa da NBA.

Mas chega de elogiar o time mais odiado da NBA, afinal quem aqui quer ver eles terem sucesso? Ninguém! Vamos falar do Lakers e tentar entender porque eles estão jogando tão mal. Mas antes de eu tentar me arriscar acho que o Kobe tem mais moral e entende mais o que acontece lá dentro. Tá aqui o que ele disse depois do jogo contra o Miami Heat:

"Nossa filosofia é que temos que estar todos na mesma página, nós somos tão fortes quanto o mais fraco no nosso time. Temos que nos juntar e seguir lutando, estamos jogando como quem já tem dois anéis de campeão. Não vai ser fácil, se fosse veríamos muitas equipes vencendo três vezes seguidas. Para conseguir você precisar trabalhar e ralar demais. (...) O jogo é a parte mais importante, você precisa se concentrar e jogar todos como se fossem o último, o negócio é sério. Você não pode ganhar dois títulos e ficar satisfeito com isso. Eu não estou e não vou deixar as coisas ficarem assim". 

Outro que estava nos dois últimos títulos, Lamar Odom, concorda e deu uma declaração bem sincera: "Parte do nosso problema é que estamos muito convencidos e achando que não vamos e nem deveríamos perder. Acho que nessa temporada estamos com excesso de confiança e foi assim que começamos, desde o período de treinos". 

Isso explica basicamente porque o Lakers tem perdido. Contra times fracos o time é preguiçoso, contra os mais fortes parece que acha que o resultado virá naturalmente, aí acaba fazendo tudo do jeito mais simples e quando não dá certo simplesmente ficam nervosos ou com cara de bunda ao invés de ralar para mudar as coisas. E eles não podem se dar ao luxo de fazer isso.

Essa equipe do Lakers é provavelmente a menos dominante a ter vencido três vezes seguidas o Oeste e a menos espetacular a ter sido bi-campeã em muito tempo. E isso é um grande elogio ao espírito de luta e de superação desses jogadores. Acompanhamos essas temporadas de perto e não só escrevemos aqui como lemos ao redor da internet muita gente apontando vários defeitos do time nessas últimas temporadas. Era sempre uma das melhores, mas faltava defesa, depois um armador, depois jogadores explosivos, banco de reservas, arremessadores de três, etc, etc. O segredo foi que o time sempre jogou bem quando precisava. No ano passado estava tomando sufoco do OKC Thunder e do Phoenix Suns nos playoffs e chegou a empatar as duas séries em 2 a 2 antes de jogar com o coração no jogo 5 e dar uma aula de basquete no jogo 6. Foi exatamente a mesma coisa que aconteceu na final do Oeste de 2009 contra o Nuggets, durante boa parte da série parecia que o Denver tinha o melhor time, mas aí o Lakers venceu o jogo 5 com uma atuação heróica do Lamar Odom e o jogo 6 foi possivelmente o melhor do Lakers desde o saída do Shaquille O'Neal em 2004. Na final contra o Orlando Magic, Trevor Ariza e Odom resolveram aprender a arremessar de três, contra o Celtics foi Ron Artest que salvou o time no jogo 7. Defeitos do time que foram superados quando a água bateu na bunda.

Foi por isso que eu achava que esse jogo contra o Miami Heat seria diferente. Sim, o Lakers estava com problemas, mas sempre esteve e conseguia superá-los nos jogos importantes e nesse Natal, um jogo para mostrar quem ainda manda na NBA, jogou como time pequeno e foi dominado como se fosse um Grizzlies da vida. Mostrou as mesmas deficiências dos jogos anteriores, como falta de movimentação, excesso de jogadas individuais, baixo aproveitamento dos arremessos de três e um banco de reservas que nem parece o mesmo grupo de jogadores que estava ganhando jogos por conta própria nas primeiras semanas da temporada. Sem contar a defesa que já comentamos acima.

Com o elenco mais forte do que nos anos anteriores, mesmo técnico e mesmo tudo só dá pra colocar a culpa no fator psicológico mesmo. Vai ser interessante ver como isso se desenvolve sob o comando do Phil Jackson, que por anos foi considerado o melhor em justamente motivar seus atletas e por Kobe Bryant, que beira a loucura de tão tarado por basquete e por vitórias. Sabe no Natal quando ninguém queria jogar? Kobe também disse que está cansado de sempre seu Lakers jogar no feriado todos os anos, mas mesmo assim chegou 3 horas antes de todo mundo para ficar treinando seus arremessos e depois foi o último a sair, sozinho e esfriando aos poucos a cabeça quando até sua família já tinha voltado sozinha pra casa.
Sim, ele é workaholic. "Vou chutar uns traseiros nos próximos treinos. Vou bater com umas coisas na cabeça de todo mundo até eles entenderem".

Bônus do Natal
Um vídeo com uma raridade: Marcaram 10 segundos na cobrança do lance livre do Dwight Howard. Garanto que muita gente nem conhecia essa regra de tão rara que ela é! Se o jurássico Hubie Brown ficou surpreso durante a transmissão é porque é realmente bem difícil de ser marcado.



"E os outros jogos? Nenhuma palavra sobre Ellis e Durant?"
- Boas vitórias de Warriors e Thunder nos jogos que não deveriam ter acontecido. Jogaram bem, estão de parabéns! Esses garotos tem futuro!

domingo, 17 de outubro de 2010

Preview - 2010-11 / Miami Heat

Wade tem dor de barriga só de pensar no elenco do ano passado


Objetivo máximo: Ganhar um título e descobrir a cura para o câncer
Não seria estranho: Perder na final do Leste ou bater o recorde de 72 vitórias
Desastre: Não chegar à final de Conferência

Forças: Três carinhas lá que dizem que são bons e um técnico capaz de montar defesas monstruosas
Fraquezas: Um elenco de apoio limitado que parece ter sido escolhido em fim de feira e sofre de falta de entrosamento

Elenco: Se Odin existisse ele deixaria eu colar as planilhas aqui como fizemos nos primeiros previews. Mas pelo jeito estamos sem deuses nórdicos nesse mundo e vocês terão que clicar aqui para conferir a rotação do Miami Heat. Maldito Blogger instável!

...

Técnico: Erik Spoelstra

O Spoelstra é uma ninfetinha entre os vovôs. Com apenas 39 anos, é o técnico mais novo da NBA e também o mais descolado. Antes mesmo de assumir o time, já era famoso pelo seu trabalho inovador com tecnologias para análise de estatísticas e era o responsável por juntar dados e vídeos sobre as equipes adversárias. O ex-técnico do Heat, Pat Riley, sempre gostou do jovem nerd e foi cada vez mais aproximando o pirralho das quadras. O maior sucesso do Spoelstra foi no trabalho individual com os novatos, ensinando as movimentações ofensivas e defensivas, e sua fama de bom professor foi lhe rendendo cada vez mais espaço na comissão técnica - até que Pat Riley decidiu que seu jovem padawan estava pronto. Quando Spoelstra assumiu o Heat na temporada 2008-09, tudo que sabíamos sobre ele era que havia disponilizado todas as jogadas da equipe para seus jogadores num programinha para iPod. Era o modo dele de garantir que todos os jogadores teriam a lista de jogadas sempre à mão, e provou imediatamente que o jovem treinador sabia falar a mesma língua dos seus jogadores. Rapidamente tornou-se respeitado e compreendido por todo o elenco e levou um time limitadíssimo, beirando o ridículo, duas vezes aos playoffs. O segredo é um só: defesa.

Spoelstra é excelente treinador de pirralhos e desenha muito bem jogadas decisivas, mas a defesa que ele montou com aquele elenco de zé-ruelas é puro milagre. Na temporada passada, quando o Heat sofria com um ataque terrivelmente inconsistente e estava fora da zona dos playoffs, emplacou de repente uma série de vitórias depois do All-Star Game ganhando 18 de suas 22 últimas partidas e se classificando em quinto lugar no Leste, tudo com o discurso de que é a defesa que ganha jogos. No geral, o Heat foi o segundo melhor time em limitar os pontos do oponente (94.2 por jogo), o melhor em limitar o aproveitamento de arremessos do oponente (43.9% por jogo), e o quinto melhor em limitar o aproveitamento do perímetro (34.2% da linha de três pontos por jogo). O Spoelstra foca tanto na defesa que nunca teve medo de limitar os minutos de Michael Beasley só porque ele fede defendendo e sempre deu preferência ao seu quinteto defensivo (com Joel Anthony e Mario Chalmers) mesmo quando o ataque sofria por falta de talento. Por isso, desde que LeBron, Bosh e Wade se reuniram, em Miami só se fala em defesa (e em garotas de biquíni, mas isso é outra história).

