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terça-feira, 8 de março de 2011

Fetiche por gigantes

Se o Brooks já era porra-louca, imagina quantas mães ele vai arremessar no Suns


Com a chegada da data limite para trocas na NBA, trocentos times resolveram fazer mudanças importantes. Alguns resolveram que era época de reconstruir, outros conseguiram peças importantes para tentar chegar ao título. Desde então sentamos e analisamos todas essas trocas, Jeff Green para o Celtics, Hinrich para o Hawks, Mo Williams para o Clippers, Deron Williams para o Nets, Carmelo para o Knicks e Gerald Wallace para o Blazers, além dos jogadores que foram dispensados e trocaram de time após as trocas, como o Mike Bibby indo para o Heat e o Troy Murphy indo para o Celtics. Só faltaram duas trocas, que são a parte que me cabe neste latifúndio. Como bom torcedor do Houston, é meu dever de cidadão analisar a troca que mandou Aaron Brooks para o Suns pelo Goran Dragic mais uma escolha de draft e a troca que mandou Shane Battier de volta para o Grizzlies pelo Thabeet e uma escolha de draft. Legal, vamos voltar do carnaval (em que você passou o dia inteiro atrás de atualizações do Bola Presa clicando com cara de fracasso vendo sua lista vazia no MSN, ou então estava bêbado demais para se importar com basquete) e nos deparar com mais um texto sobre o Houston escrito pelo lambedor de bolas oficial do Yao Ming. Ah, não é uma delícia fazer o que a gente bem entende?

No post sobre a troca do Blazers, lembramos do processo de reconstrução da equipe que começou mandando embora Zach Randolph, então melhor jogador da equipe. Mesmo sem outras trocas, escolhas de draft ou contratações, o Blazers já melhorou imediatamente só de não ter o Randolph em quadra. Em parte porque ele era um buraco negro (quando a bola chegava nele, nunca mais escapava), em parte porque ele produzia bons números mas não defendia bulhufas, mas o motivo principal da melhora da equipe foi que  a saída do Randolph abriu espaço para outros estilos de jogo e deu oportunidade para outros jogadores mais jovens. Cada caso é um caso, não é sempre que funciona, o Cavs sem seu melhor jogador virou um dos piores times da NBA, mas às vezes vale a pena perder uma peça que parece essencial e dar minutos ao resto do elenco. Curiosamente é o que está acontecendo com o Nuggets, por exemplo, que sem o Carmelo agora pode se dedicar a um sistema de jogo defensivo e dar minutos a um elenco bastante profundo. Com o Houston aconteceu algo parecido, mas em menor grau.

Desde que o Tracy McGrady foi boicotado e mandado embora, o time continua com sua política de manter um jogo coletivo e sem estrelas que consegue fazer estrago, mas que sem Yao Ming provou que não vai a lugar nenhum. Aaron Brooks foi um dos melhores jogadores da equipe nas duas últimas temporadas, foi líder da NBA em bolas de 3 pontos, deu sufoco para o Lakers nos playoffs e assumiu a responsabilidade nos momentos decisivos de inúmeras partidas - mas ele ainda era apenas mais um armador em uma equipe cheia até as orelhas de outros armadores. Rapidamente ele foi de jogador mais importante para jogador mais desnecessário - e a equipe melhorou muito sem ele.

Isso aconteceu porque a defesa do Houston desmontou inteira sem Yao Ming. Tendo que usar um garrafão muito baixo e com limitações defensivas graves (jeito simpático de dizer que todo mundo fede), a tática de afunilar a defesa para o centro do garrafão virou farofa. Os jogadores de perímetro passaram a ser responsáveis por impedir os adversários de infiltrar, e não de forçar a infiltração pelo meio como antigamente. O problema é que Kevin Martin e Aaron Brooks são simplesmente terríveis na defesa mano-a-mano, é de dar vergonha. Com os dois em quadra como titulares, a defesa da equipe virou uma peneira, mais aberta do que passista bêbada de escola de samba, e vários jogos foram perdidos por pouco no começo da temporada justamente porque o Houston não conseguia impedir pontos nos minutos mais importantes. A temporada foi pro saco bem no começo, com os jogos perdidos por pouco, e desde então o time não fez outra coisa além de correr atrás do prejuízo em busca de uma vaga nos playoffs.

Quando o Brooks se machucou e Kyle Lowry assumiu a armação da equipe, as coisas melhoraram muito. Lowry é um excelente defensor, um dos melhores na posição, e bastou que tivesse mais minutos (e se recuperasse da própria lesão que sofreu) para se acostumar com as funções do Brooks e começar a acertar os arremessos de três pontos que eram característica do antigo dono do cargo. A profundidade do elenco também apareceu com a contusão do Brooks: o Courtney Lee, também excelente defensor, joga muito bem quando tem minutos decentes. Chase Budinger se destaca nas bolas de três se o armador não arremessar tanto. Ish Smith, que teve minutos quando todos os outros armadores estavam lesionados, mostrou que consegue segurar as pontos. E Terrance Williams, que anda destruindo nos treinos da equipe, só não entra em quadra pra pontuar como um maluco porque ele é essencialmente igual ao Brooks no que tange à defesa.

Ou seja, não deu pra sentir falta do Brooks enquanto ele esteve contundido. Tem armador de baciada para entrar no seu lugar, incluindo um armador que sequer tem espaço para ser utilizado e que faz as mesmas coisas que ele. O time ainda tem suas dificuldades, continua perdendo, mas é melhor com Kyle Lowry armando e o resto dos armadores tendo oportunidade em quadra. O Brooks é bom, isso é inegável, mas Lowry é um armador mais experiente com uma carreira inteira em que foi reserva e merecia ser titular, é bonito ver ele finalmente morder a vaga e não largar mais.

Quando voltou de contusão, o Brooks foi pro banco de reservas. Sua vaga como titular estava tomada em definitivo, não adiantava chorar. Seu contrato acaba nessa temporada, então era bem óbvio que o Houston não iria reassinar o armador por uma bagatela e que o Brooks iria procurar outros ares. Seria normal perder o armador por nada e respirar aliviado com o espaço criado pela sua partida, coisa de elenco profundo e nenhuma chance de título, mas o Houston conseguiu trocá-lo numa jogada de mestre. Porque o Suns não sabe o que faz.

O Goran Dragic não estava jogando bem em Phoenix, é verdade, mas ele comandou o ataque do Suns nos playoffs passados com algumas partidas simplesmente espetaculares e é disparado o melhor defensor da equipe na posição (o que não quer dizer nada num time que tem o Nash, claro). Faz tempo que o armador esloveno está sendo cuidadosamente criado para assumir o time numa possível saída do Nash, mas parece que o Suns simplesmente encheu o saco. Mandaram o armador embora, junto com uma escolha de draft (do Suns, se eles não forem para os playoffs, ou do Magic, caso eles consigam ir) e pegaram o Brooks para assumir a reserva e o Ish Smith pra segurar as pontas quando Nash e Brooks jogarem ao mesmo tempo em quadra numa formação mais baixa. Caso a equipe tenha esperanças de se dar bem nos playoffs, o Brooks pode ser uma boa - ele fez chover contra o Lakers, é mais rápido que o Dragic, arremessa melhor e tem experiência levando um time nas costas na pós-temporada. Mas para assumir o lugar do Nash, a troca não faz sentido. O contrato do Brooks vai acabar nessa temporada e não há garantia de que ele vá reassinar com o Suns. A troca pareceu apenas um empréstimo para ver se a equipe consegue ir bem nos playoffs nessa temporada, o que é ridículo. Desde quando o Suns deveria se importar com essa temporada? Tudo bem que o time deveria feder mas nunca fede, que eles continuam ganhando mesmo quando a gente espera que eles desmontem, mas alguém realmente acredita que essa equipe que depende do Channing Frye e do Vince Carter vai a algum lugar? Quando finalmente achamos que o Suns vai se tocar, entrar em reconstrução e trocar o Nash, eles insistem em vencer uns jogos bizarros, continuam com chances de ir pros playoffs e fazem uma troca que não pensa em nada no futuro. Não entendo esse time nem lascando. Pra mim foi a troca mais desequilibrada da data limite, o Houston cometeu um assalto à mão armada e o Suns tá lá, feliz da vida, achando que dá pra vencer o Spurs nos playoffs e mandar o futuro às favas. Legal. Se eles forem campeões com esse time mequetrefe, sendo que não conseguiram com Amar'e e Jason Richardson, façam favor de jogar esse mundo fora porque não vou querer viver nele.

A outra troca do Houston tem muito em comum com a primeira. Os jogadores que ganharam espaço com a lesão do Aaron Brooks, como Courtney Lee e Chase Budinger, não apenas se mostraram competentes com os minutos como também são o futuro do Houston, que não tem motivo para pensar no agora. Shane Battier é um gênio, continua sendo um dos melhores defensores da NBA e é mais obediente do que cachorro de cego, respeita toda e qualquer instrução tática, lê bem o jogo e executa bem todas as pequenas coisas como se jogar no chão e dar cabeçadas em muros de concreto. Mas ele é o tipo de jogador essencial para equipes que querem ser campeãs, não para equipes que estão formando elencos profundos baseados em pirralhada. Ele era a peça final para levar Yao e Tracy McGrady ao titulo, o Houston até abriu mão do Rudy Gay novato porque não tinha paciência para esperar o pirralho amadurecer. Mas o título não veio, as lesões não deixaram, o Rudy Gay virou estrela no Grizzlies e o Battier agora não é mais necessário. Com o contrato expirante do Yao Ming, o Houston vai ter grana para decidir quais jogadores jovens manter e quem trazer para dar uma força, mas está longe de ter chances reais pelos próximos anos. O Battier estava sendo pouco aproveitado. Isso ficava óbvio quando o Houston vencia jogos graças às bolas de três pontos do Battier, não graças à sua defesa. Toda vez que ele entrava em quadra com a mira calibrada, as chances de vitória da equipe eram muito maiores. Pronto, agora o Houston pode usar o Chase Budinger de titular que é especialista nas tais bolas de três e o Courtney Lee pode brilhar na defesa arremessando muito melhor do que o Battier jamais arremessará. Ponto pra meninada.

No Grizzlies a situação é inversa. Agora o time se leva a sério, a reconstrução feita aos trancos e barrancos que começou com a troca do Pau Gasol deu resultado, e eles realmente acreditam que podem surpreender nos playoffs. O projeto do Grizzlies teve um monte de tropeços, o OJ Mayo deu dor de cabeça e foi deixando de ser usado, o Hasheem Thabeet veio com a segunda escolha do draft mas não está pronto para a NBA, o Rudy Gay se contundiu no meio dessa temporada (e só volta agora no final de março), e mesmo assim o Grizzlies continua impressionando todo mundo com uma defesa sufocante e vencendo jogos que não deveria vencer. É um time de verdade capaz de garantir uma vaga nos playoffs e surpreender qualquer adversário através da defesa. Quão bizarro é isso num time que tem Zach Randolph como titular? É maluco mas é real, e agora o Grizzlies precisa acreditar que pode vencer imediatamente, preparando terreno para a inevitável evolução da equipe. Tony Allen encontrou nova vida após o Celtics com a sua forte defesa individual, então Shane Battier com certeza vai se encaixar no esquema defensivo, quebrar um galho nos rebotes enquanto Rudy Gay está fora, e fazer as pequenas coisas que o time precisa nos playoffs. Ainda que o contrato do Battier também seja expirante como o do Brooks, tudo leva a crer que o Battier vai ter muitos movitos para continuar na equipe após essa temporada e terá um papel importante na campanha da equipe nos playoffs e no futuro.

