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terça-feira, 19 de abril de 2011

Mulher Invisível

Dwight Howard também quer ser trocado pelo Jeff Green, e
 promete que iria sorrir bem mais que o Kendrick Perkins

Na partida de ontem entre Bulls e Pacers, Derrick Rose teve mais uma atuação incrível para levar o Bulls à vitória, com 36 pontos. Muita coisa deu errado para a equipe de Chicago, no entanto. Depois que o Tyler Hansbrough fez a festa em cima da defesa pobre do Carlos Boozer no Jogo 1, o técnico Tom Thibodeau fez questão de mudar a movimentação defensiva no garrafão, o que foi um desastre. Boozer passou a marcar mais fora do garrafão, onde ele é péssimo e sempre pula em qualquer ameaça de arremesso, e Noah passou a ser responsável pela ajuda defensiva dos dois lados. O resultado foi uma defesa muito pior, cheia de erros na ajuda, na rotação, uma atuação estabanadíssima do Noah, e um Boozer que estava tentando, tadinho, e que é muito pior quando tenta. Ainda assim, com um dos pilares do Bulls desmoronado (e precisando ser reconstruído para a próxima partida), o esquema tático permitiu que Derrick Rose desse 25 arremessos, cobrasse 13 lances livres e saísse vitorioso. Aí está a vitória do esquema de Tom Thibodeau mesmo quando algo dentro do seu esquema dá errado. O elenco foi montado para algo específico e consegue manter as pontas do plano geral mesmo se algo menor, algum componente do todo, for pela privada.

É o oposto do que acontece no Orlando Magic. Dwight Howard teve uma das atuações mais dominantes de um jogador de garrafão nos últimos anos, com 46 pontos, 19 rebotes, 22 lances livres cobrados, e tudo isso contra um time em péssima fase, sem as peças necessárias para vencer uma série, e mesmo assim o Magic saiu derrotado. É algo que eu insisto aqui faz muito tempo: quanto mais o Dwight Howard toca na bola, pior o Magic fica. E isso não é culpa do gigante sorridente, mas do esquema tático e do modo que esse elenco foi formado.

Todo mundo que acompanha o Bola Presa sabe que eu pego no pé do Dwight desde seu segundo ano na NBA, simplesmente porque o jogo dele demorou demais para evoluir e ficava claro que ele estava satisfeito com o que já tinha. Foi apenas quando começou a receber menos a bola e pedir mais posses de bola no ataque que os treinos foram se intensificando e seu jogo começou a ficar sólido. Demorou muito, mas agora é hora de dar os méritos devidos ao rapaz. Seu jogo dentro do garrafão não é genial, ele sempre será duro, como se o Dwight fosse o Robocop, porque não é fruto de entendimento do jogo, mas sim de repetição mecânica em treinamentos. Mas seu posicionamento no garrafão melhorou tanto, tanto, que seus movimentos de cara com torcicolo são agora muito eficientes. É legal ver que no começo de seu treinamento com o Patrick Ewing, os movimentos que o Dwight tentava fazer embaixo da cesta eram refinados, cheios de giros e ganchos complexos, além de um arremesso de média distância, e sempre davam errado. Agora esses movimentos foram reduzidos ao mínimo necessário para que funcionem, são duros, rápidos, curtos, sem frescura ou habilidade. Casam perfeitamente com as possibilidade do Dwight, são mais eficientes para ele, e tornaram o pivô uma grande arma ofensiva. Agora finalmente podemos dizer que ele tem uma série de movimentos que são seus, que funcionam, que lhe são naturais e que não exigem esforço. Parabéns, Dwight! Mas quanto mais ele usa esses movimentos, mais o Magic perde.

A lógica é simples. Alguns times são montados para funcionar no modelo do que se chama de "inside-out", ou seja, a bola entra no garrafão e se não houver uma cesta simples essa bola é mandada para o perímetro, de onde vem um arremesso de longa distância ou um passe de volta para o garrafão. É um excelente modo de trazer a defesa para perto do aro, abrir espaço para os arremessadores, e não permitir que a defesa se comprometa apenas com uma parte da quadra. O Magic foi claramente construído com isso em mente, mas há um sério problema: Dwight é terrível passando a bola, por uma série de motivos. Pra começar, seus movimentos no garrafão são mecânicos, decorados, ele apenas executa ao invés de reagir. Ele não é capaz de ler a defesa, reconhecer uma marcação dupla, proteger a bola de um ladrão, passar para o jogador que corta em direção à cesta. Não, ele apenas faz o movimento que aprendeu e se tiver marcação dupla, tripla, um leão ou os Power Rangers, ele simplesmente vai tentar concluir o movimento na base da força e da explosão. Para piorar, o Dwight tem clara dificuldade quando está mais longe da cesta, com um dos pés pra fora do garrafão e quando precisa começar a jogada de costas para seu marcador. É nessas horas em que seus movimentos são mais robóticos, com giros programados, e portanto são os momentos em que ele tem mais dificuldade de interromper o movimento e passar a bola (é como se fosse videogame ruim, tipo NBA Live, e depois de colocar um comando você não tem mais como voltar atrás). O problema é que ficar de costas para o marcador com um pé fora do garrafão é o momento em que os pivôs ficam sempre mais vulneráveis a ter a bola roubada ou a receber marcação dupla, tornando o Dwight um jogador muito propenso a desperdiçar a bola e não concluir seus passes.

Se o Magic foi criado para ser um time de "inside-out", a bola deveria sair do Dwight e chegar nos arremessadores de três, que devolveriam para o Dwight caso a marcação chegasse. Mas o Dwight perde bolas demais e não consegue efetuar os passes, criando uma cisão. Os arremessadores não confiam no Dwight, não procuram o pivô no ataque, e acabam arremessando sob marcação. Quando acontece do pivô receber a bola, ela não volta para o perímetro, então se o Dwight for eficiente os arremessadores acabam saindo do jogo, ficam só assistindo. O Magic é claramente um time montado para ter um pivô cercado por 4 arremessadores, mas ao invés de funcionarem como um sistema único, funcionam como partes isoladas. Quando uma dessas partes joga, a outra assiste. A solução, com esse elenco, eu já disse aqui: Dwight não pode ser estrela e ficar recebendo a bola de costas para a cesta pra finalizar. Deve interferir no jogo através da defesa, dos tocos, dos desvios de bola, e fazer apenas cestas fáceis comuns a todos os pivôs, ou seja, em rebotes ofensivos ou passes de armadores que tentaram infiltrar. Se ele receber a bola demais, o resto do time desaparece.

