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sábado, 5 de novembro de 2011

Lados mais divididos

Jordan parceiraço dos jogadores

Na semana passada vivemos um momento de otimismo enorme quando até David Stern e Billy Hunter pareciam felizes e próximos de um acordo. Aí veio o baque: fim de reunião e todo mundo de cara fechada, dizendo que todos os avanços foram por água abaixo. Segundo Derek Fisher, presidente da NBAPA, a Associação dos Jogadores, "os donos viram que fizemos algumas concessões e seus olhos brilharam querendo mais e mais".

Como eu já disse milhares de vezes, talvez a gente nunca descubra o que de verdade acontece nessas salas de reunião, afinal o que cada lado diz depois é sempre contraditório e tanto os donos como os jogadores querem manipular as informações de alguma forma que a imprensa e o público fiquem do seu lado. Como resposta a essa afirmação, por exemplo, David Stern disse que os donos ainda queriam negociar, mas que não puderam porque Billy Hunter se levantou e foi embora. 

Para se ter uma ideia de como as informações são desencontradas, em um espaço de poucos dias ouvimos gente dizer que 95% do acordo está certo, que só falta a definição final de valores do BRI: donos querem divisão de 50/50, jogadores de 52/48. Mas que o sistema está todo acertado. Ao mesmo tempo saiu outra notícia de "uma fonte interna" dizendo que esses relatos que a definição está dependendo só desses 5% é bobagem, que tem muito mais coisa a ser discutida e decidida. E aí? Fonte anônima por fonte anônima vocês acreditam em quem? A decisão mais racional é ler tudo e não acreditar em nada ou não ler nada e esperar fatos concretos.

Se eu fosse um simples torcedor, estaria ignorando solenemente essa palhaçada toda, mas bitolado que sou e com um blog sobre o assunto, fico lendo e relendo coisas que poucos dias depois serão confirmadas e negadas dezenas de vezes. Aqui tento passar para vocês as coisas que eu acho que parecem mais realistas, e tento deixar claro como muito disso pode ser ficção.

Depois do colapso das negociações na semana passada, o principal assunto da greve/locaute passou a ser divisão. Não mais a divisão dos recursos gerados pela liga, o tal BRI, mas sim as duas facções briguentas é que estariam criando rixas dentro delas. Por um lado um grupo de jogadores estaria disposto a acabar com a NBAPA e ficar seu uma união os representando, de outro uma parte dos donos estariam apressados querendo começar logo a temporada com a divisão de 50%, enquanto outros estão bravos com o David Stern pedindo que ele corte ainda mais a fatia dada para os atletas. 

Comecemos pelos jogadores. Nessa semana aconteceu uma teleconferência envolvendo pelo menos 50 jogadores, muitos dos principais agentes da liga e um advogado com especialidade em casos de processos antitruste, todos discutindo a possibilidade de acabar com a NBAPA. O movimento teve participação de caras com influência e nome como Paul Pierce, Dwyane Wade (os cabeças do grupo), Blake Griffin, Ray Allen, Jason Kidd, DeAndre Jordan, Al Horford, Dwight Howard, Tyson Chandler e outros. A ideia é a seguinte: enquanto existir uma união de jogadores da NBA, a liga não pode ser indiciada por atividade de truste, que é quando uma única organização domina toda a oferta de produtos ou serviços de uma área, ou quando uma única organização tem poder demasiado de pressão sobre essa área. A NBA, é claro, domina o mercado e a área de atuação dos jogadores de basquete nos EUA, mas como existe uma Associação dos Jogadores da NBA, a NBAPA, ela está protegida contra isso. A chamada "decertificação" da Associação permitirua que a NBA fosse indiciada por truste e aí as negociações pulariam das mesas de David Stern e Billy Hunter para a Justiça. 

Segundo a análise de David Scupp, um especialista em processos antitruste, os jogadores até teriam muitas chances de ganhar esse processo contra a NBA se um dia ele chegar na Justiça. Teriam que ser abordados muitos temas, e a coisa seria complicada, mas no fim a vitória dos jogadores poderia ser significativa, diz ele. Mas isso não quer dizer que é a melhor opção. Segundo o mesmo Scupp, um processo desse tamanho demoraria anos e anos para ser resolvido, o que significaria que a NBA perderia mais de uma temporada, muito de sua força, fama e os jogadores ficariam sem anos de salários. Fazer isso seria aceitar, ao que parece, ganhar bem menos em times ao redor do mundo ao invés de dar o prazer da vitória nas negociações para os donos. Não à toa o blog Eye-on-Basketball, que entrevistou Scupp, chama a decertificação da Associação de "A Opção Nuclear". 

Isso ainda não está próximo de acontecer. A teleconferência foi para se discutir a possibilidade e não se sabe as conclusões que eles chegaram durante a conversa, sem contar que para que a Associação seja dissolvida eles precisam de mais jogadores aderindo ao movimento. Muitos acreditam também que tudo isso não passa de um blefe, um jeito de dizer para os donos "aceitem os 52% que oferecemos ou a coisa vai ficar preta". Até porque, convenhamos, mesmo que o acordo fique com essa quantia para os jogadores, os donos já venceram essas negociações e recuperaram boa parte da porcentagem que queriam.

Pior que acredito que muitos donos pensam como eu, as informações vagas que eu comentei tem vários indícios de que tem donos de saco cheio desse locaute e querendo que a temporada comece logo. É a divisão do outro lado da mesa. Como cada um pensa no seu umbigo, não é difícil adivinhar quem são eles: Jerry Buss (Lakers), James Dolan (Knicks), Micky Arison (Heat) e Mark Cuban (Mavs) são os que tem a voz mais ativa nessa campanha. O Lakers quer aproveitar, economicamente e dentro de quadra, os poucos anos que restam na carreira de Kobe Bryant. O Mavs quer aproveitar o embalo do título, a temporada lotando ginásios como o "atual campeão" e, claro, os últimos momentos dos já experientes Dirk Nowtizki e Jason Kidd. O Heat não montou o time dos sonhos para ficar assistindo reunião de engravatados e o Knicks tem jogadores relevantes pela primeira vez em uma década, não tem problemas de prejuízo nem nos tempos de vacas magras e, claro, quer aproveitar o momento.

Mas existe um grupo de cerca de 12 times, a maioria de centros econômicos menores, que estão forçando a barra nas negociações. Dizem até que eles só aceitam finalizar o acordo quando eles própiros tiverem mais de 50% do BRI, nem uma divisão igual, o mínimo do mínimo que os jogadores cogitam (talvez, em último caso) aceitar, os agrada. O líder desse movimento dos pequenos é ninguém menos do que Michael Jordan, o dono do Charlotte Bobcats. Para alguns esse é o grito de desespero dos times de mercado pequeno querendo sobreviver, para outros é o jeito dos donos responderem à ameaça de decertificação dizendo "aceitem o acordo de 50% antes que esse pessoal faça vocês perderem ainda mais". 

Mas por mais que seja uma estratégia, como tudo parece nessas horas, não tem como não se surpreender com a imagem de Michael Jordan sendo associada à liderança desse movimento. É o jogador mais conhecido de todos os tempos, o melhor da história para 99% dos fãs do basquete e sem dúvida o ídolo e modelo de todos os atletas contra quem hoje ele está se opondo radicalmente em nome de seus colegas cartolas. E não é só isso, Jordan, quando era jogador, já participou de suas próprias negociações com a liga, como bem lembra o SBNation:

Em 1999, logo depois de se aposentar, mas ainda participando ativamente das discussões que acabaram com o locaute daquele ano e uma temporada de 50 jogos, Jordan foi cara a cara com o dono do Wizards, Abe Pollin, e disse "Se você não consegue fazer isso funcionar direito, venda o time, não desconte nos jogadores". E antes disso, em 1995, Jordan, junto de Patrick Ewing e Reggie Miller, liderou um movimento pedindo que os jogadores acabassem com a Associação dos Jogadores e processassem a NBA baseado em leis antitruste. Sim, exatamente a estratégia de hoje em dia. Na opinião dele, o então presidente Buck Williams havia negociado dois contratos horríveis que incluíam enormes perdas para os jogadores, coisas como o luxury tax (a multa que os times pagam por ultrapassar o limite salarial) e o rookie scale (salários fixos para novatos). Hoje, do outro lado, Jordan quer aumento do luxury tax e diminuição dos salários dos jogadores em até 7%. 

E ainda tem a cereja no bolo. Também em 1995 ele comentou a atuação de David Stern como representante dos donos dos times da NBA: "Tudo o que o Stern precisa fazer é analisar a proposta pelos olhos dos jogadores. Ele não iria recomendar isso, ele não aceitaria isso, então por que nos faz essa proposta?". Pois é, Jordan, seu filme já está queimado ou você quer mais uma? OK, mais uma: "Eu vejo Clyde Drexler, David Robinson ou Charles Barkley dizendo que conseguimos um bom negócio para nós, as super estrelas. Mas e os outros jogadores que vão chegar e vão fazer essa liga funcionar e manter o basquete popular como é hoje? Não é um bom negócio para eles, é por isso que estamos lutando". Precisa comentar o quanto uma pessoa pode mudar em 16 anos?

Amanhã, sábado, acontece mais uma reunião entre donos e jogadores. E sabe quem estará de volta? George Cohen, você leu sobre ele na semana passada. E não, ninguém sabe se isso é bom ou mal sinal, saberemos só amanhã mesmo. O que é fato é que foi ele mesmo quem ligou para os dois lados e pediu para estar lá, um doido varrido. Claro que sempre que há uma reunião o negócio pode ser fechado, mas o otimismo está distante em relação à semana passada, o que esperamos agora é que todos saiam um pouco mais otimistas, alinhados e que esses papos de 47% e decertificação não passem de provocações. Porque já que cada um pensa no seu, temos que pensar no nosso lado de fãs da NBA. Nenhuma dessas coisas seria boa para a nossa perspectiva de ver um joguinho de basquete no nosso League Pass ainda nesse ano.


Atualização 6/11
A reunião acabou e se o resultado não foi lá muito bom, pelo menos dá uma perspectiva de conclusão do locaute. Ou do apocalipse. Pela primeira vez os jogadores trabalham com um deadline, com um dia para aceitar ou não uma proposta.

Aconteceu assim, o mediador George Cohen se encontrou com os dois lados em separado e depois, quando todos estavam juntos, fez diversas propostas. Os donos escolheram uma em que os jogadores ficariam com 51% do BRI (todo o dinheiro gerado pela NBA) e os donos ficariam com 49%, além disso os times que estivessem acima do limite do salary cap teriam mais restrições a participar da Free Agency e um mid-level exception (proposta que hoje é de 5mi por temporada, feita por times acima do salary cap) de apenas 2.5 milhões.

David Stern jogou a proposta na mão dos jogadores e disse que eles tinham até quarta-feira para decidir aceitar ou não, e deixou muito claro o seu ultimato: Se a proposta for negada os donos de times pequenos, liderados por Jordan, só vão fazer propostas que começam com os jogadores levando 47% do BRI e com um sistema mais parecido com um Hard Cap.

Se os jogadores aceitarem, fim de locaute. Se recusarem, as negociações vão para um buraco de onde vai ser difícil sair tão cedo. 

