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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

"Kwame, você não sabe jogar"

Provavelmente a única vez que riram um para o outro


Em janeiro de 2007 um homem chamado Alexander Martinez descia uma rua de Los Angeles com um bolo de aniversário enorme no valor de 190 dólares nas mãos. Era para uma gigantesca festa de aniversário que organizava em um local próximo. De repente ele encontrou Ronny Turiaf, então jogador do Lakers. Enquanto pedia uma foto com o ídolo, Kwame Brown viu os dois e sem mais nem menos pegou o bolo e acertou o pobre fã. Com a confusão montada, Kwame foi embora e recebeu uma ameaça de processo. Disse mais tarde que achou que o bolo era de Turiaf e quis só fazer uma brincadeira com o companheiro de time, fugindo assustado quando viu que tinha feito bobagem. Se sentindo mal, pagou um jantar caríssimo para o fã do Lakers no STAPLES Center. Ainda não ouvi uma história que defina melhor Kwame Brown.

Na última segunda-feira, um dia pouco movimentado na NBA, apenas uma notícia chamou a atenção. O Charlotte Bobcats contratou Kwame por um ano e o salário mínimo de veteranos, 1.3 milhão de dólares. As reações mais óbvias para essa notícia foram:

- Aff, até o Kwame arranjou time e o Iverson não!
- Esse cara é a maior enganação da história da NBA.
- Como tanto time é enganado por esse cara?

Não culpo quem pensa assim, principalmente porque eu mesmo, como torcedor do Lakers, fui um dos que mais xingou Kwame nos últimos anos. Reclamei como um doido quando o Lakers trocou Caron Butler por ele, perdi a voz de tanto reclamar em quase todo jogo sempre que aquelas mãos pequenas não seguravam passes perfeitos e confesso que saí correndo pela casa quando descobri (por uma mensagem de texto do Danilo) que o Lakers havia trocado ele pelo Pau Gasol.

Mas acreditem, o buraco é bem mais embaixo quando o assunto é Kwame Brown. Sua contratação pelo Bobcats é reflexo de uma história de 10 anos atrás, que por sua vez é resultado da história de vida do primeiro jogador vindo do colegial a ser a 1ª escolha em um Draft da NBA.

O Draft do ano 2001 teve o Washington Wizards com a primeira escolha, como nesse último ano, mas sem uma escolha óbvia como John Wall. Ao invés disso a discussão girava em torno de três jogadores de colegial que decidiram não ir para a faculdade: Kwame Brown, Tyson Chandler e Eddy Curry. Pau Gasol, apesar de ser facilmente o melhor daquele ano, corria por fora e foi escolhido na terceira posição. Todos estavam arrasando com os torneios colegiais, eram gigantescos e estavam babando para seguir os passos de Tracy McGrady, Kevin Garnett e Kobe Bryant, três dos maiores nomes jovens da liga na época e que tinham pulado a faculdade.

A decisão estava nas mãos do Wizards, mais especificamente nas de Michael Jordan e Doug Collins. O primeiro acabara de assumir seu primeiro cargo executivo na NBA, como presidente de operações de basquete do time, e o segundo era o técnico, escolhido a dedo pelo próprio MJ para liderar uma nova era de renovação na franquia. Ao ficar na dúvida entre Chandler e Kwame, resolveram levar os dois para um treino 1-contra-1 e resolver a parada. Viram Kwame, que tinha acabado de sair de uma última temporada de colegial com médias de 20 pontos, 13 rebotes e 5,5 tocos, simplesmente arrasar com seu concorrente em todos os aspectos do jogo. Ao ver aquele cara grande, jovem, atlético e muito superior a todos os jogadores de sua idade. a dupla da capital fez sua decisão. Querem ver como o mundo dá voltas? Enquanto os consagrados Jordan e Collins escolhiam Kwame, Isiah Thomas, então técnico do Indiana Pacers, alertava: "Vocês vão ficar chocados, ele não vai saber nada sobre basquete".

Por mais incrível que essa frase pareça, Isiah Thomas tinha toda razão. Mas ele tinha falado a verdade pela metade, Kwame não só não sabia nada sobre o basquete como não sabia muita coisa sobre a vida, muito menos sobre como viver sozinho numa cidade grande.

O então pilar da reconstrução do Wizards era um moleque de 19 anos nascido na minúscula Brunswick, no Estado da Geórgia, uma cidade de 15 mil habitantes povoada por barcos de pesca e só. Kwame era de uma família muito pobre e com uma história que até beira o clichê de tão sofrida: sua mãe, filha de um pescador, conheceu um caminhoneiro mais velho e se casou com ele. Teve cinco filhos e passou a sofrer com a violência do marido. Quando o Kwame, o caçula, tinha 6 anos, seu pai foi preso por assassinar uma namorada de cerca de 20 anos de idade com um machado. Foi condenado à prisão perpétua e só assim deixou a família em paz. Mas não que o crime esteja fora da família, dois irmãos de Kwame estão presos, um por tráfico e distribuição de crack e outro por atirar em um homem. Os outros dois trabalhavam na época do Draft, um fritando hamburgueres e outro lavando carros.

Em um dia, pouco antes de decidir se iria para a NBA ou se jogaria pela Universidade da Flórida, seu carro foi acertado por uma bala perdida. Por pouco ele não foi atingido e foi o que fez com que decidisse por virar profissional. Com os familiares em situação difícil de vida, ele não poderia correr o risco de uma contusão, de fracasso na faculdade ou mesmo de morrer num incidente aleatório como aquele e deixar seus entes próximos sem o dinheiro para sair daquela vida difícil. Uma vez indo a um jogo do Wizards ele confessou a seu assistente pessoal Richard Lopez que um dos seus sonhos de infância era se sentir satisfeito depois de comer.

Richard Lopez foi o cara contratado pelo Washington Wizards para ajudar Kwame Brown a viver. Sério. E uma pequena lista de casos explica essa decisão:

- Em um restaurante francês pela primeira vez nada vida, Kwame se surpreendeu ao pedir um "French Dress" e ouvir que não tinham nada daquilo lá. Um "French Dress" é um tipo de molho parecido com o nosso molho vinagrete que ganha essa denominação com referência francesa nos EUA e na Inglaterra. Sem ter a menor idéia da expressão, achou que era obrigação de ter em um restaurante francês. Um erro tão caipira quanto o Chico Bento tomar banho na fonte do shopping.

- Mas isso era só o começo da ignorância gastronômica de Kwame Brown. Durante meses ele sobreviveu apenas de comer os frangos fritos da rede Popeye's (quem assiste o NBA League Pass conhece aquelas propagandas de dar água na boca). O motivo era que ele não sabia fazer compras, escolher comida e muito menos cozinhar.

- Uma vez antes de um jogo do Wizards, Kwame ligou para Lopez e disse "Não tenho o que vestir". Seu assistente chegou lá e viu um bolo de ternos sujos jogados em um canto do quarto. Todos estavam gastos e Kwame não sabia como lavá-los e muito menos onde levá-los para serem limpos.

E assim foi. Lopez foi quem comprou o carro de Kwame (uma Mercedes S500), seu celular, seu apartamento, o serviço de TV a cabo, seu cartão de crédito. A mãe do jogador até passou um tempo com o filho em Washington, mas eventualmente teve que voltar para casa para cuidar dos outros filhos menos afortunados. Depois disso um outro amigo de Kwame que estava morando com ele por fazer faculdade na região de Washington acabou se mudando para mais perto do campus. Pela primeira vez sozinho em uma casa, prestes a dormir sem ninguém perto como nunca havia feito antes, pediu para Lopez: "Você pode ficar por aqui hoje?".

Se fora da quadra as coisas estavam malucas, complicadas e não indo tão bem, dentro não estavam muito melhores. Pouco antes do começo da temporada, Michael Jordan resolveu sair do seu posto de executivo do time para virar jogador. Essa mera decisão do His Airness transformou o time. De equipe jovem e montada para o futuro, se tornou um time focado em fazer de tudo para ser bom o bastante para ajudar MJ a voltar para os playoffs. Aí o time que deveria dar minutos aos novatos Etan Thomas, Kwame Brown, Brendan Haywood e Bobby Simmons passou a dar espaço para veteranos como Christian Laettner, Popeye Jones e Hubert Davis. No ano seguinte ainda chegaram ao cúmulo de contratarem Charles Oakley, Byron Russell e de trocar o jovem Richard Hamilton por Jerry Stackhouse.

Comparando com a NBA de hoje, seria pegar o Sacramento Kings, time jovem e focado em desenvolver seus jogadores para o futuro e, baseado na volta de um velho ídolo, mudar toda essa filosofia poucos meses antes de começar a temporada. A transformação minou a evolução do Wizards e nem foi bem feita o bastante para levar Jordan de volta à pós-temporada.

Dá pra dizer que o fracasso de Kwame Brown no Wizards começou antes mesmo da temporada começar. Não só com essa mudança repentina de filosofia, mas no primeiro dia de treinamento ele já deu o primeiro passo com o pé esquerdo. Kwame Brown ouviu de muitos "especialistas" que ele estava muito magro para a NBA, que precisava encorpar. Comendo mais (frango frito, provavelmente) e malhando, ganhou 9 quilos e apareceu para os treinos mais pesado do que o técnico Doug Collins esperava e queria.

Logo nos primeiros treinos Kwame Brown sofreu com dores nas costas e nas coxas. Na época, Doug Collins disse a ele: "Você deixa os treinos mais difíceis aparecendo fora de forma como está. Depois começa a jogar mal, perder confiança e vira um círculo vicioso". Algum tempo depois, já no meio da temporada, Kwame teve problemas para respirar em um dos treinos e teve que parar. Foi diagnosticado com asma induzida por esforço físico, causada porque seus pulmões não estavam completamente desenvolvidos para o seu tamanho, provavelmente causado por nunca ter se esforçado tanto fisicamente quanto estava se esforçando naquele momento. Ele não estava pronto para o nível físico dos treinos da NBA.

Como se isso não fosse o bastante, a ignorância basquetebolística de Kwame começou a desesperar Doug Collins. Ele não sabia quando dar um passe por cima, quicado ou de peito, e seu jogo de pernas era primário. Tudo o que ele sabia de basquete havia aprendido sozinho, fazia instintivamente, qualquer coisa aprendida em um treino comum não era do conhecimento dele. Nas palavras de Doug Collins, "Como Kwame deveria aprender jogadas se ele nem sabia onde ficar em quadra? E não estamos falando do nível da NBA, mas de basquete em geral". Ou como disse seu companheiro de time Popeye Jones, "É alguém tentando entrar no mundo das altas finanças depois de apenas duas aulas de economia básica".

O que no começo era só o medo de uma escolha errada começou a virar desespero. Com o Wizards cada vez mais longe da zona de playoffs, começaram a cobrar o primeiro escolhido no Draft. A cobrança vinha da torcida, dos companheiros de time, de Jordan, de Doug Collins e da imprensa, não só a da cidade, que cobria o time, mas do país e do mundo inteiro. A decisão do Jordan de voltar à ativa transformou o Wizards num dos principais times da liga. Até jogos em rede nacional estavam tendo.