Se o Magic tivesse jogado normalmente contra o Hawks, ignorando o Dwight Howard, eles teriam ganhado a partida por 400 pontos - e tudo por causa do Howard. Ele teria vencido o jogo na defesa, tapando o garrafão, teria conseguido rebotes de ataque, teria feito cestas simples embaixo do aro que sobrariam pra ele assim meio sem querer. Não teria marcado 46 pontos, sairia com no máximo 16, mas a série estaria liquidada. Dentro desse Magic, o Dwight só deveria ser acionado quando consegue posição exatamente debaixo do aro, empurrando o seu defensor na marra, e aí não corre o risco de marcação dupla ou de ter que passar a bola. Justiça seja feita, o pivô tem cada vez mais conseguido estabelecer essa posição embaixo da cesta. O problema é que surge um paradoxo bizarro: nessas situações ele quase nunca recebe um passe.

Em geral, quando uma jogada é chamada para o Dwight, ele vai receber com um pé fora do garrafão e aí começa a movimentação ofensiva. Mas o posicionamento adquirido debaixo do aro não é algo que pode ser chamado, é algo que simplesmente acontece devido ao posicionamento da defesa, da força física do adversário, e em geral acontece no meio de uma jogada de ataque que não envolva o pivô. Cabe aos armadores reconhecerem esse posicionamento privilegiado, parar a jogada na metade e mandar pro Dwight. É simples. Mas o Magic não tem armadores puros, o Jameer Nelson e o Gilbert Arenas estão lá para ser arremessadores. O Turkoglu é o melhor em acionar o Dwight nessas situações, fato, mas o elenco inteiro está meio perdido em quadra, porque a função de todo mundo é arremessar e eles não sabem muito bem como, nem quando, porque tem gente demais para isso. O próximo arremesso é do J-Rich, do Nelson, do Arenas, do Turkoglu, ou do Ryan Anderson? As jogadas não são orgânicas, não são reações a movimentações do adversário, e por isso dificilmente alguém reagirá ao posicionamento do Dwight debaixo do aro. Por três vezes no jogo contra o Hawks, Dwight Howard conseguiu o espaço necessário para uma cesta fácil e não recebeu a bola - recebeu, sim, uma violação de 3 segundos no garrafão. Então mesmo nos jogos em que o Dwight está sendo constantemente acionado, como foi nessa partida em que marcou 46 pontos, ele não recebe a bola nas ocasiões em que deveria, simplesmente porque o time é mais travado que garota frígida, fica tentando achar um arremesso de três à força e não sabe nunca quem deve ser o arremessador da vez.

Curiosamente, o Dwight Howard tem todos os atributos para ser um jogador de pick-and-roll graças à sua velocidade, sua impulsão e sua facilidade em correr pela quadra, mas o Magic é um dos times da NBA que menos usa a jogada. E pior, usa apenas para criar espaço para o Jameer Nelson (o Synergy Sports deda: 60% das vezes a jogada é com ele), e é sempre procurando um arremesso, a bola não vai para o Dwight. O Magic foi criado como um time para arremessadores de três e um pivô, e não terá pick-and-rolls enquanto o técnico for Stan Van Gundy.

A princípio, eu achei que a volta de Turkoglu faria com que o Dwight fosse acionado nas horas certas. Achei que Gilbert Arenas, que gosta de criar o próprio arremesso, seguraria mais a bola e exploraria o Dwight só quando necessário. Mas não: Arenas não sabe usar pick-and-rolls nunca, e foi relegado ao cargo de simples arremessador; e Turkoglu aciona cada vez mais Dwight de costas para a cesta, onde a bola nunca voltará ao perímetro, onde o Dwight sofre inúmeras faltas (comprometendo o time tanto com seu baixo aproveitamento quanto na interrupção do ritmo de jogo), e onde ele perde mais bolas para a marcação. Aliás, vale lembrar: Dwight errou 8 lances livres contra o Hawks, dos 22 que tentou. O aproveitamento é bom para ele, mas é péssimo para o time e atrapalha demais o ataque se o time adversário tiver vários jogadores de garrafão para ficar só descendo a porrada nele. E o Hawks tem, por isso não tem medo de descer o sarrafo no pivô. Some a isso o fato que o Dwight desperdiçou 8 bolas (incluindo as três violações de 3 segundos no garrafão por não receber a bola) e fica  fácil ver que o time perde muito para que ele seja capaz de marcar 46 pontos.

É nessa hora que a comparação com o Derrick Rose é tão frutífera: o Bulls é montado para que o Rose possa arremessar oito mil bolas, a própria mãe, e dance a macarena, porque o resto do elenco está ali parasuporte, para segurar na defesa, para aliviar nos arremessos quando ele passa para fora. O Magic é construído para que o Dwight faça aquilo que ele não sabe fazer, que é passar a bola, e ignora aquilo que ele faz de melhor, que é o posicionamento embaixo da cesta e o pick-and-roll. Antes eu culpava o Dwight, agora tenho pena dele. Seu jogo tem vários pontos altos, mas nesse elenco, com esse técnico, a melhor coisa que pode fazer é mudar de super-herói e virar a Mulher-Invisível. O Magic só vai ganhar se não deixar o Dwight marcar 46 pontos nunca mais nessa série. Nunca. Mais.

