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segunda-feira, 9 de maio de 2011

Fim da linha

Bynum tenta abraçar Barea para dar parabéns pela vitória

Eu sei que o último post foi sobre o Lakers e que algumas pessoas vão se irritar que falamos sobre eles de novo. Mas podem ter certeza que dessa vez é a última pra valer. O atual campeão está eliminado, varrido pelo Dallas Mavericks e só joga na temporada que vem, que nem sabemos quando começa. Mas é que a repercussão da derrota categórica do Lakers na série, 4 a 0, e no jogo 4, 122 a 86, está rendendo mais comentários do que qualquer outra nos últimos anos. São todos os tipo de espécimes achados na fauna torcedorística: os indignados, os que colocam a culpa em tudo, os conselheiros da ONU que só querem saber da paz entre os atletas, os piadistas, os torcedores adversários, os Kobe-haters, os Kobe-lovers, os que sempre vão achar que o Lakers perde só para si mesmo, as viúvas de Phil Jackson, os que querem explodir tudo e começar do zero, os que culpam a arbitragem e por aí vai. Sério, ficar bem do lado de fora e só ver o circo pegar fogo pode ser uma experiência interessante sobre o comportamento humano diante de eventos que não podem controlar.

Vamos ter outras chances de comentar o Dallas Mavericks, no mínimo mais uma série, mas antes de falar do Lakers temos que lembrar que eles jogaram contra outra equipe de basquete e ela jogou bem demais. Eu sempre digo que vitórias muito expressivas em um jogo não são só mérito de um time e nem demérito de outro, diferenças de quase 40 pontos são uma soma das duas coisas, o mesmo vale para varridas em séries inteiras. Se só o Dallas fosse melhor a série poderia ter sido 4 a 2, se só o Lakers tivesse mal e o Dallas não espetacular poderia ter sido 4 a 1, sei lá, mas quando as duas coisas acontecem ao mesmo tempo dá no que deu. O Lakers foi superior mesmo nos três primeiros quartos do jogo 1 e durante pelo menos metade do jogo 3, só.

O interessante é que é muito normal um time começar uma série mais forte e o outro mudar algumas coisas, deixar mais difícil e aí o outro time responde e essas pequenas mudanças táticas ou de atitude que deixam uma série divertida. É o Zach Randolph e o resto do garrafão do Grizzlies dominando o jogo 1, sendo anulado no 2 e vencendo o 3 na série contra o Thunder. Ou o Celtics tomando pau em dois jogos para, em casa, vencer com um armador de um braço só. E isso é que decepcionou nessa série entre Lakers e Mavs, a série começou com uma estratégia tática do Dallas, o Lakers não conseguiu responder e a série acabou. Histórico para a NBA, sensacional para os torcedores do Mavs, mas uma série bem desinteressante de assistir.

A análise tática pode ser vista um pouco no nosso último post e nesse excelente texto do Fábio Balassiano em seu blog. A defesa do Mavs forçou os arremessos de longe, impediu a entrada da bola no garrafão (Kobe só fez uma bandeja e nenhuma enterrada em toda série!!!) e forçou o Lakers a arremessar, mas as bolas nunca caíram e a série acabou. Funhé. Fim de papo. Mas aí começa a parte difícil de aguentar e de responder: De quem foi a culpa e o que mudar para o ano que vem.

Culpa, antes de mais nada, do Rick Carlisle que reconheceu uma deficiência no jogo do Lakers e a explorou. Culpa também de enfrentar um garrafão que tinha defensores bons o bastante para segurar Gasol e Bynum, coisa que boas duplas como Perkins e Garnett, Boozer e Millsap ou K-Mart e Nenê não conseguiram no passado. Mas ok, ok, tem gente aí querendo tacar pedras, então vamos lá.

O Pau Gasol não jogou nada e ele admitiu isso, ao final da série disse: "aprendi a não deixar problemas de fora da quadra interferirem no meu jogo". Não sabemos exatamente do que ele está falando, mas as Sônia Abrão e os Nelson Rubens dos EUA afirmam que a história é a seguinte: Pau Gasol queria que sua namorada fizesse mais amigos em Los Angeles, ela então começou a sair com Vanessa Bryant, mulher de Kobe. A senhorita Bryant, porém, teria dito coisas sobre os bastidores do Lakers que teriam feito a namorada de Gasol dar um pé na bunda dele. Gasol então culpou Kobe por falar demais para a sua mulher e o clima teria ficado péssimo. Não sabemos se isso é verdade, de confirmado só a frase do Gasol dizendo que algo na vida pessoal dele tirou o foco do basquete. Só que eu preciso realmente me dar ao trabalho de responder todos os torcedores que estão xingando ele? Sério? Como disse um cara gringo no Twitter, "Quem reclamar do Gasol e exigir trocas merece ter Kwame Brown e Smush Parker de volta". Se o Lakers é um time de elite hoje é porque o espanhol chegou por lá.

O próximo alvo é Kobe Bryant, claro. E aqui mais do mesmo: "Ele deveria ter carregado o time nas costas", "ele não envolveu os companheiros", "ele não é capaz de carregar o time nas costas" e todo aquele papo que eu escuto desde que ouvi o nome de Bryant pela primeira na vez na vida. Sinceramente, Kobe teve nessa série os mesmos defeitos e qualidades que teve durante toda a temporada e durante boa parte da carreira, nada de novo. O que acontece é algo que pode surpreender muita gente: não se ganha ou perde jogos sozinho. Mas ei, shhh, não conta esse segredo pra ninguém, poucos sabem. Outro segredo de bônus para os assinantes VIP: Kobe Bryant não é o centro do universo, coisas podem acontecer sem que ele esteja diretamente envolvido.

Próximo tópico: O Lakers não sabe perder. Primeiro foi a falta dura de Ron Artest sobre o JJ Barea no jogo 2 e ontem duas expulsões, Lamar Odom e Andrew Bynum. Ambos, com o jogo já perdido faz tempo, fizeram faltas covardes sabendo que seriam mandados para fora do jogo. Coisa de gente nervosa, frustrada, que não sabe perder e que certamente merece e terá punição. Mas que note-se a diferença: Ron Artest ficou claramente arrependido e decepcionado no mesmo segundo que fez a falta, Odom e Bynum saíram com ares triunfantes de "foda-se o mundo, eu bato mesmo". Então por favor, xinguem o Artest por jogar mal, por não conseguir ser nessa série o bom defensor que geralmente é, o critiquem por não saber arremessar mesmo depois de uma década como profissional, mas não venham com o papo de que ele nunca mudou e pra sempre será um bad boy. E outra coisa, Kobe e outros jogadores do Lakers foram, depois do jogo, atrás de Barea para pedir desculpas por Bynum e perguntar se ele estava bem. A atitude idiota de uns não quer dizer que o time inteiro não sabe perder.

Alguns estão colocando a culpa dessas agressões no Phil Jackson, já que o comportamento dos jogadores em quadra deveria ser controlado pelo técnico. E isso vale principalmente para o Bynum, já que o Odom tinha sido expulso antes e dado uma razão para Phil chamar todo mundo de canto e dizer para eles se acalmarem. Mas quem diz isso nunca viu o Zen Master em uma partida de basquete. O Phil Jackson é o oposto daquela sua ex-namorada controladora e acha que os jogadores são homens adultos com capacidade de aprender sozinhos, se for pra chutar eu diria que Phil acha que o Bynum aprendeu e amadureceu mais sendo o vilão idiota e imaturo da noite do que se tivesse tomado só um puxão de orelha no banco de reservas. É como quando ele vê o seu time errando sem parar e não pede tempo para que eles aprendam a se virar sozinhos. Para um torcedor em desespero essa atitude pode parecer suicida, mas a longo prazo sempre vemos os times dele como um dos mais autoconfiantes da NBA. Autoconfiança que facilmente vira frustração se os resultados não confirmam sua expectativa, diga-se de passagem.

Se o Phil Jackson errou nessa série foi ao não conseguir mudar o time taticamente para conseguir furar a defesa do Dallas Mavericks, mas quando a coisa chega ao ponto que seus jogadores não acertam um arremesso sem marcação, a coisa complica pra qualquer técnico. Não diria nem que Phil Jackson errou, mas que ele só não conseguiu ser fora de série como sua fama e história sugerem. História essa que acabou na humilhante derrota de ontem, como prometido antes da temporada ele é agora um senhor aposentado. Até cheguei a pensar que talvez Phil Jackson ficasse envergonhado em sair de cena desse jeito e pensasse em continuar, mas logo mudei de idéia. Lembrei de Michael Jordan e Yao Ming: Jordan teve o final de carreira mais cinematográfico que alguém poderia imaginar, um arremesso vencedor depois de um drible desconcertante em um jogo de final da NBA, e mesmo assim não ligou de voltar, velho e sem metade do físico anterior, para jogar em um time horrível e passar dois anos sem ver a cara dos playoffs. Era a vida dele, a vontade dele e o cara foi lá e fez. Se alguém está preocupado com legado, imagem e em endeusar alguém somos nós, não eles. Mesma coisa com o Yao Ming respondendo aos tristes com sua centésima contusão que ele está bem, vivo e feliz. Imagino o Phil pensando da mesma forma, ele queria se despedir com um título (quem não quer?), mas não deu, paciência, hora de ir pra casa, descansar, fazer sexo e fumar charuto.

Ou seja, tentamos dar muita importância para essa derrota do Lakers mas os motivos são meio tolos. São muitos torcedores a favor, muita gente contra, muita expectativa sobre nomes como Kobe Bryant, Pau Gasol e Phil Jackson e aí tudo o que acontece fica muito grande. Mas o Kobe perde como outros jogadores perdem, o Lakers perde por motivos que outros times perdem. E esse pensamento é importante na hora de pensar o futuro da equipe, se fosse outra equipe, com menos pressão e atenção em cima, alguém pensaria que é hora de destruir tudo e começar do zero?

Eu acho que não. O Andrew Bynum e o Pau Gasol tiveram momentos ótimos na temporada e são claramente talentosos, com saúde física para um e mental para o outro podem ser a melhor dupla ofensiva da NBA. Kobe Bryant aos poucos vai perder mais e mais sua potência física, mas ainda faz muito estrago. Lamar Odom foi o melhor reserva da temporada com méritos. Ron Artest não jogou bem na maior parte do ano, mas em determinados momentos também foi ótimo, talvez seja o caso de procurar um titular para que ele fique no banco, mas trocá-lo seria não só tolo como inviável. Quem jogou mal durante quase o ano todo e precisa de mudanças é o banco de reservas, o Steve Blake foi a maior decepção do mundo pra mim, o Matt Barnes não fez grande coisa e chegamos a um ponto triste da nossa vida como torcedor quando ficamos sonhando em ter Vlad Radmanovic ou Sasha Vucjacic no banco só para acertar pelo menos uma bolinha de três num jogo. Só não me venham com esse papinho de torcedor megalomaníaco do Lakers de "Por que não trazemos Deron Williams e Dwight Howard?". Se fosse tão fácil eles não estariam esperando perder para o Mavs para contratar os caras, acreditem.

Eu sei que tem gente que vai discordar, que vai dizer que os adversários já sabem os defeitos do Lakers e que o time está velho. Para esses eu digo, de novo, olhem para o outro lado da quadra, o Lakers não joga sozinho. Para quem eles perderam? Para um time velho, que perdeu anos seguidos na primeira rodada e que toda temporada decide adicionar peças ao seu bom grupo ao invés de se desesperar e explodir tudo. Me parece um bom exemplo a ser seguido.

sábado, 9 de abril de 2011

Um post soft

Quem chama o Gasol de soft ganha esse olhar


Menina adolescente morre de raiva de quem tenta rotulá-la. O rótulo colocado nas pessoas já rendeu tantos perfis de Orkut e status de MSN que daqui a pouco já ultrapassa a falsidade como grande problema da juventude feminina contemporânea. Pois a NBA, esse mundo maduro e com discussões ricas e essenciais para a vida humana, também sofre com esse terrível mal do mundo atual. Jogadores ganham rótulos e se livrar deles é tarefa árdua, às vezes impossível.

