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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Reconstrução ideal

O Perkins gosta de dançar valsa

Em novembro do ano passado, num post sobre o Thunder, o Denis escreveu o seguinte:

"Para o Oklahoma City Thunder se tornar a potência do Oeste que a gente sonhava antes da temporada começar, algumas coisas tem que mudar. A primeira é a defesa, que não pode ser tão fraca, isso é o ponto central. E a segunda é o próprio elenco. O Jeff Green é um jogador versátil e muito bom, mas completamente dispensável nesse time. Ele é bom demais para ser um reserva com poucos minutos, sua presença como ala de força só atrai mais ataque ao garrafão e mina os minutos do promissor Ibaka. Na posição três já tem Durant. Deveriam aproveitar que o Green é muito bom e simplesmente trocá-lo. Eles podem muito bem usar esse ótimo talento como isca para buscar mais arremessadores de três e uma presença defensiva no garrafão, talvez até um cara com mais experiência."

Pois bem, foi exatamente o que o Thunder fez. Com a evolução do Ibaka, Jeff Green se tornou dispensável. A forte defesa que vimos o Thunder empregar contra o Lakers nos playoffs passados, baseada no jogo coletivo e na defesa por zona, simplesmente desapareceu agora que o time se leva a sério e não é mais uma zebra em quadra jogando pela sua vida. Cole Aldrich, pivô defensivo draftado pela equipe, chegou tão cru que foi mandado para a D-League. Então o Thunder foi atrás de uma presença defensiva para o garrafão, um cara com mais experiência, usando o Jeff Green como moeda de troca - exatamente como o Denis sugeriu.

Em seu texto sobre novas estatísticas (aquele que deu polêmica porque questionou-se a fama do Kobe na hora de fechar jogos), o Denis constatou que a fama do Kendrick Perkins de ótimo defensor é justificada no aproveitamento dos adversários perto do aro, mas não no aproveitamento dos pivôs que jogam mais longe da cesta. Não é acaso, então, que o Celtics é o time que menos toma pontos no garrafão nessa temporada - e o Thunder é, justamente, o terceiro que mais toma pontos no garrafão! Se o Celtics procura, sei lá porquê, alguém para defender os pivôs que tem fobia de garrafão, tipo o Chris Bosh, vão encontrar alguma ajuda no Jeff Green. Mas para o Thunder, nada poderia casar tão bem com suas necessidades como Kendrick Perkins: ele é experiente, bem rodado nos playoffs, sua maior qualidade é justamente a defesa próxima ao aro, e ele não exigirá a bola no ataque, permitindo que Durant e Westbrook continuem monopolizando o sistema ofensivo. O casamento do time com o jogador é tão perfeito que basta algum sucesso nos playoffs para que Perkins passe a considerar com carinho uma extensão de contrato no Thunder, que pode oferecer bem mais grana do que o Celtics jamais poderia. O Nate Robinson complica um pouco mais as finanças (são mais de 4 milhões por ano), mas deve ajudar o ataque do time em minutos limitados e não compromete um futuro contrato para o Perkins. Seja lá qual for a água que o Danny Ainge bebeu e quais os medos que ele tivesse à noite do Celtics tomando um pau do Chris Bosh, a troca foi um sonho de debutante para o Thunder e torna a equipe imediatamente uma potência do Oeste. Pode não ser campeã agora, mas não tem problema. A única coisa que importa é convencer o Perkins a continuar no time e esperar alguns poucos anos até que equipes com artrite como Spurs e Celtics - e até o Lakers - não possam mais competir em alto nível. O Thunder é agora uma equipe para dominar a NBA por uma década, e que pode se dar ao luxo de esperar alguns anos antes de chegar ao topo. Até lá, deve manter todo mundo motivado com os estragos que farão nos playoffs, e com essa possibilidade constante e real de vencerem agora mesmo a qualquer momento, bastando um deslize adversário. O Thunder é montado para vencer agora mas pode esperar se necessário. É o plano perfeito, e o Perkins parece perceber. Já deu todas as indicações de que sua prioridade é assinar uma extensão com o Thunder, jogou no lixo seus tênis verdes a pedido dos companheiros de equipe, e se negou a usar uma bola verde no seu treino de fisioterapia, dizendo que não quer mais pensar no Celtics, que isso é passado (parece inclusive estar meio puto com a troca, mas disposto a abraçar seus novos companheiros). Ele deve ficar fora mais umas duas ou três semanas em reabilitação, mas o Thunder não tem pressa - ao mesmo tempo em que faz de tudo para manter o time competitivo e funcionando.

Isso fica ainda mais claro com a outra troca da equipe na data limite. Como o Thunder mandou o Nenad Krstic (além do Jeff Green e de uma escolha de primeira rodada) na troca pelo Perkins, foram atrás de outro pivô para tapar o buraco imediatamente. Poderiam improvisar o Nick Collison, poderiam esperar o Cole Aldrich amadurecer, mas o Thunder quer estar constantemente pronto para ganhar um título desde já - sem no entanto comprometer as chances de futuro colocando todas as fichas no agora. Por isso mandaram o contrato expirante do Morris Peterson e o pirralho DJ White em troca do pivô Nazr Mohammed. Eu sei que é bizarro, mas eu sou muito fã do Mohammed. Ele fazia estrago no Knicks de muitos anos atrás, foi campeão com o Spurs, é obediente taticamente, bom nos rebotes e pode fazer muito estrago se o ataque passar por ele graças aos seus movimentos embaixo do aro. Nunca foi muito aproveitado desde os tempos de Knicks, mas sempre rende quando recebe minutos. No Thunder ele ajudará imediatamente nos rebotes defensivos e poderá render no ataque quando a equipe quiser se impor no garrafão. Mas como seu contrato é expirante, o Thunder deixa seu garrafão mais forte sem ter que se comprometer financeiramente, podendo reassinar com o Mohammed por pouca grana depois ou apenas usar o dinheiro em outros jogadores ou renovar com a pirralhada. Time pronto pra vencer agora, mas sem estragar as finaças futuras.

Essa troca deixa o Thunder ainda mais forte e ela só é possível por um motivo muito estranho: o Bobcats desistiu. Vida de time que nasceu em expansão é uma droga, o time começa só com os jogadores que os outros não querem, não consegue convencer ninguém a ir jogar lá, e fica dependendo só de escolhas de draft. O Bobcats capengou especialmente no draft, escolhendo jogadores que nunca renderam aquilo que se esperava, mas há anos sempre flertam com uma vaga nos playoffs. A crença de que o time uma hora iria ficar maduro e chegar nos playoffs com tudo levou a trocas por jogadores veteranos como Stephen Jackson e Boris Diaw, e os pirralhos foram ficando de lado em nome da perseguição de uma vaga na pós-temporada. Talvez o que faltasse fosse um bom técnico como Larry Brown, pensava-se, mas as limitações do elenco ficaram ainda mais evidentes com o esquema rígido e defensivo do técnico vovô. O flerte com uma vaga pros playoffs continua, mas para quê? A equipe fede, o time não tem estrelas, os novatos não dão certo, então de que adianta conseguir uma oitava vaga nos playoffs do Leste pra tomar um cacete, não conseguir uma boa escolha de draft e ficar nesse limbo eterno? Depois de uma série de cagadas em anos de draft e contratações, o Jordan resolveu fazer o que está tão na moda com equipes que não fedem e nem cheiram e não dão lucro por causa disso: apertar o botão do apocalipse. Começou se livrando do Mohammed, que nem tinha tantos minutos assim, para conseguir um pirralho cheio de potencial, o DJ White, que o Thunder nunca teve espaço para usar.

E o plano de apocalipse do Bobcats deu seu passo mais decisivo quando mandou Gerald Wallace, provavelmente o melhor jogador da equipe, para o Blazers em troca do pirralho Dante Cunningham, o contrato expirante de Sean Marks e Przybilla e duas escolhas de draft (a do Hornets em 2011 e a do Blazers em 2013), além de grana. O plano é conseguir jogadores novos, escolhas de draft e contratos expirantes, pra não ter que pagar o salário do Gerald Wallace em um time em reconstrução. É claro que o Wallace vale mais do que isso, mas várias propostas foram feitas e nenhum time quis pagar pelo salário de um jogador que está numa temporada pior do que as últimas e que vive se machucando. Outros jogadores como Stephen Jackson e Boris Diaw também não encontraram recebedores por enquanto, mas devem ser trocados o mais rápido possível. São tempos de economizar e se focar na pirralhada e no draft. A crise econômica e os times fortes demais no topo das Conferências tornaram essa postura comum demais na NBA, mas não dá pra criticar. Depois de fazer muita merda, finalmente Michael Jordan tem um pouco de bom senso e tira o pé do acelerador em Charlotte.

Quem se deu bem com isso foi o Blazers, que já estava ameaçando ver seu plano de reconstrução virar farofa. Eu tinha um post preparado sobre isso, sobre o Blazers, mas acho que algumas das informações contidas nele são essenciais para entender a importância dessa troca para eles.

Não faz muito tempo, o Blazers fascinou todo mundo na NBA com um plano de reconstrução corajoso, fantástico e eficiente. O primeiro passo foi se livrar de seu melhor e mais caro jogador, Zach Randolph, em troca de quase nada. A equipe tinha chances de playoffs, e mesmo assim o Randolph foi simplesmente mandado embora. Os minutos começaram a ir para a pirralhada, o jogo deixou de ser centralizado nas mãos de um jogador só, a defesa virou foco principal sem o Randolph que não defendia nem ponto de vista, e o Blazers começou a se dedicar ao draft. Além das próprias escolhas e das escolhas recebidas em trocas, passou a comprar com dindim escolhas de primeira rodada de times que lutavam por um título e não tinham espaço para novos jogadores.

A tática para o draft também foi constante: escolher os melhores jogadores disponíveis, não importando os receios com lesões ou posição em quadra. O resultado foi incrível: o Blazers de repente era uma equipe com trocentos jogadores talentosos em tudo quanto é posição e ganhando experiência rápido. Chegou ao absurdo de ter tanto jogador novo e bom que não havia mais espaço para todos, começaram a surgir os descontentes com os minutos ou o número de arremessos por partida. Isso criou fortes moedas de troca, espaço salarial e - vejam que legal - um time forte nos playoffs.

Quando Travis Outlaw reclamava que queria arremessar mais e Steve Blake era apenas um de uma série de oitocentos armadores jovens na equipe, o Blazers mandou seus contratos expirantes em troca do Marcus Camby, substituto para o Greg Oden em caso de lesões. Agora, fizeram a mesma coisa: usaram o contrato expirante do Joel Przybilla (que foi conseguido às pressas com a lesão do Camby) e umas escolhas futuras de draft para trazer Gerald Wallace. O plano de reconstrução do Blazers, focado em se livrar dos melhores jogadores e dar espaço para a pirralhada, permitiu que o time tivesse as possibilidades e as ferramentas para trazer veteranos como Camby, Andre Miller e agora Gerald Wallace. Trazendo veteranos e se livrando de escolhas de draft, podemos entender finalmente o processo de reconstrução do Blazers como terminado. Agora eles se focam nas chances de ganhar já, não mais no futuro distante.