O pior é que do jeito que está, o Magic ainda assim é bom o bastante para chegar numa Final de NBA. Há uma bagunça entre os arremessadores, ninguém tem papel definido, o Dwight não pode ser acionado, mas com leves ajustes dá para criar um esquema vencedor - e mesmo assim vai ser um esquema idiota porque não usa bem as potencialidades de ninguém nesse elenco. Com uma repensagem desse esquema tático, dá pra criar uma potência de novo, mas aí vai esbarrar sempre nisso: qual vai ser o papel do Dwight? Quantas bolas por jogo ele pode arremessar, e de que lugar da quadra? Que tipo de elenco de suporte ele precisa para poder ter carta branco como Derrick Rose? Ou será que ele simplesmente aceitaria ser secundário, tocar pouco na bola, e vencer os jogos na defesa? Desconfio que não e, portanto, será sempre mais difícil encontrar lugar para jogar em plenas condições. Não que um dia ele vá parar na Turquia, mas talvez nunca vejamos ele fazendo aquilo que poderia fazer de melhor, e isso pra mim é tão triste quanto a Turquia - ter que ver o Super-Homem brincando de Mulher-Invisível pra vida toda.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

De volta pra casa

O Turkoglu é o da esquerda

A situação do Turkoglu no Suns era a maior furada. Tudo que ele sabia fazer era redundante na equipe, e tudo aquilo de que a equipe precisava era justamente o que o turco não podia fazer. O Turkoglu não é nenhum gênio, mas ele é um baita de um jogador se você colocar a bola em suas mãos e deixar que ele arme o jogo, distribua a bola quando quiser, infiltre para criar o próprio arremesso e fuja do garrafão para arremessar de três. No Suns, apenas a parte dos arremessos de três poderia ser utilizada, porque o responsável por segurar a bola e armar o jogo é o soberano Nash, e o time precisava desesperadamente de uma presença no garrafão - nem que fosse apenas na defesa, vai. O turco simplesmente não se encaixava no Suns, assim como não tinha se encaixado no Raptors. Quando postei sobre o jogador um tempo atrás, disse que ele não tinha esperanças de encontrar um lar já que parecia combinar apenas com o estilo de jogo do seu ex-time, o Magic, de onde havia saído para entupir as orelhas de dinheiro.

Mas como diz o filósofo Badauí, "o mundo dá voltas" e eis que o Turkoglu voltou para o Magic em uma troca gigante, que comentamos bastante aqui. Apesar da bagunça, de tanta gente nova, de perder dois titulares e de não conseguir treinar com o novo elenco, o Magic ganhou 11 de suas últimas 16 partidas desde a troca. Todo mundo esperava que os novos jogadores batessem cabeça, que o Arenas apontasse uma arma para alguém ou trocasse a água de todo mundo por xixi, que demorasse para o técnico Stan Van Gundy encontrar um novo padrão de jogo e uma rotação definida. Mas foi tudo mais simples do que parecia, em parte porque o técnico com cara de pizzaiolo foi bastante conservador e tentou manter tudo o mais próximo possível de como era, mas também em parte porque o Turkoglu se sentiu novamente em casa.

As médias do turco não lembram as dos seus antigos momentos no Magic, agora o time é forrado de pontuadores e Turkoglu não tem mais que segurar o ataque nas costas com 20 pontos por jogo, mas só de ter a bola nas mãos e voltar a armar já podemos ver seus olhinhos brilhando. E a melhora da equipe ao colocar a armação nas mãos do turco é gigante simplesmente por um motivo: ele consegue acionar o Dwight Howard embaixo da cesta. Quando a armação cabe ao Jameer Nelson, por exemplo, a impressão é sempre de que a prioridade é o arremesso. De fato, sobra espaço para arremessar (especialmente após algum corta-luz do Dwight) e, quando a marcação aperta no armador, em geral isso significa que outro arremessador está livre para receber a bola. Quando a equipe precisa de agressividade, o que se cobra é que Jameer Nelson ataque mais a cesta, segurando mais a bola e assumindo a responsabilidade. Dwight Howard só é acionado então no início das jogadas quase como um plano secundário, em geral com apenas um pé dentro do garrafão, de costas para a cesta. Quando o jogo se aproxima do final, sequer é acionado porque - como eu insisto em dizer, enchendo o saco do pivô - não consegue converter lances livres, sofre faltas constantemente, e tende a perder a bola tentando infiltrar no garrafão. Não tenho nenhuma dúvida de que, no final dos jogos, o Magic é um time melhor sem Dwight em quadra. Mas o Turkoglu mudou tudo isso com sua capacidade de colocar a bola nas mãos do Dwight embaixo da cesta (ou em cima dela, numa quantidade enorme de pontes-aéreas). Num elenco de arremessadores e pontuadores que não confiam em seu pivô para definir jogos, o Turkoglu surpreende com passes longos, altos, que colocam Dwight de frente para a cesta sempre em possibilidade de finalização. Não é à toa que o Turkoglu tem agora a melhor média de assistências da carreira, e que a média de pontos do Dwight tem subido cada vez mais (é de quase 30 pontos nós últimos 5 jogos).

O problema não é bem o tipo de jogador que o Dwight Howard é, mas que tipo de jogador ele e seus companheiros pensam que ele é. Se continuarem achando que ele pode jogar de costas para a cesta fora do garrafão, acertando arremessos longos usando a tabela e ganchos em movimento, batendo bola para cima da marcação, teremos apenas a constatação de suas dificuldades, da falta de evolução em seu jogo e de como ele compromete uma equipe no ataque nos momentos importantes de um jogo apertado. Admitir os problemas do jogo do Dwight é o primeiro passo para explorar suas qualidades e saber usá-lo de forma correta, algo que o Turkoglu parece perceber agora. O Dwight tem que receber mais a bola, mas no alto, dentro do garrafão, nas costas dos defensores - e não fora do garrafão pra tentar imitar o Duncan.

Esse Magic que aciona o Dwight Howard em melhores situações de arremesso é muito mais eficiente. Quanto mais a defesa adversária se preocupa com o miolo do garrafão, mais difícil é dobrar a marcação no pivô com eficiência e mais espaço sobra para os arremessadores. Jameer Nelson agora tem carta branca para arremessar o quanto quiser, especialmente quando o Turkoglu assume a armação, e Jason Richardson já nasceu arremessando a placenta na lata de lixo, para ele o esquema tático do Magic é muito natural. A única coisa mais diferente nesse grupo é a entrada do Brandon Bass como titular no garrafão, algo de que eu gosto bastante mas que muda o desenho do Magic em quadra mais do que o Van Gundy acha saudável. Seu forte é o jogo de meia distância, algo que falta no Magic e que o técnico abomina, mas que funciona muito bem especialmente com o turco cuidando da armação. Mas o time sempre pode voltar para o esquema tático antigo simplesmente colocando o Ryan Anderson em quadra, que sempre foi um clone do Rashard Lewis e agora com mais minutos conseguiu provar que pode manter os mesmos números do seu sósia mais famoso (e mais caro). O Ryan Anderson também é um especialista em três pontos que alarga a marcação e abre mais espaço para o Dwight, não demanda a bola e quebra um galho na defesa. Com a falta de treinos e as mudanças tantas no elenco, toda vez que o Stan Van Gundy quer voltar a um ar retrô, à segurança dos bons e velhos tempos, coloca o Ryan Anderson na quadra. É uma espécie de estabilidade nostálgica que tem funcionado bem e ainda joga na cara do Rashard Lewis o quanto ele era desnecessário pra esse Magic que pode colocar qualquer outro arremessador de três mais altinho para ocupar seu lugar.

