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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Reconstrução ideal

O Perkins gosta de dançar valsa

Em novembro do ano passado, num post sobre o Thunder, o Denis escreveu o seguinte:

"Para o Oklahoma City Thunder se tornar a potência do Oeste que a gente sonhava antes da temporada começar, algumas coisas tem que mudar. A primeira é a defesa, que não pode ser tão fraca, isso é o ponto central. E a segunda é o próprio elenco. O Jeff Green é um jogador versátil e muito bom, mas completamente dispensável nesse time. Ele é bom demais para ser um reserva com poucos minutos, sua presença como ala de força só atrai mais ataque ao garrafão e mina os minutos do promissor Ibaka. Na posição três já tem Durant. Deveriam aproveitar que o Green é muito bom e simplesmente trocá-lo. Eles podem muito bem usar esse ótimo talento como isca para buscar mais arremessadores de três e uma presença defensiva no garrafão, talvez até um cara com mais experiência."

Pois bem, foi exatamente o que o Thunder fez. Com a evolução do Ibaka, Jeff Green se tornou dispensável. A forte defesa que vimos o Thunder empregar contra o Lakers nos playoffs passados, baseada no jogo coletivo e na defesa por zona, simplesmente desapareceu agora que o time se leva a sério e não é mais uma zebra em quadra jogando pela sua vida. Cole Aldrich, pivô defensivo draftado pela equipe, chegou tão cru que foi mandado para a D-League. Então o Thunder foi atrás de uma presença defensiva para o garrafão, um cara com mais experiência, usando o Jeff Green como moeda de troca - exatamente como o Denis sugeriu.

Em seu texto sobre novas estatísticas (aquele que deu polêmica porque questionou-se a fama do Kobe na hora de fechar jogos), o Denis constatou que a fama do Kendrick Perkins de ótimo defensor é justificada no aproveitamento dos adversários perto do aro, mas não no aproveitamento dos pivôs que jogam mais longe da cesta. Não é acaso, então, que o Celtics é o time que menos toma pontos no garrafão nessa temporada - e o Thunder é, justamente, o terceiro que mais toma pontos no garrafão! Se o Celtics procura, sei lá porquê, alguém para defender os pivôs que tem fobia de garrafão, tipo o Chris Bosh, vão encontrar alguma ajuda no Jeff Green. Mas para o Thunder, nada poderia casar tão bem com suas necessidades como Kendrick Perkins: ele é experiente, bem rodado nos playoffs, sua maior qualidade é justamente a defesa próxima ao aro, e ele não exigirá a bola no ataque, permitindo que Durant e Westbrook continuem monopolizando o sistema ofensivo. O casamento do time com o jogador é tão perfeito que basta algum sucesso nos playoffs para que Perkins passe a considerar com carinho uma extensão de contrato no Thunder, que pode oferecer bem mais grana do que o Celtics jamais poderia. O Nate Robinson complica um pouco mais as finanças (são mais de 4 milhões por ano), mas deve ajudar o ataque do time em minutos limitados e não compromete um futuro contrato para o Perkins. Seja lá qual for a água que o Danny Ainge bebeu e quais os medos que ele tivesse à noite do Celtics tomando um pau do Chris Bosh, a troca foi um sonho de debutante para o Thunder e torna a equipe imediatamente uma potência do Oeste. Pode não ser campeã agora, mas não tem problema. A única coisa que importa é convencer o Perkins a continuar no time e esperar alguns poucos anos até que equipes com artrite como Spurs e Celtics - e até o Lakers - não possam mais competir em alto nível. O Thunder é agora uma equipe para dominar a NBA por uma década, e que pode se dar ao luxo de esperar alguns anos antes de chegar ao topo. Até lá, deve manter todo mundo motivado com os estragos que farão nos playoffs, e com essa possibilidade constante e real de vencerem agora mesmo a qualquer momento, bastando um deslize adversário. O Thunder é montado para vencer agora mas pode esperar se necessário. É o plano perfeito, e o Perkins parece perceber. Já deu todas as indicações de que sua prioridade é assinar uma extensão com o Thunder, jogou no lixo seus tênis verdes a pedido dos companheiros de equipe, e se negou a usar uma bola verde no seu treino de fisioterapia, dizendo que não quer mais pensar no Celtics, que isso é passado (parece inclusive estar meio puto com a troca, mas disposto a abraçar seus novos companheiros). Ele deve ficar fora mais umas duas ou três semanas em reabilitação, mas o Thunder não tem pressa - ao mesmo tempo em que faz de tudo para manter o time competitivo e funcionando.

Isso fica ainda mais claro com a outra troca da equipe na data limite. Como o Thunder mandou o Nenad Krstic (além do Jeff Green e de uma escolha de primeira rodada) na troca pelo Perkins, foram atrás de outro pivô para tapar o buraco imediatamente. Poderiam improvisar o Nick Collison, poderiam esperar o Cole Aldrich amadurecer, mas o Thunder quer estar constantemente pronto para ganhar um título desde já - sem no entanto comprometer as chances de futuro colocando todas as fichas no agora. Por isso mandaram o contrato expirante do Morris Peterson e o pirralho DJ White em troca do pivô Nazr Mohammed. Eu sei que é bizarro, mas eu sou muito fã do Mohammed. Ele fazia estrago no Knicks de muitos anos atrás, foi campeão com o Spurs, é obediente taticamente, bom nos rebotes e pode fazer muito estrago se o ataque passar por ele graças aos seus movimentos embaixo do aro. Nunca foi muito aproveitado desde os tempos de Knicks, mas sempre rende quando recebe minutos. No Thunder ele ajudará imediatamente nos rebotes defensivos e poderá render no ataque quando a equipe quiser se impor no garrafão. Mas como seu contrato é expirante, o Thunder deixa seu garrafão mais forte sem ter que se comprometer financeiramente, podendo reassinar com o Mohammed por pouca grana depois ou apenas usar o dinheiro em outros jogadores ou renovar com a pirralhada. Time pronto pra vencer agora, mas sem estragar as finaças futuras.

Essa troca deixa o Thunder ainda mais forte e ela só é possível por um motivo muito estranho: o Bobcats desistiu. Vida de time que nasceu em expansão é uma droga, o time começa só com os jogadores que os outros não querem, não consegue convencer ninguém a ir jogar lá, e fica dependendo só de escolhas de draft. O Bobcats capengou especialmente no draft, escolhendo jogadores que nunca renderam aquilo que se esperava, mas há anos sempre flertam com uma vaga nos playoffs. A crença de que o time uma hora iria ficar maduro e chegar nos playoffs com tudo levou a trocas por jogadores veteranos como Stephen Jackson e Boris Diaw, e os pirralhos foram ficando de lado em nome da perseguição de uma vaga na pós-temporada. Talvez o que faltasse fosse um bom técnico como Larry Brown, pensava-se, mas as limitações do elenco ficaram ainda mais evidentes com o esquema rígido e defensivo do técnico vovô. O flerte com uma vaga pros playoffs continua, mas para quê? A equipe fede, o time não tem estrelas, os novatos não dão certo, então de que adianta conseguir uma oitava vaga nos playoffs do Leste pra tomar um cacete, não conseguir uma boa escolha de draft e ficar nesse limbo eterno? Depois de uma série de cagadas em anos de draft e contratações, o Jordan resolveu fazer o que está tão na moda com equipes que não fedem e nem cheiram e não dão lucro por causa disso: apertar o botão do apocalipse. Começou se livrando do Mohammed, que nem tinha tantos minutos assim, para conseguir um pirralho cheio de potencial, o DJ White, que o Thunder nunca teve espaço para usar.

E o plano de apocalipse do Bobcats deu seu passo mais decisivo quando mandou Gerald Wallace, provavelmente o melhor jogador da equipe, para o Blazers em troca do pirralho Dante Cunningham, o contrato expirante de Sean Marks e Przybilla e duas escolhas de draft (a do Hornets em 2011 e a do Blazers em 2013), além de grana. O plano é conseguir jogadores novos, escolhas de draft e contratos expirantes, pra não ter que pagar o salário do Gerald Wallace em um time em reconstrução. É claro que o Wallace vale mais do que isso, mas várias propostas foram feitas e nenhum time quis pagar pelo salário de um jogador que está numa temporada pior do que as últimas e que vive se machucando. Outros jogadores como Stephen Jackson e Boris Diaw também não encontraram recebedores por enquanto, mas devem ser trocados o mais rápido possível. São tempos de economizar e se focar na pirralhada e no draft. A crise econômica e os times fortes demais no topo das Conferências tornaram essa postura comum demais na NBA, mas não dá pra criticar. Depois de fazer muita merda, finalmente Michael Jordan tem um pouco de bom senso e tira o pé do acelerador em Charlotte.

Quem se deu bem com isso foi o Blazers, que já estava ameaçando ver seu plano de reconstrução virar farofa. Eu tinha um post preparado sobre isso, sobre o Blazers, mas acho que algumas das informações contidas nele são essenciais para entender a importância dessa troca para eles.