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Nada a ver com o post, mas só pra gente não esquecer porque aguentamos essa palhaçada toda:

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

"Kwame, você não sabe jogar"

Provavelmente a única vez que riram um para o outro


Em janeiro de 2007 um homem chamado Alexander Martinez descia uma rua de Los Angeles com um bolo de aniversário enorme no valor de 190 dólares nas mãos. Era para uma gigantesca festa de aniversário que organizava em um local próximo. De repente ele encontrou Ronny Turiaf, então jogador do Lakers. Enquanto pedia uma foto com o ídolo, Kwame Brown viu os dois e sem mais nem menos pegou o bolo e acertou o pobre fã. Com a confusão montada, Kwame foi embora e recebeu uma ameaça de processo. Disse mais tarde que achou que o bolo era de Turiaf e quis só fazer uma brincadeira com o companheiro de time, fugindo assustado quando viu que tinha feito bobagem. Se sentindo mal, pagou um jantar caríssimo para o fã do Lakers no STAPLES Center. Ainda não ouvi uma história que defina melhor Kwame Brown.

Na última segunda-feira, um dia pouco movimentado na NBA, apenas uma notícia chamou a atenção. O Charlotte Bobcats contratou Kwame por um ano e o salário mínimo de veteranos, 1.3 milhão de dólares. As reações mais óbvias para essa notícia foram:

- Aff, até o Kwame arranjou time e o Iverson não!
- Esse cara é a maior enganação da história da NBA.
- Como tanto time é enganado por esse cara?

Não culpo quem pensa assim, principalmente porque eu mesmo, como torcedor do Lakers, fui um dos que mais xingou Kwame nos últimos anos. Reclamei como um doido quando o Lakers trocou Caron Butler por ele, perdi a voz de tanto reclamar em quase todo jogo sempre que aquelas mãos pequenas não seguravam passes perfeitos e confesso que saí correndo pela casa quando descobri (por uma mensagem de texto do Danilo) que o Lakers havia trocado ele pelo Pau Gasol.

Mas acreditem, o buraco é bem mais embaixo quando o assunto é Kwame Brown. Sua contratação pelo Bobcats é reflexo de uma história de 10 anos atrás, que por sua vez é resultado da história de vida do primeiro jogador vindo do colegial a ser a 1ª escolha em um Draft da NBA.

O Draft do ano 2001 teve o Washington Wizards com a primeira escolha, como nesse último ano, mas sem uma escolha óbvia como John Wall. Ao invés disso a discussão girava em torno de três jogadores de colegial que decidiram não ir para a faculdade: Kwame Brown, Tyson Chandler e Eddy Curry. Pau Gasol, apesar de ser facilmente o melhor daquele ano, corria por fora e foi escolhido na terceira posição. Todos estavam arrasando com os torneios colegiais, eram gigantescos e estavam babando para seguir os passos de Tracy McGrady, Kevin Garnett e Kobe Bryant, três dos maiores nomes jovens da liga na época e que tinham pulado a faculdade.

A decisão estava nas mãos do Wizards, mais especificamente nas de Michael Jordan e Doug Collins. O primeiro acabara de assumir seu primeiro cargo executivo na NBA, como presidente de operações de basquete do time, e o segundo era o técnico, escolhido a dedo pelo próprio MJ para liderar uma nova era de renovação na franquia. Ao ficar na dúvida entre Chandler e Kwame, resolveram levar os dois para um treino 1-contra-1 e resolver a parada. Viram Kwame, que tinha acabado de sair de uma última temporada de colegial com médias de 20 pontos, 13 rebotes e 5,5 tocos, simplesmente arrasar com seu concorrente em todos os aspectos do jogo. Ao ver aquele cara grande, jovem, atlético e muito superior a todos os jogadores de sua idade. a dupla da capital fez sua decisão. Querem ver como o mundo dá voltas? Enquanto os consagrados Jordan e Collins escolhiam Kwame, Isiah Thomas, então técnico do Indiana Pacers, alertava: "Vocês vão ficar chocados, ele não vai saber nada sobre basquete".

Por mais incrível que essa frase pareça, Isiah Thomas tinha toda razão. Mas ele tinha falado a verdade pela metade, Kwame não só não sabia nada sobre o basquete como não sabia muita coisa sobre a vida, muito menos sobre como viver sozinho numa cidade grande.

O então pilar da reconstrução do Wizards era um moleque de 19 anos nascido na minúscula Brunswick, no Estado da Geórgia, uma cidade de 15 mil habitantes povoada por barcos de pesca e só. Kwame era de uma família muito pobre e com uma história que até beira o clichê de tão sofrida: sua mãe, filha de um pescador, conheceu um caminhoneiro mais velho e se casou com ele. Teve cinco filhos e passou a sofrer com a violência do marido. Quando o Kwame, o caçula, tinha 6 anos, seu pai foi preso por assassinar uma namorada de cerca de 20 anos de idade com um machado. Foi condenado à prisão perpétua e só assim deixou a família em paz. Mas não que o crime esteja fora da família, dois irmãos de Kwame estão presos, um por tráfico e distribuição de crack e outro por atirar em um homem. Os outros dois trabalhavam na época do Draft, um fritando hamburgueres e outro lavando carros.

Em um dia, pouco antes de decidir se iria para a NBA ou se jogaria pela Universidade da Flórida, seu carro foi acertado por uma bala perdida. Por pouco ele não foi atingido e foi o que fez com que decidisse por virar profissional. Com os familiares em situação difícil de vida, ele não poderia correr o risco de uma contusão, de fracasso na faculdade ou mesmo de morrer num incidente aleatório como aquele e deixar seus entes próximos sem o dinheiro para sair daquela vida difícil. Uma vez indo a um jogo do Wizards ele confessou a seu assistente pessoal Richard Lopez que um dos seus sonhos de infância era se sentir satisfeito depois de comer.

Richard Lopez foi o cara contratado pelo Washington Wizards para ajudar Kwame Brown a viver. Sério. E uma pequena lista de casos explica essa decisão:

- Em um restaurante francês pela primeira vez nada vida, Kwame se surpreendeu ao pedir um "French Dress" e ouvir que não tinham nada daquilo lá. Um "French Dress" é um tipo de molho parecido com o nosso molho vinagrete que ganha essa denominação com referência francesa nos EUA e na Inglaterra. Sem ter a menor idéia da expressão, achou que era obrigação de ter em um restaurante francês. Um erro tão caipira quanto o Chico Bento tomar banho na fonte do shopping.

- Mas isso era só o começo da ignorância gastronômica de Kwame Brown. Durante meses ele sobreviveu apenas de comer os frangos fritos da rede Popeye's (quem assiste o NBA League Pass conhece aquelas propagandas de dar água na boca). O motivo era que ele não sabia fazer compras, escolher comida e muito menos cozinhar.

- Uma vez antes de um jogo do Wizards, Kwame ligou para Lopez e disse "Não tenho o que vestir". Seu assistente chegou lá e viu um bolo de ternos sujos jogados em um canto do quarto. Todos estavam gastos e Kwame não sabia como lavá-los e muito menos onde levá-los para serem limpos.

E assim foi. Lopez foi quem comprou o carro de Kwame (uma Mercedes S500), seu celular, seu apartamento, o serviço de TV a cabo, seu cartão de crédito. A mãe do jogador até passou um tempo com o filho em Washington, mas eventualmente teve que voltar para casa para cuidar dos outros filhos menos afortunados. Depois disso um outro amigo de Kwame que estava morando com ele por fazer faculdade na região de Washington acabou se mudando para mais perto do campus. Pela primeira vez sozinho em uma casa, prestes a dormir sem ninguém perto como nunca havia feito antes, pediu para Lopez: "Você pode ficar por aqui hoje?".

Se fora da quadra as coisas estavam malucas, complicadas e não indo tão bem, dentro não estavam muito melhores. Pouco antes do começo da temporada, Michael Jordan resolveu sair do seu posto de executivo do time para virar jogador. Essa mera decisão do His Airness transformou o time. De equipe jovem e montada para o futuro, se tornou um time focado em fazer de tudo para ser bom o bastante para ajudar MJ a voltar para os playoffs. Aí o time que deveria dar minutos aos novatos Etan Thomas, Kwame Brown, Brendan Haywood e Bobby Simmons passou a dar espaço para veteranos como Christian Laettner, Popeye Jones e Hubert Davis. No ano seguinte ainda chegaram ao cúmulo de contratarem Charles Oakley, Byron Russell e de trocar o jovem Richard Hamilton por Jerry Stackhouse.

Comparando com a NBA de hoje, seria pegar o Sacramento Kings, time jovem e focado em desenvolver seus jogadores para o futuro e, baseado na volta de um velho ídolo, mudar toda essa filosofia poucos meses antes de começar a temporada. A transformação minou a evolução do Wizards e nem foi bem feita o bastante para levar Jordan de volta à pós-temporada.

Dá pra dizer que o fracasso de Kwame Brown no Wizards começou antes mesmo da temporada começar. Não só com essa mudança repentina de filosofia, mas no primeiro dia de treinamento ele já deu o primeiro passo com o pé esquerdo. Kwame Brown ouviu de muitos "especialistas" que ele estava muito magro para a NBA, que precisava encorpar. Comendo mais (frango frito, provavelmente) e malhando, ganhou 9 quilos e apareceu para os treinos mais pesado do que o técnico Doug Collins esperava e queria.

Logo nos primeiros treinos Kwame Brown sofreu com dores nas costas e nas coxas. Na época, Doug Collins disse a ele: "Você deixa os treinos mais difíceis aparecendo fora de forma como está. Depois começa a jogar mal, perder confiança e vira um círculo vicioso". Algum tempo depois, já no meio da temporada, Kwame teve problemas para respirar em um dos treinos e teve que parar. Foi diagnosticado com asma induzida por esforço físico, causada porque seus pulmões não estavam completamente desenvolvidos para o seu tamanho, provavelmente causado por nunca ter se esforçado tanto fisicamente quanto estava se esforçando naquele momento. Ele não estava pronto para o nível físico dos treinos da NBA.

Como se isso não fosse o bastante, a ignorância basquetebolística de Kwame começou a desesperar Doug Collins. Ele não sabia quando dar um passe por cima, quicado ou de peito, e seu jogo de pernas era primário. Tudo o que ele sabia de basquete havia aprendido sozinho, fazia instintivamente, qualquer coisa aprendida em um treino comum não era do conhecimento dele. Nas palavras de Doug Collins, "Como Kwame deveria aprender jogadas se ele nem sabia onde ficar em quadra? E não estamos falando do nível da NBA, mas de basquete em geral". Ou como disse seu companheiro de time Popeye Jones, "É alguém tentando entrar no mundo das altas finanças depois de apenas duas aulas de economia básica".

O que no começo era só o medo de uma escolha errada começou a virar desespero. Com o Wizards cada vez mais longe da zona de playoffs, começaram a cobrar o primeiro escolhido no Draft. A cobrança vinha da torcida, dos companheiros de time, de Jordan, de Doug Collins e da imprensa, não só a da cidade, que cobria o time, mas do país e do mundo inteiro. A decisão do Jordan de voltar à ativa transformou o Wizards num dos principais times da liga. Até jogos em rede nacional estavam tendo.

De repente Kwame começou a se afastar de todos e virar um cara solitário. Passava o dia inteiro em casa e quando voltava para sua cidade natal tinha que lidar com diversos parentes, amigos e praticamente todo mundo de sua cidade pequena que ia na sua casa atrás de fotos, autógrafos, pedir para sair junto e ser seu amigo e principalmente para pedir dinheiro. E quando ele não atendia o favor era tachado de estar se achando muito por ter ido para a NBA. Decidiu tirar a mãe de lá e colocar em uma casa maior nas redondezas enquanto ele se escondia na capital americana.

Como muitos adolescentes de 19 anos fazem em seus meios quando ficam sozinhos e sem sucesso, Kwame começou a achar que a NBA não era o seu lugar. Mesmo depois de seu primeiro bom jogo na liga, uma partida de 10 pontos e 12 rebotes contra o Spurs de David Robinson e Tim Duncan, o time perdeu e o clima no vestiário era pesado.