Quem ainda não se encaixou no grupo foi o Arenas, mas o Van Gundy também não está muito disposto a arriscar a estabilidade do elenco para dar mais minutos ao armador. A prioridade é não colocar Jameer Nelson e Arenas juntos em quadra, para assim garantir a armação do Turkoglu que vem dando resultado e os minutos do JJ Redick, que finalmente ganhou a confiança do técnico nos arremessos e na defesa. Uma escalação mais baixa, que colocaria Arenas em quadra junto com os outros tantos armadores, é cada vez mais deixada de lado para que o Ryan Anderson possa jogar mais e mais minutos e manter o padrão tático do Magic de uns tempos atrás. Resta ao Arenas, então, aproveitar os minutos limitados e decidir se ele será armador ou arremessador, porque a dúvida tem tornado seu jogo bastante inseguro e inconsistente. Com mais tempo de time tudo deve ficar mais confortável para ele, mas nunca chegará ao nível de conforto que o Turkoglu experimenta ao estar em um esquema tático que se aproveita de todas as suas qualidades e camufla todas as suas dificuldades. Esse é o tipo de coisa que faz a carreira de um jogador, que lhe garante contratos milionários, que faz a gente achar o jogador espetacular, até que de repente mude de time para uma situação diferente e todos os seus defeitos sejam expostos e nos deixem com cara de otário. Toda essa bobagem de "que jogador é melhor, Deron Williams ou Chris Paul" nunca leva em conta que os esquemas táticos são, em geral, os grandes responsáveis pelo rendimento de um jogador. Coloque o Deron no Hornets e o Chris Paul no Jazz e subitamente teremos dois jogadores muito piores do que estamos acostumados a ver.

Um exemplo ótimo para isso é o Tracy McGrady. Já foi um dos melhores jogadores do planeta nos seus tempos de Magic e de Houston, até que durante uma de suas trilhões de lesões o Houston se tornou um time veloz, de contra-ataques, de jogo coletivo, sem ninguém segurando a bola, e aí a simples ideia de que o T-Mac pudesse voltar às quadras dava calafrios na espinha do técnico Rick Adelman. Nas poucas vezes em que pisou na quadra após a lesão, T-Mac ainda parecia um bom jogador, mas lento, sem explosão, com a bola nas mãos - incapaz de acompanhar o ritmo da equipe ou de manter o jogo fluindo. Parecia um velhinho caquético tomando purê de maçã na veia. Quando foi mandado para o Knicks, parecia ainda mais lento no esquema do Mike D'Antoni, e a tendência da equipe em arremessar de três apenas expôs seus problemas com o arremesso de média distância. Era um jogador acabado. Mas floresceu meio sem querer no esquema tático como um excelente passador.

É praticamente impossível julgar tudo aquilo que um jogador sabe e não sabe fazer fora de um esquema tático que não favoreça cada coisa em especial. Um jogador pode parecer um bom arremessador de três, mas num esquema que foque nisso podemos descobrir que ele estava limitado a um tipo específico de arremesso, apenas em contra-ataques, por exemplo. Agora está na moda dizer que o Carmelo Anthony é "unidimensional", ou seja, que só sabe fazer uma única coisa: pontuar. Como saber que ele não seria diferente em um esquema que lhe pedisse para passar a bola ou jogar mais dentro do garrafão? Tracy McGrady já foi chamado constantemente de "fominha" e agora vê a carreira dando novamente sinais de vida justamente porque está jogando como armador no Pistons. T-Mac está mais lento, não tem mais a impulsão que tinha nos arremessos e nem a potência para invadir o garrafão e cravar na cabeça de todo mundo, mas ele é um jogador inteligente e sabe colocar a bola onde quer. Em qualquer equipe ele seria usado como um pontuador e então sua lentidão seria exposta, tornando-o imprestável. No Pistons, em que nenhum dos armadores tem como foco passar a bola (Rodney Stuckey e Will Bynum atacam a cesta, Ben Gordon arremessa até a mãe), Tracy McGrady é o mais perto que se pode conseguir de um armador puro, e aí não precisa de velocidade ou de potência - o Nash não nos ensinou que dá pra ser o melhor armador da NBA sem sequer sair do chão? O que vemos no McGrady agora é sua inteligência, sua visão de jogo, seus macetes de jogador velho que sabe como encontrar espaços, forçar contato, cavar faltas. Sua carreira só não foi para a privada porque o Pistons não faz sentido e é um time em reconstrução disposto a dar 30 minutos por noite para um jogador lesionado de mais de 30 anos, e numa posição em que ele ainda pode brilhar apenas porque o elenco inteiro não tem um único armador capaz de armar o jogo.

O que não faltou nos últimos tempos foi gente metendo o pau no Turkoglu, dizendo que ele fedia. Não é o caso. Seus únicos grandes momentos no Raptors foram quando deixaram que ele jogasse como jogava no Magic, e aí vimos que ele pode render um bocado. Para o Raptors não valia a pena desmontar o esquema tático por um único jogador, e fazer o mesmo no Suns seria podar o jogo do Nash, que é a grande estrela. Se o carinha chegou na NBA, se assinou um contrato milionário, é porque é capaz de render em alto nível em alguma situação, em algum esquema tático. Cabe às equipes ter a noção de que o cara não vai ser bom em qualquer time, é preciso saber ler exatamente quais são as qualidades maximizadas pelo esquema. Se isso não for feito, vai ter ainda muito time contratando o Turkoglu e descobrindo, de um dia para o outro, que ele é apenas um turco que se movimenta em câmera lenta. Do mesmo jeito que vai ter gente insistindo que o Dwight tem que aprender a arremessar de fora, usando a tabela.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Bagos gigantes

Sam Cassell mostra o tamanho das bolas do Magic, 
que trocou dois de seus jogadores titulares

O Magic sempre mostrou que é um time disposto a arriscar. Quando o elenco parecia ter futuro e os comentários eram de que, com um grande arremessador de três pontos, eles seriam capazes de lutar pelo título, juntaram todas as moedinhas e ofereceram tudo que tinham disponível para o Rashard Lewis - na época um dos arremessadores mais badalados da NBA. O contrato foi ridículo, somando 124 milhões de dólares em 6 anos, e dá pra ter ideia do absurdo fazendo uma visita a esse site aqui, que calcula em tempo real quanto o Rashard Lewis ganhou no mundo real a partir do momento em que você entrou na página (adianto, é mais de 1 dólar por segundo). O jogador não vale tudo isso, nunca fez grandes coisas pela equipe, mas quanto você estaria disposto a pagar por um jogador que pode ser a última peça para vencer um anel? Na temporada seguinte à sua contratação, o Magic se tornou campeão do Leste e perdeu na Final da NBA para o Lakers. Não dá pra criticar a decisão.