Não faz muito tempo, o Blazers fascinou todo mundo na NBA com um plano de reconstrução corajoso, fantástico e eficiente. O primeiro passo foi se livrar de seu melhor e mais caro jogador, Zach Randolph, em troca de quase nada. A equipe tinha chances de playoffs, e mesmo assim o Randolph foi simplesmente mandado embora. Os minutos começaram a ir para a pirralhada, o jogo deixou de ser centralizado nas mãos de um jogador só, a defesa virou foco principal sem o Randolph que não defendia nem ponto de vista, e o Blazers começou a se dedicar ao draft. Além das próprias escolhas e das escolhas recebidas em trocas, passou a comprar com dindim escolhas de primeira rodada de times que lutavam por um título e não tinham espaço para novos jogadores.

A tática para o draft também foi constante: escolher os melhores jogadores disponíveis, não importando os receios com lesões ou posição em quadra. O resultado foi incrível: o Blazers de repente era uma equipe com trocentos jogadores talentosos em tudo quanto é posição e ganhando experiência rápido. Chegou ao absurdo de ter tanto jogador novo e bom que não havia mais espaço para todos, começaram a surgir os descontentes com os minutos ou o número de arremessos por partida. Isso criou fortes moedas de troca, espaço salarial e - vejam que legal - um time forte nos playoffs.

Quando Travis Outlaw reclamava que queria arremessar mais e Steve Blake era apenas um de uma série de oitocentos armadores jovens na equipe, o Blazers mandou seus contratos expirantes em troca do Marcus Camby, substituto para o Greg Oden em caso de lesões. Agora, fizeram a mesma coisa: usaram o contrato expirante do Joel Przybilla (que foi conseguido às pressas com a lesão do Camby) e umas escolhas futuras de draft para trazer Gerald Wallace. O plano de reconstrução do Blazers, focado em se livrar dos melhores jogadores e dar espaço para a pirralhada, permitiu que o time tivesse as possibilidades e as ferramentas para trazer veteranos como Camby, Andre Miller e agora Gerald Wallace. Trazendo veteranos e se livrando de escolhas de draft, podemos entender finalmente o processo de reconstrução do Blazers como terminado. Agora eles se focam nas chances de ganhar já, não mais no futuro distante.

O problema é que esse processo de reconstrução tão eficiente que nos deixou tão apaixonados (e que gerou tantos clones por aí, tipo o Bobcats de agora) chegou a um ponto estranho em que me sinto seguro de dizer que ele está à beira de fracassar. Eu sei que os engravatados encerraram a reconstrução e agora estão se focando em vitórias, mas pra mim esse processo não levou a um plano de vitórias, levou a desespero e, agora, improviso.

Brandon Roy é uma estrela inegável. Chutou traseiros nos playoffs, foi All-Star em seu segundo ano, e levou o Blazers à relevância de novo. Sua altura permite que ele possa jogar tanto de ala quanto de armador, mas ele rende melhor quando joga de PG, de armador principal. No final de todos os jogos é ele quem chama as jogadas, executa e distribui a bola, e o Blazers é muito mais eficiente quando isso ocorre. Assim que o Andre Miller chegou, um armador cerebral e que mantém a bola nas mãos, ele e Brandon Roy já começaram a bater cabeça. O descontentamento dos dois gerou brigas nos vestiários e boatos sobre trocas. Tudo enquanto Rudy Fernandez, com minutos limitados graças ao elenco jovem e profundo da equipe, pedia incansavelmente para ser libertado e poder voltar pra casa. São questões que desapareceriam em um time com chances de título, mas essas chances viraram farofa com as lesões de Greg Oden, que ainda não conseguiu uma temporada sem ter os joelhos desmontados como Lego.

A reconstrução do Blazers trouxe jogadores demais que começaram a bater cabeça quanto ao seu espaço na equipe. A chegada dos veteranos, essenciais para consolidar as chances nos playoffs, complicaram o andamento da equipe. E os bagos do Blazers para draftar ou contratar jogadores com riscos de lesão viraram cagada quando Przybilla, Camby, Jeff Pendergraph, Greg Oden e Brandon Roy estavam todos juntos no hospital jogando dominó. Gerald Wallace, que nunca teve uma temporada sem lesões sérias, chega à equipe para reforçar a jogatina de dominó, provavelmente.

Greg Oden nunca esteve saudável, jogou uma temporada inteira na faculdade com apenas uma das mãos antes de ser draftado pelo Blazers. Mas o caso do Brandon Roy parece ainda pior. O jogador foi draftado pelo Wolves, que tentou trocá-lo imediatamente minutos depois após alertas dos médicos da equipe. O Blazers topou na hora e se deu muito bem, mandaram o Randy Foye e receberam um futuro All-Star. Mas agora Brandon Roy já passou por três cirurgias nos joelhos desde que entrou na NBA. Nos playoffs passados ele passou por uma cirurgia nos dois joelhos dias antes do início da primeira rodada contra o Suns, e voltou a tempo de entrar no Jogo 4 - nitidamente lento e com dores. Na época, ele já tinha sido avisado que não tinha mais qualquer traço de menisco nos joelhos, era apenas osso com osso. Não conseguiu render nada nessa temporada, constantemente com dores, e então resolveu passar por nova cirurgia nos dois joelhos. Menos de um mês depois, já voltou às quadras.

É claro que o Roy quer voltar logo a jogar, ele é altamente competitivo e quer levar o Blazers aos playoffs, mas inúmeras entrevistas com seus médicos apontam que ele não tem mais condições de jogar em alto nível em tempo integral. O recomendado é que ele atue por no máximo 70 partidas por temporada, e isso com minutos bastante limitados. E o pior: ainda assim, os médicos alertam que ele não será mais capaz de jogar basquete dentro de 2 anos.

A notícia é terrível para o Brandon Roy, um dos jogadores mais fantásticos dessa geração. Seus joelhos já eram motivo de preocupação, passaram por várias lesões e cirurgias, e o retorno às quadras sempre foi o mais rápido possível para ajudar o time. O Blazers sabia que o jogador não tinha mais meniscos, que não duraria muitos anos em quadra, e mesmo assim lhe colocou pra jogar uma série de playoff praticamente perdida - e lhe ofereceu um contrato máximo de 83 milhões de dólares por 5 anos.

O que sobrou para o Blazers ainda é um time incrivel, com chances de incomodar os grandes e fazer estrago nos playoffs. LaMarcus Aldridge passou a pegar rebotes e deixou de jogar tão longe da cesta, com médias de mais de 25 pontos e mais de 10 rebotes por jogo sem Brandon Roy na equipe. Andre Miller e Marcus Camby são veteranos que ainda jogam em alto nível, Wesley Matthews é um excelente jogador que substitui Roy em muitas coisas dentro da quadra (e que o Blazers conseguiu roubar do Jazz porque a equipe de Utah é pobre, tadinha) e Nicolas Batum é um excelente defensor que faz todas as pequenas coisas para uma equipe vencer. Gerald Wallace ajudará nos rebotes defensivos e na defesa, pode marcar múltiplas posições, jogava constantemente como ala de força no Bobcats e só passou a jogar mais no perímetro nessa temporada, arremessando cada vez mais, porque cansou de se contundir tanto dentro do garrafão. É um time forte, cheio de especialistas e com veteranos capazes de segurar as pontas nos playoffs.

Mas Brandon Roy ocupa a maior parte do espaço salarial da equipe e não deve durar mais de um par de anos. Quando estiver em quadra, baterá cabeça com Andre Miller. Greg Oden está fora de toda essa temporada novamente graças aos joelhos, mesma coisa com o pirralho Pendergraph. Marcus Camby acaba de voltar de uma cirurgia no joelho também, tentando ganhar ritmo. É um time com chances muito pequenas de título e que depende de uma série de jogadores que estão constantemente lesionados dando como finalizado um processo de reconstrução. Será que estava nos planos trazer Gerald Wallace? Marcus Camby? O Blazers deixou de construir uma equipe coesa porque se apaixonou por si mesma como nós nos apaixonamos quando eles chegaram aos playoffs. Devem ter pensado "é isso, dá pra ser campeão agora", enquanto todo mundo quebrava o joelho nos bastidores, jogadores pediam pra sair, contratos exigiam extensão e a grana acabava. Aí o plano foi pro saco porque querem ganhar agora, estão arriscando uma reconstrução inteira trazendo veteranos caros como o Gerald Wallace para tentar vencer os playoffs. Vencer Lakers, Thunder, Celtics? Sério?

O Thunder está pronto para vencer e não comprometeu seu futuro. O Bobcats desistiu das chances de playoffs e vai começar de novo. E o Blazers, esse time legal que vimos ser montado do zero, começa a arriscar para vencer imediatamente - mesmo dependendo de jogadores que não conseguem ficar saudáveis e de bagunça nos vestiários. Wesley Matthews e LaMarcus Aldridge chutam traseiros e vão receber atenção especial em outro post, mas o time precisa ser repensado em volta deles, sem contratações no improviso. O Thunder, que soube esperar e não se desesperou atrás de um pivô - lembra que eles chegaram a trocar pelo Tyson Chandler e devolveram porque os médicos avisaram que havia risco sério de lesão? - conseguiu o pivô perfeito, o Perkins, graças à flexibilidade financeira da equipe. Já pensou que legal se esse Blazers tivesse se negado a contratar jogadores com risco de lesão e tivesse usado o espaço salarial aguardando os jogadores certos? Por mais carinho pelo Blazers e por mais que eu adore ver o time jogando, o Thunder assumiu o posto de projeto de reconstrução ideal, algo que o Bobcats precisa olhar, espiar e aprender.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Quando é a hora de mudar?