No dia seguinte Collins deu um treino forte e todos começaram a forçar Kwame a fazer alguma coisa, lhe provocando, empurrando, jogando fisicamente. Em determinado momento o pivô do time, Jahidi White, o derrubou forte no chão e disse: "Levante, você não está machucado". Ele segurou as costas ainda com dor, começou a levantar e ninguém lhe ajudou. Até Popeye Jones, que era um dos que mais davam força pra ele, disse: "É hora de você crescer. Agora. Hoje. Levanta daí". Collins emendou pedindo que Kwame fizesse flexões para compensar a demora, ao que o jogador respondeu dizendo que suas costas estavam doendo. Aí ouviu mais do treinador, "Pare de ser um bebê e comece a crescer e jogar para merecer o respeito dos seus companheiros de time. Eles estão cansados de você. Estão cansados de você cair e ficar jogado por aí. Estão cansados de carregar você nas costas. Você tem que entrar no vestiário e ser capaz de encarar qualquer um olho no olho".

De cabeça baixa, Kwame só escutava e ao não responder a um intimidante "Você vai jogar ou não?", foi expulso do treino. Ele foi chorando para o vestiário, pensando que a liga não era pra ele, que seus companheiros, técnicos e todo o resto lhe achavam horrível e que era isso que ele deveria ser no fim das contas. Subiu na esteira e correu por uma hora sem parar.

Algum tempo depois Jordan apareceu. O mesmo MJ que era um dos maiores críticos de Kwame, que pegava pesado com ele a cada erro e que já havia mandado o novato jogar com o pé torcido porque ele mesmo já havia jogado "com pés 45 vezes piores que esse". Mas dessa vez Jordan apareceu para dar uma força, disse que tudo ia ficar bem e que "o Doug Collins é assim mesmo, duro, mas em alguns anos você vai perceber como ele é bom". Conversaram por mais um bom tempo, com Jordan chegando a afirmar que ele e o resto do time inteiro sabiam da capacidade dele de virar um grande ala de força na NBA por muitos anos.

A queda de confiança do Kwame chegou a um ponto em que ele disse que seu principal objetivo nos jogos era não comprometer :"É jogar e torcer para que o cara que você está marcando não faça pontos e você não faça nada que te deixe envergonhado". Quando a temporada começou a apertar e todos estavam desesperados pela vaga na pós-temporada, Doug Collins resolveu colocar Kwame na lista de contundidos. A justificativa oficial foi o músculo da batata da perna, na verdade ele queria tirar a pressão de cima do jogador. "O rosto dele estava arrasado, horrível. Eu precisava tirar a pressão de cima dele". O time melhorou depois de sua saída e eles embalaram 9 vitórias em 12 jogos, mas o clima no time continou o mesmo. Em determinado treino, depois de broncas consecutivas, Kwame disse ao técnico: "Eu queria que você parasse de cobrar e só me deixasse jogar", e ouviu em resposta: "Kwame, você não sabe jogar".

Se tudo foi horrível no primeiro ano? Quase. Teve um jogo contra o Blazers, quando Rasheed Wallace foi para o seu tradicional trash talk "E aí garoto, me mostra porque você foi a primeira escolha", e Kwame respondeu com um giro e uma enterrada. "Ok, tudo bem", disse Rasheed já indo para o ataque. Mas foi só.

Depois desse primeiro ano desastroso, todos estavam arrependidos e haviam aprendido grandes lições. Arn Tellem, empresário de quem já falamos nesse post, disse que aprendeu mais sobre como lidar com adolescentes que nunca tinham vivido sozinhos antes. Doug Collins, ao fim da temporada, comentou a evolução difícil de seu pupilo: "Não vimos só o aprendizado de Kwame Brown, mas o aprendizado de Doug Collins também". Perguntado se faria tudo de novo da mesma maneira, Collins disse que não, que não sabia no começo como Kwame estava despreparado para a NBA e que às vezes foi mais duro do que devia ser com o jogador, que entendeu mais da sua vida e de sua personalidade apenas depois. Mas o próprio jogador afirmou que entende que Collins sempre fez o que fez tentando fazer de Kwame um jogador melhor.

Isso foi só a primeira temporada e, pra mim, a que definiu quem era Kwame Brown na NBA. Ele nunca mais recuperou a confiança que tinha antes de entrar na NBA, fez poucos amigos dentro da liga e ainda não se sente à vontade dentro da quadra. No segundo ano de Jordan e na permanência de Collins até 2003, Kwame continuou jogando pouco. Virou motivo de piada na liga e de vergonha para os torcedores, que começaram a pegar no pé do jogador cada vez mais, principalmente depois que não tinham mais Jordan na equipe e que eles estavam de novo em busca de um novo ídolo.

Em 2005, último ano dele no Wizards, ele era vaiado pelos torcedores do próprio time toda vez que tocava na bola. A situação ficou constrangedora a um ponto nunca antes visto na NBA. Antes de um jogo de playoff contra o Bulls, o telão do Verizon Center chegou a exibir um vídeo do Gilbert Arenas pedindo que não vaiassem o jogador! Não que o Agent Zero fosse inocente, ele e Kwame brigavam tanto que logo depois desse jogo Brown deixou de ir para os treinos e foi afastado do time até o fim da pós-temporada. Em entrevista, Kwame disse que não entraria mais em quadra porque se ficasse ao lado de Arenas seria capaz de dar um soco nele.

Seus pedidos de sair de Washington foram atendidos quando o Lakers ofereceu Caron Butler para o Wizards em troca de Kwame. O time de LA estava em busca de um novo jogador de garrafão para compensar a saída do Shaq e todos achavam que Phil Jackson era o cara certo para mexer com a cabeça de Kwame e dele tirar todo o potencial do jogador. Não deu certo. A torcida do Lakers não aguentava aquele time fraco e jogava a culpa em Brown por ele ser mais conhecido do que os outros jogadores ruins do time. Isso minou a confiança dele, qualquer leigo via a insegurança em seus olhos em cada jogada.

Esse desastre culminou no que foi chamado de "os piores minutos da história da NBA", uma sequência impressionante de erros nunca antes vista em um jogo. Kwame errou duas enterradas, uma bandeja, errou pelo menos uns dois ou três passes, perdeu a bola, tudo em posses de bola consecutivas e sem ser tirado de quadra. Phil Jackson achou que seria pior para ele sair e os jogadores continuavam dando a bola pra ele para que seu companheiro pudesse se redimir. Foi um desastre triste de assistir. Era o segundo time de Kwame na NBA e a segunda torcida que o vaiava sem dó. Menos de um mês depois ele foi mandado para o Grizzlies em troca de Pau Gasol.

Os minutos desastrosos de Kwame podem ser vistos em um vídeo em duas partes. A primeira, maior, está aqui embaixo, e a segunda pode ser vista nesse link.


Como todos já lembram, Kwame só serviu como contrato expirante no Grizzlies e nos dois anos que passou no Pistons mal entrou em quadra. Agora, como disse no começo do post, vai para o Bobcats, cujo presidente é justamente Michael Jordan.

Ir para o Charlotte foi uma escolha. Ele topou ir lá disputar vaga com DeSagana Diop, Erick Dampier e Nazr Mohammed em um time com chances de no máximo se classificar em oitavo, mesmo tendo recebido ofertas mais lucrativas de times com muito mais chance de playoff, como o Utah Jazz, o Phoenix Suns e o Atlanta Hawks. Esse último era uma opção bem óbvia, aliás, já que o novo técnico do time planeja usar o Al Horford cada vez menos como pivô e mais como ala de força.

Agora, por que Kwame recusou propostas de bons times para se juntar a alguém que o lembra tanto daquele começo de carreira desastroso? E por que Jordan quer se envolver mais uma vez com um cara que não deu em nada e tornou sua carreira como executivo da NBA uma piada?

Mark Bartlestein, novo agente de Kwame, explica como foram as negociações:

"Kwame realmente queria o desafio de jogar para Michael Jordan de novo. Os últimos anos foram difíceis para o Kwame e agora ele está atrás de uma nova oportunidade para provar alguma coisa para ele mesmo e para os outros. E Michael foi uma parte importante nesse negócio. Ele quis que isso acontecesse, correu atrás para dar uma nova chance ao jogador".

Muita gente está julgando essa contratação como uma piada da offseason. O Jordan cometendo mais um erro ao contratar um jogador ruim e as pessoas criticando ainda mais o cara mais humilhado da NBA junto com Darko Milicic. Mas deu pra ver que existe uma história bem profunda e traumática que motivou essa reunião depois de quase 10 anos.

Acho que o Kwame não tem nenhuma habilidade ofensiva, mas compensa com boa defesa e isso deve bastar para ele ter espaço num time treinado pelo Larry Brown. Infelizmente não vai bastar para se redimir e fazer as pessoas pararem de se referir a ele como uma das piores escolhas da história do Draft. Mas pelo menos comigo ganhou muita moral, recusar propostas melhores para enfrentar um velho fantasma e se redimir com o Jordan foi um ato muito bonito e corajoso do Kwame. Assim como, para o Jordan, aceitar e dar uma nova chance ao jogador valeu tanto ou mais que aquela conversa no vestiário quando ele disse que as coisas iriam acabar bem. E, pense bem, ainda não acabaram.

domingo, 11 de julho de 2010

Os reis - Parte 1: Dwyane Wade

A partir de hoje, o Bola Presa coloca no ar uma série de 3 artigos sobre o novo Miami Heat. Cada um deles será focado em um dos três jogadores que acabam de assinar com a equipe (LeBron James, Dwyane Wade e Chris Bosh), analisando o que essa superequipe significa para cada um deles, para suas carreiras e como decidiram tornar essa união possível. O primeiro artigo, abaixo, trata da estrela que começou no Miami Heat e que apenas recebe seus coleguinhas em sua casa para brincar: Dwyane Wade.

Não é propaganda de cerveja: Wade será, realmente, o número 1 em Miami

 Da expecional turma de draftados de 2003, amplamente considerada a melhor da história, Darko Milicic foi o primeiro a ganhar um anel de campeão. Não entrava em quadra, ficava no banco de reservas com seu cabelo descolorido não entendendo uma palavra daquela língua estranha que se fala nos Estados Unidos, mas foi campeão graças à incrível equipe do Detroit Pistons que sequer precisava de um novato draftado com a segunda escolha para vencer. Mas dentre os mamíferos bípedes jogadores de basquete capazes de levantar os braços e segurar uma bola, o primeiro a ganhar um anel foi Dwyane Wade. O Heat da temporada 2005-06 tinha Shaquille O'Neal chutando traseiros, um par de veteranos com um pé na cova apenas pegando carona na brincadeira para ganhar um título, e uma série de outros tapa-buracos bastante limitados. Era uma equipe no fundo bastante mais-ou-menos, numa conferência Leste fragilizada, encontrando as condições ideias para sagrar-se vencedora. O engravatado David Stern estava em pânico com a queda constante dos placaras da NBA e a queda de audiência que a disseminação da febre "vamos defender como o Detroit Pistons e ter tanto carisma quanto o Tim Duncan" trazia para a liga. Com isso, o Miami Heat encontrou em sua trajetória para o título novas regras de arbitragem que favoreciam muito, aleatoriamente, o estilo de jogo de Dwyane Wade. Seu talento inegável carregou o Heat nas costas durante os playoffs, mas a estranheza das novas regras (que marcavam falta em qualquer contato, tentando inflar os placares do esporte através da cobrança de lances livres) fez com que muitos lidassem com desdém às apresentações de Wade. Seu título tem um asterisco do lado para todos aqueles que tiveram queimada em suas retinas a figura de Wade cobrando lances livres. Quando eu fecho os olhos no quarto, à noite, ainda posso vê-lo cobrando alguns.