De repente Kwame começou a se afastar de todos e virar um cara solitário. Passava o dia inteiro em casa e quando voltava para sua cidade natal tinha que lidar com diversos parentes, amigos e praticamente todo mundo de sua cidade pequena que ia na sua casa atrás de fotos, autógrafos, pedir para sair junto e ser seu amigo e principalmente para pedir dinheiro. E quando ele não atendia o favor era tachado de estar se achando muito por ter ido para a NBA. Decidiu tirar a mãe de lá e colocar em uma casa maior nas redondezas enquanto ele se escondia na capital americana.

Como muitos adolescentes de 19 anos fazem em seus meios quando ficam sozinhos e sem sucesso, Kwame começou a achar que a NBA não era o seu lugar. Mesmo depois de seu primeiro bom jogo na liga, uma partida de 10 pontos e 12 rebotes contra o Spurs de David Robinson e Tim Duncan, o time perdeu e o clima no vestiário era pesado.

No dia seguinte Collins deu um treino forte e todos começaram a forçar Kwame a fazer alguma coisa, lhe provocando, empurrando, jogando fisicamente. Em determinado momento o pivô do time, Jahidi White, o derrubou forte no chão e disse: "Levante, você não está machucado". Ele segurou as costas ainda com dor, começou a levantar e ninguém lhe ajudou. Até Popeye Jones, que era um dos que mais davam força pra ele, disse: "É hora de você crescer. Agora. Hoje. Levanta daí". Collins emendou pedindo que Kwame fizesse flexões para compensar a demora, ao que o jogador respondeu dizendo que suas costas estavam doendo. Aí ouviu mais do treinador, "Pare de ser um bebê e comece a crescer e jogar para merecer o respeito dos seus companheiros de time. Eles estão cansados de você. Estão cansados de você cair e ficar jogado por aí. Estão cansados de carregar você nas costas. Você tem que entrar no vestiário e ser capaz de encarar qualquer um olho no olho".

De cabeça baixa, Kwame só escutava e ao não responder a um intimidante "Você vai jogar ou não?", foi expulso do treino. Ele foi chorando para o vestiário, pensando que a liga não era pra ele, que seus companheiros, técnicos e todo o resto lhe achavam horrível e que era isso que ele deveria ser no fim das contas. Subiu na esteira e correu por uma hora sem parar.

Algum tempo depois Jordan apareceu. O mesmo MJ que era um dos maiores críticos de Kwame, que pegava pesado com ele a cada erro e que já havia mandado o novato jogar com o pé torcido porque ele mesmo já havia jogado "com pés 45 vezes piores que esse". Mas dessa vez Jordan apareceu para dar uma força, disse que tudo ia ficar bem e que "o Doug Collins é assim mesmo, duro, mas em alguns anos você vai perceber como ele é bom". Conversaram por mais um bom tempo, com Jordan chegando a afirmar que ele e o resto do time inteiro sabiam da capacidade dele de virar um grande ala de força na NBA por muitos anos.

A queda de confiança do Kwame chegou a um ponto em que ele disse que seu principal objetivo nos jogos era não comprometer :"É jogar e torcer para que o cara que você está marcando não faça pontos e você não faça nada que te deixe envergonhado". Quando a temporada começou a apertar e todos estavam desesperados pela vaga na pós-temporada, Doug Collins resolveu colocar Kwame na lista de contundidos. A justificativa oficial foi o músculo da batata da perna, na verdade ele queria tirar a pressão de cima do jogador. "O rosto dele estava arrasado, horrível. Eu precisava tirar a pressão de cima dele". O time melhorou depois de sua saída e eles embalaram 9 vitórias em 12 jogos, mas o clima no time continou o mesmo. Em determinado treino, depois de broncas consecutivas, Kwame disse ao técnico: "Eu queria que você parasse de cobrar e só me deixasse jogar", e ouviu em resposta: "Kwame, você não sabe jogar".

Se tudo foi horrível no primeiro ano? Quase. Teve um jogo contra o Blazers, quando Rasheed Wallace foi para o seu tradicional trash talk "E aí garoto, me mostra porque você foi a primeira escolha", e Kwame respondeu com um giro e uma enterrada. "Ok, tudo bem", disse Rasheed já indo para o ataque. Mas foi só.

Depois desse primeiro ano desastroso, todos estavam arrependidos e haviam aprendido grandes lições. Arn Tellem, empresário de quem já falamos nesse post, disse que aprendeu mais sobre como lidar com adolescentes que nunca tinham vivido sozinhos antes. Doug Collins, ao fim da temporada, comentou a evolução difícil de seu pupilo: "Não vimos só o aprendizado de Kwame Brown, mas o aprendizado de Doug Collins também". Perguntado se faria tudo de novo da mesma maneira, Collins disse que não, que não sabia no começo como Kwame estava despreparado para a NBA e que às vezes foi mais duro do que devia ser com o jogador, que entendeu mais da sua vida e de sua personalidade apenas depois. Mas o próprio jogador afirmou que entende que Collins sempre fez o que fez tentando fazer de Kwame um jogador melhor.

Isso foi só a primeira temporada e, pra mim, a que definiu quem era Kwame Brown na NBA. Ele nunca mais recuperou a confiança que tinha antes de entrar na NBA, fez poucos amigos dentro da liga e ainda não se sente à vontade dentro da quadra. No segundo ano de Jordan e na permanência de Collins até 2003, Kwame continuou jogando pouco. Virou motivo de piada na liga e de vergonha para os torcedores, que começaram a pegar no pé do jogador cada vez mais, principalmente depois que não tinham mais Jordan na equipe e que eles estavam de novo em busca de um novo ídolo.

Em 2005, último ano dele no Wizards, ele era vaiado pelos torcedores do próprio time toda vez que tocava na bola. A situação ficou constrangedora a um ponto nunca antes visto na NBA. Antes de um jogo de playoff contra o Bulls, o telão do Verizon Center chegou a exibir um vídeo do Gilbert Arenas pedindo que não vaiassem o jogador! Não que o Agent Zero fosse inocente, ele e Kwame brigavam tanto que logo depois desse jogo Brown deixou de ir para os treinos e foi afastado do time até o fim da pós-temporada. Em entrevista, Kwame disse que não entraria mais em quadra porque se ficasse ao lado de Arenas seria capaz de dar um soco nele.

Seus pedidos de sair de Washington foram atendidos quando o Lakers ofereceu Caron Butler para o Wizards em troca de Kwame. O time de LA estava em busca de um novo jogador de garrafão para compensar a saída do Shaq e todos achavam que Phil Jackson era o cara certo para mexer com a cabeça de Kwame e dele tirar todo o potencial do jogador. Não deu certo. A torcida do Lakers não aguentava aquele time fraco e jogava a culpa em Brown por ele ser mais conhecido do que os outros jogadores ruins do time. Isso minou a confiança dele, qualquer leigo via a insegurança em seus olhos em cada jogada.

Esse desastre culminou no que foi chamado de "os piores minutos da história da NBA", uma sequência impressionante de erros nunca antes vista em um jogo. Kwame errou duas enterradas, uma bandeja, errou pelo menos uns dois ou três passes, perdeu a bola, tudo em posses de bola consecutivas e sem ser tirado de quadra. Phil Jackson achou que seria pior para ele sair e os jogadores continuavam dando a bola pra ele para que seu companheiro pudesse se redimir. Foi um desastre triste de assistir. Era o segundo time de Kwame na NBA e a segunda torcida que o vaiava sem dó. Menos de um mês depois ele foi mandado para o Grizzlies em troca de Pau Gasol.

Os minutos desastrosos de Kwame podem ser vistos em um vídeo em duas partes. A primeira, maior, está aqui embaixo, e a segunda pode ser vista nesse link.


Como todos já lembram, Kwame só serviu como contrato expirante no Grizzlies e nos dois anos que passou no Pistons mal entrou em quadra. Agora, como disse no começo do post, vai para o Bobcats, cujo presidente é justamente Michael Jordan.

Ir para o Charlotte foi uma escolha. Ele topou ir lá disputar vaga com DeSagana Diop, Erick Dampier e Nazr Mohammed em um time com chances de no máximo se classificar em oitavo, mesmo tendo recebido ofertas mais lucrativas de times com muito mais chance de playoff, como o Utah Jazz, o Phoenix Suns e o Atlanta Hawks. Esse último era uma opção bem óbvia, aliás, já que o novo técnico do time planeja usar o Al Horford cada vez menos como pivô e mais como ala de força.

Agora, por que Kwame recusou propostas de bons times para se juntar a alguém que o lembra tanto daquele começo de carreira desastroso? E por que Jordan quer se envolver mais uma vez com um cara que não deu em nada e tornou sua carreira como executivo da NBA uma piada?

Mark Bartlestein, novo agente de Kwame, explica como foram as negociações:

"Kwame realmente queria o desafio de jogar para Michael Jordan de novo. Os últimos anos foram difíceis para o Kwame e agora ele está atrás de uma nova oportunidade para provar alguma coisa para ele mesmo e para os outros. E Michael foi uma parte importante nesse negócio. Ele quis que isso acontecesse, correu atrás para dar uma nova chance ao jogador".

Muita gente está julgando essa contratação como uma piada da offseason. O Jordan cometendo mais um erro ao contratar um jogador ruim e as pessoas criticando ainda mais o cara mais humilhado da NBA junto com Darko Milicic. Mas deu pra ver que existe uma história bem profunda e traumática que motivou essa reunião depois de quase 10 anos.

Acho que o Kwame não tem nenhuma habilidade ofensiva, mas compensa com boa defesa e isso deve bastar para ele ter espaço num time treinado pelo Larry Brown. Infelizmente não vai bastar para se redimir e fazer as pessoas pararem de se referir a ele como uma das piores escolhas da história do Draft. Mas pelo menos comigo ganhou muita moral, recusar propostas melhores para enfrentar um velho fantasma e se redimir com o Jordan foi um ato muito bonito e corajoso do Kwame. Assim como, para o Jordan, aceitar e dar uma nova chance ao jogador valeu tanto ou mais que aquela conversa no vestiário quando ele disse que as coisas iriam acabar bem. E, pense bem, ainda não acabaram.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Ladrão que rouba ladrão

É claro que o Thunder perde: eles usam Nike


Na temporada passada, escrevi um post sobre a maldição que acometia o Thunder. Tendo roubado a franquia que pertencia a Seattle e levado para Oklahoma City, deixando incontáveis fãs órfãos de sua equipe favorita por quem torceram por décadas a fio, o Thunder acabou adquirindo uma terrível maldição pra ver se aprende a não ser ladrão. Ao invés da famosa maldição do Clippers, que contunde o time inteiro não importa quanto talento eles consigam reunir (e que, nessa temporada, contundiu o novato Blake Griffin, que tinha tudo pra chutar traseiros), a maldição do Thunder faz com que o time perca todos os jogos no final. A quantidade de partidas perdidas em arremessos de último segundo e placares apertados na temporada passada foi algo ridículo e vale uma conferida no post, ainda que velho, só para conferir. Nessa temporada o Thunder decidiu bem menos partidas no final, mas basta dar uma olhada no post do Denis com as estatísticas dos jogos decididos por pouco pra ver que, quando o placar está apertado, o ladrão de franquias desanda.