Por que separar um casal tão lindo? S2


Podemos até ser piegas e falar sobre a vida como um todo: afinal, quando é hora de mudar? Quando é hora de mudar de casa, emprego, namorada, faculdade ou corte de cabelo? Em todos os esportes, na NBA também, a pergunta sempre vem: quando é hora de mudar? Quando é hora de mandar tudo às favas e recomeçar, ou só trocar de técnico ou mudar metade do time? Para todas essas questões, porém, temo que resposta definitiva só temos depois de tentar. Somos uma sociedade que julga pelos resultados, principalmente quando se trata de esportes.

Faltam 17 dias para o último momento em que os times podem realizar trocas nessa temporada e o assunto das mudanças está bombando. Carmelo Anthony à parte, são inúmeros times pensando se devem ou não dar uma chacoalhada no elenco. O time mais comentado é o Lakers, não só porque o Lakers sempre é um dos times mais comentados não importa o que aconteça no mundo, mas porque o General Manager do time Mitch Kupchak disse com todas as letras que pensa em uma troca para mudar a equipe e ver se eles acordam a tempo de defender o título. Seguido dessa declaração veio a do Ron Artest dizendo, insatisfeito, que queria ser trocado, declaração essa que depois foi negada pelo jogador. Ou seja, disse-me-disse que a imprensa brasileira esportiva chamaria de "crise".

Não é tudo isso, claro, tem muito exagero, mas o que vale é a questão se o Lakers deveria mesmo mudar o time. Para responder isso eu prefiro lembrar de algumas histórias, semelhantes ou não, antes.

Começo com o Indiana Pacers. Eles começaram a temporada arrasando, vencendo Heat e Lakers fora de casa e com a marca de 11 vitórias e 10 derrotas em seus primeiros 21 jogos. O problema é que depois disso eles venceram apenas 7 jogos nos 28 seguintes, perdendo algumas partidas bem humilhantes e, pior, com um aproveitamento ofensivo (pontos a cada 100 posses de bola) pior que o do Cleveland Cavaliers. Sim, Cavs, aquele time que ganha menos que o Vasco e o Corinthians juntos. Escrevemos um post sobre o time nessa época, tentando explicar porque o Roy Hibbert, por exemplo, que começou a temporada como forte candidato a jogador que mais evoluiu, estava virando o vencedor do prêmio TPM de jogador mais inconstante da temporada.

A resposta que o time arranjou para essa queda de produção foi demitir o técnico Jim O'Brien, que também atende pelo nome de Don Nelson II. Suas 11 escalações diferentes nos primeiros 40 jogos sem nenhuma grande contusão para justificar começaram a irritar muito os jogadores, que não entendiam porque jogavam 40 minutos em um dia e 3 no outro. Os mais prejudicados eram Darren Collison, Paul George e Tyler Hasnbrough. O último chegou a se declarar finalmente livre depois da demissão do antigo chefe, e disse que "agora finalmente vai ser mais divertido". Não que ele seja titular agora, o assistente técnico e novo treinador Frank Vogel optou por deixar Josh McRoberts como o ala de força titular e Hansbrough como primeira opção do banco. Simplesmente saber com quem joga, quantos minutos e sua função muda tudo para os jogadores.

Mas mesmo com esses acessos de doideira, O'Brien foi o técnico que fez o Pacers um bom e veloz ataque mesmo com poucos bons jogadores nos últimos anos e uma das melhores defesas da liga nesse ano (8º lugar) mesmo sem o melhor elenco do mundo para essas funções. Para a diretoria então chegou a hora de pesar o que o técnico ofereceu nos últimos anos e como seu comportamento estava incomodando os jogadores, decidiram mandá-lo embora. Essa não foi difícil, O'Brien não é ruim como muita gente acredita mas não é indispensável. A mudança tem dado resultado, apesar de poucos jogos para medir tudo, é consenso geral na imprensa americana que os jogadores parecem felizes e motivados de novo, além do clima bem mais leve no vestiário segundo quem esteve lá. Era hora de mudar mesmo.

Uma história bem parecida aconteceu algum tempo antes ainda nessa temporada quando o Charlotte Bobcats mandou o Larry Brown embora. O cara é um gênio, um dos que melhor armou defesas na história da NBA e até hoje o único treinador a ter levado o Bobcats aos playoffs. Mas também é um mala sem alça que não dá a menor liberdade para os seus jogadores dentro de quadra, cobra sem parar, é ranzinza e usava esse tipo de roupa quando era técnico nos anos 70. Isso sempre provoca um ciclo em que os jogadores começam respeitando o Larry Brown, o amam quando o time começa a vencer, e depois o odeiam quando a rotina infernal se torna maior do que as vitórias. Foi assim em várias de suas equipes, até no vencedor Detroit Pistons de 5, 6 anos atrás. Sem contar o sentimento de que "a gente é bom e pode vencer sem ele" que cresce depois de um tempo.  Foi o que aconteceu no Bobcats e um dia depois de uma declarações pública bem agressiva do Stephen Jackson, o técnico foi demitido. Captain Jack disse que "Como um time estamos jogando muito mal. E no fim das contas é o trabalho do técnico nos preparar para o nosso trabalho que é entrar em quadra e jogar."

Esse caso não é tão óbvio como o do Pacers. Larry Brown faz bem mais diferença que o Jim O'Brien em um time, mas com todo mundo resmungando, o que era mais fácil, trocar Gerald Wallace e Stephen Jackson por pirralhos ou trazer um técnico mais gente fina e sorridente? Diz a lenda que eles até tentaram trocar o Wallace, mas sempre pediram coisas demais em troca e as negociações morriam rápido. Sem conseguir o que queriam para a troca, deram um pé na bunda do Brown e trouxeram Paul Silas, primeiro técnico do LeBron na NBA e que é conhecido por ter bom diálogo com os jogadores e ser bem liberal. O resultado foi um Bobcats mais motivado, com liberdade criativa no ataque e que pelo menos ainda não piorou tanto assim na defesa. Numericamente o time faz um pouco mais de pontos e toma um pouco mais, não é tanta diferença assim, mas ninguém mais reclama e o time voltou a vencer. Dá pra considerar a troca um sucesso, embora o time esteja condenado a não ir para lugar algum com esse elenco limitado.

Esses foram dois casos em que a mudança veio pelo elo mais fraco, o treinador, e que deu resultado mais porque os jogadores voltaram a jogar com vontade do que por questões técnicas e táticas. Vamos lembrar de outro time que mudou, mas que o fez radicalmente e via trocas. O Orlando Magic trocou peças importantes do time, incluindo titulares e os melhores reservas para refazer meio time. Em pouco tempo a defesa se manteve no (bom) mesmo nível e o ataque floresceu de maneira impressionante. Como citamos no último Filtro, todos os principais jogadores (tirando Arenas) tem aproveitamento de arremessos muito acima da média da NBA. O número de vitórias também cresceu e o risco gigantesco de trocar tanta gente no meio da temporada pode ser considerado um sucesso. Mas como nada é perfeito, com a contusão do Brandon Bass e sem Marcin Gortat no banco eles sentem falta de mais alguém forte no garrafão para ajudar Dwight Howard. E sem o carrapato do Mickael Pietrus para marcar o LeBron, King James meteu 51 pontos na fuça do Orlando. Sempre precisamos de tempo para ver todos os lados de mudanças tão drásticas.

Quem tentou mudar nessa temporada, portanto, vem tendo sucesso. Mas isso não quer dizer que o Lakers deve fazer o mesmo. O time não tem jogado tão mal quanto as pessoas tentam empurrar, o problema é quando tem jogado mal, o Lakers perdeu jogos importantes contra Celtics, Heat, Bulls e Spurs, por exemplo. Mas até contra o Heat e Celtics eles não jogaram mal durante toda a partida e na última contra o Spurs jogaram até muito bem, perdendo apenas por um pequeno vacilo ao deixar o Antonio McDyess dar um tapinha no rebote ofensivo no segundo final do jogo. O time não é perfeito, tem defeitos, mas teve também nos últimos três anos e venceu o Oeste mesmo assim. Além disso, se for trocar, vai trocar quem? Odom, Gasol e Bynum não estão jogando mal e Artest ninguém vai querer. Mandar o Phil Jackson embora acho que nem o torcedor mais louco cogita!

Com um elenco tão bom e que ganhou tantas coisas nos últimos anos eu acho muito precipitado tentar qualquer mudança abrupta no elenco, a não ser que alguém proponha uma troca do tipo Derek Fisher e uma foto autografada da Juju Panicat pelo Deron Williams e um abraço apertado. E depois da troca do Pau Gasol ninguém está muito a fim de dar coisas de graça para o Lakers. Se o time precisa jogar melhor contra os seus principais adversários, e precisa mesmo, os ajustes devem ser mínimos, táticos, não extraordinários. Para isso o Gasol precisa descansar mais, o Joe Smith precisa de mais minutos em quadra para os jogadores de garrafão terem um descanso, o Andrew Bynum precisa ser mais acionado no ataque e deixar de ser às vezes a quarta opção ofensiva e até algumas mudanças na rotação do time devam ser consideradas. Sabia que entre todos os quintetos usados pelo Lakers na temporada, os que envolvem o Luke Walton sempre tem bom aproveitamento ofensivo? Ele poderia ganhar mais tempo de quadra. O Matt Barnes também tem bons números, está fazendo falta e deve ser considerado já um bom reforço para os playoffs.

