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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Blazers, Lakers e TJ Ford

Blá, blá, blá, milhares de Free Agents. Blá, blá, blá análises. Sem enrolação dessa vez, pode ser?

...

Jamal Crawford 
Portland Trail Blazers - 10 milhões por 2 anos

Entendo perfeitamente quem queira argumentar que o Blazers precisava mais de jogadores de garrafão do que de mais um armador. Jamal Crawford não é armador nato, joga mais na posição 2 e quebra um galho como armador principal vindo do banco, duas funções que no Blazers já podem ser ocupadas por Raymond Felton, Armon Johnson, Wesley Matthews, Nicolas Batum e o novato Nolan Smith. Mas, se você pensar mais a fundo, verá que Armon Johnson é só um reserva limitado, Nolan é apenas um novato e que Matthews e Batum vão acabar também jogando muitos minutos na posição 3, seja na reserva de Gerald Wallace ou quando o Crash atuar na posição 4. Há espaço para todos.


E tem mais uma coisa, todos esses jogadores tem suas qualidades, mas nenhum deles é um pontuador nato. Nicolas Batum pode vir a ser no futuro, Matthews e Wallace tem seus dias bons, mas um cara consistente, que cria o seu próprio arremesso e é decisivo não existe no elenco do Blazers. Existia até o ano passado, o nosso querido e amado Brandon Roy, mas como você sabem, ele terá que se aposentar precocemente devido ao seu joelho destruído.

Jamal Crawford chega não para ser titular, mas para terminar os jogos. Para desafogar o ataque quando tudo estiver indo aos trancos e barrancos, comandar um quinteto reserva que é mais focado na defesa e criar, com seus dribles e arremessos de longe, mais espaço para o LaMarcus Aldridge agir. O contrato não é longo, é bem barato para o nível do Crawford e atinge o exato ponto que eles perderam com a saída do Roy. Contratação perfeita.


Greg Oden
Portland Trail Blazers - 8.9 milhões por 1 ano

Kurt Thomas
Portland Trail Blazers - 1.4 milhão por 1 ano

Craig Smith
Portlan Trail Blazers - ?

O Blazers tinha a opção de oferecer uma extensão de contrato a Greg Oden, mas não o fez. Foi o primeiro jogador a ser escolhido na 1ª posição do Draft a não receber uma extensão desde Kwame Brown. O Blazers, porém, não deixou o rapaz simplesmente ir embora, ofereceu um contrato de um ano, a tal Qualifying Offer, quando ele se tornou Free Agent restrito. Agora o pivô fica por mais um ano em Portland e ao fim dessa temporada vira Free Agent irrestrito.

A tal da oferta é enorme e o Greg Oden não sabe quando ou se um dia vai ficar saudável, mas é por apenas um ano. Todo mundo merece uma última chance. E no fim das contas, o Blazers atirou para todos os lados na busca de alguém que renda no garrafão além de LaMarcus Aldrige. Eles já tinham o sênior Marcus Camby, contrataram outro veterano, Kurt Thomas, e um dos meus jogadores-mais-ou-menos favoritos, o ala de força Craig Smith (que não tem o apelido de "Rinoceronte" à toa, é um monstro que sabe muito bem usar sua força), isso além do bichado-promessa Oden. Vão compensando com quantidade os problemas de contusão e idade. Algum tem que dar certo.

Podem argumentar que ao invés de vários jogadores com defeito torcendo para que um ou dois deem certo, poderiam ter apostado todo dinheiro em caras que passem mais segurança, como o ainda Free Agent Samuel Dalembert (enquanto escrevo isso ele parece próximo de fechar com o Rockets). Poderiam, mas eles podem simplesmente achar o Dalembert horrível como eu acho e as outras opções antes dele podem não ter aceitado salários de curta duração, nova obsessão da liga e principalmente do Blazers.

O time não se comprometeu a longo prazo com Oden, com Crawford, com Thomas e os contratos de Felton e Wallace acabam em breve. O time é pra ganhar logo, mas se precisar estão preparados para recomeçar do zero.


TJ Ford
San Antonio Spurs - 1.2 milhão por 1 ano

Não sei ainda direito o que achar dessa contratação, pra falar a verdade nunca achei que o Spurs fosse contratar um cara do estilo do TJ Ford. Vou falar de 3 memórias que tenho do armador.

1- Sabe o famoso Draft de 2003 considerado um dos melhores da história? Naquele ano de basquete universitário ele superou Carmelo Anthony, Kirk Hinrich, Chris Bosh e Dwyane Wade e foi eleito o melhor jogador universitário daquele ano. Foi draftado pelo Bucks e impressionou pela velocidade e boas decisões na armação.

2- Foi para o Raptors e lá, não sei se porque não confiava no resto do time, resolveu virar herói. Com pouco tempo de clube virou reserva do Jose Calderon, mesmo o espanhol sendo um dos piores defensores da sua posição na NBA.

3- Na fase do Pacers lembro de um jogo em que ele tentou uma bola de 3 pontos no último segundo para ganhar um jogo e errou. Detalhe, ele já tinha tentado 18 outras bolas de 3 na temporada e não tinha acertado uma sequer.

Mas talvez o que tenha faltado para o TJ Ford fosse um sistema tático mais rígido ou um treinador que soubesse tirar o melhor dele. Talento o cara tem de sobra, mas nos últimos anos, ao invés de melhorar com a experiência, passou a tomar decisões ruins dentro de quadra. Com sua velocidade e facilidade de infiltração pode fazer estrago parecido ao que o Tony Parker faz no próprio Spurs. Se der certo, ótimo, foi uma opção barata. Se der errado é torcer para que o armador novato Cory Joseph corresponda vindo do banco.

Jason Kapono
Los Angeles Lakers - 1.02 milhão por 1 ano


Troy Murphy
Los Angeles Lakers - 1.3 milhão por 1 ano


Josh McRoberts
Los Angeles Lakers - 6.2 milhões por 2 anos

Os dois primeiros dá pra resumir em poucas linhas: O Lakers precisa de jogadores que chutam de três, Kapono e Murphy sabem fazer isso, o segundo com o bônus de pegar rebotes e o lado ruim de ter o nariz mais feio da liga e um nome relacionado a uma lei nada agradável.

O Josh McRoberts, embora seja o nome mais desconhecido dessa lista, é o que mais pode oferecer. Além dos rebotes que o Troy Murphy também pode dar, é um cara que tem velocidade, sabe participar de contra-ataques, ataca a cesta muito bem. Pode dar um dinamismo ao banco de reservas que Luke Walton e Derrick Caracter não tem chance de dar. Ele também é oficialmente o novo responsável por colocar o Lakers no Top 10 de jogadas da semana no lugar do Shannon Brown:




Os três adicionam coisas de que o banco do Lakers, fraco na última temporada, precisava. Pensando nisso as contratações foram boas. Mas compensa a saída do Lamar Odom e recoloca o Lakers em posição de grande favorito? Não.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Funeral

Basta que Greg Oden e Yao Ming olhem um para o outro para que se lesionem

Já escrevi minha despedida ao Yao Ming faz tempo, mais de um ano atrás. Na época, a lesão no tornozelo adquirida na série de playoff contra o Lakers já havia se mostrado mais problemática do que se esperava, tudo indicava que ele perderia toda uma temporada da NBA e que, quando voltasse, teria minutos limitados em quadra. Era o decreto de que sua carreira não guardava mais surpresas, e lhe restava apenas um papel secundário no mundo do basquete. Sua função de unir o mercado americano e o chinês, derrubar fronteiras culturais entre os dois países e voltar os olhos do mundo para a NBA numa época em que o interesse do público diminuia mais e mais já estava completa. Yao Ming parecia se despedir aos poucos das quadras deixando como legado uma NBA que lucra horrores com consumidores chineses, e uma China que vê o resultado de um longo processo de reconstrução de sua própria imagem. Seu lugar na história independe, portanto, de seu rendimento nas quadras a partir de agora. Basta aquilo que ele apresentou no pouco tempo em que esteve saudável o bastante para competir em alto nível. Mas é impossível não ficar triste com sua aposentadoria. Que se dane a história, seu papel na cultura chinesa, seu legado para o mercado, a camiseta dele que eu comprei aqui no Brasil. O que realmente importa é outra coisa: o Yao jogou basquete a vida inteira, ama o basquete, e é o que ele sabe fazer de melhor. Nunca é legal, não importa qual tenha sido seu papel na história, ser obrigado a parar de fazer aquilo que você ama.

É por isso que recebi com alegria os relatos de que sua recuperação havia sido fantástica. Ele voltou a treinar novamente, recebeu um lugar garantido na equipe para essa temporada e não sentia mais nenhum rastro da lesão. Era possível imaginar que o Yao seria uma versão bizarra do Ilgauskas, que também sofreu lesões similares e que nunca mais foi estrela em quadra, se movimenta como se estivesse correndo dentro de uma piscina, mas consegue ajudar e muito qualquer equipe em que estiver com seus arremessos. Mas quanto nos aproximamos do começo da temporada, surgiu a notícia de que os minutos de Yao Ming seriam limitados a 24 por partida, no máximo. Não porque ele estivesse fora de ritmo, preocupado com a lesão ou cansado dos trabalhos nas férias, mas sim porque finalmente os médicos de Houston foram capazes de enxergar a verdade: um ser humano não deveria correr de um lado para o outro por 82 partidas inteiras por temporada tendo 2,29m de altura. Nenhuma estrutura óssea foi concebida para essas proporções.

É claro que tentamos esconder essa verdade. Queremos que os jogadores corram, se esforcem, joguem com garra e potência, alcancem um aro colocado lá no alto, e nos entretenham enquanto fazem isso por 82 vezes em um ano, fora os playoffs. Poucos corpos podem suportar esse tipo de coisa, independente de sua altura. No caso de Yao, isso é ainda mais terrível. Rapidamente os 24 minutos por partida mostraram que não seriam suficientes para salvar sua carreira e a lesão combatida por mais de um ano voltou novamente. Essa é, então, uma despedida final - e eu não vou ter nenhuma vergonha de ficar brega nela, combinado?

Com Yao jogando minutos limitados, meu Houston Rockets não iria muito longe na NBA, provavelmente chegaria aos playoffs mas não teria reais chances de título. Yao sabia disso e reclamava constantemente da limitação, queria ficar mais em quadra, sabia que podia render mais se ficasse mais tempo em jogo - e o time, como já comentei aqui, pararia de sofrer com uma terrível falta de padrão de jogo. Pelo modo como estava jogando, realmente poderia levar o time nas costas se tivesse mais oportunidades. Mas seu fisico não permitiria e sabotou novamente sua temporada na primeira oportunidade. Yao não queria ser o Ilgauskas, queria quebrar o limite de minutos, não queria ficar mofando no banco. Como ele será capaz de lidar, então, com uma aposentadoria inevitável?

