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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Contra uma maldição


- Eu juro tacar a bola pra cima.
- Eu juro enterrar a bola, então.

Quem acompanha a NBA há pouco tempo nem imagina que o Los Angeles Clippers seja a franquia mais amaldiçoada da liga, mas quem é velho de guerra sabe que o Clippers foi fundado em cima de um cemitério indígena e usa a expressão "que Clippers" para designar qualquer coisa que deu muito errado sem nenhum motivo aparente. Guardou a chave direitinho no bolso e ela sumiu mesmo assim? Deixou o bolo o tempo certo no forno e ele virou carvão? Puxa, que Clippers!

Basta voltarmos um pouco ao passado recente da equipe para vermos o festival de horrores. São falhas de planejamento, escolhas táticas ruins, mas tem também muito azar puro e simples: escolhas de draft que pareciam geniais e foram horríveis, contusões sérias que terminaram carreiras, times talentosos que não se entrosaram, e uma caralhada de jogadores que simplesmente fugiram da equipe assim que tiveram chance.
Michael Olowokandi, escolhido em 1998, foi sem sombra de dúvidas a pior primeira escolha de um draft na história da humanidade. Se você acha que o Kwame Brown fede, então lembre que ao menos o Kwame continua arranjando emprego na NBA enquanto o Olowokandi coça o saco em casa. Já Shaun Livingston, que foi a quarta escolha do draft de 2004, era genial mas teve o joelho desmontado como se fosse construído com peças de Lego, e tudo numa jogada completamente banal. Dá pra ver o lance no vídeo abaixo, mas primeiro tire as crianças da sala:



O próprio Blake Griffin, que é uma das sensações da NBA e tem tudo para ganhar o campeonato mundial de seres humanos, não jogou toda sua primeira temporada de NBA graças a uma lesão adquirida numa jogada fantástica antes da temporada começar. Acabou fazendo sua estreia como novato apenas um ano depois, na temporada 2010-11. Já que o Griffin era a salvação da franquia, a maldição do Clippers deu um jeito de adiá-la ao menos por um ano com a lesão que acontece no vídeo abaixo:



Ao menos o Griffin é uma salvação que deu certo, apesar do susto da lesão inicial. Outros jogadores que carregaram promessa semelhante na franquia não conseguiram se estabelecer: Darius Miles nunca conseguiu render ao ser afastado do seu amigo de infância Quentin Richardson (há até mesmo um documentário fantástico sobre a dupla, chamado "The Youngest Guns") e depois se lesionou gravemente; Chris Kaman tinha tudo para ser o pivô mais dominante da sua geração mas nunca conseguiu consistência graças às lesões constantes;  e até o Al Thornton, que não se contundiu e teve ótima temporada de novato, acabou sendo trocado por um pacote de bolachas graças a problemas de vestiário que nunca foram completamente esclarecidos.

Em 2006, o Clippers enfim foi aos playoffs e venceu sua primeira partida de pós-temporada em 13 anos, chegando até uma semi-final de conferência histórica. Acabou perdendo aquela semi-final para o Suns num jogo 7 dramático, numa série cheia de prorrogações, e desde então foi ladeira abaixo - na temporada seguinte, o joelho do Shaun Livingston viraria farofa. Um ano após isso, seria a vez da então estrela Elton Brand perder a temporada com uma lesão gravíssima (da qual, aliás, ele nunca parece ter se recuperado).
Tirando o azar, os novatos e as contusões (que ocorrem apesar de um dos melhores centros de treinamento de toda a NBA), o Clippers sempre teve problemas para contratar ou manter seus jogadores. Todos os jogadores sem contrato ignoravam as propostas do Clippers, enquanto os jogadores da franquia pareciam apenas aguardar o fim dos seus contratos para fugir para as colinas em liberdade. Elton Brand, estrela do Clippers durante anos, foi mantido à força na equipe quando virou free agent restrito, mas fugiu para o Sixers quando seu segundo contrato terminou. Os elencos no Clippers são notoriamente formados por descontentes, jovens jogadores que sentem-se ignorados pela NBA, presos na franquia mais amaldiçoada e ignorada das últimas décadas. É uma espécie de Sibéria do basquete.

O Clippers é um excelente exemplo de como funciona a distribuição de estrelas na NBA. Apesar de estar num dos chamados "grandes mercados", cercado por uma grande economia, ter bom público, ser economicamente viável e se situar em uma localidade em que qualquer jogador gostaria de viver, nenhuma estrela importante aceita jogar no Clippers - franquia perdedora, com poucas aparições na televisão gringa e, por isso mesmo, com pouquíssima exposição na mídia. Nos Estados Unidos, dá pra acompanhar pela televisão todos os jogos da sua equipe local, de onde você mora, mas para assistir aos jogos das equipes do resto do país depende-se das redes nacionais, como a TNT, a ABC e a ESPN, que passam poucos jogos por semana e sempre com as equipes mais badaladas do momento. Hoje em dia, o Elton Brand joga no Sixers - em uma equipe que supostamente montou-se para disputar o Leste - e é motivo de piada por não jogar bulhufas e estar num time meia-boca. Ou seja, Elton Brand gastou seus anos de ouro, em que foi um dos melhores alas de força da NBA (por vezes o melhor) e fazia 20 pontos com 10 rebotes com a facilidade com que se cutuca o nariz, num time que não tinha qualquer tipo de exposição. A gente até ouvia falar que tinha um cara fodão lá no Clippers, mas ele nunca teve o reconhecimento que merecia. Num exemplo mais recente, podemos citar o Chris Bosh, que chutava traseiros no Raptors mas ninguém nunca viu, afinal a televisão nunca passava jogos da equipe. Agora que está no Heat e não é sombra do que foi, todo mundo pode dizer com propriedade que o Bosh "nunca foi grandes merdas". Aí está, o jogador punido por ter jogado seu melhor basquete em Toronto, e motivo suficiente para demais jogadores pensarem três vezes antes de assinar com a equipe canadense.

É normal alegar-se que jogador nenhum quer morar no Canadá, ou em Milwaukee, ou em Minessota, assim como eu não quero ir morar em Tangamandápio, mas jogadores vão topar qualquer coisa por uma franquia vencedora, com chances de título, e com ampla exposição na televisão. Ninguém quer gastar seus melhores anos na NBA sendo ignorado pela mídia ou, como foi o caso do LeBron por exemplo, tendo seus recordes desdenhados pela falta de um título no currículo. Exposição na tevê, no entanto, não precisa ter a ver necessariamente com vitórias: pode ser simplesmente uma boa história, um time que as pessoas queiram assistir, a presença de uma ou mais estrelas juntas.

Nessa temporada, por exemplo, a ESPN gringa passará 16 jogos do Heat, 15 do Bulls, 15 do Lakers, 14 do Celtics, 14 do Knicks e 12 do Mavericks. O Knicks reconstruído com Amar'e e Carmelo, mais a chegada do Tyson Chandler, é história melhor e mais vendável do que o Mavs campeão mas com elenco desfeito. Já na TNT os times com mais aparições serão Celtics e Lakers, com 10 cada, o Heat com 9, e Knicks e Mavs com 8 jogos cada um.

Mas eis que, olhando mais pra baixo nas tabelas, encontramos finalmente o Clippers: são 3 jogos na TNT, 10 jogos na ESPN e 9 jogos na NBATV, que também é uma rede nacional. Ao todo são 22 jogos na televisão, recorde absoluto da história da franquia. É porque o Clippers é uma equipe vencedora, com chances de títulos? Vale lembrar que a programação das televisões saiu antes da troca do Chris Paul. Então a resposta é não: a presença do Clippers na televisão nacional se deve ao Blake Griffin.

Depois de tantas escolhas frustradas de draft, lesões e dificuldades de sequer chegar aos playoffs, Blake Griffin passou a colocar constantemente o Clippers na TV de um modo inusitado: através das melhores jogadas do dia. Foi uma tonelada de enterradas, bagos na cara de defensores desavisados, faltas-e-cestas, e até um tipo de "melhores momentos" que nunca existira antes: as melhores enterradas que não aconteceram, aquelas em que o Griffin pula por cima de todos os defensores dando uma pirueta e acaba enterrando no aro. De repente todo mundo queria ver os jogos do Clippers graças a essas jogadas, as vitórias são o de menos.

Ainda assim, quando Billups foi liberado pelo Knicks usando a regra de anistia, deixou claro que queria ir para algum time com chances de título e ficou puto da vida de ser chamado pelo Clippers. A NBA deixou claro que pelas regras o Billups não poderia negar o chamado, mas não queria ir nem a pau. É a história eterna do Clippers, o pessoal só fica por lá se for amarrado, se for dopado, se receber uma grana absurda que não se pode negar ou se for alguma brecha legal como no caso do Billups. Mas eis que a troca por Chris Paul, que comentamos aqui, acabou rolando e o Clippers ganhou subitamente chances de título. Escassas, é verdade, o elenco não está terminado, não teve tempo de treinar junto, não teve pré-temporada de verdade, não tem identidade tática. Mas a chegada de Chris Paul consolidou algo tão importante quanto: ao receber a notícia de que o armador fora trocado para o Clippers, Blake Griffin afirmou: "vai ser a cidade do lob", ou seja, a cidade do passe para o alto, a cidade de jogar a bola para cima para que alguém venha enterrar. Além de Griffin e suas enterradas fantásticas, DeAndre Jordan é um pivô fantasticamente atlético que, na impossibilidade intelectual de criar o próprio arremesso (em palavras menos nobres: é uma anta), ao menos consegue pular até a Lua e enterrar os passes que chegam para ele.

Por enquanto, o Clippers não pode ser considerado verdadeiramente como um time de elite no Oeste. Ainda são apenas jogadores aleatórios, reunidos um tanto ao acaso. Chris Paul e Billups estão jogando ao mesmo tempo em quadra, então não há ainda uma definição sobre quem inicia as jogadas, quem finaliza, os armadores estão muito presos no perímetro, há pouca agressividade e muitos passes para o lado, tudo normal para quem ainda tenta se acostumar com um sistema tático meio feito às pressas. Ainda há indecisão nos contra-ataques e muitas jogadas de isolação, também comuns nos ataques em que as movimentações não foram aprendidas (ou que não existem, algo que só vamos descobrir se é o caso com o tempo). Mas mesmo com tantas indefinições, falta de entrosamento evidente e dúvidas sobre quem exerce a liderança da equipe (Billups pode arremessar 20 bolas num jogo como fez, Chris Paul deve segurar a bola, ou Blake Griffin deve ser o foco do ataque?), uma coisa é certa: o Clippers está consolidado como uma equipe que todos querem assistir. As ponte-aéreas têm presença garantida em todas as partidas, tanto para Griffin quanto para DeAndre Jordan, os contra-ataques quando funcionam geram jogadas espetaculares, e a presença na televisão vai ser cada vez maior. Para a próxima temporada, com certeza os jogos mostrados na íntegra serão vários, talvez no mesmo nível de equipes como Lakers, Heat, Knicks e Mavs.

Frente a esse tipo de exposição, com tanta atenção da mídia, com certeza Chauncey Billups está repensando seu desgosto em ter sido contratado - na marra - pelo Clippers. Do mesmo modo, Chris Paul vai ter muitas dificuldades em escolher deliberadamente abandonar a equipe ao fim da temporada, quando se encerra seu contrato. O Clippers, claro, não estava nos planos de nenhum dos dois. Mas depois de uma pré-temporada arrasadora com jogadas fantásticas, e de uma estreia contra o Warriors em que o Clippers conseguiu impor seu ritmo, a atenção da mídia - e os papos de que a equipe pode ter mais vitórias do que o Lakers, algo que não acontece desde a temporada 2004-05 e só havia acontecido antes em  93 - com certeza deixou os dois recém-chegados com água na boca. A derrota para o Spurs, que veio em seguida, veio apenas para mostrar em definitivo que a equipe tem muito a arrumar, mas o potencial dessa equipe é inegável.