Eu vejo a maioria dos jogos do Lakers por ser torcedor e já vi muitos jogos horríveis deles nessa temporada, mas se tivesse que achar um meio termo entre todos esses jogos irregulares da equipe eu diria que se o banco de reservas jogar bem como jogou no primeiro mês da temporada o time está muito bem na fita. E quando o banco toma muitos pontos e o Lakers fica atrás no placar os titulares mudam o jeito de jogar e tudo vai por água abaixo. Quando o time está ganhando o Kobe está frio, calmo e joga o seu estilo de costurar a defesa, achar oponentes bem posicionados, envolver todo mundo e de repente o Lakers parece imparável. Mas se o Gasol está em um de seus dias de Cisne Negro (como diz o True Hoop) e nada cai pra ele, Kobe para de passar a bola, aí Artest erra meia dúzia de arremessos e o Kobe sente que ninguém está em um dia bom e ele que deve vencer sozinho. É a pior coisa para a equipe, não que ele não consiga marcar os seus pontos assim, ele marca e é lindo de assistir, mas não é coincidência que nessa temporada ele passou dos 35 pontos em 4 ocasiões e o time perdeu 3 desses jogos. E nos jogos em que tentou mais de 25 arremessos o Lakers perdeu 6 e venceu 4 (duas das vitórias sobre o poderoso Wolves).

Por favor não comecem com mais um ataque de loucura achando que a gente odeia o Kobe e quer menosprezá-lo. Busquem por tudo o que já falamos dele nesses três anos e vejam o quanto admiramos o seu talento e como sabemos que ele é espetacular e fora de série. Mas nesse caso, nessa temporada e nessas situações, ele não tem feito bem para o time. Simples assim. E vocês até podem interpretar isso de um jeito bonito, mostrando como ele é competitivo e tem vontade de vencer a qualquer custo (se é que isso é mesmo bonito).

E o problema do Kobe diz tudo sobre os problemas do Lakers. Não é porque existem defeitos a serem corrigidos que uma troca é a solução. O Kobe precisa mudar sua atitude em alguns jogos ou momentos de jogos, mas de jeito nenhum que vão trocar o homem. O mesmo serve para Pau Gasol, Lamar Odom e até o Ron Artest, quem viu o jogo ontem contra o Hornets percebeu como o Ron Ron ainda é um defensor fora de série. Para mim essa não é a hora de Mitch Kupchak tentar mostrar que é um grande General Manager e mudar tudo, mas é a hora do Phil Jackson se mexer e mostrar os talentos que já mostrou tantas vezes para motivar seus atletas e buscar alternativas táticas.

E só para não dizer que só demos exemplos de times que melhoraram mudando, como citei aqui Pacers, Magic e Bobcats, posso lembrar também do Boston Celtics, que decidiu não mudar. No ano passado o time parecia velho, cansado e penou para se classificar em quarto lugar no Leste, a mesma história do Lakers desse ano. Mas aí nos playoffs eles jogaram demais e só por uma inspiração divina do Ron Artest não ganharam o título. Eles poderiam ter trocado o contrato expirante do Ray Allen no meio da temporada passada ou até mesmo não ter renovado depois que ele esteve gelado como uma atuação da Vera Fisher nos últimos jogos das finais. Mas não, decidiram não só manter a base que tinha sucesso como também adicionaram, sem perder nada além de Tony Allen, e o time velho, com mais um ano nas costas e mais os quase 40 do Shaq, é ainda melhor do que antes.

Como eu disse no começo do texto, só dá pra saber o resultado da mudança quando se tenta ela. E é o tipo de coisa que temos a tendência de julgar pelo resultado porque o outro lado da história a gente só pode imaginar, mas mesmo assim considero esse caso do Lakers mais fácil que os outros. Pacers e Bobcats praticamente não tem nada a perder, o Magic era um time que precisava de mudança porque o time vencedor de 2009 já havia sofrido uma grande transformação (saída de Turkoglu por Vince Carter) e uma queda de produção nos playoffs do ano passado. O Lakers, ao contrário, vem de um título! O quanto seria precipitado (e inédito) um time bi-campeão ser desmontado ou remodelado só porque perdeu meia dúzia de jogos simbólicos na temporada regular? Sossega, Kupchak.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Preview 2010-11 / Charlotte Bobcats

O da esquerda foi pro Knicks, o da direita iria pra 
putaqueopariu se o Larry Brown pudesse escolher


Objetivo máximo: Playoffs
Não seria estranho: Ficar em 9º ou 10º no Leste
Desastre: Passar muito longe dos 8 primeiros da Conferência

Forças: Técnico e elenco especializados em defesa
Fraqueza: Ataque fraco. Perdeu jogadores e não conseguiu reposição à altura

Elenco:

Charlotte Bobcats
Titulares
Reservas
Resto
PG
DJ Augustin
Shaun Livingston
SG
Stephen Jackson
Gerald Henderson
Matt Carroll
SF
Gerald Wallace
Derrick Brown
Dominic McGuire
PF
Boris Diaw
Tyrus Thomas
Eduardo Najera
C
Kwame Brown
Nazr Mohammed
DeSagana Diop


Técnico: Larry Brown

Larry Brown é o único técnico da história do basquete americano a ter um título da NCAA e da NBA. No currículo tem façanhas como fazer aquele Pistons sem estrelas (ou que viraram estrelas depois daquela temporada) de 2004 bater o Lakers de Shaq, Kobe, Malone e Payton e fazer o Allen Iverson jogar o melhor basquete da sua vida. No último ano conseguiu ser o primeiro técnico a levar o Bobcats, caçula da NBA, para os playoffs.

Historicamente, e novamente com o Bobcats, Larry Brown faz sua fama por montar boas defesas. O Sixers de 2001 que foi até a final contra o Lakers era uma defesa sólida, com Dikembe Mutombo ainda em seus bons anos e o ataque todo nas mãos de Iverson. O Pistons de 2004 tinha um ataque mais eficiente, bem montado, mas foi o que foi na história da liga por sua defesa. Sob o comando de Larry Brown é que Ben Wallace deixou de ser um desconhecido para se tornar o melhor defensor do mundo por tantos anos. Outra característica básica do treinador é a sua exigência. É bem comum ele afastar jogadores ou falar mal deles publicamente quando acha que não estão se dedicando o bastante em quadra. É uma espécie de Scott Skiles, mas com jogadores que os respeitam mais.

No Bobcats ele parecia estar tentando simular o que fez em Detroit, se preocupando com uma defesa forte e deixando o ataque mais no jogo de meia-quadra, com um ou dois jogadores inteligentes atuando como o Chauncey Billups do time, segurando a bola na mão por bastante tempo e tomando decisões por conta própria. Primeiro era Boris Diaw, que na temporada passada perdeu esse papel para Stephen Jackson. Apesar dos dois estarem jogando bem, não levam o time nas costas. Larry Brown ainda não conseguiu achar um jeito de fazer a melhor defesa da NBA virar um ataque competente. Seu histórico de ataques pouco eficientes e dependente de estrelas, somado ao elenco do Bobcats, dão a entender que Larry Brown vai penar muito nessa temporada para voltar a seus melhores resultados. Mas sem ele o Bobcats estaria fadado às últimas posições da liga.

...

O Raymond Felton nunca chegou a ser aquela grande estrela que tanta gente achou que ele seria. Mas não é nenhuma decepção também. Bom armador, sabe pontuar e por muitas vezes, com suas jogadas individuais, foi a válvula de escape do Bobcats em quartos períodos. Mas agora ele está no New York Knicks. Então quem entra no lugar dele no time? Em teoria seria o DJ Augustin, único outro armador do elenco, mas o caso não é tão simples assim. Durante muitos jogos o Felton estava jogando mal ou simplesmente precisava descansar e o Larry Brown se recusava a colocar o DJ Augustin, seu reserva imediato, em quadra. Ou deixava o Felton por mais tempo em quadra ou improvisava o Stephen Jackson ou até mesmo, no fim da temporada, o Larry Hughes. Perguntado uma vez sobre porque Augustin não estava jogando, ele respondeu algo como “Porque ele não defende e não sabe armar jogadas” ou algo assim.

Eles definitivamente não se dão bem e já tentaram trocar o cara muitas vezes, sempre sem sucesso. Muita gente até está apostando que o armador titular pode acabar sendo o Shaun Livingston, mas eu duvido. Apesar de ser um jogador inteligente, nunca foi o mesmo depois da sua contusão-Lego (só assista se tiver sangue frio) e eu não acho que seja bom o bastante para ser titular atualmente.

Outro problema do time hoje em dia é a inutilidade do Boris Diaw. Quando ele chegou no time no meio da temporada retrasada revolucionou o ataque da equipe, finalmente dando qualidade de passe e inteligência. Mas essa função passou a ser realizada pelo Stephen Jackson no último ano, agora Diaw é um cara que defende mal, não sabe arremessar e não tem a bola na mão pra fazer o que faz melhor (e faz como poucos no mundo), passar a bola. Diaw também está acima do peso faz algum tempo e Larry Brown, que nunca perdoa, já deixou clara sua insatisfação com isso.