Com mais vitórias do que derrotas e lutando ativamente pela oitava vaga para os playoffs, deu até pra esquecer que a equipe era amaldiçoada um pouco. Nas duas primeiras semanas de novembro, o Thunder chegou a perder três jogos pelo mesmo placar de 101 a 98, contra Kings, Spurs e Lakers (uma das duas derrotas por apenas 3 pontos para o Lakers na temporada), mas depois disso as coisas ficaram bem tranquilas para eles no âmbito sobrenatural. Agora em janeiro, derrotas seguidas para o Spurs e o Mavs por apenas um ponto cada mostraram que a maldição estava voltando. Foi então que eles enfrentaram outra equipe também ladra de franquias: o Memphis Grizzlies.

O caso de ladroagem do Thunder e do Grizzlies é bem parecido. A equipe, que era de Vancouver, foi comprada por um sujeito que jurou de pé junto que a equipe continuaria no Canadá (afinal, o povo canadense precisa de um pouco de basquete num país que só tem para assistir hockey, ursos e árvores), mas sem que ninguém percebesse alegou que a torcida não era suficiente e correu para Memphis (onde a torcida é menos suficiente ainda). A diferença é que ninguém presta atenção nos times do Canadá (vale ler o post do Denis sobre a desatenção com o Raptors, por exemplo) então ninguém nem se deu conta da mudança. Além disso, a equipe não tinha a enorme tradição do Sonics e é mais fácil ninguém perceber um time que nenhum ser vivo jamais tinha ouvido falar.

No sensacional duelo de ladrões de franquia entre Thunder e Grizzlies o clima era de alegria, tipo primeiro dia na casa de Big Brother. Os dois times finalmente parecem ter saído da merda da temporada passada, têm mais vitórias do que derrotas, lutam para ir para os playoffs e conseguiram montar um núcleo incrível de jogadores jovens e baratos. O Grizzlies está chutando traseiros desde que se livrou de Allen Iverson, e não porque ele fosse uma grande dor de cabeça, mas sim porque a imprensa parou de torrar o saco de todo mundo por lá, a pressão foi embora, e a pirralhada tem espaço para provar que conseguem vencer sem nenhum grande nome em fim de carreira que está jogando por lá só porque não tem nada melhor passando na tevê. No momento em que o elenco percebeu que até o Zach Randolph está jogando bem (aliás, bem é apelido e se alguém soubesse da existência do Grizzlies ele provavelmente conseguiria finalmente ser All-Star), devem ter percebido que milagres acontecem e que eles podem vencer as partidas que quiserem, nada é impossível. O Thunder também está animadinho, as pessoas estão começando a notar que eles são um time de verdade para o futuro (não como o Bobcats, que é "o time do futuro" desde que nasceu e parece que nunca vai dar certo), mas não dá pra esquecer que eles são amaldiçoados. O resultado foi o Rudy Gay acertando um arremesso fodão na carinha de bebê do Kevin Durant no segundo final e vencendo por 2 pontinhos:



Na partida seguinte, o Thunder enfrentou o Cavs. Trechos ao vivo da partida passaram no meio do jogo que eu assistia, porque o jogo estava emocionante, então resolvi mudar de canal e ir acompanhar o time-outrora-conhecido-como-Sonics. Fui recompensado com uma partida incrível, muito disputada, o Shaq jogando como se estivessemos em 1999 e ainda estivesse na moda jogar tazos e falar "massa", e o Daniel Gibson jogando como titular depois de ser tão ignorado na temporada passada. O que me surpreendeu foi o trabalho defensivo do garoto, que supostamente não deveria saber fazer bulhufas além de arremessar de três pontos, e segurou muito bem o Russel Westbrook em jogadas decisivas. Foi então que, perdendo por um pontinho nos segundos finais de jogo, LeBron liderou um contra-ataque e deu uma assistência na medida para o Gibson converter seu arremesso de três e colocar o Cavs dois pontos na frente. Posse de bola final do jogo, bola nas mãos do Kevin Durant porque ninguém é burro, e finalmente LeBron foi marcar o pirralho depois de uma partida inteira em que os dois não se cruzaram muito. Durant cortou para dentro, LeBron não conseguiu manter a dianteira, e parecia haver um caminho simples para uma bandeja - até que LeBron alçou voo e deu o toco com a ponta dos dedos, mandando a bola para os ares e encerrando o jogo ali.



Pra começar, é um dos tocos mais incríveis que eu já vi. "Associação internacional de odiadores do LeBron James que vão dizer que eu fico babando ovo no rapaz", por favor me processem, mas esse é um dos raríssimos tocos em jogadas decisivas que saíram das mãos do jogador que fazia a marcação, e não de alguém que correu para a ajuda. Durant é mais alto, tem braços mais longos, já tinha deixado LeBron para trás com sua passada, e mesmo assim tomou o toco. Aliás, se o LeBron tivesse cortado as unhas a bola teria entrado (vai ver que é por isso que insistem tanto para que ele pare de roer as unhas em rede nacional toda hora). Foi tão bonito, tão emblemático do que é uma boa defesa mano-a-mano, que sequer consegui ficar com dó da pobre equipe amaldiçoada do Thunder. Até porque eles ainda têm bastante tempo para perder, feder, sofrer, e ainda assim a maior parte do elenco usar fraldas descartáveis. A maldição vai indo embora com o tempo, assim como aconteceu com o Grizzlies, que agora é um ladrão de franquias pronto para roubar vitórias - de times grandes, e de times ladrões de franquia também. É tudo uma questão de experiência aprender a lidar com esses jogos apertados, e ainda falta muito para o Thunder chegar lá, embora não falte talento.

O Kevin Durant está simplesmente tendo uma temporada absurda. Apenas ele, LeBron e Carmelo estão com médias de 29 pontos por jogo ou mais, o que coloca o pirralho dentro de um grupo muitíssimo restrito. Em seus primeiros anos de NBA, Durant recebeu carta branca para fazer o que quisesse, entrar em quadra pelado, arremessar de costas, até fazer piada com armas de fogo eu tenho certeza de que ele poderia. Embora essa falta de pressão, cobrança e responsabilidade tenha tornado o rapaz um tanto esfomeado, forçando demais o jogo mesmo quando não é necessário e segurando demais a bola no ataque, permitiu que ele refinasse aos poucos seu arsenal ofensivo. Se antes ele passava tempo demais no perímetro se aproveitando de sua altura, agora foi colocado para jogar mais perto da cesta, tem um excelente jogo de pés quando de costas para o garrafão, e tende a bater para dentro - e sofrer faltas - com muito mais frequência. Foi assim que ele aprendeu a ajudar seu time, foi assim que seu jogo foi amadurecendo. Às vezes, feder muito e deixar seus jogadores fazerem merda em quadra permite que eles aprendam e evoluam, desde que seus jogadores não tenham pânico de passar vergonha e desmoronem, como aconteceu com o Kwame Brown no Lakers, onde a filosofia do técnico Phil Jackson é deixar em quadra jogadores se ferrando pra ver se eles aprendem.

Agora, Durant está tentando se tornar um jogador defensivo mais completo, dando exemplo para um Thunder que aprendeu a jogar na correria temporada passada e que agora tenta aprender, na marra, a segurar os times adversários na defesa. As coisas vão devagar nesse sentido para Durant e sua equipe, mas ofensivamente parece que o time inteiro encontrou sua voz, sua identidade. Até mesmo por terem estilos opostos, é fácil ver Cavs e Thunder tendo duelos épicos nos próximos anos, com LeBron e Durant lutando cabeça a cabeça pelo posto de cestinha da NBA. O Durant é uma estrela indiscutível e não vai demorar muito para que ele receba a admiração que merece. Mas até lá, o Thunder vai continuar perdendo, se lascando e escorregando em jogos disputados, sem que ninguém fale da equipe nem perceba que Durant é um monstro. Eles são amaldiçoados, e a hora é de outras equipes. Enquanto o Thunder apodrece no anonimato, pagando o crime de ter roubado a franquia de Seattle, o Memphis Grizzlies vê sua maldição dissipando e a atenção da mídia se aproximando: é a hora deles de brilhar, com direito a vitória em cima do Magic ontem, a décima primeira seguida deles em casa. Quando chegar a hora do Thunder, vamos lembrar desses dias amaldiçoados e sorrir, porque vimos Durant começar. Talvez ele até ganhe algum tipo de pelo facial, pra não parecer que tem 4 anos de idade. Talvez.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

O apressado come cru

Fãs do Pistons, não temam: com Kwame
Brown, como algo pode dar errado?


Às vezes é legal apertar aquele "botão do apocalipse", vermelho e brilhante, e começar um time do zero. Times bons pra burro acabam percebendo, uma hora, que não vão conseguir ser campeões e não vale a pena ficar dando com a cabeça na parede, eternamente se contentando em ser bom-mas-nem-tanto. É preciso coragem para o botão do apocalipse, mas é uma atitude necessária e saudável na vida de qualquer time da NBA. O que se faz depois do apocalipse, no entanto, é o que separa os grandes times dos times meia-boca. Aquele Nets que foi campeão do Leste com Jason Kidd não tinha qualquer chance de derrotar as potências do Oeste, então desmontar e começar de novo era uma boa ideia. Montar o pior time da temporada e flertar com o pior recorde da história da NBA não é uma ideia tão boa, entretanto. Mesma coisa com o Pistons: se livrar do Billups é algo bem idiota, mas pelo menos permitia reconstruir a equipe com a grana que o fim do contrato do Iverson liberaria. Gastar essa grana num par de jogadores aleatórios que não tinham nada a ver com a equipe não é reconstruir, é terminar de se afundar na lama.

Quando o Pistons contratou Ben Gordon e Charlie Villanueva, avisei que a equipe caia no mesmo erro que tinha cometido tentando colocar Iverson no elenco. Vários fãs do Pistons me puxaram a orelha avisando que eu não entendia o que o Joe Dumars, um dos engravatados mais idolatrados-salve-salve da NBA, estava fazendo. Disseram que com sua incrível visão de mercado ele reconstruiria o time em apenas uma temporada, antes da badalada offseason de 2010, e que várias trocas surgiriam se livrando dos velhinhos da equipe. Pelo contrário, os velhinhos ainda estão lá - e ainda receberam Ben Wallace de volta com uma rodada de bingo e um chá de erva cidreira pra comemorar. Ao fim dessa temporada, uma tonelada de grandes estrelas verão o fim de seus contratos e todo time mequetrefe da NBA daria um dedo mindinho por dinheiro o bastante para competir por um desses grandes talentos. Com medo de que a competição ficasse muito acirrada e os salários muito inflados, Joe Dumars preferiu dar 50 milhões de doletas para Ben Gordon, o arremessador maluco, e 35 milhões para o Villanueva, que não consegue se destacar nem quando o time inteiro joga para ele na seleção da República Dominicana.