Como convencer jogadores como Chris Paul e Billups a ficarem numa equipe fracassada? Fazendo trocas ousadas, arriscando, ganhando espaço na mídia com jogadas de efeito, e tendo um novato capaz de atrair a atenção de todo o planeta. Se o Clippers der certo nessa temporada, mais jogadores importantes vão querer entrar nessa brincadeira. Se der errado, se não chegar nem aos playoffs, ainda assim os jogadores que já estão lá serão obrigados a encarar a atenção que receberam, e as possibilidades futuras da franquia. Esse é o tipo de reconstrução que equipes desconsideradas pelos free agents precisam planejar, porque simplesmente abrir espaço salarial - que é a estratégia que toda equipe pequena usa - não serve para nada. De que adianta poder oferecer todo o dinheiro do universo se ninguém vai topar jogar no seu time porque ele não aparece na televisão e não tem chances de título? Por sorte, o Heat abriu o espaço salarial e convenceu a ficar e trazer seus amiguinhos. Mas se Wade fosse embora, o que o Heat iria fazer com aquela grana toda? Que jogador iria topar jogar numa franquia como o Heat, apesar das gostosas nas praias de Miami?

O Clippers está no caminho certo porque seus jogadores sabem fazer pontes-aéreas. É estranho de ouvir e pouco ortodoxo, mas é a mais absoluta verdade. E continuará funcionando até que a maldição retorne, puxe o pé do Blake Griffin enquanto ele dorme, e o avião da equipe caia no oceano. São 30 equipes, 66 jogos nessa temporada, uma caralhada de viagens de avião, e se um avião tiver que cair, já sabemos qual será. Na pior das hipóteses, se ninguém morrer e nenhum avião cair, o Clippers pode chegar à beira do título e aí estaremos em 2012: o mundo acaba e vamos todos pro saco. Esse Clippers fez tudo certo, mas não ignorem a maldição. Ela está à espreita.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Trocas, trocas, trocas

Mo Williams e  Baron Davis tem ótimas fotos juntos. (Ex.1 ; Ex2


Meu deus, que suruba! Nunca vi tanto troca-troca em um só dia. A NBA já teve muitos momentos de movimentação intensa no passado, mas eu sinceramente não lembro de um com tanto jogador sendo trocado. Já falamos da troca do Carmelo Anthony que envolveu 12 jogadores e da do Deron Williams, que levou ele para o New Jersey Nets. Mas isso foi só o começo, hoje foram mais um milhão de transações que vamos demorar uns dias para analisar totalmente. Se não terminarmos é porque eu fui trocado para um outro blog, rumores indicam que eu possa começar a escrever no Mão Feita a partir de amanhã.

Algumas transações, como o botão de auto-destruição que o Boston Celtics apertou, merecem esperar pelo menos um dia para que a gente possa ter certeza de todos os desdobramentos e detalhes de todos os jogadores envolvidos. É um momento importante da temporada e não queremos falar bobagem! Antes de escolher as primeiras trocas a serem analisadas é hora de informar um pouco, já que está meio confuso de acompanhar. As trocas que aconteceram hoje, com nomezinhos coloridos, foram:

Boston Celtics envia: Kendrick Perkins e Nate Robinson
Oklahoma City Thunder envia: Nenad Krstic e Jeff Green

Boston Celtics envia: Luke Harangody e Semih Erden
Cleveland Cavaliers envia: Uma escolha de 2ª rodada de Draft

Boston Celtics envia: Marquis Daniels
Sacramento Kings envia: Grana

Oklahoma City Thunder envia: DJ White e Mo Peterson
Charlotte Bobcats envia: Nazr Mohammed

Portland Trail Blazers envia: Dante Cunningham, Sean Marks, Joel Pryzbilla e duas escolhas de 1ª rodada de Draft
Charlotte Bobcats envia: Gerald Wallace

Washington Wizards envia: Kirk Hinrich e Hilton Armstrong
Atlanta Hawks envia: Maurice Evans, Mike Bibby e Jordan Crawford

Sacramento Kings envia: Carl Landry
New Orleans Hornets envia: Marcus Thornton

Houston Rockets envia: Aaron Brooks
Phoenix Suns envia: Goran Dragic e uma escolha de 1ª rodada de Draft

Houston Rockets envia: Shane Battier e Ish Smith
Memphis Grizzlies envia: Hasheem Thabeet e uma escolha de 1ª rodada de Draft

Los Angeles Clippers envia: Baron Davis e escolha de 1ª rodada de Draft
Cleveland Cavaliers envia: Mo Williams e Jamario Moon

......
Pois é, temos assunto para um mês. Algumas dessas trocas podem não estar completas, faltam detalhes e não é em todas que sabemos ao certo que escolhas de Draft estão sendo enviadas. Ainda é tudo muito recente e vamos começar analisando as que a gente tem certeza de como aconteceram.

Começo com a última listada e a primeira confirmada do dia, a do Baron Davis por Mo Williams. Todo mundo sabe que o Clippers queria trocar o Baron Davis faz MUITO tempo, acho que no dia seguinte em que eles assinaram o cara eles provavelmente já estavam arrependidos. Em toda sua carreira o B-Diddy sempre foi um misto de muito talento, nenhum esforço, brigas com técnicos e desinteresse total. Foi assim no Hornets com Byron Scott (que será seu técnico de novo no Cavs!), no Warriors com o Don Nelson e no Clippers não só com Vinny Del Negro e Mike Dunleavy mas até com o dono Donald Sterling, que sentava na beira da quadra para ver o jogo e xingava o próprio atleta. Nos poucos momentos em que jogou pra valer era constantemente colocado em listas dos 3 ou 5 melhores armadores da liga, mas durava pouco.

O problema para trocar Baron Davis era o seu contrato monstruoso, mais de 13 milhões por ano até o fim da temporada 2012-13, além desse comportamento que acabei de citar, óbvio. Ninguém queria pagar tanto por problemas. A coisa mudou um pouco de figura quando eles encontraram o Cleveland Cavaliers, o atual pior time da NBA e que está desesperado por qualquer coisa que dê um mínimo de esperança para um futuro próximo ou nem tão próximo assim. O Clippers tinha o que oferecer, não Davis, claro, mas uma linda e cristalina escolha de 1ª rodada no Draft do ano que vem. Em um time quebrado, em um mercado pequeno e numa época em que as estrelas só querem jogar juntinhas em cidades famosas, o Cavs não tem esperança de voltar a ser relevante com espaço salarial e Free Agents, o negócio deles é buscar talento no Draft.

Sendo o pior time da temporada eles tem ótimas chances de ter a 1ª escolha no Draft do ano que vem e com todo o azar do mundo ficam pelo menos com a 4ª. Essa do Clippers, se nada de muito drástico acontecer, deve ficar entre a 7ª e 10ª. Ou seja, um ano após o término do namoro com o LeBron James eles tem uma escolha Top 5 e outra Top 10 para recomeçar um núcleo jovem no time, não é nada mal! O preço a ser pago não é barato, porém, o contrato pesadíssimo do Baron Davis aumenta a folha de pagamento do time em quase 5 milhões de dólares por temporada em relação ao que pagavam pelo Mo Williams, mas repito o que disse: eles não vão conseguir jogadores com espaço salarial, estão pagando para ter essa valiosa escolha de Draft. É rezar para não fazer bobagem com ela agora.

Até agora a troca parece bastante certinha, certo? O Clippers está entupido até as orelhas de jovens e bons jogadores e não precisa de mais uma 10ª escolha, então a usou para se livrar do jogador que tentam trocar há quase 3 anos. Mas o que causou espanto na maioria das pessoas foi que a troca foi realizada bem na época em que, pela primeira vez em todos esses anos, o Baron Davis está jogando bem de verdade! Todas as críticas que eu citei acima são verdade, ele é desinteressado e joga quando quer. Chegou fora de forma no começo da temporada e foi afastado pelo técnico Vinny Del Negro, nos anos anteriores também estava gordo e jogava de um jeito desleixado, individualista e sem esforço algum. Suas bolas de três forçadas na transição deixariam até o JR Smith angustiado, pra mim parece um jogador de streetball no fim da pelada, quando já está cansado e continua em quadra tentando uns truques (que dão errado) só para não parar de jogar e ficar entediado.

Acontece que ele não é daqueles jogadores que lideram um time pelo exemplo e fazem todo mundo jogar bem, ele é o maria-vai-com-as-outras. Se o resto do time está motivado, tem talento e joga bem, aí ele quer participar. Foi assim naquele Warriors que surpreendeu o Mavs em 2007 e começou a ser assim quando ele se tocou que aquele novato Blake Griffin que estava no seu time era um fenômeno. Seus olhinhos brilharam como uma criança quando vê o novo Comandos em Ação e ele quis começar a brincar, entrou em forma (para o seu padrão), foi aceito pelo Del Negro e começou a dar assistências de todos os cantos da quadra para enterradas do Griffin. Passou a aparecer no Top 10 da NBA, a ser relevante, comentado, a transpirar confiança, falar mais em quadra, dar passes para enterrada dentro de carros e, de repente, foi trocado.

Trocar o Baron Davis fez todo o sentido do mundo por tanto tempo e bem quando passou a não ser tão óbvio assim eles puxaram o gatilho. Fizeram certo? Difícil afirmar com certeza, mas vou tomar coragem, dar um gole na birita, respirar fundo, sair de cima do muro e responder: sim, tinham que trocar. Em uma visão otimista o Clippers iria ter esse mesmo time que começou a jogar bem em dezembro no ano que vem e poderia lutar pelos Playoffs, mas em uma visão mais pessimista (o que faz todo o sentido para o Clippers), o Baron Davis poderia se machucar de novo ou simplesmente começar a sabotar o time como já fez outras vezes, só lembrar do também jovem e promissor Warriors que depois de um momento de encantamento despencou para a mediocridade. Ele simplesmente não é um cara confiável, já provou isso em 10 anos de carreira e o Clippers não tem motivo para dar esse voto de confiança. Os passes para ponte-aérea irão fazer falta, mas adeus.

Só reforçando, perder a escolha de Draft não foi legal, mas jovens talentos não são o problema do Clippers. Eles tem Blake Griffin, Al-Farouq Aminu, Eric Bledsoe, Eric Gordon, Randy Foye e DeAndre Jordan, pegar mais um pivete para não deixar ele ter espaço para se desenvolver seria inútil. E temos que pensar também na economia, o Mo Williams ganha 8.5 milhões de dólares por temporada no próximo ano contra os quase 14 de Baron Davis, depois disso Mo tem a opção de virar Free Agent (Player Option) mas não é provável que ele recuse ganhar mais 8.5 milhões, só se a vontade de mudar de time falar 10 vezes mais alto que essa fortuna. De qualquer forma o dinheiro que o Clippers poupa e o espaço aberto na folha salarial são importantes para esses mesmos jovens jogadores, que cedo ou tarde precisam de seus contratos renovados. Em dois anos eles precisam oferecer uma bolada para o Eric Gordon, depois uma extensão digna do talento do Blake Griffin. Ter o salário do lixo do Baron Davis atrapalhando seria um Epic Fail típico do Clippers, mas eles evitaram.