Para conseguir Battier, o Grizzlies teve apenas que desistir de uma escolha de draft futura (provavelmente de 2013, quando eles esperam estar na elite da liga) e de uma cagada, o pivô Hasheem Thabeet. Todo mundo sabia que o pivô estava mais cru do que sashimi quando foi draftado, mas o Grizzlies insistiu em gastar uma segunda escolha com o rapaz. Agora que precisam vencer hoje mesmo, não dá pra esperar mais 10 anos até que o pivô aprenda a amarrar os próprios cadarços. O Houston pode ter essa paciência numa boa, e está tão desesperado por um pivô que vale até a pena arriscar um jogador que precisa de ajuda para se limpar quando vai ao banheiro. O lado positivo pro Houston é que o Thabeet não foi um fracasso completo como novato. Ele teve média de mais de um toco por jogo mesmo ficando em quadra por pouco mais de 10 minutos. Ele é um poste gigantesco com 2,21m de altura capaz de alterar muitos arremessos e bloquear outros tantos, mas com dificuldade para correr de um lado para o outro, técnica nenhuma no ataque e físico inferior ao do Justin Bieber. Se o Houston quer voltar a ter uma presença defensiva no garrafão para que a defesa do perímetro afunile em sua direção, como fazia com Yao e com o Mutombo, o Thabeet é uma esperança. O Grizzlies foi ficando bom e aí não fazia mais sentido dar minutos para o pirralho que só sabe dar tocos, o Houston pode esperar mas é bem capaz que também fique bom demais antes do pivô deslanchar, e aí não vai fazer sentido usá-lo. Por enquanto o Houston está sendo cauteloso, avaliando o Thabeet nos treinos, ainda vendo se a nova formação da equipe se encaixa e se tem chances de lutar por uma oitava vaga. Em breve ele vai ganhar mais chances e minutos, coisa de time com fetiche por pivôs com mais de 2,20m de altura. É legal ganhar um pivô com potencial em troca de um jogador que não era mais tão útil e cuja partida abrirá espaço para outros jovens promissores, mas convenhamos: ficar dependendo de pivôs gigantes mostra que o Houston definitivamente não aprendeu uma lição importante sobre a saúde desses jogadores-aberrações. Aposto que o Grizzlies agora respira aliviado por não ter que lidar com essa bomba, mesmo que no futuro o pivô venha a render alguma coisa. É melhor garantir umas vitórias agora do que ter que carregar o fardo de uma péssima escolha de draft pra vida toda. O fardo agora é do Houston, mas é mais leve porque é só uma pequena aposta que custou pouco - desde que a equipe não morra de amores pelo pivô e deposite todas as suas fichas nele. Mas como ele mal entrou em quadra desde que a troca aconteceu, não acho que seja o caso. Como torcedor, também não vou esperar grandes merdas, vou só ficar de olho porque, né, vai que dá certo?

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Fedem mas nem tanto

"Dá um abraço no titio!"


Só de brincadeira, imagine que os 15 times de cada Conferência fossem aos playoffs no mesmo formato em que ele é hoje em dia: o melhor time enfrentando o pior, o segundo melhor enfrentando o segundo pior e assim por diante. Se os playoffs começassem hoje, teríamos o melhor time do Oeste, que é o Spurs, enfrentando o pior da  Conferência, que é o Clippers. Enquanto isso, o Lakers em má fase, que caiu para a quarta colocação, enfrentaria o Houston em fase tenebrosa, amargando a quarta pior campanha do Oeste. E, ainda assim, Clippers e Rockets saíram vitoriosos ontem. As duas zebras mostram não apenas que o Lakers anda tropeçando nas próprias pernas e que o Spurs não é esse time imbatível que se comenta por aí, mas também que Rockets e Clippers são equipes muito melhores do que suas campanhas indicam.

A última posição na tabela para o Clippers, em especial, é muito cruel. Isso porque um dos responsáveis pela péssima campanha é a famosa "maldição do Clippers", que sempre dá um jeito de contundir todo mundo caso o time seja bom: dentre os titulares, Chris Kaman está com uma torção e só jogou metade das partidas até agora, e Baron Davis tem problemas nos joelhos - fora que seus reservas também estão baleados, com o Eric Bledsoe voltando de uma torção no tornozelo e o Randy Foye ainda fora com uma lesão na coxa.

Com Kaman e Baron Davis em plenas condições no quinteto titular, o Clippers certamente teria mais algumas vitórias para sair do fundo do poço. No caso do Kaman, ele é um melhores pivôs da NBA e sua presença embaixo do aro certamente diminuiria a marcação em cima de Blake Griffin - além, claro, de ajudar o time na defesa do garrafão, em que eles fedem. Mas no caso do Baron Davis, o negócio é mais complicado. Quando ele entra bem em quadra, como foi o que aconteceu na partida de ontem contra o Spurs, o Clippers é um timaço. Não faz muito tempo que o Baron Davis era considerado um dos melhores armadores da liga, levando nas costas aquele Warriors que desclassificou o Mavs, dono da então melhor campanha na temporada regular. O problema é que, mesmo quando as contusões não aparecem, é muito difícil ver o Baron Davis entrar bem em quadra, simplesmente porque ele não se importa.

Quando jogava no Warriors, jogava com intensidade, enterrava na cabeça de todo mundo e chamava para si a responsabilidade. Às vezes, até demais. Por ser fominha demais em jogos cruciais que decidiriam a vaga para os playoffs, Don Nelson começou a deixar o Baron Davis de molho no banco de reservas nos momentos importantes das partidas. Não demorou para que ele desse o fora de lá, por conta própria, e escolhesse jogar em Los Angeles para estar mais próximo de sua empresa, uma produtora de filmes. Mas o arrependimento veio logo: Baron Davis descobriu que todas as outras equipes de basquete não comandadas pelo técnico-biruta Don Nelson eram times de verdade, com horários, treinos, defesa, regras de alimentação, jogadas planejadas. Em mais de uma ocasião, Davis foi a público dizer como as coisas eram mais "suaves" no Warriors, e que ele não se dava bem com o clima rígido e pesado do Clippers. Aos poucos foi se desinteressando, focado na produção de filmes nas suas férias, e deixando o basquete de lado.

A troca de técnico talvez pudesse renovar o interesse do Baron Davis, mas o primeiro passo foi catastrófico: ele se apresentou ao time completamente gordo, sem ter jogado um único minuto de basquete nas férias, e o novo técnico Vinny Del Negro ficou puto da vida. Esse é o Baron Davis, senhoras e senhores: um jogador que poderia estar chutando traseiros mas que já torrou o saco, apenas aguarda sua aposentadoria pra poder parar com essa bobagem de basquete. Tipo quem trabalha em banco.

O curioso é que o Baron Davis gordo e desinteressado já seria o bastante para que o Clippers se tornasse um time respeitável. É por isso que, tirando as lesões, a culpa é quase toda do Vinny Del Negro, que de bom só tem o nome de boxeador. Quanto mais vejo o Clippers jogar, mais lembro dos problemas do Bulls na temporada passada e mais acho o Vinny Del Negro um técnico medonho. No Clippers, quando a bola gira no ataque para um dos lados da quadra, ela simplesmente morre por lá. É como se o time tivesse uma jogada para levar a bola para a zona morta, mas quando não surge com isso uma oportunidade de arremesso, a jogada congela. Fica um jogador com cara de bunda segurando a bola bem marcado, 15 segundos sobrando no relógio de arremesso, e aí vai forçando caminho contra a defesa até fazer alguma merda. Essas jogadas que simplesmente "morrem" se extendem a qualquer jogada planejada pelo Clippers. Quando eles fazem um corta-luz na cabeça do garrafão, por exemplo, e não surge uma oportunidade de cesta, o armador sobra com a bola nas mãos e o time inteiro fica parado - provavelmente pensando algo como "nós só planejamos até aqui". As jogadas não tem nem ritmo, nem continuidade, e nem um "plano B". Provavelmente por isso o Derrick Rose era obrigado a se virar tanto sozinho, naquelas jogadas de abaixar a cabeça e correr pra frente que eu tanto critiquei na temporada passada. Pronto, tá aí: depois de ver o Clippers jogar e de ver o Derrick Rose acabar com o meu Houston Rockets uma semana atrás, posso dizer que ele chuta mesmo traseiros e que a culpa era do Vinny Del Negro.

Por isso mesmo o Baron Davis é tão importante para esse Clippers: só ele pode fazer o que o Derrick Rose fazia, que é conseguir espaço à força na defesa e conseguir uma situação de cesta. Ontem contra o Spurs, parecia até brincadeira de criança: o gordinho ia com seus movimentos em câmera lenta adentrando no garrafão da equipe de San Antonio e aí passava pro Griffin só porque era legal. Foi assim que o Griffin deu mais enterradas livres do que em qualquer outro jogo da carreira, e contra uma defesa que deveria ter engolido o novato vivo (pensando melhor, o Griffin já jogou contra o Knicks, então com certeza já deu mais enterradas livres, sim). O Blake Griffin anda despirocando a cabeça da molecada, já diriam essas gírias que eu não faço ideia do que significam. Ele já virou queridinho de uma grande parte do pessoal que acompanha a NBA e tinha saudades de ver tanta enterrada de um cara que não chame Dwight Howard. E tem mais, o Blake Griffin cria os próprios arremessos, arranja na marra o espaço para enterrar, e pode finalizar com as duas mãos sem ter que enterrar em toda jogada. Ou seja, sua inteligência no ataque é o bastante para vencer alguns jogos sozinho, enquanto a inteligência ofensiva do Dwight consegue no máximo fazer cruzadinhas no nível "É sopa!".

Mas é claro que o Dwight dá um pau quando o assunto é defesa, e é nesse ponto que os novos fãs do Clippers precisam respirar fundo e entender que o time ainda fede. Recebemos perguntas e comentários no formspring o tempo inteiro dizendo que o Griffin vai ser MVP, que o time só precisa de um armador para ser campeão, que o Clippers vai para os playoffs. Vamos parar com as "dorgas", por favor. Se não bastasse o ataque do Vinny Del Negro ser um desastre e depender justamente de um jogador que não está nem um pouco interessado em jogar basquete, a defesa é ainda pior. O posicionamento para os rebotes é péssimo (inclusive por parte do Griffin), a cobertura é mal feita porque a marcação não roda, e faltam defensores no perímetro. No garrafão, DeAndre Jordan é muito cru e, mesmo tendo muito potencial, não deixa de ser simplesmente uma anta. Suas falhas defensivas são assustadoras, coisa que um gorila treinado não faria, mas aí ele dá alguns tocos espetaculares porque ele conseguiria pular até a Lua se quisesse e todo mundo esquece das cagadas. Kaman precisa voltar logo, pena que os joelhos dele são feitos de farinha.