O problema é que esse processo de reconstrução tão eficiente que nos deixou tão apaixonados (e que gerou tantos clones por aí, tipo o Bobcats de agora) chegou a um ponto estranho em que me sinto seguro de dizer que ele está à beira de fracassar. Eu sei que os engravatados encerraram a reconstrução e agora estão se focando em vitórias, mas pra mim esse processo não levou a um plano de vitórias, levou a desespero e, agora, improviso.

Brandon Roy é uma estrela inegável. Chutou traseiros nos playoffs, foi All-Star em seu segundo ano, e levou o Blazers à relevância de novo. Sua altura permite que ele possa jogar tanto de ala quanto de armador, mas ele rende melhor quando joga de PG, de armador principal. No final de todos os jogos é ele quem chama as jogadas, executa e distribui a bola, e o Blazers é muito mais eficiente quando isso ocorre. Assim que o Andre Miller chegou, um armador cerebral e que mantém a bola nas mãos, ele e Brandon Roy já começaram a bater cabeça. O descontentamento dos dois gerou brigas nos vestiários e boatos sobre trocas. Tudo enquanto Rudy Fernandez, com minutos limitados graças ao elenco jovem e profundo da equipe, pedia incansavelmente para ser libertado e poder voltar pra casa. São questões que desapareceriam em um time com chances de título, mas essas chances viraram farofa com as lesões de Greg Oden, que ainda não conseguiu uma temporada sem ter os joelhos desmontados como Lego.

A reconstrução do Blazers trouxe jogadores demais que começaram a bater cabeça quanto ao seu espaço na equipe. A chegada dos veteranos, essenciais para consolidar as chances nos playoffs, complicaram o andamento da equipe. E os bagos do Blazers para draftar ou contratar jogadores com riscos de lesão viraram cagada quando Przybilla, Camby, Jeff Pendergraph, Greg Oden e Brandon Roy estavam todos juntos no hospital jogando dominó. Gerald Wallace, que nunca teve uma temporada sem lesões sérias, chega à equipe para reforçar a jogatina de dominó, provavelmente.

Greg Oden nunca esteve saudável, jogou uma temporada inteira na faculdade com apenas uma das mãos antes de ser draftado pelo Blazers. Mas o caso do Brandon Roy parece ainda pior. O jogador foi draftado pelo Wolves, que tentou trocá-lo imediatamente minutos depois após alertas dos médicos da equipe. O Blazers topou na hora e se deu muito bem, mandaram o Randy Foye e receberam um futuro All-Star. Mas agora Brandon Roy já passou por três cirurgias nos joelhos desde que entrou na NBA. Nos playoffs passados ele passou por uma cirurgia nos dois joelhos dias antes do início da primeira rodada contra o Suns, e voltou a tempo de entrar no Jogo 4 - nitidamente lento e com dores. Na época, ele já tinha sido avisado que não tinha mais qualquer traço de menisco nos joelhos, era apenas osso com osso. Não conseguiu render nada nessa temporada, constantemente com dores, e então resolveu passar por nova cirurgia nos dois joelhos. Menos de um mês depois, já voltou às quadras.

É claro que o Roy quer voltar logo a jogar, ele é altamente competitivo e quer levar o Blazers aos playoffs, mas inúmeras entrevistas com seus médicos apontam que ele não tem mais condições de jogar em alto nível em tempo integral. O recomendado é que ele atue por no máximo 70 partidas por temporada, e isso com minutos bastante limitados. E o pior: ainda assim, os médicos alertam que ele não será mais capaz de jogar basquete dentro de 2 anos.

A notícia é terrível para o Brandon Roy, um dos jogadores mais fantásticos dessa geração. Seus joelhos já eram motivo de preocupação, passaram por várias lesões e cirurgias, e o retorno às quadras sempre foi o mais rápido possível para ajudar o time. O Blazers sabia que o jogador não tinha mais meniscos, que não duraria muitos anos em quadra, e mesmo assim lhe colocou pra jogar uma série de playoff praticamente perdida - e lhe ofereceu um contrato máximo de 83 milhões de dólares por 5 anos.

O que sobrou para o Blazers ainda é um time incrivel, com chances de incomodar os grandes e fazer estrago nos playoffs. LaMarcus Aldridge passou a pegar rebotes e deixou de jogar tão longe da cesta, com médias de mais de 25 pontos e mais de 10 rebotes por jogo sem Brandon Roy na equipe. Andre Miller e Marcus Camby são veteranos que ainda jogam em alto nível, Wesley Matthews é um excelente jogador que substitui Roy em muitas coisas dentro da quadra (e que o Blazers conseguiu roubar do Jazz porque a equipe de Utah é pobre, tadinha) e Nicolas Batum é um excelente defensor que faz todas as pequenas coisas para uma equipe vencer. Gerald Wallace ajudará nos rebotes defensivos e na defesa, pode marcar múltiplas posições, jogava constantemente como ala de força no Bobcats e só passou a jogar mais no perímetro nessa temporada, arremessando cada vez mais, porque cansou de se contundir tanto dentro do garrafão. É um time forte, cheio de especialistas e com veteranos capazes de segurar as pontas nos playoffs.

Mas Brandon Roy ocupa a maior parte do espaço salarial da equipe e não deve durar mais de um par de anos. Quando estiver em quadra, baterá cabeça com Andre Miller. Greg Oden está fora de toda essa temporada novamente graças aos joelhos, mesma coisa com o pirralho Pendergraph. Marcus Camby acaba de voltar de uma cirurgia no joelho também, tentando ganhar ritmo. É um time com chances muito pequenas de título e que depende de uma série de jogadores que estão constantemente lesionados dando como finalizado um processo de reconstrução. Será que estava nos planos trazer Gerald Wallace? Marcus Camby? O Blazers deixou de construir uma equipe coesa porque se apaixonou por si mesma como nós nos apaixonamos quando eles chegaram aos playoffs. Devem ter pensado "é isso, dá pra ser campeão agora", enquanto todo mundo quebrava o joelho nos bastidores, jogadores pediam pra sair, contratos exigiam extensão e a grana acabava. Aí o plano foi pro saco porque querem ganhar agora, estão arriscando uma reconstrução inteira trazendo veteranos caros como o Gerald Wallace para tentar vencer os playoffs. Vencer Lakers, Thunder, Celtics? Sério?

O Thunder está pronto para vencer e não comprometeu seu futuro. O Bobcats desistiu das chances de playoffs e vai começar de novo. E o Blazers, esse time legal que vimos ser montado do zero, começa a arriscar para vencer imediatamente - mesmo dependendo de jogadores que não conseguem ficar saudáveis e de bagunça nos vestiários. Wesley Matthews e LaMarcus Aldridge chutam traseiros e vão receber atenção especial em outro post, mas o time precisa ser repensado em volta deles, sem contratações no improviso. O Thunder, que soube esperar e não se desesperou atrás de um pivô - lembra que eles chegaram a trocar pelo Tyson Chandler e devolveram porque os médicos avisaram que havia risco sério de lesão? - conseguiu o pivô perfeito, o Perkins, graças à flexibilidade financeira da equipe. Já pensou que legal se esse Blazers tivesse se negado a contratar jogadores com risco de lesão e tivesse usado o espaço salarial aguardando os jogadores certos? Por mais carinho pelo Blazers e por mais que eu adore ver o time jogando, o Thunder assumiu o posto de projeto de reconstrução ideal, algo que o Bobcats precisa olhar, espiar e aprender.

sábado, 1 de maio de 2010

Destino

Tim Duncan está tentando sorrir: sabe que pegará o Suns na próxima rodada


Teremos apenas um Jogo 7 na primeira rodada dos playoffs, a imperdível partida entre Bucks e Hawks que acontece no domingo. Mas antes de falarmos sobre o "Tema a Rena" ou sobre as séries da segunda rodada (que começam hoje com Cavs e Celtics, às 21h), vamos falar um pouco sobre alguns dos fracassados que voltaram pra casa mais cedo.

Antes de mais nada, vou dar uma de velho e choramingar sobre o Mavs dos meus tempos, naquela época em que a gente podia brincar de pião na rua e a Sandy ainda era virgem. Eu era completamente fã daquele Dallas que tinha o biruta do Don Nelson como técnico, que jogava com velocidade, passes rápidos, toneladas de bolas de três pontos, muita técnica e nenhuma força bruta. Naquela época o Nowitzki ainda era chamado de amarelão, não gostava de contato físico, não sabia infiltrar no garrafão, e o Mavs não defendia nem a mãe apanhando na rua. Não dava certo, foram eliminados dos playoffs algumas vezes, mas era uma delícia de ver jogar. Quando o Don Nelson foi demitido, quem assumiu as rédeas de equipe foi seu assistente Avery Johnson, que misteriosamente ensinou o time de Dallas a defender de um dia para o outro (dava até a impressão de que a equipe já era uma potência na defesa mas que o Don Nelson proibia todo mundo de sequer levantar os braços no garrafão defensivo). Aquele Mavs que jogava rápido e defendia bem era maravilhoso e sempre vai ter um lugar no meu coração emo. Deu azar de pegar uma máquina bizarra criada pela Rita Repulsa apenas para derrotar o time de Dallas: o famigerado Warriors de 2007.

Desde então, ver o Mavs jogar tem sido pra mim uma experiência similar a ter diarreia: você até fica lá sentado, mas não quer dizer nem por um segundo que está sendo agradável. O time é bom, o Nowitzki é espetacular e melhora mais a cada ano, o elenco é profundo, mas o estilo de jogo parece sempre idiota e os jogadores são mal aproveitados. É surreal dizer isso de um time que se classificou em segundo lugar de uma Conferência Oeste absurdamente forte e disputada. Mas é que o time poderia ser muito, muito melhor do que é. Com as trocas de Caron Butler e Brandon Haywood, o Mavs deveria ser um dos grandes favoritos ao título, mas eu nem por um segundo conseguia acreditar na equipe - e repeti isso por aqui inúmeras vezes, sempre com uma pitada de vergonha e medo dos torcedores do Mavs ficarem chateados. Porque eu sei que o time é maravilhoso, fico até constrangido de achar que não vai dar certo. Mas é que ver essa equipe jogar é como assistir a Monica Mattos interpretando Shakespeare num monólogo no Teatro de Manaus: pode até ficar legal, não duvido das capacidades interpretativas da moça, mas a gente sempre vai ficar tentando entender porque diabos ela não está pelada.

Nessa temporada, o técnico Rick Carlisle fez um trabalho melhor em envolver Jason Kidd no esquema tático. No entanto, descobri recentemente que grande mérito disso é do próprio Kidd, que passou todas as suas férias treinando arremessos de três pontos para ver se conseguia se encaixar no papel determinado para ele. Acabou passando mais tempo arremessando nessa temporada do que encontrando companheiros livres para o passe, até porque as jogadas do Mavs costumam ser mais focadas em isolações ou em rotação de bola para encontrar arremessadores livres. Definitivamente ele participou mais, passou mais tempo com a bola nas mãos, mas nem de longe foi o suficiente para conseguir usar plenamente as vantagens que ter um jogador como o Kidd trazem para um time.