E é inteligente da parte deles pensar no futuro e não no agora. Com a decadência do Portland Trail Blazers depois das contusões de Brandon Roy e Greg Oden, as saídas de Carmelo Anthony e Deron Williams da conferência, podemos considerar que o Oeste tem quatro forças óbvias: LA Lakers, San Antonio Spurs, Dallas Mavericks e Oklahoma City Thunder. Os três primeiros estão no Top 5 de equipes mais velhas da liga, prontas para dar suas últimas cartadas atrás de um título antes de começar um novo processo de renovação. Quando isso acontecer o topo da conferência está nas mãos do Thunder e de quem conseguir montar um elenco bacana até lá, o Clippers está fazendo a sua parte para melhorar na hora certa.

Pensando a curto prazo o time deve dar uma piorada mesmo, é verdade, o Mo Williams vai dar uma melhorada no arremesso de três deles (Baron Davis chuta o mesmo número de bolas por minuto que Ray Allen, mas não chega aos 30% de aproveitamento), mas está longe de ser o cara que comanda o ataque como B-Diddy fazia. É bem provável até que Mo não atue como um armador principal o tempo todo, mas auxiliando no trabalho e jogando como arremessador, já que eles provavelmente vão querer dar espaço para o novato Eric Bledsoe, e seus outros companheiros de posição, Randy Foye e Eric Gordon, sabem quebrar um bom galho como armadores principais. Vão precisar de um tempo para se adaptar mas não é motivo para desespero.

Uma outra coisa que eu acho que vai ser bem interessante de acompanhar é o Baron Davis em Cleveland. Um cara eternamente desmotivado jogando pela franquia mais perdedora da temporada? Seria lindo ele usar seu talento e carisma (é um cara divertido, admitamos) para dar um boost na cidade, mas eu apostaria todas as minhas fichas que uma estranha contusão o tirará do resto da temporada. Não sei, devemos esperar o melhor das pessoas, mesmo quando parece bem improvável.
.....
Vamos tentar manter um ritmo acelerado de posts para comentar todas as trocas. Aguentem aí e tentem não enlouquecer!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Saco de pancada

Princípio de bagunça entre Lakers e Clippers. Destaque para o juíz 
segurando o Artest pela camisa, esse não tem medo da morte

Um dos jogos mais divertidos que assisti nos últimos tempos não foi entre Lakers e Celtics, ou entre Heat e Thunder, mas sim entre Cavs e Nets, as duas piores equipes do Leste se degladiando para manter o último fio de auto-estima. Foi um jogo disputado, brigado, sofrido - e medonho, nível "Playboy da Mara Maravilha", capaz de traumatizar pelo resto da vida. Os dois times são uma porcaria, parecia futebol feminino em aula de educação física quando todo mundo corre pra cima da bola e o lance de mais efeito é a bolada na orelha da criança que estava passando na lateral da quadra segurando um copo de refrigerante. Depois de um par de horas vendo Nets e Cavs jogar, mudar para um jogo "normal" foi como se eu passasse a ver seres sobre-humanos capazes de voar, com super-velocidade e super-força. Foi como tirar um sapato muito apertado depois de um dia inteiro de pé no trabalho, uma deliciosa surpresa ao descobrir como o basquete podia ser um esporte bonito e elegante - sem Nets e Cavs em quadra, claro. Foi tão proveitoso ver dois times tão ruins jogando que cheguei a propor no twitter um playoff ao avesso com os 4 piores times de cada conferência, em que o último colocado seria obrigado a sentar no canto usando um chapéu de burro.

A cara do Antawn Jamison, acostumado com dias melhores, conforme ia percebendo que não seria capaz sequer de vencer o Nets, foi impagável. Era o olhar de um homem deseseperado tentando encontrar rotas de fuga, uma janela mais próxima, um emprego de atendente de telemarketing, uma brecha judicial que lhe permitisse anular a troca que o tirou do Wizards na temporada passada. Enquanto isso o resto do Cavs era um bando de homens sem alma, vagando rumo ao vestiário pensando em quais legumes comprariam na quitanda na manhã seguinte e quantos anões daria para contrabandear dentro do cabelo do Varejão. Aliás, alguém verifique a legitimidade da lesão do Varejão, porque na situação dele seria muito justificável um "vou ali comprar cigarro e já volto" versão lesões da NBA, tipo o Shaquille O'Neal quando não queria mais jogar no Heat.

A lista de coisas necessárias para tirar um time dessa situação de saco de pancadas na NBA é imensa. Exige esforço dos engravatados para contratações, para boas escolhas de draft e para uma boa saúde financeira na equipe; exige esforço da equipe técnica para continuar desenvolvendo os jogadores e criar planos de jogo sérios que busquem sempre ser competitivos mesmo frente ao desastre; e exige um elenco que acredite ser capaz de sair das últimas colocações. Equipes que fedem precisam de políticas claras para o futuro. Não adianta ficar tentando remendar a equipe, tapar buracos, tentar escapar imediatamente. Tudo começa com uma reconstrução, uma renovação, se livrar dos contratos ruins, criar flexibilidade salarial. Depois, a equipe técnica precisa dar minutos para quem está nos planos da equipe, quem é essencial para o futuro, não pode se desesperar e botar pirralhos burros para mofar no banco só porque vão perder ainda mais feio sem um veterano qualquer que vai estar com reumatismo daqui alguns meses. Mas não vamos nos focar na parte admnistrativa ou técnica de reconstruções, não estou com vontade de falar mal do Detroit Pistons hoje. Vamos falar de outra coisa essencial para tirar os times da merda: os próprios jogadores. Pra isso, vamos analisar dois casos distintos hoje, mas que possuem algo em comum: o Clippers e o Thunder.

Caso 1: Los Angeles Clippers

O Clippers fingia ter alguma esperança de sucesso na temporada passada até que o Blake Griffin se contundiu ainda nas Summer Leagues e não chegou a jogar uma partida sequer da tempora regular na NBA. Pronto, temporada jogada na privada, o time parecia um circo, o Al Thornton foi banido da equipe, o Chris Kaman se contundiu duzentas vezes, e o Baron Davis gordo e desmotivado só queria encher os bolsos de grana e nunca mais ter que entrar em quadra. Mesmo com a volta do Griffin nessa temporada, o clima no Clippers era de fracasso total, o time parecia mais elenco de Big Brother do que equipe de basquete, e o começo da temporada refletiu isso: foram 5 vitórias e 21 derrotas.

O que foi necessário para que o Clippers alcançasse o atual recorde de 18 vitórias e 28 derrotas (13 vitórias e 7 derrotas desde o início mequetrefe)? Como o Denis destacou em seu texto sobre o time, Blake Griffin e Eric Gordon são espetaculares, lindos e maravilhosos, evoluem mais rápido do que Pokémon e estão jogando um absurdo. Mas já estavam jogando bem durante o começo desastroso da equipe. A real transformação foi na união e na postura da equipe com a presença de Blake Griffin em quadra.

Griffin tem um gigantesco arsenal de giros, infiltrações, ganchos e arremessos de média-distância usando a tabela, mas seu jogo é predominantemente físico, todo jogo ele pula por cima de alguém, dá uma enterrada de empolgar até a sua mãe aí, e sempre - é de lei - erra uma enterrada que seria completamente histórica se entrasse. Se não bastassem as enterradas fantásticas que ele dá, juro que vale a pena ver um jogo apenas para ver as enterradas que ele não dá, as que ele erra por pouquinho ou sofre falta no processo. E, como sabemos, enterradas não são apenas um modo de fazer cestas bem perto do aro, no imaginário americano as enterradas lidam com agressividade e humilhação do adversário. É a cesta que é feita não porque você é mais habilidoso, mas porque é mais forte, pula mais alto e tem o pênis maior, é a cesta que você impõe na base do muque, e se a enterrada é em cima de alguém, é a cesta que submete o adversário ao seu poder, é a cesta que humilha, que retira toda a honra, que desmoraliza o adversário.

Quando o Blake Griffin enterra o tempo todo em cima de adversários, ele deixa de ser apenas um novato qualquer num time horrível e sem chances de vitória e passa a ser aquele cara ousado que, mesmo sem chances de vencer, veio "aqui na minha casa e me humilhou, me fez passar vergonha". O Clippers fede, quem se importa com eles, mas os vídeos se espalham pelo YouTube e a questão da honra e do ego é central nas quadras de basquete americanas. Antes de Yao Ming ir para a NBA, por exemplo, enterradas não aconteciam na China por serem um desrespeito ao adversário. Quando Griffin enterra em alguém, não importa se o Clippers está perdendo por 50 pontos, o adversário se abala e quer vingança. Por isso, não demorou muito para que quase todas as partidas com o Clippers tivessem algum incidente em que algum mané aleatório tentasse peitar o Griffin, encher ele de porrada, ou simplesmente cometesse faltas mais feias para provar que "ele não vai enterrar assim tão fácil". O Griffin tem jeitão briguento e cara de maloca (e cabelo vermelho, o que lhe caracteriza como um cosplay do Kuwabara, do Yu-Yu Hakushô, algo que um leitor nos avisou em nosso formspring), mas nem ele pode resistir a constantes punições físicas e confrontos em todos os jogos. Até que o Clippers resolveu fazer uma reunião a portas fechadas e decidiu que todo o elenco precisava proteger o Griffin antes que ele amanhecesse com a boca cheia de formigas. Tudo bem que o time fosse uma merda, mas se eles tinham um jogador tão bom apanhando e sendo constantemente ameaçado em quadra, o mínimo que eles poderiam fazer seria protegê-lo, cercá-lo quando ele fosse derrubado no chão, partindo pra cima de quem lhe fizer uma falta mais grave, pressionando os juízes em marcações contrárias a ele.

O resultado dessa união para proteger Griffin de apanhar dos coleguinhas se converteu em vitórias dentro da quadra, no maior estilo "Os nerds contra-atacam". Criou união no grupo, orgulho, vontade de enfrentar os adversários, gente pulando no pescoço do Lamar Odom porque ele deu um empurrão no Griffin após uma jogada mais competitiva no final do jogo. E aí o Clippers passou a ser um time que faz jogadas mais competitivas no final do jogo porque sabe que o resto do elenco estará lá para proteger, apoiar e descer o sarrafo se der pancadaria. Baron Davis admitiu que foi isso que motivou o grupo, defender Blake Griffin dos seus agressores, e olha que o Baron Davis não se motiva por nada nesse mundo. O Clippers depende imensamente do talento do Baron Davis, pena que ele não seja lá muito interessado nesse tal de basquete. Mas agora é.

Nada une tanto um grupo quanto hostilidade do mundo exterior. Já comentei aqui que o momento que finalmente transformou o atual Miami Heat em um time foi a primeira partida dessa temporada em Cleveland, em que todo o elenco teve que estufar o peito e defender LeBron de uma quantidade absurda de hostilidade irracional. Desde então, o time está transformado. Isso me lembra uma vez que fui escrever um texto sobre o movimento "emo" em seu começo no Brasil, entrevistei um monte de gente, e eles não tinham nada em comum - ideologia, gosto musical, opiniões sobre a vida, choradeira, nada - a não ser a hostilidade que recebiam pelo modo com que se vestiam. Durante as entrevistas um monte de gente passava e xingava os emos só por esporte, e a maioria - que nem se considerava emo, no fim das contas - acabava abraçando a identidade do grupo apenas para se defender desse tipo de coisa.