O Zach Randolph é um caso raro de sucesso nessa reversão de imagem. Ele era o maior exemplo de como um jogador poderia ser talentoso e mesmo assim um desastre, era fominha, egoísta, forçava arremessos e só defendia se soubesse que poderia ganhar um Big Mac no final. Mas depois de ser motivo de ódio e piada no Blazers, Knicks e Clippers, milagrosamente se achou no Memphis Grizzlies, onde passou a liderar a NBA em rebotes ofensivos, foi para o All-Star Game e nesse ano lidera o time (já há um bom tempo sem Rudy Gay) para sua primeira aparição nos playoffs desde 2005. Não foi fácil, ele precisou de mais de um ou dois meses jogando bem para reverter aquela imagem horrível que tinha, é só com muita disciplina e regularidade que hoje ele é respeitado.

Porém, geralmente não é assim. O exemplo que inspirou esse post é que nas últimas semanas o Amar'e Stoudemire e o Kendrick Perkins voltaram a chamar o Pau Gasol de "soft", o mesmo termo usado em 2008 para explicar porque o Los Angeles Lakers foi derrotado pelo Boston Celtics nas finais daquele ano. O termo em si já é amplo e difícil de explicar, literalmente "soft" pode querer dizer macio, mole ou suave, no mundo basqueteiro é usado para descrever os jogadores que tentam evitar contato físico, que preferem ganchinhos e arremessos ao invés de infiltrações e trombadas. Às vezes caras meio lentos ou desengonçados acabam ganhando o rótulo também porque nunca ganham bolas divididas ou aqueles rebotes mais brigados. Essa questão me inspirou duas perguntas, a primeira é bem simples: O Gasol é mesmo soft?

Atualmente o Pau Gasol é o sexto melhor reboteiro da NBA. Pegar rebotes na NBA não é fácil, além do tempo de bola e da técnica, você precisa usar seu corpo e toda sua força para se posicionar na frente dos gigantes pivôs adversários. Mais difícil que pegar rebotes em geral é pegar os ofensivos, onde, pelo posicionamento de ataque, o jogador geralmente está em desvantagem se comparado ao defensor. Pois o Gasol é o quinto melhor da NBA nesse aspecto. Como o Yao Ming provou por muito tempo, altura não basta para ser um bom reboteiro, então isso não explica os números do Gasol. É preciso muita coisa e entre elas, força. O Gasol também é bem posicionado em tocos, 14º lugar, à frente de especialistas como Josh Smith e Samuel Dalembert, e os tocos são a parte mais física da defesa de um pivô, é quando o cara sobe junto do atacante e seja o que deus quiser. E o que esperamos de um pivô que não seja soft? Tocos, rebotes, rebotes de ataque e... enterradas! E aí é que o bicho pega para o espanhol. Em 78 jogos nessa temporada ele deu 69 enterradas, um número baixo para um jogador que é tão acionado no ataque. Para se ter uma idéia, o líder é o Dwight Howard com 233 enterradas, seguido de Blake Griffin com 203. Entre os 10 que ultrapassaram as 100 enterradas na temporada tem até um jogador que nem joga no garrafão, Andre Iguodala, com 103. E antes de Gasol estão jogadores que não jogam tantos minutos e nem têm tantas chances de arremessar quanto ele, como Josh McRoberts (72), Thaddeus Young (79) e Hakim Warrick (81).

Mas aí vem outra pergunta dentro da primeira, como esses jogadores que estão à sua frente conseguem pontuar? Esses três que eu citei só fazem pontos de enterradas, o Gasol em compensação tem um bom arremesso de meia distância, gancho de direita e de esquerda, além de ser capaz de dar uns vinte giros no seu marcador até ficar em uma situação boa para fazer suas cestas. Será que ele marcaria mais pontos se ao invés de fazer isso partisse para enterradas? Provavelmente não, para isso talvez tivesse que treinar menos e passar mais tempo na academia, para ganhar mais corpo. Mas se ganhasse mais força provavelmente ganharia também mais peso, e não valeria a pena perder a sua velocidade, agilidade e até capacidade de acompanhar os contra-ataques, ótimos diferenciais que ele tem em relação a outros pivôs. Então a resposta para a pergunta é que Gasol não é soft, ele não evita contato físico, mas é mais soft do que a maioria dos pivôs da NBA. Então vem a segunda pergunta: e se ele fosse 100% soft, um bichinho de pelúcia, qual seria o problema com isso?

A resposta do Gasol às declarações do Amar'e e do Perkins foi típica de quem já se acostumou com essas coisas ditas pelas outras meninas e hoje em dia já ignora, ele apenas disse que "não presto atenção nisso, é tudo inveja". Acusações de inveja depois de ser rotulado, não é que isso continua parecendo uma discussão sobre meninas adolescentes?

Por incrível que pareça, quem deu a declaração mais interessante sobre o problema de ser soft foi um dos jogadores mais irritantes da atualidade, Andray Blatche. O ala-de-força do Wizards ganhou espaço no time desde a saída de Antawn Jamison no ano passado e com esse tempo de quadra se mostrou um jogador que, segundo a melhor definição que eu já ouvi dele, é aquele raro jogador que pode ter 30 pontos, 15 rebotes e um jogo ruim ao mesmo tempo. Ele simplesmente força arremessos idiotas, é fominha e uma negação defensiva, exatamente o que era o velho Zach Randolph pré-Grizzlies. Mas ele é também um jogador muito técnico, que não é muito fã de contato físico e por isso é chamado de "soft", mas ao invés de negar por completo o rótulo, ele contornou o assunto de um jeito bem interessante:

"Quem me viu crescer dentro da NBA sabe que eu nunca fui um jogador que joga de costas pra cesta empurrando os outros. Eu sou um jogador finesse. Esse é meu estilo e não vou tentar ser quem eu não sou", e completou, "Um jogador finesse vai ser chamado de soft, mas isso não me incomoda, eu não sou soft".

Ok, ele não admitiu ser soft, mas já deu um passo importante ao deixar claro que não vai atrás do contato físico e que seu estilo de jogo é simplesmente diferente. Na mesma entrevista ele questionou a importância de passar horas e horas na academia ganhando músculos, para ele não fazia diferença.

A minha conclusão disso tudo é que a NBA é um mundo absurdamente machista em que ser soft é o equivalente social a admitir ser gay, gostar de Lady Gaga ou que chorou assistindo "Diário de uma paixão". E se você pensar bem, a NBA tem macho até demais, que mulheres você vê envolvidas no jogo além de uma ou duas repórteres e talvez uma assessora de imprensa? Nada, é homem pra todo lado. E mais do que isso, a liga americana, mais do que o basquete em geral, sempre foi um lugar onde o físico importou demais, o que não falta por aí é gente bem mais ou menos sendo draftada só porque é incrivelmente alto, rápido e forte. O clichê basquetebolístico diz que a parte técnica dá para ensinar, mas não se ensina ninguém a ser alto e ter uma envergadura de Itu. É com esse tipo de pensamento que o Stromile Swift é a quarta escolha de um Draft e o Chuck Hayes cai para a 2ª rodada, foi pensando nisso que o Chicago Bulls montou um dos piores times da sua história em volta das jovens promessas Tyson Chandler e Eddy Curry.

O problema é que as pessoas que julgam os resultados, como a torcida, também são em sua maioria machos que esperam ver jogadores altos, fortes e que brigam. O que não falta é gente clamando pela volta do jogo mais físico que reinava na NBA nos anos 90. Não que aquele tipo de jogo não fosse interessante e não que eu prefira muito mais as faltas marcadas cada vez que assopram o Dwyane Wade, mas me parece uma resposta bem "macho man" de torcedores querendo ver "homens sendo homens". Ainda espero pelo meio termo em que percebam que é um esporte de contato mas não um esporte que celebra o mais alto e o mais forte, basquete é também técnica e tática.

No MIT Sloan Sports Conference no mês passado, um encontro para discutir esporte sob aspectos diferentes do que estamos acostumados, o Henry Abbott da ESPN fez uma apresentação bem interessante sobre os problemas que essa preocupação em parecer macho causam para os times da NBA e como eles poderiam vencer mais jogos se superassem isso. Ele fez uma lista de sete situações e explica como a eterna busca dos jogadores mais altos, fortes, rápidos e maus pode ser uma furada:

1- Arremessar como uma vovó

O Rick Barry tem o melhor aproveitamento de lances livres da história da NBA e conseguiu isso com o famosos arremesso de lavadeira, aquele que a gente fazia quando era criança e não tinha força para erguer a bola acima da cabeça. E mesmo sendo tão eficiente, nenhum outro jogador jamais copiou. O próprio Barry tentou fazer outros jogadores usarem sua técnica, em especial Shaquille O'Neal, um cara monstruoso o bastante para ser um dos maiores cestinhas da história da liga mesmo com apenas 53% de aproveitamento no lance livre. Se ele já fez tantos pontos e tem tantos títulos assim, imagina acertando a outra metade?

Mas o Shaq nunca sequer tentou arremessar daquele jeito, apenas disse que foi o conselho mais ridículo que já recebeu na vida. Afinal, como alguém que se impõe pela força e imagem de monstro vai parecer se arremessar como uma vovózinha? Nesse post Abbott lista situações de playoff em que os times do Shaq perderam jogos-chave, por poucos pontos, e em que Shaq errou trocentos lances livres. Melhor perder como um macho do que ganhar como uma avó.

2- Meditação

O Phil Jackson, com toda a sua espiritualidade, sempre incentivou seus jogadores a meditar. Ele acredita nisso como uma ferramenta para reforçar a concentração, tranquilidade e para colocar a cabeça no lugar, não envolve qualquer religião ou coisa do tipo. E fazendo isso (e muito mais, claro) ele é o técnico que mais venceu títulos na história da liga. Por que outros não copiam? Copiam o sistema de triângulos, copiam o jeito que seus times são montados, contratam os seus assistentes técnicos e ex-jogadores, mas não copiam a meditação. Para Abbott é simples medo de parecer tonto na frente de outros machos.

3- Os momentos decisivos

Nesse momento Abbott compara como Kobe Bryant e Chris Paul encaram os minutos finais de um jogo apertado. O primeiro é o ultimate macho: não tem medo, arremessa por cima de quem estiver na sua frente, não hesita. O segundo faz o que faz no resto do jogo, chama jogadas e passa a bola. Nas eternas comparações com Deron Williams, Chris Paul sempre perde no chamado "instinto assassino". Ser um jogador de equipe e fazer o que é pedido pelo técnico nos momentos finais é ser soft.

É então que Abbott mostra uma estatística de quantos pontos cada time da NBA marcou nos momentos decisivos de jogos disputados nos últimos cinco anos. O primeiro colocado é o New Orleans Hornets de Chris Paul, o Lakers está bem no meio da tabela.

4- Altruísmo

Um ótimo ponto do Abbott é analisar os perfis de jogadores jovens a serem draftados. Todos tem características bem masculinas como altura, força, impulsão, além de arremesso, drible e afins. Mas alguém conta o fato do cara não ser egoísta? De ajudar os seus companheiros de time? Isso é raro alguém analisar na hora de se avaliar um jogador. Se sacrificar para fazer o outro ao seu lado parecer melhor é algo submisso, fraco e, para os machistas, feminino.