"Eu não morri", foi sua resposta. "Nesse momento estou bebendo uma cerveja e comendo frango frito. O que vocês estava esperando, um funeral?"

Seu contrato termina nessa temporada e nenhuma equipe lhe dará milhões apenas para frequentar o departamento médico. Mesmo que ele ainda sonhasse com mais minutos, que ele quisesse mais oportunidades, sua aposentadoria será praticamente forçada. No entanto, não há nenhum funeral. Yao já havia dito que o mais importante é que ele pudesse levar uma vida saudável fora das quadras, brincar com sua filha, sair com sua esposa. Sim, ele tem uma filha. É claro que quando se sente saudável a história é outra, ele quer entrar em quadra e produzir mais e mais, mas não lhe falta a consciência de que o basquete está em segundo plano frente à saúde necessária para seguir uma vida normal. Yao agora é um homem casado, com um filhinha que não tem nem 1 aninho ainda, e construiu uma vida fora das quadras. É triste que ele não possa jogar basquete, ele se esforçará para voltar, mas durante todos esses anos de carreira ele construiu uma vida adulta na qual pode se escorar.

O Houston Rockets não é bobo nem nada. Sabe que Yao tem uma das personalidades mais cativantes da NBA nas últimas décadas e conhece bem os lados positivos de ser bem visto pelo mercado chinês (que compra qualquer coisa com a marca do Rockets, até tênis do Shane Battier ou do cocô do Rafer Alston), então já avisou que manterá Yao por perto. Ele pode até ter seu contrato renovado por uma ninharia só pra estar no banco, mas deve mesmo é virar assistente técnico, auxiliar, engravatado, burocrata, garoto da água, qualquer coisa que exista ao redor do basquete. A vida continua, e Yao teve a sorte de ter sido capaz de construir uma vida por entre as frestas que a NBA permite a seus funcionários que nunca descansam.

Não podemos dizer o mesmo de todos os jogadores, no entanto. Greg Oden, por exemplo, sofre com lesões desde seu primeiro minuto na NBA e não teve tempo de construir coisa nenhuma. Assim como Blake Griffin, Oden não jogou uma única partida sequer em sua primeira temporada, então estreiou como novato apenas em seu segundo ano de NBA. O Blake Griffin voltou voando, pulando até a Lua para dar uma passeada, mas o Oden voltou com muitas dificuldades. Primeiro pelo físico, com o joelho que ainda incomodava. E depois pela sua personalidade, tão insegura dentro e fora das quadras. Ainda no hospital depois de sua primeira cirurgia no joelho, Greg Oden pediu desculpas em prantos para o dono do Blazers, prometendo que ele não se arrependeria de tê-lo draftado. Oden tem medo de não conseguir ser aquilo que esperavam dele, tem medo de não levar ao campeonato um time que só precisava dele para ter chances reais de título. Admitiu que as críticas lhe comiam o cérebro, e que as reações da torcida de Portland lhe tiravam completamente a cabeça do jogo. Quando começou a pegar confiança devagarinho, se contundiu de novo. E de novo. Esperava voltar às quadras nessa temporada mas constantemente viu as previsões sendo adiadas, até que teve que fazer nova cirurgia e perderá toda essa temporada. Não será, como no caso do Yao, uma impossibilidade de sua estrutura física? Mas Oden tenta ao máximo escapar dessa teoria:

"Me perguntam bastante: você acha que seu corpo simplesmente não foi feito pra isso, ou você é só azarado? Mas tem que ser que eu sou só azarado."

Greg Oden se agarra como pode ao azar, e fico feliz que seja assim. Afinal, nos últimos anos sua tendência foi sentir-se culpado, como se ele tivesse algum controle sobre as lesões que sofre. As pessoas criticaram tanto o coitado por não conseguir ficar saudável que ele começou a acreditar que era um merda e responsável pelo que acontecia com ele. Procurou uma série de especialistas para saber se fazia algo errado, se seu corpo era mal formado, se havia alguma questão óssea. No final, o único especialista que o ajudou foi um psicólogo, alguém para lhe explicar que um garoto de sua idade não deveria lidar com esse tipo de culpa ou pressão. Agora ele acha apenas que é azarado e vai continuar se reabilitando até que seu corpo desista de ficar lhe puxando o tapete. Mas a pergunta é: e se o corpo dele continuar se desintegrando?

Greg Oden tem apenas 22 anos. Não tem uma vida formada e nem fez nada relevante na NBA. Não receberá ofertas para cargos técnicos ou executivos, e nem tem um povo que lhe apoia incondicionalmente. Não tem muitos amigos, está sempre isolado dos seus companheiros de equipe porque treina em separado, e não tem nada no que se segurar caso não possa mais jogar basquete. Enquanto isso, o Blazers simplesmente se esfarela embaixo dos seus pés, porque o time reuniu talento demais, jovem demais, e a falta de um grande pivô podou as chances reais da equipe nos playoffs antes que os egos se chocassem. Agora, os jogadores do Blazers querem mais dinheiro, mais minutos, mais arremessos, mais a bola nas mãos, e parece que a chance de ganhar um anel com esse elenco se perdeu nas lesões do Greg Oden.  O grupo virou um barril de pólvora e o Oden continua lá se sentindo o pior dos mortais, o homem em que se colocou todas as fichas e não conseguiu sequer entrar em quadra. É tipo o Kwame Brown, mas ao invés de feder, foi o corpo que lhe deixou na mão - o que pode ser ainda mais frustrante.

Se já é injusto o tipo de ódio e agressividade que o Kwame recebe por ser ruim, ignorando todas as suas questões psicológicas e as dificuldades que passou na vida, o tipo de coisa que se diz sobre jogadores que estão constantemente lesionados é mais injusta ainda. Como se o Oden, ou o Yao, ou qualquer um, preferissem andar de muleta do que estar chutando traseiros nas quadras. Eu sei que, nos minutos que teve, o Greg Oden não era nenhum gênio e cometia uma falta toda vez que tentava coçar o nariz, mas não temos sequer como imaginar como ele seria se tivesse um pouco de tranquilidade, padrão de jogo e consistência de minutos. Talvez fedesse, talvez fosse uma estrela, sei lá. As exigências físicas da NBA não permitirão que possamos ter um julgamento sobre o pobre do Greg Oden.

Só sei que a NBA seria mais divertida com Yao Ming e Greg Oden. Finalmente vemos a retomada do jogo de garrafão na NBA, com uma nova e habilidosa geração de pivôs chutando traseiros todas as noites, mas Oden e Yao apenas acrescentariam a esse grupo. As lesões não apenas retiram das quadras jogadores divertidíssimos de acompanhar, elas também limitam jogadores que continuam competindo. Estrelas jovens como Brandon Roy e Tyreke Evans já estão caindo aos pedaços, e já não consigo lembrar qual foi a última vez que Kobe Bryant entrou em quadra completamente saudável. Mesmo os que continuam atuando em alto nível estão baleados, como o Kobe e seu dedo que daqui a pouco vai desistir dele e transformar o Kobe no Lula. Eu, como fã, estou disposto a diminuir o número de jogos de uma temporada para poder ver mais jogadores capazes de jogar com todas as suas forças, mais gente saudável no ápice de sua forma física, e mais jogadores que de outra forma abandonarão as quadras. O espetáculo agradeceria o menor número de jogos em uma temporada ao ver Yao Ming e Oden se enfrentando, e um Kobe saudável marcando 81 pontos numa partida. E, se deixarmos o espetáculo de lado e notarmos que os jogadores são pessoas, gente comum com dores e medos e vidas dedicadas a um esporte que lhes toma todo o tempo, a redução do tamanho da temporada é ainda mais urgente.

Já levantamos aqui a questão de um novo modo de estrutura salarial para a NBA, em que o jogador seria pago por minutos jogados e que leva os técnicos a colocarem sempre seus melhores em quadra, independente de quem sejam, e cada jogador receberia por sua importância na equipe. O Denis acabou de levantar a questão sobre a diminuição do número de times na Liga, o que aumentaria a qualidade das equipes restantes. Lavantemos também, já que estamos nessa utopia inofensiva, uma temporada de NBA em que todos os times se enfrentassem apenas duas vezes, em regime de ida e volta. Seriam 58 partidas por temporada, com mais tempo para descanso e sem as temíveis partidas em dias seguidos que o Denis já apresentou com detalhes. Às vezes, é preciso repensar toda uma estrutura que parece funcionar porque algumas coisas dentro dela não funcionam. Temos jogos demais, não há como questionar esse verdade.

A falta de Yao Ming me enche de tristeza, e nem quero discutir suas qualidades técnicas com os odiadores por aí. Só acho importante direcionar o ódio por esses jogadores constantemente lesionados para o lugar certo. Greg Oden diz que as pessoas lhe olham com raiva e perguntam, indignadas, se ele está lesionado "outra vez". Sim, ele está, e não pode controlar. Essa agressividade idiota deveria se voltar para o exagero no calendário do esporte que amamos, e que o torna cada vez mais e mais desfalcado, diluído, porque insistimos em colocar cada vez mais água no feijão.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Preview – 2010-11 / Portland Trail Blazers


Brandon Roy entrega seu filho para adoção


Objetivo máximo: Final de conferência
Não seria estranho: Perder na primeira rodada de novo
Desastre: Ficar fora dos playoffs

Forças: Jogadores bons em todas as posições e forte banco de reservas
Fraqueza: Inúmeras contusões. Há anos não jogam com o time completo.

Elenco:

Portland Trail Blazers
Titulares
Reservas
Resto
PG
Andre Miller
Jerry Bayless
Patrick Mills
SG
Brandon Roy
Wes Matthews
Rudy Fernandez
SF
Nicolas Batum
Luke Babbitt*
Dante Cunningham
PF
LaMarcus Aldridge
Jeff Pendegraph
C
Greg Oden
Marcus Camby
Joel Pryzbilla

...
Técnico: Nate McMillan

Como descobrimos no último post, a maior parte dos nossos leitores tem entre 20 e 24 anos. Foi no mesmo ano que os mais velhos desse grupo nasceram que Nate McMillan foi draftado pelo falecido Seattle Supersonics. Sua carreira não foi espetacular, mas marcou os torcedores locais, que chamavam de Big Mac o trio que ele fazia com Xavier McDaniel e Derrick McKey. Logo depois da sua aposentadoria, 12 anos depois do draft, já virou assistente técnico e, em 2001-02, técnico principal até 2005. Seus 19 anos de serviços ao time renderam o apelido que ainda persiste de Mr. Sonic.