Não houve oportunidade para que o Wade pudesse provar que o anel de campeão foi devido aos seus próprios méritos, e não um presente de Natal do David Stern que lhe caiu no colo. Logo na temporada seguinte Shaq já estava em declínio acelerado enquanto o ombro de Wade exigia cirurgia - que, aliás, foi adiada para que pudesse jogar os playoffs apesar das dores e da limitação de movimentos. Tomaram uma varrida de 4 a 0 e o Wade foi direto para o hospital. Na temporada posterior, o time só piorava, Shaq foi mandado às favas, Wade passou a sentir - além do ombro - uma grave lesão no joelho, e frente ao desastre completo decidiram poupar o Dwyane pelos últimos 20 jogos da temporada. É o famoso "pisou na merda, abre os dedos": já que não tinha como salvar a temporada, era melhor jogá-la fora para conseguir uma escolha melhor de draft. Aquela famigerada tática do "perca por LeBron" que o Cavs usou em 2002-03.

A queda do Heat foi muito repentina, sintoma clássico de um time que se junta aleatoriamente, com um monte de veteranos em fim de carreira, apenas para tentar ganhar um título. A pirralhada perde espaço e de repente todo mundo se aposenta, vai para o bingo ou simplesmente morre, e aí o time está acabado, hora de começar tudo de novo. Sobrou para o Dwyane Wade, portanto, jogar numa equipe em reconstrução - algo que acontece com a maioria dos jogadores escolhidos no topo do draft, mas que para Wade veio tardiamente. Depois dele já ter ganhado seu primeiro anel de campeão.

Dizem que sexo é um troço fácil de viver sem, dá pra passar umas duas décadas sem trepar numa boa, mas depois que você faz a primeira vez, fica difícil passar tanto tempo afastado. O tempo sozinho parece mais amargo, dar "uns beijinhos" parece mais sem graça. É como viver num mundo de Priscilas Fantin (bonitinha) depois de ter conhecido a Alinne Moraes (espetacular). Tudo ganha uma nova proporção. Portanto, a situação do Dwyane Wade tornou-se bastante complicada. Enquanto o LeBron James passou muitas de suas primeiras temporadas jogando com elencos risíveis e "estava tudo bem" porque havia acabado de chegar na NBA, para o Wade não dava para ter um elenco com Chris Quinn e Mark Blount depois de já ter sido campeão. Para piorar, suas lesões e a temporada abandonada do Heat tiraram rapidamente Wade da mídia, seu título de campeão já estava enterrado na fama de "ajuda da arbitragem" e LeBron e Carmelo, colegas de draft, ganhavam mais e mais destaque. Algo precisava ser feito.

Depois de ir pra faca para recuperar tanto o ombro quanto o joelho, Wade iniciou um processo de reabilitação com Tim Grover, um guru de treinamentos porreta para jogadores da NBA. A intenção era que Wade estivesse em plena forma física para defender a seleção americana nas Olimpíadas de 2008 e provar que estava de volta ao grupo dos grandes. Tim Grover pediu 6 semanas, então Wade lhe deu 8 semanas de trabalhos ininterruptos. A princípio, seu nome estava na equipe mais pela fé do técnico Mike Krzyzewski, mas quando os jogos começaram, Wade mostrou que era o jogador em melhor forma física, jogando com mais vontade, e terminou o torneio como cestinha - sem falar de campeão olímpico. Foi amplamente apontado como um dos maiores responsáveis pela medalha de ouro. No mesmo ritmo, começou a temporada da NBA jogando um absurdo. Não tenho nenhuma dúvida de que a temporada 2008-09 do Dwyane Wade foi a melhor temporada que eu já vi ser jogada por qualquer jogador da NBA em toda minha vida. Seu jogo evoluiu com uma velocidade digna de Pokémon, tornou-se um dos melhores e mais explosivos defensores da liga, ganhou um arremesso consistente da linha de 3 pontos e quebrou recordes absurdos: foi o primeiro jogador da história a conseguir, em uma temporada, acumular 2000 pontos, 500 assistências, 100 tocos e 100 roubos de bola. Alguém tem ideia do que significa o Wade, de repente, aparecer e dar mais de 100 tocos numa temporada? Foi o cestinha da temporada e teve médias de 30 pontos, 5 rebotes, 7.5 assistências, 2.2 roubos e bizarros 1.3 tocos por jogo. A temporada mais destruidora que já presenciei. Mas seu time era uma merda completa, terminou apenas em quinto do Leste, e aqueles critérios bizarros para elever MVP nem consideraram o Wade para a disputa, falando apenas de Kobe e LeBron. Sua temporada inesquecível rapidamente virou farofa quando o Heat foi eliminado na primeira rodada dos playoffs de novo, mas dessa vez para o Hawks, que nem é um time de verdade.

Todo mundo sabe que o Wade é um jogador espetacular, especial, um dos melhores de sua geração. Mas não há muita consciência por aí de quão bom ele realmente é. Culpa de uma série de critérios, arbitrários e construídos, que impomos sem pensar à nossa fruição dos jogadores. Fazendo cara de sábios, com sotaque de mestre de kung-fu, dizemos que um verdadeiro grande jogador é aquele que vence, que leva seus companheiros à vitória não importando as circunstâncias. Mas aí, em nossa burrice Luciana Gimenes, fingimos não ver que uma série enorme de fatores decidem se uma vitória é possível: a qualidade do elenco, a dificuldade de sua Conferência, as regras que David Stern impõe para os juízes, a sorte na hora dos jogos e até mesmo na hora de ver quais adversários lhe enfrentarão (prefiro pegar o Mavs em uma final do que qualquer outro time da NBA!). Kevin Garnett não foi capaz de vencer quando esteve no Wolves, enfrentando as terríveis dificuldades de elencos limitados, e por isso não será valorizado. A temporada mística do Wade, em que ele despertou seu Sétimo Sentido, também foi facilmente esquecida porque não resultou em uma longa campanha nos playoffs. Mas aquele Heat era simplesmente um dos piores elencos que já presenciei.

Da mesma forma, o título do Wade é (assim como acontece com Kobe) diminuído pela ajuda de Shaq, por não ser conseguido no próprio suor, e falamos isso depois de duas cervejas quando nem lembramos mais que, 5 minutos antes, dizíamos que o basquete é um esporte coletivo em que a grande estrela deve saber depender de todo mundo. Só existe uma solução possível para essa besteira, e Garnett apontou muito bem após seu título no Celtics: vencer. Vencer rápido, enquanto há tempo. Deixar de lado esses conceitos de "lealdade à equipe e à cidade" quando na verdade você só está sendo usado por uma empresa e tomando porrada de todos os críticos que sugam os melhores anos de sua vida enquanto você não consgue vitórias. Ir para a melhor situação possível para vencer e fazer sua parte lá, tendo ao menos as condições necessárias para se provar, para saber que seu esforço é em direção a algo possível, plausível. O arrependimento de Garnett por ter ficado no Wolves é enorme, e com razão: ele gastou os melhores anos de sua carreira perseguindo algo impraticável, dando o seu melhor, sendo espetacular, e sendo cuspido pelas pessoas que lhe chamavam de fracassado. No Celtics, não joga um décimo do que jogava, mas é herói. Ouça bem: corra para a melhor situação possível, em que seus esforços possam ser recompensados, em que você não vá ficar apenas batendo a cabeça na parede. A vida é curta. Esse foi o conselho de Garnett a LeBron James.

Mas quem ouviu direitinho, e parecia ter entendido tudo isso mesmo antes de Garnett abrir a boca, foi Dwyane Wade. Pat Riley tentou por muito tempo negociar extensões de contrato com Wade, mas o armador do Heat sempre bateu o pé: só ficaria se houvesse a confirmação de que não estaria lá sozinho perdendo seu tempo. Ninguém quer que a vitória caia no colo, mas todo mundo quer estar na situação em que seu esforço possa lhe alcançar o objetivo, mesmo que ele não venha. Wade deixou claro que iria embora se não houvessem outras estrelas para ajudar. Foi por isso que encerrou seu contrato, o Heat não tinha ninguém, é um elenco pelado, e os esforços do Wade em quadra são cada vez mais inúteis e, por isso, cada vez mais ignorados pelos fãs e pela mídia. Quem é Wade? Deixa pra lá, vamos falar de Kobe, Paul Pierce, ou até daquele tal de Joe Johnson.

Dwyane Wade nunca disse que queria dominar, que queria um time para si. Aceitou a chegada de Shaquille O'Neal ao time com referência e humildade. Foi secundário no elenco frente ao pivô e começou a ganhar os jogos de mansinho, até que os playoffs fossem inteiramente responsabilidade de Wade e Shaq fosse apenas um cara velho - e largo. Na seleção dos Estados Unidos, agradeceu com humildade ao técnico Mike Krzyzewski por ter "acreditado nele", como se fosse difícil acreditar num dos melhores jogadores do planeta. Sabia que era apenas parte de um grupo e, pior, era apenas a parte que merecia menos crédito ou consideração, vinha de contusão, estava lá "de favor". E ganhou as Olimpíadas na maciota, quando a maioria das pessoas sequer estava olhando para ele.

O Wade já foi campeão, ele não é mais virgem de anéis. Também não tem na parede um poster do Jordan que ele olha todos os dias para superá-lo um dia. Quer apenas ser campeão, e exige ajuda para isso. Cobrou estrelas exaustivamente. Se Kobe tem Gasol eu quero um troço ainda melhor, deve ficar pensando. Sua vontade de vencer pareceu sempre desatrelada da vontade de ter um time só seu. Ele não pedia para Pat Riley um elenco mais sólido, um banco de reservas. Ele queria estrelas, queria os melhores jogadores possíveis do seu lado, e o Pat Riley dizia que era impossível. Quando o Gasol foi para o Lakers, o Wade exigiu explicações do Riley, como é que tinha acontecido? Temos uma mania de achar que o grande jogador tem que vencer com um time sólido mas mais-ou-menos, que Jordan venceu com uns caras quebra-galho. Bah, aquilo era tudo menos quebra-galho. Aquilo chutava traseiros. E ao invés de bater a cabeça na parede, Wade quer também.

Kobe sempre se isolou muito do resto da NBA. Sua paixão pelo basquete é, como costumamos dizer por aqui, uma paixão nerd. Ele estuda, analisa, treina, só fala disso, se tranca no quarto, passou as primeiras temporadas no Lakers sem nenhum amigo, o dia inteiro na cama lendo a Bíblia. Está se soltando agora, entendendo que precisa ser amigo dos companheiros de equipe, se arrependendo de ter pedido para se livrar de Shaq apenas para provar que podia, que chutaria o bumbum do Jordan. Agora, ganha o anel "sozinho" ao lado de Gasol, Artest, Bynum, gente que seria vencedor em qualquer outro lugar. Mas é importante ver como esse Kobe descontraído, solidário, ganhador, é de uma geração diferente da de Wade, LeBron e Bosh, que são brincalhões, falantes, palhaços, e tem seus egos lá nas nuvens mas de um modo bem diferente. Eles não querem ser melhores que Jordan, eles querem ser melhores que o chato do Kobe, algo palpável que dá pra tentar ser nos trocentos jogos de cada temporada. Não caçam monstros imaginários. Se acham fodões, claro, mas querem mais é vencer, ter grandes estrelas do lado, criar dinastias. Eles tem afinidades entre si, fazem piadas juntos, devem ter assistido aos mesmos desenhos na TV quando eram crianças.