O ótimo blog NBA Playbooks deu uma boa solução para o Bobcats desviar a atenção dos seus defeitos e passar a ser mais conhecido pelas suas qualidades. O segredo é usar a tática que o Philadelphia 76ers usou nos últimos anos, virar o time do contra-ataque, jogar em velocidade. O Sixers se destacou com isso, principalmente na temporada retrasada, porque tinha bons defensores, ótimos ladrões de bola e um time inteiro que sabia fazer pontos de transição. Não dá pra ganhar títulos só com isso, mas quando estamos falando de time com poucas ambições, é uma saída.

O DJ Augustin não sabe armar o time, ele se destaca pelas suas bolas de três e velocidade. Então pode ser bem útil para simplesmente pegar a bola e sair correndo. Se aprender a dar os passes certos nas horas certas, coisa que eu sinceramente não sei se ele sabe fazer, será um passo importante para se firmar como titular. Se isso não der certo eles podem deixar a bola na mão do Stephen Jackson ou do sempre espetacular Gerald Wallace. Apesar de mais altos e pesados, são velozes e puxam contra-ataques com muita qualidade. Eu não descartaria por completo a idéia do Larry Brown colocar no time titular, ao invés do Augustin, o Gerald Henderson, jogador de 2º ano que teve poucas chances na temporada passada. Ele não é armador nato, mas é veloz e atlético nos contra-ataques e se tiver um relativo sucesso marcando os armadores adversários pode ganhar a vaga. Aí a idéia seria usar a defesa esmagadora para roubar a bola ou conseguir um rebote defensivo e sair em velocidade com o trio Henderson, Wallace e Jackson. Em situações de meia quadra aí a armação teria que ficar mesmo com o Captain Jack. Não é o ideal, mas considerando quanto o Larry Brown odeia o Augustin, há uma chance.

Na última temporada o Bobcats foi um dos times que mais forçou erros dos adversários e um dos que mais forçou erros de arremesso, então as chances de pegar a bola e forçar o jogo de transição estão aí. Para ser o time perfeito para atuar nesse esquema falta apenas um melhor reboteiro. No ano passado eles estavam bem abaixo da média para um time especialista em defesa e para essa temporada ainda perderam Tyson Chandler por nada.

Como se perder Felton por nada não fosse o bastante, ainda conseguiram ser piores com o Chandler. Porque dessa vez ganharam despesas em troca. O pivô foi para o Dallas em troca de Erick Dampier, Eduardo Najera e Matt Carroll. Erick Dampier era a peça chave da troca porque ele tinha um contrato não garantido de 13 milhões de dólares para essa próxima temporada, então um time poderia dispensá-lo antes da temporada começar e economizar 13 milhões. A idéia do Bobcats era usar o Dampier como isca de troca para times que queriam se livrar de jogadores caros. Como o Dallas já tinha provado nos meses anteriores, não deu certo. Ninguém queria o Dampier nem para despachar contratos imensos, ou queria no máximo mandar um Eddy Curry da vida, o que também não interessava o Bobcats. Resultado? O próprio Bobcats foi obrigado a dispensar o Dampier para não ter que pagar 13 milhões (mais as multas por passar do teto salarial) por um jogador tão mais ou menos. Ou seja, o Bobcats trocou Tyson Chandler, seu pivô titular, pelos horríveis contratos de Eduardo Najera e Matt Carroll que, juntos, não devem jogar mais de 8 minutos por jogo. Uma offseason para ser esquecida em Charlotte.

Para coroar o novo sistema ofensivo sugerido, poderia também haver uma troca no time titular de Boris Diaw por Tyrus Thomas. O QI do time cairia de um prêmio Nobel para um rato velho, mas ganharia muito em velocidade, defesa e teriam mais um cara para acompanhar os contra-ataques. O grande defeito do Tyrus Thomas é ser inútil no jogo de meia quadra, já que não sabe jogar de costas pra cesta, mas até aí o Diaw não é grande coisa. Mesma coisa no arremesso de média distância, Tyrus Thomas, embora tenha melhorado muito, ainda é irregular, assim como é Diaw hoje em dia. Com essa mudança o Diaw poderia até ser mais útil, voltando a ter a função de organizador do ataque quando o Stephen Jackson fosse descansar.

Embora tenha divagado tanto sobre as possibilidades ofensivas do time, a verdade é que o que define mesmo o time é a sua defesa. Apesar dos pesares, enquanto forem a melhor defesa da NBA vão incomodar muita gente. Vão ser uma espécie de Pacers do meio da última década que era o famoso time construído para vencer por 51 a 49. Deem uma olhada nesse vídeo do último ano em um jogo contra o Heat, foi um massacre defensivo:

domingo, 18 de abril de 2010

Preview dos playoffs - parte 3

Domingo, dia de sujar a roupa com molho de tomate e de acompanhar a estréia de mais 8 times nos playoffs de 2010. Ontem analisamos as séries entre Cavs/Bulls e Bucks/Hawks na parte 1 e Celtics/Heat e Nuggets/Jazz na parte 2. Começamos hoje com os dois primeiros jogos da rodada, Lakers/Thunder e Magic/Bobcats.


Vamos ao trabalho, crianças!

Los Angeles Lakers x Oklahoma City Thunder


O que o Lakers precisa fazer para vencer:
Foram 4 jogos na temporada entre as duas equipes, o Lakers venceu 3 partidas bem disputadas e tomou uma sacolada na última. Em todos os jogos o Thunder usou a mesma tática, colocou o ótimo Thabo Sefolosha grudado no Kobe e sempre dobrou a marcação quando qualquer um dos pivôs do Lakers chegava perto da cesta.

A pressão no Kobe fazia ele não conseguir passar muito tempo com a bola na mão e a marcação dupla no garrafão forçava turnovers e passes para fora, para arremessos de 3 pontos, parte do jogo que o Lakers não tem feito bem em toda a temporada. O caminho para superar essas dificuldades é a paciência. A marcação dupla muitas vezes força um passe para fora, mas se as bolas não caírem de novo, o time pode colocar a bola de novo no garrafão ou ir para a infiltração, ou tentar um pick-and-roll, são inúmeras as possibilidades. O Lakers tem muitos jogadores bons, quase todos bem versáteis e o sistema de triângulos pede que o time seja esperto e saiba ler a defesa antes de movimentar a bola. É só seguir o script e não se desesperar que o Lakers leva a série sem dores de cabeça.

O problema é que nos jogos da temporada regular, mesmo com as vitórias, o Lakers não manteve a calma. O time ficou muito frustrado com a defesa pentelha do Thunder e forçou muitos arremesses e jogadas individuais sem sentido. A movimentação de bola, junto com o estabelecimento do jogo de garrafão (que passa pela volta do Bynum de contusão), vão decidir se o Lakers vai sofrer ou não contra o jovem time dos ladrões de franquia.

O que o Thunder precisa fazer para vencer:
O Lakers tem mais talento, mais elenco e um garrafão infinitamente superior, a primeira coisa que o Thunder precisa fazer é dar um jeito de não ser trucidado nos rebotes. Não adianta nada defender bem se o Lakers tiver duas ou três chances a cada posse de bola. Nisso o Nick Collison e o Serge Ibaka vão ter que se superar, senão já era.

Mas não é só em defender o poderoso ataque do Lakers que o Thunder terá problemas. O Kevin Durant é lindo, é fantástico, foi o jogador mais jovem da história a ser o cestinha de uma temporada e todos nós amamos ele, mas nos 4 jogos contra o Lakers nessa temporada a sua média não foi de 30 pontos, mas de "apenas" 25. Somente nos jogos contra Mavs, Magic e Rockets ele teve números piores que esses. E o aproveitamento de 19% nas bolas de 3 é o pior entre todas as equipes! Ou seja, Ron Artest está merecendo seu salário. No primeiro jogo entre os dois times em especial, o Durant estava fazendo chover até começar o quarto período, quando o Artest não deixou ele respirar. Se o Thunder quer ter uma chance de ser o Warriors da vez, o Durant tem que arranjar um jeito de superar a marcação do Ron Ron, seja lá que jeito seja esse.

Por fim, uma boa saída para os momentos em que o Durant estiver com dificuldades para marcar seus pontos é usar bastante o Russell Westbrook. O Lakers tem problemas em marcar armadores rápidos porque o Derek Fisher é um senhor de idade e o Westbrook não é só veloz como bem forte e pode lidar com o garrafão forte do Lakers. As infiltrações dele também podem ser um bom jeito de deixar outros jogadores livres, único jeito de envolver caras como Collison e Sefolosha, importantes na defesa, também no ataque.

Previsão de resultado: Lakers 4 x 1 Thunder. O time é jovem, bom, empolgante e merece toda a babação de ovo que tem recebido, mas nenhum time sem pivô vai derrotar o Lakers nesses playoffs. E tiveram azar em pegar um dos melhores marcadores do Durant logo na sua estréia nos playoffs, deve dar Lakers.


Orlando Magic x Charlotte Bobcats


O que o Magic precisa fazer para vencer:
Sabe contra quem o Dwight Howard fez a sua única cesta de três na carreira? Contra o Bobcats. Sabe contra quem o Dwight tem maior média de rebotes em toda a carreira? Contra o Bobcats, 15,2 por jogo. Também é contra o Bobcats a quarta maior média de pontos do Superman e é o Bobcats um dos 5 times a sofrer com aproveitamento de mais de 60% dos arremessos do Dwight ao longo de sua carreira.