Nos playoffs, esse ponto ficou mais explícito. Na busca por "bolas de segurança", aquelas bolas que você só arremessa se tiver certeza de que vão cair (afinal playoff é coisa séria, diabos!), o Nowitzki fica sobrecarregado e o Jason Kidd é ignorado. Os arremessos do Kidd não são confiáveis, então ele torna-se inútil nesse esquema tático que fica caçando gente para arremessar do perímetro. Ter o Kidd em quadra nessas circunstâncias não é prejudicial, ele é talentoso e volta e meia consegue tirar alguma coisa da cartola, mas usá-lo tão mal (e tão pouco) é burrice. O time ficou praticamente sem armação, apenas arremessando de fora e sem nenhum jogo no garrafão. Ganhou duas partidas, tornou as outras disputadas, tudo porque os jogadores são muito talentosos e o Nowitzki é um monstro. Isso apenas já é suficiente para vencer grande parte das equipes do Oeste. Mas o Mavs deu o azar de pegar um Spurs que começava a recuperar sua identidade, criar ritmo, e que encontrou seu novo Bruce Bowen na figura de George Hill.

No Jogo 6, que o Mavs precisava vencer fora de casa para continuar vivo, o George Hill acabou com a partida marcando 21 pontos e metendo duas bolas da zona morta. O técnico Popovich chegou até mesmo a dar liberdade para o garoto nos momentos decisivos, mandando ele esquecer o resto do time e o plano de jogo e simplesmente ser agressivo. Essa reação do Popovich causou algum terremoto e uma chuva de sapos ao redor do mundo, mas mostra sua clara percepção de como o Hill é fundamental para o sucesso do Spurs. Duncan, Ginóbili e Parker tiveram boa partida, como é de se esperar de um time que sabe exatamente o que fazer nos momentos decisivos de uma série, mas o armador francês tem cada vez mais um papel secundário. Duvido muito que seja culpa dele estar retornando de lesão, George Hill é simplesmente mais importante para os planos de Popovich. Parker levou anos para conquistar alguma liberdade nesse time, e ela sequer é, hoje em dia, tão grande quanto aquela que Hill conquistou em seu segundo ano de NBA.

Pelo lado do Mavs, ficou claro que eles sentiram falta do Devin Harris. Sem armação e sem jogo no garrafão, com a defesa do Spurs focada no perímetro, eles precisavam desesperadamente de alguém para infiltrar nessa partida. O JJ Barea teve algum sucesso nessa empreitada durante a série, mas é bem óbvio que ele é apaixonado pelo próprio arremesso. Após errar duas bolas no primeiro quarto, foi sentar e mal voltou pra quadra. Rick Carlisle preferiu usar o novato Roddy Beaubois, que é ótimo em atacar a cesta. Sempre tem torcedor do Mavs reclamando no Bola Presa de que o Beaubois não é usado o bastante nesse time, e aí está mais um sinal de cagada do técnico. O francês é um dos poucos jogadores desse elenco que se nega a ter fobia de garrafão, e foi ele quem fez o Jogo 6 ficar competitivo novamente. Caron Butler também fez algum estrago, mas o tempo que ele passou atrás da linha de três pontos errando tudo começou a me dar dor de estômago. O mundo que me desculpe, mas ver o Spurs jogar não faz tão mal pra minha saúde estomacal quanto esse Mavs burro que não sabe usar os jogadores que tem.

Vamos brincar de somar todos os arremessos tentados por jogadores de garrafão do Mavs nessa partida? Haywood deu 2, Dampier deu 1, Najera deu 1. São 4 arremessos ao todo, sendo que apenas um deles entrou, uma bola do Haywood. Isso é patético, time que joga tão longe do garrafão não consegue ganhar um jogo decisivo desses. Quando você precisa de uma bola importante, para diminuir uma diferença pequena no placar no quarto período de um jogo que pode te eliminar, vai ficar arremessando de longe, onde a porcentagem de aproveitamento é menor? Parece coisa de time brasileiro! Para se ter uma ideia, apenas três jogadores do Mavs cobraram lances livres durante a partida: Nowitzki, que é fortemente marcado; Caron Butler, que ataca a cesta quando não está preso pelo esquema tático; e o Beaubois, que entrou no jogo para ser cover do Devin Harris. Não preciso nem dizer que o Spurs cobrou o dobro dos lances livres que o Mavs, né?

O Spurs tem suas dificuldades, nunca estiveram tão distantes de seu plano original de jogo e sem ritmo em quadra durante a última década como estão agora, mas o ataque flui mais fácil até mesmo quando os arremessos são forçados. Para o Mavs, parece que todo ataque é um parto de um bebê cabeçudo tão cabeçudo quanto o Zach Randolph, cada ponto é dolorido e sofrido. Se não fosse a facilidade do Nowitzki em colocar a bola dentro da cesta, eu poderia processar o Mavs por fazer meus olhos sangrarem.

Para o Mavs, então, sobra pensar em nova abordagem tática na temporada que vem. O ideal seria outro técnico, mais espaço para a pirralhada, mais contra-ataques que terminem dentro do garrafão com enterradas e bandejas, não em bolas de três pontos. Mas como o Nowitzki tem muitos motivos para dar o fora e tentar alguma equipe mais inteligente, talvez o processo em Dallas tenha que ser mesmo de reconstrução. É bizarro pensar em reconstruir um time que acabou em segundo lugar do Oeste, mas alguém realmente acha que, jogando assim, essa equipe poderia ser campeã? Precisamos ser realistas, e o Mark Cuban não está muito interessado em gastar seu dinheiro nerd num time que não vai ganhar nada nunca. De que adianta manter o Nowitzki se ele acaba de entrar para a história como o primeiro jogador a perder tanto para um oitavo quanto para um sétimo colocado em séries de playoffs? Culpa, sempre, de azar e má utilização do elenco.

O Spurs, ao contrário, pode respirar aliviado. Renovaram o contrato com o Ginóbili, o que é polêmico porque ele está ficando velho e baleado, mas pelo menos podem ter a certeza de que a base do time estará lá enquanto a pirralhada cresce para tomar o lugar. Experiência para eles não vai faltar, até porque a criançada do Spurs está prestes a fazer parte de uma tradição antiga da equipe: enfrentar o Suns nos playoffs.

Se eu lesse horóscopo e acreditasse em destino, teria feito os palpites para as séries simplesmente baseado no fato de que Spurs e Suns iriam passar da primeira rodada para se enfrentarem, afinal é para isso que eles nasceram, para isso que eles foram feitos. O mundo foi criado apenas como uma desculpa para esse confronto, o sentido do mundo é ser palco para Spurs e Suns, e nossa função na Terra é sermos espectadores. Tendo dito isso, quem deixar de assistir a qualquer partida dessa série, eu vou descobrir o endereço e ir pessoalmente em casa dar uma surra.

O estranho é que o Blazers até deu uma cansadinha no Suns, e eu nem entendo bem o porquê. Em geral as partidas que o Suns ganhou foram fáceis, controladas e com placares elásticos, então as vitórias do Blazers foram realmente sustos inesperados. As bolas de três pontos do Blazers mantiveram o Jogo 6 disputado, mas o Suns fez uma mesma jogada com sucesso três vezes (Amar'e na cabeça do garrafão passando para o Jason Richardson infiltrando), a defesa do Blazers ficou com cara de pamonha, e a partir daí o jogo virou poeira. Quando o Jason Richardson começa acertando seus arremessos, pode ter certeza de que ele terá um jogo incrível - pena que quando ele começa errando, parece desistir da partida bem rápido. Vai ser bem legal ver como ele vai lidar com a defesa do Spurs nesse sentido, e quem vão usar para marcá-lo. Além disso, vai ser incrível ver como o Grant Hill vai se sentir agora que ele passou da primeira rodada dos playoffs pela primeira vez (Síndrome de Tracy McGrady), e como o Nash vai lidar sendo marcado pelo novo Bruce Bowen, chamado George Hill. O Hill é forte pra burro e, pior, joga na mesma posição do Nash, o que significa que isso sequer irá gerar uma falha de marcação em outro lugar da quadra. O Nash vai sofrer um bocado e a nossa compreensão de mundo diz que o Spurs vai acabar vencendo (assim como a água molha, as coisas que jogamos para cima depois caem no chão, colocar dedo na tomada dá choque, etc), mas será uma série espetacular. Arrisco apenas dizer que o Suns parece mais descansado, as partidas contra o Blazers foram mais na maciota do que as batalhas com o Mavs, ainda que os times tenham jogado o mesmo número de partidas. E o Nash, pela primeira vez na história, não enfrentará o Spurs morto de cansaço pelos playoffs e pela temporada regular, principalmente porque ele tem um reserva de nível no Goran Dragic que permite que o canadense não fique com remorso de ter que sair de quadra de vez em quando.

O Blazers tem mais é que ficar feliz de ter dificultado a vida do Suns e ir assistir à maravilhosa série da próxima rodada em casa. Tudo que eles fizeram nessa temporada já é lucro se você pensar na quantidade de contusões surreal que eles enfrentaram. Esse time com Brandon Roy, Camby e Greg Oden ainda vai fazer muito estrago, mas não dava pra fazer isso com a maldição de Clippers que eles enfrentaram esse ano. Para a temporada que vem, o plano é simples: conseguir contratar todo o departamento médico do Suns, que recupera qualquer jogador, e tentar de novo. O elenco está lá, só precisam conseguir andar e fazer xixi sem usar sonda.

Antes de falarmos mais sobre a série entre Spurs e Suns, com o devido preview da rodada, não perca o preview de Cavs e Celtics que sai ainda hoje, antes da partida das 21h. Amanhã, o Denis falará mais sobre a vitória do seu Lakers que eliminou o Thunder, e do Nuggets-sem-vontade sendo eliminado pelo Jazz. Boatos dizem até que alguns torcedores do Jazz, quem diria, foram capazes de esboçar um sorriso! Fiquem de olho então, maratona de posts do Bola Presa nesse fim de semana!

domingo, 18 de abril de 2010

Preview dos playoffs - Parte 4

Chegamos ao fim do nosso preview da primeira rodada com as séries entre Mavs/Spurs e Suns/Blazers. Os outros previews estão nos posts abaixo, que você pode acessar também por esses links:




Dallas Mavericks x San Antonio Spurs


O que o Mavs precisa fazer para vencer:
Todo mundo fala que o Spurs é perigoso nos playoffs, que nessa hora é diferente, mas esquecem que o Dallas sabe muito bem disso e não se assusta mais. Desde a temporada 2000-01 apenas dois times foram capazes de eliminar o Spurs nos playoffs, o Lakers (2001, 02, 04 e 08) e o Mavs (06 e 09), em 03, 05 e 07 eles não perderam pra ninguém e foram campeões.Então sim, é verdade, o Spurs sabe jogar playoffs, mas não é como se o Mavs fosse um freguês, eles já passaram pelo Spurs antes e dessa vez ainda tem a vantagem do mando de quadra.