Com a derrota, vieram novos papos. Supostamente o que faltava para ganhar o título era, então, alguém capaz de criar o próprio arremesso, decidir os jogos no final, encontrar uma bola de segurança que não fosse um arremesso de três forçado. Fizeram uma troca para conseguir Vince Carter, jogador longe de seu auge e com fama de fominha. Foi arriscado, mas o Magic preferiu apostar na imagem que o Carter construíra no ano anterior como tutor da pirralhada do New Jersey Nets. O sucesso do Carter foi moderado, por vezes parecia estragar o ritmo da equipe, por outras salvava o jogo, mas o Magic com ele chegou novamente à final do Leste - desse vez perdendo para o Celtics.

Não é estranho, portanto, que um time que chegou a duas finais de Conferência em anos consecutivos esteja sempre envolvido em tantos boatos de troca. Estão sempre dispostos a arriscar, a acrescentar uma peça final, a mudar o elenco vencedor para conseguir dar um passo a mais. É por isso que a resposta a uma fase de derrotas nessa temporada foi trocar vários jogadores - aquisições, como as de Carter e Lewis, arriscadas mas inteligentes. O Magic não tem aquela postura bizarra do Cavs da era LeBron, que trocava apenas por trocar e formou um circo de horrores, em Orlando as trocas tem uma visão de conjunto, um plano definido de qual é a identidade do time. Só trocam por quem se encaixa na brincadeira.

O primeiro passo do Magic nessa maratona de trocas anunciadas hoje foi se livrar do Rashard Lewis. Não que ele feda, como muita gente anda sugerindo recentemente. Longe disso, ele é um bom jogador, mas seu contrato vai até 2013 lhe pagando mais de 20 milhões por temporada bem quando o Magic não precisa mais de arremessadores. Todo mundo no elenco, até o garoto da água e a mãe do Dwight Howard, arremessam de três mesmo durante o sono. O processo de montar um elenco eficiente no perímetro que teria o Rashard Lewis como peça final deu tão certo, mas tão certo, que agora o Lewis é descartável. Já não fará nenhuma falta.

Em seu lugar, o Wizards manda nosso canalha favorito, Gilbert Arenas. Nos últimos anos Arenas sofreu com uma lesão, depois com a lesão resultante dele tentar voltar cedo demais para as quadras, depois com a lesão resultante dele treinar demais para se reabilitar mais rápido, e depois com a punição por ter feito uma piada com armas de fogo no vestiário (que ele ainda não engoliu muito bem e diz ter sido julgado injustamente). Faz tanto tempo que ele não pisa numa quadra de basquete que até dá pra esquecer que, uns anos atrás, ele era um dos jogadores mais fodões da NBA, cotado para ser MVP, marcando 60 pontos nos times com os quais tinha birra, e dando mais de 10 assistências por jogo em sua volta às quadras só pra provar que, se quisesse, teria fácil média de double-double como armador. Arenas era tão bom que recebeu um contrato de 111 milhões e um elenco de apoio de respeito para tentar um título do Leste, mas todo mundo do elenco se lesionou numa hora ou em outra (e quando estavam saudáveis perdiam pro Cavs de LeBron nos playoffs) e agora já era, desistiram do projeto, desmontaram o time, e já é tarde demais para o Arenas voltar e tentar fazer valer o contrato gigantesco Ele merecia esse contrato quando o Wizards queria ganhar naquela hora e acreditava em títulos, agora estão reconstruindo em volta do John Wall e o Arenas não apenas ganha dinheiro demais e é bom demais, mas também rouba minutos do novato John Wall porque jogam basicamente na mesma posição. Para o Wizards é melhor se livrar do Arenas por qualquer outro jogador que seja de outra posição e dê ideia de recomeço, de que o John Wall é a estrela, e se tiver um contrato mais curto é brinde. O Rashard Lewis tem um contrato um ano mais curto, não é metido a estrela (nem nunca foi, tem "jogador secundário" escrito na testa), e não vai roubar minutos do John Wall, pronto, tá ótimo. Enquanto isso o Arenas está jogando cada vez melhor, recuperando a forma, e pode criar o próprio arremesso como se esperava que o Carter fizesse na temporada passada. Fora que, como já provou que sabe passar a bola como armador principal, pode substituir Jameer Nelson numa das trocentas contusões anuais do garoto.

É claro que o Arenas pode pregar uma peça e envenenar a água de Orlando, exagerar e querer dar todos os arremessos finais do meio da quadra enquanto grita algo absurdo como "Colher!", e segurar demais a bola, mas é mais um risco para o Magic que simplesmente vale a pena. O Arenas tenta começar de novo e deixar as polêmicas para trás, vai querer ser bom moço na nova equipe, está cada vez em melhores condições de jogo e tem potencial para voltar a ser jogador digno de papo sobre MVP. Se fizer merda e forçar muito o jogo, não vai ser nada que o Carter já não tenha feito tantas vezes no último ano, com a vantagem de que o Arenas é mais versátil e pode jogar nas duas posições de armação.