O exemplo que Abbott dá para mostrar como um jogador não egoísta pode ser essencial é o Sixers de 2001, aquele com Allen Iverson + coadjuvantes que foi para a final da NBA. Para ele (e eu concordo até o fim) times que tem um cara fominha e controlador que quer marcar todos os pontos só funcionam se ele tiver do lado dele 4 outros jogadores dispostos a ajudar esse cara a vencer. Gente que não vai se irritar todas as vezes que o fominha arremessar sobre 4 defensores ao invés de passar a bola para você, livre, embaixo da cesta. Gente que vai defender pelo cara quando ele estiver cansado de tanto driblar e atacar sozinho. Geralmente times assim fracassam, como Iverson fracassou durante boa parte da carreira, mas naquele ano caras como Eric Snow, Aaron McKie, Theo Ratliff (depois trocado por Dikembe Mutombo) e George Lynch deram o sangue para fazer o time dar certo.

A fama e o salário mais alto ficam com Allen Iverson, o macho alfa da equipe, mas esse time seria só mais um do AI a perder na primeira rodada dos playoffs não fossem esses jogadores nada machos.

5- Contato físico

Esse é o mais bizarro e questionável. Um estudo divulgado pelo New York Times mostrou que os times que mais vencem são aqueles que mais se tocam fisicamente! Tapinha na bunda, abraços, apertos de mão especiais, tudo isso. Segundo Abbott, machos não deveriam fazer isso, mas quando fazem se motivam mais e jogam melhor. Eu, nesse caso, discordo, acho que o caminho é o contrário: Quando você começa a ganhar muito tem mais motivos para abraçar, cumprimentar e tudo mais. De qualquer forma, estou citando os argumentos dele, não os meus.

6- Jogadores magrelos

Aqui Abbott comenta como os jogadores muito magros geralmente não conseguem ser escolhas de Draft altas porque os General Managers têm medo de que eles não consigam se adaptar ao jogo físico da NBA. E caras com bom potencial ou carreiras de destaque no basquete universitário como Tayshaun Prince (escolha 23) e Rajon Rondo (escolha 21). Abbott diz que conversou com Prince depois do Draft e o jogador disse que ouviu que vários times o deixaram passar porque acharam que ele é magrelo demais para a NBA, mesmo motivo dado pelo Knicks quando cortaram o Corey Brewer nessa temporada.

E se ser magrelo pode ter um lado ruim (talvez dificuldade em marcar os tipos mais fortes), também pode ajudar na velocidade, agilidade e até em prevenções contra contusões. Uma das estratégias pensadas pelos médicos do Greg Oden é fazer o jogador perder peso para que seus joelhos destruídos tenham um trabalho mais leve.

7- Liderança feminina

Apesar de existir uma técnica na D-League, nas 30 comissões técnicas da NBA não há uma mulher sequer. Elas não entendem de basquete? Não poderiam trazer uma abordagem nova para um time que está perdendo há muito tempo e não acha outra solução? Ou os donos de equipes pensam que seus jogadores não iriam respeitar uma mulher no comando? Existe também a chance de um General Manager ficar com medo de perder o emprego caso dê essa idéia, talvez.

Abbott destaca que na NBA, com seus milhões de assistentes técnicos, muitas vezes um treinador não precisa ser o maior gênio da defesa ou ter uma cartilha com mil variações diferentes de jogadas. Às vezes basta o talento para saber escolher assistentes e ser um bom líder, um bom motivador e ter uma vivência no mundo do basquete. Não é possível que em tantos e tantos anos não tenha uma mulher que não tenha sequer isso.

...
Um ponto que eu queria deixar claro o Abbott também deixa ao fechar sua apresentação. As coisas de hômi macho são importantes num esporte como o basquete, é bom ter jogadores fortes, altos e rápidos no seu time. Mas claramente existe uma supervalorização do que é masculino no esporte (provavelmente pelo ambiente quase que completamente formado por homens) e ridicularização do que parece ameaçar essa masculinidade. Se o discurso que todo jogador, técnico ou manager concorda e repete é o batido "o que importa é vencer", por que não valorizar coisas como essa que dão resultado? O Lakers é tri-campeão do Oeste e bi da NBA com um pivô soft. Se vencer títulos em sequência não é o bastante para provar um ponto, só dá pra acreditar que é preconceito mesmo.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Um fim necessário

As maiores mãos do mundo agora acenam adeus


Foram 23 anos como técnico do Jazz. É quase o dobro da idade do Justin Bieber, é mais do que a idade da maioria dos nossos leitores, é mais do que a idade da maioria dos novatos que entram atualmente na NBA. Quando começou a treinar o Jazz, a Emma Watson sequer tinha nascido, e convenhamos que um mundo sem a Emma Watson não faz nenhum sentido. Faz tanto tempo que o Jerry Sloan estava no comando do Jazz que chegamos a pensar que era uma monarquia, que o cargo só seria abandonado quando ele morresse e seria assumido pelo seu filho, herdeiro do trono. Por isso tem gente dizendo que é a morte de uma era, o fim dos tempos, o apocalipse. Por ser o técnico que passou mais tempo em uma equipe em toda a história dos esportes americanos, imaginar Jerry Sloan fora do Jazz é sinal de horror para muita gente. Mas foram 23 anos, gente. Uma hora, tudo na vida dá no saco.

Jerry Sloan foi um gênio, daqueles que a gente usa para provar que prêmios e títulos são bobagem. Nunca foi campeão da NBA e nunca ganhou um prêmio de técnico do ano (se tivesse ganhado teria sido vítima da maldição e demitido no ano seguinte), mas sua carreira como técnico é fantástica. Comandou o Jazz em duas finais de NBA contra o Jordan, em 97 e 98, e só perdeu porque usar o Jordan é apelação. Treinou um dos melhores times de todos os tempos, com Malone e Stockton. É o terceiro técnico com mais vitórias na história da NBA. E o mais impressionante é a consistência: foram 13 temporadas com mais de 50 vitórias, e apenas 3 temporadas em que seu time não ganhou pelo menos metade dos jogos. Com tudo isso, foi parar no Hall da Fama mesmo estando ainda em atividade. Nenhum título, nenhum prêmio, mas ele sempre esteve lá treinando times incríveis e vencedores mesmo quando o elenco não ajudava, as contusões se acumulavam e os donos da equipe mandavam bons jogadores ou escolhas de draft embora para economizar dinheiro. Lembro de um Jazz horrível, sem nenhum jogador decente, que tinha o porcaria do Raul Lopez na armação e mesmo assim ganhou 42 jogos com atuações incríveis do armador. Lembro do Raja Bell ser longamente improvisado de armador e mesmo assim o time funcionar direitinho. Na época eu dizia que um macaco de circo seria um armador genial no esquema do Jerry Sloan, desde que ele conseguisse aturar o técnico.

Porque o Sloan é um gênio velhinho e todos nós sabemos que os gênios e os velhos são muito chatos. O Sloan obriga os jogadores a colocar a camiseta por dentro do calção, proíbe o uso de faixas na cabeça nos jogos e de celulares nas viagens da equipe. Quem entra em quadra pelo Sloan é quem se esforça mais, quem treina mais e quem obedece mais. Muitos jogadores talentosos como Andrei Kirilenko já mofaram no banco de reservas enquanto Matt Harpring, sem nenhum talento, dava cabeçadas em outros jogadores. Talento sempre foi secundário perto do esforço, o Jerry Sloan vem de uma infãncia difícil e valoriza dedicação e força de vontade acima de tudo. Por isso seus times são tão chatos de enfrentar, lutam até o final e mantêm o plano de jogo. No começo dessa temporada, o Jazz cansou de vencer jogos no final depois de perder por mais de 20 pontos. Coloquem o elenco do Cavs nas mãos do Jerry Sloan e eles não perderão 26 partidas seguidas porque antes disso acontecer terão matado a facadas os adversários. Tudo isso, claro, apoiado por um estilo de jogo rígido e eficiente, baseado em bandejas, pick-and-rolls e pouquíssimos arremessos de três, com pouca frirula e nenhum arremesso forçado. Quem sai do plano vai pro banco.

Com esse tipo de rigidez, é bem óbvio que o Jerry Sloan arrumou encrenca com muitos jogadores ao longo de seus 23 anos de Utah Jazz. As histórias podem não estar aí, podem não ter ido parar na Contigo!, mas os confrontos aconteceram. Teve muito jogador descontente no banco, muita bronca por cagada feita em quadra, muito jogador querendo fazer o que bem entendesse e tomando surra de chibata. Por isso, os boatos de que o Sloan resolveu abandonar o Jazz por causa das brigas com o Deron Williams me soam completamete absurdos.

Na partida contra o Bulls, na quarta-feira, Deron Williams desobedeceu o técnico em quadra e os dois bateram boca no vestiário, com gente dizendo que tiveram que segurar os dois pra não sair porrada (já pensou um soco das mãos gigantescas do Jerry Sloan?). O Deron disse que discutiram mas que não foi nada de mais, que os dois já tinham brigado mais feio antes e que outros jogadores também já tinham confrontado o técnico com mais violência antes. Ou seja, mais uma discussão na lista de bilhares de um técnico severo. Normal, quando um técnico quer estabelecer uma filosofia desse tipo em uma equipe, proibindo até coisas idiotas como faixa na cabeça, está pronto para enfrentar resistência, confronto e insatisfação. Sloan já lidou com isso por 23 anos, não há razão para imaginar que a discussão com Deron Williams tenha sido tão pior assim. Pelo jeito, ele só está de saco cheio. Sem Boozer, o Jazz tem dificuldades em estabelecer um jogo de meia distância e o pick-and-roll. Está brigando pelas últimas vagas do Oeste, perdendo jogos que deveria ganhar, cheio de altos e baixos nos últimos anos. E o Deron Williams é competitivo, se acha fodão, e quer ter mais liberdade nas mãos. O Sloan juntou tudo isso num pacote, viu que estava passando Big Brother na tevê, e resolveu tirar férias. É justo.

Realmente, Deron Williams é um armador bom o bastante para fazer mais em quadra do que faz atualmente pelo Jazz. Nas partidas em que o Jazz virou o jogo no segundo tempo durante essa temporada, todas foram mérito de um surto criativo do Deron, de ele colocar a bola debaixo do braço e resolver sozinho - ou seja, foram vitórias da desobediência. Jerry Sloan é um dos melhores técnicos que já existiram, é um gênio e está no Hall da Fama antes mesmo de se aposentar. Mas não é por isso que seu estilo não pode ser questionado, que cada situação não deve ser analisada individualmente. Sloan é o técnico ideal para comandar esse Jazz atual, para ensinar Deron Williams, trazer estabilidade a esse time? Talvez não - e isso não é nenhuma heresia. Ficar no time por 23 anos tornou proibido discutir se seria melhor o Sloan tomar outros rumos, e todos os times deveriam discutir continuamente se mudanças são ou não necessárias. Sem o Boozer em quadra e com o jogo de meia distância de Millsap e Al Jefferson tão abaixo do que se esperava, talvez fosse hora de mudar os planos de jogo e deixar Deron arremessar mais, jogar de costas para a cesta, usar o corpo contra os armadores adversários que são sempre menores do que ele. Talvez o time funcione melhor com mais liberdade, usando a criatividade do Deron, talvez o time precise da mudança de ares, de celular nos ônibus, da chance de provar que podem vencer mesmo sem o técnico Hall da Fama. Ou talvez o time simplesmente piore e desande de vez sem a tutela do melhor técnico de sua história. De todo modo, o importante é que agora o Jazz pode debater isso abertamente, pode escolher se mantém o mesmo rumo ou se toma caminhos diferentes. Com Sloan, nada era questionado. Agora, o Jazz pode pensar, matutar e tomar decisões. Por melhor que fosse Jerry Sloan, acho essa rigidez um preço alto demais a se pagar, e o time já estava há tempos demais nesse limbo eterno de se classificar para os playoffs com certa facilidade mas não ter nenhuma chance de título. Agora o time vai ser mais maleável e, quem sabe, simplesmente feder. Isso por si só já seria o bastante para injetar talento novo na equipe e romper o atual ciclo.