Foi como técnico em Seattle que ele conseguiu o maior feito de sua carreira. Em 2005 comandou o elenco mais limitado que já vi chegar em uma semi-final de conferência. Perderam em 6 jogos (e o jogo 6 foi decidido no último segundo) para o futuro campeão San Antonio Spurs. O forte do time estava nas posições 2 e 3 com Ray Allen e Rashard Lewis, máquinas de três pontos, mas tinha como armador principal Luke Ridnour, o homem que não defende, e o garrafão era uma piada: o agarrador de bolas Reggie Evans e o cara que é mais gordo que Eddy Curry e Zach Randolph juntos depois da feijoada, Jerome James. Os dois estavam em ano de contrato e jogaram uma defesa forte e suja que era a marca do time.

Aproveitando o embalo, McMillan surpreendeu a todos e pela primeira vez na carreira serviu a outro time na NBA, justamente o rival local do Sonics, o Blazers. Após disso o Sonics desabou de qualidade e seus jogadores aos poucos foram saindo (Jerome James ganhou na loteria ao ir para o Knicks por uma fortuna, Evans foi para o Nuggets e Rashard Lewis virou o Bill Gates da NBA com seu contrato com o Magic) Alguns torcedores do Sonics se sentiram traídos e a saída foi um pouco polêmica, mas ele foi bem recebido em Portland, onde era visto como o cara que levaria o jovem time a algum lugar depois dos anos do Jail Blazers. Nos últimos anos tem feito um bom trabalho, o time melhorou um pouco a cada ano e só no ano passado caiu de nível, mas mais pelas contusões do que por qualquer outra coisa. O próprio McMillan se machucou quando corria em um treino no começo da temporada passada!

Ele na verdade deve receber créditos por fazer o time funcionar mesmo com Jeff Pendegraph e Juwan Howard no time titular. McMillan é bom em tirar o melhor de seus jogadores: sabia usar bem a dupla Sergio Rodriguez e Rudy Fernandez quando os dois estavam por lá, sempre viu o potencial da defesa de Nicolas Batum e conseguiu achar um jeito de introduzir o fominha Jerryd Bayless na rotação sem estragar o conjunto da equipe. Não é um estrategista ou um gênio da motivação, mas é um dos bons técnicos da NBA. Não custa lembrar que ele também fazia parte da comissão técnica campeã olímpica em 2008 com Mike Kryzewski e Mike D’Antoni.

.....

Há anos que a gente sempre baba ovo nas offseasons do Blazers. Eles sempre pareciam não perder nada de mais e ganhar jogadores espetaculares. Mas em compensação durante a temporada tinham resultados abaixo do esperado. Não é que jogavam mal, longe disso, mas é que a expectativa era sempre a de um time forte que pudesse ir longe nos playoffs, não um time remendado que perde na primeira rodada.

O motivo desse desempenho bom mas abaixo do esperado pra mim é um só: contusões. E não estou pensando só no Greg Oden que perde a temporada inteira, mas das pequenas contusões que tiram LaMarcus Aldridge por uma semana, Brandon Roy por um mês, Rudy Fernandez por 10 dias, etc, etc, etc. Com esses problemas o McMillan está sempre improvisando. Lembram no ano passado dele usando o Juwan Howard de pivô ou o Jerryd Bayless de armador principal titular? Coisas que ele nunca faria numa situação normal. Aposto que o McMillan preferiria usar o Luke Ridnour com uma mão amarrada nas costas como armador ao invés do Bayless. Por isso ao invés de achar que o Blazers jogou abaixo do esperado nas últimas duas temporadas eu prefiro dizer que nunca vimos de verdade o que aquele time poderia ter feito.

Para essa temporada, algumas mudanças importantes. Primeiro no comando do time, o General Manager Kevin Pritchard, o responsável pela criação de todo esse elenco, foi demitido uma hora antes do Draft 2010 começar e fez nesse dia suas últimas movimentações. Pois é, vai entender essa cartolagem da NBA! Há anos ele é considerado o melhor e mais criativo GM da liga e aí chutam o cara no dia em que ele tem mais trabalho no ano.

Depois, no elenco, perderam Martell Webster numa troca com o Wolves e Rudy Fernandez ainda continua dando piti e dizendo que ou é trocado para um time que o use como titular ou volta para a Europa. Frescura e bichisse de moleque mimado. Nunca jogou com regularidade o bastante para ser titular e não é com showzinhos como esse que outros times irão fazer loucuras para tê-lo no time. Várias equipes se mostraram interessadas, como Knicks, Celtics e Bulls, mas ninguém quis correr o risco de dar uma de Spurs com o grego Vassilis Spanoulis. Há alguns anos o Spurs mandou os direitos de Luis Scola para o Houston para ter o insatisfeito Spanoulis, o grego decidiu que voltaria para a Europa mesmo assim e o Spurs ficou de mãos abanando, enfrentando o Scola quatro vezes por temporada enquanto usavam o Antonio McDyess no time titular.

A perda de Webster eu não acho que será tão sentida. O Luke Babbitt tem tudo para ser o melhor ou um dos melhores arremessadores de três dessa classe de novatos e só precisa acertar as bolas de longe para fazer qualquer torcedor achar que Webster é só mais um dicionário.

Já com o espanhol a sua ausência vai ser sentida só por aqueles torcedores que não entendem muito de basquete e querem ver enterradas, dribles e contra-ataque fulminantes, as especialidades de Rudy. Para o seu lugar, na reserva de Brandon Roy, foi contratado a peso de ouro (ou de uns 900kg de ouro) Wesley Matthews. Na temporada passada ele surpreendeu todo mundo ao ser um jogador que passou em branco pelo draft, ganhou um contrato mínimo de um ano e poucos meses depois era titular do Utah Jazz. Um ano depois é o jogador mais bem pago da classe de novatos do ano passado, com seu novo contrato está fazendo mais grana que Tyreke Evans, Blake Griffin ou Brandon Jennings. Matthews é ótimo defensor, tem um arremesso confiável de três pontos (38% na temporada passada) e logo no seu primeiro treino com o novo time recebeu trocentos elogios pela sua inteligência dentro de quadra. E acredite, se você é inteligente, sabe se movimentar e está no mesmo time que Andre Miller, vai se dar muito bem.

Como o time dessa temporada está montado e nenhuma troca é necessária até o próximo ano, não vai ser agora que eles vão sentir falta de Pritchard. Com Matthews e Babbitt também acho bem possível que Rudy e Webster não sejam lembrados. Nicolas Batum como titular também não deve fazer feio, muito pelo contrário, acho mais provável vê-lo recebendo votos de jogador que mais evoluiu na temporada. Portanto, eles simplesmente voltam à posição do ano passado: com um ótimo elenco e bom técnico, será que conseguem ficar inteiros?

Eu já não espero mais que Greg Oden seja o melhor pivô defensivo da NBA e justifique ter sido escolhido antes do Kevin Durant, nem penso mais nisso. Sinceramente só espero que ele vire um jogador de basquete. Quero ver ele jogar mais de 70 jogos em uma temporada e está ótimo. Se jogar mal, paciência, vira reserva do Marcus Camby, mas que jogue, esse time não suporta mais tanta gente com pequenas, médias ou grandes contusões. É ridículo, um ano depois da polêmica contratação, não poder ter uma opinião totalmente formada sobre se a combinação Andre Miller e Brandon Roy funciona bem. Tudo porque Roy perdeu muitos jogos e jogou outros tantos baleado no último ano. Se Oden jogar o tempo inteiro e as pequenas contusões não assombrarem o time de novo, poderemos, finalmente, ser capazes de ver não só as reais chances do Blazers, mas também seus reais problemas.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O Clippers é o Clippers

Camby ri por saber que vai voltar a vencer jogos

A data-limite para trocas na NBA é amanhã, dia 18 de fevereiro, mas algumas trocas já começaram a rolar. A primeira foi a do Caron Butler para o Mavericks que o Danilo comentou ontem, logo depois aconteceu mais uma, o Clippers mandou Marcus Camby para o Portland Trail Blazers em troca de Steve Blake, Travis Outlaw e, dizem, 3 milhões de dólares.

Minha primeira reação foi de ter visto uma ótima troca. O Blazers deve ser o time que mais precisa de um pivô atualmente, afinal perderam Vovô Oden, Pryzbilla, e estão usando o Juwan Howard, que tinha idade pra ser pai do Mutombo, de pivô titular. Como li sabiamente aí pela internet (não lembro onde!), "eu não confiaria a defesa do meu time ao Juwan Howard de ala de força em 1997, que dirá de pivô em 2010". Isso mostra o desespero do Blazers atrás de um cara que possa segurar a barra lá entre os grandes.

Do outro lado, o Clippers não precisava mais do Camby. Eles já tem no Chris Kaman um excelente pivô, para a temporada que vem vão ter o Blake Griffin como seu parceiro de garrafão e no banco ainda tem o jovem e cada vez mais promissor DeAndre Jordan, que faz grandes jogos sempre que tem chance. Dar tempo de quadra pra ele era importante demais para o Clippers! Mas não é porque o time não precisa mais que ele iria sair de graça, então trocaram por Blake e Outlaw.

Achei, a princípio, o Blake uma ótima aquisição. Sabe organizar o jogo, é aplicado taticamente e arremessa bem, ou seja, tudo o que o Baron Davis não está fazendo nessa temporada. Eu responsabilizo o armador do Clippers como maior culpado pela temporada miserável da equipe, ele não tem jogado metade do que sabe e ainda tem que ficar em quadra porque mesmo ruim é dez vezes melhor que o Telfair. Já o Travis Outlaw é um aprendiz de Kobe no que diz respeito a treino. Não para de treinar, já disse ser apaixonado pelo seu próprio arremesso que pratica à exaustão, quer sempre melhorar todos os aspectos do seu jogo e sonha em um dia ser uma estrela. Por isso mesmo às vezes peca por não tocar muito a bola, mas está sempre em evolução e no Blazers era o Sr.Quarto Período, sempre resolvendo os jogos mesmo com o Brandon Roy em quadra. Pensei ser o cara ideal para o Clippers, um dos times que mais entrega a rapadura no fim dos jogos.

Mas como já disse outras vezes, o Clippers não tem a maldição de ter jogadores e times ruins, a maldição deles é dar esperança pra depois, quando ela estiver lá em cima, destruir tudo com força.

Fui conferir os contratos de Steve Blake e Travis Outlaw e descobri que ambos, assim como Camby, tem o contrato expirando ao fim dessa temporada. Serão Free Agents daqui alguns meses e, claro, irão preferir qualquer outro time com um histórico mais decente a ficar no Clippers. E com a contusão do Travis Outlaw é bem capaz que ele termine a temporada ainda na enfermaria e acabe sua carreira no Clippers sem ter jogado um jogo sequer. Em outras palavras, o Clippers trocou o Marcus Camby, um baita pivô, raridade na NBA atual, dias antes da data-limite, por meia temporada do Steve Blake e muito dinheiro. Ou ainda em outras palavras, trocou uma chance de crescer por grana. Será que não dava pra passar mais alguns dias conversando com outros times para conseguir coisa melhor?