Eric Gordon está chutando traseiros, voltou espetacular de seu tempinho com a seleção gringa, mas o aproveitamento nas bolas de três pontos tem sido um problema. Eric Gordon tem problemas para se livrar da marcação no perímetro, e as jogadas do Clippers nunca lhe deixam livre. Falta um bom passador no garrafão (coisa que o Griffin, só às vezes, consegue ser) e jogadas que girem a bola atrás de um jogador livre, não que morram nas mãos do Eric Gordon bem marcado e ele não possa fazer nada a não ser forçar uma bola de três pontos horrorosa. Contra defesas de perímetro mais vagabundas, o Clippers é um time bem mais eficiente.

Coisa similar acontece com o Houston Rockets, que também não merece amargar a quarta pior campanha do Oeste. Já falei deles num post recentemente, abordando a dificuldade do time em conseguir um padrão de jogo, mas ainda assim formam uma equipe muito perigosa quando as bolas de três pontos estão caindo. As movimentações ofensivas do técnico Rick Adelman se focam muito em cortes em direção à cesta, seja pelo meio do garrafão, seja pelo fundo da quadra. As equipes que defendem bem o garrafão acabam diminuindo a movimentação do Houston, e as bolas de três pontos precisam cair porque sobra muito espaço para arremessar nesse esquema. Bons arremessadores o time até tem, mas além da maioria não arremessar tanto quanto deveria (deve ser resultado de muita lavagem cerebral do tipo "passem primeiro para o garrafão, procurem primeiro o Yao Ming", que vai resultar em cedo ou tarde alguém passando a bola para o Yao de terno no banco de reservas), o aproveitamento também tem sido péssimo. Minha sugestão é que se trata, agora, de uma questão de confiança. Após perder os primeiros jogos por placares apertados, não ter mais Yao Ming, e ver a posição na tabela caindo cada vez mais, os arremessos de três ganham outro peso, ficam mais difíceis de converter. Especialmente porque o melhor arremessador da equipe, que é o armador titular Aaron Brooks, passou a maior parte da temporada fora lesionado. Quando ele acerta um par de bolinhas o time acalma, respira, e fica mais fácil para os jogadores secundários acertarem as deles. Depender de bolas de três de quem está tremendo e não quer arremessar fica muito complicado.

É por isso que o Houston venceu o Lakers ontem na experiência do Shane Battier, que sempre foi um bom arremessador de três da zona morta mas que pouco arremessa nesse time, executando outras funções - especialmente defensivas porque o resto do Rockets fede e muito na defesa. Quando as bolas de três caem o Houston é muito perigoso, e isso agora significa - sem Aaron Brooks - que o Battier precisa usar seu sangue frio para arremessar mais. O time coloca cada vez mais a bola nas mãos do Kevin Martin nos momentos difíceis, e ele é um bom arremessador, mas sua tendência é sempre de bater para dentro. Dá pra ver que ele força arremessos de três que não queria dar apenas porque sabe que o time precisa deles, mas sua especialidade é outra - e os próprios arremessos de três que dá seriam mais eficientes se ele pudesse chutar apenas quando está realmente livre, sem a pressão de ter que arremessar a toda hora.

Quando Brooks e Yao voltarem, a situação melhora e o fundo da tabela vai ser coisa do passado, mas a falta de padrão de jogo vai acompanhar para sempre esse time enquanto o Yao for peça central. Assim como o Clippers, que sabe muito bem como é depender de um jogador como o Baron Davis que você nunca sabe se estará lá de verdade, se você poderá ou não contar com ele. O potencial para que os times escalem rumo aos playoffs existe, mas as chances beiram ao ridículo graças à essa dependência de jogadores inconstantes e o quanto isso destrói o padrão de jogo de uma equipe.

Sobre o Lakers e o Spurs, que perderam, a gente comenta nos próximos dias. Mas não antes de comentar a partida de hoje à noite entre Cavs e Heat, que é também um jogo entre um dos quatro melhores do Leste contra um adversário mais fraco - mas que estaria indo para os playoffs, em oitavo, com seus próprios méritos. E tudo isso sendo bem pior do que Clippers e Rockets, vale ressaltar. O mistério do rendimento do Cavs e a reação da equipe - e da cidade - à presença de LeBron James serão nosso post de amanhã. E, antes disso, não deixe de acompanhar a partida (que começa às 23h) através do nosso twitter, que vai estar bombaaaando, cheio de curtição e azaração para a nossa galerinha irada!

quinta-feira, 18 de março de 2010

8 ou 80 - O jogador que mais evoluiu na temporada


Sabe que o "Both Teams Played Hard", apesar de estressante porque tem um número infinito de perguntas, tem sido muito útil nesse fim de temporada regular? Depois de tantos meses de temporada a gente vai ficando sem assunto e o que queremos mesmo é que os playoffs comecem logo pra gente voltar a sentir alguma emoção nesses jogos. Claro que sempre vai ter um assunto a mais pra falar, mas não tão empolgante assim. Como no outro dia que pediram pra eu falar do Jazz, que mudou completamente de postura desde que eu disse que eles pareciam um time já acabado.

Acontece que comentamos, no meio de outros posts, que o Jazz tinha ressurgido das cinzas. Assim como comentamos que os maiores adversários deles eram eles mesmos, que trocaram Eric Maynor e Ronnie Brewer por um cacho de bananas e um bem-casado. Ou seja, até do Jazz que a gente nem gosta tanto já falamos mal, bem e mal de novo, é sinal de que a gente precisa de inspiração.

E é aí que entram as perguntas que vocês mandam pelo BTPH. Com tantas perguntas é possível sentir uma tendência de interesse dos leitores, o que querem saber da gente. E percebi que, assim como eu, vocês tem interesse por um prêmio de fim de ano em especial, o de jogador que mais evoluiu na temporada. Não tem uma pergunta sobre MVP, nenhuma de jogador de defesa, nenhuma de técnico, uma ou duas de novatos e uma caralhada querendo saber em quem votaríamos para jogador que mais evoluiu. Eu até já respondi uma vez, me criticaram por não ter citado o Joakim Noah e mesmo assim perguntam de novo e de novo.

Não gosto de só opinar porque não sou eu quem voto. A NBA ainda não se tocou que somos importantes e que devemos ter poder de palpitar oficialmente, mas beleza, até lá eu uso os números para saber quem mais melhorou em que em relação à temporada passada. Bora abrir o Oswald de Souza que vive dentro de cada um de nós!

Pontos
Carl Landry +8.1
Aaron Brooks +7.8
Channing Frye +7.3
Chris Kaman +6.9
Corey Brewer +6.8

Levando em consideração os pontos por jogo esse é o Top 5 de jogadores que mais evoluíram em relação à temporada passada. Na lista oficial vocês ainda podem encontrar Gilbert Arenas, Martell Webster e Anthony Tolliver, mas os três jogaram tão pouco na temporada passada que de qualquer maneira entrariam na lista. Oficialmente o Webster é o líder com +9.7, mas isso porque só jogou um jogo na temporada passada, em que não fez nenhum ponto. Assim até o Baby Araujo!

Curioso nessa lista que apenas um dos jogadores evoluiu bastante em pontos ao mudar de time, o Channing Frye. Chegar no Suns revolucionou o seu jogo, ele começou a arremessar de três e começou uma nova fase na sua carreira, em um time que sabe usar o seu grande trunfo que é ser um cara alto que sabe arremessar.

São dois jogadores do Rockets no Top 5, Brooks e Landry. O segundo foi trocado para o Kings mas os seus números da temporada ainda refletem a grande parte do ano que passou em Houston. Os dois souberam se aproveitar do momento da equipe: eles perderam Yao, machucado, T-Mac não voltou e o Artest deu o fora. O Ariza foi contratado para essa função e até arremessou bastante, mas mesmo assim sobrou espaço para Brooks e Landry, ambos aumentaram seus números de arremessos tentados por jogo em mais de 6 por partida.

Porém, nesse quesito eu daria destaque para dois jogadores que não aparecem no Top 5: Monta Ellis e Kevin Durant. Ellis melhorou em 6.6 pontos sua marca e Durant em 4.4. A diferença dos dois em relação aos outros foi que eles saíram de números já muito altos para alcançar outros maiores ainda! Uma coisa é melhorar em 4.4 como Courtney Lee, que saiu de 8.4 para 12.8 pontos por jogo, outra é conseguir sair de uma marca já impressionante, 25.3, para 29.8, caso do Durant. Tanto Durant como Ellis fizeram o que Danny Granger fez na temporada passada, continuaram evoluindo mesmo quando seus números já pareciam estar chegando ao limite de seus potenciais. Na hora de votar em quem mais evoluiu vale a pena reparar em quem sai do zero como o Webster e quem sai de 25, como o Durant.

Rebotes
Kris Humphries +3.7
Kenyon Martin +3.6
Ben Wallace +3.3
Joakim Noah +3.3
Nazr Mohammed +3.2

A grande surpresa da lista é ver o fedido do Humphries no topo, mas ele tem feito uma boa temporada para os seus padrões, principalmente desde que chegou no Nets. Porém, seus minutos aumentaram bastante em relação à temporada passada, caso bem diferente do Kenyon Martin, que pega 3.6 rebotes a mais com apenas 2 minutos a mais de quadra em média. Aliás, seus 9.6 rebotes por jogo já são sua segunda maior média da carreira, atrás apenas dos 10.0 do seu primeiro ano no Nuggets. É sempre legal quando um cara continua evoluindo alguma coisa em seu jogo mesmo quando já está na liga há 10 anos, e ainda mais simbólico para um cara que sempre foi conhecido mais pelo seu físico do que pela técnica.

Não dá pra dizer a mesma coisa de Ben Wallace porque melhorar em relação a temporada passada era o mínimo que ele poderia fazer, já que no ano passado foi tão útil para o Cavs quanto eu sou para a economia brasileira. O caso do Noah, que vem em seguida, é interessante porque todo o seu aumento de rebotes veio no lado defensivo, o número de rebotes ofensivos é idêntico, legal porque é na defesa que o Noah vem construindo uma reputação de bom pivô e excelente reboteiro. É um forte candidato a jogador que mais evoluiu na temporada, uma campanha que infelizmente perdeu um pouco de força com sua contusão e a saída do Bulls da zona de playoff.

Assistências
Russell Westbrook +2.6
Aaron Brooks +2.1
Will Bynum
Trevor Ariza
Josh Smith +1.8

A liderança de Westbrook era esperada. O moleque já jogou muito como novato e dava a entender que seria grande em um futuro breve, era só ser mais regular. Bastou mais um ano para que suas esporádicas grandes atuações fossem mais constantes e aí está ele com boas médias e clara evolução, é um candidato claro e óbvio ao prêmio. Ter o Kevin Durant acertando tudo ao seu lado não atrapalhou, claro.

A primeira figurinha repetida das nossas listas é Aaron Brooks. Ele foi o segundo que mais evoluiu em pontos e em assistências, mas não custa lembrar que está entre os que mais cresceu em números de turnovers, ou seja, tudo isso só mostra que o Brooks é hoje um jogador mais importante para o Rockets. Com mais tempo de bola na mão ele arremessa mais, pontua mais, assiste mais e, logo, erra mais. Eu diria que ele foi o jogador que mais evoluiu na NBA em quantidade, não necessariamente em qualidade. Com Will Bynum a explicação não é muito diferente, só por ele estar no Pistons e não estar na enfermaria já explica muitas evoluções estatísticas.