...

Se tem uma coisa que aprendemos com o Celtics é que, ao juntar três grandes estrelas, não é necessário se preocupar com o resto do elenco. Ao contrário do que acontece com times com uma estrela isolada, jogadores veteranos são capazes de arrancar um braço pela oportunidade de jogar com três estrelas ao mesmo tempo, topando salários menores e papéis limitados na esperança de ganhar um anel de campeão. O Heat desmontou inteiramente seu time para tentar contratar LeBron, Bosh e Wade, um risco absurdo - que se tivesse dado errado seria uma baita burrice, mas já que deu certo é chamado "jogada de gênio" - que agora traz resultados. O elenco foi criado do zero apenas com gente louca pela chance de ser campeão em Miami: o Udonis Haslem recebeu ofertas mais lucrativas e com mais minutos, mas aceitou voltar para o Heat mesmo indo parar no banco em nome de "sua amizade com Wade"; Ilgauskas poderia continuar no Cavs onde é amado e idolatrado e os moradores de Cleveland lhe oferecem suas filhas para casar com ele, mas preferiu dividir o garrafão com o Bosh; Mike Miller foi um dos jogadores mais cobiçados da offseason mas rapidamente ficou claro que ele iria reforçar o perímetro do Heat; e o Eddie House, que já foi campeão com o Celtics e é um oportunista safado e sem vergonha, também pulou no barco. Mario Chalmers e Dwyane Wade vão ter trabalho para conhecer todos os rostos novos no vestiário de um time que, até a chegada de LeBron e Bosh, não tinha sequer 5 jogadores contratados.

O problema é que essa gente nova precisa aprender as movimentações ofensivas, os padrões defensivos, como cada jogador se comporta em quadra, qual a filosofia do técnico. É por isso que, desde o primeiro dia de treinamentos, o foco tem sido integralmente na defesa. Novamente, é uma lição tirada diretamente do livro do Boston Celtics: com tantos jogadores talentosos no ataque, dá pra jogar improvisando desde que a defesa seja impecável. Wade e LeBron estão dispostos a provar que são dois dos melhores defensores da NBA e, com isso, passar uma forte mentalidade defensiva ao resto do time. Nos jogos de pré-temporada a defesa do Heat errou muito, ainda existem muitos desentendimentos e falhas de marcação, mas dá pra perceber que o foco do Erik Spoelstra é, como sempre, marcação muito forte. Com o tempo, quando os jogadores estiverem acostumados ao estilo e uns com os outros, esse Heat tem tudo para ser uma das três defesas mais fortes da liga.

Se a defesa funcionar, o Heat será um excelente time em contra-ataques, área em que LeBron realmente brilha e na qual Dwyane Wade se sai tão bem. No contra-ataque não é preciso ter jogadas ensaiadas, dá pra contar com a velocidade e o talento dos jogadores, com a visão de jogo de LeBron James, e não se preocupar com o treinamento ofensivo. Quando o contra-ataque não funcionar e o Heat precisar de um jogo de meia-quadra, mais lento, podemos esperar - assim como acontece com o Celtics - muitas isolações e improviso. Mas quem deve chamar as jogadas na imensa maioria das vezes é mesmo LeBron James. Como abordamos em nosso texto sobre a ida de LeBron ao Heat, o jogador sempre preferiu jogar, desde seus tempos de colegial, como um passador. Nos jogos de pré-temporada tem passado bastante tempo na posição, com Mario Chalmers jogando como armador apenas na defesa e Carlos Arroyo, quando entra na posição, agindo mais como um segundo armador e se focando nos arremessos. Quando Dwyane jogar, deve assumir um pouco a posição, de modo que Chalmers e Arroyo possam se focar naquilo que sabem ao invés de terem que jogar como armadores puros, coisa que não são. Acredito que aos poucos LeBron firme-se cada vez mais como o armador da equipe e é capaz que Mike Miller entre como titular para melhorar os arremessos de perímetro. Se vier do banco, Miller também pode armar o jogo com bastante eficiência, de modo que não prevejo Chalmers e Arroyo carregando muito a bola na próxima temporada.

A defesa será o foco da equipe, o ataque deve funcionar nos contra-ataques, nas isolações e na armação de LeBron e Wade. Mas é no garrafão que o Heat sentirá mais dificuldade. Bosh tem horror à ideia de ter que jogar de pivô novamente, e o Erik Spoelstra já disse que usará ele na posição o mínimo possível, com moderação. Para ser parceiro de garrafão do Bosh não sobra muita gente: Udonis Haslem, que é muito bom, não tem altura para marcar os pivôs adversários e prefere jogar de ala; Ilgauskas é o melhor pivô puro do elenco mas se movimenta como se estivesse debaixo d'água e terá dificudades no estilo de contra-ataques do Heat; e Joel Anthony quebra um bom galho na defesa mas no ataque parece que sofreu um derrame cerebral. Tem mais gente pra função, tipo o Jamal Magloire, mas eu prefiro me focar em analisar os jogadores de basquete, não qualquer mamífero bípede que sentar no banco. O mais provável, principalmente em caso de contusão, é que Erik Spoelstra opte por escalações mais baixas, com LeBron de ala de força (mesmo armando o jogo), Udonis Haslem jogando bastante de pivô, e é claro que com isso vai acabar sobrando constantemente para o Bosh a tal posição que ele tanto odeia. Se estiverem ganhando, é bem capaz de que ele não se importe, mas enquanto a armação está tão bem servida, a defesa tem as peças necessárias e os arremessos de três estão tão bem garantidos (até o James Jones, que eu acho tão bom arremessador, topou voltar ao Heat), o garrafão é a parte frágil. O Bosh, repito, é melhor do que a maioria das pessoas pensa e vai ganhar vários jogos sozinho, mas na defesa embaixo do aro o negócio vai ser feio quando enfrentarem Lakers e Celtics, por exemplo. Pode ser uma missão dura demais para o coitado do Joel Anthony, que mal consegue amarrar os próprios cadarços.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

O resto do Heat


Anthony, Joel Anthony



Nós já analisamos a decisão do LeBron James, e depois o Danilo fez um especial analisando o ponto de vista de todas as estrelas do Miami Heat: Dwyane Wade, Chris Bosh e, claro, LeBron. Mas era natural perguntar sobre o resto do time. Afinal, o Miami Heat se livrou de todo mundo para poder abrigar as três estrelas, deixou apenas Mario Chalmers e Michael Beasley, e logo trocou Beasley por uma escolha de draft com o Wolves. Como eles iriam conseguir montar um time? Quem eles iriam conseguir? Bom, eles acabaram de montar, hora de ver se fizeram direito.

O começo do time está na única peça que nunca ameaçou sair de Miami, o Superintendente Mario Chalmers. O armador foi uma grata surpresa na temporada retrasada. Depois de ser campeão universitário acertando o arremesso mais importante do jogo do título, pensou-se que aquele seria seu grande momento, que era muito fraco para ser grande coisa na NBA, tanto que foi apenas a 34ª escolha no Draft!

Mas em pouco tempo provou o contrário e com bons treinos (e falta de concorrência, é verdade), foi titular em todos os jogos da sua campanha de novato. Suas bolas de três (aproveitamento de 42%), poucos erros (2 turnovers por jogo em mais de 30 minutos por jogo) e principalmente sua defesa e roubos de bola o tornaram um favorito do técnico Eric Spoelstra. Chalmers, como novato, foi o quarto maior ladrão de bolas da NBA com 2 por jogo e é um dos 48 jogadores da história da NBA a conseguir pelo menos 9 roubos de bola em uma partida.

O que parecia uma carreira promissora deu um enorme passo para trás na temporada passada. Ninguém sabe explicar bem o porquê, mas Mario Chalmers parecia não defender com a mesma eficiência e sua limitação no ataque cada vez incomodava mais. Ele se tornou apenas um arremessador (que acertava menos do que no seu primeiro ano) e não livrava o Dwyane Wade da responsabilidade de armar as jogadas. Por isso Eric Spoelstra tirou Chalmers do time titular, colocou Carlos Arroyo ou Rafer Alston e Chalmers despencou para meros 20 minutos por partida ou menos.