O que o Pistons tem em mãos é uma série de jogadores que se anulam e não fazem um puto de um sentido juntos. Enquanto Gordon precisa da bola nas mãos o tempo todo para arremessar como louco, Stuckey precisa da bola nas mãos o tempo todo para penetrar no garrafão. Richard Hamilton precisa de um esquema de jogo feito para ele, que consista de passes e corta-luzes, não de gente segurando a bola. Will Bynum é figurinha repetida, faz aquilo que Stuckey já faz, enquanto faltam jogadores com outras funções específicas. Enquanto a identidade do time já foi a defesa, e Ben Wallace e Tayshaun Prince ainda tentam segurar essa imagem, outros jogadores - em especial as novas aquisições como Gordon e Villanueva - não defendem nem filhotes de gatinhos sendo chutados na rua. Ainda tenho uma teoria de que o Jerebko, o Daye e o Prince são a mesma pessoa, mas com maquiagens diferentes, o que só dá ao time mais do mesmo. Há uma necessidade brutal de identidade para a equipe, uma rotação específica, um modo de jogo, algo que una esses jogadores. Vamos focar na defesa? Vamos só arremessar de três? Vamos jogar na correria, na porra-louquice? Vamos jogar de quatro, tentando fazer cestas com o nariz como o "Bud, o cão amigo"? Qualquer coisa serve, desde que esse monte de gente se transforme em algo que lembre, mesmo que de longe no escuro e na neblina, um time.

Para piorar as coisas, não deu nem pra brincar de pensar numa rotação para essa equipe porque todo mundo vive contundido. Villanueva quebrou o nariz, pegou uma gripe violenta e agora tem uma lesão terrível no pé, Will Bynum torceu o pé, Rodney Stuckey torceu o tornozelo (incluindo duas torções, uma em cada pé, num mesmo jogo contra o Bulls), Hamilton tem uma lesão grave no pulso, Ben Gordon lesionou o tornozelo e Prince tem uma lesão preocupante nas costas. Ou seja, só sobraram os novatos, o que é bacana porque times em reconstrução tem mais é que dar minutos para a pirralhada mesmo. Austin Daye e Jonas Jerebko são bons o bastante para dar uma alegria aos fãs do Pistons, o único problema é que eles precisam do espaço que supostamente pertence ao Prince. As lesões complicam qualquer equipe, não importa quão forte e profundo seja o elenco, mas a verdade é que no Pistons as lesões apenas camuflaram o problema maior: o que diabos fazer quando todo mundo estiver saudável? Não há espaço para Prince e Hamilton se o foco da equipe por reconstruir e dar minutos para os novatos, mas haverá coragem de colocar os dois no banco de um time perdedor e ter paciência para ver os frutos surgirem daqui a dois, três anos? Acreditem ou não, as lesões tornaram a vida do técnico John Kuester mais fácil, porque ele não teve ainda que fazer nenhuma decisão mais polêmica ou complicada. Além disso, dá pra colocar a culpa pela segunda pior campanha do Leste nas contusões, sem ter que encarar o fato de que esse time, do jeito que está, sequer é melhor do que o Nets e sua famigerada briga pela pior campanha de todos os tempos. Sério, alguém já viu o garrafão do Pistons? É facilmente o pior de toda a NBA: Ben Wallace aposentado, Kwame Brown e suas mãos minúsculas (sem falar no cérebro de ostra), Chris Wilcox e sua força bruta sem tutano, e por fim Jason Maxiell, excelente para vir do banco mas misteriosamente colocado de castigo pelo técnico (provavelmente um daqueles casos de jogadores que só funcionam ajudando um time bom, como carregadores de piano, e que não seguram a responsabilidade de lidar com um garrafão sozinhos). Quando seu garrafão tem Ben Wallace e Kwame Brown, é seguro dizer que seus pontos só virão de trás da linha de três...

O medo de feder fez Joe Dumars optar por uma reconstrução rápida e indolor. Com sorte ninguém perceberia, o time conseguiria uma oitava vaga para os playoffs, e na temporada que vem tudo voltaria ao normal. A pressa, no entanto, resultou em contratações equivocadas, falta de identidade para o time, dúvidas sobre colocar a pirralhada para jogar ou não (o Wolves pediu um técnico que colocasse os novos talentos para jogar mesmo que isso custasse vitórias, e o Pistons, tem essa abordagem?), e o pior: derrotas a dar com pau. Com a derrota para o Bulls na noite de ontem, são agora 13 derrotas seguidas. Mais do que um número simbólico de azar, perder para o Bulls mostrou a cagada de contratar o Ben Gordon: o Bulls teve uma excelente partida de John Salmons, que substituiu Gordon no elenco e é um arremessador capaz de pegar rebotes e defender, e o Pistons não tinha como usar o Gordon para defender nem Derrick Rose e nem o Kirk Hinrich, que foram titulares juntos e engoliram a equipe de Detroit viva. O resultado foi o Ben Gordon mofando no banco, ao ponto do Kuester achar melhor descansar a lesão do rapaz do que colocar seu cestinha em quadra. Gastar 50 milhões por um arremessador que só faz uma coisa? Numa liga tão repleta de gente capaz de oferecer coisas parecidas? Talvez o Joe Dumars erre às vezes, criançada. Talvez ele tente correr demais volta e meia, com medo de admitir uma reconstrução, de carregar nas costas o peso de ter desmontado uma das equipes mais bacanudas e vitoriosas dos últimos anos. Mas agora vai ter que arcar com a responsabilidade de uma das piores campanhas da temporada, uma das piores sequências de derrotas, e um time sem perspectiva de melhora. Quando as lesões acabarem, o time pode até melhorar em campanha, mas é aí que os problemas vão começar de verdade: o que diabos o Pistons quer fazer da vida? Será hora de decidir. O problema vai ser perceber que Hamilton e Prince precisam sair, porque não é fácil imaginar um time que aceite os dois, tão dependentes de esquemas táticos específicos. Provavelmente alguém deveria ter pensado nisso antes...

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Hora de aposentar

Phil Jackson chama um táxi para a terra da aposentadoria,
onde o Don Nelson mora mas ainda não sabe



Enquanto o Denis comemora a contratação do Lamar Odom pelo Lakers dançando pelado pelas ruas (ele volta depois para postar a respeito), eu lido com minha segunda amigdalite em um mês. E não tem nada que combine tão bem com amigdalite quanto a situação no Warriors.

A notícia mais recente por aqueles lados é de que Marco Belinelli foi mandado para o Raptors em troca de Devean George e um monte de verdinhas. O italiano Belinelli foi o melhor jogador das Summer Leagues por duas temporadas consecutivas, foi uma bela escolha de primeiro round para o Warriors, mas praticamente não entrou em quadra. A troca por George, completamente ridícula, nos leva a dar uma olhada no que o Warriors fez com suas escolhas de primeira rodada do draft nos últimos anos. Achei uma lista na internet que merece ser reproduzida com comentários. Então, se você está de pé, sente-se (até porque, veja bem, que tipo de débil mental usa o computador de pé?). Faça a gentileza também de tirar as crianças do recinto. O negócio vai ficar muito, muito feio.

...

2001: O Warriors draftou Jason Richardson com a quinta escolha do draft, para depois trocá-lo por Brendan Wright (que praticamente nunca entrou em quadra) e um vale-trocas de 10 milhões que o time nunca usou. Troy Murphy também foi draftado, na décima quarta escolha, para depois ser trocado para o Pacers. O Gilbert Arenas foi draftado na segunda rodada, com a trigésima primeira escolha, sacada de gênio. Mas quando seu contrato terminou, o Arenas foi abordado por vários times e resolveu literalmente decidir na moeda para qual iria: Warriors, Clippers ou Wizards. Todos nós sabemos que ele acabou indo parar em Washington e isso deixa bem claro que Clippers e Warriors são definitivamente times amaldiçoados.

2002: No draft, o Warriors escolheu com a terceira escolha Mike Dunleavy, que também foi trocado para o Pacers e só aí começou a render de verdade (na perto de "o próximo Larry Bird" como se esperava, mas quebra um galho)

2003: O Warriors escolheu Mickael Pietrus na décima primeira escolha, e ele sempre se disse insatisfeito na equipe, reclamando da falta de defesa, vontade de ganhar e seriedade técnica. Deu o fora de lá assim que seu contrato terminou, indo para o Magic.

2004: Também com a décima primeira escolha, mas no ano seguinte, o escolhido foi Andris Biedrins, que pelo menos está no time até hoje, embora volta e meia seja colocado aleatoriamente no banco de reservas e esteja em tudo quanto é boato de troca, incluindo aquela para o Suns que supostamente incluiria Amaré Stoudemire.

2005: O Warriors escolheu com a nona escolha o Ike Diogu, trocado para o Pacers junto com Troy Murphy e Mike Dunleavy, e que agora acabou de assinar com o Hornets. Mas pior do que trocá-lo é gastar uma nona escolha nele, credo.

2006: Por falar em gastar escolhas, o Warriors escolhe Patrick O'Bryant, que alega no dia do draft não ser bom o bastante para uma nona escolha. Como era de se esperar, ele nunca foi usado, fedeu bastante, e após seu segundo ano foi liberado da equipe.

2007: Draft do Marco Belinelli, na décima oitava escolha, que brilha nas Summer Leagues, não ganha nunca minutos em quadra e acaba de ser trocado para o Raptors. Pelo Devean George, aliás, o que é quase tão ofensivo quanto xingar a mãe. Foi nesse draft que o Warriors trocou o Jason Richardson pela oitava escolha, o Brandan Wright, que está acorrentado ao banco de reservas do time e não consegue sair nem pra usar o banheiro.

Escolha de primeira rodada em 2010, 2o11, 2012 ou 2013: Foi mandada para o Nets em troca do Marcus Williams, que era uma grande promessa mas nunca havia tido minutos atrás de Jason Kidd e, depois, atrás de Devin Harris. Finalmente o Nets deixou o garoto tentar a vida em outro lugar, mas o Marcus Williams sequer conseguiu entrar em quadra pelo Warriors, porque o técnico Don Nelson não deixou. Com isso o Marcus Williams foi liberado ao fim da temporada passada, acabou saindo um dos melhores jogadores das Summer Leagues desse ano, e acaba de assinar com o Grizzlies.

...