Alguns jogadores são fodões mas são calados, moderados, até bobões, às vezes. A reação do elenco para proteger esses jogadores é diferente, o Houston se uniu para defender o Yao Ming de ser tão hostilizado por ser um banana, mas o Kings não estufou o peito para fazer nada com o castigo físico sofrido pelo Tyreke Evans porque ele tem a cara eterna de "nada" que é característica do Duncan e não responde com agressividade a coisa alguma. No caso de jogadores agressivos, físicos, a resposta dos companheiros tende a ser mais passional, mais agressiva. Jogadores assim podem incendiar equipes, motivar caras como o Baron Davis, e retirar repentinamente a postura derrotista de uma equipe acostumada a ser saco de pancada. Às vezes, jogadores espetaculares com personalidades diferentes acabam sendo menos efetivos na tentativa de transformar uma franquia justamente por isso. Caras como Blake Griffin e sua capacidade de retirar a honra dos adversários e apanhar por isso são perfeitos para unir equipes rapidamente.

Caso 2: Oklahoma City Thunder

O Thunder era um time novo demais, recheado de jogadores jovens e com potencial. Mas Durant, Jeff Green e Russell Westbrook são bons moços, daqueles que a garota tem orgulho de levar pra casa e mostrar pra mãe. Nenhum deles é famoso por enterrar na cabeça de ninguém, pular até a lua, arrancar o coração de um defensor e beber seu sangue em um cálice de cristal. A melhora do Thunder não foi graças à união do grupo, à tentativa de defender Durant dos violentos jogadores adversários, à motivação de estar jogando ao lado de um jogador passional e agressivo. Durant e Westbrook simplesmente ficaram muito bons.

Esse, aliás, é o motivo de que mesmo vencendo jogos e com o Durant liderando a NBA em pontos temporada passada, ainda assim ninguém levava o Thunder muito a sério. Nunca foram um grupo coeso, unido, agressivo ou orgulhoso, daqueles que bate no peito e berra "não perderemos aqui hoje, não na minha casa!". As vitórias de Durant e seus amigos sempre foram recebidas com a estranheza de quem acha que deveria feder mas não fede, aquela surpresa estranha que se aceita rápido antes que percebam que você não merecia. Esse grupo de jogadores só se tornou realmente perigoso quando, após alguns jogos de sorte e atuações friamente espetaculares, começou a perceber que dava para vencer o Lakers em pleno playoff da NBA.

Essa é minha teoria para uma questão que me intriga e está levando vários analistas da NBA à loucura: por que diabos o Thunder quase venceu o Lakers graças a uma defesa por zona fantástica e sufocante nos playoffs e agora tem uma defesa furada - aliás, a defesa que mais involuiu numericamente da temporada passada para cá? Provavelmente aquela defesa não era fruto de treino, tática apurada e união dentro de quadra, era fruto da paixão e desespero de um time que nunca acreditou que poderia ganhar nada e de repente estava diante do Lakers sonhando com a chance de derrotá-lo nos playoffs. Depois daquilo, com a consciência plena de que eles são um dos melhores times do Oeste, não era mais possível tamanha intensidade defensiva, tamanho desespero. Eles sabem que Durant e Westbrook são dois dos melhores jogadores da NBA, podem vencer jogos sozinhos, e pelo jeito isso basta.

Com o Clippers, o time inteiro foi transformado pela intensidade de Blake Griffin e o time responde com igual intensidade para protegê-lo. Com o Thunder, a melhora de dois jogadores levou o time a patamares inesperados, mas a união só veio na compreensão de que poderiam vencer mesmo os maiores times. Entretanto, sem a intensidade de alguém com sangue nos olhos cansado de ser saco de pancada, uma das mais impressionantes defesas da NBA já esmoreceu rapidinho.

É evidente que a melhora de qualquer equipe saco de pancada da NBA está em grande parte nas mãos dos próprios jogadores e da evolução de cada um deles, mas prestamos pouca atenção no papel que a postura ou a personalidade dos jogadores tem nisso. O Thunder, como sabemos, precisa de um bom pivô, mas não tanto quanto precisa de um jogador defensivo apaixonado, vocal e intenso do tipo que exige esforço dos próprios companheiros. É esse tipo de qualidade que Kevin Garnett traz para suas equipes, a certeza de que nenhuma derrota virá sem intensidade, cobrança e esforço mesmo se o time for uma droga como foram muitos dos elencos que o Garnett teve no Wolves. É esse tipo de qualidade que Griffin traz para o Clippers além de seus giros, trabalho de pernas e enterradas, é isso que motiva até um carinha "bleh" como o Baron Davis. É disso que o Thunder precisa, mas seu caminho de evolução foi para outro lado, silencioso, comedido - e muito talentoso. O meu único medo é que o projeto do Thunder acabe seguindo o caminho do Blazers, que sem nada para unír seus jogadores jovens e talentosos além da simples surpresa de estarem vencendo quando não deveriam, ameaça desmoronar o tempo todo. Mas o Blazers é assunto para outro post, claro.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Dono da Bola - Los Angeles Clippers

Sterling depois do churras com a galera do prédio


Falei do Los Angeles Clippers no último post e prometi um texto com o perfil do dono da equipe, Donald Sterling. Também aproveitei para postar esse texto sobre o cara feito pelo blog Grandes Ligas. O texto é bom e diz muito do que vou dizer aqui, mas promessa é promessa e precisamos continuar a parada série sobre donos de equipes.

Donald Sterling
(via: HoopsHype)

Temporadas no comando: 31
Playoffs: 4
Títulos de divisão: 0
Títulos de conferência: 0
Títulos da NBA: 0

Riqueza estimada: 500 milhões de dólares
Comprou o time por: 13 milhões de dólares (1981)
Valor atual da equipe: 295 milhões de dólares
Maior contrato oferecido: Elton Brand (US$82.1 milhões, 2003)
Técnicos contratados: 16 (Paul Silas, Jim Lynam, Don Chaney, Gene Shue, Don Casey, Mike Schuler, Larry Brown, Bob Weiss, Bill Fitch, Chris Ford, Jim Todd, Alvin Gentry, Dennis Johnson, Mike Dunleavy, Kim Hughes e Vinny Del Negro)

...
Você não leu errado, em 31 anos como dono do Los Angeles Clippers o Sr. Donald Sterling viu o seu time ir aos playoffs apenas 4 vezes. Nunca venceu título de divisão, conferência ou da liga. Ele também não é nenhum fanático bilionário que comprou o time por amar basquete e nem faz isso pelo dinheiro, o Clippers, apesar de estar na segunda maior cidade americana, é apenas o 24º time que mais rende dinheiro na NBA segundo a Forbes. O que faz Sterling prosseguir no cargo é um mistério.

Ele é de uma família de imigrantes judeus de Chicago, mas se mudou para Los Angeles com apenas 8 anos de idade. Lá ele estudou, se formou em Direito e começou a atuar como advogado e a investir no mercado imobiliário, que foi onde realmente se destacou e rapidamente construiu uma fortuna, hoje é o maior dono de terrenos em Beverly Hills. Já cheio da grana, em 1979, ele fez um grande investimento de 2.7 milhões de dólares em apartamentos de propriedade de Jerry Buss, que precisava desse dinheiro extra para finalizar a compra do Los Angeles Lakers. Pouco tempo depois Buss disse ao Sterling que ele deveria também comprar seu próprio time na NBA, conselho que acatou comprando o San Diego Clippers. A franquia tinha se mudado há poucos anos de Buffalo para San Diego, mas sem sucesso nas quadras e com a torcida local.

Em pouco tempo, 1984 para ser exato, Sterling já havia convencido a NBA a mudar a franquia para a sua cidade, Los Angeles. Embora a mudança tenha rendido alguns frutos em termos de público e curiosidade geral na cidade, o fracasso nas quadras continuou: Nos seis primeiros anos de Clippers em LA o melhor aproveitamento deles foi de 39%; e na temporada 86-87 eles somaram apenas 12 vitórias, a segunda pior marca da história. Ao mesmo tempo o Lakers fazia a rapa de títulos no Oeste e na NBA. O mais próximo de sucesso nessas 31 temporadas foi a segunda rodada nos playoffs de 2006 quando perderam para o Phoenix Suns em 7 jogos. Só. Fim.

Mas quanto um dono de time pode influenciar negativamente uma equipe? Afinal, em teoria ele só coloca o dinheiro e são General Managers, técnicos e jogadores que fazem o trabalho. Bom, olhe o que eu mesmo disse aqui sobre porque o Clippers, mesmo cheio de espaço salarial, não atraiu nenhum Free Agent de nome:

"Os motivos para não atrair jogadores de nome são vários: o time não ganha nada faz tempo, não tem um técnico que impressione os jogadores, não tem atenção da mídia, tem fama de perdedor e o seu dono, Donald Sterling, é um idiota que volta e meia faz comentários racistas, sexistas ou só idiotas mesmo. Nessa offseason ele comentou as contratações de Randy Foye e Ryan Gomes dizendo "Eu nunca ouvi falar desses caras, mas o que eu posso fazer se o técnico pediu?". Boa primeira impressão para os novos funcionários."

Dá pra imaginar a motivação de atuar para um dono desse? Claro que depois de um tempo você atua porque você quer vencer por conta própria, pelos companheiros e pelos fãs, mas é a pior primeira impressão para um novo funcionário na franquia. Mas fica pior que isso: Desde a temporada passada Sterling tem dado uma de Mark Cuban e fica perto do banco de reservas torcendo. Mas se "torcer" para o dono do Mavs significa incentivar os jogadores que ele paga, para Sterling é uma chance de gritar coisas como "Por que você tentou esse arremesso?", "O que você está fazendo em quadra?" e um singelo "Você está fora de forma!", esse olhando diretamente para o cara mais bem pago do time, Baron Davis. O jogador tentou evitar polêmica ao comentar o assunto, mas disse que a situação já estava difícil e ele ainda precisava "lutar batalhas desnecessárias".  Até mesmo o Chris Kaman, talvez o grande ponto positivo da temporada passada, recebeu críticas do dono do time durante os jogos. Sterling também foi a público no fim do ano passado dizer que se pudesse trocaria todos os jogadores e em uma das poucas visitas que fez ao vestiário só o fez para apontar para Al Thornton e chamá-lo de fominha e egoísta.

Está dando pra sacar como um dono pode influenciar o time negativamente? Nessa temporada ele voltou de novo a visitar seus empregados, dessa vez acompanhado de mulheres, para quem mostrava os jogadores se trocando e dizia "Veja que belos corpos negros". Pior, aconteceu mais de uma vez. Um cara de dentro do Clippers que não quis ser identificado disse ao Yahoo! que "O dono de um time tem que ser o cara que apoia todo mundo na franquia, quando ele não faz isso acaba com a confiança de todos". E faz sentido, quando seu chefe só te põe pra baixo você sai da zona de conforto, bate o desespero, o medo de ser demitido, de ter sua imagem manchada no mercado e tudo mais. É comum para todo tipo de profissão.