Os leitores do Jazz, que adoram tacar cocô na minha cabeça e sabem onde eu moro, vão dizer que eu sou herege. Na verdade sou um grande fã do Jerry Sloan e daquilo que ele faz com seus armadores - o Stockton é, para mim, um dos melhores de todos os tempos e um dos meus três jogadores favoritos deste universo. Ainda assim, Sloan vem de outros tempos. Enfrenta uma nova geração de treinadores nerds e carregados de estatísticas que não perdem tempo proibindo faixinha ou dando eletrochoque nos armadores que não seguirem tudo à risca. São treinadores novos que podem perder seus postos a qualquer momento, gerando mudanças, contrastes, evoluções. Sem isso, os times ficariam estagnados. Jerry Sloan deixa saudade, fico feliz que ele já esteja no Hall da Fama, que ele seja reconhecido mesmo sem ter nenhum anel. Mas era hora de ir embora e deixar o Jazz respirar um pouco, se virar sem ele. Tenho a mesma opinião com o Los Angeles Lakers: por melhor que seja Phil Jackson, já atingimos um momento em que o Lakers precisa urgentemente respirar novos ares para que exista contraste, mudança e evolução. Os finais são tristes mas necessários. O Jazz vai se sair bem, mesmo sem as mãos gigantescas do Jerry Sloan dando tabefes na bunda de todo mundo.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Quando é a hora de mudar?

Por que separar um casal tão lindo? S2


Podemos até ser piegas e falar sobre a vida como um todo: afinal, quando é hora de mudar? Quando é hora de mudar de casa, emprego, namorada, faculdade ou corte de cabelo? Em todos os esportes, na NBA também, a pergunta sempre vem: quando é hora de mudar? Quando é hora de mandar tudo às favas e recomeçar, ou só trocar de técnico ou mudar metade do time? Para todas essas questões, porém, temo que resposta definitiva só temos depois de tentar. Somos uma sociedade que julga pelos resultados, principalmente quando se trata de esportes.

Faltam 17 dias para o último momento em que os times podem realizar trocas nessa temporada e o assunto das mudanças está bombando. Carmelo Anthony à parte, são inúmeros times pensando se devem ou não dar uma chacoalhada no elenco. O time mais comentado é o Lakers, não só porque o Lakers sempre é um dos times mais comentados não importa o que aconteça no mundo, mas porque o General Manager do time Mitch Kupchak disse com todas as letras que pensa em uma troca para mudar a equipe e ver se eles acordam a tempo de defender o título. Seguido dessa declaração veio a do Ron Artest dizendo, insatisfeito, que queria ser trocado, declaração essa que depois foi negada pelo jogador. Ou seja, disse-me-disse que a imprensa brasileira esportiva chamaria de "crise".

Não é tudo isso, claro, tem muito exagero, mas o que vale é a questão se o Lakers deveria mesmo mudar o time. Para responder isso eu prefiro lembrar de algumas histórias, semelhantes ou não, antes.

Começo com o Indiana Pacers. Eles começaram a temporada arrasando, vencendo Heat e Lakers fora de casa e com a marca de 11 vitórias e 10 derrotas em seus primeiros 21 jogos. O problema é que depois disso eles venceram apenas 7 jogos nos 28 seguintes, perdendo algumas partidas bem humilhantes e, pior, com um aproveitamento ofensivo (pontos a cada 100 posses de bola) pior que o do Cleveland Cavaliers. Sim, Cavs, aquele time que ganha menos que o Vasco e o Corinthians juntos. Escrevemos um post sobre o time nessa época, tentando explicar porque o Roy Hibbert, por exemplo, que começou a temporada como forte candidato a jogador que mais evoluiu, estava virando o vencedor do prêmio TPM de jogador mais inconstante da temporada.

A resposta que o time arranjou para essa queda de produção foi demitir o técnico Jim O'Brien, que também atende pelo nome de Don Nelson II. Suas 11 escalações diferentes nos primeiros 40 jogos sem nenhuma grande contusão para justificar começaram a irritar muito os jogadores, que não entendiam porque jogavam 40 minutos em um dia e 3 no outro. Os mais prejudicados eram Darren Collison, Paul George e Tyler Hasnbrough. O último chegou a se declarar finalmente livre depois da demissão do antigo chefe, e disse que "agora finalmente vai ser mais divertido". Não que ele seja titular agora, o assistente técnico e novo treinador Frank Vogel optou por deixar Josh McRoberts como o ala de força titular e Hansbrough como primeira opção do banco. Simplesmente saber com quem joga, quantos minutos e sua função muda tudo para os jogadores.

Mas mesmo com esses acessos de doideira, O'Brien foi o técnico que fez o Pacers um bom e veloz ataque mesmo com poucos bons jogadores nos últimos anos e uma das melhores defesas da liga nesse ano (8º lugar) mesmo sem o melhor elenco do mundo para essas funções. Para a diretoria então chegou a hora de pesar o que o técnico ofereceu nos últimos anos e como seu comportamento estava incomodando os jogadores, decidiram mandá-lo embora. Essa não foi difícil, O'Brien não é ruim como muita gente acredita mas não é indispensável. A mudança tem dado resultado, apesar de poucos jogos para medir tudo, é consenso geral na imprensa americana que os jogadores parecem felizes e motivados de novo, além do clima bem mais leve no vestiário segundo quem esteve lá. Era hora de mudar mesmo.

Uma história bem parecida aconteceu algum tempo antes ainda nessa temporada quando o Charlotte Bobcats mandou o Larry Brown embora. O cara é um gênio, um dos que melhor armou defesas na história da NBA e até hoje o único treinador a ter levado o Bobcats aos playoffs. Mas também é um mala sem alça que não dá a menor liberdade para os seus jogadores dentro de quadra, cobra sem parar, é ranzinza e usava esse tipo de roupa quando era técnico nos anos 70. Isso sempre provoca um ciclo em que os jogadores começam respeitando o Larry Brown, o amam quando o time começa a vencer, e depois o odeiam quando a rotina infernal se torna maior do que as vitórias. Foi assim em várias de suas equipes, até no vencedor Detroit Pistons de 5, 6 anos atrás. Sem contar o sentimento de que "a gente é bom e pode vencer sem ele" que cresce depois de um tempo.  Foi o que aconteceu no Bobcats e um dia depois de uma declarações pública bem agressiva do Stephen Jackson, o técnico foi demitido. Captain Jack disse que "Como um time estamos jogando muito mal. E no fim das contas é o trabalho do técnico nos preparar para o nosso trabalho que é entrar em quadra e jogar."

Esse caso não é tão óbvio como o do Pacers. Larry Brown faz bem mais diferença que o Jim O'Brien em um time, mas com todo mundo resmungando, o que era mais fácil, trocar Gerald Wallace e Stephen Jackson por pirralhos ou trazer um técnico mais gente fina e sorridente? Diz a lenda que eles até tentaram trocar o Wallace, mas sempre pediram coisas demais em troca e as negociações morriam rápido. Sem conseguir o que queriam para a troca, deram um pé na bunda do Brown e trouxeram Paul Silas, primeiro técnico do LeBron na NBA e que é conhecido por ter bom diálogo com os jogadores e ser bem liberal. O resultado foi um Bobcats mais motivado, com liberdade criativa no ataque e que pelo menos ainda não piorou tanto assim na defesa. Numericamente o time faz um pouco mais de pontos e toma um pouco mais, não é tanta diferença assim, mas ninguém mais reclama e o time voltou a vencer. Dá pra considerar a troca um sucesso, embora o time esteja condenado a não ir para lugar algum com esse elenco limitado.

Esses foram dois casos em que a mudança veio pelo elo mais fraco, o treinador, e que deu resultado mais porque os jogadores voltaram a jogar com vontade do que por questões técnicas e táticas. Vamos lembrar de outro time que mudou, mas que o fez radicalmente e via trocas. O Orlando Magic trocou peças importantes do time, incluindo titulares e os melhores reservas para refazer meio time. Em pouco tempo a defesa se manteve no (bom) mesmo nível e o ataque floresceu de maneira impressionante. Como citamos no último Filtro, todos os principais jogadores (tirando Arenas) tem aproveitamento de arremessos muito acima da média da NBA. O número de vitórias também cresceu e o risco gigantesco de trocar tanta gente no meio da temporada pode ser considerado um sucesso. Mas como nada é perfeito, com a contusão do Brandon Bass e sem Marcin Gortat no banco eles sentem falta de mais alguém forte no garrafão para ajudar Dwight Howard. E sem o carrapato do Mickael Pietrus para marcar o LeBron, King James meteu 51 pontos na fuça do Orlando. Sempre precisamos de tempo para ver todos os lados de mudanças tão drásticas.

Quem tentou mudar nessa temporada, portanto, vem tendo sucesso. Mas isso não quer dizer que o Lakers deve fazer o mesmo. O time não tem jogado tão mal quanto as pessoas tentam empurrar, o problema é quando tem jogado mal, o Lakers perdeu jogos importantes contra Celtics, Heat, Bulls e Spurs, por exemplo. Mas até contra o Heat e Celtics eles não jogaram mal durante toda a partida e na última contra o Spurs jogaram até muito bem, perdendo apenas por um pequeno vacilo ao deixar o Antonio McDyess dar um tapinha no rebote ofensivo no segundo final do jogo. O time não é perfeito, tem defeitos, mas teve também nos últimos três anos e venceu o Oeste mesmo assim. Além disso, se for trocar, vai trocar quem? Odom, Gasol e Bynum não estão jogando mal e Artest ninguém vai querer. Mandar o Phil Jackson embora acho que nem o torcedor mais louco cogita!

Com um elenco tão bom e que ganhou tantas coisas nos últimos anos eu acho muito precipitado tentar qualquer mudança abrupta no elenco, a não ser que alguém proponha uma troca do tipo Derek Fisher e uma foto autografada da Juju Panicat pelo Deron Williams e um abraço apertado. E depois da troca do Pau Gasol ninguém está muito a fim de dar coisas de graça para o Lakers. Se o time precisa jogar melhor contra os seus principais adversários, e precisa mesmo, os ajustes devem ser mínimos, táticos, não extraordinários. Para isso o Gasol precisa descansar mais, o Joe Smith precisa de mais minutos em quadra para os jogadores de garrafão terem um descanso, o Andrew Bynum precisa ser mais acionado no ataque e deixar de ser às vezes a quarta opção ofensiva e até algumas mudanças na rotação do time devam ser consideradas. Sabia que entre todos os quintetos usados pelo Lakers na temporada, os que envolvem o Luke Walton sempre tem bom aproveitamento ofensivo? Ele poderia ganhar mais tempo de quadra. O Matt Barnes também tem bons números, está fazendo falta e deve ser considerado já um bom reforço para os playoffs.

Eu vejo a maioria dos jogos do Lakers por ser torcedor e já vi muitos jogos horríveis deles nessa temporada, mas se tivesse que achar um meio termo entre todos esses jogos irregulares da equipe eu diria que se o banco de reservas jogar bem como jogou no primeiro mês da temporada o time está muito bem na fita. E quando o banco toma muitos pontos e o Lakers fica atrás no placar os titulares mudam o jeito de jogar e tudo vai por água abaixo. Quando o time está ganhando o Kobe está frio, calmo e joga o seu estilo de costurar a defesa, achar oponentes bem posicionados, envolver todo mundo e de repente o Lakers parece imparável. Mas se o Gasol está em um de seus dias de Cisne Negro (como diz o True Hoop) e nada cai pra ele, Kobe para de passar a bola, aí Artest erra meia dúzia de arremessos e o Kobe sente que ninguém está em um dia bom e ele que deve vencer sozinho. É a pior coisa para a equipe, não que ele não consiga marcar os seus pontos assim, ele marca e é lindo de assistir, mas não é coincidência que nessa temporada ele passou dos 35 pontos em 4 ocasiões e o time perdeu 3 desses jogos. E nos jogos em que tentou mais de 25 arremessos o Lakers perdeu 6 e venceu 4 (duas das vitórias sobre o poderoso Wolves).