Não sei o motivo dessa fixação, mas o Dwight sempre trucidou com o Bobcats desde o seu primeiro ano. Ele chegou na NBA em 2004 como primeira escolha, a segunda foi o Emeka Okafor, do Bobcats, e esperavam uma grande rivalidade entre os dois. Mas não deu certo, o Dwight levou isso a sério mas o Okafor nunca teve chance, foi sempre um massacre. Em 24 jogos entre as duas equipes desde que Dwight e Bobcats chegaram na NBA foram 16 vitórias do Orlando Magic.

Quero dizer com isso tudo que o Magic tem o número do Bobcats, eles sabem o que fazer contra o time desde sempre e não vão ter grandes problemas pra fechar essa série. O Vince Carter vai ter dificuldades contra a marcação do Stephen Jackson e do Gerald Wallace, o Rashard Lewis não vai achar um garrafão lento pra poder abusar, mas eles souberam lidar com isso até hoje e ninguém no Bobcats tem a menor idéia de como segurar o Dwight Howard. O Magic foi o melhor time da NBA nos últimos três meses e só precisa jogar do mesmo jeito, com a mesma dedicação defensiva e ataque paciente para passar para a próxima fase.

O que o Bobcats precisa fazer para vencer:
A que tudo indica, o Tyson Chandler, eterno machucado, pode estar de volta para a primeira partida de playoff da história do Bobcats. A presença dele, junto com a do Nazr Mohammed, é essencial para o Bobcats conseguir frustrar o Dwight Howard no ataque. Se eles conseguirem encher bastante o saco dele e forçar o pivô do Orlando àqueles jogos em que ele só tenta uns 7, 8 arremessos, está ótimo.

Porque sem a presença dele no ataque o Magic é forçado a usar suas armas de perímetro, como Jameer Nelson, Vince Carter e Rashard Lewis, jogadores que vão estar sendo marcados pela elite defensiva do Bobcats, Ray Felton, Stephen Jackson e Gerald Wallace. O Bobcats não vai conseguir ir longe se cair no ritmo rápido do ataque do Magic, precisa defender forte e deixar o ritmo no estilo Larry Brown, bem devagar e com o ataque lento e bem pensado.

No setor ofensivo uma coisa é certa, eles não vão longe sem o Stephen Jackson. Se ele não estiver em um dia bom, pode esquecer, se resolver carregar o time nas costas, eles tem uma chance. Mas como ninguém leva um time nas costas por 7 jogos, eventualmente outros caras vão ter que ajudar, seja o Gerald Wallace nos contra-ataques, o Felton com seu jogo meio preguiçoso ou até o DJ Augustin, melhor arremessador de 3 da equipe que aos poucos vai ganhando minutos. O Magic não é famoso pela defesa como é pelas bolas de 3 pontos mas mesmo assim defende muito bem, é certamente uma das três melhores defesas da NBA, a movimentação de bola e a calma no ataque vão ser muito importantes para o ataque do Bobcats não empacar.

Previsão de resultado: Magic 4 x 1 Bobcats. O Bobcats é bom demais em casa e talvez até consiga vencer os dois jogos em Charlotte, mas o Magic está jogando com tanta confiança nos últimos meses que acho que vão se dedicar e jogar com cuidado o bastante para nem dar chance do Bobcats se animar muito.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Filtro Bola Presa - Um resumo semanal

Vai ter festa hoje, fedelho?

O último Filtro Bola Presa da temporada! Foi uma experiência legal, divertida e provavelmente volta quando acabar os playoffs ou na próxima temporada regular. Com os playoffs bombando e a temporada se resolvendo, não vejo porque gastar um dia por semana com posts sobre coisas menores, curiosidades. Aliás fica até difícil encontrar essas histórias, todos os olhos estarão para os grandes jogos que irão decidir a atual temporada.

Então bora acabar com esse Filtro, tem muito vídeo bom e estatísticas patéticas pra gente mostrar!

- O Charlotte Bobcats foi nomeado inspirado no animal bobcat, que é um lince, animal típico do norte dos EUA e, logo, da Carolina do Norte, estado onde fica Charlotte. O nome faz sentido, portanto, mas o que pouca gente sabe é que o antigo dono do time, Bob Johnson, deu o nome também pensando em si mesmo! Ele queria um time que também chamasse Bob! O quanto isso é patético e narcisista?

Pensando nisso a revista Dime propôs que o time mudasse de nome. Bob Johnson, afinal, deu adeus ao time e hoje seu principal dono é Michael Jordan. Que nome inspirado no Jordan, Charlotte e/ou no estado da Carolina do Norte seria melhor para o time de Charlotte? São 229 comentários no post deles e todos merecem ser lidos, mas eu escolhi o meu Top 10 entre os nomes sugeridos por lá.

Top 10 - Os melhores nomes para o Charlotte Bobcats

10- Charlotte Kwames (Por que não homenagear a primeira grande decisão do Jordan como um executivo do basquete?)
9- Charlotte Jordanettes ( Já que o dono é mais importante que o time... )
8- Charlotte Fuel ( É a cidade da NASCAR, uma referência a carros faria sucesso na cidade)
7- Charlotte Smoke ( A cidade é famosa por suas empresas de cigarro e dá pra falar que as esperanças da equipe viraram fumaça)
6- Carolina Flight ( Essa idéia é muito boa! Ao invés de pegar o nome da cidade, pega-se o estado, como fazem Utah e Minnesota. E Flight é uma referência ao Jordan e aos irmãos Wright, que fizeram seu primeiro voo de avião na Carolina do Norte)
5- Charlotte Crowns ( A cidade é conhecida como "Crown Town", a cidade da coroa. E o Jordan é o rei, faz muito sentido!)
4- Charlotte SpaceJammers ( Melhor do que Charlotte Monstarz)
3- Charlotte lolcats (Simplesmente genial! Daria o melhor mascote da história. Não sabe o que é o lolcat? Ah, vá passar mais horas na internet ao invés de trabalhar!)
2- Charlotte Air (Air Jordan, com esse logo. Simples e o melhor)
1- Charlotte Hornets (Ótimo! Vamos organizar tudo direito. O Charlotte é o Hornets, o New Orleans pega seu nome "Jazz" de volta de Utah e eles podem virar o Utah White Power)


- O Zach Randolph já disse que quer assinar uma extensão de contrato com o Grizzlies. Faz sentido, afinal foi lá que ele aprendeu a jogar basquete. Mas ele não mudou tanto assim quanto a gente imaginava! Quando ele assinou seu contrato zilionário com o Blazers, anos e anos atrás, disse que queria X milhões de dólares (não lembro exatamente o valor) e quando estava tudo pronto, o Pau Gasol acertou um contrato maior com o Grizzlies. Randolph disse então que queria ganhar mais porque era melhor que o Gasol. Dá pra ser mais idiota?

E agora ele diz que quer pegar o contrato de 3 anos que o Gasol assinou com o Lakers para se basear em seu novo contrato com o Grizz. Qual é a obsessão do gordinho com o Pau Gasol?! Ele realmente acha que é melhor? Ou só acha que precisa de mais dinheiro para comprar Donuts?

- História de amor no Wolves! Darko Milicic e Al Jefferson estão se dando muito bem e trocaram elogios na última semana. Os dois concordam que ajuda muito o Darko ser canhoto e o Al Jefferson destro, assim cada um fica mais confortável de um lado do garrafão e não brigam pelo mesmo lado. O Al Jefferson também disse estar feliz por voltar a ser um ala de força e deixar o Darko como pivô. Segundo o Al "Ele é o braço esquerdo do Al Jefferson, e eu sou o braço direito dele". Então eles se beijaram na boca.

- Primeiro o LeBron disse que queria gravar um filme e que por isso provavelmente não iria jogar o Mundial da Turquia em Agosto. Depois foi a vez de Bosh e Wade deixarem suas presenças em aberto porque não sabem se já terão assinado contrato. Agora é a vez do Carmelo Anthony dizer que não sabe se vai porque ele vai se casar na offseason (olha a tchutchuca!). Ainda tem o Kobe, que disse que vai mas que tem tudo pra não ir com a quantidade de contusões que tem sofrido. Tô sentindo cheiro de Time B...

- Sessão de enterradas agora!
Primeiro enterradas inesperadas: Alguém sabia que o Donte Greene e o Jon Brockman eram capazes de dar essas enterradas? Pois é, esse é um treino comum e rotineiro entre dois jogadores ruins da NBA. Esse é o nível do jogo.



Agora enterradas fracassadas! Fizeram um Top 70 com as melhores enterradas erradas em campeonatos de enterrada. É o mundo do "poderia ser" em sua essência.



E para terminar, um campeonato de enterradas bizarro! De um lado o Air Up There, o homem do 720, o melhor em enterradas no planeta. Do outro Brittney Griner, uma guria de 20 anos, 2,03m e que enterra com muita facilidade. Ver aquela enterrada difícil e comemorada da Lisa Leslie depois de ver essa garota chega a dar vergonha.