Um grande destaque da lista são os não-armadores. Legal ver Trevor Ariza e Josh Smih entre os que mais evoluíram em assistências. O Ariza é fácil de explicar, ele foi contratado pelo Rockets para ser o líder de um time que compartilha muito a bola e fez isso quando chegou lá. Aumentou bastante o seu número de erros também e é o segundo entre os que mais arremessam de três em relação ao ano passado, deixou de ser só um coadjuvante para ser o maestro de um time de coadjuvantes.

Já o Josh Smith ganhou nas assistências, um campo onde nunca foi destaque, a maior prova numérica de como ele evoluiu em relação ao ano passado. Mas poderíamos também sustentar o óbvio fato de que hoje ele é um jogador mais inteligente vendo que ele aumentou seu número de tocos em 0.5 por jogo sem fazer mais faltas e, principalmente, ao ver que ele chuta -1.1 bola de três por jogo. Isso quer dizer que no ano passado ele chutou 87 bolas de 3 e nesse ano apenas 6. Josh Smith merece grande consideração ao prêmio de jogador que mais evoluiu simplesmente porque descobriu os seus talentos e suas funções no time. Raríssimos são os jogadores que aceitam suas limitações e se tornam melhores jogadores assim, juro que não esperava isso de um jogador tão impulsivo como o Josh Smith.

Roubos
Carl Landry e Chris Douglas-Roberts +0.7

Ninguém melhorou muito em roubos, os dois maiores destaques pouco passaram do 0.5 por jogo e fizeram isso com 15 minutos a mais de jogo do que no ano anterior, o que deixa tudo bem explicável.

Tocos
Andrew Bogut +1.5

Esse número é alucinante! Tirando o infame Greg Oden que na sua meia dúzia de jogos melhorou em 1.1, o resto da liga comemora se chega a uma melhora de 0.5 como o Josh Smith. O Bogut deixou de ser um pivô que tinha os tocos como defeito para brigar pela liderança da categoria! Não estou brincando quando digo que Scott Skiles e Larry Brown sabem fazer milagres com seus times, o Skiles fez o Bogut dar tocos! O próximo passo é fazer o Luke Ridnour liderar a liga em enterradas.

Turnovers
Stephen Jackson -0.7

Nenhum número chamou a atenção nos poucos décimos de diferença nos erros por jogo, a não ser no caso do Stephen Jackson. Ele é o único jogador a diminuir o número de erros por partida ao mesmo tempo que teve mais minutos por jogo em relação à temporada passada. O Bobcats é o novo Pistons.

Arremessos por jogo
Trevor Ariza +7.2
Carl Landry +6.3
Chris Kaman +6.2
Aaron Brooks +6.2
Corey Brewer +5.7

Precisa explicar Ariza, Landry e Brooks de novo? O Rockets causou uma revolução nessas estatísticas, basta dizer isso. Já Kaman ganhou esses arremessos na marra, com o Baron Davis jogando cada vez menos, a decadência inexplicável do Al Thornton na equipe e até algumas contusões do Eric Gordon foi bem lógico que o Kaman fosse ter mais arremessos, e como ele começou a acertar boa parte deles, virou a primeira opção ofensiva. Pra falar a verdade me surpreende que são apenas 6 arremessos a mais por jogo, imaginava que fossem mais.

Minutos
Carl Landry +16.2
Channing Frye +15.8
Chris Douglas-Roberts +14.9
Sonny Weems +12.6
George Hill +11.9

Interessante ver que de todos os nomes que foram citados várias vezes durante o post apenas o de Carl Landry tem grande destaque entre os que mais tiveram minutos adicionados nessa temporada. Claro que outros tem números significativos, como o Brooks que tem 9 minutos a mais, mas a lista prova que não são apenas os minutos a mais na quadra que são sinônimos de melhores estatísticas, assim como não são só estatísticas que mostram como um jogador melhorou. Sonny Weems e George Hill não ganharam um quarto a mais de jogo só porque são bonitos, alguma coisa que os números não mostram eles estão fazendo.
...

Considerando agora os minutos a mais de todo mundo, as novas oportunidades e as dificuldades de se melhorar certos aspectos do jogo fica um pouco mais fácil votar. Em quem você votaria? Josh Smith e seu grande cérebro? Aaron Brooks, Carl Landry e as toneladas de estatísticas? Kevin Durant e o passo mais difícil da evolução? Andrew Bogut? Westbrook? Acho que os números deixaram os candidatos mais fáceis, escolher ainda é difícil, e idiota. Aguardo o convite oficial do David Stern para dar meus palpites.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Estando bom para todas as partes

Kevin Martin e Artest agora têm algo em comum além do sorriso bobo:
deixaram de ser estrela para ser coadjuvante em Houston


Nessa temporada, o Houston Rockets não é o time de Yao Ming ou de Tracy McGrady: ele é o time do técnico Rick Adelman. Pela primeira vez em sua carreira, Adelman tem um time inteiro nos seus moldes, capaz de executar com perfeição suas loucuras tática, um elenco profundo, recheado de especialistas e sem uma estrela sequer. A equipe surpreendeu no começo da temporada chutando um punhado de traseiros, escalando rumo ao topo do Oeste e provando que a filosofia de jogo do Adelman poderia levar à vitória um time visto como mais-ou-menos. Mas esses não são os Jogos Escolares de São Bernardo, e sim a conferência Oeste da NBA. O nível é cada vez mais alto, os times mais emparelhados, e uma sequência simples de vitórias ou derrotas é a diferença entre ser líder da conferência e estar fora dos playoffs. Sem um líder em quadra, sem uma estrela capaz de trazer tranquilidade ao time e garantir cestas fáceis e decisivas nos finais dos jogos, o Houston foi de fininho escorregando para fora da zona de classificação. De repente, o Rick Adelman não parecia mais tão genial - e nem tão feliz - assim.

Por essa razão, o técnico do Houston foi entregando cada vez mais liberdade e responsabilidade nas mãos de Aaron Brooks e Carl Landry. O armador Brooks é o único disposto a arremessar sem parar nos finais de partida, e o Landry é simplesmente o líder em pontos no quarto período de toda a NBA. No entanto, abrir essa exceção tática para os dois deixava Rick Adelman cada vez mais frustrado, tudo porque o Brooks não tem muito cérebro e dá arremessos bastante idiotas, enquanto o Landry compromete o time na defesa. Ainda assim, parecia melhor do que deixar Tracy McGrady entrar em quadra com sua falta de ritmo, falta de defesa e postura de estrela. Não importa que T-Mac tivesse treinado como um maluco nas férias com os melhores treinadores do mundo, ao lado de Dwyane Wade. Não importa que T-Mac estivesse se dizendo saudável pela primeira vez em anos. Rick Adelman não queria comprometer sua visão de um time coletivo e perfeito, não queria sujeitar seu elenco de carregadores de piano à dúvida de McGrady jogar ou não jogar todas as noites, graças às suas incessantes contusões. Preferiu tentar salvar a temporada desde o começo retirando o mal pela raíz. Sobrou pro T-Mac, que não tinha nada com isso.

Sua troca era inevitável. Tracy McGrady está no último ano de um contrato que lhe paga 23 milhões de doletas, ou seja, deixa salivando qualquer time interessado em liberar espaço salarial para a temporada que vem com poluções noturnas pelo LeBron James. Mas a troca não poderia ser por alguma outra estrela, por um jogador que comprometesse o trabalho do Adelman. Os engravatos de Houston acreditam no técnico, o elenco de ajudantes de luxo em quadra acredita nele, então o poder está nas mãos do homem. Durante vários dias, os boatos indicavam que T-Mac seria trocado por mais uma série de ajudantes de luxo: se fosse para o Knicks traria Jared Jeffries e Al Harrington, se fosse para o Sixers traria Iguodala e Dalembert. Chega a ser engraçado imaginar uma equipe com Trevor Ariza, Shanne Battier e Andre Iguodala, três dos melhores defensores da NBA, capazes de se encaixar em qualquer equipe e ajudar uma estrela a ser campeã. Mas conseguiriam ganhar alguma coisa ajudando apenas uns aos outros? Seria um excelente experimento sociológico, quase tão bom quanto Big Brother, mas sem sexo debaixo do edredom.

Na última hora, o Sixers vetou a troca. Parece que eles ainda estão convencidos de que o Iguodala pode ser campeão sozinho, sem uma estrela, e preferiram viver em seu mundo de fantasia com o Coelhinho da Páscoa, o Papai Noel, a Alinne Moraes e todas essas coisas que não existem. Restou então mandar o T-Mac para o Knicks, mas aí o Kings apareceu.

O Sacramento virou um dos meus times favoritos nessa temporada. Sempre fui fanático pelo jogo pouco ortodoxo do Kevin Martin (por "pouco ortodoxo", é claro que eu quero dizer "ridiculamente bizarro") e fiquei muito interessado em descobrir o porquê do time vencer com ele fora, contundido. Foi aí que o Tyreke Evans começou a jogar um absurdo, cravou seu nome como o calouro do ano antes mesmo do meio da temporada, conquistou o coraçãozinho do Denis e transformou o Kings numa das equipes mais divertidas de se assistir em toda a NBA. Declarei em outro post meu amor súbito pelo Kings e como abandonei jogos do Houston para acompanhar a equipe do Evans (mas não contem pra ninguém!), e depois assisti atento ao Kevin Martin voltar de contusão e tentar se encaixar com o futuro novato do ano. Eu não fiquei convencido de que a dupla não funciona, ficou bem claro que os dois têm problemas para se encaixar em quadra mas pareciam estar aprendendo aos poucos. Mas a verdade é que os dois jogam melhor quando não estão juntos, tendo o jogo armado pelo Beno Udrih, e é compreensível que com as derrotas acontecendo em massa desde a volta do K-Mart, o Kings não quisesse sentar e ficar assistindo ao apocalipse. Até porque, poucas semanas atrás, eles estavam indo para os playoffs, exatamente como o Houston.

A troca então foi a seguinte: o Kings mandou o Kevin Martin para o Houston e o Sergio Rodriguez para o Knicks. O Knicks mandou o Jared Jeffries, o Larry Hughes e o Jordan Hill para o Houston. E o Houston mandou o Tracy McGrady para o Knicks e Carl Landry e Joey Dorsey para o Kings.