As escolhas de draft do Warriors não são tão ruins, eles acertaram um bocado apesar de cometerem uns erros desastrosos (Patrick O'Bryant, o pus nas minhas amígdalas te mandou lembranças). O que torna esse time tão ridículo, no entanto, é o fato de que os jogadores que vão parar lá não são utilizados, vão mofar no banco de reservas, são trocados ou até mesmo mandados embora. De que adianta draftar Belinelli, Wright e até mesmo o Anthony Randolph, tão elogiado e cheio de promessa, se nenhum deles entra em quadra? Pra que formar um núcleo com Jason Richardson, Murphy, Dunleavy, Arenas, se o time não consegue manter seus jogadores? Pra que gastar dinheiro de contratações com jogadores como Corey Maggette, de que o time não precisava e que claramente é cada vez mais deixado de lado na equipe? O caso do Marcus Williams, no entanto, é o que me lembra mais o incômodo da minha amigdalite. Ao chegar ao Warriors, trocado por uma escolha de primeira rodada, Marcus Williams foi acusado pelo técnico Don Nelson de estar fora de forma, tiveram uma discussão, e então o jogador já estava imediatamente fora dos planos da equipe. Preferiram se livrar do garoto, sem receber bulhufas em troca. O Clippers parece um circo mas lá parece haver um critério: conseguir jogadores bons, aleatórios, e colocá-los ao mesmo tempo em quadra. No Warriors, não há plano nem critério. Sabemos que o técnico Don Nelson gosta de jogar na correria, defendendo pouco, arremessando de fora e explorando os rebotes ofensivos, mas não há uma tentativa de draftar ou trocar por jogadores que se encaixem no padrão. Eles trocam primeiro para descobrir que não usarão o jogador logo depois, porque não se encaixa, porque não faz sentido dentro do conjunto. É assim que o Warriors é um time em reconstrução há quinhentos anos, quando jogava-se basquete com ovo de avestruz, e só chegou aos playoffs com aquele time aleatório que derrotou o Mavs, desmanchou-se e não repetiu a dose.

Sou obrigado a questionar a sanidade do Don Nelson, apesar de ter gostado tanto dele nos tempos de Mavs. Acredito em sua filosofia de jogo, no que ele pode fazer taticamente com uma equipe, mas já está bem óbvio que ele não tem mais idade para ficar lidando com os jogadores. Está o tempo inteiro brigando com alguém, fazendo experimentos bizarros, mandando titulares para o banco e nenhum jogador faz a menor ideia de quantos minutos terá em quadra. Suas trocas não fazem sentido e as contratações parecem tiradas na moeda, tipo as decisões do Arenas. Don Nelson não parece mais ter idade para a brincadeira e se alguém quer levar o Warriors a sério apesar do nome meio RPG, vai ter que se livrar do técnico gagá. Às vezes, por mais geniais que sejam, os técnicos podem atingir momentos em que mais complicam do que ajudam suas equipes.

Sei que alguém vai colocar agulhas de vudu na minha garganta e eu não vou sarar nunca da amigdalite, mas estou começando a achar que é o caso do Phil Jackson. O esquema dos triângulos é genial, assim como sua dedicação ao estudo do jogo, seu entendimento do que os times adversários estão fazendo em quadra, sua capacidade de alterar partidas e a motivação e independência que fornece aos jogadores do Lakers. No documentário "Kobe doin' work", do qual falaremos mais em breve aqui no Bola Presa, podemos ver um Phil Jackson que mal aparece nos tempos técnicos enquanto os jogadores meio que decidem as coisas sozinhos. Kobe é um nerd absoluto e vai se virando, conversando com os companheiros e compreendendo o jogo por si só. O que importa, mesmo, é o respeito que o Kobe tem pelo Phil Jackson e a compreensão do jogo que alcançou através da ajuda do técnico, bem menos do que a presença real do Phil em quadra. Mas o problema é que, com a idade, o técnico zen na verdade não tem muita paciência pra ficar lidando com a pirralhada. Ele quer que os jogadores aprendam sozinhos, com seus erros, mas já faz um bom par de anos que Phil Jackson não tem medo de queimar seus jogadores afundando-os no banco de reservas quando as cagadas começam a aparecer. Os novatos não tem vez, são humilhados, cuspidos e perdem suas chances em quadra. Para quem se lembra, Smush Parker tomava uns esporros do Phil que dava vontade de chorar por compaixão, e por fim acabou na lista negra e foi tacado no lixo da equipe apesar de ter feito um trabalho sólido num time que melhorava cada vez mais no Oeste. Sobre o Kwame Brown, nem se fala. Pra mim, Phil Jackson é o responsável por ter acabado com sua carreira. Com a pressão de ter que render num Wizards que queria ganhar imediatamente graças à ajuda do Michael Jordan nas quadras, pudemos perceber que o Kwame não consegue jogar quando é exigido e pressionado em níveis elevados. Ele precisa de papéis menores, funções mais restritas e menos cobrança para poder render um pouco. No Lakers, teve uma chance de ficar em segundo plano, atrás de Kobe, e mesclar-se num elenco que queria destacar-se pelo conjunto. Kwame só tinha que mostrar algum talento defensivo, comer pelas beiradas. Mas Phil Jackson não aturava a falta de compreensão do Kwame com o sistema dos triângulos, humilhava o pobre jogador, castigava-o com o banco de reserva por vezes em partidas inteiras, e a confiança do coitado que já era uma merda foi parar no esgoto. Passou a ser vaiado pela torcida e, nessas ocasiões, fazia umas cagadas dignas de risada. Se fosse apoiado, se a torcida vibrasse, se o Phil Jackson tivesse a paciência de outrora para lidar e motivar jogadores, Kwame Brown seria uma peça sólida no Lakers provavelmente até hoje.

Algo similar está acontecendo com o Bynum. Apesar de ter se saído muito bem antes de sua contusão em 2008, na temporada passada o Phil Jackson não teve qualquer paciência com o garoto. É preciso lembrar que ele tem um contrato monstruoso para ser um dos pilares do Lakers pela próxima década, mas é jovem, inseguro e ainda está aprendendo o jogo. Chegou a dominar algumas partidas mas ainda é inconstante. Definitivamente Phil não está ajudando em nada quando espinafra com o garoto e pune suas cagadas deixando-o em quadra apenas nos 5 minutos finais de uma partida de playoff. O pivô poderia estar sendo uma peça fundamental e contribuindo profundamente para a equipe, mas sem paciência, Phil prefere deixar o menino no banco e não ter que lidar com pirralhisse. Eu entendo, deve ser mesmo um saco treinar esses milionários que ainda não têm pêlos no saco, mas o Lakers precisa pensar em seu futuro - principalmente com relação a um jogador com quase 60 milhões em contrato pelos próximos 4 anos. Se ele ficar para sempre relegado ao banco de reservas, ou demonstrar os mesmos problemas de confiança do Kwame Brown (e do Greg Oden, pelo jeito, que agora está recebendo acompanhamento ferrenho de psicólogos especializados), o Lakers terá um problema gigantesco em mãos.

O Denis me avisou que o assistente técnico do Lakers, Kurt Rambis, recusou várias propostas para ser técnico e continuou no Lakers, apenas esperando a chance de assumir o cargo do Phil Jackson. Será uma boa, sangue novo para lidar com os jogadores mais jovens e alguém que domine o esquema tático do Phil o suficiente para o nerd do Kobe respeitar e não olhar completamente de cima. Titio Phil merece um descanso, mas sua saída, nesse ponto, será mesmo melhor para o Lakers. O mesmo acontece com o Don Nelson: espero que alguém com bom senso arrume um técnico novo para o Warriors e aconselhe o Don a simplesmente comprar um gato. Que, provavelmente, vai ser alimentado só às vezes, sem muito critério.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Fuçando no lixão

Esse gesto, na língua para surdos, significa "Eu fedo"


Tentando salvar umas verdinhas, essa é a época do ano em que os times mandam um punhado de jogadores para o olho da rua. Equipes em busca das últimas peças para compor seus elencos para os playoffs costumam, então, dar uma olhada no que foi jogado fora, no que não deu para aproveitar, e ver se há algum resto ali que dê para usar de alguma forma. Em geral é um trabalho degradante de revirar o lixo, melecar as mãos, deparar-se com um ou outro Kwame Brown no meio da sujeira e ficar enojado, mas volta e meia tem alguma coisa que vale a pena. Vamos, então, dar uma olhada no lixão e ver o que alguns times optaram recentemente por levar para casa!


Sem Amar'e Stoudemire, que cedo ou tarde ainda vai ter que usar um olho de vidro, o Suns definitivamente sente falta de uma presença física no garrafão e é obrigado a colocar, ao lado de Shaq, jogadores mais mirrados como Grant Hill ou Matt Barnes. No meio de um monte de papel higiênico usado, então, o Suns encontrou um pouco de estrume descartado pelo Nets: trata-se de Stromile Swift.

Não dá pra acreditar que mais alguém tenha coragem de oferecer um contrato para ele, é assustador. Assim como tem gente que passa a vida inteira ainda acreditando no Kwame Brown, no Isiah Thomas e no Gustavo Nery, parece que nunca se esgota a esperança de que o Swift torne-se finalmente um bom jogador. É sempre aquele velho caso do apreço pelo potencial, e basta dar uma olhada no Stromile para perceber que todas as ferramentes físicas estão lá, de verdade. Toda temporada parecia que ele finalmente deslancharia, e as enterradas violentas e pontes-aéreas sensacionais pareciam apenas uma prévia de algo que se tornaria a norma, não a exceção. Foram anos e anos fedendo no Grizzlies, sempre com enterradas incríveis e partidas medíocres, mas uma hora ele iria jogar pra valer, afinal é muito novo, muito inexperiente. Até que o Grizzlies aparentemente se encheu e o contrato acabou.

Meu Houston Rockets, então, precisava desesperadamente de uma presença física para jogar ao lado de Yao Ming, e adivinha quem estava dando sopa? Confesso que entrei na empolgação, eu era jovem, ingênuo e ainda achava que a Sandy era virgem, então vibrei com a contratação do Stromile Swift na certeza de que ele tinha muito potencial e seria a peça que complementaria perfeitamente o jogo mais técnico e comedido do pivô chinês.

Bem, com o Swift na equipe o Houston começou a aparecer em vários Top 10 de jogadas semanais, com enterradas monstruosas seguidas sempre daquele sinal de "sou da paz" que ficou característico. Quem acompanha pelo YouTube, então, acha que está tudo ótimo, mas quem acompanha de perto nunca viu um jogador tão inútil em quadra. Ele é a versão jogador de basquete da Angela Bismarck cantando, e sempre com esse papo de que "está se aperfeiçoando", de que "está aprendendo". Coisa nenhuma, em matéria de técnica ele é o mesmo jogador desde seu primeiro minuto na NBA.

Meu Rockets se livrou rapidinho dele, junto do novato Rudy Gay, em troca do defensor e pau-pra-toda-obra Shane Battier, e embora eu não queira falar sobre essa troca (imagina só ter o Rudy Gay nesse time ao invés do T-Mac zumbi!) fiquei bem feliz na época por ter me livrado do Swift. Na verdade, ainda fico feliz hoje, talvez até tenha valido a pena. O engraçado é que a troca mandou o coitado justamente de volta para o Grizzlies, o que é engraçado porque supostamente eles deveriam saber a merda que estavam recebendo. Quando a palavra "potencial" está em jogo, parece que os times têm memória curta, mas é claro que não deu certo.