O desempenho de Carlos Arroyo, que ganhou um novo contrato, foi discreto. Ele não defende tão bem quanto Chalmers, mas não é batido com facilidade e compensa com bom controle de bola e de ritmo de jogo no ataque. O número de assistências do porto-riquenho não é alto, mas ele é o responsável por ditar a velocidade e o caminho do ataque, liberando D-Wade para se movimentar e achar a melhor posição para atacar.

O melhor jogador entre os dois é o Chalmers, por isso imagino que ele volte para essa temporada como titular, mas vai ser uma briga longa. Se o Chalmers não estiver calibrado de longa distância quando sobrar livre (o que vai acontecer bastante) e se não for bom o bastante para segurar a armação, deverá perder lugar. O negócio é que ele poderá perder a vaga para outro cara que não é o Arroyo. O carequinha deve ter sua chance, óbvio, mas existe uma boa e real possibilidade do armador titular ser outro dos contratados dessa offseason, Mike Miller.

O MM, além de força capilar fora de série, tem um exímio arremesso de longa distância. Com Bosh, Wade e LeBron agredindo a cesta, é de se esperar que os adversários organizem uma defesa com três zagueiros, quatro volantes e os atacantes voltando pra ajudar. Até porque embora tenham melhorado, nem LeBron e nem Wade são conhecidos pelos arremessos de longe. Para desafogar essa defesa eles foram atrás de arremessadores. James Jones será a opção do banco de reservas, um cara limitado mas com o talento que eles precisam, e o outro é o Mike Miller. O que faz a loirinha ter chances de ser titular é que ele já quebrou o galho na armação durante vários períodos da carreira. Às vezes por alguns jogos, outras vezes apenas durante uns pedaços do jogo, mas o importante é que tem experiência em conduzir a bola, driblar e passar. Sem contar que a responsabilidade poderia ser dividida com Dwyane Wade e LeBron James, que já têm mais horas de experiência armando o jogo do que a Hebe tem de televisão.

Todo mundo lembra do LeBron carregando a bola da defesa pro ataque e comandando o Cavs, como o Wade sempre fez no Heat, principalmente em quartos períodos. Os dois casos não são o ideal, mas podem ser feitos e liberariam o Mike Miller para ser um armador de ocasião que está lá para arremessar. Na defesa não haveria problema também porque o próprio Wade é veloz o bastante para marcar os armadores adversários, deixando o Mike Miller com os mais altos.

Como o Eric Spoelstra não foi muito de inventar mesmo quando tinha um elenco capenga e cheio de falhas, imagino que o Chalmers seja a primeira opção e o Arroyo a segunda, mas eventualmente Mike Miller vai jogar com o time titular e dependendo do resultado pode virar a formação ideal do Heat.

O outro buraco no time titular estava na posição de pivô. Para essa vaga eles renovaram o contrato do Joel Anthony e tiraram mais um jogador do Cavs, Zydrunas Ilgauskas, que por ter voltado ao Cavs no ano passado após ter sido trocado, pela forma que anunciou sua saída e pela carta que publicou agradecendo o povo de Cleveland, deve estar sendo um pouco menos odiado que LeBron.

No final da temporada passada o Joel Anthony foi titular absoluto. Foi naquele período de dois meses em que o Heat ganhou de todo mundo e ficou entre as três melhores defesas da NBA e entre os três com mais vitórias. O Anthony é tão útil para o ataque do Heat quanto eu sou para a questão da paz no Oriente Médio, mas foi uma fortaleza defensiva. Nos 16 jogos em que foi titular teve média de 5 rebotes e 2 tocos por jogo, além de ser muito bom no homem-a-homem.

Já o Ilgauskas todo mundo conhece, não é grande coisa na defesa porque é muito lento, mas compensa atrapalhando na altura, dando uns tocos e garantindo uns rebotes. O negócio do Big Z é no ataque, onde ele abre a defesa adversária com seu bom arremesso de meia distância e até eventuais bolas de três, como naquele jogo épico contra o Sacramento Kings quando acertou três bolas de 3 pontos só na prorrogação. Os arremessos do Ilgauskas são bons para forçar os pivôs a sairem do garrafão. Seria útil por exemplo para forçar o Dwight Howard a não ficar lá embaixo da cesta atrapalhando as infiltrações de Bosh, Wade e LeBron.

Claramente o Ilgauskas é a melhor opção ofensiva e o Joel Anthony a defensiva, saber quem vai ser o titular e depois quem vai ter mais tempo de quadra será importante para saber que tipo de time o Spoelstra está pensando em montar.

Assim como na armação há também a opção do improviso. Ao invés de Anthony, pura defesa, ou Ilgauskas, ataque, podem usar o Udonis Haslem. O jogador com mais tempo de Miami nesse elenco, junto com o Wade, sempre foi um líder dentro do vestiário da equipe e quase uma exigência do D-Wade para essa temporada. Haslem teve propostas mais lucrativas (dizem que do Jazz), mas não quis deixar seu time bem quando ele estaria mais forte do que nunca.

Com a presença do Bosh ele nunca vai ser titular na ala de força, e é pouco provável que arrisquem usá-lo como pivô sendo que tem apenas 2,03m de altura. Seria possível improvisar o Bosh, mas ele teria um ataque de choro e pediria para ser trocado na hora. Mas não duvide que Bosh e Haslem dividam minutos em quadra durante os jogos. O Haslem é um excelente defensor, mesmo quando enfrenta caras muito mais altos, mais ou menos como o Chuck Hayes faz no Houston Rockets. Se o pivô adversário não for nenhum monstro é possível que o Haslem entre em quadra na posição 5 mesmo sendo muito baixo. Além da boa defesa, ele tem um arremesso de meia distância que é automático, certeiro desde seu primeiro ano na NBA.

Tirando a altura, Haslem seria o cara ideal para jogar como pivô, por isso considero a chance do improviso, mas talvez apenas para alguns momentos do jogo. Meu palpite, hoje, seria que o Heat começa os jogos com Chalmers, Wade, LeBron, Bosh e Ilgauskas. Mas apostaria que eles terminam as partidas mais complicadas com Mike Miller, Wade, LeBron, Bosh e Haslem.

Além dos que brigam por vagas no time titular, o Heat foi buscar mais gente para completar o elenco. Eles tem agora o Eddie House, que pelo menos umas duas ou três vezes na temporada ou nos playoffs vai ganhar jogos sozinho com arremessos de três consecutivos, o Shavlik Randolph, um ala de força branquelo que é um bom reboteiro e deverá quebrar um galho de vez em quando e, ainda no grupo de estrelas do garbage time, que vão fazer a festa sempre que o time titular abrir 20 pontos de vantagem antes do quarto período, Kenny Hasbrouck, um armador que fez história por ser o primeiro a sair da Universidade de Sienna para a NBA e que eu nunca vi jogar na vida.

Como terceiro pivô eles contrataram o Jamaal Magloire, que eu acho um pedaço de carne desforme e imprestável. Em 11 anos de NBA ele foi bom em apenas duas temporadas, a 2002-03 e 03-04, ambas pelo New Orleans Hornets. Na segunda ele até conseguiu a proeza de ser um All-Star, tamanha era a falta de bons pivôs no Leste naquele ano (o Hornets foi do Leste até a entrada do Charlotte Bobcats na liga em 2004-05). E pior, ele ainda foi o cestinha do Leste com 19 pontos naquele All-Star Game! No vídeo abaixo ele aparece com uma enterrada, sofrendo um toco (que foi na descendente) do Shaq e fazendo uma falta grosseira no mesmo Shaq, que resultou em pontos para o Oeste e piada em frente às câmeras.



(nota sobre o vídeo: o passe de esquerda do Kidd para o Kenyon Martin no primeiro tempo é uma das assistências mais lindas que eu já vi na vida. É bom relembrar como T-Mac, Vince Carter e Allen Iverson eram bons)

Depois dessa boa (mas não de All-Star!) campanha, ele foi ganhando um contrato atrás do outro apenas vivendo do passado, nunca fez mais nada de útil na NBA. Tá bom que terceiros pivôs não costumam ser grande coisa, o Lakers foi campeão com o DJ Mbenga, mas o Heat poderia ter ido atrás de um que enganasse melhor.