Tirando esse mito de cima do Spurs, vamos ao jogo de verdade. O Dallas para vencer precisa antes de tudo explorar o Dirk Nowitzki. Em anos anteriores o alemão sofria quando era marcado pelo Bruce Bowen, que mesmo sendo bem mais baixo, sabia como incomodá-lo, mas agora o Spurs não tem mais ninguém para pará-lo. Se colocarem o Duncan em cima do Dirk ele sai do garrafão e joga no perímetro, onde ele até prefere e incomoda mais o Duncan, sobram para o trabalho caras como McDyess, Richard Jefferson, DeJuan Blair e até o Keith Bogans, nenhum com as características ideais para marcar o Nowitzki, não é à toa que ele tem média de quase 30 pontos por jogo na temporada contra o Spurs.

Esse matchup do Nowitzki é a chave, mas não é tudo, o Dallas precisa saber atacar a cesta e não ficar só no velho vício que às vezes reaparece de só dar arremessos de longa distância. Apenas com as infiltrações do Caron Butler e os rebotes ofensivos do Haywood e do Dampier é que o Dallas irá abusar da falta de um pivô natural que o Spurs tem. Por fim está a marcação sobre Manu Ginobili, se o Spurs foi um dos bons times do fim de temporada foi porque o Manu jogou como uma super estrela, então é bom que o Caron Butler consiga segurar o argentino pelo menos um pouco, ou que o Dallas consiga chegar no fim dos jogos vencendo, porque com o placar empatado a vantagem é do Spurs, poucos caras na NBA sabem fechar jogos como o Ginobili.

O que o Spurs precisa fazer para vencer:
O domínio do Nowitzki na série desse ano foi muito óbvio, eles vão ter que achar um jeito de pará-lo. Na falta de um marcador ideal talvez a melhor coisa seja a variação. Começa-se o jogo com o pesado McDyess, depois coloca-se o baixinho do Bogans e minutos depois já tenta-se o DeJuan Blair, depois podem começar a dobrar a marcação sempre que ele pegar na bola, depois xingar a irmã dele e depois colocar o Duncan vestido de palhaço com uma arma na mão.
Falando sério, eles não tem um marcador nato pra ele, só variando muito e fazendo o Dirk não saber o que esperar a cada posse de bola é que vão ter alguma chance de deixar o alemão desconfortável.

No setor ofensivo eles precisam de alguém além de Duncan e Ginobili. O primeiro já não domina jogos como antigamente, vai fazer seus 20 e poucos pontos e só, o segundo vai chamar o jogo quando a partida estiver para ser decidida, mas até lá alguém tem que ajudar a manter o Spurs no jogo. Ninguém precisa virar gênio de uma hora pra outra, mas só o Richard Jefferson conseguir fazer sua primeira cesta antes do terceiro quarto (estou assistindo ao jogo enquanto escrevo!) ou o Roger Mason acertar pelo menos um arremesso de três já será uma grande ajuda.

O diferencial que ninguém espera pode ser a volta do Tony Parker. Ele está começando os jogos do Spurs no banco e o motivo é bem claro, ele não está em condições de jogo, está lento, não ataca a cesta, parece um Jordan Farmar francês. Se, de algum jeito, ele conseguir voltar à velha forma, pode maltratar o Jason Kidd com sua velocidade e causar muitos problemas, como fez o Chris Paul quando destruiu o mesmo Kidd nos playoffs de 2008.

Previsão de resultado: Mavericks 4 x 2 Spurs. O Spurs tem chance de vencer, tem elenco talentoso, grande técnico e tudo mais, mas as coisas que eles precisam fazer para bater o Mavs são bem menos prováveis de acontecer do que as que o time de Dallas precisa. Levando em consideração os últimos meses da temporada, o Mavs está bem mais próximo do ideal para vencer essa série.


Phoenix Suns x Portland Trail Blazers


O que o Suns precisa fazer para vencer a série:
Do jeito que eles acabaram a temporada, atropelando todo mundo, a única coisa que eles precisam fazer é jogar como se fosse mais um jogo de temporada regular. O ataque está funcionando à perfeição, o Steve Nash está entrosado com todo mundo e nem a perda do Robin Lopez, que tinha entrado muito bem no time titular, tem feito tanta falta.

O grande ajuste que o Suns deve fazer para essa série é em relação ao Andre Miller. Como o Blazers não vai ter o Brandon Roy, que operou o joelho, ele vai ser o foco do ataque, tudo irá começar das suas mãos o tempo inteiro. Como o Nash é terrível na defesa, talvez fosse melhor para o Suns arranjar alguém (Jared Dudley, talvez?) para ser o encarregado de marcar individualmente o armador do Blazers.

Executando o ataque como estão acostumados e não sendo machucados pelo Andre Miller, o Suns deve passear nessa série. O Blazers é um timaço mas é impensável vê-los vencendo uma série inteira de playoffs sem o Roy.

O que o Blazers precisa fazer para vencer a série:
Milagre. Durante 7 jogos eles precisam dar um jeito de segurar o melhor ataque do final da temporada regular, o Steve Nash inspiradíssimo e principalmente o Amar'e Stoudemire, que foi o melhor jogador de garrafão do final da temporada, com sobras. Ao mesmo tempo em que fazem isso precisam que caras como LaMarcus Aldridge, Martell Webster e Andre Miller chamem a responsabilidade ofensiva em todos os momentos do jogo, até no quarto período, quando era o Brandon Roy que mandava no time.

Em alguns jogos, principalmente em casa, vemos o LaMarcus Aldridge levando vantagem no garrafão ofensivo ou o Webster acertando trocentas bolas de 3 pontos, mas terão que fazer isso com consistência, não vai ter folga. Também precisarão contar com a ajuda dos jogadores do banco, como o Jerryd Bayless e Rudy Fernandez. Não tenho dúvida de que todos eles são bons, mas lembra nos playoffs do ano passado contra o Rockets como a maioria desses mesmos jogadores caiu demais de produção e ficou tudo nas costas do Roy? Não dá pra apostar que vão fazer muito diferente nessa temporada.

Previsão de resultado: Suns 4 x 1 Blazers. Pode ser 4 a 2 se os coadjuvantes do Blazers atuarem melhor do que no ano passado, porque vontade para vencer não falta pra eles mesmo com mil contusões. Mas não é o bastante contra o Suns que está na sua melhor fase dos últimos anos.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O Clippers é o Clippers

Camby ri por saber que vai voltar a vencer jogos

A data-limite para trocas na NBA é amanhã, dia 18 de fevereiro, mas algumas trocas já começaram a rolar. A primeira foi a do Caron Butler para o Mavericks que o Danilo comentou ontem, logo depois aconteceu mais uma, o Clippers mandou Marcus Camby para o Portland Trail Blazers em troca de Steve Blake, Travis Outlaw e, dizem, 3 milhões de dólares.

Minha primeira reação foi de ter visto uma ótima troca. O Blazers deve ser o time que mais precisa de um pivô atualmente, afinal perderam Vovô Oden, Pryzbilla, e estão usando o Juwan Howard, que tinha idade pra ser pai do Mutombo, de pivô titular. Como li sabiamente aí pela internet (não lembro onde!), "eu não confiaria a defesa do meu time ao Juwan Howard de ala de força em 1997, que dirá de pivô em 2010". Isso mostra o desespero do Blazers atrás de um cara que possa segurar a barra lá entre os grandes.

Do outro lado, o Clippers não precisava mais do Camby. Eles já tem no Chris Kaman um excelente pivô, para a temporada que vem vão ter o Blake Griffin como seu parceiro de garrafão e no banco ainda tem o jovem e cada vez mais promissor DeAndre Jordan, que faz grandes jogos sempre que tem chance. Dar tempo de quadra pra ele era importante demais para o Clippers! Mas não é porque o time não precisa mais que ele iria sair de graça, então trocaram por Blake e Outlaw.

Achei, a princípio, o Blake uma ótima aquisição. Sabe organizar o jogo, é aplicado taticamente e arremessa bem, ou seja, tudo o que o Baron Davis não está fazendo nessa temporada. Eu responsabilizo o armador do Clippers como maior culpado pela temporada miserável da equipe, ele não tem jogado metade do que sabe e ainda tem que ficar em quadra porque mesmo ruim é dez vezes melhor que o Telfair. Já o Travis Outlaw é um aprendiz de Kobe no que diz respeito a treino. Não para de treinar, já disse ser apaixonado pelo seu próprio arremesso que pratica à exaustão, quer sempre melhorar todos os aspectos do seu jogo e sonha em um dia ser uma estrela. Por isso mesmo às vezes peca por não tocar muito a bola, mas está sempre em evolução e no Blazers era o Sr.Quarto Período, sempre resolvendo os jogos mesmo com o Brandon Roy em quadra. Pensei ser o cara ideal para o Clippers, um dos times que mais entrega a rapadura no fim dos jogos.

Mas como já disse outras vezes, o Clippers não tem a maldição de ter jogadores e times ruins, a maldição deles é dar esperança pra depois, quando ela estiver lá em cima, destruir tudo com força.

Fui conferir os contratos de Steve Blake e Travis Outlaw e descobri que ambos, assim como Camby, tem o contrato expirando ao fim dessa temporada. Serão Free Agents daqui alguns meses e, claro, irão preferir qualquer outro time com um histórico mais decente a ficar no Clippers. E com a contusão do Travis Outlaw é bem capaz que ele termine a temporada ainda na enfermaria e acabe sua carreira no Clippers sem ter jogado um jogo sequer. Em outras palavras, o Clippers trocou o Marcus Camby, um baita pivô, raridade na NBA atual, dias antes da data-limite, por meia temporada do Steve Blake e muito dinheiro. Ou ainda em outras palavras, trocou uma chance de crescer por grana. Será que não dava pra passar mais alguns dias conversando com outros times para conseguir coisa melhor?

Isso é muito Clippers. Se o Camby não é mais útil em um time que não tem chances na temporada e o Blazers precisa dele, por que não conseguir escolhas de draft no processo? Por que não envolver algum dos promissores e baratos reservas do Blazers como Jeff Pendegraph ou Dante Cunningham? Ou por que não forçou o Blazers a pegar também alguns dos contratos que o Clippers diz tanto que quer se livrar, como o do Al Thornton?

Levando em consideração as mesmas coisas dá pra dizer que o Blazers conseguiu mais uma vez uma ótima troca. Perdeu, na prática, um de seus vários armadores reservas por um pivô titular, só. Eu sou o fã número 1 do Steve Blake depois da mãe dele, digo isso desde o tempo dele no Nuggets, mas é fato que o Blazers com Andre Miller, Jerryd Bayless e Brandon Roy não precisa desesperadamente do Blake pra levar a armação da equipe. E o Outlaw, fora até o fim da temporada e Free Agent depois disso, poderia acabar sem jogar mais no Blazers mesmo.