Talvez no Nets, então, com Jason Kidd, ele pudesse se tornar o novo Kenyon Martin, aquele cara que fede mas tem os dotes físicos para pegar ponte-aérea atrás de ponte-aérea e até parecer bom. Até o Mikki Moore fez a carreira dele assim, eu também poderia, mas o Stro não conseguiu. Afundou no banco e deixou até de ser estrela de YouTube (embora seu currículo por lá seja extenso, vale muito a pena conferir). Já faz mais de 8 anos que ele é "jovem e cheio de potencial", acho que chega uma hora em que você olha para a cara do sujeito e percebe que ele tem rugas e uns cabelos brancos, fica meio ridículo. Ainda assim, o Suns deve achar que ainda vale uma tentativa.

Ironicamente, se eu tivesse que imaginar ele dando certo num lugar, seria no Suns. O que não quer dizer nada, claro, porque se eu tivesse que imaginando ele dando certo com algum jogador seria com o Kidd, e nós sabemos que não funcionou. Até poderia dizer que o "Stro Show" (apelido cheio de força nominal, aliás) vai ajudar de leve o Suns, enterrar aqui e ali e tapar uns buracos. Mas eu é que não cometo o mesmo erro duas vezes, vai ser um fracasso retumbante assim como o Kwame Brown foi (ou está sendo?) em sua nova chance com o Pistons. Quem fede, fede.


Outro jogador em quem eu botei fé no Rockets foi o Luther Head. Apesar da inconsistência, dá para ver nele o potencial para se tornar um pontuador respeitado e um bom atirador da linha de três pontos. Por alguns minutos, eu até conseguia imaginar meu Houston reconstruindo o elenco em cima dele e do Yao, o que hoje mataria qualquer um de dar risada. Baixo demais, péssimo defensor, incapaz de armar o jogo, não existe posição em que Luther Head se encaixe. Pior ainda é sua mecânica pouco ortodoxa de arremesso, em que ele se taca para frente na hora de arremessar mesmo quando está livre (uma versão inversa do Ben Wallace, que sempre se taca para trás mesmo quando não faz sentido) e parece lhe exigir muito fisicamente. Depois de um punhado de arremessos ele está exausto e pequenas variações na mecânica já causam erros grosseiros. Definitivamente, nem um pouco confiável para alguém que só faria carreira se marcasse uns 20 pontos por jogo. Considere ele uma versão do Ben Gordon mas com as pilhas terminando antes do quarto período. Bem inútil, não é mesmo? Por isso, o Rockets mandou o sujeito embora, economizou uma grana, e agora o Miami Heat acaba de assiná-lo. Os arremessos de três pontos são uma clara deficiência da equipe, que acaba dependendo demais do Daequan Cook, e o Luther Head pode ajudar um pouco. Com o Wade armando o jogo, o Head pode jogar na posição 1 e não comprometer a equipe na armação, o que parece uma boa idéia. No meio do lixo, até que o Heat saiu no lucro. O único problema é que o empresário do Luther Head recusou outras propostas porque procurava garantias de que seu cliente iria ter minutos consideráveis em quadra, o que sempre é uma dor de cabeça: se ele sentar nos playoffs (diabos, o Heat vai pros playoffs!), será que vai arrumar encrenca com a comissão técnica?


Melhor ainda se saiu o Cavs, que recuperou o Joe Smith, mandado embora pelo time-outrora-conhecido-como-Sonics. Há pouco tempo atrás, ainda no Bulls, por diversas vezes ele era o melhor jogador em quadra com seu arremesso de meia distância consistente e bastante técnica no garrafão. Quando foi trocado para Cleveland, trouxe poder ofensivo para o banco de reservas e ganhou seu espaço. Ele é praticamente a antítese do Ben Wallace ou do Anderson Varejão, por ser meio mole mas versátil na parte ofensiva. Sem Ben Wallace e desesperado por alguém de mais de 20 centímetros no garrafão capaz de levantar os braços, o Joe Smith caiu dos céus. Além do mais, já tendo passado um bom tempo com o time, não terá que aprender os esquemas táticos (até porque eles não existem mesmo) e já tem certa química com o resto do elenco, tanto dentro quanto fora das quadras. Parece uma adição pequena, mas o Cavs precisava da possibilidade de ter um reserva capaz de assumir a carga ofensiva do Ilgauskas quando ele vai pro banco, já que Varejão e o novato JJ Hickson acham que "arremesso" é coisa de baseball. O banco passa a ser mais versátil, completo, e o Ben Wallace nem faz tanta falta assim, pra ser bem sincero. Não há nada que ele acrescente à equipe que não esteja lá em outras formas, e por isso acho que o Joe Smith será muito mais importante - e eficiente.


Outro jogador que o Cavs tentou contratar foi o Drew Gooden. Ele também já passou um bom tempo no Cavs e se encaixaria muito bem naquilo de que o time precisa: rebotes e arremessos de meia distância. Não conte com o Gooden para trabalhar ofensivamente dentro do garrafão, mas para efetuar o papel do Ilgauskas, ou seja, corta-luz na cabeça do garrafão, uma ameaça constante nos arremessos se deixado livre e rebotes ofensivos, o ala seria perfeito. Aliás, ele é inclusive bom demais para estar aí no meio de tanto lixo, sem emprego, bebendo nos bares e dizendo pra mulher que estava procurando trabalho. Acontece que o Kings, como deu a entender nas últimas trocas, parece cada vez mais interessado em deixar a pirralhada, especialmente o surpreendente Jason Thompson e o pivô-que-chuta-de-três Spencer Hawes, suar as pitangas. Seria bastante razoável deixar o Gooden no time até o final da temporada e tentar assiná-lo por menos grana então, quando o contrato acabar, mas acho que o Kings pensou duas coisas: primeiro, que o Gooden iria querer dar o fora dali bem rapidinho; segundo, que o Gooden tem mais de 12 anos. É uma abordagem audaciosa mas respeitável: "já que a gente está fedendo, então vamos feder de verdade e ter só meninada por aqui". Admiro o núcleo jovem do Kings, a limpeza que eles estão fazendo nas finanças é incrível, e agora um time que parecia fadado a ser mediano pela próxima década tem espaço para nascer de novo. É triste ver o Kings, que foi um dos times mais legais dos últimos tempos, lascado e nas últimas colocações? É claro que é, mas dá para ver alguma esperança. Assim, lá se foi o Gooden para a sarjeta.

Acontece que o Drew Gooden, por ser bom demais para o resto do estrume, está sendo abordado por muitas e muitas equipes. Além do Cavs, estão na briga o Mavs (que precisa de toda ajuda que puder arrumar para se fincar à oitava vaga para os playoffs) e o Spurs, que parece ser o favorito. Vários lugares, inclusive, dão como certa a ida de Gooden para San Antonio, e faz bastante sentido. O Spurs sempre faz estragos com uma dupla de garrafão composta por Duncan e mais algum bípede, basta haver algum pouco talento. Nessa temporada, com a contusão do Frabricio Oberto, o outro bípede ao lado de Duncan é o Matt Bonner, obviamente a maior mudança no Spurs desde que o Tim Duncan esboçou um sorriso uns 4 anos atrás. Em geral, o complemento no garrafão deles é sempre alguém para pegar rebotes, marcar duro e abusar no corta-luz, coisas em que Matt Bonner deixa muito a desejar. Ao invés disso, cria um perigo na linha de três pontos, alarga a defesa retirando marcadores do garrafão e converte seus arremessos quando livre. Parece ótimo, tem funcionado bem, mas é obviamente um desvio perigoso da tática que o Spurs emprega de modo tão eficaz na última década. Seria legal ter o Matt Bonner no banco para utilizar essa formação nos jogos em que for necessária, mas é preciso alguém capaz de dar umas cotoveladas e pegar uns rebotes embaixo da cesta. O Drew Gooden parece se encaixar muito bem dentro dessa necessidade e, quando fecho meus olhos, consigo vê-lo nitidamente acostumado com a parte tática da equipe e recebendo um anel de campeão no uniforme do Spurs. Também consigo ver a Mara Maravilha pelada puxando meu pé de noite, e não consigo saber o que me assusta mais; provavelmente o Gooden campeão. Malditos anos ímpares em que o Spurs sempre ganha tudo!

Faz sentido para ambas as partes e é bem possível que o Gooden, se ganhar um anel e tiver minutos consideráveis, continue sua carreira no Spurs pelas próximas temporadas. Pior do que ver o San Antonio ainda mais forte, no entanto, seria a situação ainda mais complicada para o nosso Tiago Splitter conseguir um espaço na NBA. É culpa do Kings, custava segurar o Gooden um pouco mais? Por que todo mundo demite jogadores-lixo mas deixa os melhores, de graça, para o Spurs e para o Celtics? É nessa hora em que aparecem os times grandes de verdade, em que todos os jogadores querem estar, e os times mequetrefes, dos quais todos os jogadores querem fugir. O Clippers, por exemplo, deve acorrentar seus jogadores nas camas para que não escapem durante a noite, enquanto o Spurs sempre consegue melhorar o elenco enquanto boceja, sem que nenhuma gota de suor tenha que cair para isso. Mundo injusto.

sábado, 15 de novembro de 2008

O sonho acabou

Amir Johnson de volta ao banco é sinal de novos tempos para o Pistons


Não estou falando do término dos Beatles e nem do Lakers perdendo sua primeira partida da temporada para o Pistons e encerrando o sonho de manter-se como o único time invicto da NBA. Nada disso, quem se importa com o Lakers? Estou falando do "projeto Amir Johnson".

Cansados de ver o Pistons sempre chegar tão longe mas acabar perdendo partidas cruciais nos playoffs, os dirigentes da equipe anunciaram que grandes mudanças seriam feitas no elenco. E então anunciou-se que Amir Johnson seria o ala de força titular da equipe, dividindo o garrafão com o pivô Rasheed Wallace (quer dizer, quando o Sheed decide entrar no garrafão, claro). Diz a lenda que o Amir Johnson mostra nos treinos que é uma estrela em potencial, dominando dos dois lados da quadra. Depois de sete partidas fedendo como titular, acabou dando lugar a outra estrela em potencial: Kwame Brown. Primeiro, contra o Warriors, Amir jogou alguns minutos vindo do banco. Ontem, na partida crucial contra o Los Angeles Lakers, nem deu sinal de vida.

Engraçado é que o Kwame começar como titular justo contra o Lakers foi algo que me preocupou bastante. Ele era odiado pela torcida de Los Angeles, constantemente vaiado durante as partidas, e nunca teve muita cabeça (como dizemos aqui, ele só faz cruzadinhas no nível "É Sopa"). Meu medo era que, assim que a torcida de seu ex-time começasse a vaiá-lo, ele ficasse confuso, achasse que ainda estava jogando pelo Lakers e fizesse uma cesta contra. Embora muito provável (estamos falando do Kwame, afinal de contas), isso não aconteceu. Pelo contrário, aliás. Kwame Brown teve uma atuação mais do que sólida, com 10 pontos e 10 rebotes, e passou bastante tempo em quadra. Melhor ainda, ajudou o Pistons de cara nova a acabar com o todo-poderoso Lakers.