Por favor não comecem com mais um ataque de loucura achando que a gente odeia o Kobe e quer menosprezá-lo. Busquem por tudo o que já falamos dele nesses três anos e vejam o quanto admiramos o seu talento e como sabemos que ele é espetacular e fora de série. Mas nesse caso, nessa temporada e nessas situações, ele não tem feito bem para o time. Simples assim. E vocês até podem interpretar isso de um jeito bonito, mostrando como ele é competitivo e tem vontade de vencer a qualquer custo (se é que isso é mesmo bonito).

E o problema do Kobe diz tudo sobre os problemas do Lakers. Não é porque existem defeitos a serem corrigidos que uma troca é a solução. O Kobe precisa mudar sua atitude em alguns jogos ou momentos de jogos, mas de jeito nenhum que vão trocar o homem. O mesmo serve para Pau Gasol, Lamar Odom e até o Ron Artest, quem viu o jogo ontem contra o Hornets percebeu como o Ron Ron ainda é um defensor fora de série. Para mim essa não é a hora de Mitch Kupchak tentar mostrar que é um grande General Manager e mudar tudo, mas é a hora do Phil Jackson se mexer e mostrar os talentos que já mostrou tantas vezes para motivar seus atletas e buscar alternativas táticas.

E só para não dizer que só demos exemplos de times que melhoraram mudando, como citei aqui Pacers, Magic e Bobcats, posso lembrar também do Boston Celtics, que decidiu não mudar. No ano passado o time parecia velho, cansado e penou para se classificar em quarto lugar no Leste, a mesma história do Lakers desse ano. Mas aí nos playoffs eles jogaram demais e só por uma inspiração divina do Ron Artest não ganharam o título. Eles poderiam ter trocado o contrato expirante do Ray Allen no meio da temporada passada ou até mesmo não ter renovado depois que ele esteve gelado como uma atuação da Vera Fisher nos últimos jogos das finais. Mas não, decidiram não só manter a base que tinha sucesso como também adicionaram, sem perder nada além de Tony Allen, e o time velho, com mais um ano nas costas e mais os quase 40 do Shaq, é ainda melhor do que antes.

Como eu disse no começo do texto, só dá pra saber o resultado da mudança quando se tenta ela. E é o tipo de coisa que temos a tendência de julgar pelo resultado porque o outro lado da história a gente só pode imaginar, mas mesmo assim considero esse caso do Lakers mais fácil que os outros. Pacers e Bobcats praticamente não tem nada a perder, o Magic era um time que precisava de mudança porque o time vencedor de 2009 já havia sofrido uma grande transformação (saída de Turkoglu por Vince Carter) e uma queda de produção nos playoffs do ano passado. O Lakers, ao contrário, vem de um título! O quanto seria precipitado (e inédito) um time bi-campeão ser desmontado ou remodelado só porque perdeu meia dúzia de jogos simbólicos na temporada regular? Sossega, Kupchak.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Resto do peru - A rodada do Natal

Essa alegria contagia, parem!


A rodada de Natal foi marcada mais pelos comentários sobre ter que jogar no Natal do que pela real qualidade dos jogos. Fechando o assunto de ter que jogar no feriado eu só preciso registrar aqui o que o Stan Van Gundy disse antes da partida contra o Celtics. Lembra que ele tinha sido multado no ano passado por comentários contra os jogos de Natal e que nesse ano não pretendia fazer o mesmo? Pois ele não resistiu e para fugir da multa apelou para a sempre saborosa ironia: "Eu acho que a NBA é tão importante para o Natal que precisamos aumentar o número de jogos de 5 para 10. E precisamos que eles comecem assim que der meia-noite na véspera de Natal, assim não teremos um minuto de Natal sem um jogo na TV. A NBA é o Natal". Como o Shaq conseguiu se desentender com esse cara? Era porque ele tinha piadas melhores?

O primeiro jogo do dia foi um divertido e desastrado Knicks-Bulls, que valeu por algumas jogadas lindas do Derrick Rose e pela emoção, mas foi um desengonçado jogo que quase somou 50 turnovers entre as duas equipes! Foi legal para o Knicks ganhar um jogo contra um time forte tendo como destaque a defesa no fim do jogo, mas muito foi culpa do Bulls que fez um último quarto péssimo no ataque, passando mais da metade dele sem marcar um ponto sequer enquanto assistia Kurt Thomas e Omer Asik fazendo falta atrás de falta no Amar'e Stoudemire. Como bem disse o cara do blog ShamSports, um torcedor fanático do Bulls: "O Bulls sentiu falta essa noite de bom passe, um segundo jogador para segurar a bola além do Rose, defesa, energia e alguém para marcar o Amar'e. Joakim Noah faz tudo isso". Eu concordo.

O segundo jogo não foi muito bonito também, mas impressionante. Dwight Howard não se encontrou no ataque, Jason Richardson e Gilbert Arenas foram quase nulos, a defesa do Celtics fez o nunca treinado ataque do Magic parecer um time de pelada e mesmo assim o Magic venceu. Eu vi todos os minutos do jogo e ainda não entendi. Simplesmente eles conseguiram na defesa manter o placar apertado e no final contaram com Jameer Nelson e JJ Redick acertando bolas decisivas. Vou falar mais do Magic daqui um tempo quando eles tiverem o mínimo de um padrão de jogo, mas quando você vence Spurs e Celtics em sequência sem nunca ter treinado junto e jogando feio é porque a coisa está boa pro seu lado.

Mas o jogo mais esperado da noite era mesmo Lakers e Heat. O Lakers está no terceiro lugar do Oeste, mas depois de perder por quase 20 pontos em casa para o Bucks (sem contar o vareio que levaram do Earl Boykins) está começando a assustar os torcedores, já o Heat está destruindo quase todo mundo e o 'quase' machuca porque as derrotas são justamente para os grandes concorrentes como Magic, Celtics e Mavs. No fim das contas o Lakers conseguiu manter o ritmo e tomar outra surra em casa e o Heat passeou com muita facilidade e em um dos melhores jogos do Chris Bosh no Heat, venceram por 16.

Como eu sempre defendo aqui no blog, vitórias elásticas nunca são só mérito de um time e nunca só desgraça do perdedor. Em uma liga forte como a NBA tem que acontecer as duas coisas para um time vencer bocejando como foi o caso desse jogo. O Lakers entrou em quadra com um plano defensivo bem claro, era fechar o garrafão e dobrar a marcação sempre que necessário em Dwyane Wade e LeBron James para tirar a bola das mãos deles. A estratégia não é novidade para o Miami, que mesmo tendo dois dos melhores (senão os dois melhores) jogadores em infiltração da NBA é o último colocado da liga em arremessos tentados próximos à cesta, bandejas ou enterradas, com 16 por jogo, 10 a menos que os líderes Denver e Chicago.

No começo da temporada a resposta do Miami para essa estratégia era continuar insistindo em infiltrar, o que gerava toneladas de erros, ou em arremessar bolas de três, o que causava estranhas estatísticas como ver James Jones e Eddie House arremessando mais vezes que o Chris Bosh ou decidindo bolas importantes ao invés de Wade e LeBron. Com o passar do tempo a estratégia mudou e eles decidiram arremessar longas bolas de dois. Embora ao redor da NBA os tenebrosos long-2s sejam considerados (com apoio estatístico) os arremessos com menor porcentagem de acerto no basquete, eles se encaixam bem nesse caso do Miami. LeBron, Wade e Bosh são melhores nesse tipo de arremesso do que quando tentam se aventurar na linha dos três pontos, assim como Udonis Haslem, Zydrunas Ilgauskas e Carlos Arroyo. Então se a defesa não abre eles arremessam longas bolas de dois e os times que não querem tomar um show de enterradas pagam pra ver.

O Dallas Mavericks pagou pra ver e viu o LeBron passar boa parte do jogo zerado, o Lakers pagou e viu todo mundo meter um arremesso atrás do outro. O LA só no segundo tempo assumiu que a estratégia não estava dando certo e passou a pressionar mais a bola, mas aí o resultado foi uma embaraçosa lição de como não defender um pick-and-roll. Com cortas simples, LeBron, Wade e principalmente Bosh puderam atacar a cesta e marcar os pontos perto do aro que o Phil Jackson tentou evitar no primeiro tempo. Segundo a ESPN.com o Heat fez um terço dos seus pontos em jogadas de pick-and-roll sem cometer nenhum turnover nessas tentativas. Foi um ótimo exemplo do cobertor curto que pode ser enfrentar o Miami Heat quando os seus arremessos de média e longa distância estão caindo. Detalhe que o Lakers apanhou desse jeito mesmo conseguindo outro sucesso defensivo, segurar o Heat a apenas 4 pontos de contra-ataque em toda partida.

No começo da sequência de vitórias do Miami Heat foi divulgado pelos jogadores (e visto por quem assistiu aos jogos) que o técnico Erik Spoelstra resolveu ir pelo caminho mais fácil, ele treinou incansavelmente a defesa e no ataque deu liberdade para LeBron e Wade correrem, era contra-ataque por merecimento: Se um dos dois conseguisse um roubo de bola, toco ou rebote tinha autorização para correr e improvisar. Isso fez o time se empenhar mais na defesa e rendeu pontos fáceis no ataque, tudo para não ficar naquela estagnação ofensiva que eles tinham nas primeiras semanas.

Outro fator importante para a melhora do Heat foram as duas mudanças no elenco, Zydrunas Ilgauskas e Mario Chalmers ganharam muito mais tempo de quadra. O Big Z não é rápido na defesa, mas o trio formado por Wade, LeBron e o ótimo defensor Chalmers faz com que o o pivô lituano não precise lidar muito com armadores rápidos e jovens batendo para cima dele. E no ataque o Chalmers está acertando os arremessos que Arroyo não conseguia e Ilgauskas é um dos que tiram proveito da tática que os outros times usam de forçar o Miami a ganhar os jogos com os chutes de longe. Volta e meia eles ainda tem momentos péssimos e os passes voando no meio do nada em direção à arquibancada ainda estão lá, mas aos poucos o Heat está descobrindo como usar os talentos que cada jogador levou para South Beach. Mesmo com todas as dificuldades desse começo eles já tem, no ranking de pontos por 100 posses de bola, o sexto melhor ataque e segunda melhor defesa da NBA.

Mas chega de elogiar o time mais odiado da NBA, afinal quem aqui quer ver eles terem sucesso? Ninguém! Vamos falar do Lakers e tentar entender porque eles estão jogando tão mal. Mas antes de eu tentar me arriscar acho que o Kobe tem mais moral e entende mais o que acontece lá dentro. Tá aqui o que ele disse depois do jogo contra o Miami Heat:

"Nossa filosofia é que temos que estar todos na mesma página, nós somos tão fortes quanto o mais fraco no nosso time. Temos que nos juntar e seguir lutando, estamos jogando como quem já tem dois anéis de campeão. Não vai ser fácil, se fosse veríamos muitas equipes vencendo três vezes seguidas. Para conseguir você precisar trabalhar e ralar demais. (...) O jogo é a parte mais importante, você precisa se concentrar e jogar todos como se fossem o último, o negócio é sério. Você não pode ganhar dois títulos e ficar satisfeito com isso. Eu não estou e não vou deixar as coisas ficarem assim". 