Essa troca, além disso, permitiu que o Orlando fosse ainda mais além com seus bagos gigantes. Com a chegada do Arenas, ficaram livres para enviar o Carter para o Suns. Aproveitaram para enviar dois jogadores de valor mas que, assim como Rashard Lewis, eram cada vez mais inúteis na equipe: Mickael Pietrus e Marcin Gortat. O Pietrus era importante na equipe graças à sua defesa e às bolas de três, mas desde que o JJ Redick passou a defender o bastante para conseguir ficar em quadra e teve atuações memoráveis nos playoffs, tem tido prioridade. Já o Gortat nunca foi muito usado mesmo, mas ele teve alguns momentos brilhantes em quadra, mesmo que raros, e o Magic resolveu lhe dar um salário gordinho só para impedir que os outros times interessados contratassem o rapaz (sabe como é, pivô é raro hoje em dia). No Magic faltam oportunidades porque o Dwight Howard é o dono absoluto do garrafão e o Brandon Bass joga cada vez melhor, em especial porque ele tem um arremesso de média distância consistente e aí não bate cabeça com o Dwight. No fim, valeu a pena investir no Gortat porque ele agora virou moeda de troca, só isso. Nenhum desses jogadores, no momento, fará falta para o Magic. O risco está mesmo é no que eles recebem em troca.

Em troca de Gortat, Pietrus, Carter e uma escolha de primeiro round no draft, o Suns mandou Jason Richardson e Hedo Turkoglu, além do Earl Clark (que só vai junto porque deve ter entrado no avião sem querer). Pra mim, Jason Richardson é o jogador perfeito para o Magic atual. Sua temporada pelo Suns tem sido fantástica, seus arremessos andam precisos, seu basquete anda eficiente como nunca, ele cria o próprio arremesso, e tudo isso sem exigir a bola nas mãos. Até chega a forçar o jogo, especialmente no primeiro período (dizem que se ele domina o primeiro quarto, é certeza de que terá um jogo fodão), mas nunca segurando demais o jogor. J-Rich joga bem sem a bola em mãos, se posiciona bem no perímetro e está sempre cortando para a cesta. É o jogador ideal para continuar a tradição de arremessos de três do Magic, um especialista no quesito que já liderou a NBA mais de uma vez em bolas de 3 convertidas, mas capaz de se virar quando o perímetro não estiver funcionando - e tudo isso sem comprometer a rotação de bola e o ritmo da equipe. Com o Hedo Turkoglu o negócio é diferente, ele também arremessa bem de três mas segura muito mais a bola, gosta de jogar como armador, e agora o Magic parece ter excesso de gente assim. Mas mesmo que o turco tenha minutos limitados, já deve valer a pena. Postei no começo da temporada sobre como o estilo do Turkoglu não se encaixava com o Suns de modo algum, que ele não tinha como render lá, e que sofrera com a mesma questão em Toronto. No estilo do Magic, pelo contrário, o Turkoglu parece um bom jogador, usa suas principais qualidades. Então mesmo que seus minutos fiquem restritos pela presença de Brandon Bass, Jameer Nelson, Jason Richardson e Gilbert Arenas, será no mínimo um jogador que pode render um pouco ao invés daquela lástima que ele era no Suns, em que não rendia nada. O jogador foi salvo e o Magic ganha de volta um reforço que deve estar muito grato e já conhece todo o andamento da equipe. É arriscado porque o contrato do turco é enorme e ele pode bater cabeça com outros jogadores, mas é tentador conseguir por um preço baixo um jogador que você sabe que vai render muito mais justamente no estilo de jogo da sua equipe - e que não rende nada em nenhum outro lugar.

Pro Suns, é um alívio se livrar do Turkoglu e receber o Marcin Gortat é um motivo para ver alegria na vida outra vez. Hakim Warrick quebra um belo galho no garrafão ofensivo mas falta alguém que possa sequer se fingir de pivô desde que o Robin Lopes se contundiu. Se o Gortat for mesmo aquilo que se supunha e puder dominar na defesa enquanto contribui no ataque com enterradas e jogo físico, o Suns nem fica com tanta saudade do Amar'e e para de tomar um pau de qualquer jogador com mais de um metro e meio de altura. E se o Gortat for um jogador limitado e souber apenas levantar os braços, o garrafão do Suns também já fica imediatamente melhor - estavam numa situação tão ruim que se um torcedor sorteado fosse jogar de pivô, seria lucro. Para isso perdem J-Rich numa temporada magistral, o que é uma pena, mas o Carter tem ao menos em teoria a possibilidade de tapar o buraco. Precisa de entrosamento com o Nash, soltar a bola, correr um bocado, mas o Carter já começa se encaixando no time em um aspecto básico: ele nunca defendeu bulhufas mesmo.

O Wizards deu o último passo necessário em sua reconstrução - que pra mim foi, até agora, impecável e relâmpago - se livrando de seu melhor jogador e dando espaço para John Wall, e o Suns ainda se debate para conseguir um garrafão pós-Amar'e e vai tentar tapar o buraco do J-Rich enquanto tenta descobrir se pode sonhar com alguma coisa enquanto ainda possuem o Nash. São todas mudanças significativas, mas quem mais tinha a perder com tudo isso era o Magic, porque o Suns e o Wizards fediam enquanto o Magic é um timaço que vem de duas finais de Conferência. A equipe de Orlando tem testículos de jumentinho para arriscar a esse ponto, e pra mim só apostou em coisas que valem a pena - mesmo se derem errado.

Jameer Nelson já está confirmado como titular (enquanto não se contundir, ele nunca joga mais de 70 partidas numa temporada), Arenas já avisou que está sussa de vir do banco, então o resto do quinteto inicial deve ter Jason Richardson (no papel de Vince Carter) e Turkoglu (no papel de Rashard Lewis), com o garrafão reforçado por Brandon Bass. Subitamente o time mantém as características usuais, sua identidade como um time de arremessadores, mas todo mundo sabe criar o próprio arremesso e o garrafão fica mais forte. Gilbert Arenas pode vir do banco armando o jogo e, claro, criando as próprias situações de cesta, ao lado de JJ Redick, e nos momentos cruciais de jogo o quinteto pode ter Jameer Nelson, Arenas, J-Rich, Turkoglu de ala (como teve que jogar no Suns) e Dwight no garrafão. Lembra quando ninguém no Magic queria decidir? E a bola parecia batata quente? O Turkoglu passou a criar cestas mesmo que a contragosto, o Jameer Nelson aprendeu a bater para dentro e forçar pontos, Arenas tem história como um dos jogadores mais decisivos de sua geração, e o Jason Richardson sabe muito bem criar espaço para si mesmo. É um Magic irreconhecivel.