O Pistons poderia ter vencido o Lakers com o antigo time, comandado pelo Billups? Claro que poderia. Essa vitória, comandada pelo Iverson, então não prova muita coisa - quer dizer, não prova se a gente não levar em conta o modo com que o Pistons jogou. Pra mim, foi o atestado definitivo de que eles são agora outra equipe, com abordagens diferentes, e a troca fica imediatamente legitimada.

Não existe nada mais ridículo do que trocar um jogador por outro e simplesmente tacar a nova peça no meio do esquema tático como se os jogadores trocados fossem, na verdade, exatamente idênticos. O exemplo mais óbvio é a troca entre Devin Harris e Jason Kidd. Quando chegou no Mavs, Kidd assumiu o papel ultra-secundário do Harris e não houve qualquer mudança no esquema tático. Ué, pra que fazer a troca então? Tédio? Nem preciso dizer que não deu muito certo.

Portanto, colocar o Iverson no lugar do Billups e achar que ele vai assumir o papel de armador meticuloso, calmo e ordeiro é absurdo, todo mundo sabe que isso daria muito errado. O Iverson é um cara agressivo que ataca a cesta o tempo inteiro, deixa seus marcadores sempre em estado de alerta e cria espaço para seus companheiros batendo para dentro do garrafão. Na noite de ontem, contra o Lakers, essa não foi apenas a definição do Iverson, mas também de toda sua equipe. O Pistons agora é um time que defende como nos bons e velhos tempos mas que depois é agressivo e ataca a cesta o tempo inteiro, sem parar, com todas as suas milhões de armas ofensivas. O Lakers passou a maior parte do jogo num desespero defensivo, batendo cabeças, e sobrou muito espaço para o Rasheed arremessar de trás da linha de 3 pontos quando bem entendesse. Iverson não arremessou demais, apenas não tirou da cabeça a mentalidade ofensiva e todo o time seguiu o exemplo.

Ao final do jogo, temos o Pistons de sempre: cinco jogadores com mais de 10 pontos, dois deles com 25, uma defesa impecável que contestou todos os arremessos e incomodou o Kobe o tempo inteiro, e uma vitória. Mas o modo com que isso aconteceu foi bastante diferente e frenético - ao menos comparado com aquele Pistons com que estávamos acostumados. Para mim, parece até mesmo lógica a nova abordagem: com uma defesa impecável e trocentos jogadores com talento no ataque, porque segurar a bola e o relógio ao invés de ir com mais sede ao pote?

Engraçado é que isso é justamente o contrário do Nuggets. Sem defesa nenhuma, com jogadores limitados, porque não diminuir o ritmo de jogo e valorizar cada posse de bola? É aí que entra Chauncey Billups, que na partida de ontem não calou a boca um segundo sequer, indicando as movimentações de ataque, organizando a defesa, chamando as jogadas, xingando um ou outro perdido e debatendo a crise ecônomica mundial e a impossibilidade de analisar a recessão atual através do prisma da obra de Karl Marx. O resultado ontem contra o Celtics foi um ataque cadenciado, balanceado, com seis jogadores com pelo menos 10 pontos e - pasmem! - uma defesa forte, principalmente no garrafão. Kenyon Martin marcou Kevin Garnett como se tivesse feito isso a vida toda com uma mão nas costas, e Nenê desviou arremessos, foi agressivo nos contatos e roubou um punhado de bolas das mãos do próprio Garnett. Ao todo, o brasileiro saiu de quadra com 5 roubos - além de 14 pontos e 7 rebotes.

Não me levem a mal, eu gosto muito do Nenê e naquele ano em que ele foi pra NBA eu falava tanto o nome dele que minha mãe chegou a pensar que eu tinha engravidado alguma garota. Mas o Nenê tem uma pitadinha de Zach Randolph em seu jogo, não no sentido de que ele não sai do chão e nunca dá tocos, mas no sentido de que quando ele recebe um passe, nunca devolve - prefere ir para a cesta a todo custo. Quando o Nuggets era porra-louca, passar a bola pro Nenê era pedir para todo o ritmo do jogo ser quebrado. Agora, no ataque organizado de Billups, ele recebe as bolas certas e não compromete em nada a velocidade do time. Não poderia pensar numa circunstância melhor para o Nenê voltar para as quadras e deixar a história do câncer para trás - ele é titular absoluto, o esquema de jogo favorece seu talento, o time está vencendo, ele é candidato a jogador que mais evoluiu até o momento e ontem, contra o Celtics, ninguém ousou perguntar "onde está Marcus Camby". A troca do pivô agora parece fazer sentido, porque a defesa do garrafão foi excelente em todos os momentos. Bizarro.

Tem umas trocas que a gente alopra na hora mas que, após um tempo, começam a fazer sentido. O Nuggets está economizando muita grana por ter mandado Camby embora e até agora não fez falta, enquanto o Clippers está lá lidando com suas contusões - e perdendo. A troca do Pau Gasol para o Lakers levou o Marc Gasol para o Grizzlies e, embora eu ainda ache ele essencialmente um cocô (não consigo tirar suas atuações das Olimpíadas da cabeça), seus números são ótimos, ele desequilibra os jogos volta e meia e tem muitos recursos no ataque. Em um par de anos, vamos analisar a famosa troca dos irmãos Gasol e talvez nos surpreender. Do mesmo modo, muita gente correu para a mãe gritando que a troca de Iverson por Billups era ridícula para o time de Detroit, que eles tinham feito merda. Oras, um Pistons agressivo em que Iverson cobra 12 lances livres e ainda assim mantém o espírito coletivo, todo mundo pontua e a defesa continua impecável? Pra mim, a troca deu certo para as duas partes, pelo menos por enquanto.

Aliás, dois times que fizeram trocas recentes também tiveram jogos importantantes na noite de ontem, mas com resultados opostos. O Suns, que trocou por Shaq na temporada passada, teve outra atuação monstruosa do pivô: 29 pontos, 13 rebotes e 6 assistências. Ué, a carreira dele foi dada como mais morta que uma festa de aniversário do Tim Duncan e agora ele tem um jogo melhor do que o outro? Mesmo com essa atuação, no entanto, o Suns sofreu para vencer do Kings na prorrogação sem Matt Barnes e Nash, suspensos naquela briga com o Rockets, e sem o nosso Leandrinho, que voltou para o Brasil graças ao falecimento de sua mãe. Era o que todo mundo temia desde que ele perdeu um pedaço da pré-temporada com a mãe doente, e diz a lenda que eles eram absurdamente próximos. Não é um momento fácil, com certeza, mas esperamos que Leandrinho continue em frente e retorne às quadras assim que puder, até porque o basquete é o maior dos ópios - como diz o filósofo, "nada como um dia após o outro com uma noite no meio", ou no mundo do basquete, uma cesta após a outra com um toco no meio.

Sem Leandrinho, quem salvou a noite foi Amaré Stoudemire. Ganhando por apenas dois pontos nos segundos finais, Amaré deu dois tocos sensacionais - um no John Salmons, outro no Spencer Hawes - em arremessos que teriam empatado o jogo. Abaixo, tem os lances da partida:



Já meu Rockets, que trocou pelo Ron Artest para essa temporada, perdeu do Spurs justamente porque Aaron Brooks tomou um toco do Duncan nos segundos finais, numa bola que empataria o jogo. Como eu adivinhei, com o Skip suspenso o Brooks foi titular e completamente retardado, arremessando 17 bolas - mais do que T-Mac, Artest, Yao Ming ou qualquer outro do elenco. Abaixo tem o toco decisivo, dentre outros lances:



Umas trocas dão certo, outras dão errado. Não dá pra saber se o Artest no Houston vai dar certo ainda, por exemplo, mas perder para a porcaria desse Spurs que colocou quatro torcedores pra jogar com o Duncan é sinal de que as coisas estão indo muito, muito mal. Resta esperar.

domingo, 26 de outubro de 2008

Preview da temporada - Divisão Central

Se olhar muito, o Rasheed Wallace toma falta técnica em casa


Estamos de volta com mais um preview da próxima temporada, apresentando agora os times da Divisão Central. Entregamos de bandeja todos os motivos para assistir e não assistir a cada um dos times, para você não ter que pensar e conseguir escolher com mais facilidade quem vai acompanhar. Afinal, hoje em dia dá pra ver qualquer partida que você quiser, basta dizer as palavras mágicas - e ter uma conexão de internet decente. Como a temporada começa na terça-feira, é hora de acompanhar as última análises, em clima de contagem regressiva.

Como sempre, começamos com o time que deve ser campeão de sua Divisão e acabamos com quem deve ficar no vergonhoso último lugar. E é vergonhoso mesmo, afinal ser o pior time da Divisão Central significa que o time fede tanto que não há mais motivos para viver. Se você é torcedor de algum desses times, prepare o calmante e vamos lá!


Detroit Pistons

Motivos para assistir:
O jogo coletivo e a enorme quantidade de estrelas (ou aspirantes a estrelas, depende de pra quem você pergunta) é sempre um tesão e um motivo indiscutível para ver o Pistons jogando. E se todo mundo já está de saco cheio de assistir sempre ao mesmo Pistons chutando traseiros, jogando do mesmo modo e eventualmente perdendo o ânimo pela vida em pleno tédio da temporada regular, esta é a temporada para voltar a acompanhar a equipe. O técnico Michael Curry acabou de assumir o posto, prometeu mudar um pouco o estilo de jogo da equipe, enfiou o Rasheed dentro do garrafão e prometeu mais de 30 minutos por partida para o reserva Rodney Stuckey, que está andando sobre as águas e multiplicando pães na pré-temporada. Além disso, colocou o McDyess no banco junto com Jason Maxiell e proclamou a "estrela de treinos" Amir Johnson como titular. Por enquanto não rendeu nada, mas não há muita cobrança, já que o banco é profundo, e ele terá tempo para provar seu valor.

O mais importante para o Pistons ser um time delicioso de ver nessa temporada é o ânimo da equipe. Toda vez o Pistons fica entre os líderes do Leste e se lasca nos playoffs, tudo com o mesmo elenco e as mesmas premissas táticas. Fica difícil para eles próprios levar a temporada regular a sério, todo mundo boceja e os jogos são completamente mornos. Com as pequenas mudanças e um técnico severo a quem os jogadores respeitam, o Pistons deve entrar com vontade, liderar a porcaria do Leste e garantir que nada vai sair errado dessa vez.

Motivos para não assistir:
Talvez as mudança não sejam o bastante para injetar ânimo no Pistons e eles continuem aquele time de saco cheio, cochilante, com cara de quem está fazendo exame de próstata ao invés de jogar basquete. Aquele Pistons defensivo e desanimado não é das coisas mais divertidas de se ver no mundo, e garanto que vai ter coisa muito mais legal para assistir lá no Oeste. Salvo os grandes clássicos contra o Celtics ou o Cavs, por exemplo, dá para passar batido pelo Pistons e esperar o momento em que eles tentam jogar de verdade, que é quando os playoffs começam.