O Wade já sabia há algum tempo que o Bosh iria jogar com ele, sabiam que poderiam colocar a amizade em prática nas quadras, só não sabiam onde. Vamos para o Knicks, vamos para o Bulls? O Bosh que disse que era bom o bastante para ser a base de um time e não um cara secundário, o Wade que voltou mordido para ter a melhor temporada de todos os tempos porque não estavam mais falando dele. Não falta ego. Mas essa geração representada por Wade tem uma postura diferente com relação ao basquete e à vida: aquilo que Garnett aprendeu depois de uma vida sofrida, aquilo que Kobe aprendeu depois de duas temporadas sofridas, essa geração já sabe agora. Quer vencer já. Essa consciência que sempre precisou ser construída em times que vão sendo montados aos poucos através de trocas, reclamações, propostas, derrotas, jogadores que não tem nada a ver uns com os outros mas que precisam aprender a jogar juntos, já está em Wade e Bosh porque foram eles que decidiram montar esse time. Ao invés de um Frankstein sofrido, como é o Celtics, fizeram um robô gigante por livre e espontânea vontade.

Durante o período em que viajaram para se encontrar com os times e decidir onde assinar, Wade e Bosh jantaram juntos várias vezes. Sabiam que jogariam juntos e só decidiam onde, ou seja, são um time montado e escolhido pelos jogadores, não pelos engravatados. A mesma coisa aconteceu com LeBron. Esse não é um time forjado a ferro e fogo, que precisa aprender na marra que uma hora, eventualmente, é importante vencer e você precisa tolerar as outras estrelas e o mal hálito do Garnett. Não. Eles já sabem que o importante é vencer - LeBron e Bosh tem motivos específicos para isso, que trataremos depois, mas Wade sabe porque já venceu antes e conhece o limbo que espera a todos fora disso. Ninguém vai ter que aturar ninguém, trocar ninguém, controlar ego de ninguém. Eles escolheram isso. Wade é o anfitrião, recebe dois de seus melhores amigos de longa data (são amiguinhos próximos desde 2003), então vai ser o número 1, o favorito da torcida, a cara do elenco, o dono da brincadeira. Mas, como sempre, vai dominar os jogos e vencer as partidas de mansinho, sem que ninguém sequer perceba. Mas agora, se tiver uma temporada como em 2008-09, vão se lembrar. Todos vão se lembrar.

Precisamos jogar fora essas perguntas de quem vai ser o líder, quem vai segurar a bola, se os egos vão se chocar. Está bem claro que essa geração tem outras prioridades, outro senso de valor, e egos nas alturas naquilo que trata com mídia e imagem, não naquilo que trata da quadra de basquete. Vamos jogar fora nossos conceitos velhos da época do Jordan, da inflação desenfreada, do Jaspion. Wade tem um ego do tamanho do mundo mas é mais sensato do que os que vieram antes dele: vencer é a única solução. E ao invés de ter que se encaixar num time, de esperar trocas aleatórias, de conhecer os novos membros do elenco, que tal jogar com dois dos seus melhores amigos? O Wade bateu o pé porque não queria ficar mais longe do título, era isso que lhe importava, e ele deve voltar aos anéis de campeão bem cedo, simples assim. A nova geração é mais simples e direta. Vai ser também mais vencedora. Ao invés de um rei e vários súditos, eles podem ser todos reis. Há espaço para todos esses egos no mundo do Twitter. Nosso mundo, o da imagem, da aparência, da propaganda pessoal digital, é cheio de umbigos inflados - e todos eles se adicionam, se seguem, se deixam scrap, se retweetam uns aos outros.

sábado, 22 de maio de 2010

LeBron e o capital

LeBron pode vencer a mentalidade corporativa
se decidir não enfiar dinheiro na orelha


Quem acompanha o Bola Presa sabe que temos horror ao debate "quem é melhor" e todas as inimizades que ele levanta. Se já não bastasse esse tipo de questionamento ser completamente impossível de ser feito adequadamente por ter que levar em conta aspectos demais (elenco, técnico, momento histórico, adversários, situação econômica global, programação da Record), ainda temos o ódio de quem defende um lado por quem defende o outro, impedindo que ambos os jogadores sejam apreciados como merecem. Como ficou claro numa questão do "Both Teams Played Hard" dia desses, um defensor do Kobe acaba tendo que odiar LeBron apenas para proteger seu ídolo das comparações desnecessárias. Aquele que cresceu com Michael Jordan construindo seu imaginário e associando-o às deliciosas memórias de infância é, agora, obrigado a odiar LeBron para defender seu ídolo máximo das comparações com alguém que, novo demais, não as merece. Protegendo a própria infância, as memórias felizes de madrugadas vendo o Jordan jogar numa transmissão mequetrefe da Bandeirantes, muitos fãs criam um culto de ódio irracional contra os melhores jogadores do planeta. Isso não deveria ter que acontecer: admirar alguém jogar não deveria ter nada a ver com as lembranças ou com a apreciação de outros jogadores. Mas acontece, e por isso a eliminação de LeBron dos playoffs foi um gozo coletivo similar a um lançamento de uma Playboy da Sandy.

As críticas e o descontentamento com a última atuação de LeBron chegaram a um ponto em que torcedores dizem que o time estaria melhor sem ele, ou que algumas equipes que guardaram tanta grana para contratar uma estrela ao fim dessa temporada deveriam gastar com outro jogador que não ele. Prefiro imaginar que as pessoas que dizem isso confundiram o LeBron James com o JJ Hickson, que são mais ou menos parecidos se a tua televisão for muito ruim. Se alguém soltar um "o LeBron não fez nada no jogo, mas tinha um outro cara no Cavs que fez um triple-double", aí já sabemos que a confusão aconteceu.

LeBron é provavelmente o jogador mais odiado da NBA no momento e ele bem sabe que não adianta se defender. Seu técnico é patético, o time não tem jogadas ofensivas, e o elenco de talento não fez nada, o que na prática é a mesma coisa que não tê-lo, mas não há desculpa. O Celtics foi muito superior, a reação do Cavs durou pouco, todos estavam exaustos e o time humildemente aceitou a derrota no minuto final. O que para mim foi um gesto de respeito, similar ao jogador de xadrez que derruba o próprio rei quando a derrota é iminente (é falta de respeito prolongar a partida desnecessariamente até tomar um xeque-mate) e me tirou sorrisos quando aconteceu, foi para o resto do mundo uma desistência imperdoável de um jogador covarde. Não há defesa, o único modo de escapar a esse criticismo seria sair de quadra com a vitória.

O LeBron James não é burro. Na entrevista coletiva após a partida, repetiu um par de vezes que "só lhe interessa a vitória", que ele "só quer vencer". Seu modo de jogo, suas decisões, sua personalidade e sua história de vida serão julgadas em relação às suas vitórias e derrotas, e ele sabe disso. Seu fardo é um mundo sem desculpas: se o ginásio desabar, ele que segure o teto, leve os fãs para uma área segura, lhes fornece comida e água, salve as duas tabelas da quadra e então acerte o arremesso da vitória. É o que o Jordan faria. LeBron rapidamente entendeu que precisa vencer jogos para ter alguma chance, mas eventualmente precisará entender que não se pode competir com as memórias. Sabe aquela coisa de que, na sua memória, teve uma chuva de meteoros épica quando você tomou aquele fora da guria gostosinha e nada vai te convencer do contrário 10 anos depois? O reconhecimento para LeBron virá apenas quando for tarde demais e ele tiver reumatismo. Até lá, precisa dar um jeito de segurar as pontas.

O plano de LeBron, então, é simples: vencer imediatamente, e muito. Por diversas vezes indiquei no Bola Presa que LeBron provavelmente não sairia do Cavs e que não iria nem fodendo para o Knicks. Agora abaixo a cabeça, escondendo o rosto pra ver se ninguém me reconhece na rua, e mudo de ideia. Se o LeBron tiver um pouco de cérebro e quiser mesmo vencer, vai dar o fora de Cleveland rapidinho.

Minhas defesas ao Cavs sempre foram de que o time, ainda que pobre financeiramente, meio Chavinho do Oito, nunca poupou esforços para dar ao LeBron o melhor elenco disponível. O elenco que recebeu LeBron à NBA era horrendo, nível Preta Gil, e todo o possível foi feito para transformá-lo em algo pelo menos do nível "comia, mas não contava". Por vezes as contratações e as trocas pareciam até aleatórias, como se o Cavs não soubesse bem que tipo de time estava montando mas quizesse mostrar serviço, pelo menos dar uma mudada no elenco. Tipo um estagiário fazendo qualquer coisa, estabanado, pro patrão ficar contente. Perto de outros estagiários, que observam a empresa morrendo e cospem em cima (tipo eu, ou tipo e o Warriors) até que o Cavs se saiu muitíssimo bem. O Mo Williams, que me parecia a peça mais idiota na época da contratação (achei que ele fosse levar o LeBron à loucura sendo um fominha biruta) conseguiu até enganar todo mundo e virar All-Star. Então por que o LeBron sairia dessa organização comprometida em mudar de novo, outra vez, quantas forem necessárias, mesmo se afundando em dívidas, até que sua estrela ganhe um anel de campeão?

São dois pontos cruciais. O primeiro que vamos abordar é o técnico. As vitórias que LeBron e o resto do elenco conseguem camuflam a falta de capacidade da comissão técnica. Recentemente o Denis colocou aqui no blog um vídeo com os pontos que LeBron marcou em seu primeiro jogo na NBA, e eu fiquei monstruosamente chocado:





Por favor, pra quem não viu no post original, assistam a esse vídeo, é assustador. Nele, é possível ver LeBron participando de jogadas DESENHADAS para que ele receba a bola. Sério, jogadas de verdade. Juro que o vídeo não é montagem, não tem Photoshop. Quando chegou no Cavs como novato, o técnico era Paul Silas e, olha só que bizarro, ele DESENHAVA jogadas ofensivas! Não é estranho? Porque depois de ver o Mike Brown como treinador, dá a impressão de que ser técnico de basquete é apenas sentar no banco, ser um cara legal e tomar umas faltas técnicas de vez em quando pra lembrarem de que você existe.

No vídeo acima dá pra ver um LeBron cru, com movimentos que abandonou conforme foi amadurecendo, mas que é bastante eficiente ao participar de um esquema tático. O mais estranho é que LeBron era o armador daquele time na maior parte dos jogos, e mesmo assim existem jogadas planejadas para que ele finalize. Isso nunca mais aconteceu no Cavs e LeBron não pode passar a carreira inteira sofrendo por causa disso. Kobe e Jordan tiveram Phil Jackson, por que o coitado do LeBron tem que ter o Mike Brown? Parece que ele gastou todos os pontos de experiência em "força física de um cavalo" e esqueceu de comprar um técnico decente achando que não ia mudar nada na ficha de personagem.

É hora, então, do LeBron ir atrás de um técnico. Para o Cavs, é muito difícil demitir Mike Brown. É uma questão de ética, de boa educação, tipo não colocar os cotovelos na mesa: como você demite um técnico que ganha mais de 60 partidas com um time em todas as temporadas? Não rola. Mike Brown está comodamente escondido atrás da aura de LeBron James. E como o Cavs não vai mandar o cara vender pipoca, o LeBron vai ter que arrumar um técnico em outro lugar. A escolha óbvia, aqui, é Mike D'Antoni, técnico do Knicks. Os dois já jogaram juntos na seleção americana e o LeBron ficou fascinado com as movimentações ofensivas (deve ser como crianças se sentem ao ver o mar pela primeira vez), mas existe o erro do excesso. Criança que é obrigada a só comer brócolis, quando ganha liberdade, tende a só comer chocolate, e ninguém sobrevive comendo só chocolate por muito tempo. Depois de tanto tempo num time que só defende, o LeBron pode correr pro colo do D'Antoni só para desforrar e jogar num time que só ataca. Mas assim com o Cavs não ganhava só na defesa, o D'Antoni nunca ganhou nada só no ataque. Dá pra entender se o LeBron infantilmente quiser fugir para o outro extremo, mas desconfio que não deve dar muito certo.