Como se não bastasse fazer isso só com os jogadores, fez também com o General Manager do time, o lendário jogador Elgin Baylor. Depois de trabalhar no time de 1986 até 2008, ele saiu da equipe e imediatamente processou Donald Sterling por racismo. A acusação é meio estranha, o Baylor cita casos de racismo contra ele e outros ao longo desses 22 anos que serviu ao time, mas por que contar tudo só quando é mandado embora? E não só isso, ele diz que nesse período de tempo o Clippers perdeu muitos jogadores negros bons porque o Sterling não os queria. Ele cita Danny Manning, Charles Smith, Michael Cage, Ron Harper, Dominique Wilkins e Corey Maggette. Bom, como o blog Clipsnation lembra, Cage foi trocado por outro negro, Gary Grant, uma troca que ainda foi considerada boa na época. Manning foi trocado por Dominique Wilkins em fim de carreira, outro negro. Maggette foi trocado depois de assinar uma extensão milionária com o próprio Clippers. O problema mesmo está em outro dado, o Clippers só assinou seis extensões de contrato com mais de 3 anos de duração nos 30 anos de Sterling! Só seis! Ou seja, seja branco, negro, amarelo ou azul, ninguém quer ficar no Clippers.

Mas voltando ao Elgin Baylor. O momento em que resolveu falar sobre o racismo do Sterling foi estranho, assim como esse argumento de que eles perderam jogadores, mas não quer dizer que ele partiu do nada. Sterling é mesmo racista se acreditarmos em todos os (muitos) depoimentos espalhados por aí. Baylor diz que o seu antigo chefe uma vez disse sobre Danny Manning que estava "Oferecendo muito dinheiro para um pobre garoto negro" e chegou ao cúmulo de comparar o seu time a uma fazenda "com garotos pobres do sul comandados por um treinador branco". Ou seja, o Baylor tinha razões para acusar Sterling de racismo, coisas ditas desde 20 anos atrás, mas só decidiu trazer a público depois que foi colocado de lado no comando do time, tendo suas funções aos poucos ocupadas pelo então técnico Mike Dunleavy. Embora embasado, ficou mais parecendo vingança do que qualquer outra coisa.

Fora do mundo do basquete a fama de Sterling também não é das melhores. Como descrito perfeitamente pelo site Deadspin em um momento Amélie Poulain, "Donald Sterling não gosta de: Mexicanos, negros e crianças. Gosta de: Coreanos e sexo oral".

Uma vez ele disse para uma das mulheres que cuidavam de um dos seus prédios que não queria inquilinos que "se diferenciassem muito de sua imagem". Com isso ele queria dizer que não queria negros, mexicanos, descendentes de mexicanos, crianças e nem pessoas que recebiam subsídios do governo para moradia. Segundo depoimentos de inquilinos, Sterling sabia que não podia negar moradia para essas pessoas, então resolvia o seu problema transformando a vida deles em um inferno. Ele recusava os cheques dados por eles para no dia seguinte acusá-los de não pagamento, aparecia com constantes visitas surpresas de inspeção para achar qualquer tipo de irregularidade, ameaçava sempre de expulsão e nunca providenciava consertos para qualquer tipo de problema na infraestrutura dos apartamentos. Eventualmente, exaustos, eles acabavam saindo. Segundo o depoimento de uma funcionária de Sterling, ele dizia que os mexicanos só sentam por aí fumando e bebendo o dia todo, enquanto negros cheiravam mal e não tinham higiene.

Existe o caso de uma mulher idosa e negra com problemas de saúde e parte do corpo paralisado que tinha um vazamento constantes no seu apartamento (ela tinha que usar um saco plástico ao invés de privada e tinha o apartamento alagado por muitas vezes). Ela pediu para a empresa de Sterling consertar, o que ele respondeu para a sua funcionária com "Despeje a vagabunda". Já em compensação gostava de inquilinos coreanos porque "eles aceitam qualquer condição que eu ofereço e não importa o que aconteça sempre pagam". A admiração pela cultura asiática era tamanha que ele pedia que seus funcionários pedissem desculpas abaixando a cabeça como nos cumprimentos japoneses e dizendo "Desculpe por tê-lo desapontado, Sr. Sterling, farei melhor da próxima vez".

Quando precisava de funcionários para trabalhar nos jogos do Clippers o próprio Sterling colocava anúncios nos jornais pedindo mulheres bonitas para trabalhar como hostess na entrada do STAPLES Center ou mesmo para festas organizadas pela franquia. Ele pedia que as garotas levassem fotos sensuais e o próprio Sterling fazia a seleção de quem seria contratada ou não, fazendo-as passar por situações constrangedoras. Uma mulher que uma vez tentou o emprego disse que ele pediu fotos semi-nuas e deu a entender que queria mais, dando um "sorriso vazio" quando teve o pedido negado. Outra contou que "Trabalhar para o Sr.Sterling foi o trabalho mais desmoralizante que eu já tive". O caso mais extremo foi de Christine Jaksy, funcionária que o processou por assédio sexual. Ela disse que ele não só tentava relações com ela como pedia que ela arranjasse massagistas dispostas a fazer sexo oral nele. O processo foi encerrado quando ambas as partes chegaram em um acordo financeiro.

Racistas existem em todos os lugares, é fato. Pessoas idiotas que acham que podem tudo porque tem dinheiro também. Sterling não é exceção ou novidade em nenhum dos casos, mas é especial por ser o dono de time mais fracassado em toda a NBA, disparado, e ao mesmo tempo o que tem o pior histórico em questão de comportamento. Por que será que a NBA, que é capaz de multar e suspender jogadores que dirigem bêbados nas férias ou brigam em uma casa noturna, não faz nada contra um dono de equipe com tantas acusações de racismo e mal comportamento dentro e fora do time? Ele também não mancha a imagem perfeitinha da NBA? Difícil sugerir o que fazer, não sei nada da lei e dos contratos entre as franquias e a NBA, mas algum tipo de pressão teria que existir.

Na página sobre Donald Sterling no site do LA Clippers não há nenhuma dessas informações, mas você descobre que ele ganhou o prêmio BBA de Humanitário do Ano em 2008 e o prêmio de "Herói das Crianças" em 2006.

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Outros textos da coleção "Dono da Bola" sobre donos de equipes:
Philadelphia 76ers - Ed Snider
Boston Celtics - Wyc Grousbeck
Washington Wizards - Abe Pollin

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O time do momento

A difícil vida de Blake Griffin


Não deixem a antepenúltima posição do Oeste e a 7ª pior colocação na NBA te enganarem, o LA Clippers é hoje um dos grandes times da liga. Talvez não dure muito tempo, a maldição está aí para acontecer a qualquer segundo e estragar tudo, mas temos que aproveitar o momento para enaltecer como esse time está jogando bem. E eu estou falando do time mesmo, não só do novo queridinho do público, Blake Griffin.

Se formos olhar no calendário e buscarmos os jogos desde exatamente um mês atrás, eles tem 11 vitórias e 5 derrotas nesse período, se lembrarmos que eles tem hoje 16 vitórias e 26 derrotas no total fica fácil fazer a conta e descobrir como o time era horripilante antes dessa boa fase. E a pergunta que não quer calar é o que diabos aconteceu para o time começar a vencer de lá pra cá?

Certamente não foi um calendário fácil como aqueles que motivaram o começo de temporada forte do Lakers ou aquela sequência de vitórias do Knicks, só lembrar que no meio do caminho eles bateram o Bulls, o Heat e o Lakers, sendo o primeiro em Chicago! E se você olhar os números, dá pra ver que eles melhoraram em tudo. O número de pontos sofridos caiu de 105 por jogo em novembro para 95 em dezembo, nesse período o número de pontos marcados caiu um pouco de 98 para 96, mas em compensação em Janeiro pulou para 106 por partida. O número de assistências também sobe mês a mês, junto com a dos tocos e tudo mais que pode ser mensurado em um jogo de basquete.

O primeiro instinto é celebrar a temporada maravilhosa que fazem dois jovens jogadores, Eric Gordon e Blake Griffin. O Eric Gordon é a estrela silenciosa da equipe, sem ninguém dar muita atenção pra ele (afinal joga no Clippers e tem a sombra colossal do Griffin) tem média de 24 pontos por jogo, o que faz dele o 8º cestinha da temporada atrás de Durant, Amar'e, Kobe, LeBron, Wade, Ellis e Rose. Ou seja, juntinho de todo mundo que está todos os dias aparecendo nas listas de MVP da temporada. Completando o Top 10 de cestinhas estão Dirk Nowitzki e Carmelo Anthony, o que faz de Eric Gordon, disparado, o cara mais desconhecido entre os grandes pontuadores da NBA na atualidade.

O Eric Gordon é mais um dos jogadores que chegaram cheios de confiança depois do mundial da Turquia vencido pelos EUA, junto com Russell Westbrook, Kevin Durant, Steph Curry e outros que vão ser exemplo por anos de como jogar na offseason pode render bons frutos ao invés de ser apenas risco de contusão. O Luis Scola já disse que jogar durante as férias ajuda ele a não perder o ritmo e eu não tenho dúvidas de que seria bom para o Tiago Splitter jogar pela seleção no pré-olímpico só para se mexer depois de tantos meses esquentando banco. Mas além disso, Gordon funciona no Clippers porque ele é o tipo de jogador perfeito para atuar ao lado de jogadores do tipo de Blake Griffin e Baron Davis. Ele é bom arremessador, abre espaços na quadra e não precisa ter a bola na mão o tempo inteiro para ser efetivo. Gordon já seria útil só arremessando, que era basicamente o que ele fazia até o ano passado, mas agora ele também está batendo pra dentro e se movimentando muito bem sem a bola. Com esse tipo de jogo você dificilmente vê ele forçando bolas idiotas, o que é raro para alguém que faz tantos pontos. É um daqueles casos de role players que são tão bons que são estrelas, mas com as características de role players. Confuso? É como aquela garota que nem é tão bonita, mas se veste tão bem e é tão engraçada que parece uma Miss Universo. Sim, você pensou naquela menina da sua classe e agora entendeu.

A verdadeira garota mais linda da escola é o Blake Griffin. Não dá pra descrever o impacto que o garoto está tendo na NBA e o quanto ele é espetacular. As enterradas impressionam mais do que tudo, é claro, daria pra fazer um Top 50 de melhores jogadas dele todas de altíssimo nível e só estamos no meio da temporada! Mas tem muito mais além disso, ele tem um bom arremesso de meia distância e sabe usar a tabela como o Tim Duncan, tem um giro para infiltrar que é muito eficiente, é rápido e, o que mais me surpreendeu, bate a bola como um armador, dribla como o bom e jovem Kevin Garnett. E se eu usei Duncan e Garnett para dar parâmetros do estilo e qualidade de jogo de um novato já deu pra sacar, ele é um absurdo de bom! Vale lembrar, para mostrar o nível do rapaz, como ele foi anulado por Gasol e Odom no primeiro tempo da partida contra o Lakers e voltou no segundo tempo com outro jogo, outras jogadas, outra estratégia e ganhou o jogo para o Clippers. Essa capacidade de adaptação para um novato é coisa de outro mundo.

Só pra não dizer que ele é perfeito e o melhor de todos desde já, como algumas pessoas insinuam, ele tem seus defeitos. Muitas vezes ele falha no posicionamento de rebote defensivo (embora no ataque seja fantástico) e para alguém com esse tamanho e impulsão a média de apenas 0.6 tocos por jogo é decepcionante. Como vimos ontem contra o cada vez melhor LaMarcus Aldridge, ele ainda tem uns macetes para pegar na defesa também. Mas sinceramente, é o tipo de comentário focado nos detalhes, uma coisinha ou outra para ajustar com o tempo e em poucos anos se tornar incontestável.

Um blog gringo que eu sempre recomendo aqui é o Basketbawful, que é sem dúvida o mais engraçado sobre NBA. Uma das características do blog, a principal na verdade, é apontar tudo o que de ruim acontece na liga, todo dia tem um resumo deixando claro as merdas que cada um faz. Mesmo quem é bom e joga muito tem aquele detalhe negativo exposto para o nosso entretenimento. Sem contar que eles são sempre céticos e pessimistas, não dão elogios de graça para ninguém além do ídolo máximo do blog, Larry Bird.