Pro Knicks, a troca é simples. O contrato gigante do Larry Hughes ia acabar mesmo, o essencial era se livrar do Jared Jeffries. Não que ele seja ruim, pelo contrário, o Mike D'Antoni sempre disse que o Jeffries foi o jogador que mais lhe deixou impressionando quando ele chegou em New York. Mas é que o burro do Isiah Thomas deu pro Jeffries um contrato de quase 7 milhões por ano apesar dele ser simplesmente um jogador secundário, versátil porque pode jogar em todas as posições (todas mesmo, de armador a pivô), bom defensor, mas irrelevante no ataque. No Knicks que não defende, que fede inteiro, de que serve um carregador de piano que ganha uma fortuna? Seu contrato duraria ainda mais uma temporada, e se livrando dele o Knicks fica finalmente pelado como queria, pronto para oferecer toda a grana disponível para as estrelas desempregadas na temporada que vem. Restaram apenas 4 jogadores com contratos para a próxima temporada no Knicks: o Danilo Gallinari, o Toney Douglas, o Wilson Chandler e o gordo do Eddy Curry, que o time tentou desesperadamente trocar mas ele está tão gordo que não passou pela porta e não conseguiu sair do ginásio. Como o contrato do T-Mac termina também, o Knicks abriu mão do novato Jordan Hill (que o D'Antoni odiava) e de uma escolha de primeira rodada para se livrar do Jeffries e nadar em dinheiro para a próxima temporada. Dá pra oferecer dois contratos máximos, ou seja, segundo a política do Isiah Thomas dá pra oferecer dois contratos com valores máximos para gênios como o Kwame Brown e o Sasha Vujacic.

Para o Kings, a troca foi um belo jeito de se livrar do contrato gigante do Kevin Martin, dar o time inteiro nas mãos do Tyreke Evans, contratar outro jogador que se encaixe melhor com ele na temporada que vem, e de quebra ainda levar o Carl Landry. Já faz um tempão que o Kings tem problemas para pontuar no garrafão, já que o pivô Spencer Hawes prefere arremessar de três e o James Thompson é genial mas prefere o arremesso de média distância. O Landry é um cara que não defende, não pega rebotes, não assobia, não lava a louça, não conta até dez, mas se você lhe der a bola debaixo da cesta, ele dará um jeito de pontuar. Chega a ser surreal, ele arruma um jeito dando porrada, na força, no jeitinho, com ganchos, na marra, reverses, pagando propina para o juíz, qualquer coisa, mas ele consegue. Será perfeito para vir do banco do Kings assim como fazia no Houston e pontuar no quarto período, momento em que o Kings tem perdido a imensa maioria dos seus jogos. O time é imediatamente melhor agora, dá espaço pra molecada e arruma um antigo problema. É com dor no coração e lágrimas nos olhos que eu vejo o Carl Landry ir embora, mas ele estará numa equipe que precisa dele e que, com sua presença, só tende a melhorar.

Mas para o Houston a troca tem tudo para dar certo também. Dia desses me perguntaram que estrela poderia ir para o Rockets sem lascar com a química e a visão do Adelman, e sugeriram o Joe Johnson por ser um armador completo e pontuador que não é individualista. Eu sempre achei que o jogador perfeito para o Houston seria o Michael Redd, que ele seria o par perfeito para o Yao, que permite tão bem que os seus companheiros arremessem livres de três pontos. Na falta dele, não consigo imaginar um jogador melhor do que o Kevin Martin para cumprir esse papel. Não só é um dos meus jogadores favoritos, ele também é um excelente arremessador de três pontos, quieto, discreto, sem problemas com ego ou com companheiros de equipe, e é especialista em cavar faltas e cobrar lances livres quando o time precisa de pontos fáceis ou não tem nada caindo. Se o K-Mart jogar minutos limitados e sempre estiver em quadra ao lado de Ariza ou Shane Battier (ou até de Jared Jeffries, mais um grande defensor nesse time cada vez mais defensivo e versátil), sua defesa patética não será um problema tão grande, ele será muito útil impedindo que o Aaron Brooks arremesse tanto, tornará o perímetro mais perigoso e cavará mais faltas nos momentos de pânico, quando o Houston não consegue manter o plano do Adelman porque os arremessos não caem e o Brooks se desespera. É exatamente o que o Rick Adelman queria: um jogador secundário, especialista, disposto a cumprir uma simples função em quadra ao invés de ser uma estrela, cargo que o Martin nunca quis assumir em Sacramento. É um ajudante perfeito para um time formado por ajudantes, com a diferença de que ele ganha quase 10 milhões de doletas por ano. No Kings pagavam e esperavam que ele fosse o líder da equipe, assim como no Knicks pagavam para o Jeffries e esperavam que ele evoluísse ano a ano. No Houston, os dois podem encher as orelhas de dinheiro para ser simples coadjuvantes, do mesmo modo que o todo o resto da equipe. Sem essa cobrança, os dois vão logo se sentir em casa, o coitado do Kevin Martin nunca quis ser nada além de coadjuvante e o Kings resolveu lhe pagar um contrato de 55 milhões, completamente inesperado, achando que ele levaria a franquia para algum lugar - justo ele, o cara menos vocal do mundo, o único cara do planeta que não gostaria de ser líder no Big Brother. Além disso, se o Jordan Hill souber pontuar um pouco e não der motivos para o Aldeman odiá-lo tanto quanto o D'Antoni odiava, a troca terá sido perfeita, com mais um carregador de piano para substituir o Landry nem que seja um pouquinho. Até o Larry Hughes tem jogado bem e, se tiver minutos bem limitados, pode quebrar um baita de um galho enquanto o Kyle Lowry está contundido. Aliás, a troca terá sido perfeita para todas as partes. Até para o Knicks, que com tanto nome e fama vai conseguir levar duas estrelas de peso na temporada que vem. Pode não ser o LeBron, mas alguém topa a brincadeira. Afinal, eles não são o Clippers. E o Kings continua sendo um dos times mais divertidos de acompanhar, dessa vez com o líder de pontos no quarto período. Será o bastante para levar a pirralhada para os playoffs?

EDIT: Pois é, ao contrário do que algumas fontes apontaram, o Larry Hughes foi para o Kings e não para o Houston. Então ao invés de ser um reserva quebra-galho pro Lowry, ele vai ser só um contrato de 13 milhões que expira e deixa o Kings com grana pra fazer o que quiser, gastar com estrelas, jogos, bebidas ou mulheres. Se ele entrar em quadra, ainda mais depois que o Francisco Garcia está de volta de contusão, é porque alguém tomou um tiro em quadra.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Dos arremessos de três

Kobe Bryant resolveu ser o melhor pivô do Oeste, só porque ele pode


A pirralhada resolveu, nessa temporada, provar que sabe arremessar de três pontos. É uma série de caras novas, a maioria ainda cheia de espinhas, ganhando a vida bem longe do garrafão. O Danilo Gallinari, por exemplo, que é o líder em bolas de três convertidas por partida, tenta mais de 7 bolas de longa distância por jogo. Dois terços dos arremessos que ele deu até agora foram bolas de três, o que constitui uma fobia de garrafão tão grande que o Rasheed Wallace fica até parecendo um sujeito normal. Sorte do Gallinari que ele joga no Knicks, onde fazer uma bandeja dá prisão perpétua (no Warriors dá cadeira elétrica), porque se ele jogasse no Spurs já estaria esquentando banco.

A lista de bolas de três pontos convertidas por jogo tem, além do Danilo liderando a parada, uma renca de outros garotinhos sem pêlos no saco, como Channing Frye, Brandon Jennings (o novato dos 55 pontos), Eric Gordon e o Ryan Anderson, que substituiu o Rashard Lewis (suspenso no exame anti-doping) tão bem, mas tão bem, que já já vão ter que obrigar ele a mijar num potinho.

Na lista de bolas de três pontos convertidas na temporada, o líder é o Channing Frye, seguido pelo Gallinari. Ou seja, a criançada está realmente convertendo os arremessos de fora. As duas listas se complementam para afirmar essas caras novas, mas também para indicar quais times estão mais focados nos arremessos de três.

Além do Frye, o Jason Richardson aparece entre os que mais convertem arremessos de três por partida. O resultado é que o Suns é o time que mais chuta de longe e tem o melhor aproveitamento. É uma volta aos bons e velhos tempos de correria, pontuação alta, bilhões de assistências e bolas de três pontos. Talvez o plano do Suns tenha sido fingir que estavam enterrando a tática do "run and gun" até o Spurs começar a feder, para só então retomar a estratégia e tentar ganhar um anel. Pode até dar certo, e nós que acreditamos no Papai Noel e na virgindade da Sandy botamos uma fé no Suns, mas se eles passarem de uma defesa como a do Celtics eu sou um mico de circo. Ainda assim, esse Suns parece um tanto mais voltado para os arremessos de fora do que aquele que conhecíamos. Se não bastasse até jogador da safra "figurante do Chaves no episódio do suco de tamarindo" acertar as bolas de três, como é o caso do Jared Dudley, o pivô da equipe agora também chuta de longe e está no topo das listas que citamos. Ninguém acreditava muito no Frye, alertamos aqui antes da temporada começar que essa seria sua última chance na NBA, mas ele alterou seu estilo de jogo para casar perfeitamente com o Suns e está sendo uma grata surpresa. Se ele for pro campeonato de três pontos do All-Star Game vai ser hilário e poderemos acrescentar o rapaz para a lista de jogadores bons que o Knicks tinha mas trocou por pipoca.

Continuando na lista de bolas de três pontos convertidas na temporada, o terceiro lugar pertence ao Trevor Ariza, enquanto o sexto lugar é do Aaron Brooks. A sensacional lógica matemática do "Instituto 8 ou 80 de Estatísticas Bola Presa" aponta, então, que o Houston arremessa de três pra caralho. Nenhum dos dois está tendo uma temporada espetacular, são muito inconsistentes, as bolas volta e meia não caem, mas o trabalho em conjunto da equipe segura as pontas quando alguém está fedendo e isso permite que todo mundo possa continuar chutando de fora sempre que surgir a oportunidade. Isso é acreditar no sistema, saber que você faz o seu papel mesmo quando não funciona, e que os companheiros de equipe fazem o papel deles e concertam se tudo o mais der errado.

Mas nada se compara com o Cavs. Assim como o Suns, o time de LeBron está acertando acima de 46% dos seus arremessos de três pontos na temporada, o que é débil mental. O bizarro é que na lista de arremessos de fora convertidos na temporada, o Mo Williams figura em quarto e o Anthony Parker em sexto, o que significa que eles arremessam pra burro. Como dá pra manter uma porcentagem tão grande de aproveitamento se os dois arremessam tanto? Ainda mais quando sabemos que o Mo Williams não tem qualquer critério para arremessar e que para ele o conceito de "estar livre" significa estar sendo marcado por menos de 7 pessoas. O motivo para o alto aproveitamento da equipe está justamente nas mãos desses dois: Mo Williams está convertendo 51% das bolas de fora, enquanto o Anthony Parker acerta surreais 57%! Tudo bem, o Cavs está meio capenga, o Shaq pode não ter casado muito bem com a equipe, mas o Anthony Parker foi uma sacada de mestre! Com o Delonte West fora com seus problemas de depressão, Parker está convertendo os arremessos, abusando do espaço que surge das marcações duplas no LeBron e até fingindo que defende. E quando o Mo Williams está acertando os arremessos, o Cavs é simplesmente imbatível porque o LeBron pode deitar e rolar com o espaço criado no perímetro. Mesmo que contratar o Shaq tenha sido uma decisão um pouco "água na Carol", o perímetro do Cavs tem tudo para fazer o mundo esquecer do garrafão, basta manter esse ritmo. O engraçado é que o ritmo é tão bizarro que o Mo Williams está acertando mais as suas bolas de três do que as suas bolas de dois pontos, então não tem motivo para parar de arremessar. É bem capaz dele ficar livre no garrafão e preferir dar um passinho para trás antes da tentativa.