O Camby não vai fazer milagre em Portland, não será o responsável por parar Gasol, Bynum, Nenê, Kenyon Martin e Nowitzki nos playoffs, mas estamos falando de um time que está na zona de playoff apesar de ser o quarto pior time da liga em rebotes defensivos, o segundo pior em número de rebotes dos adversários e o quinto pior em tocos por jogo. Apesar de não ser um ótimo defensor no mano a mano como alguns acreditam, ele irá ajudar em tudo isso que o time fede e vai fazer com que o garrafão do Blazers deixe de ser uma passarela para bandejas adversárias. Também não dá pra esquecer que o Camby é um cara muito esforçado, mesmo no que ele não é bom ele se esforça para não ser ridículo, não vi até hoje um técnico que tenha trabalhado com ele e que tenha reclamado de ter o pivô no time.

Pra completar o desastre ainda falaram que o Marcus Camby ficou sabendo da troca por meio do seu agente, não pelo general manager do time, Mike Dunleavy, no meio do jantar do time que acontecia, por coincidência, em Portland, onde o Clippers tomou uma sova ontem. O Camby se disse decepcionado porque não foi avisado ou questionado e que realmente tinha esperanças de assinar um novo contrato com o Clippers na temporada que vem, já que diz gostar da organização (ou gostava até ontem, pelo menos) e que estava feliz que sua família estava gostando de Los Angeles.

Depois dessas trocas o Clippers tem, garantidos, 39 milhões de dólares em contratos para a próxima temporada. Se o teto salarial ficar parecido com o desse ano (dizem que deve cair um pouco e os jogadores até estão ameaçando greve por isso) o time terá pouco mais de 15 milhões para distribuir entre novos jogadores. Falta saber apenas que doidos vão topar ir para o primo pobre de LA depois de mais uma temporada desastrosa.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Profundidade a prova

Free Hugs

Contusões servem para muitas coisas na NBA. Uma delas é para estragar jogos que a televisão comprou meses antes. Quantas vezes na temporada passada não fomos obrigados a ver o Wizards passar vergonha em rede nacional só porque um tempão antes a ESPN tinha achado que era uma boa idéia passar um jogo do Gilbert Arenas? Tortura das mais cruéis aquela.

Mas em outros casos as contusões obrigam os times a se virar e eles se viram muito bem. Exemplo mais óbvio que o Houston Rockets, que insiste em parecer melhor quando não tem T-Mac e Yao Ming, não existe.

Então quando o Blazers começou a querer parecer o Clippers, fiquei na dúvida sobre o que esse time seria. Em questão de semanas eles perderam o Greg Oden, o Travis Outlaw, o Rudy Fernandez, o Nicolas Batum, os novatos Jeff Pendegraph e Patrick Mills e até o técnico Nate McMillan se machucou ao mostrar um movimento de defesa em um treino da equipe. Era a hora de mostrar se a tal profundidade exemplar do Blazers era mesmo de verdade.

Eles começaram capengando, em um mês de temporada foram 4 derrotas em casa, contra 7 em toda a temporada passada. Chegaram ao cúmulo de perder para o Grizzlies dentro do Rose Garden. Nos últimos jogos perderam para o Knicks, depois para o Bucks, Cavs, e venceram o Kings num jogo suado e vencido na marra. Mas ontem parece ter começado uma nova fase.

Não que vencer o Suns fora do Phoenix tenha sido uma missão lá tão difícil. Invicto em casa, o time do Nash tem só 50% de aproveitamento fora. Mas o jogo de ontem foi simbólico porque mostrou superação em um time que parecia cada vez mais apático e deu uma luz de que formação eles podem usar para voltar a vencer.

Depois de pagar uma nota preta pelo Andre Miller, o Blazers, claro, está usando ele como armador titular, mas não tem dado nem um pouco certo. Quando a troca foi feita eu achei que um armador não deveria ser a prioridade do Blazers (e não foi, é verdade, eles tentaram o Millsap antes) mas que mesmo assim tinha sido um acerto. Na minha cabeça, embora ele não fosse veloz e jogasse na correria, talvez justamente isso fizesse com o que o Blazers fosse um time mais completo. Não teria como ele atrapalhar. Um cara experiente, que sabe distribuir a bola, poderia muito bem dar certo em um time talentoso daquele. Mas sua lentidão, o quanto gosta de ficar com a bola na mão e o fato de não ter um bom arremesso de longe estão incomodando muito mais do que eu poderia imaginar.

É mais ou menos como o Elton Brand no Sixers. Antes a gente achava que só faltava um cara de garrafão pra eles, agora que tem ele parece atrapalhar até quando joga bem. Mesmo quando num bom dia, parece que está indo para o lugar oposto do resto do time, um incomodo. Melhor o Speights num dia mediano do que o Brand num dia bom e melhor um Steve Blake coadjuvante do que um Andre Miller protagonista.

Ontem o Andre Miller jogou por 17 minutos apenas e o time perdeu por 7 pontos nos minutos em que ele esteve em quadra. Com o Blake a coisa andou melhor e o auge do Blazers no jogo foi quando o Jerryd Bayless assumiu a armação da equipe. Sim, aquele Bayless que o Blazers pegou no draft do ano passado, que foi o melhor jogador das ligas de verão e que não tinha um minuto de quadra sequer no ano passado.

No ano passado o Bayless só entrava no garbage time para enfrentar os Scalabrines da NBA. Era o Steve Blake titular, o Sergio Rodriguez reserva e depois ele. Nesse ano saiu o Sergio e entrou o Andre Miller. Mas o que o Nate McMillan deve ter sacado agora, na marra, é que o Bayless não tem nada a ver com nenhum desses e que por isso mesmo pode ser o melhor parceiro para o Brandon Roy.

O Roy é daqueles shooting guards, os armadores da posição 2, que gostam de ter a bola na mão. Gosta de ditar o ritmo do jogo principalmente nos momentos decisivos. Caras assim pedem ajudantes que o complementam, como caras que arremessam de três ou cortam para a cesta atrás de um passe. O Andre Miller prefere comer repolho com mostarda a fazer qualquer uma dessas duas coisas. Não à toa, o Steve Blake, bom arremessador, era visto em quadra nos quartos períodos.

O Bayless é um mini Brandon Roy. É menor, mais elétrico, também gosta de bater pra dentro e tem um arremesso decente de longe. Ontem, com os dois em quadra, a bola podia ficar na mão de qualquer um deles e um podia fazer o papel do outro. Vimos o Bayless infiltrar pra fazer a cesta (ou tomar a falta, ele é a Rihanna num garrafão de Chris Browns) ou passando para o Roy, que infiltrava e passava para o Bayless, que ou chutava de três ou estava nas costas de um pivô recebendo a bola. O time ficou tão dinâmico com os dois dividindo os papéis dos dois armadores que o Suns não sabia mais o que fazer.

O Phoenix chegou a abrir uma grande diferença, mas liderados pelos 27 pontos do Roy e os 29 (em 29 minutos) do Bayless, a vitória de virada, empolgante, aconteceu. Engraçado que o grande jogo da carreira do Roy, que o levou ao status de estrela, foi também contra o Suns, quando marcou 52 na temporada passada. O Bayless não é do nível dele, mas parece saber disso. Contou em uma entrevista após o jogo que já conversou muito com o seu companheiro de time dizendo que os dois podem fazer em Portland o que Mo Williams e LeBron James fazem em Cleveland.

No Cavs o Mo Williams é meio armador, meio arremessador. Eventualmente o LeBron quer abraçar o mundo e vira armador, transformando o cabeça de azeitona em seu shooter particular. Essas ações divididas de jogar com ou sem a bola dão certo nos melhores dias do Cavs e acho que podem dar muito certo no Blazers também. Eu ainda começaria os jogos com o Steve Blake de armador principal, por eles ser mais tranquilo que o Bayless, que deve tomar a mesma água do Joakim Noah. E com certeza começaria a procurar pela NBA times interessados em levar o Andre Miller.

No fim das contas esse momento ruim do Blazers está servindo para muitos jogadores considerados bons terem espaço para mostrar que são mesmo. O Martell Webster, por exemplo, está conseguindo provar que é muito mais que um arremessador, que pode brigar por rebotes, infiltrar ou humilhar o Grant Hill. Já o Pryzbilla a gente já sabe que é um bom pivô e quebra um galhão na ausência do Oden.

Ou seja, o time é bom, o elenco ainda é profundo demais. Só que o elenco cortado pela metade exige que os jogadores lidem melhor com mais minutos em quadra, com o cansaço, tem menos gente para cobrir um jogador que está num dia ruim e alguns caras acostumados a jogar com os reservas precisam se adaptar aos titulares. Dificuldades que vão deixar o Blazers longe da briga pelo topo da divisão Noroeste mas mais do que preparados para brigar de igual pra igual com qualquer um nos playoffs. E Bayless, a gente entendeu o que você quis dizer, mas você nunca começa a carreira na NBA dizendo que quer ser o Mo Williams, nunca.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Tente outra vez

Greg Oden mostra sua famosa técnica de se contundir no joelho


Quando vimos Greg Oden ser draftado aos 19 anos, sabíamos pelas rugas em seu rosto que ele na verdade tinha uns 82 anos e iria se aposentar em breve. Se ele durasse alguns anos, seria o bastante para o time forrado de pirralhos do Blazers amadurecer um pouco e tentar ganhar um ou dois anéis de campeão. Nem seria necessário ele ser um grande jogador, bastaria que ele quebrasse um bom galho, principalmente defensivamente, e ele já seria capaz de se aposentar tendo feito parte de um time memorável, de garotos que se tornaram homens, um processo de renovação que levou o Blazers do fedor completo à real disputa por um título.

O que ninguém esperava é que, na verdade, o Oden fosse o "Jimmy Bolha". O mundo aqui fora é muito perigoso para ele, que precisa permanecer toda sua vida fechado dentro de uma bolha para tentar se manter saudável. No mundo exterior ele tem poucas chances de sobreviver, só se ferra - e atravessa o país causando um monte de confusões.

O histórico de lesões do Oden comprova essa teoria. No seu único ano de basquete universitário, jogou o tempo inteiro com uma lesão na mão direita que o obrigava a arremessar lances livres com a canhota. Muita gente achou que isso foi benéfico para o próprio Oden, porque mostrou como ele era capaz de jogar muitíssimo bem ainda que lesionado, além de fazer propaganda do seu talento com as duas mãos. Mas após ser draftado com a primeira escolha do draft, Greg Oden contundiu o joelho ao tentar (olha que bizarro!) levantar do seu sofá, ainda em casa. Tem gente que jura de pé junto que ele na verdade se machucou dançando "Dance Dance Revolution" num daqueles tapetes de dança, o que eu prefiro acreditar porque é menos ridículo do que se arrebentar saindo do sofá, parece coisa do Eddy Curry, que corre o risco de romper um tendão tentando ir ao banheiro depois de tantos anos comendo lasanha na cama.

A cirurgia para reparar o joelho tirou o Oden de toda a sua temporada de novato, mas muita gente também achou que no fundo foi uma coisa boa: o time aprendeu a jogar sem ele, amadureceu bastante, conseguiu ser levado a sério, e passou a esperar o Oden numa boa, que assim conseguiu voltar com menos pressão e tendo que jogar menos minutos. A situação também mostrou o caráter do jovem pivô, que pediu desculpas às lagrimas para seu técnico e para o dono do Blazers por deixar o time na mão antes sequer de poder entrar em quadra. Satisfeitos com a mostra de dedicação do rapaz, confiaram plenamente que ele voltaria com toda vontade possível.