Porém, eis o que eles escreveram há poucos dias quando Blake Griffin marcou 47 pontos contra o Indiana Pacers, maior marca de um jogador nessa temporada:

"Pense em todos os jogadores que deveriam dar uma reviravolta no Clippers: Bill Walton, Danny Manning, Antonio McDyess, Michael Olowokandi, Lamar Odom, Darius Miles, Elton Brand, Shaun Livingston... tantos fracassos.


Mas o Griffin é de verdade. O garoto é impressionante. E eu digo isso mesmo sendo o mais cínico da blogosfera em relação a tudo dentro da NBA. Não é só o seu talento, mas a sua atitude também. Eu sou um fã de Blake Griffin, ele me fez assistir ao Clippers.


E eu nunca achei que isso fosse acontecer. Nunca."


Esse pequeno texto deixa claro como é difícil se destacar no Clippers, não basta ter talento. E foca também na atitude do Griffin. Ele não é medroso e aceita derrotas como todos dentro da franquia, ele é agressivo, encara depois da enterrada, infla os companheiros de motivação a cada jogada, chama o jogo no final das partidas (e com sucesso, ao contrário do DeMarcus Cousins). Foi essa atitude positiva do Griffin, a mensagem que ele passa de que é um jogador que tem talento e quer vencer, que provocou a grande mudança na temporada Clipperiana.

O recorde patético mudou para um dos melhores da NBA quando Baron Davis voltou ao time e começou a jogar o seu melhor basquete desde que ainda não brigava com Don Nelson no Golden State Warriors. No começo dessa temporada o B-Diddy foi afastado do time pelo técnico Vinny Del Negro por estar fora de forma e não ter treinado na offseason. Até fizemos piada aqui quando ele disse que quando era novo ficava em forma rapidinho e agora se surpreende em como demora para ficar magro, é duro ficar velho. Mas depois do período fora ele recuperou (um pouco) a boa forma e, mais do que isso, voltou a ter vontade de jogar. Baron Davis é um daqueles jogadores com o ego difícil de controlar e que se acha o centro do mundo, se as coisas não são do jeito dele, dá o fora, ignora. Quando o resto do time não era bom ele não se dava ao trabalho de tentar melhorar as coisas, simplesmente deixava pra lá, mas agora, vendo que esse elenco com Eric Gordon, Blake Griffin e outras promessas como Al-Farouq Aminu e especialmente DeAndre Jordan está jogando bem, quer fazer parte da festa.

Dá pra questionar suas atitudes, sua personalidade, mas não o seu basquete. Quando ele tem aquele arremesso de meia distância funcionado ele é imparável nos pick-and-rolls e quando não está bocejando pensando no que vai comer quando voltar pra casa pode defender como um dos melhores. É mais um como Lamar Odom ou Vince Carter, é um dos melhores, mas só se valer a pena o esforço e a fadiga.

Para esse ano provavelmente não vai dar para ir para os playoffs. No Oeste é provável que os times precisem de 48 a 50 vitórias para estar em oitavo lugar e o Clippers tem 16 vitórias faltando 40 jogos. Se eles conseguirem 32 vitórias em 40 jogos não só se classificam como já entram favoritos a ganhar de todo mundo, porque seria heróico. Mas não só fica a boa impressão para o próximo ano como vale a pena vê-los em ação só pelo prazer de ver um time que agora tem padrão de jogo, jogadas bonitas e jogadores criativos. O resto dos times bons você vê nos playoffs, para a temporada a melhor pedida é pegar o League Pass e procurar o jogo do Clippers. E, juro, não estou sendo irônico.

Os 47 pontos de Griffin contra o Pacers:



E só pra lembrar que o Eric Gordon faz mais do que só bolas de 3




Ah, o Clippers tem um lado sombrio que vai além da sua maldição de fracassos. O dono do time Donald Sterling, para saber mais dele vai ter um perfil do cara por aqui nesse fim de semana. E vocês sabem, promessa do Bola Presa... (é furada, mas vou me esforçar!)

Atualização: Me avisaram nos comentários que o Blog Grandes Ligas fez um texto sobre o Donald Sterling. É muito bom, conta bastante dos absurdos que esse cara faz por aí! Ótima leitura.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Fedem mas nem tanto

"Dá um abraço no titio!"


Só de brincadeira, imagine que os 15 times de cada Conferência fossem aos playoffs no mesmo formato em que ele é hoje em dia: o melhor time enfrentando o pior, o segundo melhor enfrentando o segundo pior e assim por diante. Se os playoffs começassem hoje, teríamos o melhor time do Oeste, que é o Spurs, enfrentando o pior da  Conferência, que é o Clippers. Enquanto isso, o Lakers em má fase, que caiu para a quarta colocação, enfrentaria o Houston em fase tenebrosa, amargando a quarta pior campanha do Oeste. E, ainda assim, Clippers e Rockets saíram vitoriosos ontem. As duas zebras mostram não apenas que o Lakers anda tropeçando nas próprias pernas e que o Spurs não é esse time imbatível que se comenta por aí, mas também que Rockets e Clippers são equipes muito melhores do que suas campanhas indicam.

A última posição na tabela para o Clippers, em especial, é muito cruel. Isso porque um dos responsáveis pela péssima campanha é a famosa "maldição do Clippers", que sempre dá um jeito de contundir todo mundo caso o time seja bom: dentre os titulares, Chris Kaman está com uma torção e só jogou metade das partidas até agora, e Baron Davis tem problemas nos joelhos - fora que seus reservas também estão baleados, com o Eric Bledsoe voltando de uma torção no tornozelo e o Randy Foye ainda fora com uma lesão na coxa.

Com Kaman e Baron Davis em plenas condições no quinteto titular, o Clippers certamente teria mais algumas vitórias para sair do fundo do poço. No caso do Kaman, ele é um melhores pivôs da NBA e sua presença embaixo do aro certamente diminuiria a marcação em cima de Blake Griffin - além, claro, de ajudar o time na defesa do garrafão, em que eles fedem. Mas no caso do Baron Davis, o negócio é mais complicado. Quando ele entra bem em quadra, como foi o que aconteceu na partida de ontem contra o Spurs, o Clippers é um timaço. Não faz muito tempo que o Baron Davis era considerado um dos melhores armadores da liga, levando nas costas aquele Warriors que desclassificou o Mavs, dono da então melhor campanha na temporada regular. O problema é que, mesmo quando as contusões não aparecem, é muito difícil ver o Baron Davis entrar bem em quadra, simplesmente porque ele não se importa.

Quando jogava no Warriors, jogava com intensidade, enterrava na cabeça de todo mundo e chamava para si a responsabilidade. Às vezes, até demais. Por ser fominha demais em jogos cruciais que decidiriam a vaga para os playoffs, Don Nelson começou a deixar o Baron Davis de molho no banco de reservas nos momentos importantes das partidas. Não demorou para que ele desse o fora de lá, por conta própria, e escolhesse jogar em Los Angeles para estar mais próximo de sua empresa, uma produtora de filmes. Mas o arrependimento veio logo: Baron Davis descobriu que todas as outras equipes de basquete não comandadas pelo técnico-biruta Don Nelson eram times de verdade, com horários, treinos, defesa, regras de alimentação, jogadas planejadas. Em mais de uma ocasião, Davis foi a público dizer como as coisas eram mais "suaves" no Warriors, e que ele não se dava bem com o clima rígido e pesado do Clippers. Aos poucos foi se desinteressando, focado na produção de filmes nas suas férias, e deixando o basquete de lado.

A troca de técnico talvez pudesse renovar o interesse do Baron Davis, mas o primeiro passo foi catastrófico: ele se apresentou ao time completamente gordo, sem ter jogado um único minuto de basquete nas férias, e o novo técnico Vinny Del Negro ficou puto da vida. Esse é o Baron Davis, senhoras e senhores: um jogador que poderia estar chutando traseiros mas que já torrou o saco, apenas aguarda sua aposentadoria pra poder parar com essa bobagem de basquete. Tipo quem trabalha em banco.

O curioso é que o Baron Davis gordo e desinteressado já seria o bastante para que o Clippers se tornasse um time respeitável. É por isso que, tirando as lesões, a culpa é quase toda do Vinny Del Negro, que de bom só tem o nome de boxeador. Quanto mais vejo o Clippers jogar, mais lembro dos problemas do Bulls na temporada passada e mais acho o Vinny Del Negro um técnico medonho. No Clippers, quando a bola gira no ataque para um dos lados da quadra, ela simplesmente morre por lá. É como se o time tivesse uma jogada para levar a bola para a zona morta, mas quando não surge com isso uma oportunidade de arremesso, a jogada congela. Fica um jogador com cara de bunda segurando a bola bem marcado, 15 segundos sobrando no relógio de arremesso, e aí vai forçando caminho contra a defesa até fazer alguma merda. Essas jogadas que simplesmente "morrem" se extendem a qualquer jogada planejada pelo Clippers. Quando eles fazem um corta-luz na cabeça do garrafão, por exemplo, e não surge uma oportunidade de cesta, o armador sobra com a bola nas mãos e o time inteiro fica parado - provavelmente pensando algo como "nós só planejamos até aqui". As jogadas não tem nem ritmo, nem continuidade, e nem um "plano B". Provavelmente por isso o Derrick Rose era obrigado a se virar tanto sozinho, naquelas jogadas de abaixar a cabeça e correr pra frente que eu tanto critiquei na temporada passada. Pronto, tá aí: depois de ver o Clippers jogar e de ver o Derrick Rose acabar com o meu Houston Rockets uma semana atrás, posso dizer que ele chuta mesmo traseiros e que a culpa era do Vinny Del Negro.

Por isso mesmo o Baron Davis é tão importante para esse Clippers: só ele pode fazer o que o Derrick Rose fazia, que é conseguir espaço à força na defesa e conseguir uma situação de cesta. Ontem contra o Spurs, parecia até brincadeira de criança: o gordinho ia com seus movimentos em câmera lenta adentrando no garrafão da equipe de San Antonio e aí passava pro Griffin só porque era legal. Foi assim que o Griffin deu mais enterradas livres do que em qualquer outro jogo da carreira, e contra uma defesa que deveria ter engolido o novato vivo (pensando melhor, o Griffin já jogou contra o Knicks, então com certeza já deu mais enterradas livres, sim). O Blake Griffin anda despirocando a cabeça da molecada, já diriam essas gírias que eu não faço ideia do que significam. Ele já virou queridinho de uma grande parte do pessoal que acompanha a NBA e tinha saudades de ver tanta enterrada de um cara que não chame Dwight Howard. E tem mais, o Blake Griffin cria os próprios arremessos, arranja na marra o espaço para enterrar, e pode finalizar com as duas mãos sem ter que enterrar em toda jogada. Ou seja, sua inteligência no ataque é o bastante para vencer alguns jogos sozinho, enquanto a inteligência ofensiva do Dwight consegue no máximo fazer cruzadinhas no nível "É sopa!".