Mas há um jogador na NBA fazendo o caminho contrário. Enquanto a pirralhada arremessa cada vez mais de três pontos, enquanto vários times passam a se focar nesse aspecto do jogo depois que o Orlando Magic provou na temporada passada que era possível chegar longe nos playoffs assim, um jogador está aos poucos abandonando os arremessos de três que sempre lhe foram tão úteis. Trata-se de Kobe Bryant.

Foi assim, sem alarde, sem aviso, tipo a Britney Spears ficando gorda. De uma temporada para a outra, Kobe simplesmente decidiu que seu jogo no perímetro era coisa do passado e que a moda agora era namorar pelado. Nos 19 jogos até agora, contando também os de pré-temporada, Kobe passou quatro partidas sem arremessar uma única bolinha de três. Em outras duas ocasiões, arremessou apenas uma bola.

Pode parecer pouco, foram apenas seis partidas, mas se a gente comparar com o Kobe de antes, vemos o quanto isso é absurdo. Durante toda a temporada passada e mais os playoffs, não houve um único jogo em que Kobe não chutasse de três pontos. Na verdade, durante todas essas partidas ele arremessou apenas uma bolinha de três durante um jogo em 8 partidas apenas, mantendo uma média de mais de 4 arremessos de três pontos na temporada. Esse ano o número caiu pela metade e em algumas ocasiões ele nem se dá ao trabalho de tentar qualquer coisa no perímetro. Gregor Sansa acordou um dia depois de sonhos intranquilos, no livro "Metamorfose", e havia se tornado um enorme inseto. O Kobe Bryant acordou um dia depois de sonhos intranquilos e tinha se tornado o melhor jogador de garrafão do planeta. É como se ele simplesmente tivesse decidido, de uma hora para a outra, que seria um ala de força. O único indicio que tínhamos disso está no vídeo abaixo, em que Kobe treina com Hakeem Olajuwon durante suas férias:



Foram apenas duas horas de treino com um dos melhores pivôs de todos os tempos aprendendo uns macetes, que o próprio Hakeem disse que se encaixariam perfeitamente bem no jogo do armador do Lakers. A gente sabe que o Kobe é um nerd de basquete que estuda o jogo profundamente e que aprende muito rápido os movimentos que ele disseca nos treinos, mas virar um jogador monstruoso de garrafão nessa velocidade é débil mental. O LeBron James pode evoluir mais rápido do que Pokémon, mas ninguém estuda o jogo e evoluiu tecnicamente tão rápido quanto Kobe Bryant. Fico imaginando ele na Matrix dizendo "operador, me carrega um programa de pilotar helicópteros", porque pela velocidade que ele aprende parece que é exatamente assim que funciona.

Cada vez mais dentro do garrafão, jogando de costas para a cesta, Kobe está desfilando um arsenal de giros, ganchos, bandejas fáceis. Está dando dor de cabeça para os marcadores gigantes, cobrando mais lances livres do que nunca, pontuando mais. E o mais importante: se antes ele criava o próprio arremesso, mantendo a bola nas mãos por muito tempo, agora mais da metade de seus pontos saem de assistências dos outros jogadores do Lakers, porque ele está no garrafão pedindo a bola para finalizar. O time está mais envolvido no ataque e assim não percebe a falta de Pau Gasol no garrafão. Aliás, o líder em pontos no garrafão nessa temporada é exatamente Kobe Bryant. O segundo colocado? É Andrew Bynum, que aos pouquinhos está se tornando o melhor pivô do Oeste - se a gente não contar o Kobe, claro. Algumas derrotas aparecem, mas ninguém está percebendo que o Gasol ainda está fora. Ron Artest está jogando mais no perímetro, iniciando as jogadas, mas ele também pode jogar no garrafão se quiser (onde ele até rende melhor) e o Lakers pode virar uma máquina embaixo da cesta.

Muito se fala sobre a evolução do jogo de Michael Jordan, que com o passar dos anos foi marcando cada vez menos pontos no garrafão, cobrando menos lances livres, e arremessando mais de longa distância. Foi uma evolução inteligente que protegeu o corpo de Jordan e que foi tornando-se mais praticável conforme seus arremessos foram ficando mais e mais mortais. Kobe parece estar fazendo o caminho inverso, afastando-se da rota estabelecida pelo seu ídolo. Já faz um tempo que o Kobe está na elite dos arremessadores da NBA, convertendo arremessos de qualquer lugar da quadra. A decisão de se aproximar da cesta parece simplesmente primar pelo aproveitamento, pela vantagem que ele pode tirar de seus defensores maiores e mais lentos. É a conclusão de alguém que estudou, tentou, assistiu, praticou, e parece ter percebido que sua contribuição é maior quando pertinho do aro. A marcação que ele exige abre o perímetro para os companheiros da equipe, ele troca de função no triângulo tático do Lakers garantindo que o esquema não fique batido, não precisa trazer a bola para o ataque e armar as jogadas, e tira proveito de uma técnica primorosa que nenhum outro jogador de garrafão da atualidade parece ter. É como se ele percebesse que todo mundo nesse trabalho fede e que, então, ele pode fazer melhor e ganhar uma vantagem. Em terra de cego, o Kobe tem os dois olhos e pode passar a mão em quem quiser.

Quando Gasol voltar à equipe, talvez Kobe passe a variar mais seu posicionamente em quadra, para não criar uma redundância no triângulo ofensivo. Ainda assim, sua decisão pela eficiência apresentada pelo jogo de garrafão deve perdurar um bocado. Não há sequer sinal de que esteja sendo prejudicial para seu físico, já que tanto do que ele faz é baseado em habilidade, movimentos precisos e inteligência. Quando ele começar a apanhar demais, quando virar um saco de pancadas tipo o Allen Iverson nos tempos de Sixers (vamos esperar para ver se o Iverson ainda vai ser um saco de pancadas em algum outro time, agora que o Grizzlies e ele romperam o contrato), então Kobe poderá voltar ao perímetro como sempre fez.

Esse passo para longe de Michael Jordan, essa decisão oposta ao jogo do maior de todos os tempos, me deixa simplesmente eufórico. Num esporte em que há tanta comparação, em que os caminhos parecem já ditados e os jogadores têm pouco espaço para suas vozes particulares, Kobe encontrou sua própria trilha e está tendo um sucesso absurdo com ela. Ele não é uma cópia, um jogador genérico. Ele é nerd, estudioso, criativo, inovador e corajoso. Seu passo para longe de Michael Jordan, portanto, está fazendo justamente o contrário: trazendo Kobe para perto de Jordan - não no estilo de jogo, mas no palco dos maiores de todos os tempos.

domingo, 8 de novembro de 2009

O Houston das adversidades

Os da ponta defendem, o do meio não joga


Dois anos atrás, 0 Houston estava com dificuldade de colocar em prática o basquete livre e complexo proposto por Rick Adelman em sua primeira temporada com o time. O técnico pedia paciência, explicando que aos poucos a equipe estaria plenamente familiarizada com o esquema tático. Quando a água bateu na bunda e o Rockets começou a escorregar na tabela, finalmente o elenco pareceu abraçar o que era proposto. Com um basquete de velocidade, passes rápidos no jogo de meia quadra, arremessos do perímetro e um pivô na cabeça do garrafão chamando as jogadas ofensivas, o Houston ganhou 12 partidas seguidas e provou que era um time de verdade. Mas como nós sabemos que o Yao Ming parece "made in Taiwan", que é o Paraguai do oriente, o pivô chinês quebrou a perna e ficou fora pelo resto da temporada.

Sem espaço para desespero, tudo que Rick Adelman fez foi aumentar o ritmo ofensivo, focar ainda mais no contra-ataque e pedir passes mais velozes e mais arremessos de três. Sem o Yao pra ficar correndo de um lado para o outro com a língua pra fora, o time passou a jogar numa porra-louquisse e mesmo assim finalizar com calma. Mesmo sem o pivô, ganharam mais 10 partidas seguidas, conseguindo a segunda maior sequência de vitórias de todos os tempos e classificaram-se em quinto lugar no Oeste, para então serem eliminados (mas disso não quero falar, hunf).

Na temporada seguinte, Ron Artest foi adicionado à equipe e todo mundo começou a achar que talvez o Houston tivesse chances de título. No entanto, Tracy McGrady passou a maior parte da temporada contundido. Foi sem ele que o time passou finalmente da primeira rodada dos playoffs e foi enfrentar o Lakers na semi-final. Perdendo por 2 a 1 na série, Yao Ming se arrebentou de novo, todo mundo bocejou porque era óbvio que isso eventualmente iria acontecer, e então a série foi dada como encerrada. No entanto, aquela equipe cheia de carregadores de piano e nenhuma estrela venceu mais duas partidas e levou o embate com o Lakers para o sétimo jogo, aliás o único time a levar o Lakers para um jogo 7 naqueles playoffs.

Chegamos então ao Houston de agora. A lesão do Yao Ming, que ainda pode encerrar sua carreira, garante que ele não volta para o time nessa temporada. McGrady, que operou seu joelho pela nonagésima vez (graças a um plano fidelidade com o cirurgião, dessa vez saiu de graça), volta só no ano que vem. Ron Artest, que segurou o time nos playoffs passados, foi concretizar seu sonho de infância e jogar com seu ídolo Kobe Bryant. O que sobrou? Trevor Ariza, que era a quinta opção ofensiva no Lakers, exemplifica a equipe: um monte de jogadores secundários, sólidos, carregadores de piano, que seriam capazes de ajudar qualquer equipe que contasse com um par de estrelas. Mas sem as estrelas, cabe ao Rick Adelman tornar esse bando de coadjuvante um time de verdade.

"Às vezes você tem alguns times que talvez não sejam tão talentosos quanto outros times, mas certamente dá para tirar deles o mesmo que você tiraria de times melhores. Se você consegue com que joguem com todo seu potencial, e joguem duro todas as noites e se esforcem todas as noites, isso já é satisfação. Você não vai ter sempre o melhor time."

A frase de Rick Adelman pelo menos nos mostra que ele está satisfeito. O time pode ser uma droga, mas se ele tirar o melhor do elenco já poderá dormir de noite. Na primeira partida da temporada, deu pra perceber que o time não teria chances de chutar traseiros nos playoffs mas que ganharia muito mais partidas do que se imaginava. É sempre assim, quando o Houston perde as estrelas e precisa depender de correria e de jogadores mais-ou-menos, especialistas em aspectos específicos do jogo, as coisas acabam dando estranhamente certo. No primeiro jogo eu tive uma crise de diarreia porque foi asqueroso ver o time jogando só na raça, na unha, sem saber o que fazer, mas foi só o susto. A derrota na estreia para o Blazers foi devolvida, com uma vitória fácil em cima do mesmo time de Portland, e misteriosamente o Houston se tornou um time delicioso de se assistir. Não tem estrela, não tem showzinho de LeBron ou Kobe, mas tem um grupo de oito jogadores que toma as decisões certas, dá sempre um passe a mais, não força arremessos e joga com velocidade. É um tesãozinho de assistir, dá tanta água na boca quanto o ensaio da Alinne Moraes de lingerie.