Vintage Bola Presa - Toda semana um post reciclado

O post reciclado dessa semana é o nosso melhor post em todos os tempos. Ele se chama "Como aproveitar os playoffs" e é consenso entre todos nossos leitores que é o texto mais engraçado e divertido que já escrevemos. Ele trata de como burlar sua escola, trabalho e faculdade para conseguir assistir a tudo nos playoffs. Também dá uma dica de como lidar com sua namorada para que ela não venha com aquelas idéias de ir assistir a um espetáculo de dança contemporânea no dia do jogo 7 entre Magic e Cavs. É um texto que vale a pena ser lido na semana em que começam os playoffs!

Leia o post inteiro nesse link e comente aqui ou lá, sei lá, a gente lê tudo!

8 ou 80 - A melhor coleção de estatísticas idiotas
- Na vitória de ontem sobre o Pistons, o Raptors acertou mais de 60% dos seus arremessos. Foi a terceira vez desde fevereiro que o time de Toronto consegue essa marca. Por incrível que pareça, o Raptors só tinha tido 3 jogos com pelo menos 60% de aproveitamento nos últimos 14 anos!

- Marcus Camby incorporou o Nowitzki que mora dentro dele e acabou com o Thunder na noite de ontem. Fez 30 pontos, pegou 13 rebotes e acertou 12 dos 16 arremessos que tentou. O último jogador do Blazers a conseguir pelo menos 30 pontos, 13 rebotes e 60% de aproveitamento em um jogo foi o Clyde Drexler em 1988.

- Com a vitória sobre o Lakers no último sábado, o Blazers se tornou, ao lado do Spurs, os únicos times a terem recordes positivos contra o Lakers na era Phil Jackson. São 20 vitórias e 18 derrotas desde que o Zen Master foi para LA.

- Com o triple-double feito no último sábado, Jason Kidd se tornou apenas o terceiro jogador a conseguir esse feito depois dos 37 anos de idade na temporada regular. Os outros foram Karl Malone (com 40 anos) e Elvin Hayes (com 38). John Stockton é o único a ter conseguido em um jogo de playoff, quando fez um triple-double aos 39 anos de idade em 2001.

- Jamal Crawford tem 1.425 pontos marcados na temporada, é o máximo marcado por um jogador vindo do banco de reservas desde a temporada 1990-91 por Ricky Pierce.

- O Spurs conseguiu, pela 13º temporada seguida, acabar a temporada com mais vitórias do que derrotas fora de casa. É um novo recorde da NBA, superando a marca do Lakers, que conseguiu por 12 temporadas entre as temporadas 1979-80 e 1990-91.

- O duelo entre Knicks e Magic na semana passada foi apenas o segundo jogo da história da NBA em que os dois times acertaram pelo menos 15 bolas de 3. O Magic acertou 15 e o Knicks 16. O outro jogo foi há 3 anos entre o Houston Rockets (15) e Golden State Warriors (16).

- Na vitória do Thunder sobre o Suns na semana passada o novato Serge Ibaka foi o herói da noite a fazer um arremesso no último minuto com a diferença entre os times em apenas um ponto. Foi apenas o segundo arremesso tentado por Ibaka nessa situação em toda a temporada, o primeiro ele havia perdido. Kevin Durant, estrela do time, tem apenas 5 acertos em 25 tentativas nessa situação de jogo decidido por 1 ponto e com menos de 1 minuto no relógio.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Mais liberdade

Michael Jordan atesta: nem ele daria certo jogando de ala de força

Quando o Stephen Jackson finalmente se viu livre do Warriors e foi trocado para o Bobcats, onde finalmente podia ser reconhecido por sua habilidade defensiva, outro jogador também adquiria uma sonhada liberdade com essa troca. O beneficiado foi Gerald Wallace, eternamente descontente no Bobcats por ter sempre que jogar dentro do garrafão. O Wallace foi escolhido pelo Bobcats no draft de expansão, uma espécie de fim de feira em que a equipe de Charlotte podia escolher os restos de qualquer equipe da NBA, um troço bastante sem dignidade tipo lamber o prato de alguém. Na época o Gerald Wallace jogava apenas um par de minutos no Kings, não havia espaço para ele (aquele time era bom demais e traz lágrimas saudosas aos nossos olhos) e então ficou na lista de sobras para ser escolhido pela franquia iniciante. O Bobcats fez ótimo negócio, se alguém prestasse atenção na equipe mais "blah" da NBA então o Gerald Wallace já teria recebido uns votos para defensor do ano várias vezes. Poucos jogadores são tão atléticos na defesa, tanto nos tocos quanto interceptando as linhas de passe, e sempre foi um excelente reboteiro para seus míseros 2,01m de altura. Apenas uma coisa sempre prejudicou a defesa do Wallace: jogar de ala de força.

Como o time foi montado com peças que estavam sobrando e poucas escolhas de draft, acabou saindo uma espécie de Frankenstein, tipo o atual Clippers (com a diferença de que o Clippers ficou assim por livre e espontânea vontade dos engravatados responsáveis). Então eles nunca tiveram um pivô na vida e acabaram improvisando o Emeka Okafor na posição. Na realidade ele deveria ser um ala, mas como só tinha ele para segurar as pontas, acabou virando o pivô titular por anos e anos a fio. Para fazer dupla de garrafão com ele também nunca teve ninguém, então o Gerald Wallace sempre teve que aturar a posição. A política no Bobcats sempre foi draftar os jogadores mais talentosos disponíveis vindos de times vencedores na universidade - o que acabou rendendo uma enorme quantidade de alas-armadores, baciada para vender pela dúzia. O time nunca ficou tão talentoso assim, a mentalidade vencedora dos draftados não dura muito em times que fedem, e os buracos que existiam no nascimento no time nunca foram arrumados. Ou seja, fodeu.

O Gerald Wallace amargou anos de garrafão sem reclamar, mas como todo mundo que já teve diarreia depois de comer feijoada sabe, o corpo uma hora reclama. Tomando porrada de jogadores muito maiores e mais pesados do que ele, acabou se contundindo em todas as suas 5 temporadas com o Bobcats. Lutar por rebotes contra caras que podem te usar de banquinho não é nunca uma boa ideia para o físico, e o estilo de jogo do Gerald Wallace também é, por si mesmo, bastante propenso a contusões. Como o arremesso nunca foi o forte, ele ataca muito a cesta, enterra muito, e está sempre sobrevoando o garrafão defensivo em algum toco na marcação por cobertura. Basta um punhado de vezes voando por todo lado e marcando o Duncan ou o Amar'e e a carreira de qualquer um vai pro pinico, provavelmente numa cadeira de rodas.

Quando a saúde do Gerald Wallace começou a definhar mais rápido do que carreira de Big Brother, o Bobcats enfim draftou alguém para ficar no garrafão com o Okafor: seu nome era Sean May. Não é difícil colocá-lo na lista de piores escolhas de draft de todos os tempos, a única dificuldade para isso seria o Sean May comer essa lista com azeite e sal. Sempre com problemas de peso, foi mandado pra rua rapidinho e o Bobcats continuou a ter o garrafão mais magricela da NBA. Na temporada passada, o Gerald Wallace enfim bateu o pé e disse que não jogaria nunca mais na vida de ala de força, que a sua saúde era mais importante do que o basquete. Uma decisão comparável ao viciado parando com a cocaína para aumentar as chances de ver seus filhos crescerem, principalmente se lembrarmos da força de alguns jogadores de garrafão nessa liga (o Dwight Howard come ônibus escolares no café da manhã).

Agora, o garrafão do Bobcats tem Tyson Chandler e Nazr Mohammed como pivôs. Eu ainda não entendo como o Mohammed caiu tanto na NBA se ele era tão bom na sua época de Knicks, quando ele era considerado o próximo grande pivô da liga e peça fundamental da equipe (tão fundamental quanto o Channing Frye, e olha o que aconteceu com os dois... acho que o pessoal em New York não tem muita paciência). A moral do Mohammed, então, não é muito alta e ele joga pouco, assim como o Chandler, que está sempre lesionado. Ainda assim, o Bobcats finalmente tem a profundidade necessária para afastar Gerald Wallace do garrafão - tudo culpa do Stephen Jackson.

O Wallace sempre foi o melhor jogador defensivo da equipe, disparado. Agora, a obrigação de marcar o melhor jogador adversário vai para o Stephen Jackson, que se diverte com a obrigação e finalmente sente que seu trabalho é admirado. Tanto ele quanto Gerald Wallace e Boris Diaw podem jogar nas duas posições de ala, além de quebrarem bons galhos na armação. Isso significa que o Bobcats tem três jogadores capazes de jogar como armadores, alas ou no garrafão, dependendo dos adversários, do bom humor e da pressão atmosférica. Com isso, o Stephen Jackson pode começar o jogo como armador arremessando como um louco, atuar como armador puro às vezes chamando as jogadas, de repente se tornar ala-armador na defesa e mais pra frente ir para o garrafão marcar algum ala de força ou jogar de costas para cesta. Enquanto isso, o Boris Diaw vai tapando os buracos toda vez que o Stephen Jackson muda de posição, sendo que já jogou até mesmo de pivô no Suns e tem experiência como armador principal no Hawks.