Outro que estava nos dois últimos títulos, Lamar Odom, concorda e deu uma declaração bem sincera: "Parte do nosso problema é que estamos muito convencidos e achando que não vamos e nem deveríamos perder. Acho que nessa temporada estamos com excesso de confiança e foi assim que começamos, desde o período de treinos". 

Isso explica basicamente porque o Lakers tem perdido. Contra times fracos o time é preguiçoso, contra os mais fortes parece que acha que o resultado virá naturalmente, aí acaba fazendo tudo do jeito mais simples e quando não dá certo simplesmente ficam nervosos ou com cara de bunda ao invés de ralar para mudar as coisas. E eles não podem se dar ao luxo de fazer isso.

Essa equipe do Lakers é provavelmente a menos dominante a ter vencido três vezes seguidas o Oeste e a menos espetacular a ter sido bi-campeã em muito tempo. E isso é um grande elogio ao espírito de luta e de superação desses jogadores. Acompanhamos essas temporadas de perto e não só escrevemos aqui como lemos ao redor da internet muita gente apontando vários defeitos do time nessas últimas temporadas. Era sempre uma das melhores, mas faltava defesa, depois um armador, depois jogadores explosivos, banco de reservas, arremessadores de três, etc, etc. O segredo foi que o time sempre jogou bem quando precisava. No ano passado estava tomando sufoco do OKC Thunder e do Phoenix Suns nos playoffs e chegou a empatar as duas séries em 2 a 2 antes de jogar com o coração no jogo 5 e dar uma aula de basquete no jogo 6. Foi exatamente a mesma coisa que aconteceu na final do Oeste de 2009 contra o Nuggets, durante boa parte da série parecia que o Denver tinha o melhor time, mas aí o Lakers venceu o jogo 5 com uma atuação heróica do Lamar Odom e o jogo 6 foi possivelmente o melhor do Lakers desde o saída do Shaquille O'Neal em 2004. Na final contra o Orlando Magic, Trevor Ariza e Odom resolveram aprender a arremessar de três, contra o Celtics foi Ron Artest que salvou o time no jogo 7. Defeitos do time que foram superados quando a água bateu na bunda.

Foi por isso que eu achava que esse jogo contra o Miami Heat seria diferente. Sim, o Lakers estava com problemas, mas sempre esteve e conseguia superá-los nos jogos importantes e nesse Natal, um jogo para mostrar quem ainda manda na NBA, jogou como time pequeno e foi dominado como se fosse um Grizzlies da vida. Mostrou as mesmas deficiências dos jogos anteriores, como falta de movimentação, excesso de jogadas individuais, baixo aproveitamento dos arremessos de três e um banco de reservas que nem parece o mesmo grupo de jogadores que estava ganhando jogos por conta própria nas primeiras semanas da temporada. Sem contar a defesa que já comentamos acima.

Com o elenco mais forte do que nos anos anteriores, mesmo técnico e mesmo tudo só dá pra colocar a culpa no fator psicológico mesmo. Vai ser interessante ver como isso se desenvolve sob o comando do Phil Jackson, que por anos foi considerado o melhor em justamente motivar seus atletas e por Kobe Bryant, que beira a loucura de tão tarado por basquete e por vitórias. Sabe no Natal quando ninguém queria jogar? Kobe também disse que está cansado de sempre seu Lakers jogar no feriado todos os anos, mas mesmo assim chegou 3 horas antes de todo mundo para ficar treinando seus arremessos e depois foi o último a sair, sozinho e esfriando aos poucos a cabeça quando até sua família já tinha voltado sozinha pra casa.
Sim, ele é workaholic. "Vou chutar uns traseiros nos próximos treinos. Vou bater com umas coisas na cabeça de todo mundo até eles entenderem".

Bônus do Natal
Um vídeo com uma raridade: Marcaram 10 segundos na cobrança do lance livre do Dwight Howard. Garanto que muita gente nem conhecia essa regra de tão rara que ela é! Se o jurássico Hubie Brown ficou surpreso durante a transmissão é porque é realmente bem difícil de ser marcado.



"E os outros jogos? Nenhuma palavra sobre Ellis e Durant?"
- Boas vitórias de Warriors e Thunder nos jogos que não deveriam ter acontecido. Jogaram bem, estão de parabéns! Esses garotos tem futuro!

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Para refletir no Natal

Jogadores da NBA a-d-o-r-a-m trabalhar no Natal


A rodada de Natal é considerada a mais importante da NBA na temporada regular. Reserva-se para esses jogos os duelos que todo mundo queria assistir desde a temporada anterior, nos últimos dez anos foi o momento para rever clássicos dos playoffs como Lakers/Kings, Suns/Spurs e Lakers/Celtics. Nos anos 90 era o dia de Bulls/Pistons, Jazz/Rockets ou Bulls/Knicks e por aí vai. Nos anos 80 e 70 alguns jogos nem tão esperados também aconteciam, mas Natal sem NBA? Só durante a greve de 1999.

O sucesso é, claro, imenso entre o público. Seria em qualquer dia do ano se o jogo fosse bom, mas no Natal é a chance de assistir em casa, tranquilão, com a família, comendo um banquete e sem se preocupar em acordar cedo no dia seguinte. Quem aqui não gostaria de um clássico do futebol no dia de Natal para não ter que aguentar um dia inteiro daquele tio insuportável tentando ser engraçado? Eu não só toparia como no Natal sempre dou um jeito de escapar para ver um joguinho de Natal. Mas o engraçado é os outros familiares que não acompanham basquete e me veem assistindo o jogo e perguntam "Mas é ao vivo? Eles não tem família?" e completavam com "Você tem, volta pra sala".  O que me lembra uma declaração do Stan Van Gundy no ano passado que, insatisfeito em trabalhar no Natal disse que "fica triste pelas pessoas que não tem nada mais a fazer no Natal além de assistir NBA". David Stern, um doce democrático, o multou por dizer isso. Nesse ano ele só disse "Eu disse o que tinha que dizer no ano passado e o dono do time pagou a minha multa, não vou fazê-lo pagar de novo".

Se para o público é legal, para os envolvidos não é tanto. O Phil Jackson, técnico do Lakers, um dos que nunca tem medo de peitar a NBA, disse nessa semana que está cansado de jogar no natal e que essa deveria ser uma data para os jogadores curtirem com quem eles querem e não trabalhando. "É como se os feriados religiosos não significassem mais nada. Apenas vá lá, jogue para entreter os outros na TV. É estranho mas é assim, temos que jogar". 

Surpreendentemente quem concordou com ele foi o LeBron James, o King James, que também é rei das entrevistas-lugar-comum resolveu finalmente dizer algo relevante e disse "Todo mundo preferia estar em casa com a família, é dia de acordar cedo com as crianças e abrir presentes". Não podemos esquecer que os jogadres da NBA também jogam em outros feriados importantes dos Estados Unidos como o dia de Ação de Graças e o Martin Luther King Day, feriado importante principalmente para a comunidade negra, que é dominante entre os atletas da liga.

É a velha história dos "Escravos Milionários": A NBA dá fama, status, dinheiro, mais dinheiro, um pouco mais de dinheiro e a oportunidade de fazer a vida por jogar basquete, mas em compensação você tem que dizer o que eles querem que você diga, se vestir da maneira que eles acham certo e não fazer fora das quadras nada que eles não achem apropriado. Além disso você joga quando eles acham que você deve jogar, seja quatro vezes em um intervalo de cinco dias ou no meio de um feriado importante.

Essa é a opinião de dois jogadores que estão um bocado cansados de jogar nesses dias. Desde que o Phil Jackson chegou em Los Angeles eles jogaram em todos os natais! Já o LeBron James é tão grande para a NBA atualmente que colocariam um jogo do seu time nessa data mesmo que estivessem em último lugar na D-League. O LeBron tem dois filhos novinhos desde o nascimento deles nunca passaram um natal sem ver o pai trabalhando. O Zydrunas Ilgauskas sugere uma solução diplomática, continuam os jogos no Natal, mas deixe alguns times em paz, se jogam em um Natal, não jogam na mesma data na temporada seguinte.

Em compensação eu lembro da reação do Gilbert Arenas quando um jogo do seu então time, o Washington Wizards, havia sido programado para a noite do dia 25 de dezembro, ele estava se gabando de ter levado o Wizards de volta a um posto de relevância na liga. A estratégia é velha e usada em todos os ambientes de trabalho, para convencer o trabalhador a fazer um trabalho que ninguém quer ou em um dia que ninguém quer trabalhar você cria um status, falando que só os melhores e mais bem preparados serão aproveitados nessa situação.

A ganância da NBA e das TVs que transmitem os jogos no Natal, porém, começaram a causar problemas. Nas mesmas entrevistas citadas antes, Phil Jackson e LeBron James questionaram a quantidade de jogos de Natal, antigamente era mais fácil convencer que era um dia diferente porque era um jogo importante no Leste, outro no Oeste e acabou. Mas amanhã teremos uma maratona de cinco jogos, é um terço dos times da liga sendo "premiados" e entre essas partidas temos coisas como Golden State Warriors x Portland Trail Blazers. Por que? Um time que não vai para os playoffs há anos contra outro que não passa da primeira rodada e é infestado por contusões. Aí vem a questão, qual das duas coisas está incomodando mais? Ter que trabalhar no Natal ou a perda do status de estrela? Um pouco dos dois, acho.

Outra questão interessante tratada pelo LeBron na sua entrevista é em relação a competitividade da NBA. Ele lembra que nos anos 80, quando a NBA tinha 23 times era comum uma mesma equipe ter três ou até quatro super-estrelas no mesmo time, como tem o seu Heat hoje, e que ninguém falava nada sobre isso. E é verdade, ninguém chama o Magic Johnson ou Larry Bird de coadjuvantes ou apelões porque eles jogavam ao lado de vários jogadores espetaculares. LeBron também argumenta que naquela época a NBA tinha mais audiência porque existiam mais times bons, e que hoje, pelo excesso de equipes, é difícil todas serem de bom nível e a distância entre os melhores e piores é maior. Para ele a solução seria simples, reduzir o número de equipes.

Isso implicaria em algo muito estranho, que seria a NBA admitir que a expansão foi um erro e é difícil imaginar o David Stern assumindo qualquer tipo de erro. Também causaria um bom número de jogadores sem emprego na NBA e precisando sair do país para ganhar seu dinheiro. O LeBron fica na NBA, claro, mas com seis times a menos e uma média de 13 jogadores por time seriam mais ou menos 78 atletas a menos. Em um exercício de imaginação é interessante assassinar seis franquias e distribuir seus jogadores através da liga, realmente o nível dos times iria subir demais. Imaginem times pouco populares ou em crise financeira como Hornets, Grizzlies, Wolves, Raptors, Clippers e Pacers desaparecessem; de repente toda a NBA estaria saindo no tapa para ter Chris Paul, David West, Blake Griffin, Kevin Love, Michael Beasley, Danny Granger, Andrea Bargnani, Zach Randolph, Rudy Gay e mais um monte de gente, imagina a revolução que seria! Empolgante para alguns, mas dá ânsia de vômito se você tem simpatia por qualquer um desses times.