O ataque é o sexto melhor em pontos marcados na NBA até agora, atrás apenas de Suns, Nuggets, Magic, Raptors e Grizzlies. No entanto, dessa lista apenas o Magic tem uma defesa que toma menos pontos do que o Rockets. Ofensivamente a ideia é correr bastante, apostar no contra-ataque, e abusar dos arremessos de três quando é preciso um basquete de meia quadra. Defensivamente, a ideia é colapsar todos os jogadores juntos rumo ao garrafão frente a qualquer infiltração, e depois morder na defesa de perímetro com jogadores especialistas nisso como Shane Battier e Trevor Ariza. O vídeo abaixo dá um bom exemplo da defesa que o Houston anda aplicando:



Chega a ser engraçado, parece futebol feminino amador em que todo mundo corre pra cima da bola. Isso torna o Houston exposto a times que penetram e depois passam para fora, e também complica nos rebotes mais longos típicos dos arremessos de três, mas é a única chance de defender o garrafão num time sem nenhum pivô sequer. O titular na posição é o Chuck Hayes, que não tem sequer dois metros! Com 1,98m de altura, o Hayes é de longe o pivô mais baixo que a NBA já viu, seria até o pivô mais baixo do campeonato amador de Catanduva, e por isso precisa de toda ajuda do mundo na marcação. No entanto, o Hayes é um defensor pentelho pra burro, ele estabelece sua posição, intercepta passes e fica cutucando a bola antes de chegar no pivô adversário. Não consegue impedir uma cesta, só sai do chão usando escada rolante, mas inferniza qualquer um e é um dos seis melhores ladrões de bola da temporada, com mais de dois roubos de bola por jogo. O Dwight Howard comeria ele com um pouco de azeite e sal, talvez uma salsinha pra dar gosto, mas é certeza de que o Hayes vai encher um pouco o saco e o Houston inteiro vai pular no cangote do Dwight na cobertura. Aí os arremessos de três do Magic vão trucidar o Rockets, claro, mas é um plano melhor do que se lascar em todo jogo tipo o pobre do Warriors.

O Ariza faz um serviço cada vez melhor na defesa, mas o andamento das partidas depende muito dele ofensivamente. No contra-ataque ele é veloz e explosivo, seus roubos de bola viram enterradas, e mantém o Houston no jogo. Mas é nas suas bolas de três que fica a esperança do time. Ele ainda não tem a capacidade de decidir o jogo criando seus próprios arremessos, e ainda tem muitos problemas batendo para dentro. Na hora do desespero, quando o Houston precisa de uma infiltração, prefere isolar o Aaron Brooks e deixar ele partir pra cima. Mas o Ariza é inteligente, sabe quando arremessar (coisa que o Artest nunca soube), e quando tem bom aproveitamento prova que pode segurar um time nas costas volta e meia. Na pré-temporada e no primeiro jogo do Rockets, Ariza forçou o jogo, ainda bitolado nessa ideia de que ele precisa ser uma estrela, a primeira opção no ataque. O Kobe deu uns conselhos, disse que conhece bem essa transição, e que ele só precisa ir com calma. Agora, parece que ele finalmente entendeu que tem que liderar os contra-ataques, se focar na defesa, nos arremessos de fora, ser um jogador especialista como todos os outros do elenco. Numa equipe em que cada um tem uma função e a mistura precisa ser maior do que a soma das partes, o Ariza não tem que ser estrela coisa nenhuma, tá muito bom se ele fizer seu papel também e todo mundo confiar no trabalho coletivo planejado pelo Rick Adelman. Ele já tirou de letra a perda do Yao, a perda do T-Mac, e não está em busca de um jogador fora de série para se destacar nesse grupo. Quando o McGrady voltar, provavelmente deve ter também minutos reduzidos e um papel secundário, armando jogadas, sem forçar seu físico destruído indo para a cesta.

Por enquanto, a rotação é pequena, com apenas oito jogadores. Battier e Ariza defendem e arremessam de fora, Aaron Brooks bate para dentro mas também é bom arremessador, Luis Scola é o único com um jogo sólido dentro do garrafão, e o Hayes torra a paciência dos pivôs adversários. No banco, Kyle Lowry defende bem como armador, o novato Chase Budinger arremessa bem de três e confunde os adversários por ser loiro e mesmo assim jogar basquete, e Carl Landry prova que veio da máquina de faser Jason Maxiells e leva sua vida nos rebotes ofensivos e marcando pontos fáceis. Qualquer um deles, num dia bom, pode vencer uma partida sozinho. Mas é a junção de todos eles que torna o time tão perigoso. David Andersen é um pivô que veio da Europa dar uma força mas na verdade é só um ala improvisado e envergonhado demais para arremessar, e o Pops Mensah-Bonsu ainda não teve oportunidades, então a rotação é bem limitada mesmo e vai receber de braços abertos o McGrady para dar uma força. Mas até lá, o time vai estar muito bem.

Contra o Lakers, no já lendário "Clássico Bola Presa", Kobe teve que marcar 41 pontos para permitir a derrota do Houston por um mísero ponto na prorrogação. No Houston, seis jogadores marcaram pelo menos 14 pontos e Chuck Hayes saiu de quadra com 14 rebotes mesmo enfrentando Andrew Bynum no garrafão. Se tem como dar canseira no atual campeão com um time desses, cheio de caras secundários, então não tenho dúvidas de que o Houston vai se sair bem na briga pelas vagas de playoffs no Oeste. Por enquanto o time está na frente de Mavs e Spurs e é líder de sua divisão, e esse absurdo tem ainda mais valor quando a gente pensa em como o Houston está conseguindo esse sucesso: sem suas estrelas, nas mãos de um dos melhores técnicos que a NBA já conheceu, e com um basquete bonito, solidário, veloz e que deixa aquela lagriminha de saudade do Kings de uns anos atrás, quando o Stojakovic ainda sabia arremessar. Para quem gosta de torcer pelo mais fraco e para quem gosta de ver um jogo coletivo e metido a porra-louca tipo o Knicks mas com regularidade e sem tanto fracasso, o Houston Rockets merece sua audiência. Aplaudamos o Rick Adelman agora, enquanto ele tira água de pedra, porque é bem possível que com as estrelas de volta ele não consiga a mesma mágica. Tanto ele quanto a equipe só rendem de verdade nas adversidades. E não há nada mais bonito do que ver um grupo de pessoas lutando contra as adversidades, ainda que para isso tenhamos que ver um nanico jogando de pivô e morrer de vergonha.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Transtorno bipolar

"Dê um cacete no Lakers", já diria a tradução livre


Foram 6 jogos na série entre Lakers e Rockets e, ainda, não fazemos a menor idéia de como cada time entrará em quadra. Já vimos os dois times sendo humilhados, os dois times tendo vitórias fáceis, os dois times empolgados e os dois times sentados miseravelmente na guia da calçada esperando que o mundo acabe logo e de uma vez. Essa série deveria ser passada nos cursos de Psicologia como exemplo de "transtorno bipolar", é simplesmente patológico.

Na tentativa de compreender o comportamento desses dois times, como se fossemos um documentário de animais do Discovery, vamos dar uma olhada em 5 razões para o Houston ter saído de quadra ontem com a vitória.


1. A Argentina

Ao fim da partida, Aaron Brooks foi entrevistado ainda em quadra, e a primeira pergunta foi o que havia acontecido para que o Houston Rockets tivesse conseguido uma vitória tão impressionante. A resposta foi simples:

"Luis Scola!"

Foi ele quem aconteceu. Sem Yao Ming, o Houston não tem uma presença ofensiva no garrafão. Um anão tirando um cochilo de biquini seria uma ameaça ofensiva no garrafão maior do que Chuck Hayes, que está substituindo o chinês no elenco titular. Quando Yao recebia marcações duplas, tanto contra o Blazers quanto contra o Lakers, era Luis Scola o homem livre que deveria punir os adversários por ignorá-lo. Com Chuck Hayes em quadra, Scola nunca está livre mas tem uma pressão ainda maior de estabelecer um jogo no garrafão.

O Houston perdeu o jogo 5 por uns 40 pontos, tão humilhante quanto pagar peitinho no Big Brother. Um dos maiores motivos foi que, sem Yao, o time só tinha como recurso arremessar bolas de três pontos. No jogo anterior elas haviam caído, mas quando não caíram o resultado foi brutal. Dessa vez, com Scola assumindo a responsabilidade de pontuar debaixo do aro logo no começo, o time não se permitiu ficar apenas arremessando de fora, o que mudou completamente a história da série e pegou o Phil Jackson de calças curtas.

O Luis Scola fede mas simplesmente chuta traseiros, e ontem isso ficou mais óbvio do que nunca. Seu arremesso é feio e inconsistente, seus ganchos são desengonçados, ele não sai do chão e não tem a força física para se impor nem no ataque e nem na defesa. Justamente por isso, Scola comanda: joga para a equipe, faz tudo aquilo que for necessário (de cavar faltas de ataque a fazer café), escolhe as jogadas mais simples e contribui nas pequenas coisas. Não vai impedir uma cesta mas vai tomar uma trombada, não vai enterrar no Gasol mas vai girar com facilidade usando seu inteligente jogo de pernas. Scola é o exemplo perfeito do jogador que é bom porque é ruim, em que a inteligência e a consciência das próprias limitações levam o jogador à excelência.

No próximo jogo, Scola pode não ser tão efetivo, pode ser melhor marcado (no segundo tempo, sofreu marcação dupla em todas as bolas e caiu muito de rendimento), mas fará sua parte do modo que ele inventar na hora. Nem que seja lavando a louça, secando a quadra, vendendo pipoca.


2. O Phil Jackson é um cara legal

O Houston Rockets tem falhas óbvias, e o Phil Jackson é um dos melhores técnicos a já ter respirado na atmosfera terrestre. A única razão plausível para o técnico zen não explorá-las é porque ele é um sujeito bacana e quer manter a série equilibrada mesmo com o Houston sendo, obviamente, o time mais fraco. O exemplo mais importante é Chuck Hayes. Acho que todo mundo já viu como o sujeito cobra lances livres, parece que ele está em trabalho de parto ou tendo convulsões (talvez esteja). Na tempora regular, acertou 36% dos seus lances livres, algo que o Shaq conseguiria se arremessasse de costas. Para a sorte do Houston, Hayes não passa muitos minutos em quadra e, nunca, absolutamente nunca, está em quadra nos minutos decisivos.

Só que o Yao Ming é "made in Taiwan", como todos nós sabemos, e está com defeito de fabricação. Chuck Hayes, então, é titular e está o tempo todo em quadra. Se quisesse, Phil Jackson poderia ter usado a técnica do "hack-a-Shaq" (ou "faça uma falta intencional no Hayes para levá-lo para a linha de lances livres, mas tente ser mais explícito do que o Antoine Wright, por favor!") e o Houston seria obrigado a tirar de quadra esse epiléptico descoordenado.