Eu esperava que o Heat fosse conseguir mais jogadores de nome e experiência na busca para fechar o elenco, ao invés disso pegaram muita gente que pouco viu a cara dos playoffs. Mas assim como Rondo e Perkins encararam a novidade da pós-temporada em 2008 com naturalidade, no embalo do trio de líderes, acho que o Heat não terá problemas se LeBron, Wade e Bosh exercerem bem a liderança da equipe.

A liderança passa pelos treinos, discurso pré-jogo, atitude em quadra, toques e broncas nos momentos difíceis e em palavras de confiança e calma na hora certa. O Celtics tinha Garnett e Doc Rivers muito bem nesse papel de líder e assim o bom elenco não se perdeu. O Heat conseguiu as estrelas e agora as boas peças de apoio, falta testar a liderança.

...
Coloquei ontem no ar uma planilha com os elencos dos 30 times da NBA. Está separado por divisão e as equipes entre titulares, reservas e o resto que compõe o elenco. Talvez ainda faltem alguns jogadores e os times titulares são, por enquanto, palpites. Mas com o passar do tempo e da temporada vamos sempre atualizar com os ajustes necessários. Espero que seja útil para quem é curioso, pra consultar ou só para arrumar os elencos no seu NBA 2k10.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Tá quente, mas não fervendo

enterrada na cara > mão na cara


O leitor Jarson nos mandou um e-mail outro dia reclamando que ainda não tínhamos falado do Miami Heat, que vive ótimo momento e é um dos destaques do começo de temporada. Respondi que não dá pra falar do começo de todo mundo. Começo de temporada tem muito assunto e não dá tempo de falar de tudo, precisamos escolher uma coisa e, logo, excluir outra. Mas não dá pra culpar o cara, o Heat deve ser até agora, talvez junto com o Mavs, o time que mais superou expectativas nas primeiras semanas de temporada.

Esperei então o jogo de ontem entre Heat e Cavs. O duelo de LeBron e Wade seria um baita desafio para o time do Miami poder provar se está mesmo evoluindo para a elite do Leste ou se o bom começo era apenas uma fase.

O melhor do jogo foi o primeiro quarto. Os dois times estavam jogando como se fosse playoff, com os titulares em quadra até o final do período, vibração, discussão, pressão da torcida e jogadores agressivos. Essa última característica, aliás, foi a que mais me impressionou. Todo mundo que pegava a bola, Wade e LeBron em especial, ia pra cima com uma sede de jogo de 7 de final. E as defesas não aliviaram, indo para os tocos como se a teoria do Jeff Van Gundy estivesse valendo. Pra quem não viu no nosso Twitter, o ex-técnico e atual comentarista/comediante disse na última quarta-feira que achava que não deveria ter limites de faltas individuais na NBA. “As pessoas pagaram para ver o Dwight Howard jogar, não para vê-lo no banco”. Um argumento americano demais para o meu gosto, mas divertido.

Ainda no primeiro quarto, o Dwyane Wade destruiu a moral e honra do Anderson Varejão. Depois de um toco do Jermaine O’Neal no LeBron, o Wade puxou o contra-ataque e simplesmente ignorou a presença do brazuca por lá. Não temos nem um mês de temporada e essa enterrada, junto com a do Andre Iguodala e com a do Travis Outlaw já formam três fortes candidatas a enterradas do ano.


O primeiro quarto então acabou com uma infiltração do LeBron, uma bola de 3 do Wade e uma bola no estouro do cronômetro do LeBron. Um espetáculo, os melhores 18 segundos da temporada, provavelmente. Tá bom que nenhum time se dispôs a dobrar a marcação nas duas estrelas em momento algum, mas tá beleza, perdoamos em prol do show.

A partir do segundo quarto o jogo foi esfriando aos poucos com o Cavs no comando. É muito difícil ganhar do Cavs quando, além do LeBron, o Mo Williams está inspirado. Se ele continuar acertando bolas de longa distância como acertou nos últimos dois jogos já podem dar o troféu pra eles. Nunca vi o cabeça de azeitona jogando tanto como nos últimos dois jogos.

E foi por causa da qualidade do Cavs que o Heat não venceu. Apesar da derrota o Heat não jogou mal. No nosso preview da temporada dissemos que o Heat só tinha chances de melhorar em relação ao ano passado se seus jovens jogadores se superassem, já que não há nenhum nome novo no elenco. Pois o Michael Beasley, depois de uma offseason pra lá de tumultuada, digna de Delonte West e Golden State Warriors, está jogando muita bola. Parece que já está sabendo melhor como jogar sem ter tanto a bola na sua mão como tinha na faculdade.

Além dele o Mario Chalmers é um armador mais seguro do que no ano passado, embora muitas vezes ele seja discreto demais para poder dar espaço (e a bola) para o Dwyane Wade brilhar. Às vezes acho que o Heat poderia usar mais o Arroyo ao lado do Wade, para ser uma ajuda e deixar o Super Mario junto dos reservas, para comandar o show. Ele tem boa visão de jogo, sabe infiltrar, tem bom passe, é um desperdício deixar ele sem a bola.

Além dos dois, os veteranos estão mostrando um jogo melhor em relação ao da temporada passada. Não apostaria um centavo nisso há algumas semanas, mas Jermaine O’Neal, Udonis Haslem e Quentin Richardson estão mil vezes melhores do que no ano passado. O Haslem já fez 4 doubles-doubles em 8 jogos nessa temporada. Seus números são melhores nessa temporada, em que sempre atuou como reserva, que os da temporada passada, em que sempre foi titular e jogava até mais minutos.

O Jermaine O’Neal está corrigindo o grande problema do Heat na temporada passada, a defesa de garrafão. Ano passado ele tentou isso e acabou sendo o jogador que mais tomou enterradas na cabeça em toda a temporada, nesse ano está com mais sucesso e parece bem fisicamente, pelo menos até sua próxima contusão.

Por último o Quentin Richardson é candidato forte, ao lado do Erick Dampier, ao troféu Bobby Simmons de jogador que só joga em ano de contrato. Depois de ter passado por mais mãos que minha amiga Amanda do colégio, o Quentin finalmente ficou no Heat e agora parece que quer provar que tem algum valor na liga além de ser um salário expirante. Embora tenha ido bem mal no jogo de ontem (ir mano a mano com o LeBron não é matchup ideal para o rapaz), ele tem jogado bem.

O saldo final é que o Heat está vivendo a sua temporada pornô se formos seguir nosso método de preview da temporada. Mas como já dissemos lá, mesmo esse melhor caso só significa, no fim das contas, uma vaga na segunda rodada dos playoffs. O time é bom, joga bem, o Wade foi feito à imagem e semelhança do todo-poderoso (tem jogada mais mortal do que quando ele recebe a bola na linha de 3 e um nanossegundo depois está na cesta?), mas nem isso basta para o Heat brigar por coisa muito grande.

Nota: Coisa parecida com tudo isso que falamos do Heat pode ser dita sobre o Phoenix Suns. Eles estão bem, melhoraram mais que o esperado, mas ainda não estão a ponto de ameaçar nenhum dos grandes de cada conferência. O Suns não tem chance contra ninguém que tenha um pivô bom e que não caia na armadilha da correria. Ontem contra o Lakers foi um massacre com direito a show do Andrew Bynum.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Exilado no Canadá

Shawn Marion mostra o número de
meses em que jogará no Raptors


Existe um joguinho ocorrendo entre os dirigentes da NBA para se divertir um pouco que não tem necessariamente nenhuma relação com ganhar partidas de basquete. Numa espécie de "Jogo do Mico" da vida real, o último time que ficar com o Marcus Banks perde. O Celtics se livrou dele na grotesca troca com o Wolves pelo Olowakandi. O time de Minessota não renovou o seu contrato mas o Suns quis continuar a brincadeira (dirigentes são entediados, sabe como é), assinou o Banks e mandou ele para o Heat na troca do Shaq. Agora, Marcus Banks acaba de ser trocado de novo, dessa vez para o Raptors - junto com Shawn Marion. A equipe de Toronto, por sua vez, manda para Miami o Jermaine O'Neal e o campeão de força nominal, Jamario Moon.