Isso é muito Clippers. Se o Camby não é mais útil em um time que não tem chances na temporada e o Blazers precisa dele, por que não conseguir escolhas de draft no processo? Por que não envolver algum dos promissores e baratos reservas do Blazers como Jeff Pendegraph ou Dante Cunningham? Ou por que não forçou o Blazers a pegar também alguns dos contratos que o Clippers diz tanto que quer se livrar, como o do Al Thornton?

Levando em consideração as mesmas coisas dá pra dizer que o Blazers conseguiu mais uma vez uma ótima troca. Perdeu, na prática, um de seus vários armadores reservas por um pivô titular, só. Eu sou o fã número 1 do Steve Blake depois da mãe dele, digo isso desde o tempo dele no Nuggets, mas é fato que o Blazers com Andre Miller, Jerryd Bayless e Brandon Roy não precisa desesperadamente do Blake pra levar a armação da equipe. E o Outlaw, fora até o fim da temporada e Free Agent depois disso, poderia acabar sem jogar mais no Blazers mesmo.

O Camby não vai fazer milagre em Portland, não será o responsável por parar Gasol, Bynum, Nenê, Kenyon Martin e Nowitzki nos playoffs, mas estamos falando de um time que está na zona de playoff apesar de ser o quarto pior time da liga em rebotes defensivos, o segundo pior em número de rebotes dos adversários e o quinto pior em tocos por jogo. Apesar de não ser um ótimo defensor no mano a mano como alguns acreditam, ele irá ajudar em tudo isso que o time fede e vai fazer com que o garrafão do Blazers deixe de ser uma passarela para bandejas adversárias. Também não dá pra esquecer que o Camby é um cara muito esforçado, mesmo no que ele não é bom ele se esforça para não ser ridículo, não vi até hoje um técnico que tenha trabalhado com ele e que tenha reclamado de ter o pivô no time.

Pra completar o desastre ainda falaram que o Marcus Camby ficou sabendo da troca por meio do seu agente, não pelo general manager do time, Mike Dunleavy, no meio do jantar do time que acontecia, por coincidência, em Portland, onde o Clippers tomou uma sova ontem. O Camby se disse decepcionado porque não foi avisado ou questionado e que realmente tinha esperanças de assinar um novo contrato com o Clippers na temporada que vem, já que diz gostar da organização (ou gostava até ontem, pelo menos) e que estava feliz que sua família estava gostando de Los Angeles.

Depois dessas trocas o Clippers tem, garantidos, 39 milhões de dólares em contratos para a próxima temporada. Se o teto salarial ficar parecido com o desse ano (dizem que deve cair um pouco e os jogadores até estão ameaçando greve por isso) o time terá pouco mais de 15 milhões para distribuir entre novos jogadores. Falta saber apenas que doidos vão topar ir para o primo pobre de LA depois de mais uma temporada desastrosa.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Show da Virada no Bola Presa

Começa o Show da Virada no Bola Presa! Todo mundo de branco? Todo mundo bêbado? Todo mundo afim de ouvir música ruim gravada em novembro com gente fingindo que é ano novo pra Globo? Simbora pro show!

Com vocês, Beyoncé Gallinari cantando "Halo" para abrir a noite!


Agora Louis Amundson, Alando Tucker e Shaquille O'Neal mandam bala no rap, seguidos de Goran Dragic cantando o tema de "Great American Hero" (imortalizada pelo genial George Costanza) e pra fechar Robin Lopez canta o tema da série "Cheers".




Continuando o show da virada, um clássico, Ron Artest canta Celine Dion. "My Heart Will Go On", tema de Titanic:


Cantando "It's gonna be me" do N'Sync, o cara com mais tempo para treinar canto na NBA, Greg Oden.


Que tal um autêntico gangsta rap francês com o meu camarada Tony P?



Fechando o nosso Show da Virada, Joe Johnson homenageia a personalidade de 2009, Michael Jackson. Vai lá JJ!


...
Eu e o Danilo vamos viajar (não juntos, não somos um casal!) e voltamos só no dia 4. Até lá só vai ter post se um de nós conseguir internet e for muito workaholic, o que é possível mas pouco provável. Boa virada de ano pra todo mundo e até daqui alguns dias!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Tente outra vez

Greg Oden mostra sua famosa técnica de se contundir no joelho


Quando vimos Greg Oden ser draftado aos 19 anos, sabíamos pelas rugas em seu rosto que ele na verdade tinha uns 82 anos e iria se aposentar em breve. Se ele durasse alguns anos, seria o bastante para o time forrado de pirralhos do Blazers amadurecer um pouco e tentar ganhar um ou dois anéis de campeão. Nem seria necessário ele ser um grande jogador, bastaria que ele quebrasse um bom galho, principalmente defensivamente, e ele já seria capaz de se aposentar tendo feito parte de um time memorável, de garotos que se tornaram homens, um processo de renovação que levou o Blazers do fedor completo à real disputa por um título.

O que ninguém esperava é que, na verdade, o Oden fosse o "Jimmy Bolha". O mundo aqui fora é muito perigoso para ele, que precisa permanecer toda sua vida fechado dentro de uma bolha para tentar se manter saudável. No mundo exterior ele tem poucas chances de sobreviver, só se ferra - e atravessa o país causando um monte de confusões.

O histórico de lesões do Oden comprova essa teoria. No seu único ano de basquete universitário, jogou o tempo inteiro com uma lesão na mão direita que o obrigava a arremessar lances livres com a canhota. Muita gente achou que isso foi benéfico para o próprio Oden, porque mostrou como ele era capaz de jogar muitíssimo bem ainda que lesionado, além de fazer propaganda do seu talento com as duas mãos. Mas após ser draftado com a primeira escolha do draft, Greg Oden contundiu o joelho ao tentar (olha que bizarro!) levantar do seu sofá, ainda em casa. Tem gente que jura de pé junto que ele na verdade se machucou dançando "Dance Dance Revolution" num daqueles tapetes de dança, o que eu prefiro acreditar porque é menos ridículo do que se arrebentar saindo do sofá, parece coisa do Eddy Curry, que corre o risco de romper um tendão tentando ir ao banheiro depois de tantos anos comendo lasanha na cama.

A cirurgia para reparar o joelho tirou o Oden de toda a sua temporada de novato, mas muita gente também achou que no fundo foi uma coisa boa: o time aprendeu a jogar sem ele, amadureceu bastante, conseguiu ser levado a sério, e passou a esperar o Oden numa boa, que assim conseguiu voltar com menos pressão e tendo que jogar menos minutos. A situação também mostrou o caráter do jovem pivô, que pediu desculpas às lagrimas para seu técnico e para o dono do Blazers por deixar o time na mão antes sequer de poder entrar em quadra. Satisfeitos com a mostra de dedicação do rapaz, confiaram plenamente que ele voltaria com toda vontade possível.

E voltou. Mas perdeu 20 jogos na sua temporada de estreia com mais uma lesão no joelho. Ao invés de questionarem se o produto era paraguaio, no entanto, passaram a se preocupar com o excesso de faltas cometidas quando ele de fato estava em quadra. Toda vez que um chinês vota no Yao Ming para o All-Star, o Greg Oden comete uma falta - o que significa que ele acaba passando a maior parte do seu tempo no banco de reservas. Se analizássemos a carreira do Oden num daqueles gráficos pizza, O Eddy Curry comeria esse gráfico, mas antes disso perceberíamos que o Oden passou a maior parte do tempo contundido e a outra maior parte no banco por excesso de faltas. A menor fatia da pizza, que não daria nem pra encher o buraquinho do dente, representaria o tempo que ele jogou basquete pra valer - minutos raros mas que mostram, realmente, que o talento do Oden é real. Quando está em jogo e não acerta ninguém com uma cotovelada acidental, desiquilibra o jogo defensivamente. No ataque, é habilidoso com as duas mãos e finaliza com força no garrafão.

Foi assim que, para a temporada de agora, todo mundo ficou esperando que ele aprendesse a cometer menos faltas, não que fosse mais saudável. A lesão na mão ajudou sua ambidestria, a lesão no joelho ajudou o time a amadurecer, a segunda lesão no joelho lhe deu tempo para se acostumar melhor com os critérios de falta da NBA. Quando se trata do Greg Oden, parece que se cair um piano na cabeça dele vão dizer que foi bom para melhorar seu ouvido musical. Uma hora alguém vai acabar percebendo que ele não precisa de um bom treinador, precisa é de um bom plano de saúde (e de um creminho anti-rugas, vai).

Nessa temporada, fiquei bem confuso a respeito de seu amadurecimento defensivo. Em algumas partidas, mostrou ter sacado direitinho que na NBA é mais importante atrapalhar o arremesso do que gerar contato de verdade, principalmente quando se é um novato e todos os juízes do planeta vão preferir marcar uma falta em você quando o Kobe se aproxima de um raio de dois quilômetros de uma cesta. Contra o Houston, por exemplo, vi o Oden dominar o garrafão defensivo e obrigar a equipe inteira a ficar arremessando de três, como se todo mundo do Rockets fosse o Rasheed Wallace e tivesse fobia de chegar perto do aro. Mas em outros jogos, vi o Oden parecer o mesmo fedelho afoito de sempre, indo atrás do toco, do contato, todo estabanado e ingênuo, com cara de quem acreditaria que o filho da Mari Alexandre é dele mesmo. As atuações foram bem mistas, sem um critério que pudesse indicar evolução. Ofensivamente, no entanto, pude notar uma melhora constante, uma noção cada vez melhor de posicionamento. O problema é que, como qualquer ser humano mamífero e bípede, ele depende um tanto de ritmo: quando consegue passar vários minutos em quadra, vai participando do ataque e produz mais e mais, mas quando sai de quadra rapidamente por cometer faltas em excesso, não consegue acertar arremessos nem que a vaca tussa.

Mas não deu pra acompanhar essa saga do Greg Oden aprendendo a não matar os jogadores adversários de porrada por muito tempo, afinal ele está fora de sua bolha e portanto fadado a virar farofa. Contra o Houston (parece que eles já se enfrentaram umas oito vezes nessa temporada, já enjoei de ver o Blazers jogar), o Oden se contundiu mais uma vez. Em notícia igualmente chocante, a Vivi Fernandes não é virgem.