E voltou. Mas perdeu 20 jogos na sua temporada de estreia com mais uma lesão no joelho. Ao invés de questionarem se o produto era paraguaio, no entanto, passaram a se preocupar com o excesso de faltas cometidas quando ele de fato estava em quadra. Toda vez que um chinês vota no Yao Ming para o All-Star, o Greg Oden comete uma falta - o que significa que ele acaba passando a maior parte do seu tempo no banco de reservas. Se analizássemos a carreira do Oden num daqueles gráficos pizza, O Eddy Curry comeria esse gráfico, mas antes disso perceberíamos que o Oden passou a maior parte do tempo contundido e a outra maior parte no banco por excesso de faltas. A menor fatia da pizza, que não daria nem pra encher o buraquinho do dente, representaria o tempo que ele jogou basquete pra valer - minutos raros mas que mostram, realmente, que o talento do Oden é real. Quando está em jogo e não acerta ninguém com uma cotovelada acidental, desiquilibra o jogo defensivamente. No ataque, é habilidoso com as duas mãos e finaliza com força no garrafão.

Foi assim que, para a temporada de agora, todo mundo ficou esperando que ele aprendesse a cometer menos faltas, não que fosse mais saudável. A lesão na mão ajudou sua ambidestria, a lesão no joelho ajudou o time a amadurecer, a segunda lesão no joelho lhe deu tempo para se acostumar melhor com os critérios de falta da NBA. Quando se trata do Greg Oden, parece que se cair um piano na cabeça dele vão dizer que foi bom para melhorar seu ouvido musical. Uma hora alguém vai acabar percebendo que ele não precisa de um bom treinador, precisa é de um bom plano de saúde (e de um creminho anti-rugas, vai).

Nessa temporada, fiquei bem confuso a respeito de seu amadurecimento defensivo. Em algumas partidas, mostrou ter sacado direitinho que na NBA é mais importante atrapalhar o arremesso do que gerar contato de verdade, principalmente quando se é um novato e todos os juízes do planeta vão preferir marcar uma falta em você quando o Kobe se aproxima de um raio de dois quilômetros de uma cesta. Contra o Houston, por exemplo, vi o Oden dominar o garrafão defensivo e obrigar a equipe inteira a ficar arremessando de três, como se todo mundo do Rockets fosse o Rasheed Wallace e tivesse fobia de chegar perto do aro. Mas em outros jogos, vi o Oden parecer o mesmo fedelho afoito de sempre, indo atrás do toco, do contato, todo estabanado e ingênuo, com cara de quem acreditaria que o filho da Mari Alexandre é dele mesmo. As atuações foram bem mistas, sem um critério que pudesse indicar evolução. Ofensivamente, no entanto, pude notar uma melhora constante, uma noção cada vez melhor de posicionamento. O problema é que, como qualquer ser humano mamífero e bípede, ele depende um tanto de ritmo: quando consegue passar vários minutos em quadra, vai participando do ataque e produz mais e mais, mas quando sai de quadra rapidamente por cometer faltas em excesso, não consegue acertar arremessos nem que a vaca tussa.

Mas não deu pra acompanhar essa saga do Greg Oden aprendendo a não matar os jogadores adversários de porrada por muito tempo, afinal ele está fora de sua bolha e portanto fadado a virar farofa. Contra o Houston (parece que eles já se enfrentaram umas oito vezes nessa temporada, já enjoei de ver o Blazers jogar), o Oden se contundiu mais uma vez. Em notícia igualmente chocante, a Vivi Fernandes não é virgem.



Como dá pra ver no vídeo, o contato com o Aaron Brooks foi mínimo. Já vi mais contato físico do que isso em partida de tênis, quando duas tenistas trocam beijinhos depois da partida. Mas a queda desiquilibrada do Oden foi o bastante para o joelho virar poeira outra vez, ele ter que apelar para a faca de novo, e perder essa temporada inteira. É a terceira lesão nos joelhos em três anos, e a segunda vez que ele perde a temporada toda. No maior esquema "tente outra vez", é bem claro que ele vai tentar dar uma de Ronaldo e voltar mais uma vez, e mais uma vez, e mais uma vez, até que perceba que não precisa se esforçar tanto e se contente em jogar bem gordo. Novamente chorando, Greg Oden pediu perdão para seu técnico e até para Brandon Roy, quando foi visitado pela estrela do Blazers. A reação de todo mundo é a mesma: essas coisas acontecem, não tem como prever, e portanto não faz sentido se desculpar. O Oden é um cara legal, preocupado, esforçado, suou as pitangas para recuperar a forma física nas últimas férias, e vai fazer tudo de novo. A torcida reconhece o esforço e sabe que essas coisas são aleatórias, simples acaso. Com ele ainda no chão, esperando a chegada da maca, os torcedores que lotavam o ginásio de Portland começaram a gritar seu nome.

É bom saber que os engravatados, os jogadores, os torcedores, seus técnicos, todo mundo apoia o garoto, admira sua dedicação e esforço, sua vontade de estar saudável, e entende que basta estar vivo para que merdas aconteçam. Mas quanto tempo mais esse Blazers pode se dar ao luxo de ficar dependendo de sorte ou azar? O elenco montado é simplesmente profundo e talentoso demais, e nessa temporada já foi bastante complicado tentar arrumar minutos - e dinheiro - para todo mundo. O jovem Jarryd Bayless, por exemplo, acabou perdendo na disputa do palitinho e terminou no final do banco da equipe, jogando apenas os minutos finais dos jogos já decididos. Rudy Fernandez já reclamou de seu papel na equipe publicamente, assim como o Travis Outlaw, que sempre quer arremessar mais. Martell Webster acabou de voltar de contusão e recuperou seu espaço no time. Andre Miller veio do Sixers querendo ser titular, e de tanto chorar até conseguiu a vaga e um pirulito de groselha, mas a alegria não durou muito e ele já voltou pro banco. O que veremos, em breve, é essa quantidade surreal de talento exigindo mais tempo de quadra, mais arremessos, vaga de titular, e contratos maiores e mais gordos. A reconstrução do Blazers foi excelente, exemplo pra qualquer time do planeta, mas o número de anos que dá pra segurar todo mundo junto é limitado. Quando a equipe dá sinais de que vai crescer e brigar com os grandes, é preciso uma subida vertiginosa que prove para todos que se trata de um projeto de verdade, com chances de título, e que merece que todo mundo se mantenha modesto com relação a minutos e a dinheiro, senão todo mundo foge achando que vai ser valorizado e receber a atenção que merece num time "de verdade". Ou seja, basta as coisas darem errado um par de vezes e os descontentes vão debandar em busca de contratos melhores em outros lugares. Não dá pra segurar muita gente muito barata por muito tempo.

Essa temporada já foi pelo ralo. A não ser que o pó de pirlimpimpim do Houston Rockets seja emprestado para o Blazers, a equipe de Portland não vai conseguir sobreviver sem o Greg Oden, sem o Nick Batum (que fez uma cirurgia no ombro no começo da temporada) e sem o Travis Outlaw (que acabou de quebrar o pé), todos peças fundamentais da equipe. O negócio por lá anda tão ruim que até o técnico Nate McMillan rompeu um tendão num treino e vai pra mesa de cirurgia, tudo enquanto o dono da equipe luta contra o câncer. Novela mexicana das boas.

O Blazers virou rapidamente o segundo time de todo mundo, a pirralhada que qualquer um gosta de acompanhar ganhando barba na cara e chutando os traseiros dos times grandes. Mas é possível que, em breve, eles passem do ponto e comecem a desmanchar se não houver uma evolução clara no elenco e as peças fundamentais não ficarem saudáveis. O Greg Oden é um cara bacana, seria legal de ir tomar um café, ele se esforça pra burro e quando está em quadra é exatamente do que o time precisa, mas já estamos chegando no momento de olhar arrependido para o draft e pensar que, com outro jogador escolhido em seu lugar, esse Blazers já estaria chegando mais longe e aproveitando, enquanto é tempo, essa quantidade enorme de jogadores jovens e baratos. Imaginem só como seria esse time com o Brandon Roy armando para o Kevin Durant, por exemplo. Mas se o negócio for continuar apostando no garrafão, até uns jogadores mais secundários estariam fazendo um belo de um estrago: que tal Al Horford garantindo os rebotes, ou Joakim Noah dando uma força na defesa? Todos eles seriam melhores do que ver o Greg Oden fazendo um estrago no próprio joelho, né?

O Blazers começa a entrar numa corrida contra o tempo, e talvez não valha a pena contar com o Oden. Será que dá pra ganhar qualquer coisa com o Przybilla no garrafão? Em algum lugar, o Greg Oden deve estar nesse momento pedindo desculpas, que são inteiramente aceitas. Mas e daqui há 10 anos, será ele o novo Sam Bowie (o cara draftado antes do Jordan que sumiu pelo excesso de lesões)? Ou o novo Yao Ming (que dominou enquanto os osso deixaram)? Infelizmente, parece que suas lesões não permitirão que ele dure muito tempo - exatamente como a idade no seu rosto indicava. Uma carreira curta, como a vida útil desse Blazers que vemos hoje.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Preview da Temporada - Divisão Noroeste

Chris Andersen já entrou no clima de temporada pornô


Ok, esse já é o quarto preview da temporada então vou tentar explicar de forma cada vez mais sucinta como funciona o nosso preview: 6 divisões, 6 posts. Times listados na ordem que vão acabar a temporada. Temporada pornô é a ideal, temporada drama mexicano é a pior possível. Mais curto que isso só post-pílula do twitter.

Divisão Noroeste

Denver Nuggets
Temporada Filme Pornô: Tudo começa com o Arron Afflalo fazendo exatamente o que o Danthay Jones fazia, defesa e defesa, mas tudo pela metade do preço e mais a força nominal de brinde. O time, que dessa vez teve toda uma preparação com o Billups, já começa a temporada em forma e dispara para conseguir a primeira colocação na conferência e mando de quadra nos playoffs. Enquanto Lakers, Spurs e Mavs se ajustam aos novos contratados e ficam para trás.

Nos playoffs, JR Smith mostra que finalmente aprendeu a jogar basquete e não só jogar a bola pra cima e enterrar. Com 10 assistências ele é decisivo no jogo 7 contra o Lakers em Denver e o Nuggets vence a conferência. Nas finais Carmelo Anthony se mostra decisivo como quando foi campeão pela NCAA e joga pro lixo a fama de fominha perdedor que ganhou na NBA.

Temporada Drama Mexicano: Chris Andersen se rende ao mundo das drogas novamente e o Nuggets então se descobre com o pior banco de reservas dentre todos os times decentes da NBA. A cada contusão, suspensão ou licensa maternidade o time se vê obrigado a usar Johan Petro, Anthony Carter ou Malik Allen no time titular. Nos playoffs o time complica a vida dos grandes mas falha porque não aprofundou o elenco na offseason como seus rivais.