O Banks praticamente não jogou em todas as equipes em que foi parar, mas seu valor como piada interna, como jogo secreto, é inegável. Talvez sem ele a troca não tivesse saído, já que era cogitada há muito tempo mas faltava alguma coisa para que finalmente ocorresse de fato. Resta agora saber para qual time o Raptors vai mandar o Marcus Banks, e quem vai morrer com o mico na mão. Aposto que alguns sites de aposta devem estar criando uns bolões agora mesmo. Levando em conta que os jogadores que vão para o Clippers costumam morrer ou encerrar a carreira, eu acho que o Banks morre nas mãos deles e todos os outros dirigentes da NBA vão se divertir e voltar aos seus afazeres normais (coçar a bunda, claro).

Dado meu palpite, é hora de falar dos jogadores secundários nessa troca: Marion e Jermaine O'Neal. Para o Heat, a troca era óbvia. O Shawn Marion não deu muito certo por lá, pra começo de conversa. Não que ele estivesse fedendo, longe disso, mas você não contrata a Monica Mattos pra ficar na sua casa lavando louça, por mais que ela deixe seus pratos brilhando. O Marion até fazia o serviço bem feito, mas o Heat trocou por uma grande estrela capaz de fazer estrago no Leste, coisa que não aconteceu. Como o contrato do Marion acaba ao fim dessa temporada, o Heat tinha duas escolhas: trocar o Marion por qualquer coisa, nem que fosse uma paçoca para não sair de mãos vazias, ou então renovar com ele e mantê-lo na equipe por vários anos. É como dizem, em time que está ganhando não se mexe, então o Heat - que não está ganhando porcaria nenhuma - não podia manter o mesmo elenco e achar que Joel "Quem?" Anthony iria tapar o buraco no garrafão. O mais irônico dessa história é que, com Dwyane Wade plenamente saudável, Mario Chalmers saindo melhor do que a encomenda, e Beasley melhorando seu jogo, tudo que o Heat precisava agora para ter chances no leste era de Shaquille O'Neal, aquele que estava em fim de carreira e eles trocaram por um Marion que não deu certo. O time do Heat é baixo, sem nenhum jogador no garrafão capaz de acertar o próprio nome, e sem defesa alguma debaixo da cesta. Como uma troca Marion por Shaq de novo seria admitir o fracasso, o jeito foi trocar pelo outro O'Neal, aquele que está sempre contudido e tem um contrato ridículo.

Eu era um baita fã do Jermaine quando ele chutava traseiros lá em Indiana, mas até para mim assinar um contrato de 126 milhões por 7 anos (uma média de 18 milhões por ano, mas que na verdade lhe paga 23 milhões em seu último ano de contrato) pareceu completamente débil mental. Havia potencial, ele era uma estrela, mas alguém se empolgou demais na hora de assinar os cheques. Com tantas contusões, lembrar quanto dinheiro o Jermaine vai enfiar nas orelhas beira o ridículo, mas ele ainda é um jogador impressionante, principalmente no setor defensivo. Infelizmente ele nunca mais recuperou o ritmo nos arremessos que uma vez teve no Pacers, mas ainda é ao menos competente na hora de pontuar. Acontece que ele e o Bosh na verdade têm estilos similares, ou seja, não gostam muito de jogar muito próximos da cesta, e o Raptors rende melhor quando apenas um deles está em quadra e a posição de ala de força vai para o Andrea Bargnani, que anda jogando cada vez melhor apesar do nome de miguxa.

Trocar o Jermaine era meio inevitável, portanto. O Raptors deu trabalho para o Orlando Magic na temporada passada e agora, após perder o porra-louca TJ Ford e adicionar Jermaine O'Neal (o que deveria ter melhorado o time, se o Universo fosse lógico), foi parar no grupo de piores times do Leste. E convenhamos, é mais difícil ser o pior time do Leste do que ser o melhor, porque a disputa é mais acirrada. Deixar como estava não podia, o Bargnani merece passar mais tempo em quadra, e o Jamario Moon não estava numa boa fase: após uma ou duas jogadas bastante idiotas, se queimou com o técnico e com o Chris Bosh, e chegaram a cogitar que ele perderia numa partida de damas para o Kwame Brown, dado seu intelecto não muito privilegiado. O Raptors, então, não sai perdendo muito e ganha uma possível estrela em Shawn Marion. Se ele vai ser o mesmo dos tempos de Suns não se sabe, mas se não funcionar o contrato dele acaba e pronto, dinheiro para o time de Toronto gastar contratando algum urso ou guarda florestal.

Boto uma fé no Marion por lá, no entanto. O manager do Raptors, Bryan Colangelo, foi o responsável por montar o Suns da era corra-por-sua-vida e parecia determinado a repetir a dose no Canadá. Com TJ Ford e Bosh, tinha as bases de um time veloz e desencanado dessa tal defesa, mas aos poucos o projeto foi se desvirtuando: o ex-técnico Sam Mitchell foi diminuindo a velocidade e o time quase que deu certo antes de desmoronar. Com a saída de Jermaine e Shawn Marion podendo jogar em sua posição natural, de 3, pela primeira vez nos últimos 50 anos, o Raptors tem tudo para impôr uma correria amalucada e é bem capaz que dê certo. Como todo jogador de basquete, o Marion vai querer escapar de Toronto bem rápido e jogar num lugar que exista de verdade, mas se tudo estiver dando bem certo por lá até consigo vê-lo reassinando com a equipe. O próprio Marion, que assim que ouviu a troca deve ter pensado em se matar, disse que agora está mais calmo e talvez renove seu contrato com o Raptors para a próxima temporada. Quer dizer, isso se alguém convencer o Bosh a ficar por lá também, já que vazou um depoimento dele praticamente contando os dias para se livrar do Canadá. O negócio é o seguinte: se o time de Toronto quer ser uma equipe minimamente relevante pela próxima década, essa segunda metade da temporada tem que ser perfeita. Tudo tem que se encaixar perfeitamente, em total sincronia, para Marion e Bosh continuarem por lá. Ou seja, acho que já era.

Os ares em Miami parecem bem melhores, em parte por causa de milhares de gostosas de biquini, mas também porque o Heat passa a ser uma força legítima no Leste se o Jermaine ficar saudável. Jamario Moon pode trazer defesa para a equipe se o Beasley continuar vindo do banco, mas mais para frente deve ser uma opção na reserva com Beasley titular. E Jermaine cuidará da defesa do garrafão - tudo que ele fizer além disso será lucro. Talvez seja um pouco tarde para contar com o Heat chutando traseiros nos playoffs, é preciso um pouco de química, de tempo, de saúde. Mas as chances nessa temporada são muito boas e, para a temporada que vem, talvez dê para considerá-los até um time de verdade. Só o que melhor fica por vir: o contrato do Jermaine acaba na já lendária temporada de 2010, então o Heat vai ter grana para reassinar o Wade com um contrato máximo e de brinde assinar outro jogador com um contrato similar. Se o Jermaine não der certo, abraço no cara e não esqueça de escrever. Ironicamente, em 2010 poderemos ver um Heat com Wade e Bosh, por exemplo. O que já dá para babar um pouco, e é bem mais realista do que feder por anos e ficar contando com a boa vontade do LeBron de mudar de time, não é mesmo, Knicks?

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Dia místico

Ora que melhora


Na noite de ontem, Saturno alinhou-se com Vênus e entrou na oitava casa de Capricórnio. Isso significa que, se você é de Gêmeos, é uma boa hora para reconsiderar seus planos de carreira. Se você é de Leão, é o momento certo para pegar uns gatinhos. E se você é um jogador de basquete, as forças cósmicas ajudarão que você tenha partidas absurdas.

Não há outra explicação para as atuações na rodada de ontem que não seja mística. Quer dizer, na verdade existam milhares de outras explicações, que variam de gnomos ao puro e simples acaso, mas nenhuma delas é divertida o bastante para valer como uma explicação pertinente. É como diz o conceito filosófico da "Navalha do Tiririca", dentre duas explicações para um acontecimento, a mais engraçada é sempre a verdadeira.