Como dá pra ver no vídeo, o contato com o Aaron Brooks foi mínimo. Já vi mais contato físico do que isso em partida de tênis, quando duas tenistas trocam beijinhos depois da partida. Mas a queda desiquilibrada do Oden foi o bastante para o joelho virar poeira outra vez, ele ter que apelar para a faca de novo, e perder essa temporada inteira. É a terceira lesão nos joelhos em três anos, e a segunda vez que ele perde a temporada toda. No maior esquema "tente outra vez", é bem claro que ele vai tentar dar uma de Ronaldo e voltar mais uma vez, e mais uma vez, e mais uma vez, até que perceba que não precisa se esforçar tanto e se contente em jogar bem gordo. Novamente chorando, Greg Oden pediu perdão para seu técnico e até para Brandon Roy, quando foi visitado pela estrela do Blazers. A reação de todo mundo é a mesma: essas coisas acontecem, não tem como prever, e portanto não faz sentido se desculpar. O Oden é um cara legal, preocupado, esforçado, suou as pitangas para recuperar a forma física nas últimas férias, e vai fazer tudo de novo. A torcida reconhece o esforço e sabe que essas coisas são aleatórias, simples acaso. Com ele ainda no chão, esperando a chegada da maca, os torcedores que lotavam o ginásio de Portland começaram a gritar seu nome.

É bom saber que os engravatados, os jogadores, os torcedores, seus técnicos, todo mundo apoia o garoto, admira sua dedicação e esforço, sua vontade de estar saudável, e entende que basta estar vivo para que merdas aconteçam. Mas quanto tempo mais esse Blazers pode se dar ao luxo de ficar dependendo de sorte ou azar? O elenco montado é simplesmente profundo e talentoso demais, e nessa temporada já foi bastante complicado tentar arrumar minutos - e dinheiro - para todo mundo. O jovem Jarryd Bayless, por exemplo, acabou perdendo na disputa do palitinho e terminou no final do banco da equipe, jogando apenas os minutos finais dos jogos já decididos. Rudy Fernandez já reclamou de seu papel na equipe publicamente, assim como o Travis Outlaw, que sempre quer arremessar mais. Martell Webster acabou de voltar de contusão e recuperou seu espaço no time. Andre Miller veio do Sixers querendo ser titular, e de tanto chorar até conseguiu a vaga e um pirulito de groselha, mas a alegria não durou muito e ele já voltou pro banco. O que veremos, em breve, é essa quantidade surreal de talento exigindo mais tempo de quadra, mais arremessos, vaga de titular, e contratos maiores e mais gordos. A reconstrução do Blazers foi excelente, exemplo pra qualquer time do planeta, mas o número de anos que dá pra segurar todo mundo junto é limitado. Quando a equipe dá sinais de que vai crescer e brigar com os grandes, é preciso uma subida vertiginosa que prove para todos que se trata de um projeto de verdade, com chances de título, e que merece que todo mundo se mantenha modesto com relação a minutos e a dinheiro, senão todo mundo foge achando que vai ser valorizado e receber a atenção que merece num time "de verdade". Ou seja, basta as coisas darem errado um par de vezes e os descontentes vão debandar em busca de contratos melhores em outros lugares. Não dá pra segurar muita gente muito barata por muito tempo.

Essa temporada já foi pelo ralo. A não ser que o pó de pirlimpimpim do Houston Rockets seja emprestado para o Blazers, a equipe de Portland não vai conseguir sobreviver sem o Greg Oden, sem o Nick Batum (que fez uma cirurgia no ombro no começo da temporada) e sem o Travis Outlaw (que acabou de quebrar o pé), todos peças fundamentais da equipe. O negócio por lá anda tão ruim que até o técnico Nate McMillan rompeu um tendão num treino e vai pra mesa de cirurgia, tudo enquanto o dono da equipe luta contra o câncer. Novela mexicana das boas.

O Blazers virou rapidamente o segundo time de todo mundo, a pirralhada que qualquer um gosta de acompanhar ganhando barba na cara e chutando os traseiros dos times grandes. Mas é possível que, em breve, eles passem do ponto e comecem a desmanchar se não houver uma evolução clara no elenco e as peças fundamentais não ficarem saudáveis. O Greg Oden é um cara bacana, seria legal de ir tomar um café, ele se esforça pra burro e quando está em quadra é exatamente do que o time precisa, mas já estamos chegando no momento de olhar arrependido para o draft e pensar que, com outro jogador escolhido em seu lugar, esse Blazers já estaria chegando mais longe e aproveitando, enquanto é tempo, essa quantidade enorme de jogadores jovens e baratos. Imaginem só como seria esse time com o Brandon Roy armando para o Kevin Durant, por exemplo. Mas se o negócio for continuar apostando no garrafão, até uns jogadores mais secundários estariam fazendo um belo de um estrago: que tal Al Horford garantindo os rebotes, ou Joakim Noah dando uma força na defesa? Todos eles seriam melhores do que ver o Greg Oden fazendo um estrago no próprio joelho, né?

O Blazers começa a entrar numa corrida contra o tempo, e talvez não valha a pena contar com o Oden. Será que dá pra ganhar qualquer coisa com o Przybilla no garrafão? Em algum lugar, o Greg Oden deve estar nesse momento pedindo desculpas, que são inteiramente aceitas. Mas e daqui há 10 anos, será ele o novo Sam Bowie (o cara draftado antes do Jordan que sumiu pelo excesso de lesões)? Ou o novo Yao Ming (que dominou enquanto os osso deixaram)? Infelizmente, parece que suas lesões não permitirão que ele dure muito tempo - exatamente como a idade no seu rosto indicava. Uma carreira curta, como a vida útil desse Blazers que vemos hoje.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Rápido no gatilho

Se você não chorou com a primeira bola
ao alto da temporada, não tem coração



Finalmente começou mais uma temporada da NBA, com quatro jogos na primeira rodada ontem e a gente aqui curtindo como se tivéssemos 4 anos de idade e fosse véspera de Natal com a Alinne Moraes de Mamãe Noel (se você quer acompanhar também, dê uma olhada em nosso post sobre como assistir aos jogos na TV e na internet). A empolgação é tão grande que nosso Twitter fervilhou de comentários durante as partidas e eu não vejo a hora de poder começar a fazer previsões. Não deveria começar ainda porque os primeiros jogos não valem muita coisa, os times ainda estão se acostumando com os novos elencos, pegando o jeito da coisa, e qualquer comentário ou palpite agora é precipitado e desnecessário. Mas sabe de uma coisa? Com um sabor subversivo na boca, típico de quem acorda de madrugada para abrir os presentes de Natal antes da hora, vou listar todas as minhas impressões precipitadas, apressadas e desnecessárias sobre as equipes que jogaram ontem. Para quê esperar se a gente pode errar agora mesmo? Não é como se eu fosse esperar para opinar com mais cautela e fosse acertar alguma coisa mesmo...

- O Ron Artest se encaixou no esquema dos triângulos do Lakers de um jeito bastante diferente do Trevor Ariza, o que vai exigir um tempo para todo mundo acostumar. Se a gente lembrar que em seu primeiro jogo com a equipe, quando tinha acabado de ser trocado no meio da temporada, Ariza parecia que já tinha jogado com o técnico Phil Jackson a vida inteira, o encaixe do Artest parece ainda mais complicado. No Houston, que colocou em prática ontem o esquema "corra pela sua vida", o Ariza tem muito mais dificuldade de criar o próprio arremesso do que o Artest tinha, e mal conseguiu pontuar. Ou seja, os dois times deveriam destrocar de jogadores imediatamente!

- O Greg Oden cometeu 5 faltas, é verdade, mas passou 26 minutos em quadra - uns 20 minutos a mais do que ele costumava passar porque cometia faltas quando coçava o nariz. Ele ainda faz um monte de besteira, de perder a bola a ficar parado olhando com cara de babaca, mas é notável o cuidado muito maior que ele está tendo em seus movimentos defensivos para não descer a marretada em ninguém. Simplesmente estar presente em quadra já muda bastante a postura defensiva do Blazers, então é bom sinal para a equipe o amadurecimento do Oden nesse sentido. Para aqueles que duvidam do nosso vovô favorito, podem ficar tranquilos!

- A campanha "Gilbert Arenas com média de 10 assistências por jogo" continua em bom caminho. Foram 9 no primeiro jogo, e isso sem deixar de ser o cestinha da equipe. Um leitor nosso perguntou se ele dá primeiro 10 assistências pra se livrar logo e depois volta a arremessar como um maluco, do jeito que ele gosta. Mas o bizarro é que o Arenas está muito mais controlado e inteligente em quadra, vai ser um dos líderes da NBA em assistências numa boa (pode muito bem ser o grande líder ao fim da temporada) e tudo isso enquanto o Wizards fica lá no topo do Leste.

- O mundo que me desculpe, mas continuar colocando o Mavs como um dos favoritos da Conferência Oeste é tipo acreditar na virgindade da Sandy: a gente sabe que não rola, mas tem gente que prefere fingir que é real para ter alguma esperança na humanidade. O Shawn Marion faz o trabalho sujo, mas milagre não tem.

- O Rockets vai ser o time mais asqueroso de se assistir em toda a NBA, vou ter que ver todas as partidas num banheiro porque vai dar até diarreia. Mas isso não quer dizer que a equipe não vai dar certo, ganhando uma quantidade considerável de jogos. Sem pivô, o Houston usa o Chuck Hayes na posição, um cara chato que fica desviando passes, cutucando, caindo, trombando, tornando o jogo uma grande luta de sumô de anões (ontem o Greg Oden perdeu a paciência com o nanico do Hayes torrando o seu saco). E com o garrafão mequetrefe o time acaba ficando na linha de três pontos, onde as coisas não costumam ser muito boas para a equipe. Vários times vão acabar perdendo para a correria, para a profundidade da equipe (todo mundo é carregador de piano e especialista em alguma coisa), mas não vai dar pra levar a sério e nem ter estômago de assistir, até o Bucks vai ser mais divertido.

- O Celtics é bom demais, todo mundo que disse que eles não vão ser campeões esse ano tem memória curta. Eles levam o Leste esse ano numa boa, mas é claro que para escrever isso eu me esqueci do Magic. Vai ver que meu cérebro só pode lembrar de uma dessas equipes de cada vez, é uma lei da física. E por falar nisso, achei que existia uma lei da física que impedisse Shaq e Ilgauskas de ficarem em quadra ao mesmo tempo, mas não, o gênio do técnico Mike Brown deixou os dois juntos um tempão. Que tal a experiência? Uma dica: fedeu.

- O LeBron James vai ser o melhor jogador de defesa do ano. Todo mundo percebeu nos playoffs que o Dwight Howard não é grande defensor coisa nenhuma, ele apenas pega rebotes e distribui tocos geralmente nos jogadores que ele não está marcando. Mas tudo bem, é um erro comum, em geral o prêmio acaba indo para quem parece jogar bem na defesa mas no fundo não é tudo isso. E é justamente por isso que o LeBron vai ganhar, ele está empolgado, distribuindo tocos a torto e a direito (já deu uma passadinha no nosso Tumblr hoje para ver os dois tocos do LeBron ontem?) e destruindo nas suas ajudas defensivas e roubando bolas cortando as linhas de passe. Não precisa nem marcar o homem dele, ninguém vai perceber até o prêmio já ter sido entregue.