Outros times com técnicos razoáveis são também uma opção, mas nesse caso em especial eu prefiro uma escolha hipotética, saída diretamente do inútil mundo da boataria. As ofertas para que o técnico Mike Krzyzewski, lenda universitária, vá para a NBA nunca param, mas podem ficar muito tentadoras quando envolverem treinar LeBron James. Fala-se muito sobre um possível projeto de reconstrução do Nets que envolveria um novo dono, uma mudança de cidade, o Coach K e a primeira escolha do draft para convencer LeBron a jogar por lá. Faz bastante sentido, porque o elenco do Nets é muitíssimo melhor do que parece, e pegaria muito bem para o LeBron chegar nos playoffs com um time que quase bateu o recorde de pior campanha da NBA - se beneficiando secretamente de bons jogadores que ninguém sabe que são bons de verdade e, talvez, de um técnico genial. A equipe vai se mudar para o Brooklyn em breve e aí o LeBron estaria em New York como quer tanto o pessoal que vive de propaganda. O primeiro golpe nesse projeto do Nets foi que eles são tão azarados, mas tão azarados, que acabaram com a terceira escolha ao invés da primeira, então não vai ter a tentadora presença de John Wall por lá (deve ir para o Wizards tirar duelo de pistola com a Arenas, mais disso a gente fala depois). Funhé. Ainda assim, é uma possibildade.

Mas existe outro ponto crucial, além do treinador, para que LeBron saia do Cavs: mercado. Cleveland é um lugar famoso por ser uma joça, por estar falido e por "pelo menos não ser Detroit". Em New York, LeBron poderia se tornar um bilionário apenas com vendas de camisetas. Na verdade, se apenas os turistas que visitam o Madison Square Garden tivessem o acesso para comprar as camisetas, as vendas já seriam centenas de vezes superiores ao que são agora, com LeBron em Cleveland.

Essa possibilidade financeira abre um caminho único para LeBron James. Como vimos acima, o que importa na carreira de um jogador são as vitórias. O esporte ficou assim, dependente das vitórias, quando tornou-se uma fonte tão gigantesca de renda para os que trabalham com ele. O esporte é uma empresa, os funcionários precisam gerar lucro. Quando você vê algum vovôzinho falar sobre o esporte poético, sobre o futebol-arte ou alguma coisa emo desse tipo, é porque está falando do esporte amador, ou quase-amador, em que a pessoa pratica aquilo por amor, e a vitória é apenas secundária. Agora, o esportista deve fazer tudo para alcançar a vitória assim como um empresário engravatado, os escrúpulos existem apenas se eles pegarem bem com os clientes e gerarem, por isso, mais lucros. Os ursos só param de ser chacinados pelas empresas alimentícias porque hoje em dia dizer que você é "ecologicamente correto" lhe dá um aumento percentual nas vendas. Do mesmo modo, o Bruce Bowen pararia de torcer tornozelos apenas se isso deixasse a torcida mais feliz, satisfeita e comprando mais camisetas e burritos - mas não é o caso, o que importa é a vitória (como os torcedores do Spurs sabem tão bem). O esporte, como insisto em dizer, é a continuação do mundo, não um universo à parte. Então como fazemos parte de uma cultura obcecada pelo sucesso e pela vitória, esperamos sucesso e vitória dos esportistas pelos quais torcemos, custe o que custar. De novo, o esporte é apenas uma janela, um recorte, pela qual podemos ver melhor o mundo: na quadra fica mais claro como as pessoas só se importam em vencer, fazem o que for necessário, enquanto nas ruas e no escritório ocorre o mesmo mas de forma mais velada. O pessoal se sacaneia para conseguir uma promoção, mas não fala disso no seu Twitter.

LeBron precisa vencer, é para isso que ele está na NBA. Foi isso que ele repetiu diversas vezes na coletiva de imprensa, que é apenas com isso que ele se importa. Mas é claro que não é verdade: ele, assim como todos os outros jogadores e a esmagadora maioria das pessoas do planeta, se importa também com ganhar dinheiro. Todo mundo na NBA procura o maior salário que puder agarrar, o Zach Randolph reclama de ganhar salários menores do que jogadores que ele acha serem inferiores (agora deu pra dizer que quer o mesmo salário que o Pau Gasol, por ser tão bom quanto ou até melhor), e muitas das estrelas que assinarão contratos na temporada que vem procuram "salários máximos", o valor máximo estipulado pelas regras da NBA. Alguns não conseguirão, mas Dwyane Wade e LeBron James, por exemplo, devem alcançar tal marca. É assim que funciona, os melhores vão receber a remuneração devida pelas regras do jogo.

O Knicks tem grana o bastante para assinar duas estrelas de salário máximo, por exemplo. Acaba funcionando como um jogo de videogame em que cada membro da equipe tem um valor em pontos e, pra não ficar apelão, existe um máximo de pontos que cada time pode ter. Mas é aqui que LeBron James pode subverter essa relação universal com o capital. Como um dos melhores e mais famosos jogadores dos nossos tempos, LeBron tem uma oportunidade única na história: ele pode mandar o salário às favas.

Funciona assim: se for para New York (ou para o Brooklyn), por exemplo, LeBron pode re-assinar um contrato milionário com a Nike e outras diversas empresas, ganhando mais do que nunca por estar num mercado de enorme exposição, público e poder de compra inigualável. Um grupo de investidores pode se unir e financiar, em troca de propagandas, um salário de 10 milhões anuais para LeBron, ou até mais. Seria o bastante para que ele ficasse rico, garantisse o resto de sua vida, mantivesse o mesmo padrão biliardário que conquistou. E pudesse assinar um contrato com o Knicks ou o Nets de "apenas" 2 milhões por temporada, ou quanto for o mínimo permitido para veteranos segundo as normas da temporada que vem. Sem mudar um centavo em sua vida, e se realmente "vencer" é aquilo que mais lhe importa, LeBron pode mandar as regras para a privada e competir num Knicks com outras duas estrelas de salário máximo, como Wade e Bosh, por exemplo. Que tal?

Financeiramente falando, LeBron nem precisaria do apoio de investidores ou de assinar contratos publicitários gigantescos, bastaria assinar o contrato de 2 milhões e qualquer um já pode levar uma vida fantástica, nada modesta, para sempre (é só não comprar casa pra todo mundo que cruza o seu caminho e nem apostar 10 milhões num cassino toda semana, né, Antonie Walker?). Diabos, o LeBron pode até assinar um contrato de 5 ou 6 milhões e viver numa casa de ouro com piscina de champagne ainda assim sem quebrar o cofre do Knicks.

O esporte foi completamente tomado pela mentalidade corporativa, onde só importa a vitória, cumprir as metas, e ganhar salários maiores do que se pode engolir ou enfiar na orelha. Quando fazem algo a respeito, é apenas um Karl Malone velho abrindo mão da grana para ganhar um anel desesperado em seu último ano de NBA para não voltar para casa e ser chamado de perdedor por uma legião de fãs que só se importam com a vitória. E se uma grande estrela em seu auge, que ainda não está desesperada, fizesse isso? E se LeBron tivesse coragem para tornar isso uma tendência? Ganharia certamente todos os anéis de campeão possíveis durante a extensão do seu contrato (como perder com Wade, Bosh e D'Antonni), e na hora de assinar novos contratos outros iriam querer (ou teriam que) fazer também. Vale mais a pena jogar com um técnico de verdade, com Wade, com Bosh, sair vencedor de quadra, ou ganhar um salário de 20 milhões anuais? Hein?

O discurso do LeBron só fala em vencer, vencer, vencer. É o único jeito dele se safar dessa legião burra que não lhe para de tacar cocô. Mas até onde ele está disposto a levar esse discurso, ou é apenas um barulhinho que ele faz com a boca para se safar de que pensem que "ele não se importa"? Dificilmente o veremos assinar um contratinho mixuruca, mas da próxima vez ouvirei seu discurso sobre vitórias de um modo diferente, porque ele vai ter escolhido aquilo que lhe cair sobre a cabeça. O único modo de escapar do mundo burro é fazer diferente. Será que ele é capaz?

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Dos arremessos de três

Kobe Bryant resolveu ser o melhor pivô do Oeste, só porque ele pode


A pirralhada resolveu, nessa temporada, provar que sabe arremessar de três pontos. É uma série de caras novas, a maioria ainda cheia de espinhas, ganhando a vida bem longe do garrafão. O Danilo Gallinari, por exemplo, que é o líder em bolas de três convertidas por partida, tenta mais de 7 bolas de longa distância por jogo. Dois terços dos arremessos que ele deu até agora foram bolas de três, o que constitui uma fobia de garrafão tão grande que o Rasheed Wallace fica até parecendo um sujeito normal. Sorte do Gallinari que ele joga no Knicks, onde fazer uma bandeja dá prisão perpétua (no Warriors dá cadeira elétrica), porque se ele jogasse no Spurs já estaria esquentando banco.

A lista de bolas de três pontos convertidas por jogo tem, além do Danilo liderando a parada, uma renca de outros garotinhos sem pêlos no saco, como Channing Frye, Brandon Jennings (o novato dos 55 pontos), Eric Gordon e o Ryan Anderson, que substituiu o Rashard Lewis (suspenso no exame anti-doping) tão bem, mas tão bem, que já já vão ter que obrigar ele a mijar num potinho.

Na lista de bolas de três pontos convertidas na temporada, o líder é o Channing Frye, seguido pelo Gallinari. Ou seja, a criançada está realmente convertendo os arremessos de fora. As duas listas se complementam para afirmar essas caras novas, mas também para indicar quais times estão mais focados nos arremessos de três.

Além do Frye, o Jason Richardson aparece entre os que mais convertem arremessos de três por partida. O resultado é que o Suns é o time que mais chuta de longe e tem o melhor aproveitamento. É uma volta aos bons e velhos tempos de correria, pontuação alta, bilhões de assistências e bolas de três pontos. Talvez o plano do Suns tenha sido fingir que estavam enterrando a tática do "run and gun" até o Spurs começar a feder, para só então retomar a estratégia e tentar ganhar um anel. Pode até dar certo, e nós que acreditamos no Papai Noel e na virgindade da Sandy botamos uma fé no Suns, mas se eles passarem de uma defesa como a do Celtics eu sou um mico de circo. Ainda assim, esse Suns parece um tanto mais voltado para os arremessos de fora do que aquele que conhecíamos. Se não bastasse até jogador da safra "figurante do Chaves no episódio do suco de tamarindo" acertar as bolas de três, como é o caso do Jared Dudley, o pivô da equipe agora também chuta de longe e está no topo das listas que citamos. Ninguém acreditava muito no Frye, alertamos aqui antes da temporada começar que essa seria sua última chance na NBA, mas ele alterou seu estilo de jogo para casar perfeitamente com o Suns e está sendo uma grata surpresa. Se ele for pro campeonato de três pontos do All-Star Game vai ser hilário e poderemos acrescentar o rapaz para a lista de jogadores bons que o Knicks tinha mas trocou por pipoca.