Outra coisa: Kwame Brown. Não que ele seja tão ruim assim, mas é que suas limitações são muitas, seu psicológico é digno do Charlie Brown (o personagem das tiras, não a banda do Chorão) e não dá pra levar a sério um time disposto a lhe dar uma chance. Quando o Kwame entra em quadra, o jogo parece uma piada e será um ótimo motivo para mudar de canal e deixar o Pistons pra lá.


Cleveland Cavaliers

Motivos para assistir:
Daniel Gibson. Ele é um dos jogadores mais sensacionas da... rá, é claro que eu estou brincando! Pegadinha do Mallandro, glu glu glu, olha pra câmera lá, rapá! Se existe um motivo nesse Universo para assistir a porcaria do Cavs jogar, esse motivo é LeBron James. Não me importa se você é um odiador do sujeito, se continua achando que ele é superestimado, se acha que ele deveria acabar com a fome na África antes de se comparar ao Jordan. O que interessa é que qualquer jogo com LeBron James é interessante simplesmente porque ele pode surtar a todo momento e vencer a partida sozinho.

O resto do elenco de apoio é questionável, o esquema de jogo é excessivamente defensivo, mas LeBron já provou que, em seus melhores dias, pode pontuar de qualquer lugar da quadra e penetrar no garrafão mais fácil do que seria na Bruna Surfistinha. Além do mais, todo ano o Cavs faz alguma coisa para mudar o elenco, na esperança de entregar para LeBron um time capaz de finalmente ganhar um anel. Trata-se de um time sempre em transformação, em constante metamorfose, e dessa vez o novo membro é Mo Williams. Ver como um dos maiores fominhas da NBA vai se sair ao lado de LeBron é imperdível, quer dê certo, quer não.

E se você curte ver um brasileiro (como se andar pelas ruas não fosse o suficiente), o Varejão teve uma boa pré-temporada e tem tudo para ter um papel importante no time. Com o bônus de que a qualquer momento uma família de anões pode sair do seu cabelo reclamando que cortaram a água encanada, o que certamente será um barraco interessante.

Motivos para não assistir:
Um time puramente defensivo, de ataque estático e que ganha jogando feio. Precisa de algum motivo a mais para fugir? O time é cheio de peças interessantes que não combinam e está sempre fazendo trocas simplesmente pela graça da coisa, sem nunca tentar (e sem nunca conseguir) montar um time coerente e coeso.

Algumas pessoas gostam do novo ingrediente do bolo, o Mo Williams, e ele é um jogador em que todo mundo deveria realmente dar uma olhada. Quando jogava no Bucks, ficava difícil ver o sujeito em ação, porque assistir ao Bucks sempre significa que você está levando seu vício por basquete longe demais. Agora, no Cavs, é uma chance de analisar o Mo Williams de perto. Mas acredite, ele parecerá bom a princípio e, em um punhado de partidas, se transformará num grande motivo para não assistir ao time nunca mais. Sua abordagem do jogo é enervante, dá dor de estômago e o LeBron vai querer esganar o cara em 15 minutos. Ele corre com a bola, o que supostamente seria a tática ideal para o Cavs (que sempre achei que deveria jogar no contra-ataque), mas ele é destrambelhado e não sabe ler o jogo, arremessa quando dá na telha e enlouquece os fãs. Afaste-se.


Chicago Bulls

Motivos para assistir:
Derrick Rose. Eu sei, defendi desde o princípio que o Bulls fez uma cagada draftando o garoto no lugar do Beasley, aloprei as atuações medíocres no rapaz nas Summer Leagues, falei que ele comia meleca de nariz. Mas não é nada pessoal com o garoto, eu é que sou muito chato. Na pré-temporada o Derrick Rose teve atuações dignas da estrela que se tornará, mostrando maturidade e um poder mutante de adentrar o garrafão quando bem entende que lembra muito seu colega de profissão, Chris Paul. Embora o Bulls esteja com aquele cheiro de novela do SBT (você até vê as boas intenções, mas sabe que vai dar muito errado), o Rose tem tudo para dar muito certo. E não tem coisa mais bacana do que acompanhar uma futura grande estrela da NBA desde seu primeiro jogo, assistindo de camarote ao seu desenvolvimento. Para os que viram o LeBron evoluindo seu jogo desde o começo, a sensação de vê-lo jogar agora é incrível e as histórias para contar para os netos se avolumam. Os que viram o Jordan começando sua carreira na NBA, por exemplo, têm bilhões de histórias para contar pros seus bisnetos.

Esse ano veremos trocentos novatos que renderão histórias quando você for velho, então será preciso um bom planejamento para manter sempre um olho em cada um deles. Certifique-se de que o Derrick Rose receba atenção especial.

O resto do time também não é de se jogar fora, com muita gente jovem, talentosa, descontraída, disposta a muita azaração! Vale a pena ver como o armador Kirk Hinrich vai se acostumar com seu novo papel, já que Rose assumiu sua antiga função, como Luol Deng vai produzir depois do seu novo contrato giga-milionário, que espaço será dado para Nocioni, como será o desenvolvimento do garrafão "fede-mas-há-esperança" de Tyrus Thomas e Joaquim Noah. Mas o mais divertido para os Nelson Rubens da vida será analisar a situação do Ben Gordon, que tentará mostrar que é o governante da Terra para garantir um contrato na temporada que vem, já que dessa vez ninguém deu bola para o moçoilo.

Para finalizar, tem também o técnico com nome de estrela de luta-livre, Vinny Del Negro, que é um técnico novato e, portanto, você sempre vai querer ver ele fazendo merda para criticar na frente dos seus amigos.

Motivos para não assistir:
O Bulls da temporada passada era um pesadelo de se assistir. Todo mundo ficava atrás da linha de 3 pontos arremessando como malucos, num estranho caso clínico de "fobia de garrafão". Tirando o Drew Gooden, que é um bom jogador mas que não dá pra levar muito a sério, ninguém ainda é especialista em jogar perto da cesta. Se o Derrick Rose feder por uns tempos, o que é até bem normal para novatos, acredito que não deve haver muita melhora na equipe. O técnico novo deve levar um tempo para compreender do que se trata esse tal de basquete, e para construir um modo de jogo que mude realmente a cara do Bulls vai demorar bastante. Ou seja, tudo leva a crer que, principalmente no começo da temporada, aturar os jogos desse time vai ser pior do que aula de Química. Para os desbravadores do desconhecido (também conhecidos como "aqueles que não tem bom senso"), aconselho sempre se certificar de que o Derrick Rose está saudável e vai jogar antes de escolher um jogo do Bulls.


Milwaukee Bucks

Motivos para assistir:
Um estranho fetiche por veados roxos, talvez? Bem, talvez exista algo que realmente possa me fazer dar uma olhada no Bucks, e trata-se do "Complexo de Zach Randolph". Lembra quando o Blazers fedia e o Randolph era uma grande estrela com seus 20 pontos e 10 rebotes de sempre, mantendo a bola em suas mãos o tempo todo? O Blazers então teve os bagos necessários para mandar sua estrela embora e, como mágica, o time melhorou instantaneamente de rendimento. Com o Bucks, não aconteceu exatamente isso, afinal a estrela da equipe é Michael Redd, que continua por aquelas bandas. Mas acontece que a bola mal fica em suas mãos, ele é um arremessador, alguém deve armar o jogo para seus arremessos, e o Mo Williams se tornou uma espécie de estrela na temporada passada com números surpreendentes de pontos e, até, de assistências. Trocado para o Cavs, agora Mo Will pode levar seus bons números para Cleveland e, se o "Complexo de Zach Randolph" entrar em ação, o Bucks deve melhorar sua produção. Luke Ridnour é facilmente o pior defensor mano-a-mano da NBA e o Ramon Sessions não consegue acertar arremessos, mas mesmo assim são armadores muito mais voltados para a equipe. Por motivos científicos, talvez seja legal ficar de olho.

Mandar o Yi Jianlian embora para o Nets também é um bom sinal. O Bucks ficou famoso por ser o time que só contrata os jogadores que não querem jogar por lá, e o Yi Jianlian era prova viva, quase que o chinês desiste de jogar na NBA só porque não queria ir parar em Milwaukee. Melhorar o clima da equipe costuma melhorar os resultados, o ala Richard Jefferson tem tudo para se tornar uma estrela com mais responsabilidades nas mãos e talvez o time nem fique em último no Leste.

Motivos para não assistir:
Ter uma vida. Vá ler um livro, leve o cachorro para passear, saia com a namorada, conte os azulejos da cozinha, estude a presença da dialética hegeliana na evolução dos videogames pós-Tetris. O Bucks fede, deve continuar fedendo por um bom tempo, e só deve receber qualquer atenção se o Michael Redd começar a fazer 50 pontos por jogo, Richard Jefferson dominar as partidas e o Ramon Sessions voltar aos números do fim da temporada regular, em que tinha por volta de 15 assistências de média. Mas veja bem, tem que acontecer as três coisas ao mesmo tempo, e constantemente, para que você tenha razões para sair de sua hibernação e ir acompanhar os roxinhos.


Indiana Pacers

Motivos para assistir:
Ser masoquista. O Pacers até deu sinais de que não seria uma tortura completa na temporada passada, mas agora o plano é jogar tudo fora e começar de novo. Time começando de novo é um sofrimento para acompanhar, é melhor ignorá-los por alguns anos, fechar os olhos e torcer bastante para que eles se tornem o novo Blazers (segundo "O Segredo", funciona).

O time até tem seus atrativos, veja bem. O armador TJ Ford corre pra burro e costuma sempre ter umas jogadas espetaculares, o "Granny Danger" cheira a estrela, o Mike Dunleavy vem da melhor temporada de sua carreira e talvez realmente seja o próximo Larry Bird, só que com dengue e duas mãos esquerdas. Mas se você realmente quer um motivo para dar uma espiada no Pacers, eu apontaria o Roy Hibbert. Ele é o pivô novato que surpreendeu todo mundo chutando traseiros na pré-temporada, e pivôs bons definitivamente não nascem em árvores. Acompanhar a evolução dele deve ser divertido.

Outra coisa: as cheerleaders do Pacers estão entre as mais maravilhosas da NBA. Quase coloquei o time em primeiro da Divisão só para poder colocar uma foto delas no topo do post. Então, se você estiver na seca, pode assistir ao Indiana Pacers e ignorar o jogo, prestando bastante atenção nos intervalos.

Motivos para não assistir:
Ter amor pela vida. Acompanhar uma equipe em que os pivôs são o Nesterovic, o Jeff Foster e um novato? Uma equipe sem estrelas, sem conjunto, sem objetivo? Um experimento fracassado que tentou se livrar de todos os jogadores bons mas "problemáticos" e montar um mosteiro de frades franciscanos que não vão ganhar uma partida sequer?

O Leste é uma porcaria e eles até podem ter alguma chance se evoluírem muito num ritmo absurdo, se despertarem o Sétimo Sentido e começarem a se mover na velocidade da luz. Fora isso, devem ser os últimos colocados não apenas da Divisão, mas de toda a Conferência. Vergonha.