Mas é claro que o Dwight dá um pau quando o assunto é defesa, e é nesse ponto que os novos fãs do Clippers precisam respirar fundo e entender que o time ainda fede. Recebemos perguntas e comentários no formspring o tempo inteiro dizendo que o Griffin vai ser MVP, que o time só precisa de um armador para ser campeão, que o Clippers vai para os playoffs. Vamos parar com as "dorgas", por favor. Se não bastasse o ataque do Vinny Del Negro ser um desastre e depender justamente de um jogador que não está nem um pouco interessado em jogar basquete, a defesa é ainda pior. O posicionamento para os rebotes é péssimo (inclusive por parte do Griffin), a cobertura é mal feita porque a marcação não roda, e faltam defensores no perímetro. No garrafão, DeAndre Jordan é muito cru e, mesmo tendo muito potencial, não deixa de ser simplesmente uma anta. Suas falhas defensivas são assustadoras, coisa que um gorila treinado não faria, mas aí ele dá alguns tocos espetaculares porque ele conseguiria pular até a Lua se quisesse e todo mundo esquece das cagadas. Kaman precisa voltar logo, pena que os joelhos dele são feitos de farinha.

Eric Gordon está chutando traseiros, voltou espetacular de seu tempinho com a seleção gringa, mas o aproveitamento nas bolas de três pontos tem sido um problema. Eric Gordon tem problemas para se livrar da marcação no perímetro, e as jogadas do Clippers nunca lhe deixam livre. Falta um bom passador no garrafão (coisa que o Griffin, só às vezes, consegue ser) e jogadas que girem a bola atrás de um jogador livre, não que morram nas mãos do Eric Gordon bem marcado e ele não possa fazer nada a não ser forçar uma bola de três pontos horrorosa. Contra defesas de perímetro mais vagabundas, o Clippers é um time bem mais eficiente.

Coisa similar acontece com o Houston Rockets, que também não merece amargar a quarta pior campanha do Oeste. Já falei deles num post recentemente, abordando a dificuldade do time em conseguir um padrão de jogo, mas ainda assim formam uma equipe muito perigosa quando as bolas de três pontos estão caindo. As movimentações ofensivas do técnico Rick Adelman se focam muito em cortes em direção à cesta, seja pelo meio do garrafão, seja pelo fundo da quadra. As equipes que defendem bem o garrafão acabam diminuindo a movimentação do Houston, e as bolas de três pontos precisam cair porque sobra muito espaço para arremessar nesse esquema. Bons arremessadores o time até tem, mas além da maioria não arremessar tanto quanto deveria (deve ser resultado de muita lavagem cerebral do tipo "passem primeiro para o garrafão, procurem primeiro o Yao Ming", que vai resultar em cedo ou tarde alguém passando a bola para o Yao de terno no banco de reservas), o aproveitamento também tem sido péssimo. Minha sugestão é que se trata, agora, de uma questão de confiança. Após perder os primeiros jogos por placares apertados, não ter mais Yao Ming, e ver a posição na tabela caindo cada vez mais, os arremessos de três ganham outro peso, ficam mais difíceis de converter. Especialmente porque o melhor arremessador da equipe, que é o armador titular Aaron Brooks, passou a maior parte da temporada fora lesionado. Quando ele acerta um par de bolinhas o time acalma, respira, e fica mais fácil para os jogadores secundários acertarem as deles. Depender de bolas de três de quem está tremendo e não quer arremessar fica muito complicado.

É por isso que o Houston venceu o Lakers ontem na experiência do Shane Battier, que sempre foi um bom arremessador de três da zona morta mas que pouco arremessa nesse time, executando outras funções - especialmente defensivas porque o resto do Rockets fede e muito na defesa. Quando as bolas de três caem o Houston é muito perigoso, e isso agora significa - sem Aaron Brooks - que o Battier precisa usar seu sangue frio para arremessar mais. O time coloca cada vez mais a bola nas mãos do Kevin Martin nos momentos difíceis, e ele é um bom arremessador, mas sua tendência é sempre de bater para dentro. Dá pra ver que ele força arremessos de três que não queria dar apenas porque sabe que o time precisa deles, mas sua especialidade é outra - e os próprios arremessos de três que dá seriam mais eficientes se ele pudesse chutar apenas quando está realmente livre, sem a pressão de ter que arremessar a toda hora.

Quando Brooks e Yao voltarem, a situação melhora e o fundo da tabela vai ser coisa do passado, mas a falta de padrão de jogo vai acompanhar para sempre esse time enquanto o Yao for peça central. Assim como o Clippers, que sabe muito bem como é depender de um jogador como o Baron Davis que você nunca sabe se estará lá de verdade, se você poderá ou não contar com ele. O potencial para que os times escalem rumo aos playoffs existe, mas as chances beiram ao ridículo graças à essa dependência de jogadores inconstantes e o quanto isso destrói o padrão de jogo de uma equipe.

Sobre o Lakers e o Spurs, que perderam, a gente comenta nos próximos dias. Mas não antes de comentar a partida de hoje à noite entre Cavs e Heat, que é também um jogo entre um dos quatro melhores do Leste contra um adversário mais fraco - mas que estaria indo para os playoffs, em oitavo, com seus próprios méritos. E tudo isso sendo bem pior do que Clippers e Rockets, vale ressaltar. O mistério do rendimento do Cavs e a reação da equipe - e da cidade - à presença de LeBron James serão nosso post de amanhã. E, antes disso, não deixe de acompanhar a partida (que começa às 23h) através do nosso twitter, que vai estar bombaaaando, cheio de curtição e azaração para a nossa galerinha irada!

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Primeiras confusões

UConn + Pistons = Foto brega


A temporada mal tem duas semanas de vida e já temos confusões entre técnico e jogadores e times em crise. Se fosse o Brasileirão já tinha técnico no olho da rua. Felizmente não temos demissões de treinadores após cada rodada na liga como no futebol brazuca, imagina 82 técnicos demitidos por temporada! Daria para um mesmo técnico passar por todos os times mais de uma vez. Só não damos a idéia para os donos de time, porque é bem capaz deles acharem que é uma solução moderna e inovadora. Times estão em crise e perdendo dinheiro, uns podem culpar a economia, outros eles mesmos.

Mas uma coisa o basquete e nosso futebol sagrado de cada dia tem em comum, crises estão sempre relacionadas a derrotas. Só ver o Detroit Pistons, que junto com o Houston Rockets são os únicos times que ainda não venceram na temporada. O Pistons não tem jogado muito mal, mas tem perdido. A dupla de armadores com Rodney Stuckey e Ben Gordon pareceu, durante uns dois ou três jogos, a mais empolgante da NBA. Não a melhor, claro, mas divertia pelos dois serem agressivos e por se completarem com infiltrações e arremessos. Dava pra ver essa dupla ganhando vários jogos por conta própria. Só que não ganharam.

Das cinco derrotas que eles tem na temporada a primeira foi por 3 pontinhos e a segunda por um mísero ponto. A terceira foi por 10, para o Bulls, mas durante 3 períodos eles foram o melhor time disparado e chegaram a liderar por 15. E, por fim, perderam para o poderoso Celtics e para o Hawks, que é o melhor time do Leste nesses primeiros 5 jogos. São derrotas compreensíveis e no meio do caminho o time teve momentos ótimos, mas ainda assim são derrotas e elas irritam a torcida, técnico e jogadores. Como em quase tudo atualmente, não importa se o processo está indo bem se o resultado não é positivo.

Depois da derrota para o Bulls, a da virada, uma série de três declarações mostrou como o clima não foi nada bom no vestiário. Primeiro Ben Gordon, que disse que "Não fizemos os ajustes certos como time (...), precisávamos ter feito algo diferente". Depois o técnico John Kuester, "Precisamos achar uma outra voz de liderança no time além da minha" e, pra fechar com fatality, Tayshaun Prince, "Isso vale para os dois lados. Ele diz que precisamos de mais voz dentro do time e ele precisa fazer algumas coisas melhor também, se não ganhamos até agora não é culpa só do time".

Não dá pra achar que um jogador dizendo em público que o técnico precisa fazer um trabalho melhor é boa coisa. No fundo todos tem razão: o time não se ajustou bem ao segundo tempo forte do Bulls, faltou liderança dentro da quadra para acalmar o time e o técnico é parte do grupo de quem errou. O problema está no fato de que nenhum deles disse exatamente o que deveriam ter feito para mudar, ficaram jogando a culpa uns nos outros e ainda o fizeram em público. É a velha história de que não é o que você fala, mas como você fala.

Os problemas do Pistons são vários e todos juntos os levaram a essa situação de já ter discussão digna de Big Brother na segunda semana da temporada. O primeiro é que o time não ganha nada desde que eles trocaram o Chauncey Billups para o Nuggets em 2008. De lá pra cá o time que tinha ido para a final do Leste em todos os anos desde 2003 virou saco de pancadas. E uma coisa é você jogar no Wolves e achar que perder é normal, outra é disputar playoffs todo ano e de repente tomar de 20 de time mediano. Não ajuda que o técnico não tem muita moral, se fosse com alguém com a fama de Larry Brown ou Phil Jackson nunca que o Tayshaun Prince iria se atrever a dizer algo assim, mas com Kuester, que está no seu primeiro trabalho como treinador principal, é mais fácil.

Além disso ainda tem um fator que é muito comum ao do Rockets, o outro time que perdeu todas, excesso de jogadores. O Rockets tem excesso de bons jogadores em todas as posições e parecem estar tendo dificuldades em achar a rotação certa com espaço pra todo mundo jogar bem, no fim das contas tentam dividir muito os minutos e ninguém pega o embalo durante o jogo. O Pistons não está com tanto luxo assim, mas tem excesso em algumas posições. Tentar dividir os minutos nas posições de armação entre Rodney Stuckey, Ben Gordon, Richard Hamilton, Will Bynum e Tracy McGrady não tem sido fácil. Imagina como ficou a cabeça de todos esses quando Gordon se perdeu na conta e nem arremessou a última bola no jogo que perderam por um ponto para o Thunder.

E como desgraça pouco é bobagem, ontem teve mais problema. No meio do terceiro quarto do jogo contra o Hawks, quando o placar estava bem apertado, o jogo estava parado (por causa de algum lance livre ou algo assim) e Kuester chamou Stuckey para dar instruções, mas o jogador não atendeu. O técnico insistiu, o chamou de novo e nada do armador ir até lá. Imediatamente Kuester chamou DaJuan Summers no banco, fez a alteração e Stuckey, o Nezinho de Auburn Hills, não entrou mais em quadra. Questionado sobre o caso depois do jogo ele só disse que "É o que é". Esclarecedor, Stuckey.

Pelo o que comentam em Detroit, o comportamento do armador tem a ver com o fato de que ele estava negociando uma extensão de contrato e não conseguiu nada, saiu de mãos vazias. Agora, como não obedecer o técnico ajuda ele a conseguir fazer dar certo é um mistério.

O John Kuester, para quem não lembra, foi a única pessoa que conseguiu fazer o Cavs da era LeBron James ter um ataque realmente bom e eficiente. Ele era assistente de Mike Brown e foi o responsável por fazer o time ser mais veloz, aproveitar o Mo Williams no que ele é bom e fazer o time ser mais completo. Claro que quando a água batia na bunda o Mike Brown corria para mandar eles só isolarem o LeBron, mas tudo bem, não era culpa do assistente.

Em Detroit, porém, nada feito. No ano passado eles foram o penúltimo time em pontos por jogo e o 21º em pontos a cada 100 posses de bola. Eles não tem nenhum jogador que seja uma ameaça no garrafão, Richard Hamilton não é sombra do que já foi um dia e até o Ben Gordon, que foi colocado no mundo para fazer pontos, só teve média de 13 no ano passado.