Continuando na lista de bolas de três pontos convertidas na temporada, o terceiro lugar pertence ao Trevor Ariza, enquanto o sexto lugar é do Aaron Brooks. A sensacional lógica matemática do "Instituto 8 ou 80 de Estatísticas Bola Presa" aponta, então, que o Houston arremessa de três pra caralho. Nenhum dos dois está tendo uma temporada espetacular, são muito inconsistentes, as bolas volta e meia não caem, mas o trabalho em conjunto da equipe segura as pontas quando alguém está fedendo e isso permite que todo mundo possa continuar chutando de fora sempre que surgir a oportunidade. Isso é acreditar no sistema, saber que você faz o seu papel mesmo quando não funciona, e que os companheiros de equipe fazem o papel deles e concertam se tudo o mais der errado.

Mas nada se compara com o Cavs. Assim como o Suns, o time de LeBron está acertando acima de 46% dos seus arremessos de três pontos na temporada, o que é débil mental. O bizarro é que na lista de arremessos de fora convertidos na temporada, o Mo Williams figura em quarto e o Anthony Parker em sexto, o que significa que eles arremessam pra burro. Como dá pra manter uma porcentagem tão grande de aproveitamento se os dois arremessam tanto? Ainda mais quando sabemos que o Mo Williams não tem qualquer critério para arremessar e que para ele o conceito de "estar livre" significa estar sendo marcado por menos de 7 pessoas. O motivo para o alto aproveitamento da equipe está justamente nas mãos desses dois: Mo Williams está convertendo 51% das bolas de fora, enquanto o Anthony Parker acerta surreais 57%! Tudo bem, o Cavs está meio capenga, o Shaq pode não ter casado muito bem com a equipe, mas o Anthony Parker foi uma sacada de mestre! Com o Delonte West fora com seus problemas de depressão, Parker está convertendo os arremessos, abusando do espaço que surge das marcações duplas no LeBron e até fingindo que defende. E quando o Mo Williams está acertando os arremessos, o Cavs é simplesmente imbatível porque o LeBron pode deitar e rolar com o espaço criado no perímetro. Mesmo que contratar o Shaq tenha sido uma decisão um pouco "água na Carol", o perímetro do Cavs tem tudo para fazer o mundo esquecer do garrafão, basta manter esse ritmo. O engraçado é que o ritmo é tão bizarro que o Mo Williams está acertando mais as suas bolas de três do que as suas bolas de dois pontos, então não tem motivo para parar de arremessar. É bem capaz dele ficar livre no garrafão e preferir dar um passinho para trás antes da tentativa.

Mas há um jogador na NBA fazendo o caminho contrário. Enquanto a pirralhada arremessa cada vez mais de três pontos, enquanto vários times passam a se focar nesse aspecto do jogo depois que o Orlando Magic provou na temporada passada que era possível chegar longe nos playoffs assim, um jogador está aos poucos abandonando os arremessos de três que sempre lhe foram tão úteis. Trata-se de Kobe Bryant.

Foi assim, sem alarde, sem aviso, tipo a Britney Spears ficando gorda. De uma temporada para a outra, Kobe simplesmente decidiu que seu jogo no perímetro era coisa do passado e que a moda agora era namorar pelado. Nos 19 jogos até agora, contando também os de pré-temporada, Kobe passou quatro partidas sem arremessar uma única bolinha de três. Em outras duas ocasiões, arremessou apenas uma bola.

Pode parecer pouco, foram apenas seis partidas, mas se a gente comparar com o Kobe de antes, vemos o quanto isso é absurdo. Durante toda a temporada passada e mais os playoffs, não houve um único jogo em que Kobe não chutasse de três pontos. Na verdade, durante todas essas partidas ele arremessou apenas uma bolinha de três durante um jogo em 8 partidas apenas, mantendo uma média de mais de 4 arremessos de três pontos na temporada. Esse ano o número caiu pela metade e em algumas ocasiões ele nem se dá ao trabalho de tentar qualquer coisa no perímetro. Gregor Sansa acordou um dia depois de sonhos intranquilos, no livro "Metamorfose", e havia se tornado um enorme inseto. O Kobe Bryant acordou um dia depois de sonhos intranquilos e tinha se tornado o melhor jogador de garrafão do planeta. É como se ele simplesmente tivesse decidido, de uma hora para a outra, que seria um ala de força. O único indicio que tínhamos disso está no vídeo abaixo, em que Kobe treina com Hakeem Olajuwon durante suas férias:



Foram apenas duas horas de treino com um dos melhores pivôs de todos os tempos aprendendo uns macetes, que o próprio Hakeem disse que se encaixariam perfeitamente bem no jogo do armador do Lakers. A gente sabe que o Kobe é um nerd de basquete que estuda o jogo profundamente e que aprende muito rápido os movimentos que ele disseca nos treinos, mas virar um jogador monstruoso de garrafão nessa velocidade é débil mental. O LeBron James pode evoluir mais rápido do que Pokémon, mas ninguém estuda o jogo e evoluiu tecnicamente tão rápido quanto Kobe Bryant. Fico imaginando ele na Matrix dizendo "operador, me carrega um programa de pilotar helicópteros", porque pela velocidade que ele aprende parece que é exatamente assim que funciona.

Cada vez mais dentro do garrafão, jogando de costas para a cesta, Kobe está desfilando um arsenal de giros, ganchos, bandejas fáceis. Está dando dor de cabeça para os marcadores gigantes, cobrando mais lances livres do que nunca, pontuando mais. E o mais importante: se antes ele criava o próprio arremesso, mantendo a bola nas mãos por muito tempo, agora mais da metade de seus pontos saem de assistências dos outros jogadores do Lakers, porque ele está no garrafão pedindo a bola para finalizar. O time está mais envolvido no ataque e assim não percebe a falta de Pau Gasol no garrafão. Aliás, o líder em pontos no garrafão nessa temporada é exatamente Kobe Bryant. O segundo colocado? É Andrew Bynum, que aos pouquinhos está se tornando o melhor pivô do Oeste - se a gente não contar o Kobe, claro. Algumas derrotas aparecem, mas ninguém está percebendo que o Gasol ainda está fora. Ron Artest está jogando mais no perímetro, iniciando as jogadas, mas ele também pode jogar no garrafão se quiser (onde ele até rende melhor) e o Lakers pode virar uma máquina embaixo da cesta.

Muito se fala sobre a evolução do jogo de Michael Jordan, que com o passar dos anos foi marcando cada vez menos pontos no garrafão, cobrando menos lances livres, e arremessando mais de longa distância. Foi uma evolução inteligente que protegeu o corpo de Jordan e que foi tornando-se mais praticável conforme seus arremessos foram ficando mais e mais mortais. Kobe parece estar fazendo o caminho inverso, afastando-se da rota estabelecida pelo seu ídolo. Já faz um tempo que o Kobe está na elite dos arremessadores da NBA, convertendo arremessos de qualquer lugar da quadra. A decisão de se aproximar da cesta parece simplesmente primar pelo aproveitamento, pela vantagem que ele pode tirar de seus defensores maiores e mais lentos. É a conclusão de alguém que estudou, tentou, assistiu, praticou, e parece ter percebido que sua contribuição é maior quando pertinho do aro. A marcação que ele exige abre o perímetro para os companheiros da equipe, ele troca de função no triângulo tático do Lakers garantindo que o esquema não fique batido, não precisa trazer a bola para o ataque e armar as jogadas, e tira proveito de uma técnica primorosa que nenhum outro jogador de garrafão da atualidade parece ter. É como se ele percebesse que todo mundo nesse trabalho fede e que, então, ele pode fazer melhor e ganhar uma vantagem. Em terra de cego, o Kobe tem os dois olhos e pode passar a mão em quem quiser.

Quando Gasol voltar à equipe, talvez Kobe passe a variar mais seu posicionamente em quadra, para não criar uma redundância no triângulo ofensivo. Ainda assim, sua decisão pela eficiência apresentada pelo jogo de garrafão deve perdurar um bocado. Não há sequer sinal de que esteja sendo prejudicial para seu físico, já que tanto do que ele faz é baseado em habilidade, movimentos precisos e inteligência. Quando ele começar a apanhar demais, quando virar um saco de pancadas tipo o Allen Iverson nos tempos de Sixers (vamos esperar para ver se o Iverson ainda vai ser um saco de pancadas em algum outro time, agora que o Grizzlies e ele romperam o contrato), então Kobe poderá voltar ao perímetro como sempre fez.

Esse passo para longe de Michael Jordan, essa decisão oposta ao jogo do maior de todos os tempos, me deixa simplesmente eufórico. Num esporte em que há tanta comparação, em que os caminhos parecem já ditados e os jogadores têm pouco espaço para suas vozes particulares, Kobe encontrou sua própria trilha e está tendo um sucesso absurdo com ela. Ele não é uma cópia, um jogador genérico. Ele é nerd, estudioso, criativo, inovador e corajoso. Seu passo para longe de Michael Jordan, portanto, está fazendo justamente o contrário: trazendo Kobe para perto de Jordan - não no estilo de jogo, mas no palco dos maiores de todos os tempos.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Conquistas e defeitos

Faz carinha de quem tá gostando

Nem deu tempo de respirar. Ontem à noite o Brasil enfrentou o México na estréia da segunda fase da Copa América e hoje de tarde já estava em quadra de novo contra o Canadá. E talvez os dois jogos em sequência, com pouco tempo de descanso, pode ser a justificativa do pior jogo da seleção até agora ter sido contra os canadenses. Um jogo ruim mas que nos rendeu a vitória que faltava para nos garantir no mundial de 2010.

A partida de ontem contra o México não deu nem pro cheiro, foi bem sem graça. O Brasil dominou o jogo de tal forma que se tivesse com instinto assassino e sem vontade de poupar jogadores poderia ter vencido por mais de 50 pontos de diferença. Parecia Jogos Escolares de São Bernardo.

O quarto período da partida serviu para descansar os titulares mas eles não pareciam tão descansados assim hoje. Desde o início da partida o time não parecia concentrado, errando passes, demorando para tomar decisões e com algumas falhas defensivas que não tinhamos visto até agora. O que nos salvou foi que o time do Canadá, formado por ursos, lenhadores, guardas florestais e a Celine Dion, não soube aproveitar os momentos mais fracos da seleção.

O primeiro quarto teria sido um desastre ainda maior se não fosse o Leandrinho, autor de 15 dos 18 pontos do time no período e de 31 no jogo todo. Hoje foi tranquilamente o melhor jogo do Barbosa na competição. Ele chamou a responsa quando viu que tava todo mundo em dia de Kwame Brown e livrou nossa cara. Ter um dia ruim e ser salvo por sua estrela é coisa normal pra qualquer time, depender todos os dias do Leandrinho é que não pode. Como o time está com crédito, vamos deixar passar.

Na transmissão da ESPN Brasil, o Wlamir Marques chamou a atenção para o fato do Brasil ser um time tão certinho e que obedece tanto ao Moncho que começou a ficar previsível e que por isso seria uma presa mais fácil daqui pra frente. Não estou convencido disso ainda, acho que o que aconteceu é que ficamos limitados devido ao mal desempenho individual da maioria dos atletas. Quando ninguém acerta as bolas que deveriam acertar, o time fica parecendo limitado, quando na verdade está apenas em um dia ruim. Vamos tirar a prova disso nos próximos jogos.

De todas as atuações individuais bem fracas eu destaco a do Marcelinho Huertas, o único, além do Leandrinho, a chegar nos 10 pontos. Hoje, mais do que nos outros jogos, a bola voltou pra mão dele depois da jogada ter sido iniciada. Dribles mal feitos, jogadores de garrafão embananados, não importa o motivo, as jogadas estavam falhando e recomeçavam na mão do nosso armador principal. E muitas vezes, pressionado pelo relógio, ele teve que partir para a decisão em infiltrações ou arremessos de longa distância. No total ele acertou 3 das 10 tentativas de arremesso, errando todos os 3 da linha dos 3 pontos.