Ou seja, a astrologia tem tudo a ver com o Amaré Stoudemire fazendo 49 pontos, acertando todos os 15 lances livres que tentou, pegando 11 rebotes, dando 6 assistências, 2 tocos e ainda roubando 5 bolas. É claro, um garrafão composto por Troy Murphy e Jeff Foster defendendo deve ter alguma relação com a atuação do Amaré também, mas chegou um momento em que simplesmente não fazia diferença quem estivesse em sua frente - até porque, com aqueles novos óculos, suspeito que ele não consiga enchergar nada à frente do nariz e simplesmente bata para dentro do garrafão tentando enterrar a bola numa região em que ele imagina ser o aro. Nada mais explicaria sua agressividade, e o resto do Suns parecia estar se divertindo com a brincadeira, passando a bola para ele o tempo todo mesmo quando não havia muita razão lógica. Amaré recebia na cabeça do garrafão, quase na linha de 3, e mandava ver. Só a astrologia explica.

Enquanto isso, LeBron James também sentia as boas vibrações místicas e teve outro jogo inacreditável. Foram 41 pontos, 9 rebotes, 6 assistências e 4 roubos de bola. Mas o sensacional foi o modo com que ele conseguiu esses números. O Bulls colocou todo o elenco, em turnos, para marcar o LeBron. No intervalo, achei que fossem fazer uma promoção para sortear alguns torcedores e deixá-los tentar também. O mascote do Bulls só não foi marcar o LeBron um pouco porque fingiu ter dor de barriga. E LeBron James humilhou tudo que foi colocado em sua frente, sempre do jeito certo. Derrick Rose? Levou na força para dentro do garrafão. Ben Gordon? Empurrou com as costas, arremessando por cima do nanico. Drew Gooden? Saiu e arremessou próximo ao perímetro. Deng e Nocioni? Venceu na velocidade, driblando para dentro. Marcação dupla, tripla? Passes certeiros para seus companheiros, incluindo vários que Delonte West converteu sem pensar duas vezes - aliás, o garoto joga cada vez melhor depois de ter vencido a depressão. Eu estou acostumado com o LeBron que faz o que quer na quadra, mas não com um LeBron tão inteligente e cheio de recursos. Será que foi o seu tempo na seleção americana ou o alinhamento de Saturno com Vênus? Fico com a explicação astrológica.

Outros jogadores também aproveitaram as boas energias. O novato Superintendente Mario Chalmers cada vez mais se confirma como o armador titular do Heat, ele sempre dá um jeito de fazer alguma coisa útil em quadra. Tem dia que são arremessos de último segundo, tem dia que são assistências, em outros é a correria. Ontem, foram 9 roubos de bola. E mal deu pra perceber, afinal seu coleguinha Wade estava fazendo 29 pontos com 7 rebotes, 6 assistências, 5 roubos e 3 tocos. Ai.

Até uns jogadores "nada a ver" aproveitaram o momento, Nate Robinson acertou todas as 5 bolas de 3 pontos que tentou na partida entre Knicks e Bobcats, por exemplo. Não sei quem ganhou, não vale a pena ir conferir, estou muito ocupado cutucando o nariz, mas ouvi dizer que foi em New York e que o técnico Larry Brown foi muito vaiado. É bom ele se acostumar, se ele não seguir uns conselhinhos, vai começar a ouvir essa mesma trilha sonora lá em Charlotte também.

Até o Nenê teve um bom dia, com 19 pontos, 15 rebotes, 3 tocos e todos os 7 lances livres acertados, algo que rompeu toda a estrutura normal do espaço-tempo. Em algum lugar do mundo, como consequência, nasceu um bezerro de duas cabeças. Ou outra Mallu Magalhães. Mas, astrologia à parte, o Nenê teve boas partidas de vez em quando - só é uma pena que ele não jogue contra o Warriors todos os dias. Ainda vale um post mais científico a respeito, mas todo jogador de garrafão que joga contra o Warriors e é marcado pelo Biedrins tem a melhor partida de sua carreira.

Mas nenhum jogador foi tão ajudado pelo movimento das estrelas ontem quanto Tony Parker. E eu nem estou falando dos movimentos que a estrela que ele tem na cama, a Eva Longoria, deve fazer todas as noites (aliás, parei para procurar e colocar a foto ali do lado por motivo algum, simplesmente porque eu mereço). Os astros influíram numa noite espetacular do armador francês que evitou mais uma derrota vergonhosa. A ajuda, convenhamos, era mais do que necessária.

Foram 55 pontos, 10 assistências, 22 arremessos certos em 36 tentados, 2 bolas de três pontos convertidas em 3 tentativas e 9 de 10 lances livres feitos. Surreal. E, ainda assim, não foi o bastante para que o Spurs escapasse de uma segunda prorrogação. Contra o Wolves. Não, tô falando sério, contra o Wolves. Tá, pode parar de rir agora.

A atuação cósmica do Tony Parker evitou a quarta derrota seguida do Spurs em quatro jogos, o que em algumas culturas significaria que eles se chamam Los Angeles Clippers. Então talvez seja hora de se preocupar.

Não vale nem a pena dizer que o Manu Ginóbili está fazendo falta, isso seria tão óbvio quanto dizer que a Alinne Moraes é a senhora do Universo conhecido, mas supostamente o Spurs deveria ser um time profundo com o melhor ala de força da história humana, um dos cinco melhores armadores que já comeram uma estrela de televisão e um banco experiente. Então, como isso não parece estar se comprovando, talvez seja a hora certa para admitir umas verdades incômodas. A primeira é que o Duncan é um ser humano, não um ciborgue construído pelo governo dos Estados Unidos, e como ser humano ele perde partidas quando o resto do time fede, ganhando quando tem apoio do resto do elenco. Uns anos atrás todo mundo diria que o Garnett era um bosta porque não ganhava nada, mas vejam só, acho que está meio óbvia a importância do resto do grupo, não? Pra mim, o mesmo vale para o Iverson, mas disso a gente fala depois (e comprova em breve, também).

A outra verdade que devemos considerar é que a tal da "experiência" é um eufemismo para "velho pra caralho, caindo aos pedaços, cheirando a poeira por debaixo das rugas". Na hora de juntar as peças complementares, o Spurs nunca pensou no futuro e prefere jogadores vividos que sobrevivam ao menos durante uma temporada. Ao fim dela, acham outras peças. Jacque Vaughn, Kurt Thomas, temporada passada tinha até o Damon Stoudamire, e não dá pra esquecer do atual titular Michael Finley. Por isso, um tempo atrás, quando o Spurs resolveu assinar o ala Ime Udoka, fiquei muito assustado. Ele estava se destacando naquele Blazers em reconstrução e é um excelente jogador defensivo cuja especialidade são os arremessos de 3 pontos da zona morta. Jogador defensivo que arremessa da zona morta, isso lembra alguma coisa, crianças? Naquela hora, um arrepio passou pela minha espinha: sem quase ninguém perceber, o Spurs havia contratado o próximo Bruce Bowen, o Bowen do futuro. Parecia um projeto de renovação. Em represália, em algum lugar do mundo nascia um macaco albino, e mais um filho do Pelé.

A tendência não se confirmou. O Spurs continuou se livrando das suas escolhas de draft, mandou o Luis Scola de graça para o Rockets (quem está agradecido levanta a mão) e manteve a caça anual por peças de reposição. Essa é uma mentalidade de quem acha que seu núcleo vai vencer para sempre e que Duncan dorme num pote de formol, algo digno da franquia mais vencedora do mundo dos esportes na última década. Mas é uma postura não muito inteligente para os próximos anos e o primeiro sintoma podemos acompanhar agora. Sem uma das estrelas, o time não tem profundidade, ânimo, criatividade ou jogo físico. Roger Mason Jr. foi pego esquecido e fedendo num albergue e está jogando muito pelo Spurs, fazendo seus pontos e sendo a única presença do banco de reservas. O calouro do time, George Hill - escolha de draft que o Spurs finalmente resolveu manter - é até que um reserva sólido. O Udoka está lá, treinando com armas brancas para ser o Bowen do século XXI. Mas se tem uma coisa de que o Spurs precisa é sangue novo, gente atlética, novas caras, uns novatos, qualquer consideração que seja pelo futuro.