Se a união dos atletas pensar em agradar a maioria, não apoia essa idéia, se pensar no bem estar dos poucos que vão ficar é possível que apoiem. Com menos jogadores seria menos gente para dividir os lucros da NBA, além de menos times em crise para sugar recursos, assim uma possível solução para manter os salários altos como são hoje. A diminuição é apoiada também por aqueles que não vêem cidades como New Orleans, Memphis e Minneapolis sequer empolgadas o bastante em ter um time profissional. Não seria, para alguns, traumático como foi para Seattle perder o Sonics. O problema é que muita gente diz isso baseado em número de torcedores dispostos a pagar os ingressos e ir assistir os jogos, e às vezes são crises financeiras da cidade, localização do ginásio e outros problemas que podem ser temporários ou corrigíveis. Eu daria uma opinião mais definitiva sobre isso ouvindo a opinião de moradores dessas cidades, para saber como os times são vistos por lá. Mas mesmo sem saber com certeza, não consigo apoiar a extinção de times assim do nada para fazer a liga mais competitiva ou para cortar gastos, as pessoas criam laços afetivos com os times, não é um assunto tão simples assim.

Outro problema seria deixar a temporada regular ainda mais idiota do que já. Se jogar 82 jogos contra outros 29 times já é um exagero, contra 23 é um absurdo de tanta inutilidade!

Nada indica que esse encolhimento esteja perto de acontecer, assim como os jogos de Natal devem continuar existindo por um bom tempo, mas são temas relevantes quando jogadores de peso como o LeBron James colocam o assunto em pauta meses antes das reuniões entre jogadores e a liga que devem mudar muita coisa na NBA. É bom discutir esses temas agora porque podem ser relevantes em algum tempo.

Atualização 25/12: Os comentários do LeBron sobre a diminuição dos times rendeu comentários hoje. Primeiro foi um agente de jogadores que preferiu não se identificar e disse para o Yahoo! "Como ele diz isso logo antes da negociação com a liga? Ele sabe que está defendendo algo que trará menos empregos para os jogadores? O LeBron não tem idéia do que acontece quando ele diz coisas desse tipo". 

Já o Derek Fisher, presidente da associação dos jogadores, foi mais diplomático: "Eu particularmente não concordo com o LeBron, mas entendo que não é sempre que todos os 460 jogadores vão concordar em tudo. Eu não sei se as declarações dele prejudicam nossa luta com a NBA, mas eu fiquei surpreso com o que ele falou". 

Pois é, o LeBron vive sua fase Gilbert Arenas: É só abrir a boca ou fazer qualquer coisa que a repercussão é a pior possível. Pelo menos dentro de quadra ele ainda dá conta do recado.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Vitória do técnico

Kevin Durant curva-se frente ao rei Scott Brooks


Enquanto o Denis segurava as pontas analisando todas as séries dos playoffs, indicando o que cada time precisava fazer para passar para a próxima rodada, estive afastado da internet - o que na prática significa apenas não ler e-mails me oferecendo aumento peniano, não ler comentários sobre a última baladinha escritos com 140 caracteres, e não conhecer anônimos se masturbando no Chatroulette. Mas ficar longe da NBA, justamente no início dos playoffs, é a parte complicada da coisa. Perdi um punhado de partidas, mas nada muito inesperado aconteceu além da vitória do Blazers em cima do Suns, algo que cada vez mais parece apenas um "oops" e dificilmente deve acontecer de novo (é oficial: o Blazers é o novo Clippers!). Ao menos, como prêmio de consolação, coloquei o meu League Pass para funcionar pela primeira vez nos playoffs a tempo de ver o Lakers perdendo para o Thunder. E o resultado não foi uma partida maravilhosa do Kevin Durant chutando traseiros, nem a arbitragem marcando faltas loucas no pirralho e complicando o Lakers, tudo que vi foi um prêmio merecido de técnico do ano para Scott Brooks.

Confesso que quando soube que ele ganhou o prêmio, fiquei com um pé atrás. Diabos, até ele ficou com um pé atrás, indignado que o Jerry Sloan nunca tenha ganhado o prêmio que ele levou para casa. Mas é que, para mim, dois outros técnicos haviam feito melhores trabalhos com elencos muito reduzidos: Rick Adelman no meu Houston Rockets e Scott Skiles no Bucks. O Adelman foi capaz de, pela primeira vez, colocar sua filosofia de jogo verdadeiramente em prática com um time rápido, baixo, inteligente e sem nenhuma estrela. Não foi para os playoffs, é verdade, mas ganhou mais da metade de suas partidas, conseguiu uma honrada nona colocação no Oeste e todo mundo estava contando com o time para ficar nos últimos lugares da NBA. O Scott Skiles, por sua vez, transformou um time horroroso sem nenhum grande defensor em uma das potências defensivas da temporada, montando uma marcação coletiva que permitiu ao time não ter que se matar por ser incapaz de pontuar com regularidade, além de tornar Andrew Bogut finalmente uma peça central - tanto na defesa quanto no ataque. Com o Bucks nos playoffs e vencendo partidas cruciais mesmo sem o pivô, e tendo na armação um novato afobado, o Skiles merecia esse prêmio mais do que ninguém.

Mas agora eu posso parar de chorar ou reclamar um pouco. Ao ver o Thunder sair de quadra ontem com a vitória, fiquei convencido de que o Scott Brooks mereceu o prêmio, pelo menos um pouco. Muito se falou sobre a inteligência do Durant em decidir ir pegar rebotes na última partida, em como o Lakers não estava agressivo, em como o Kobe não estava "em dia de Kobe", mas em cada um desses aspectos só consigo ver méritos do técnico do Thunder. Então, na primeira babação de ovo da história do Thunder que não será direcionada ao Kevin Durant, vamos dar uma olhada nas coisas que o Scott Brooks tirou da manga.

1. Rebotes para Kevin Durant

O Lakers começou a partida destruindo, e nenhuma bola do Kevin Durant estava caindo. Isso foi suficiente para o placar iniciar com um 10 a 0, que em algumas culturas obrigaria o perdedor a passar por baixo da mesa. Depois do jogo o Durant disse que seus arremessos não estavam caindo e que então ele resolveu ajudar o time em outras coisas, especialmente nos rebotes, saindo de quadra com absurdos 19 rebotes. Mas isso é balela, o Durant se aproveitou para sair de quadra com a pose Cavaleiro do Zodíaco de "eu ajudo meus amigos" quando, na verdade, foi o time que lhe permitiu isso. Não tenho dúvidas de que os 19 rebotes do Durant foram programados na prancheta horas antes do jogo começar.

Funciona assim: o garrafão do Thunder é uma merda. Então grande parte da tática defensiva do time é forçar o Lakers a arremessar de três pontos ao invés de deixá-los jogar debaixo da cesta. Após o arremesso, o garrafão do Thunder não tenta lutar pelos rebotes. Ao invés disso, empurram o garrafão do Lakers para fora, o famoso "box out". Quando Kevin Durant não está marcando o Kobe, é ele o responsável por usar sua altura e coletar o rebote com Gasol e Bynum desequilibrados, distantes da cesta. A grande vantagem dessa tática, além de manter dois jogadores de garrafão com a tarefa exclusiva de torrar o saco de Bynum e Gasol, é que a bola já fica nas mãos do Durant e portanto o Thunder não tem que sofrer como um condenado para fazer com que a bola chegue em sua estrela. O Artest está fazendo um trabalho sensacional negando a bola de chegar no jogador do Thunder, então garantir que o Durant possa chegar na quadra de ataque batendo bola, já com a posse dela em mãos, é essencial para que as movimentações ofensivas do time fluam com mais facilidade.

2. A proteção de garrafão

Não foi apenas nos rebotes que o Thunder fez um bom trabalho no garrafão defensivo. Marcações duplas em Bynum e Gasol e um congestionamento desgraçado embaixo do aro foram aos poucos desencorajando o Lakers a chegar tão perto para atacar. Além disso, Nick Collison foi espetacular numa função pouco notada: cavar faltas de ataque. Durante a temporada regular, o jogador (que é um dos meus favoritos dentre os mequetrefes) foi o segundo colocado em número de faltas de ataque cavadas, perdendo apenas para o Jared Jeffries do meu Houston. Em parte isso é talento do jogador, mas o dedo do técnico é crucial. Assim como o Houston com Yao Ming joga afunilando a defesa em direção ao centro do garrafão (onde está o Yao e o arremesso será contestado ou atrapalhado por um gigante amarelo), Scott Brooks afunilou a defesa do Thunder em direção ao Nick Collison e seu poder mutante de cavar faltas de ataque. Impedir que Gasol e Bynum possam pegar a bola de costas para a cesta nas laterais do garrafão e aí jogar no mano-a-mano é essencial, jogando no centro do garrafão eles podem ser alvo mais rapidamente de marcações duplas. E a gente sabe que o Gasol não é fã de muita bagunça ou contato.

3. Ritmo de jogo

A ordem no Thunder desde a primeira posse de bola foi "corra pela sua vida". Não vi o Thunder correr tanto para o ataque em nenhum outro jogo da temporada, e o resultado a princípio foi desastroso. Foram arremessos precipitados, gente batendo cabeça rumo à cesta e o Durant errando um arremesso idiota atrás do outro no medo de deixar o Artest chegar muito perto. Parecia uma ideia idiota, mas como todas as ideias idiotas do mundo ela é genial a partir do momento em que dá certo. O Lakers entrou nesse jogo veloz em que as posses de bola tem pouco valor, e aí ninguém quer ter paciência de colocar a bola dentro do garrafão e esperar o Gasol conseguir o lugar de que ele mais gosta na quadra para jogar de costas para a cesta. Ao invés disso, frente a um garrafão congestionado (por um monte de jogadores ruins, olha que divertido), o Lakers começou a arremessar de longe em posses de bola bem estúpidas. Com o passar do jogo, a velocidade do Thunder e escalações mais baixas e leves obrigaram o Phil Jackson a colocar um Lakers mais baixo em quadra, jogar sem Gasol e Bynum juntos, e aí o time de Los Angeles desistiu mesmo de jogar perto da cesta. Foi o ritmo de jogo imposto pelo Scott Brooks, associado à defesa de garrafão e a proteção dos rebotes para o Durant, que acabou forçando o Lakers a chutar 31 bolas de três pontos no jogo. Parecia time brasileiro!

4. Agressividade

Além do jogo exageradamente veloz, a ordem foi atacar a cesta. O Lakers desistiu de jogar no garrafão rápido, enquanto o Thunder não parou de atacar a cesta. A ideia é simples: se o Fisher é o elo mais fraco da marcação do Lakers, então o Westbrook tinha a obrigação de correr como um condenado, deixar o Fisher para trás e partir para uma bandeja ou enterrada. Do mesmo modo, o Durant sai no lucro se parar de tentar arremessar por cima do Artest e, ao invés, tentar partir na velocidade para dentro do garrafão. O Artest é mais lento do que ele, mas isso não é o mais importante: o essencial é que em movimento o Durant tem mais chances de cavar faltas (em cima do Artest ou dos outros defensores) do que se ele parar na linha de três e arremessar o dia inteiro. No começo do jogo pareceu meio imbecil ver o Durant tentando bater para dentro, mas depois começou a dar resultado: a defesa do Lakers começou a temer a infiltração nos contra-ataques e com isso surgiu espaço para um monte de bolas de três pontos na transição (coisa que o Mavs adora tanto fazer). Quem mais se beneficiou com isso foi o James Harden, que claramente arremessa melhor e produz mais nesse jogo de correria. Titio Don Nelson está de olho em você, rapaz.

O técnico Phil Jackson usou a diferença de lances livres para reclamar da arbitragem, dizer que os juízes estão favorecendo Durant e seus amigos. Eu uso a diferença de lances livres para provar que todo o plano de jogo do Scott Brooks foi um sucesso absoluto. O Lakers cobrou 12, o Thunder cobrou 34. E no primeiro tempo o Lakers não havia cobrado lances livres ainda, foi ridículo. Fobia de garrafão de um lado (aquela doença que o Rasheed Wallace espalha por aí), jogo de velocidade forçando as infiltrações do outro. O Thunder jogou um pouco fora do seu plano usual, mas forçou o Lakers a jogar ainda mais longe do plano a que está acostumado.