- O circo do Clippers parece dar sinais de que pode dar certo. Os jogadores sempre pareceram uma mistura aleatória mas agora dá pra ver que é talento demais junto para não funcionar pelo menos um pouquinho. Sinal de que o Clippers daria certo: a maldição teve que contundir o Blake Griffin porque senão era capaz deles ganharem do Lakers.


Primeira noite de jogos e já arrisco campeão do Leste, prêmio de melhor defensor, líder de assistências, time mais feio, e o sucesso do Greg Oden. Pressa? Coragem? Burrice? Provavelmente um pouco de tudo. Se algum palpite te ofendeu, no entanto, não se preocupe. Hoje a noite tem mais uma rodada de jogos e posso mudar completamente de opinião sobre tudo. Não é divertido? Ah, que saudade da NBA...

sábado, 10 de outubro de 2009

Pré-Temporada é pelada

-Você tinha que ter pedido foul antes, porra!


Três coisas que são sempre importantes de ressaltar: 1. A Alinne Moraes tá gatinha demais na novela nova

2. Beijar ex-namorada de amigo só com autorização prévia por escrito ou escondido
3. Pré-temporada é pelada. Rachão com os amigos!



Estou me divertindo demais com a pré-temporada, é legal demais ter qualquer tipo de jogo de NBA depois de tanto tempo de abstinência, mesmo jogos pouco disputados e cheios de reservas. Mas devo admitir, é como aquele pão velho com fandangos que parece gostoso só porque faz 8 horas que você tá parado no carro no trânsito. Pré-temporada é rachão, é pelada levada um pouquinho mais a sério.


Se você duvida, eu provo isso quase que cientificamente. Busquei 10 características típicas do rachão e vou tentar encontrar elas na pré-temporada para determinar o quanto da pré-temporada é pelada e o quanto é jogo sério.

Em toda pelada...

1. o jogo não importa mas vencer importa
2. alguém esquece o placar do jogo e dá briga
3. tem briga
4. tem um mané ruim querendo se mostrar
5. um cara muito bom não joga tudo o que sabe para não correr risco de passar vergonha
6. aparece um cara que você nunca viu na vida
7. o jogo fica chato quando todo mundo cansa
8. acontece uma contusão bizarra por causa do cansaço
9. tem revisionismo histórico
10. não tem juiz e nem técnico


Agora analisemos essa cadeia hereditária para acabar com essa situação precária:

1. o jogo não importa mas vencer importa
Jogo de pelada não vale pra campeonato algum, nem o da pré-temporada. A derrota não vai ficar te perseguindo para o resto do campeonato, sendo aquele número que faz falta no final. Mas na hora do jogo todo mundo esquece isso e joga pra valer. Quer prova melhor do que o jogo em Taipei que a ESPN transmitiu? Como o jogo não valia nada o Denver jogou desinteressado e tomou um sarrafo do Pacers, mas no fim do jogo, com o placar já batendo os 130 pontos, a televisão não parava de mostrar o banco do Nuggets infestado de caras de bunda. Perder incomoda.
Nível de pelada: Alto

2. alguém esquece o placar e dá briga
Se você já jogou um 21 uma vez na vida sabe que isso acontece o tempo todo. Na sua cabeça o jogo tá 12 a 12, pro seu companheiro de time tá 12 a 10 e pro adversário tá 19 a 12. Sempre pra ele, claro. Aí começa a recontagem egoísta: "Eu fiz duas cestas e um lance livre, o resto eu não sei", "eu fiz sete bandejas e todos os lances livres", "Eu enterrei de costas enquanto ninguém estava olhando e apertei a bunda daquela gostosa". Um questiona o placar, o nerd calcula quanto dá 7 bandejas e o outro diz que a gostosa é sua namorada. Vai dar briga.

Na pré-temporada da NBA a coisa foi um pouco mais fina. No jogo entre Bucks e Pistons o Ilyasova sofreu uma falta e cobrou dois lances livres, depois de mais de um minuto de jogo os juízes reviram a jogada e decidiram que o arremesso era de três, então bora o turco arremessar mais um. Aí o Pistons foi vencer no grito lembrando de uma regra que diz que o limite para a correção é de 24 segundos e assim o ponto foi retirado. Um bom episódio para lembrar que em pelada sempre tem o cara que ganha todas no grito.
Nível de pelada: gritante

3. tem briga
Está para nascer o sociólogo capaz de explicar porque o basquete causa tantas brigas. Todo esporte tem briga, todo ramo da nossa sociedade contemporânea tem briga, mas o basquete ganha de todos. Qualquer maldita pelada tem uma falta mais forte que vira pancadaria. Por que não podemos ser como o futebol onde existe apenas o bom e velho bate boca com a testa grudada? Tão mais fino...

A pré-temporada já teve até dois caras suspensos. A ninfeta Jonas Jerebeko e o zumbi Jamal Magloire entraram numa briga logo no primeiro jogo, com direito a soco na cara e tudo, e foram suspensos por dois jogos da temporada de verdade. O novatão sueco do Pistons já disse que com ele não tem essa história de baixar a cabeça por ser novato, se provocou ele vai reagir. A câmera não pegou mas logo depois ele mijou na quadra para marcar território.

Aliás, a câmera não pegou nada. No maior estilo LeBron James, a NBA sumiu com os vídeos da briga rapidinho.
Nível de pelada: violento

4. tem um mané ruim querendo se mostrar
Um clássico do basquete de rua, o falso-craque. Ele tem pose de basqueteiro, a roupa, a ginga, mas é um pedaço de carne disforme e imprestável. Tem um arremesso que faz o Shawn Marion dar risada e mesmo assim faz questão de chutar toda vez que a bola chega na sua mão. Dribla na velocidade do Yao Ming e quer passar no meio do time inteiro. E pior, quando ele joga a bola pro alto e ela cai na cesta ele sai gingando e balançando a cabeça como se fosse o dono da quadra.

Por sorte na NBA não chegam caras tão ruins assim, mas os Damon Jones da vida estão aí para provar que o espírito do falso-craque está em todo lugar. Na pré-temporada os falsos-craques desfilam por aí achando que é a chance deles se consagrarem, os caras se animam e tentam roubar o show das verdadeiras estrelas. Aí vemos espetáculos como o Alex Ajinca e o Daniel Gibson como jogadores que mais arremessaram em um jogo.
Nível de pelada: Moderado mas não modesto

5. um cara muito bom não joga tudo o que sabe para não correr risco de passar vergonha
Outro personagem das quadras de rua do submundo do basquete. Todo mundo sabe que ele é "federado", que enterra passando a bola embaixo da perna e já jogou entre os profissionais, mas chega na hora do jogo e ele só da jumper de meia distância, bandeja e ao invés de correr, trota.
Não precisa ser um gênio pra perceber que ele faz isso pra se poupar de possível humilhação. Imagina ele ir com tudo pra enterrada e errar, ou pior, tomar toco. Ou perder na corrida para um pivete folgado? Nem pensar. Melhor fazer tudo sem esforço e pagar de gostosão que só se cansa quando a ocasião merece.

Em seus últimos jogos o LeBron fez 11 pontos e o Kobe 15. Precisa falar mais que isso? Pagar de gostosão e não fazer nada é a coisa mais pré-temporada de todas.
Nível de pelada: Extravagante

6. aparece um cara que você nunca viu na vida
Tá lá na quadra você, o cabelo, o bigode, o montanha, o alemão, o Rafael Mindoretti, o potranca e o pentelho. O pessoal de sempre que bate uma bolinha e reveza no time que enfrenta os camaradas do Jardim Satélite. Eis que então surge um cara que ninguém nunca viu na quadra, na rua, na fazenda e nem na casinha de sapê (até porque você não sabe o que é isso). No dia seguinte o cara não aparece e some do mapa.

Se você não reconhecer os nomes a seguir é porque isso é muito pré-temporada: Luke Nevill, Dontell Jefferson, Brandon Bowman, Vincent Grier.
Nível de pelada: Desconhecido

7. o jogo fica chato quando todo mundo cansa
Isso é típico de pelada que não tem time de próximo. São sempre os mesmos neguinhos na quadra e depois que já passou a fase da empolgação, de posições definidas e de contar o placar vocês só estão jogando por jogar, a arte pela arte. Nesse momento tem arremesso quase do meio da quadra, ninguém nem pensa em dar toco e puxar contra-ataque é motivo de xingamento.

Na pré-temporada o pessoal tem um preparo físico um pouco melhor que o nosso, já que a mãe deles não deve fazer um feijão tão bom, e então eles correm mais. Mas mesmo assim no fim dos jogos tá todo mundo querendo ir logo pra casa postar no Twitter e tá pouco se fodendo pra partida. Não são poucos os últimos períodos de fazer você pensar em desistir de tudo e fazer algo um pouco mais legal, como depilar a virilha ou ver um jogo de baseball.
Nível de pelada: Extenuante

8. acontece uma contusão bizarra por causa do cansaço
Por culpa do feijão da mamãe, do doce da vovó, da cerveja dos amigos e nunca sua, você e todo mundo vão jogar uma pelada completamente fora de forma. O saldo de cada partida são línguas mordidas, cãimbra em músculos que você não conhecia e pisão do amigo gordo na unha encravada do dedão. Pelada é o lugar pra contusões bizarras e não pro bom e velho joelho esfarelado dos profissionais.

Só no jogo do Cavs contra o Bobcats o Jamario Moon não entrou em quadra porque tirou o dente do siso e o desconhecido Daniel Green foi listado com "dores nos glúteos". Nos glúteos! Foi um eufemismo para "está deprê porque tomou um pé na bunda"?
Nível de pelada: Baixo, bem baixo.

9. tem revisionismo histórico (termo emprestado do genial Basketbawful)
Tava lá você com seu amigo jogando num dia qualquer e ele faz uma bandeja para fechar o jogo, 21 a 14, parabéns. No dia seguinte, na hora do almoço com outros colegas, você descobre que na mente do seu amigo o jogo estava 19 a 19 e ele fez uma bandeja de mão esquerda sobre três marcadores enquanto caía para trás e tomava um soco nas costas. A torcida vai ao delírio.
Não tem jeito, somos mentirosos e queremos parecer grandes astros da NBA nem que precisemos de mentiras cabeludas para isso. Ao invés de corrigir seu amigo apenas diga que o passe, picado e com efeito, foi seu.

Isso não é culpa dos jogadores, mas sim dos blogueiros, torcedores e da imprensa. Um joguinho mais ou menos na pré-temporada vira, para esse grupo de idiotas, uma prova irrefutável de que o cara finalmente está pronto para brilhar na NBA e será um All-Star já nesse ano. Só lembrar do desempenho impressionante do Greg Oden na pré-temporada passada e de como nós do Bola Presa ficamos babando ovo em cima do cara.
Nível de pelada: Histórico

10. não tem juiz e nem técnico
Pelada com juiz não daria certo. Alguns minutos depois o juiz estaria morto, ligando o carro pra ir embora ou entrando no time sem camisa. Na pelada toda falta é resolvida no grito, é o que fazemos para nos sentir mais homens. Técnico nem pensar! Se eu não puder ser fominha e brincar de pivô com 1,70m na pelada, eu vou fazer isso onde?