Portland Trail Blazers
Temporada Filme Pornô: O Portland não é só um filme pornô, é um filme pornô com ninfetas. Barely legal, 19 aninhos com cara de 17 assombrando a indústria pornográfica mundial. Mônica Mattos é favorita mas essa garota já tem um ano de experiência na vida e chega com muito talento e nada a perder (além de jogos de basquete, claro).

A temporada regular ideal do Blazers é, em números, a mesma do ano passado: ir para os playoffs com mando de quadra. A diferença tem que estar lá na hora de decidir, quando o time sentiu a pressão e jogou muito mal contra o Rockets. Para isso acontecer o Greg Oden precisa deixar de se machucar a cada lua cheia e começar a se impôr como uma força defensiva. Se ele for metade do pivô que as pessoas (presente!) pensavam que ele iria ser, o Blazers está feito.

Uma temporada perfeita também pede uma boa adaptação do Andre Miller. Tem tudo pra dar certo porque ele é um organizador, sabe achar o cara certo no lugar certo e caras assim costumam funcionar bem em times que tem talentos em todas as posições como o Blazers.

Temporada Drama Mexicano: Mas não esqueçamos o fato do Andre Miller ser lento e não ter arremesso de longe. Isso passa uma sensação imediata de que ele irá se embolar com o Brandon Roy no ataque de meia quadra. Não à toa, o técnico Nate McMillan já disse que Miller começa a temporada no banco com o Steve Blake de titular. Pegar um recém-contratado milionário e jogá-lo no banco de reservas é pedir um bom drama.

A pior temporada possível do Blazers começa com o Andre Miller choramingando por espaço no time titular e acaba com o Pryzbilla de pivô titular assistindo o time cair novamente na primeira rodada dos playoffs.


Utah Jazz
Temporada Filme Pornô: Em todo filme pornô uma discussão (mal encenada) é apenas um pretexto para um sexo ainda mais animal! Boozer e Okur não pensarão mais em Free Agency e irão jogar como se não houvesse amanhã. Juntos formam um dos melhores garrafões de toda a NBA e com a ajuda do Paul Millsap meterão medo (só medo, não meterão mais nada!) até no trio K-Mart, Nenê e Chris Andersen, a trinca mais mal-encarada da temporada passada.

Deron Williams finalmente disputa um All-Star Game e volta a transformar a sua eterna comparação com o Chris Paul em uma discussão de verdade. Andrei Kirilenko resolve que está afim de jogar basquete de novo e transforma o Jazz em uma potência defensiva. A torcida safada, cachorra e mal educada volta a ser também a mais barulhenta e o Jazz ameaça uma vaga na final do Oeste.

Temporada Drama Mexicano: Com um mês de temporada o Boozer resolve que cansou do frio das montanhas e pede uma troca. Acaba indo para o Heat em troca do Udonis Haslem e um scanner. O time desanima achando que não tem mais chance e o Kirilenko se preocupa mais em saber com quem irá usar seu vale-traição anual que sua namorada cede do que em jogar basquete.

Com um clima ruim na equipe Okur também se desinteressa pela temporada e Deron Williams tenta resolver tudo sozinho. O Jazz vira mais um time talentoso e com potencial enorme destruido por seus próprios jogadores.


Minnesota Timberwolves
Temporada Filme Pornô: Com toda a justiça do mundo, o Al Jefferson é eleito pivô do Oeste no All-Star Game, deixando Bynum, Nenê e Oden pra trás. Kevin Love volta de contusão em bom ritmo e faz a melhor dupla juvenil de garrafão da NBA Sub-20. A atriz pornô desconhecida Jonny Flynn faz cenas impressionantes e faz o público esquecer que sua contratação atrapalhou o contrato com Ricky Rubio, que era praticamente a nova Jenna Jameson.

Como cereja no bolo o Ryan Gomes se consagra como o melhor jogador de sobrenome latino da liga e o Corey Brewer joga bem como jogou na pré-temporada. Aliás, alguém mais reparou que ele jogou muito bem na pré-temporada? Se tudo der certo assim eles ficam na frente do Thunder, que todo mundo aposta como time que mais vai evoluir na temporada.

Temporada Drama Mexicano: Kevin Love passa mais tempo machucado do que o esperado e o garrafão, que deveria ser o forte do time, vira ponto fraco. Marcado como saco de pancadas da NBA, o técnico decide usar todos os titulares pivetes em todos os 48 minutos de jogo "para dar mais experiência" e todos tentam suicídio por cansaço e desgosto.

Em crise emocional o time perde, não desenvolve seus pivetes e mais uma vez não ganha a primeira escolha no draft. Kurt Rambis volta a usar óculos.


Oklahoma City Thunder
Temporada Filme Pornô: Os menininhos cresceram e até sabem listar os melhores filmes de cada grande atriz citada nessa série. Kevin Durant e Jeff Green estão no terceiro ano de suas carreiras e em momento de virarem grandes estrelas, Russell Westbrook já foi espetacular no primeiro e a eles soma-se o talentoso James Harden. Os 4 são ótimos e a união de seus poderes é impressionante, mas falta um garoto sul-americano para poder chamar o Capitão Planeta. Se o garoto sul-americano tiver 2,15m e for um baita pivô, melhor ainda.

No mundo perfeito do Thunder, o Nenad Krstic quebra o galho o suficiente de pivô e eles se tornam um time que não é vencedor mas que pelo menos arranca algumas vitórias de times grandes e que é divertido de ver jogar, o Pacers do Oeste.

Temporada Drama Mexicano: A maldição da franquia roubada não perdoa o Thunder e não importa quantos talentos eles coloquem no elenco, as derrotas virão. Acostumados a perder desde o primeiro segundo em que pisaram numa quadra da NBA, como as empregadinhas mexicanas que sofrem desde o primeiro capítulo nas mãos de patroas cruéis, o Thunder só irá conhecer a verdadeira felicidade no último capítulo. Mais ou menos lá pela temporada 2015-16.

domingo, 11 de outubro de 2009

Se você está descontente, bata palmas

Andre Miller, mais especialista em cara de choro do que a Mari Alexandre


Todo mamífero bípede desse planeta tem a obrigação de admirar o que o Blazers fez nos últimos anos. Volta e meia nossa empolgação com a equipe é tão grande que escrevemos um post só pra dizer como o Blazers é um time maravilhoso, cheiroso e que alimenta as criancinhas. Se livrando de Zach Randolph - que era a estrela do time -, fazendo boas escolhas no draft, comprando novatos de times que não pensam no futuro e se livrando de contratos exagerados, o Blazers deixou de ser uma das equipes mais ridículas da NBA para tornar-se uma das mais completas, profundas e divertidas, e tudo sem que ninguém percebesse. Foi assim, de um dia para o outro, que de repente todo mundo notou que o Blazers estava chutando traseiros usando um elenco composto por uma enorme pirralhada. Mesmo com o Greg Oden fora na sua temporada de novato (ele se machucou levantando do sofá, segundo consta, e deve ser por isso que o gordo do Eddy Curry prefere nem se arriscar e passa a vida dormindo no sofá), o Blazers deu trabalho. Na temporada passada, mesmo com o Greg Oden sendo uma porcaria e cometendo trocentas faltas por segundo, eles foram parar nos playoffs. Se eu entrasse em coma e acordasse daqui há 10 anos, a primeira coisa que eu perguntaria seria "quantos títulos o Blazers ganhou?". Não precisa ser um gênio pra saber que o elenco é bom o bastante, e profundo o bastante, para chegar ao topo da NBA pela próxima década.
Mas agora que todo mundo tá prestando atenção no Blazers, é muito mais fácil para a equipe contratar outras estrelas. Tem um monte de espertalhão por aí bem interessado em jogar no Blazers porque, além da equipe ter futuro e chances de levar um anel de campeão em breve, o time ser formado por gente cheirando a fralda é uma oportunidade fácil para um jogador veterano se tornar o líder e levar crédito pelas conquistas alcançadas. Eu só não entendo pra quê diabos os engravatados do Blazers iriam comprometer o plano maravilhoso que transformou a equipe nos últimos anos. Com muito bom senso foram capazes de construir uma equipe sem estrelas, sangue jovem e muito potencial, então adicionar um veterano milionário não parece ser um passo para trás?

Quando eles tentaram contratar o Turkoglu, fui completamente contra. Não apenas o turco é superestimado por ser o único com bagos para tentar decidir no Magic, ele também não tinha nada a ver com aquilo que o Blazers construiu e não acrescenta nada que a equipe já não tenha em sua profundidade digna de Monica Mattos na cena do cavalo. O próprio Turkoglu optou por jogar no Raptors, o que para mim é um caso do Blazers ter sido salvo pelo gongo (sinceramente não vejo o turco acrescentando nada de muito valioso para o time de Toronto também, e lembremos que seu contrato foi retardado de grande, mais de 10 milhões por ano). O Andre Miller, ao contrário, topou jogar no Blazers na mesma hora.

Dá pra ver o que os engravatados da equipe viram no Andre Miller. Assim como o Hawks tornou-se um time muito melhor quando Mike Bibby assumiu o cargo de armador e o Nuggets se transformou num time de verdade com Billups na armação, ter um armador puro experiente dá água na boca de quem quer ver o time dar um passo mais à frente. O Andre Miller é um daqueles armadores de verdade (por "de verdade" quero dizer o oposto do TJ Ford ou do Iverson, por exemplo, que são armadores "de mentira") que não recebem a atenção que deveriam. O estilo do Sixers não casava bem com ele, é verdade, mas o Andre Miller é um general em quadra, sabe fazer a coisa certa o tempo inteiro e só peca mesmo é nos arremessos de longe (nisso ele se encaixava muito bem no Sixers, em que todo mundo parece ser míope). O que ele pode trazer para o Blazers é enorme, mas como será que ele lidará com um time tão profundo que os minutos de todo mundo devem ser mais controlados do que os docinhos da Britney Spears?

Nos momentos de decisão, Brandon Roy assume a armação para ficar com a bola nas mãos o máximo de tempo possível. Steve Blake é um excelente arremessador de 3 pontos e um armador burocrático mas eficiente. É preciso achar espaço para Rudy Fernandez, já reclamando de seu papel limitado na equipe, para Jerryd Bayless, que agora não é mais novato, e para Martell Webster, que volta de contusão. A ideia, então, é deixar Steve Blake e Brandon Roy como titulares, ao lado de Nick Batum, que faz um excelente trabalho defensivo, e colocar Andre Miller, Webster e Rudy Fernandez como um banco de reservas destruidor que pode chutar o traseiro de muito time titular por aí (Houston com Trevor Ariza e Chuck Hayes, estou olhado pra você). Mas o Andre Miller já surtou e inclusive reclamou em uma entrevista: "Se tivessem me dito já nas primeiras reuniões que eu seria reserva, então eu não teria vindo pra cá." É bem óbvio que ele não entende que o grande trunfo da equipe é ter quinhentos jogadores bons com características diferentes, de modo que todos podem ser utilizados apenas um pouquinho sempre mantendo a qualidade em quadra. Mesmo se fosse titular, Andre Miller não teria muitos minutos - isso simplesmente não se encaixa nos planos de uma equipe que levou anos para se construir assim.