Quer mais desgraça? Então vamos lá. Um repórter de Detroit disse que o clima entre os jogadores também não é dos melhores, que o grupo de jogadores mais velhos como Ben Wallace, Richard Hamilton e Tayshaun Prince não se bica com os mais jovens como Charlie Villanueva e Ben Gordon. O Pistons deu sinais de que poderia não ser o pior time do Leste, mas durou só dois e meio jogos. Com tanta crise já no começo do ano é de se esperar que em breve eles já estejam em busca de algumas trocas. Que o General Manager Joe Dumars tenha mais cabeça do que teve quando trocou Billups e do que quando pagou uma nota preta para Gordon e Villanueva.

Um outro time parecia que iria ter problemas, mas as coisas até que deram certo. E por incrível que pareça esse time é o Clippers! Lembra que no preview deles eu disse que eles dependiam do Baron Davis para ser um time de verdade? Pois o cara nem se esforçou. Apareceu gordo na pré-temporada, jogou partidas ridículas com mais turnovers que assistências e aí o técnico Vinny Del Negro disse que estava decepcionado com o seu jogador fora de forma. Por incrível que pareça, Baron Davis disse que ele tinha toda razão.

Segundo o armador ele nunca fez exercícios nas férias durante toda sua carreira. A temporada acabava, ele esquecia de tudo e só ia se exercitar de novo em agosto. Acontece que agora ele está velho e isso não funciona mais. O Baron Davis pelo menos admitiu e disse que irá fazer diferente daqui pra frente, só não sabemos se em Los Angeles. No jogo de ontem o novato Eric Bledsoe foi titular e jogou muito, botou um ritmo veloz no jogo, se entendeu perfeitamente com o Eric Gordon e eles venceram o Thunder. Menos de um segundo depois do jogo já pipocavam os primeiros rumores de troca do Baron Davis. Tudo boato, claro, mas garanto que lá dentro do Clippers já cogitam a mesma coisa.

Entrando no desnecessário mundo da especulação daria pra pensar em incluir o Chris Kaman com o Baron Davis para fazer um pacote mais atraente ao redor da liga, afinal pivôs são raros. E ele nem faria muita falta ao Clippers, o garrafão com Blake Griffin e Chris Kaman consegue ser um dos melhores da liga no ataque e o mais frágil na defesa. O problema dessa idéia é que os dois juntos recebem 24 milhões de dólares nessa temporada, quem pode arcar com isso? Talvez o próprio Pistons mandando Hamilton e Prince? Joe Dumars foi questionado há alguns parágrafos. Ok, ok, já parei. Muita coisa para pouca temporada.

domingo, 24 de outubro de 2010

Preview 2010-11 / Los Angeles Clippers

O muso Chris Kaman sofre por ser um Clipper



Objetivo máximo: Ser levado a sério
Não seria estranho: Ter um time bom e forte até alguma coisa bizarra fazer tudo dar errado
Desastre: Ser o time mais amaldiçoado da NBA pelo 50º ano seguido

Forças: Bom grupo de jovens jogadores e ótima dupla de garrafão
Fraquezas: Contusões, falta de entrosamento, maldição do cemitério indígena

Elenco:








.....
Técnico: Vinny Del Negro





Quando fizemos a Semana dos Técnicos em 2008 era logo antes da estreia do Del Negro como treinador do Bulls. Olha o que dissemos antes de vê-lo em ação:

"Gostaria de ser capaz de explicar o motivo dessa escolha, mas não consigo pensar em nada que não seja sua força nominal. Del Negro não tem qualquer experiência como técnico ou auxiliar técnico, apenas foi comentarista, trabalhou na parte administrativa do Suns e tem um nome bacana capaz de vender vários CDs de música pop para garotas.


Os responsáveis pelo Chicago Bulls afirmaram que Vinny foi o que se saiu melhor nas entrevistas para o emprego, cheio de novas idéais e uma vontade enorme de aprender. Mas não é o que todo mundo diz em entrevistas de emprego? "Sim, senhor, tenho muita vontade de aprender, sim. Defeito? Ah, eu sou perfeccionista, sabe? Gosto de tudo feito direitinho, faço até hora extra se for necessário." O pessoal no Bulls não tem experiência em mentiras de escritório."

Pois é, o Bulls contratou um técnico que de experiência só tinha todos os seus anos de jogador da NBA. Mas não deu tão errado assim, no fim das contas a imagem de técnico novato atrapalhou mais do que a real competência do treinador. Em dois anos de Bulls ele disputou 164 jogos, venceu 82 e perdeu 82. Idênticas campanhas de 41-41 em cada temporada, classificando o Bulls em sétimo e oitavo nos playoffs. E no primeiro ano ainda liderou o Bulls naquela fantástica série de playoff em 7 jogos contra o Celtics, uma das melhores de todos os tempos.

Como toda criança, Del Negro nasceu. E como todo técnico, Del Negro errou e acertou bastante. Ele errou por exemplo ao não conseguir impôr jogadas de ataque para o Bulls que fossem além de pick-and-rolls com o Derrick Rose e jogadas imbecis de isolação do Ben Gordon (que muitas vezes davam certo!). Mas acertou ao montar uma defesa boa (11ª melhor no ano passado) e ao saber usar o Joakim Noah desengonçado e com vontade. E foi especialmente impressionante no ano passado como ele conseguiu manter o time junto e jogando bem mesmo depois de momentos difíceis, como aquela derrota homérica em casa para o Kings (que em parte foi culpa dele também!) ou quando a direção começou a desmontar o elenco no meio da temporada.

Seus erros e acertos se equivalem, como seus recordes de 41-41 em todo ano. Talvez fosse o bastante para um técnico experiente continuar mais um ano no cargo, mas não para Del Negro. Sabe no futebol quando aquele técnico não fez nada de mais e todo mundo sabe que a direção só está esperando um escorregão dele para mandá-lo embora e contratar quem eles realmente querem? Foi isso o que aconteceu com o técnico de maior força nominal da NBA (nome de boxeador, segundo o Danilo).

Por sorte ele não ficou muito tempo desempregado e o Clippers resolveu dar uma chance para ele. Sem a pressão da exigente torcida e imprensa do Bulls e com todos esperando somente o fracasso (mais um) desse Clippers, acho que ele tem boas chances de mais acertar do que errar. E como o elenco do Clippers não é muito velho, longe disso, talvez a sua falta de experiência nem pese tanto no vestiário. Eu, ingênuo, acho que tem tudo pra dar certo.

.....
Antes de mais nada, o vídeo mais sensacional que eu já vi sobre o Clippers:




Pronto, agora podemos começar.

O Clippers não teve medo de fazer várias trocas no fim da temporada passada para abrir o máximo de espaço salarial. Acabou ficando com um elenco só de DeAndre Jordan, Chris Kaman, Blake Griffin, Eric Gordon e Baron Davis. 

Foi uma atitude arriscada porque o Clippers não costuma atrair Free Agents de peso. O último foi Baron Davis e teve mais a ver com o fato do jogador querer morar em Los Angeles (ele tem uma produtora de cinema) do que com o time mesmo. Os motivos para não atrair jogadores de nome são vários: o time não ganha nada faz tempo, não tem um técnico que impressione os jogadores, não tem atenção da mídia, tem fama de perdedor e o seu dono, Donald Sterling, é um idiota que volta e meia faz comentários racistas, sexistas ou só idiotas mesmo. Nessa offseason ele comentou as contratações de Randy Foye e Ryan Gomes dizendo "Eu nunca ouvi falar desses caras, mas o que eu posso fazer se o técnico pediu?". Boa primeira impressão para os novos funcionários.

Por tudo isso não foi surpresa quando Chris Bosh, Dwyane Wade, LeBron James, Rudy Gay e toda a cambada de jogadores que puderam mudar de time nos últimos meses nem deram atenção para o Clippers. Mas embora eles tenham falhado em conseguir uma estrela, acho que fizeram um bom trabalho nas contratações. Já que quem tem opção não quer ir pra lá, correram atrás de jogadores que são bons, mas que não estavam em situação de ficar negando contrato por aí. Caso dos citados Randy Foye e Ryan Gomes. Também renovaram com a parede de aço Craig "The Rhino" Smith e com Rasual Butler.

Também cheguei a pensar que eles se precipitaram ao draftar Al-Fariq Aminu, mas depois de ver um pouco dele na pré-temporada estou mais otimista, está melhor do que na Summer League. Talvez não seja tão bom quanto jogadores que foram escolhidos depois, como Gordon Hayward ou Paul George, mas ruim parece que não vai ser.

Achei que essa abordagem pegando jogadores não tão badalados foi boa. Por um momento poderia apostar pesado que o time iria se desesperar e despejar milhões de dólares em jogadores que acham que valem muito e não valem tanta coisa, como Travis Outlaw, Tracy McGrady ou Raymond Felton. Com as contratações que fizeram, o Clippers montou um banco de reservas sólido, sem jogadores com histórico de contusão (até chegar no Clippers, pelo menos! Nunca se sabe!) e que vão apenas funcionar para deixar brilhar as verdadeiras estrelas do time, os que continuaram da temporada passada: Griffin, Davis, Gordon e Kaman. É um baita núcleo que só precisa de um técnico que faça esse circo não parecer um time escolhido no Draft Aleatório do NBA 2K11 para funcionar.

Ah, só para o Clippers não perder a identidade de time burro em que dá tudo errado eles também gastaram uma graninha para contratar o Brian Cook, jogador que disputa pau a pau com o Smush Parker para ser o pior jogador que passou pelo Lakers nos últimos 10 anos. O que leva alguém a pagar por um jogador tão ruim eu não sei, mas não é que o puto teve média de 9 pontos em 12 minutos por jogo na pré-temporada? Se ele der certo no time eu viajo até Los Angeles, compro uma camiseta do Cook e só vou embora quando ele autografar.

Fazer uma boa offseason e ficar acima da expectativa sempre abaixo de zero que temos em relação ao Clippers não quer dizer que eles vão ser um sucesso, porém. Eles precisam que esses jogadores novos não se machuquem, não fiquem deprimidos porque se separaram da mulher, não cortem o dedo cortando limão ou não desistam da carreira de basquete para virar monge no Tibete. Tudo pode acontecer quando você veste esse uniforme! Também precisam que o joelho do Blake Griffin não volte a ter problemas, que o Chris Kaman seja menos frágil na defesa e principalmente que o Baron Davis finalmente se sinta interessado em jogar basquete de novo. Porque no ano passado ele era capaz de ir para o ataque, pedir uma jogada, depois ficar entediado, arremessar qualquer tijolo de três e voltar andando para a defesa. Sem ele afim o time não vai passar de uma equipe ruim, ainda mais enfrentando tanto time bom no Oeste.

Eu gosto de ser teimoso e ficar pelo menos um pouco otimista com o Clippers. Se o Boston Red Sox foi campeão do baseball depois de 86 anos, por que o Clippers não pode se redimir um dia? Pode e não deve ser nesse ano, mas Blake Griffin tem tudo para ser o melhor jogador da franquia desde os tempos áureos de Elton Brand e ser um bom primeiro passo. Se o Del Negro entrosar essa galera acho que vai dar pra ver eles engrossando contra muito time bom e não mais passando vergonha. Mais uma vez o time tem elenco pra não ser ridículo, vamos ver se dessa vez acontece alguma coisa.

Para ler mais sobre as mudanças do Clippers no offseason tem o post "Mesmo Circo" em que o Danilo é um pouco menos otimista que eu. E para ler sobre outros causos da maldição do Clippers tem o texto "Exorcismo no Clippers" e o "Ô a maldição voltou...".