Para quê fazer isso, você se pergunta? Afinal, Hayes é inútil no ataque e mantê-lo em quadra garante que o Houston jogue com apenas 4 jogadores no lado ofensivo. Acontece que Hayes é um excelente defensor no garrafão. Anão, nunca conseguiu sair do chão, mas marca de maneira física, incomoda e rouba muitas bolas, desviando passes. Ele nunca vai dar um toco, nunca vai contestar um arremesso, mas ele impede que Pau Gasol possa se aproximar da cesta e obriga o espanhol a arremessar por cima dele. Sua marcação ontem foi impecável e o Houston teria perdido muito de sua defesa sem ele em quadra.

Hayes também permite, simplesmente por existir, que o Lakers faça marcação dupla em outro jogador em todas as posses de bola do Rockets, porque é como se ele não tivesse braços. Apenas no segundo tempo isso aconteceu, e o Lakers chegou a cortar para 3 a vantagem monstruosa criada logo no primeiro quarto (o Houston começou o jogo com um sensacional 17-1). O Phil Jackson não gosta de dobrar, não gosta de faltas intencionais e não deve gostar muito de ganhar. Obrigado, tio Phil, nós vermelhinhos agradecemos.


3. A síndrome de Gilbert Arenas

Lembram-se quando o Arenas se machucou pela primeira vez (já não faz uns 15 anos que ele está sempre contundido?) e o Wizards, de repente, se tornou um time melhor? As explicações, dadas pelos próprios jogadores, eram duas. A primeira era que, sem sua maior arma ofensiva, o time precisava rodar mais a bola e todo mundo tinha que fazer sua parte. A segunda e mais bizarra era que, sem os pontos que Arenas sempre fazia, o time então tinha que se garantir na defesa e, portanto, apertou na marcação do perímetro. Por que eles não faziam isso ainda quando tinham o Arenas é uma pergunta sem resposta, mas acho que muitos times só fazem esse tipo de coisa quando a água bate na bunda.

A verdade é que sem Arenas o Wizards era um time mais frágil, menos confiante e muito limitado, o que a longo prazo ficou óbvio (eles fedem, afinal de contas). Mas a princípio sua saída foi benéfica em alguns aspectos. O mesmo acontece com esse Houston Rockets sem Yao Ming. Incapaz de fazer pontos no garrafão, o time agora roda a bola para conseguir encontrar espaço para arremessar de três pontos (com o chinês, isso era mais fácil porque sempre tinha um mané livre, malditas marcações duplas). Sem uma presença no garrafão, o time agora precisa se basear única e exclusivamente no pick-and-roll para conseguir se aproximar do aro. E, sem a defesa podendo afunilar o ataque adversário em direção do Yao (vai afunilar em direção do Hayes que tem 40 centímetros de altura?), a defesa do perímetro tem que apertar mais.

Arremessando mais de três pontos, aproveitando-se da defesa mais-ou-menos do Lakers, o Houston se coloca na posição de ter dias de mira calibrada e sair em vantagem. Usando o pick-and-roll sem parar, o Houston explora a maior (e mais famosa) deficiência defensiva do Lakers, incapaz de fazer coberturas (como tanto mostrou Chris Paul durante a temporada regular). E, por fim, apertando no perímetro, o Houston complica a vida de Kobe e permite que Gasol e Bynum tenham que decidir a partida lá dentro. Como pudemos ver ontem, "funhé!" para os dois homens de garrafão do Lakers.

A longo prazo, o Houston é pior, mais frágil e mais limitado. De fato, já o é, dependendo muito de bolas de três e de uma boa pitada de sorte. Mas é incrível como essas alterações que o Houston se viu obrigado a fazer casam perfeitamente com as fraquezas do Lakers. Não sei sei o técnico Rick Adelman teria mudado as coisas se Yao ainda estivesse podendo jogar, se foi puro acaso e obra da necessidade ou se foi uma série consecutiva de lances de gênio. Mas o Houston tem um transtorno bipolar positivo: aprendeu a jogar de quinhentas maneiras diferentes porque sempre tem alguma peça fundamental que pifou. Da maneira que está jogando agora, o Houston pode perder uma partida graças a um apagão do ataque no primeiro quarto, mas muitas coisas se encaixam e tornam uma vitória do Rockets nessa série uma real possibilidade. Talvez mais possível do que seria com Yao, ou do que seria para o Denver Nuggets. Será que o Nuggets pode colocar dois jogadores tão espetaculares em defesa no perímetro para encher o saquinho do Kobe Bryant, abusar dos pick-and-rolls, ter um jogador físico e nanico para obrigar o Gasol a arremessar? O Rockets deu sorte.


4. Os Zé-ninguém

Entrei em pânico, ao fim da temporada passada, com a possibilidade de que o Houston não renovasse o contrato de Carl Landry. Será que algum time lhe faria uma proposta muito alta? Fiquei rezando em silêncio para que nenhuma equipe da NBA tivesse percebido como ele é espetacular. O Bobcats percebeu e ofereceu 9 milhões de verdinhas por 3 anos. Acendi uma vela, pelamordedeus o Rockets precisa cobrir a proposta! Todo time precisa de um jogador produzido na máquina de fazer Jason Maxiells, que criou vários clones famosos como Paul Millsap, Leon Powe e Craig Smith. Só que o Landry, bizarramente, acerta arremessos da cabeça do garrafão.

O Houston cobriu a oferta, para minha felicidade, e aqui estão os resultados. Esse time já foi lento, pouco atlético e meio desanimado (provavelmente por causa daquele olho-meio-aberto do Tracy Mcgrady, meio "Amaral", que lhe dá aquela expressão de sono), mas com Scola, Battier e Landry, parece um bando de adolescentes naquele extinto programa que tinha a Tiazinha e a Feiticeira. Todo mundo corre, grita e se taca no chão como pino de boliche. Carl Landry enterra, pula pra burro, traz outra mentalidade pra equipe.

A mesma coisa acontece com Aaron Brooks. Rafer Alston era um armador burocrático, meio traumatizado com o estigma de ser "um armador da And1", só passava para o lado e tentava ser o herói dos jogos com arremessos inconsistentes de três pontos. Quando foi trocado por feijões mágicos, Aaron Brooks assumiu o barco assumidamente cercado por medo e receio. Seus arremessos também são inconsistentes e ele é um nanico, mas como aprendemos nas Ligas de Verão, Brooks é um pontuador nato. Rápido demais, bate para a cesta e ataca o aro. Com um pick-and-roll atrás do outro, invade o garrafão e dá pesadelos ao Lakers.

Com Yao em quadra, a bola vai para dentro do garrafão e depois para fora, obrigando Brooks a ser mais um arremessador. Sem Yao, Brooks não larga a bola e é obrigado a bater para dentro para evitar que a bola só fique no perímetro. Isso dá muito certo contra o Lakers, em especial. O armador lembra o Tony Parker em começo de carreira e não é sempre muito esperto, arremessa demais às vezes. Quando as coisas estão funcionando para ele, no entanto, o Houston é um time infinitamente melhor.


5. "Raça, manô!"

Culpa do Scola, culpa dos zé-ninguém, culpa da "síndrome de Gilbert Arenas", culpa do time ser tão bom jogando em casa, o Houston Rockets não sabe não estar empolgado numa partida. Jogam com uma energia inacreditável em cada posse de bola. Mais uma vez, isso se encaixa perfeitamente numa das fraquezas do Los Angeles Lakers: picados pela famosa mosca tsé-tsé, a mosca do sono, volta e meia a intensidade do Lakers simplesmente desaparece e eles cochilam em quadra.

Ontem, o Rockets ganhou na unha. Não foi na base da técnica do Scola ou dos arremessos certeiros do Aaron Brooks, foi na defesa mordida, nos pulos no chão para salvar bolas perdidas, no Artest atormentando o Kobe (que acabou, na frustração, empurrando o Artest que, por sua vez, saiu literalmente correndo da confusão, com medo de que ele espirrasse e fosse expulso - mas depois voltou para mostrar a língua quenem criança de 3 anos, "seu bobo, feioso!").




O Kobe estava puto, balançando a cabeça em reprovação, gritando com Pau Gasol no banco de reservas por tomar um pau do Scola, mas o resto do time estava querendo balançar numa rede e tomar uma caninha da boa.

Não acho que seja um problema de motivação, Phil Jackson sabe o que faz, creio apenas que seja como o time é, a junção coletiva de jogadores que não são tão intensos, que preferem a técnica, que desistem mais facilmente. Gasol, Odom, Bynum, Farmar, são todos jogadores sem muita confiança, um pouco temerosos, sem nunca saber exatamente se vão ser titulares ou não, se estão fazendo a coisa certa ou não. O espanhol, em particular, gosta do jogo técnico e não do jogo brigado. "Funhé!" pra ele, porque o Chuck Hayes nasceu para apenas três funções no mundo: abrir potes de picles, marcar o Nowitzki, e marcar o Pau Gasol.


É claro que, de certa forma, essa série chegar ao Jogo 7 é mérito do Houston Rockets, mas foi um pouco de sorte. Calhou do time ter aprendido, na raça, a jogar sem suas estrelas, de ter que modificar seu modo de jogar de uma partida para a outra. Calhou do Houston ter que explorar saídas que são, justamente (e talvez por puro acaso), pontos fracos do Lakers. E calhou, principalmente, do Lakers ser um time bipolar que não consegue manter a produção de um jogo para o outro, que sai mentalmente da partida facilmente, e que tem uma série enorme de fraquezas. Quantos séculos vão se passar até que esse time saiba defender um pick-and-roll? (se o Spurs tivesse o mesmo problema, teria sido destroçado pelo Suns ao invés de ter uma coleção de anéis em cada dedo).

comentamos aqui que essa temporada nos brindou com times favoritos muito, muito frágeis. Ninguém podia colocar o anel com antecedência simplesmente porque, quem acompanha o Lakers de perto, sabe que eles fedem um bocado às vezes, e quem acompanha o Cavs sabe como eles podem ser limitados no ataque quando são obrigados a jogar de forma mais lenta e cadenciada. Mérito do Houston por ter lutado bravamente e ter coroado esses playoffs com um Jogo 7 que, por si, já é uma vitória. Mas temos que ser realistas e apontar dedos: o Lakers é um time um tanto meia-boca para ser campeão. Pode vencer todo mundo, isso é verdade, mas pode tropeçar feio a qualquer segundo. O mesmo se aplica a todas as outras equipes que se mantém nos playoffs e não podemos apontar um favorito sequer, nem por um segundo. O Celtics está capenga, o Magic joga lideranças fora como se fosse o Silvio Santos tacando aviõezinhos no "Topa tudo por dinheiro".

Houston e Lakers se pegam no domingo, num imperdível Jogo 7. Abaixem as cabeças, crianças, porque será terra de ninguém. Qualquer um dos dois times pode ganhar por 40 pontos. Só que, se o Houston passar, não tem chances contra o Nuggets. Os cinco motivos acima não vão valer muito contra a equipe de Billups e Carmelo Anthony. Mas, desde já, sonho com mais um Jogo 7. Porque essa equipe me ensinou a fazer justamente isso, sonhar, acreditar, vibrar. Enquanto o Lakers, convenhamos, está ensinando outras coisas: ter medo, saber-se superior e mesmo assim fazer xixi na cama com o pavor de jogar tudo fora. Realidades muito diferentes que decidem tudo num jogo final. Preparem-se: vai ter chat do Bola Presa aqui, pra gente acompanhar ao vivo e se pegar no tapa. Não percam!