5. Defesa no quarto período

Recebendo menos marcações duplas durante a partida, o Kobe arremessou muito mais nos três primeiros períodos de jogo - e arremessou bem. A defesa do Thunder estava focada no garrafão, forçando o Lakers a arremessar de fora - e errar - e o Kobe, que acerta os arremessos de três pontos, se beneficiou disso. Tudo dentro do planejado, porque quando o Thunder virou o jogo (quando o Kobe sentou, o Lakers pirou), a defesa da equipe de Oklahoma mudou completamente. Ao invés de deixar o Durant nos rebotes defensivos como estava durante todo o jogo, já que ele podia ficar mais perto do garrafão por marcar o Artest (e desafiando o ala do Lakers a arremessar, que é seu ponto fraco), no final do jogo com o Thunder na frente a escolha do Scott Brooks foi colocar o Durant no Kobe. E tivemos mais uma daquelas descobertas bizarras de talento, tipo quando colocaram o LeBron apenas para marcar o Tony Parker e descobrimos que ele é um defensor absurdo quando não tem que atacar, ou quando o Kobe na seleção americana decidiu que não precisava pontuar e que iria focar seu jogo na defesa, mostrando que é um dos melhores na função. O Durant tem braços compridos demais, e pernas rápidas demais, para que o Kobe possa arremessar por cima dele. É o defensor perfeito para o Kobe, que errou arremesso atrás de arremesso no quarto período com o Durant em cima dele, inclusive tomando um toco decisivo do moleque. Na frente no placar, o Thunder teve Durant marcando o Kobe, parou de correr com a bola, tomou conta da posse de bola. Era a chance do Lakers fazer o mesmo, jogar no garrafão, mas no quarto período e atrás no placar o Lakers só quer saber de colocar a bola nas mãos do Kobe para arremessos decisivos. Mais espetacular do que o plano de jogo do Thunder na partida foi essa mudança genial no final do jogo, demonstração óbvia de que o Scott Brooks sacou todos os problemas do Lakers. Falta ao Thunder talento, o Jeff Green tem vezes em que não joga nada, o garrafão é quase inexistente, mas entender tanto assim o adversário costuma dar resultados. Apesar de ser apenas uma vitória até agora, aposto no Thunder para dar um baita de um sufoco nesse Laker, mais exposto em suas fraquezas do que em qualquer outro momento dos últimos anos. Sorte que eu cheguei - tarde mas cheguei - pra ver esse duelo tático acontecendo. Se as outras séries que não acompanhei até agora forem tão divertidas, vou agradecer todos os dias por estar de volta à internet!

terça-feira, 13 de abril de 2010

Filtro Bola Presa - Um resumo semanal

Vai ter festa hoje, fedelho?

O último Filtro Bola Presa da temporada! Foi uma experiência legal, divertida e provavelmente volta quando acabar os playoffs ou na próxima temporada regular. Com os playoffs bombando e a temporada se resolvendo, não vejo porque gastar um dia por semana com posts sobre coisas menores, curiosidades. Aliás fica até difícil encontrar essas histórias, todos os olhos estarão para os grandes jogos que irão decidir a atual temporada.

Então bora acabar com esse Filtro, tem muito vídeo bom e estatísticas patéticas pra gente mostrar!

- O Charlotte Bobcats foi nomeado inspirado no animal bobcat, que é um lince, animal típico do norte dos EUA e, logo, da Carolina do Norte, estado onde fica Charlotte. O nome faz sentido, portanto, mas o que pouca gente sabe é que o antigo dono do time, Bob Johnson, deu o nome também pensando em si mesmo! Ele queria um time que também chamasse Bob! O quanto isso é patético e narcisista?

Pensando nisso a revista Dime propôs que o time mudasse de nome. Bob Johnson, afinal, deu adeus ao time e hoje seu principal dono é Michael Jordan. Que nome inspirado no Jordan, Charlotte e/ou no estado da Carolina do Norte seria melhor para o time de Charlotte? São 229 comentários no post deles e todos merecem ser lidos, mas eu escolhi o meu Top 10 entre os nomes sugeridos por lá.

Top 10 - Os melhores nomes para o Charlotte Bobcats

10- Charlotte Kwames (Por que não homenagear a primeira grande decisão do Jordan como um executivo do basquete?)
9- Charlotte Jordanettes ( Já que o dono é mais importante que o time... )
8- Charlotte Fuel ( É a cidade da NASCAR, uma referência a carros faria sucesso na cidade)
7- Charlotte Smoke ( A cidade é famosa por suas empresas de cigarro e dá pra falar que as esperanças da equipe viraram fumaça)
6- Carolina Flight ( Essa idéia é muito boa! Ao invés de pegar o nome da cidade, pega-se o estado, como fazem Utah e Minnesota. E Flight é uma referência ao Jordan e aos irmãos Wright, que fizeram seu primeiro voo de avião na Carolina do Norte)
5- Charlotte Crowns ( A cidade é conhecida como "Crown Town", a cidade da coroa. E o Jordan é o rei, faz muito sentido!)
4- Charlotte SpaceJammers ( Melhor do que Charlotte Monstarz)
3- Charlotte lolcats (Simplesmente genial! Daria o melhor mascote da história. Não sabe o que é o lolcat? Ah, vá passar mais horas na internet ao invés de trabalhar!)
2- Charlotte Air (Air Jordan, com esse logo. Simples e o melhor)
1- Charlotte Hornets (Ótimo! Vamos organizar tudo direito. O Charlotte é o Hornets, o New Orleans pega seu nome "Jazz" de volta de Utah e eles podem virar o Utah White Power)


- O Zach Randolph já disse que quer assinar uma extensão de contrato com o Grizzlies. Faz sentido, afinal foi lá que ele aprendeu a jogar basquete. Mas ele não mudou tanto assim quanto a gente imaginava! Quando ele assinou seu contrato zilionário com o Blazers, anos e anos atrás, disse que queria X milhões de dólares (não lembro exatamente o valor) e quando estava tudo pronto, o Pau Gasol acertou um contrato maior com o Grizzlies. Randolph disse então que queria ganhar mais porque era melhor que o Gasol. Dá pra ser mais idiota?

E agora ele diz que quer pegar o contrato de 3 anos que o Gasol assinou com o Lakers para se basear em seu novo contrato com o Grizz. Qual é a obsessão do gordinho com o Pau Gasol?! Ele realmente acha que é melhor? Ou só acha que precisa de mais dinheiro para comprar Donuts?

- História de amor no Wolves! Darko Milicic e Al Jefferson estão se dando muito bem e trocaram elogios na última semana. Os dois concordam que ajuda muito o Darko ser canhoto e o Al Jefferson destro, assim cada um fica mais confortável de um lado do garrafão e não brigam pelo mesmo lado. O Al Jefferson também disse estar feliz por voltar a ser um ala de força e deixar o Darko como pivô. Segundo o Al "Ele é o braço esquerdo do Al Jefferson, e eu sou o braço direito dele". Então eles se beijaram na boca.

- Primeiro o LeBron disse que queria gravar um filme e que por isso provavelmente não iria jogar o Mundial da Turquia em Agosto. Depois foi a vez de Bosh e Wade deixarem suas presenças em aberto porque não sabem se já terão assinado contrato. Agora é a vez do Carmelo Anthony dizer que não sabe se vai porque ele vai se casar na offseason (olha a tchutchuca!). Ainda tem o Kobe, que disse que vai mas que tem tudo pra não ir com a quantidade de contusões que tem sofrido. Tô sentindo cheiro de Time B...

- Sessão de enterradas agora!
Primeiro enterradas inesperadas: Alguém sabia que o Donte Greene e o Jon Brockman eram capazes de dar essas enterradas? Pois é, esse é um treino comum e rotineiro entre dois jogadores ruins da NBA. Esse é o nível do jogo.



Agora enterradas fracassadas! Fizeram um Top 70 com as melhores enterradas erradas em campeonatos de enterrada. É o mundo do "poderia ser" em sua essência.



E para terminar, um campeonato de enterradas bizarro! De um lado o Air Up There, o homem do 720, o melhor em enterradas no planeta. Do outro Brittney Griner, uma guria de 20 anos, 2,03m e que enterra com muita facilidade. Ver aquela enterrada difícil e comemorada da Lisa Leslie depois de ver essa garota chega a dar vergonha.



Vintage Bola Presa - Toda semana um post reciclado

O post reciclado dessa semana é o nosso melhor post em todos os tempos. Ele se chama "Como aproveitar os playoffs" e é consenso entre todos nossos leitores que é o texto mais engraçado e divertido que já escrevemos. Ele trata de como burlar sua escola, trabalho e faculdade para conseguir assistir a tudo nos playoffs. Também dá uma dica de como lidar com sua namorada para que ela não venha com aquelas idéias de ir assistir a um espetáculo de dança contemporânea no dia do jogo 7 entre Magic e Cavs. É um texto que vale a pena ser lido na semana em que começam os playoffs!

Leia o post inteiro nesse link e comente aqui ou lá, sei lá, a gente lê tudo!

8 ou 80 - A melhor coleção de estatísticas idiotas
- Na vitória de ontem sobre o Pistons, o Raptors acertou mais de 60% dos seus arremessos. Foi a terceira vez desde fevereiro que o time de Toronto consegue essa marca. Por incrível que pareça, o Raptors só tinha tido 3 jogos com pelo menos 60% de aproveitamento nos últimos 14 anos!

- Marcus Camby incorporou o Nowitzki que mora dentro dele e acabou com o Thunder na noite de ontem. Fez 30 pontos, pegou 13 rebotes e acertou 12 dos 16 arremessos que tentou. O último jogador do Blazers a conseguir pelo menos 30 pontos, 13 rebotes e 60% de aproveitamento em um jogo foi o Clyde Drexler em 1988.

- Com a vitória sobre o Lakers no último sábado, o Blazers se tornou, ao lado do Spurs, os únicos times a terem recordes positivos contra o Lakers na era Phil Jackson. São 20 vitórias e 18 derrotas desde que o Zen Master foi para LA.

- Com o triple-double feito no último sábado, Jason Kidd se tornou apenas o terceiro jogador a conseguir esse feito depois dos 37 anos de idade na temporada regular. Os outros foram Karl Malone (com 40 anos) e Elvin Hayes (com 38). John Stockton é o único a ter conseguido em um jogo de playoff, quando fez um triple-double aos 39 anos de idade em 2001.

- Jamal Crawford tem 1.425 pontos marcados na temporada, é o máximo marcado por um jogador vindo do banco de reservas desde a temporada 1990-91 por Ricky Pierce.

- O Spurs conseguiu, pela 13º temporada seguida, acabar a temporada com mais vitórias do que derrotas fora de casa. É um novo recorde da NBA, superando a marca do Lakers, que conseguiu por 12 temporadas entre as temporadas 1979-80 e 1990-91.

- O duelo entre Knicks e Magic na semana passada foi apenas o segundo jogo da história da NBA em que os dois times acertaram pelo menos 15 bolas de 3. O Magic acertou 15 e o Knicks 16. O outro jogo foi há 3 anos entre o Houston Rockets (15) e Golden State Warriors (16).

- Na vitória do Thunder sobre o Suns na semana passada o novato Serge Ibaka foi o herói da noite a fazer um arremesso no último minuto com a diferença entre os times em apenas um ponto. Foi apenas o segundo arremesso tentado por Ibaka nessa situação em toda a temporada, o primeiro ele havia perdido. Kevin Durant, estrela do time, tem apenas 5 acertos em 25 tentativas nessa situação de jogo decidido por 1 ponto e com menos de 1 minuto no relógio.