Juiz, mesmo sendo um bando de substituto que marca 90 lances livres por jogo, e técnicos, os únicos que levam tudo isso a sério, existem na pré-temporada, não tem como escapar.
Nível de pelada: Inexistente

Agora, com a nossa ajuda, está provado cientificamente: pré-temporada é pelada com juiz e técnico. Em breve tem post pagando pau pro Greg Oden de novo.

sábado, 25 de julho de 2009

O Blazers acerta de novo

- Olha mãe, sem olhar!

A gente até que é um blog bem puxa-saco do Portland Trail Blazers se você levar em consideração que nenhum dos que aqui escrevem torce para o time. Mas tem um explicação lógica: faz tempo que eles acertam bem mais do que erram e estão formando um time cada vez mais forte temporada atrás de temporada.

A última aquisição da equipe foi o armador mais old school da NBA, Andre Miller, que não ficou nada feliz ao receber uma proposta de apenas um ano para continuar no Sixers e topou um contrato de 3 anos (e 21 milhões de verdinhas) com o Blazers. Esse contrato de 7 milhões por temporada tem ainda o detalhe de o Blazers ter a opção de dispensar o último ano de contrato se quiser, o chamado "Team Option".

Não é o contrato dos sonhos para o Miller, que disse que queria pelo menos 10 milhões por temporada. Mas convenhamos que era um sonho distante esse. Quantos times estão por aí desesperados atrás de um armador? Alguns dos poucos que tinham deficiência nessa posição conseguiram boas promessas num draft recheado de armadores. Não é a toa que o Bulls está tentando trocar o Kirk Hinrich faz tempo (desde que descobriram que o Rose é mil vezes melhor que ele) e não conseguem.

O Knicks, um dos poucos times dispostos a investir e com necessidade de armador, não quer nem ouvir falar de contratos grandes nessa temporada. A chegada do Andre Miller seria ótima nesse ano mas já pensou se atrapalha a vinda do LeBron no ano que vem? Deusmelivre!

Percebendo que o mercado não estava a seu favor, o Andre Miller fez o melhor negócio possível. Ele ganha um bom salário (dá pra comprar vários números de telefone com tanto dinheiro ) e é titular num time forte e promissor. Com o limbo em que o Jazz vive por não sabermos se trocam mesmo o Boozer e por quem, e considerando a zica do Rockets, colocaria o Blazers hoje como quarta força do Oeste atrás de Nuggets, Spurs e Lakers e perto do Mavs já antes da chegada do Miller. Com ele por lá eles são quartos e com chance de passar alguém no caminho.

Na temporada passada o Blazer usou o Steve Blake como armador titular. Eu sou fã dele desde a sua passagem pelo Denver e acho que ele até dava conta do recado por lá. Mas apesar de bom, acho que a melhor definição sobre ele foi dada na revista Dime, que disse que o Blake "deixará de ser um dos piores armadores titulares para ser um dos melhores reservas da NBA". Acho que é bem isso, ele vivia nesse meio termo que não passava confiança total como titular e é bom demais para o nível padrão dos reservas.

Melhor que o Steve Blake o Andre Miller sem dúvida é na organização do jogo, na paciência e na hora de arriscar. O Blake é meio burocrático às vezes. Bom na hora de não cometer desperdícios de bola, ruim quando você precisa furar defesas bem montadas. Aqueles arremessos de meia distância do Miller, que eu não chamo de "jumper" porque ele não pula pra arremessar, são devastadores e costumam abrir bom espaço na defesa adversária.

Também é importante ressaltar que o Andre Miller se destacou no Sixers, que era um time que vivia de contra-ataques. Vivia mesmo. Sem os ataques em velocidade, iam acabar com uns 10 pontos por jogo, dados de favor pelo outro time. O Blazers, com Roy e Rudy Fernandez, são também ótimos em contra-ataques e ganham um ótimo parceiro para se tornarem um time mais completo.

No que o time perde muito é nas bolas de 3. O Blake tem ótimos 42% de aproveitamento nos arremessos de longe, o Miller tem 28% e isso porque costuma chutar só quando está livre! Uma solução para o time é usar na posição 3 alguém que bote as bolas de longe lá dentro. Pode ser o Nicolas Batum, que tem bom aproveitamento mas chuta muito pouco, ou até mesmo a eterna promessa Martell Webster, que perdeu boa parte da temporada passada machucado.

Mas mais importante que tudo isso é que o técnico Nate McMillan não confiava muito no Steve Blake nos momentos decisivos dos jogos. No fim das partidas costumávamos ver o Brandon Roy como armador principal e o Rudy Fernandez na posição 2.
Acho o Roy bem parecido com o Dwyane Wade. Não é que eles não dêem conta do recado como armadores principais, tem talento e visão de jogo pra isso, mas rendem tão mais quando tem um armador bom do lado pra ajudar que é um pecado usar eles na posição 1. Por isso acho que o Roy com a liberdade de jogar um pouco mais sem a bola nos quartos finais significará uma melhora ainda maior em um time que já decide jogos muito bem.

O Andre Miller, para alguns críticos que não devem fazer sexo faz tempo, não foi uma grande contratação porque já está velho. Ele realmente tem 33 anos, mas seu estilo de jogo é tão antigão e tão baseado na inteligência e não no físico que eu vejo ele jogando até os 40 anos numa boa. Sem contar que ele tem hoje a maior marca de jogos consecutivos na NBA, 530, sem nenhum histórico de contusões. Perdeu apenas 3 jogos nas últimas 10 temporadas.

Um lado pouco abordado é o quanto o Andre Miller pode ajudar o Greg Oden. Embora já tenha sido noticiado que o Blazers disse diretamente ao Oden (que tem cara de vô do Andre Miller) que querem que ele foque seu jogo completamente nos rebotes e na defesa, será um belo incômodo ter um pivozão zerando em pontos num jogo. E depois de anos fazendo aquela negação ofensiva do Dalembert fazer seus pontinhos em enterradas fáceis e pontes-aéreas, não deve ser muito pior fazer o Oden funcionar decentemente no ataque.

O Dalembert teve média de 7 pontos na temporada passada e 10 na anterior. Se o Oden desenvolver um ganchinho simples ou apenas conseguir se posicionar bem para algumas bandejas e enterradas, o Andre Miller, somado com as infiltrações do Roy, garantem uns 12 pontos por jogo pro Oden. A não ser que ele esteja no banco com o joelho fodido ou com 6 faltas, claro.

A única crítica que tinha para fazer do Blazers nos últimos tempos tinha sido a troca do Sergio Rodriguez para o Kings. Isso nos privou de dezenas de pontes aéreas lindas com o Rudy que apareceriam no Top 10 da semana, mas com a contratação de um armador top de linha como o Andre Miller a troca está mais que perdoada.

Engraçado que o Andre Miller era a terceira opção do Blazers. Antes eles tentaram, e ficaram bem próximos de conseguir, o Hedo Turkoglu e o Paul Millsap, dois excelentes jogadores mas que não eram tão necessários para o time como era conseguir um armador, além de serem mais caros. Até nos fracassos e tentativas frustradas o Blazers está acertando.

Uma outra curiosidade sobre a contratação do Miller é que é basicamente o primeiro grande reforço do time vindo como Free Agent. Roy, Webster, Bayless, Aldridge, Oden, Batum e Outlaw vieram todos em draft. É um raro exemplo de time que deu certo montado em escolhas de draft e que agora ganha o reforço de um veterano que acredita que a pivetada tem tudo pra dar certo.

...
Outra contratação confirmada é a do Jamario Moon pelo Cleveland Cavaliers. O Heat decidiu não manter o ala e com isso ele deixa o banco do Cavs ainda mais forte. O Moon é outro cara do estilo Steve Blake. Com defeitos demais pra ser titular mas um bom cara pra ajudar no banco.

Se considerarmos o time titular do Cavs com Mo Williams, Delonte West, LeBron James, Anderson Varejão e Shaq, o banco já tem Anthony Parker, Jamario Moon e Zydrunas Ilgauskas, além do promissor JJ Hickson, que deve aparecer pra valer nessa temporada. É um puta banco de reserva para um time que mantém a base do time da temporada passada, que já era muito bom. E eles só perderam o Pavlovic e o Ben Wallace, que a essa altura do campeonato valem menos do que meia dúzia de biscoitos maizena. Timaço!

terça-feira, 30 de junho de 2009

O peso

Yao Ming de terno, imagem já gravada em minha retina, se
despede de McGrady e Mutombo: os três viraram farofa


Em 2002, Bulls e Warriors tinham 22,5% de chance cada um de ter a primeira escolha daquele draft. O Houston Rockets tinha apenas 8,9% e, ainda assim, foi agraciado com o resultado das bolinhas da Tele Sena da NBA (que não tem seus resultados anunciados de hora em hora): ficou com o direito à primeira escolha e ganhou uma chance de começar de novo mesmo já tendo um elenco razoável. Com aquela escolha, o Houston Rockets adquiriu o pivô chinês Yao Ming.

Um grupo de especialistas, composto de americanos e chineses, formou-se para decidir cada passo do pivô. Toda ação era analisada em seu impacto cultural e econômico. Enquanto eu aguardava desesperado a chegada de Yao pra salvar meu Rockets ainda na pré-temporada, o chinês defendia a seleção de seu país conforme o grupo de especialistas havia decretado ser mais correto. Imediatamente me pareceu evidente que draftar Yao Ming não era como escolher um carinha qualquer no draft, vindo de uma universidade americana e com um cortador de grama na garagem. Havia um peso enorme, um grupo de velhos que decidia seu destino (parece coisa de desenho japonês), uma cultura, um plano, uma responsabilidade: draftar Yao era draftar toda a China.

Já escrevi sobre os boatos de que o Yao nasceu para as Olimpíadas, e também fiz um post mais sério sobre o papel do pivô no evento e a tentativa de mostrar que a China é um país como qualquer outro. Esse fardo veio de brinde na noite do draft, quando o chinês colocou aquele boné mequetrefe do Houston que mal cabia em sua cabeça: ao invés de um simples pivô, draftaram um homem com uma missão.

Não quero dizer que ele seja um espião comunista, ou que tivesse uma lista de objetivos políticos a cumprir após sua chegada na NBA. Sua função era silenciosa e, por vezes, creio que nem o próprio Yao Ming era capaz de compreendê-la em toda sua extensão ou magnitude: sua simples presença em território americano, levantando o meu Houston Rockets, já era o suficiente para que sua missão acontecesse. Mais do que aproximar duas culturas distintas, Yao Ming teve a responsabilidade calada de fundí-las, aniquilando ao máximo as diferenças, decepando a China.