O Gerald Wallace participa desse troca-troca também, mas com moderação. No garrafão, não precisa jogar mais. Então ele pode ficar mais longe do aro arremessando, não precisa segurar jogadores muito maiores do que ele, e não coloca uma pressão tão grande no próprio corpo. Os resultados até agora são espetaculares: sem ter que brigar por posicionamento perto do aro, Gerald Wallace agora é o líder de rebotes da NBA. O líder. De rebotes. Você leu direito. São 12,3 rebotes de média por partida, além de um roubo e meio e praticamente um toco por jogo. São números que finalmente podem colocá-lo na briga de melhor defensor da temporada e, ao contrário do Dwight Howard, ele realmente é um bom defensor, olha que legal. O engraçado é que o Gerald só pode render tanto assim como defensor porque o Stephen Jackson está fazendo um excelente trabalho defensivo no garrafão e parando as estrelas adversárias - então não deveria ser ele o cotado para defensor da temporada? Foi ele quem torrou o saco do Carmelo Anthony ontem e permitiu que o Gerald Wallace se focasse no ataque, numa vitória bem categórica em cima do Denver Nuggets (aquele que fez xixi na festa da volta do Iverson ao Sixers).

Finalmente estamos falando de um time digno de alegria para o técnico Larry Brown: dois defensores expetaculares, tornando um ao outro ainda melhores. Desde que o Stephen Jackson chegou no Bobcats, foram 6 vitórias em 11 partidas, o que é mais da metade e é o suficiente para ficar lá no alto do Leste (na verdade, mesmo com o começo difícil, o Bobcats está em sétimo na tabela, empatado em número de vitórias com o surpreendente Bucks que está em sexto) . Nas últimas 8 partidas, foram 6 vitórias - incluindo uma sequência de 4 vitórias seguidas com direito a atropelar o Cavs. O time tem outra cara, outro ritmo, bons defensores, confiança no ataque. Uma das duas derrotas dos últimos 8 jogos foi contra o Celtics, então foi muito justificável. Mas a outra... bem, a outra foi contra o Nets - a primeira vitória da equipe na temporada depois de perder suas 18 primeiras partidas.

Não há justificativa para perder pro Nets, é como ser derrotado no vôlei por alguém sem braços. Mas pelo menos foi uma derrota para o Nets com técnico novo, Devin Harris de volta, Chris Douglas-Roberts titular e pontuando como um louco, e o Brook Lopez mostrando que é no momento o melhor pivô do Leste (se ele não for All-Star vai ser mais vergonhoso pra NBA do que na temporada passada quando o Al Jefferson acabou não sendo chamado). Esse mesmo Nets chutou o traseiro ontem do Bulls, então acho que dá pra dar um sorrisinho amarelo e tentar acreditar que não é uma derrota tão feia assim. O Nets mostrou contra o Bulls que não dá pra entrar de salto alto contra uma equipe que na verdade não fede tanto assim como a tabela mostra. Não há nenhuma dúvida de que a equipe de New Jersey vai ter mais de 9 vitórias e escapar do recorde de pior campanha de todos os tempos. Mas enquanto isso, o Bobcats parece dar passos decisivos rumo aos playoffs, com um Gerald Wallace líder em rebotes - e um Stephen Jackson responsável por isso. Quem achou que logo ele seria trocado errou feio: ele é agora a alma dessa equipe.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Liberdade ainda que tardia

Stephen Jackson quebra suas correntes


Antes da temporada começar, Stephen Jackson havia pedido para ser trocado do Warriors. O time perdera Baron Davis, conseguiu o Maggette no lugar, e aparentemente o Stephen foi o único que sobrou no elenco capaz de levar basquete a sério. Era o responsável por defender as estrelas adversárias, fossem armadores ou pivôs, o responsável por decidir os jogos, por arremessar de longe, e inúmeras vezes por iniciar as jogadas ofensivas no papel de armador principal. Já jogou em todas as posições, topou todas as furadas que o técnico Don Nelson bolou, já foi para os playoffs com a equipe e já foi o pior time da liga. Ao ver que o Warriors virou um circo, um laboratório de ciências, que os jogadores entram e saem da escalação de um dia para o outro, cada hora com uma função, Stephen Jackson quis é dar o fora. Como o Denis escreveu um tempo atrás, ele pediu para ser trocado quando falava com a imprensa, foi multado por isso, e desde então parou de tocar no assunto, sem no entanto tentar esconder sua frustração em quadra. O problema é que ele só pediu para ser trocado depois de topar uma extensão milionária de contrato com o Warriors, o que não apenas é um pouco sacana como também torna mais difícil encontrar algum time disposto a abraçar o salário do rapaz.

Mas existe um time na NBA que nunca desiste de fazer trocas, um time que está decidido a transformar o elenco inteiro com uma visão em mente. Esse time é o Bobcats, que deu ao técnico Larry Brown carta branca para montar o time como ele bem entender. O velhinho pentelho se livrou do Okafor, do Jason Richardson, do Matt Carroll, e montou um time focado na defesa e sem espaço para o individualismo. O resultado é uma equipe que estreiou na temporada marcando 59 pontos contra o Celtics, com claras dificuldades de passar dos 80 pontos a cada jogo. O time agora tem Raja Bell e Boris Diaw, jogadores capazes de pontuar, mas nenhum deles é um pontuador nato. O papel do Bell é defender e converter seus arremessos de três pontos, função que ele desempenhava muito bem. Mas, para ter um jogador capaz de defender múltiplas posições e que seja capaz de pontuar constantemente, Larry Brown resolveu abrir mão até mesmo do seu queridinho.

Stephen Jackson chega ao Bobcats mantendo o foco da equipe, se focando na defesa e pontuando sem ser estrelinha. Ele sabe o que é ser jogador secundário graças ao tempo que passou no Spurs, se orgulha de defender mesmo jogando no Warriors (que provavelmente dá umas surras depois das partidas nos jogadores que ousaram tentar defender) e tem tudo para se dar bem com o Larry Brown. Do jeito que o técnico odeia os armadores da equipe (tanto Raymond Felton quanto o anão do DJ Augustin), é bem possível que o Stephen Jackson até assuma a posição em alguns momentos durante os jogos (se até o boris Diaw já foi armador nesse Bobcats!). Mas também é possível, dizem os fofoqueiros por aí, que ele seja trocado rapidinho para outro time. Não dá para descartar essa possibilidade, afinal o Bobcats está insatisfeito com o que tem e cansado de feder esperando uma boa escolha de draft. Já faz uns anos que todo mundo espera eles finalmente acordarem no tranco e irem aos playoffs, então não tem mais desculpa pra ficar tendo o traseiro chutado por aí. Stephen Jackson se encaixa nessa postura, no planejamento, na filosofia de jogo, e tem tudo para se encaixar bem na equipe. Não deve dar muito resultado, convenhamos, mas o Bobcats continua tentando. Ao menos eles sabem o que querem e se movimentam com uma intenção, não é a porra-louquisse do Warriors que parece trocar só por esporte, pra ver se vem de brinde um Mega Tazo.

Em troca do Stephen Jackson e do Acie Law, que é um armador que nunca deu certo e que o técnico Larry Brown deve comer com granola no café da manha, o Warriors recebeu Raja Bell e o Vlad Radmanovic, que nem fede nem cheira. O Bell traz defesa para o Warriors, e depois dessa afirmação vamos todos tirar uns minutinhos para rir à vontade. Até parece que alguém que cuida dessa equipe mequetrefe se preocupa em instituir uma filosofia defensiva, mas provavelmente eles estão dispostos a pelo menos fingir um pouquinho.

Contra o Brandon Jennings, que marcou 55 pontos, o negócio foi muito feio. Ao rever a partida no meu League Pass (calma, calma, a gente resenha o serviço ainda essa semana), percebi que a maioria dos pontos do Jennings saiu em uma jogada simples de corta-luz na linha de três pontos. Não havia ninguém do Warriors capaz de grudar no garoto, a jogada funcionou à exaustão, e quando eles ficaram muito desesperados de passar vergonha, começaram a dobrar nele depois do corta-luz e o resultado foi o Andrew Bogut recebendo uns passes para ponte-aérea, já que o pivô do Warriors durante quase toda a partida foram o Stephen Jackson ou o Maggette. Aliás, grande parte do mérito pela atuação do Jennings tem que ser dado ao Bogut, que atormentou tanto o garrafão do Warriors que a linha de três ficou completamente livre. Quer dizer, a linha de três do Warriors já é completamente livre, mas ficou pior a ponto de render 55 pontos para o novato. Para critérios estatísticos, a pontuação do Jennings deveria valer só a metade - quando ele tentar algo assim contra o Celtics a gente faz uma estátua e uns sacrifícios humanos pro guri.

Quem ganha com a troca é o Stephen Jackson, que agora terá um técnico capaz de apreciar o que ele traz para as quadras, mas o problema é que o time fede pacas e rapidinho é bem capaz que ele comece a ficar insatisfeito de novo (ou que o time continue insatisfeito e troque de novo). O Warriors deve piorar um pouco com a sua saída, mas o que é um peido para quem já está cagado? Outros jogadores podem continuar pontuando como malucos e talvez o Raja Bell seja capaz de impedir outros jogadores de fazer 50 pontos, o que por si só já seria um lucro, evitando que o Warriors se torne essa anedota estilo Ari Toledo que tem sido nos últimos anos. Da próxima vez que o Jennings for enfrentar o Warriors e tentar quebrar seu recorde de pontos, o Raja Bell estará lá. Sozinho, é verdade, mas lá.