Duncan e Parker ainda são dois dos melhores jogadores da NBA, mas às vezes isso não é o bastante. E, definitivamente, isso não pode durar para sempre. Se o Parker tiver que fazer 55 pontos toda vez que eles quiserem ganhar do Wolves, esse negócio não vai dar certo. Só que, como disse o Denis numa conversa um dia desses, sem o Spurs essa tal de NBA vai perder grande parte da graça - seja pra quem torce a favor, seja pra quem torce contra. Então, deixo meus votos de que o Ginóbili volte logo. E de que o Spurs pense um pouco no restante do elenco, ao invés de se contentar, ano após ano, com simples peças de reposição. Quem sabe eles ficam com uma escolha de draft pelo segundo ano seguido? Vai ser um belo começo.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

O jogo certo

Se depender do Spurs, essa imagem vai ficar gravada na sua retina


Ontem, segundo dia da temporada regular, foi realmente o início para a grande maioria dos times. Foram doze jogos na rodada e, com a saudade de NBA apertando o peito, a vontade era assistir a todas as partidas. Impossível, claro. Foi-se a época em que a escolha de que jogo assistir ficava delimitada às decisões das televisões brasileiras (o que em geral significava que o jogo a se assistir era "nenhum"), já que a internet permite muitas possibilidades. Mas então, com trocentas partidas rolando em horários muito próximos, qual diabos eu iria escolher?

Na última semana, fizemos os previews para ajudar nessa árdua escolha, apontando os motivos para assistir ou não assistir cada um dos times. Ponderei um pouco com isso em mente e resolvi que veria o maior clássico do basquete moderno, Suns e Spurs, que começaria em pouco.

Verdade seja dita, a saudade era tanta que assisti um bom pedaço de Sixers e Raptors só porque foi o primeiro jogo a começar. Respirei aliviado apesar do jogo meia boca. Para se ter noção, até das propagandas idiotas de comida, carros, cortadores de grama e empréstimos eu estava com saudade (só não fiquei muito feliz com uma propaganda nova da Nike que é nitidamente um plágio do nosso primeiro vídeo, os advogados do Bola Presa estarão entrando em contato com eles, safados - mas quero só ver a Nike ter os bagos necessários para plagear nosso próximo vídeo, atualmente em fase de edição).

Resolvi assistir ao Spurs enfrentado o Suns em seguida, e como resposta à afirmação de Shaq de que "Gregg Popovich e o Spurs vão pagar muito caro nessa temporada por fazerem faltas intencionais" o Popovich mandou o Finley fazer uma falta intencional em Shaq logo na primeira bola do jogo. Ninguém entendeu nada e então o técnico Gregg Popovich acenou bem-humorado no banco de reservas. Como assim o Spurs demonstrou senso de humor? Tantos jogos acontecendo mas eu preciso ver esse, é capaz até que em algum momento da partida o Duncan venha a dar algo que lembre de longe um sorriso!

Ah, quem estou querendo enganar? Escolher um jogo para assistir é uma tarefa impossível, basta alguns segundos sem acontecer nada e você começa a se perguntar o que estará acontecendo nas outras partidas. Cesta chata do Duncan, lance livre do Shaq... diabos, meu Houston vai estrear em minutos. Um ser humano não deveria ser obrigado a fazer escolhas desse tipo. Decidir se um ser humano deve ou não morrer nem se compara às nuances de um fã de NBA frente a uma rodada diversa. Vozes silenciosas ecoam dentro da cabeça, tentando seduzir. Deve ser como descrevem abstinência de cocaína.

E foi assim que eu não vi o Suns finalmente vencer o Spurs, que sentiu muito a falta de Ginóbili. Não vi o Warriors usar o Stephen Jackson como armador principal o tempo inteiro, justo contra o Chris Paul, e a experiência quase dar certo o bastante para roubar uma vitória. Não vi a Guerra Fria de Pacers e Pistons, com o "Granny Danger" chutando traseiros e o Pistons saindo com a vitória aos bocejos. Não vi o Knicks porra-louca do D'Antoni ter uma partida sensacional, com Zach Randolph e David Lee jogando cada vez mais e Marbury e Curry fazendo tricô no banco de reservas, contra um Heat em que Mario Chalmers jogou como profissional e o Beasley demorou para engrenar. Ao invés, eu vi meu Houston Rockets enfrentar a porcaria do Grizzlies.

É claro que eu estava ciente do absurdo, talvez fosse o jogo mais esquecível de toda a rodada. Estava me sentindo um fraco, um tolo, até que na primeira posse de bola do Grizzlies o Artest roubou uma bola e fez uma bandeja no contra-ataque. Na segunda posse de bola, outro roubo do Artest. Então eu fiquei de pé, gritei algumas coisas em uma língua arcaica e não me arrependi mais nem por um segundo de ter escolhido aquele joguinho meia boca.

Estamos muito acostumados com o futebol, com ter um time desde que nascemos e para o qual torcemos sem nunca nos perguntarmos realmente o porquê. Mas com NBA, a coisa é um pouco diferente. Nenhum de nós nasceu no Texas ou em Chicago, nossos pais não nos levaram para ver o Magic Johnson jogar. Nossas mães não compraram macacões para nenê com o símbolo do Sonics, nenhum de nós alopra torcedores do Grizzlies quando vai para a escola como alopraria torcedores do Corinthians na época do rebaixamento. Na esmagadora maioria dos casos, a NBA não está em nossa cultura, em nossa criação. Quando começamos a assistir aos jogos, não tínhamos time algum.

O engraçado é que eu assisto jogos do São Paulo, sou moderadamente informado sobre futebol. Mas não assistiria uma partida entre Ameriquinha e Guarani. O gosto pelo meu time é maior do que o gosto pelo futebol em si. No caso da NBA, eu não perderia um jogo entre Grizzlies e Wolves de modo algum se fosse o único à disposição. Qualquer partida é fascinante, todo jogo é imperdível. Se não fosse assim, provavelmente eu não teria um blog sobre basquete e NBA.

Seja nos lendários tempos das transmissões de basquete na Bandeirantes, na finada Globo.com ou na persistente ESPN, os jogos são impostos e não há como acompanhar um time a fundo. Um torcedor do Bulls pode ter passado os últimos anos sem ver seu time jogar, por exemplo. Mas nem por isso deixa de acompanhar a NBA. Há algo mágico em simplesmente acompanhar o esporte. Quando perguntam pra mim por quem estou torcendo num duelo entre Bucks e Nets, a resposta é que não estou torcendo por ninguém. E mesmo assim eu vibro, aplaudo, degusto e me emociono.

Ou seja, eu não precisava ter escolhido um time para torcer. Mas escolhi. Eu não nasci em Houston, meus pais acham que basquete é aquela coisa em que eu desperdiço minha vida, meus colegas acham que NBA é uma pronúncia errada para "Master in Business Administration". Mas escolher um time torna as coisas mais intensas, mais doídas, mais pessoais. O que antes fora uma decisão consciente de "torcer praquele time vermelhinho do Olajuwon" agora me faz perder os melhores jogos da rodada para acompanhar a porcaria de um Houston Rockets contra Memphis Grizzlies.

Por isso, sempre digo que a competição dentro do esporte é - apesar de um fator fundamental do próprio conceito - totalmente secundária. O esporte pode ser apreciado sem que haja torcida, sem que haja competição, você pode amar e idolatrar o esporte no andamento de uma partida sem querer que nenhum lado em particular saia vitorioso. Mas a competição, adotar um time e vibrar e sofrer por ele, é um tempero a mais, um gostinho diferente em toda a brincadeira. Eu estava mais interessado em saber como T-Mac, Artest e Yao Ming jogariam juntos do que em qualquer outra coisa no mundo. A Alinne Moraes me ligou algumas vezes durante a partida, mas tive que mandá-la esperar. Coitada, até que é uma boa moça.

Quando alguém defende o hack-a-Shaq, a técnica de fazer faltas intencionais no Shaquille O'Neal para levá-lo para a linha de lances livres - onde ele fede -, diz que o importante é a vitória, que está dentro das regras. Isso é fato. É uma visão justa para um torcedor do Spurs, alguém que abraça o time intensamente, que torce e sofre e vibra pela equipe. O hack-a-Shaq enfeia o jogo, é coisa de criança, não deveria valer, é uma tática trazida por alienígenas malignos, deus castiga, coisa e tal. Mas como mostrar isso para alguém que não nasceu em San Antonio mas adotou o time para chamar de seu? Como argumentar para mim, na noite de ontem, que era muito mais importante ver outros jogos bacanudos ao invés do Yao fazendo 21 pontos com 10 rebotes, Artest com 16 pontos e 3 roubos e T-Mac com 16 pontos e 5 assistências? Não dá.