Usando um exemplo do Lévi-Strauss (o antropólogo, que não tem nada a ver com a marca de calças jeans), culturas diferentes são como trens indo cada uma para um lado. Dentro do trem de nossa cultura, podemos olhar pela janela e ver com mais clareza os trens que estão próximos, que caminham na mesma direção, com velocidades parecidas. Os trens que estão muito longe, ou indo para direções brutalmente diferentes, não passam de uma mancha difícil de compreender e que nos incomoda por perturbar a paisagem. Por muito tempo, a cultura americana e a chinesa foram trens indo para lugares opostos, impedindo que seus passageiros olhassem de um trem para o outro. Recentemente, a China tenta não apenas ser um trem perceptível, mas ser efetivamente o trem americano. As diferenças culturais praticamente não são mais perceptíveis, não restou nada que não seja simples detalhe, hot-dog de cachorro. E o auge desse acontecimento reside nas mãos de Yao Ming e das Olimpíadas de Beijing.

Para nós, Yao era apenas um pivô lento e incapaz de mostrar emoções em quadra. Não gritava, não comemorava, não enterrava, quase como o chato do Duncan mas com uma diferença crucial: quando cometia algum erro, Yao demonstrava na face o peso da vergonha, abaixava a cabeça e corria tristemente para o outro lado da quadra. Começou muito mal sua carreira na NBA, com atuações sofríveis e um nítido despreparo físico. Chineses são tímidos, recatados, respeitosos, baixos e fracos, dizia o esteriótipo. Yao então começou a ter atuações mais sólidas e passou a levar a sério os duelos pessoais com Shaquille O'Neal. Enquanto milhões de chineses acordavam mais cedo para assistir aos seus jogos, Yao aprendia a dominar o garrafão, gritar com seus companheiros, provocar adversários e falar palavrão. O ídolo chinês ia perdendo, dia a dia, aos olhos de seu povo, os modos de sua cultura. Gradualmente, de modo que ninguém fosse capaz de perceber. Quando voltou a jogar pela seleção chinesa, já exigia aos gritos mais comprometimento de seus companheiros. Junto com os novos valores e trejeitos, Yao injetava auto-estima numa seleção e num povo. Quando a China acabou as Olimpíadas como líder absoluto no quadra de medalhas, o projeto se deu por completo: eles aprenderam que podem vencer.

Rapidamente, logo depois da primeira temporada, o Houston Rockets mudou as cores e os uniformes para representar uma nova fase sob o comando do pivô chinês. O vermelho-china da camiseta, de repente, não parecia acidental. O uniforme vendeu aos montes na terra do Yao, ao lado de Big Macs e tênis de basquete made in China com comerciais em mandarim usando T-Mac, Shaq e até Shane Battier e Damon Jones como garotos-propaganda. Enquanto isso, peguei um dos meus primeiros salários suados e fui comprar uma camiseta do Yao Ming de aniversário pra mim mesmo (meio autista?), que tenho e ostento orgulhoso até hoje. A extensão do que a NBA e o Yao representam avança mundo afora, e a prova foram as verdinhas que eu gastei no uniforme vermelho mesmo vivendo aqui na terra da caipirinha. Com isso, o Houston, a NBA e o David Stern encheram as orelhas de dinheiro, a China varreu as diferenças culturais para baixo do tapete, e um processo cultural longo viu sua cartada final acontecer dentro de quadras de basquete. Um tanto curioso pra quem acha que esporte é imbecilizante.

A condição de ídolo do Yao, essencial para todo esse fenômeno, só funcionaria se ele fosse realmente um grande jogador. Até hoje tem gente achando que ele nunca foi, exagerando suas falhas e exigindo ridiculamente que ele domine o jogo de basquete só porque tem 2,29m de altura (sem compreender que, mais do que uma vantagem, sua altura sempre lhe foi um problema). Os chineses acordavam de manhã para ver seu ídolo jogar porque Yao chutou traseiros, dominou partidas e nunca deixou de evoluir. Sempre foi um grande pivô em uma era sem pivôs, mas nunca foi muito bem aceito justamente pelo que lhe restava de "culturalmente chinês". Por não atacar o aro, não ser físico e nem agressivo, foi duramente criticado. A cultura americana e todos os outros trens andando mais ou menos na mesma direção e velocidade repudiaram esses traços culturais chineses, e Yao fez a mesma coisa que a China: aos poucos, ao invés de negar os valores alheios, foi negando seus próprios. Na busca por força, vitória e aceitação, tanto Yao quanto seu país foram perdendo suas identidades. Esse contato com o "outro" é sempre muito perigoso: por comparação, pode ressaltar aquilo que nos forma e que nos faz diferentes, mas também pode aniquilar as diferenças e devorar por completo a criatividade e a autonomia.

Yao Ming sempre esteve nesse impasse, sem saber se era chinês ou americano, sem saber que valores representar ou entregar a seu povo. Nunca deixou de falar bem de seu país ou de cumprir suas obrigações patrióticas, mas era cada vez menos chinês diariamente nas partidas da NBA que toda a população da China assistia. Todo mundo sabe, não adianta dizer uma coisa e fazer outra, as pessoas estão assistindo e serão guiadas pela ação, não pela fala. Yao cumpriu seu papel nas Olimpíadas dando credibilidade a uma seleção muito da fajuta, mas na verdade suas ações fora da seleção eram mais importantes: imerso na cultura americana, gritando em quadra, foi às Olimpíadas encontrar justamente uma China que tentava esconder suas diferenças aos olhos do mundo. Deu certo: agora, os povos podem dar as mãos, celebrar felizes as similariedades recém-descobertas como irmãos separados no berço em novela da Globo, e juntos comprar e vender os mesmos produtos. Trocentos chineses agoram usam Nike, e você?

Em quadra pelo Houston Rockets, Yao sempre levou nos ombros uma pressão maior do que podia carregar. Num limbo entre os Estados Unidos e a China, com obrigações em seu país e no seu time da NBA, tentando agradar todo mundo, observado por bilhões, modelo para toda uma cultura sem saber onde se encaixa na cultura que adentrou, Yao sempre foi cobrado em excesso e se cobrou em excesso como resposta. Uns acham que ele fede e que na verdade foi apenas um produto da mídia, enquanto eu acho que justamente por estar tão exposto à mídia - tente imaginar ser assistido por toda uma cultura em dissolução - é que não percebemos como o Yao realmente chutou traseiros. Mesmo que os resultados nunca tenham vindo.

Não vieram em parte porque o peso que o Yao sempre teve que carregar não é apenas metafórico: com 2,29m de altura e mais de 140 quilos, é humanamente impossível ser capaz de aguentar os rigores de uma temporada de 82 jogos (que, a gente nunca cansa de dizer aqui no Bola Presa, é insana e mais longa do que a existência da Praça é Nossa, daria pra ser menos da metade!). A carreira de Yao, então, foi sempre uma tentativa de lidar da melhor forma possível com as limitações do esqueleto humano, ou seja, com as contusões inevitáveis para alguém de suas proporções físicas.

Depois das primeiras temporadas, quando a pressão de jogar pelo Rockets e pela seleção chinesa não lhe permitiram tempo para descanso, as contusões viraram festa. Na temporada 2005-06, Yao perdeu 21 jogos com uma infecção num dedo lesionado. Depois, quando havia voltado às quadras, quebrou o pé esquerdo e perdeu os últimos 4 jogos da temporada. Na temporada 2006-07, quebrou a perna direita e perdeu 32 jogos. Em 2007-08, foram 26 jogos perdidos com uma fratura por estresse no pé esquerdo. Ainda assim, conseguiu participar das Olimpíadas e depois, sem muito descanso, voltou para a NBA. Perdeu apenas 5 jogos na temporada regular, com uma simples pancada no joelho, o que parecia um milagre, mas no terceiro jogo contra o Lakers, na segunda rodada dos playoffs, Yao fraturou de novo o pé esquerdo. Fica difícil cobrar qualquer resultado quando estamos lidando com alguém que quebra ossos enquanto coça o nariz ou vai ao banheiro, é pior que o Greg Oden que perdeu a temporada se contundindo ao levantar do sofá. Quando Tracy McGrady chegou ao Houston, finalmente teria um companheiro à altura para passar da primeira rodada dos playoffs, mas a verdade é que tanto Yao quanto T-Mac foram arrasados por contusões e nunca conseguiram jogar como poderiam. Em 5 temporadas no Houston, T-Mac só jogou com Yao em 220 partidas. Ganharam 146 e perderam 74, o que é um aproveitamento bem razoável, mas praticamente nunca estiveram na mesma quadra ao mesmo tempo. Patético, parece o tipo de coisa que só aconteceria com o Clippers.

A fratura do Yao na série contra o Lakers pareceu simples, a princípio, porque o chinês estava sem dores, andando normalmente, e dizendo que parecia uma contusão bem mais tranquila do que a fratura anterior, que quase lhe tirara das Olimpíadas. Mas o tratamento não teve as respostas desejadas e, agora, já se fala numa fratura problemática que tirará Yao de toda a próxima temporada e, talvez, encerre de vez sua carreira. Creio que ele tentará voltar às quadras e conseguirá, até porque não sente dores apesar da gravidade da lesão, mas provavelmente nunca será mais o mesmo. Sabemos que as fraturas são cada vez mais frequentes e preocupantes, sua perna já tem mais pinos do que partida de boliche, e não será possível usar o pivô por muitos minutos, fazendo com que seja relegado a uma posição bem secundária. Sua carreira agora não reserva grandes avanços ou promessas, apenas uma silenciosa aceitação de que seu papel na NBA parece estar se finalizando. Para o Houston, a notícia é terrível porque a equipe estará sem qualquer pivô para a próxima temporada e Tracy McGrady, que fez uma preocupante operação no joelho, deve perder no mínimo metade da temporada que vem. Vai dar trabalho convencer Ron Artest a ficar e tapar todos os buracos que surgem a cada segundo no elenco.

Mas a missão de Yao Ming parece completa. Como ele mesmo afirmou, após as Olimpíadas a sensação era de um vazio digno do dever derradeiro quando se vê terminado. Mesmo quando ele se aposentar, torcedores chineses continuarão acordando cedo para assistir às partidas do Houston Rockets. Comprarão os produtos da NBA numa cultura que foi assimilada brutalmente. Agora, eles fazem defitivamente parte de nós. Yao Ming, infelizmente, terá que descansar segurando mais esse peso. Ainda que aposentado, terá que vislumbrar a obra que, sem querer, ajudou a criar. Para ele, não há sono tranquilo: uma vida inteira com um fardo maior do que qualquer um poderia carregar.