É assim que temos nosso primeiro descontente de pré-temporada. Mesmo tendo mais minutos do que o Steve Blake e, temos que admitir, jogando muito melhor do que o armador branquelo, Andre Miller está todo putinho e incapaz de compreender seu papel na equipe. É péssimo sinal para um time que, após se livrar de Zach Randolph, havia passado um tempo tão agradável sem brigas, egos e reclamações (é claro que o Travis Outlaw volta e meia reclama que não arremessa o suficiente, mas nem ele mesmo se leva a sério).

O outro descontente da pré-temporada é o Stephen Jackson. Já falamos em outro post de seu pedido para ser trocado que virou uma multa milionária. A NBA diz que reclamar para a imprensa vai "contra o jogo", e os engravatados do Warriors ignoraram o Stephen Jackson, dizendo que ele apenas "quer muito vencer" mas que vai dar tudo certo. Rá, como se a gente não soubesse que nada nunca dá certo no Warriors. Agora, pelo menos ele aprendeu a pedir para ser trocado de uma maneira mais silenciosa, eficiente e que não pode ser ignorada e nem multada: em apenas 9 minutos de jogo (e numa partida de pré-temporada, lembremos) o Stephen Jackson conseguiu cometer 5 faltas, mais uma falta técnica, e ao ter que deixar a quadra ignorou o banco de reservas e foi direto para o vestiário. O Warriors suspendeu o rapaz por dois jogos, mas com certeza qualquer um que realmente se importe com a equipe está mijando nas calças porque o Stephen Jackson não brinca em serviço, ele é capaz de disparar uns pipocos pra cima durante um jogo pra ser expulso, e expulso, e expulso, até que alguém dê um jeito de trocá-lo. O único problema é que ninguém no Warriors se preocupa com a equipe, então é bem capaz que apenas deixem o circo pegar fogo. Diferente do Blazers, que em breve deve dar um jeito de lidar com o Andre Miller - pelo menos é o que esperamos, para que a gente possa voltar a babar ovo em cima do Blazers à vontade, nosso hobby favorito aos domingos.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Perda

"Isso, Yao! Chineses não votam mas
também têm dedos indicadores!"



O Greg Oden não consegue evitar: onde quer que ele vá, existem contusões. Todo mundo se lembra que ele se contundiu em casa, antes da sua primeira temporada começar, simplesmente levantando do sofá. Outras tantas contusões vieram, Oden nunca ficou saudável em sua vida, e agora que finalmente está em plenas condições de jogo, contusões se limitam a acontecer ao seu redor, como se ele emanasse uma aura de lesões. Na noite de ontem, Dikembe Mutombo deu o azar de estar perto do Greg Oden por alguns minutos enquanto Yao Ming descansava um pouco. O resultado? Mutombo, contundido de forma aleatória marcando Greg Oden sem muito contato, passou longos minutos literalmente chorando no chão.



Apesar de ter jogado pouco na temporada regular, Mutombo havia jogado bem contra o Blazers na partida anterior e nitidamente estava sendo poupado para os playoffs, uma força imponente e importante para o sucesso do Houston Rockets na pós-temporada. Quando ele caiu, minha primeira preocupação egoísta foi a falta que faria nessa série, tornando o garrafão do meu Houston mais baixo e menos defensivo. Mas quando as lágrimas de Mutombo começaram a escorrer enquanto ele socava o chão em nítida agonia, me senti um idiota e tive que conter minhas próprias lágrimas. Mais do que um dos melhores pivôs de todos os tempos, com seus tocos inacreditáveis e o dedinho característico dizendo "não" para o infeliz que fosse rejeitado, mais do que um mentor para Yao Ming nos fundamentos defensivos e na utilização de emoção em quadra, mais do que um péssimo falante da língua inglesa incapaz de ser compreendido com sua voz rouca de desenho animado, Mutombo é um ser humano que se importa com outros seres humanos. Não pretendo entrar nos méritos de seus projetos de caridade na África e discutir se esse tipo de política ajuda ou prejudica o continente, o que importa é que Dikembe Mutombo tenta utilizar sua grana e sua fama em algo que não seja 4 jatinhos (aposto que ele tem apenas dois). Se o basquete é uma aberração que permite que um punhado de seres humanos com problemas de altura enfiem dinheiro nas orelhas, então que ao menos alguém perceba o absurdo e não gaste tudo em 40 banheiros. O que o Mutombo fez pode ser pouco, pode ser tolo para alguém exageradamente milionário, pode até mesmo ser prejudicial em alguma forma, mas não tem como não achar louvável essa presença caridosa bizarra em meio a uma cultura do excesso em que o Ben Gordon quer 200 milhões ao invés de meros 180 milhõezinhos. Sua presença destoa até mesmo em quadra, com seu tradicional bom-humor e irreverência no dedinho erguido após cada toco. Na temporada passada, quando Yao Ming se contundiu pela milésima vez, Mutombo tornou-se titular e simplesmente chutou traseiros, garantindo rebotes e desviando arremessos o tempo inteiro, como se sempre tivesse sido titular - tudo com mais ou menos uns 70 anos nas costas. Ainda tinha fôlego para o dobro disso, toda hora dizia que iria se aposentar mas todo mundo sabia que era só charminho. Pode ser que ele tivesse que descansar um pouquinho mais aqui, um tequinho mais ali, mas ainda havia aquela certeza constante de que ele iria produzir, jogar para a equipe, correr de um lado para o outro. O Mutombo só iria se aposentar quando o basquete fosse jogado por robôs no século XXIII, era em que o supercomputador conhecido como "David Stern 8000" proibirá os tocos para tentar aumentar a pontuação das partidas. Mas aí tinha que surgir a aura de contusões do Greg Oden, sempre trazendo pânico e miséria por onde passa. Após as lágrimas, Mutombo anunciou que não voltaria ao basquete ainda no vestiário, alegando que a contusão foi séria mas agradecendo os maravilhosos 18 anos de carreira que teve na NBA. Deveria é ter anunciado que ia dar uns cascudos no Oden, isso sim.

A partida entre Houston e Blazers até perdeu a graça depois da contusão do Mutombo. É sempre muito triste que alguém abandone aquilo que fez por toda a vida graças a um acaso inesperado, mas pensando melhor, que modo melhor de abandonar o esporte do que literalmente no meio de uma partida? Nada planejado, calculado, frio: Mutombo se aposentou no calor do jogo, tentando marcar Greg Oden mesmo quando nitidamente seu joelho tinha virado farofa. Foi um lutador até o último segundo, tentando desesperadamente se agarrar a qualquer vestígio de basquete, mas por fim teve que permitir que seu corpo fosse ao chão. Deve ter doído pra burro e nunca é legal ver um marmanjo desses chorar (ainda mais eu que lacrimejo com cortes de papel nos dedos), mas foi um final digno para um dos maiores de todos os tempos naquilo que fazia de melhor. Foi um final de carreira tão espontâneo quanto seus dedinhos que, penso nisso com vergonha pela humanidade, tanto tentaram evitar.

Muito se falou sobre ser um ato de desrespeito, humilhante, e ele passou a ser proibido de direcionar seu dedinho para qualquer jogador. Foi obrigado, então, a direcionar para a torcida - e ainda assim recebia uma falta técnica por isso volta e meia. Completamente incompreendido, seu ato remete à luta-livre, à intimidação, à animação da platéia, nos mesmos moldes daquilo que o Artest faz e eu tanto aprecio. A NBA perde também, portanto, um animador, além de um excelente jogador. O Houston perde uma força no garrafão que nunca parecia estar velho demais. Mas ninguém perde o homem que o Mutombo é, suas ações na África e seu papel como embaixador do esporte não vão desaparecer por causa de uma contusão aí. Ainda mais ele, que não deve se afastar do basquete nunca (vale lembrar que ele é sempre o cara mais empolgado da platéia de todos os campeonatos de enterrada e All-Star Games por aí). Ele é um apaixonado, e disso a NBA vai sentir falta, confesso. A porcentagem de jogadores chatos, agora que o Mutombo se aposentou, acaba de aumentar em 50%.

Se eu já não estava triste o suficiente, a derrota do Houston me deixou ainda pior. O Blazers aprendeu um pouco com os outros times providos de um cérebro e colocou uma marcação dupla no Yao Ming - em tempo integral. Enquanto esteve em quadra, Yao foi vítima da famosa "dança do maxixe", com um homem no meio e duas mulheres fazendo sanduíche. Boa parte do tempo era o Przybilla atrás e alguém, como Odon ou LaMarcus Aldridge, na frente. Basta ver um par de jogos em que a tática é usada para saber que o Yao Ming torna-se imprestável, porque ninguém se atreve a passar a bola para ele. O espaço criado na quadra é usado pelos outros jogadores da equipe, mas em geral essa tática congestiona o garrafão e exige que os jogadores secundários do Rockets tenham uma boa mira para arremessar de fora. Já vi muitos jogos sendo perdidos assim porque ninguém conseguia acertar um simples arremesso livre e, por isso, insisto que a bola deveria chegar no Yao de qualquer jeito porque aí sim a marcação deve deixar o garrafão ou então, como é comum, fazer uma falta. O que o pivô chinês apanhou na partida, com todo mundo se revezando para empurrá-lo para longe do aro e impedir que tocasse na bola, não foi piada. E tudo em vão, porque quanto mais ele lutava por posição, mais era ignorado no ataque. Acabou se tornando uma força desperdiçada até que no segundo tempo o técnico Rick Aldeman colocou o Yao para jogar fora do garrafão. Não durou muito tempo mas foi uma brisa de ar fresco num jogo em que o pivô não viu a cor da bola e, por isso, Ron Artest tinha certeza de que teria que salvar o jogo num zilhão de arremessos ridículos. Mesmo com Oden, Przybilla e LaMarcus Aldridge todos com 5 faltas ainda na metade do último período, o Houston insistiu em não passar para o Yao e não atacar a cesta. É verdade que, graças a arremessos milagrosos do Aaron Brooks no minuto final (foram 3 bolas de três pontos seguidas), quase que o Houston alcançou e empatou a partida, mas sem dúvida alguma o time mereceu perder. Até porque, convenhamos, não era um jogo em que era permitido sorrir - perdemos Dikembe Mutombo, afinal de contas.

O Blazers, por sua vez, está rindo à toa. O Brandon Roy teve uma das atuações mais espetaculares da sua carreira porque marcou 42 pontos apesar de uma marcação mais do que competente de Shane Battier e do pobre do Ron Artest, que foi realmente humilhado. Acho que não tem combinação de crossover seguido por passo para trás e arremesso que seja mais sensacional do que a do Roy, e o movimento é completamente mortal, indefensável e com um alto índice de acerto. Ele chuta traseiros, mas foi LaMarcus Aldridge o diferencial da partida, acertando seus arremessos de fora do garrafão e se aproveitando muito bem do tempo que Scola passou no banco de reservas. Para a próxima partida, será necessário recolocar Yao embaixo da cesta. Mas o jogo terá muito menos graça - faltarão inesquecíveis dedinhos. Só espero que o Greg Oden seja deixado em quarentena, porque não podemos perder Yao Ming vítima de uma aura de macumba.