Passei muito tempo não levando esse Magic a sério, meio como se eles fossem um Mavericks do Leste, sabendo que eles poderiam chegar a uma Final de NBA e esfregar minha cara no troféu e mesmo assim eu sempre iria achar que tudo ia dar merda. É que acho difícil ter medo de times que se baseiam nos arremessos de três porque eles são inconstantes e é preciso ter uma bola de segurança pra quando tudo o mais falha, pra quando a água bate na bunda. Pois agora eles tem, ao menos no papel, tudo o que é necessário. Devem chegar a mais uma final de Conferência, mesmo com os inevitáveis problemas de entrosamento que surgirão nos próximos meses. E, mesmo se der tudo errado, aplaudo os bagos dos engravatados de Orlando. Essa equipe que arrisca e inova já tem, pra mim, muito mais valor do que qualquer equipe de sucesso que bate na trave e não tem coragem de mudar os rumos. Quero ser igual ao Magic quando eu crescer.

Outras equipes, como Lakers, Nets e Rockets, fizeram trocas recentemente e vamos comentar delas nos próximos dias (sei que estamos meio devagar, prometo que a gente engrena ainda esse ano). Mas pegar um time vencedor, com chances de título, e mandar embora peças tão importantes para trazer jogadores polêmicos é coisa para poucos. Só por isso, já merecia que desse certo. Bem que o Arenas poderia tentar não andar nos vestiários armado dessa vez só pra ajudar um pouco.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Um turco sem lar

Turkoglugluglu bota um ovo

Quando o Suns, meio desacreditado, venceu 54 jogos na temporada passada e eliminou nos playoffs o Spurs em 4 jogos, chegando à Final do Oeste e dando sufoco no Lakers, era inegável que o maior responsável pelo feito era Amar'e Stoudemire. Seu começo de temporada havia sido discreto, forrado de relatos sobre seu desentendimento com companheiros de equipe e boatos de que seria trocado. Mas depois do All-Star Game, Amar'e deixou tudo para trás e foi, quase de forma unânime, o MVP da segunda metade da temporada. Ou ele ficou mais tranquilo depois de saber que não seria trocado, ou então resolveu jogar pra valer porque seu contrato acabaria ao fim da temporada e ele precisava garantir o interesse dos outros times (a famosa "Síndrome de Jerome James", antiga "Síndrome de Erick Dampier").

Por isso, a reação natural à ida do Amar'e para o Knicks foi de desespero em Phoenix. Quando finalmente deu pra levar o time a sério e eles venceram seus arqui-inimigos, causando uma ruptura no espaço-tempo, o jogador que carregou muitas das partidas nas costas deu o fora. Mas como o Nash continua por lá, nenhum dos engravatados da franquia vai ter coragem de tacar o time na privada e começar do zero, então tentaram tapar o buraco. E a principal aposta para manter o time jogando em alto nível foi o Turkoglu.

Minha opinião sobre o turco depende da fase da lua. Em geral gosto do seu estilo de jogo e admito que ele é um jogador muito talentoso, mas não consigo lidar com a ideia de que times acham que ele seja uma estrela e ofereçam trilhões de dólares pra ele enfiar na orelha. O Turkoglu se encaixava muitíssimo bem no esquema tático do Orlando Magic e mesmo assim o time não sofreu muito com sua saída, é um absurdo achar que ele pode transformar um time e lhe oferecer muitas verdinhas. O Blazers cometeu uma cagada absurda tentando contratar o jogador, e deu a sorte de que o turco preferiu ir jogar em Toronto. Azar do Raptors, que percebeu rapidinho que o Turkoglu é um cara talentoso mas que não vai ganhar jogos sozinhos nunca. Tentaram de tudo pra ele render por lá mas o cobertor era curto demais: se ele segurava demais a bola o ataque do Raptors que é pura velocidade não funcionava, se ele não tinha a bola em mãos desaparecia do jogo e ficava frustrado.

Ou seja, quem viu o turco jogando no Raptors sabia que jogar no Suns não seria tarefa fácil. Os problemas enfrentados para se adequar e render na equipe seriam parecidos, e embora o Suns seja um time mais inteligente e o Nash sempre dê um jeito de deixar todo mundo feliz, não dava pra esperar nenhum milagre. É simples assim: o Turkoglu não pode levar o Suns até onde o Amar'e conseguiu levar nas últimas temporadas. O próprio turco disse que não veio para substituir ninguém, e com razão, mas ele teve que tapar o buraco deixado pelo Amar'e na marra, mesmo que todo mundo saiba que não pode dar muito certo.

O Turkoglu volta e meia jogava como ala de força no Magic, mas os jogadores da posição por lá são Rashard Lewis e Ryan Anderson, dois sujeitos com fobia de garrafão. Faz parte da estratégia do Magic deixar o Dwight embaixo do aro e abrir o ala de força para arremessar de três, então o Turkoglu quebrava bem o galho nessa função. No Suns, ao contrário, o ala de força sempre foi a única posição que jogava embaixo da cesta, já que o pivô costuma ser o Channing Frye. Não é a área do Turkoglu e seria absurdo tentar, então é claro que o turco faz a mesma função que executava no Magic e evita ao máximo o jogo de costas para a cesta. O resultado é bizarro: cheguei a ver um quinteto do Suns em quadra composto por Nash, Josh Childress, Jason Richardon, Turkoglu e Channing Frye. Parecia um time de handball, em que ninguém pode pisar dentro da linha de três pontos.

O Turkoglu funciona muito bem com a bola nas mãos porque ele sabe armar o jogo e usa bem a sua altura para conseguir criar espaço e dar os passes certos. Mas no Suns, a bola sempre vai para o Nash, que sempre cola no cangote do turco e pede a bola imediatamente, não deixa o coitado nem ter o gostinho de levar ela um pouco para o ataque. O que o Turkoglu pode fazer, então, já fica limitado. Ele acaba passando a bola apenas depois de recebê-la, mas em geral ele já recebe em condições de arremesso e acaba desistindo do arremesso livre para acionar outro jogador. O Suns sofre jogo após jogo com a falta de agressividade, porque todo mundo no elenco se acha arremessador, do gigante Channing Frye ao campeão de enterradas Jason Richardson, então quando o Turkoglu deixa de dar arremessos livres ou atacar o aro, o time perde muito. Mas o turco não sabe ser agressivo sem armar o jogo, e costuma ser bonzinho demais ao invés de arremessar sempre que tem oportunidade.