É normal o armador ser uma espécie de desafogo das equipes já que a bola sempre volta pra eles quando a jogada não dá certo. Na NBA vemos bastante a bola acabar na mão do melhor jogador quando alguma jogada desenhada não funciona, seja lá qual for a posição desse melhor jogador, faz parte da cultura de super-valorização dos grandes jogadores e do jogo de 1-contra-1 que eles tem por lá. Porém, em outros lugares como a seleção, a bola volta pro cara da posição 1 e o Brasil tem sofrido com isso.

O Huertas é nosso melhor armador, titular absoluto e um dos grandes responsáveis por ditar nosso ritmo de jogo. Ele sabe quando correr no contra-ataque e quando parar e fazer o jogo de meia-quadra, méritos totais pra ele por isso, mas ele precisa, pelamordedeus, aprender a pontuar. Aquelas bandejas "jornada nas estrelas" como se ele fosse um Tony Parker de Itu não são confiáveis e as bolas de 3 são tão certeiras quanto as arremessadas pelo Varejão.

A maior prova de que um Huertas que sabe pontuar deixa o Brasil em outro nível foram os jogos contra Panamá e Argentina ainda na primeira fase. Foram 15 pontos contra os Panamenhos e 18 contra os Argentinos, na melhor partida do Huertas até agora. Nesse jogo o Brasil tinha dificuldades para usar o garrafão, já que o Splitter é tão amigo quanto freguês do Scola, e foi com as infiltrações do Huertas que conseguimos abrir a defesa argentina e fazer o nosso jogo funcionar.

Na nossa enquete de quem é o jogador mais importante da seleção o Huertas foi muito bem votado e com razão. Ele é nosso único armador e muita coisa depende dele, aliás muita coisa tem dado muito certo por causa dele. Mas se temos a ambição de ir mais longe, como uma semi-final de mundial por exemplo, precisamos que o Huertas não fique refugando quando a bola sobrar na mão dele para decidir.

Pior jogo da competição e falhas individuais à parte, o Brasil ainda tem o melhor time do torneio e a vaga garantida no mundial. A primeira parte da missão está concluída. Falta agora o título. Parte importante da campanha para a vitória está em observar a seleção de Porto Rico em seu primeiro grande desafio, a partida contra a República Dominicana nesta noite. Jogão!

Momento nostalgia
Como parte das homenagens ao Michael Jordan, que está na classe de 2009 do Hall da Fama do Basquete, a NBA.com fez um Top 10 com suas melhores jogadas em finais. É impressionante porque tem jogadores que não tem um Top 10 desses na carreira, o cara conseguiu isso só em finais. Assombroso!

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Imagem do rei

Cada um enxerga o LeBron de um jeito


Antes do LeBron James saber que time ele ia jogar profissionalmente, a gente já sabia que ele estava na história da NBA. Se desse tudo perfeitamente certo ele seria o melhor jogador da história, se fosse só certo, um dos melhores. Se desse errado, seria motivo de chacota para o resto da vida como o garoto que chegou como grande promessa e não deu em nada. Por bem ou por mal ele já era personagem da história da liga.

Aliás, histórias de grandes promessas jovens que não deram em nada são comuns na NBA. Vivemos hoje ainda a era das piadas sobre o fracasso do Darius Miles, que só vira notícia na hora que rende prejuízo para o Blazers. E nos anos 90 o grande nome foi Harold Miner, o Baby Jordan, que teve uma carreira muito discreta e que hoje é um investidor na área de imóveis e que recusa todas as entrevistas e aparições públicas relacionadas ao basquete. Desse status o LeBron já passou, mas que imagem ele deixará ao fim da carreira?

Podemos começar a descobrir vendo que imagem ele tem hoje. Depois de 6 anos na NBA ele ultrapassou todas as dificuldades e críticas que enfrentou. A falta de habilidade com a mão esquerda ficou pra trás já na sua segunda temporada, os arremessos de longa distância melhoraram a cada ano, a ausência nos playoffs foi respondida com estréia de triple-double, atuações históricas e até com um título de conferência.

O apelido de LeBronze James, que ganhou depois das olimpíadas de 2004 e do mundial de 2006, acabou depois do ouro em Pequim.

O título de MVP na temporada 2008-09, conquistado em um time que teve a melhor campanha da liga, parecia coroar esses primeiros seis anos de carreira e de superação de LeBron James dentro da NBA. Depois de muita mídia, muito auê, muito hype, ele tinha finalmente se tornado o super jogador que todos esperavam que ele fosse. O rosto da NBA em sua era.

Porém, essa história de sucesso avassalador ganhou alguns detalhes inesperados nos últimos meses.

Tudo começou quando o Cleveland Cavaliers foi eliminado pelo Orlando Magic. Durante a série o LeBron deu entrevistas em que, nas entrelinhas, dava pra ler que ele estava terrivelmente decepcionado com a atuação e a postura de seus companheiros de time na série. Antes do jogo da eliminação ele disse que estava preparado para o último jogo, mas que só poderia falar por ele mesmo.

Questionamentos sobre sua liderança dentro do grupo começaram e só acabaram no jogo seguinte, quando o assunto virou então a falta de espírito esportivo do LeBron. Após a eliminação, o King James saiu correndo em direção ao vestiário e não cumpriu a regra padrão do Fair Play da NBA de cumprimentar os jogadores e comissão técnica do time adversário.

Um dia depois do maior feito do Orlando Magic em mais de uma década, a alguns dias da final da NBA, a mídia americana só falava de como o LeBron não tinha respeito pelo adversário, que era egocêntrico, que foi mal educado ou, como os que o defendiam falavam, era competitivo demais.

A poeira pareceu baixar com o fim da temporada, mas não baixou. Se você pensar, é justamente na offseason, quando falta assunto, que pequenas bobagens tomam grandes proporções por pura falta de opção. Em um evento em Nova York, o LeBron usou uma camiseta com os dizeres "LBJ MVP". LBJ, pra quem é lerdo, é a abreviação do seu nome.

Dias depois, em viagem pela França, flagraram o LeBron com outra camiseta, essa com a estampa "Check my $tats". Ou "Olhem minhas e$tatísticas".



Eu achei a primeira camiseta uma forma da Nike, sua patrocinadora, homenagear e promover um de seus principais parceiros e símbolos. A segunda eu achei que tem uma veia bem humorística, além de fazer muito sentido dentro da cultura do hip-hop em que a maioria dos jogadores americanos e negros da NBA se encontram.

Pois as duas camisetas começaram uma onda de perseguição ao LeBron na internet. Para uns ele tinha se tornado um babaca, que era imaturo, para outros tinha um ego maior que as banhas do Sean May e de que importavam suas estatísticas se não tinha nenhum título no currículo?

Procurem no Google e vão ver a quantidade de fóruns discutindo as camisetas do LeBron James. É assustador pela quantidade e assustador pelo ódio que muitas pessoas tem dele. E com esse ódio todo, tudo o que o LeBron não precisava era dar mais pano pra manga, certo?

Eis que algumas semanas atrás sai uma notícia dizendo que o LeBron James e a Nike tinham confiscado a fita de um jogo do camp do LeBron James. Esses camps são clínicas organizadas por jogadores e que reunem jovens jogadores de colegial e de faculdades. Em um dos dias de sua clínica o LeBron participou de um jogo e acabou tomando uma enterrada na cabeça, dada pelo Jordan Crawford, jogador da Universidade de Xavier. Logo depois do jogo a fita com a enterrada foi confiscada e ninguém viu a cravada.

Pronto. Mais pontos de impopularidade para o King James. Perdeu pontos por não ter espírito esportivo de novo e ainda virou motivo de chacota entre os que não gostam dele por ter tomado uma na cabeça. Finalmente ontem sairam uns vídeos, feitos da arquibancada por pessoas que estavam acompanhando o jogo, da tão famosa enterrada proibida.




Pois é, é isso. O cara atacou a cesta com velocidade, o LeBron tentou dar um toco pelo lado e não conseguiu. Nada que não aconteça em todo jogo de bom nível. Se não tivessem confiscado era capaz de esse ser só mais um vídeo perdido na internet, como é, por exemplo, esse vídeo do Michael Jordan perdendo um duelo de 1-contra-1 contra o desconhecido John Rogers, CEO de uma empresa de investimento. Assim como não viraria motivo de ótimas piadas como essa camiseta:



A repercussão negativa do confisco desse vídeo, somada a todas as polêmicas iniciadas na série contra o Orlando, criaram uma enxurrada de movimento anti-LeBron na internet entre os torcedores da NBA. Um movimento que, claro, não começou agora, mas ganhou bastante espaço.

Me aventurando por comentários em blogs e fóruns nacionais e gringos há anos, já vi muita gente que torce contra o LeBron haja o que houver. Alguém sabe o motivo disso? Meu palpite é excesso de mídia em cima do rapaz. Falam tanto dele que você acaba pegando birra, só acho que seria mais inteligente odiar a mídia e não o LeBron. É como Los Hermanos, mais chato que a banda, que é ok, são os fãs idolatrando como se fosse uma religião. Por isso odeio os fãs de Los Hermanos, não o grupo.

Depois de tudo isso volto à pergunta do início: qual será o resultado disso tudo na imagem que o LeBron irá deixar? Por um lado penso que tudo isso de agora será apenas temporário, uma má impressão deixada depois de um resultado frustrante e que será antigo como fóssil daqui um ano se ele for campeão ao lado do Shaq. Mas como será se daqui um ano tiver outra derrota? E se ele frustrar a cidade de Cleveland para partir rumo a Nova York em busca do maior salário da história da NBA, como dizem por aí?

Posso estar exagerando, mas as próximas atitudes do LeBron em grandes momentos irão definir que tipo de super ídolo ele irá se tornar. Pode realmente se parecer com o Jordan, que é admirado por todo e qualquer ser humano que saiba o que é basquete. Ou pode acabar seguindo os passos de seu parceiro de fantoche Kobe Bryant e se tornar um ídolo meio a meio. Amado por metade dos fãs e massacrado pela outra metade.

Só deixando claro que o LeBron não é uma simples vítima da mídia. Não quis dizer isso. No episódio das suas camisetas foi exagero de todas as partes, mas quando ele não cumprimentou ninguém depois do jogo ele não só foi mal educado com os outros atletas como não soube limpar sua barra depois. Uma mera entrevista dizendo que ele foi tolo e que estava de cabeça quente (com um bom motivo) já teria resolvido tudo.

Na questão do vídeo ele foi ainda pior. Não sei se a idéia de confiscar o vídeo partiu dele ou da Nike, mas os dois poderiam ter transformado isso em uma promoção da Nike e do próprio LeBron como um cara bacana e bem humorado. Alguns vídeos feitos pela Nike com o LeBron e o tal Crawford no YouTube tirando sarro da situação, e o LeBron passaria de mal perdedor para um cara bacana em instantes.

Por outro lado, essas atitudes que criam uma imagem negativa podem ser, apesar de todas as dores de cabeça que trazem, verdadeiras. O que temos a ver se o LeBron não cumprimenta ninguém depois de derrotas e não gosta de ser visto tomando enterradas na cabeça? Se tudo isso narrado aqui pode fazer com que o LeBron não seja mais o queridinho da NBA, pode ser que pelo menos possa servir para que possamos ver um LeBron mais verdadeiro.

Talvez ele seja mesmo mais tarado por vitórias e conquistas do que educado e correto. Talvez ele tenha um Ron Artest enrustido dentro dele. Talvez ele esteja pouco se ferrando pra imagem que ele tem perante o público. Concordando ou não com suas atitudes, sendo a sua imagem presente e futura boa ou ruim, creio que estamos vendo, com o passar do tempo, um LeBron James menos maquiado, mais real e mais humano.