Mas é importante tentar manter a consciência de que existe algo maior do que isso: o basquete em si. Estamos no segundo dia de uma temporada que terá dezenas de jogos porcaria com o Bucks, por exemplo. Eu verei muitos deles, por amor ao basquete. Não deixemos que algumas atitudes, portanto, prejudiquem o esporte. Torço para que, pela temporada enorme que nos aguarda, o hack-a-Shaq continue só na piada. E que o Popovich não corte a barba, porque de algum modo ele está me lembrando uma versão grisalha do Capitão Haddock, do Tintin.

sábado, 12 de julho de 2008

Amores de verão

Marcin Gortat joga muito, mas nem sua mãe desconfiava


Enfim, chegamos ao fim da primeira Summer League, a de Orlando. Antes de passarmos para a próxima, a de Las Vegas, e dizer que a de Orlando é "muuuuito semana passada", vamos dar uma olhadinha nas últimas atuações relevantes e destacar, ao mesmo tempo, os melhores jogadores desse torneio fundo-de-quintal.

Infelizmente, nos últimos dias não pudemos mais conferir as atuações de Derrick Rose. A primeira escolha do draft estava assumidamente jogando com dores no joelho e depois de feder em duas partidas, resolveu se poupar um pouco. Se da contusão ou das críticas, isso não se sabe. Prefiro não opinar.

Já a escolha número dois, Michael Beasley, que teve um fantástico primeiro e um horrendo segundo jogo, encerrou sua participação com duas atuações imponentes. Foram 19 pontos e 5 rebotes (8 arremessos certos em 16 tentados) e, na partida final, 25 pontos e 8 rebotes (8 arremessos certos em 19 tentados). Ou seja, o calouro não teve vergonha nenhuma de arremessar, intenção alguma de passar a bola ou defender, e se jogar assim quando a coisa estiver valendo, vai ser realmente o irmão de um universo paralelo do Carmelo Anthony. Com exceção dos rebotes, porque Beasley mostrou um excelente posicionamento no garrafão e parece capaz de pegar trocentos rebotes ofensivos, coisa que o Carmelo deve achar q dá muito trabalho. Aliás, sei que tem muita gente preocupada com a questão da altura, mas uma dupla de alas composta por Beasley e Shawn Marion não terá muitos problemas. Além de que não é como se Marion nunca tivesse jogado num time baixo antes, convenhamos.

Outro destaque da última semana foi Jeff Green, que simplesmente não parou um segundo de cobrar lances livres. Bastava pegar um jogo pela metade, ver um cara na linha de lances livres e adivinhar: "Ah, deve ser o Jeff Green." Tiro e queda. Sua agressividade e experiência foram demais para a pirralhada, que só soube descer a lenha contra o ala. Mesmo quando estava fedendo em sua última partida, acertando apenas 3 de 10 arremessos, cobrou 16 malditos lances livres, acertando 13. Se você acha que assistir a um jogo do Spurs é lento, tente ver um jogo de Summer League do time outrora conhecido como Sonics e veja o cronômetro parar dez mil vezes toda vez que o Jeff Green tomar uma pancada. Um porra, claro, mas mérito dele. Pensei em me suicidar várias vezes, comecei a jogar campo minado no computador, bati vários recordes, e devo tudo a ele.

Entre os armadores, os melhores foram Mario Chalmers e Russel Westbrook, ambos muito agressivos e decididos em quadra. Westbrook mostrou melhor pontaria, enquanto o Superintendente Mario Chalmers mostrou-se melhor na defesa e batendo para dentro do garrafão. Outros armadores que merecem destaque são o Chris Douglas-Roberts, que todo mundo sabia que ia ser uma estrela mas mesmo assim ninguém draftava (vai entender!) e que deve ser titular no Nets, e o Courtney Lee, que vai brigar pela vaga com o novo contratado, Mickael Pietrus. Lee meteu 30 pontos (acertando 12 lances livres) para se despedir da Summer League em grande estilo.

Todos esses jogadores mostraram estar num outro nível, bem acima do resto dos competidores tentando uma boquinha num time da NBA. Mas acho que nenhum jogador, nem mesmo Michael Beasley, dominou tanto os jogos quanto o novato do New Jersey Nets, o pivô Brook Lopez. Ele foi pegando o jeito aos poucos, teve uma excelente segunda partida, mas dominou completamente nas duas últimas. Foram 23 pontos (9 arremessos feitos em 15 tentados) e 5 rebotes enfrentando Joaquim Noah, e o estrago poderia ter sido ainda maior se o Lopez não tivesse descansado tanto. Noah não teve nenhuma chance e o Bulls precisa entrar em pânico agora mesmo: seu futuro garrafão titular, composto por Tyrus Thomas e Joaquim Noah, foi dominado por Beasley e Lopez, dois novatos. É claro que a dupla do Bulls também é nova, mas justamente por isso é muita crueldade exigir que contribuam imediatamente contra a elite da NBA, principalmente na defesa. Brook Lopez, que não tem nada com isso, chutou traseiros e depois terminou sua participação no torneio com 25 pontos em 8 arremessos feitos em 13 tentados, além de 4 rebotes.

Pra mim, o Brook Lopez foi a estrela dessa budega. O número de rebotes foi baixo para um pivô, claro, mas leva tempo para se acostumar com o posicionamento e, além do mais, rebote em Summer League é uma coisa esquisita. Os arremessos costumam ser tão precipitados, de tão baixo nível, que em geral acabam resultando em falhas grotescas que geram rebotes muito longos ou curtos demais. Por isso, é mais comum ver rebotes caindo nas mãos de armadores ou virando rebotes ofensivos, algo que não favorece as estatísticas dos pivôs. É claro que o Lopez ainda é um pouco lentão e vai ganhar velocidade com alguns anos de treinamento de alto nível na NBA, mas para o Nets já está ótimo, muito melhor do que a encomenda. O Nets sequer sentia o cheiro de um pivô de verdade há meio século, então qualquer coisa que lembre um homem de garrafão já é lucro. Se o Kidd estivesse por lá, veríamos lágrimas escorrendo de seus olhos.

Com Mario Chalmers, Westbrook, Jeff Green, Beasley, Chris Douglas-Roberts, Courtney Lee e Brook Lopez, falamos de todo mundo que merecia atenção nos últimos dias. Exceto por uma pessoa, o ganhador do nosso Troféu Lonny Baxter da Summer League de Orlando.

Damos o Troféu Lonny Baxter para o melhor jogador quando não está valendo nada, aquele cara que chuta traseiros durante as Ligas de Verão ou pré-temporada e, durante a temporada regular, não faz muita coisa. Nas Summer Leagues do ano passado, vimos Louis Williams e Bostjan Nachbar serem cotados para o prêmio. Dessa vez, quem chamou a atenção foi Marcin Gortat. Além das partidas iniciais, que comentamos antes, Gortat encerrou sua participação em Orlando com dois jogos incríveis. No primeiro, foram 18 pontos (9 arremessos feitos em 13 tentados), 11 rebotes e 4 tocos. Surreal, não? No segundo, pra terminar, foram 16 pontos e 12 rebotes. O suficiente para deixar todo mundo impressionado e depois ele nunca mais colocar os pés numa quadra de basquete. Se bem que, como nosso leitor Fiel comentou num post anterior, Gortat tem mesmo tudo para ganhar minutos como reserva do Dwight Howard, aqueles dois ou três por partida quando o Super-Homem está com problemas de faltas. Seja como for, vai ser bem melhor do que depender de sujeitos como Adoynal Foyle ou Tonny Battie.
Com isso, meninos e meninas, encerramos nossa passagem por Orlando. Agora, vamos direto para Las Vegas dar uma olhada na Summer League rolando por lá, dessa vez envolvendo muito mais times (e muito mais novatos!). Em breve, aqui no Bola Presa, uma análise detalhada do que está rolando por lá e dos ganhadores de mais Troféus Lonny Baxter. Não dá pra perder!