Já que sua passagem pelo Raptors foi desastrosa e resultou em pedido de troca imediata, tem gente achando que o Turkoglu vai pedir para sair do Suns rapidinho, já que as dificuldades são as mesmas e ele não tem rendido bulhufas nos jogos até aqui. Mas Turkoglu abriu mão de 5 milhões de seu salário só pela chance de escapar do Toronto e ir jogar com o Nash. Os dois se admiram, sabem da inteligência um do outro, e estão seguros de que conseguirão jogar muito bem juntos.

A resposta do turco para que isso possa acontecer tem sido treinar, todos os dias, os arremessos de três pontos. Ele tem um regime de treinamentos particular em horários diferentes dos outros jogadores do Suns apenas para calibrar suas bolas de fora. Quando receber a bola para armar poderá atacar mais a cesta, mas esses momentos são muito raros: com Nash no time, é bom que ele se acostume a dar arremessos sozinho o tempo inteiro. É um modo de ajudar a equipe, de render bem, e as bolas de três foram a arma que venceu o Lakers ontem. Mas na defesa o negócio ainda é muito feio e não tem previsão de melhorar. Turkoglu sempre foi um defensor muito fraco e agora só piorou por ter que marcar jogadores bem mais fortes do que ele no garrafão. O turco alegou que nunca teve que fazer isso na vida e está sofrendo para se acostumar, mas a verdade é que ele nunca defendeu ninguém em posição nenhuma, deve ser difícil até se acostumar com levantar os braços.

O técnico Alvin Gentry já avisou que ele não será usado contra os alas mais fortes e pesados do que ele, ou seja, todo mundo na NBA. O Turkoglu já está sendo relegado ao banco de reservas para não comprometer em excesso a defesa, e no ataque já está virando só mais um arremessador de três pontos. É triste ver que um jogador tão competente, que poderia ser a peça final numa série de equipes que brigam por título, não consegue encontrar uma casa que possa usar seus talentos. O Raptors não era o local certo, e o Suns também não é. Com tempo, costume e inteligência, o Turkoglu vai encontrar companheiros livres, atacar mais a cesta, armar o jogo de vez em quando, acertar muitas bolas de três. Vai parar de ter medo de dar arremessos livres, mal que também assolou Channing Frye quando ele chegou no Suns. Mas ainda assim não vai ser natural para o turco, não vai ser tudo aquilo que ele pode fazer, porque jogando de ala de força o seu tamanho não é um bônus, seu peso é um problema, e ele não tem a velocidade necessária para explorar seus marcadores. Ele não tapa os buracos do Suns, e acaba tendo que ser um jogador que ele não é.

Enquanto isso, engole minutos do Hakim Warrick, o único jogador realmente agressivo do elenco. É verdade que o Jason Richardson tem visto a necessidade e cada vez mais ataca a cesta, mas Warrick traz aquela sensação de "puta merda, ele vai enterrar na minha cabeça a qualquer momento" que o Amar'e trazia. Ele nem é forte o bastante, não tem recursos o bastante, mas sabe trabalhar com Steve Nash e finaliza perto do aro. Ele supre as necessidades do Suns muito melhor do que o Turkoglu nesse elenco em que até o faxineiro sabe arremessar de três pontos. É um desperdício deixar o turco no banco, mas também é um desperdício deixá-lo em quadra limitando seu jogo e podar o Warrick, que é verdadeiramente útil em quadra para esse equipe. Por enquanto, eles podem vencer qualquer time em dias felizes da linha de três. Mas nos playoffs, precisarão de jogo fisico e bolas de segurança, coisa que o Turkoglu jamais será capaz de dar.

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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O time da criatividade

"Ball"

Pessoal, antes de tudo foi mal pelos dias sem atualização. Como o Danilo disse no formspring, foi uma série de fatores que nos deixaram uns dias de longe, mas já passou e estamos de volta em ritmo normal. Durante a temporada, com coisas acontecendo de verdade, garantimos que vamos fazer de tudo para manter o ritmo de um post por dia, combinado? E se não cumprirmos, foi mal, não temos palavra.

E já que estamos sem postar faz um tempo e precisamos nos redimir, vou pegar um assunto popular, o Phoenix Suns, que apesar de ter chegado na final do Oeste do ano passado e ter ficado bem perto de bater o Lakers, mudou bastante seu elenco.

Duas contratações do time a gente já tinha comentado quando aconteceram, a do Hakim Warrick e do Channing Frye. Elas podem ser lidas aqui, mas resumo aqui mesmo: o Frye saiu caro para um cara tão limitado, mas o pouco que ele faz é perfeito para o Suns e pensando só em basquete, não em grana, é importante ter ele no time. O Warrick também é limitado, mas sabe atacar a cesta e saiu barato. Vai ser uma das poucas opções do time no garrafão.

Os dois foram só o começo e estamos aqui para falar de tudo o que mudou no Suns até agora, então segura firme que o post é grande.

Como todos sabem, Amar'e Stoudemire foi para o New York Knicks. Como muitos também devem saber, ele foi o principal cestinha do Suns nos últimos anos, a única opção de pontos entre os jogadores de garrafão (tirando momentos esporádicos do Robin Lopez) e o parceiro ideal do Steve Nash no famoso pick-and-roll, a jogada de segurança do time.

Ao lembrar disso tudo não tem como não achar que a perda foi desastrosa. Por mais que ele não seja perfeito, se encaixava perfeitamente no estilo do Suns, tinha ótimo entrosamento com o Nash e é um dos melhores jogadores ofensivos de garrafão da NBA. Perder ele e não receber nenhum jogador em troca faria qualquer time despencar de nível, por melhor que fosse o resto do elenco.

Eu fiquei triste com a saída do Amar'e principalmente porque achei que ele finalmente tinha achado o seu parceiro ideal de garrafão. Durante muito tempo ele foi o pivô do time e não só ele não gostava de ficar limitado a ficar embaixo da cesta, como lá era mais difícil dele usar seu bom arremesso de meia distância e a sua infiltração, uma arma bem poderosa para conseguir pontos fáceis ou lances livres. Para tentar resolver isso chamaram o Shaquille O'Neal, mas os dois não se deram bem juntos, o time ficou lento e Amar'e participava pouco. Na temporada passada tentaram o Channing Frye, mas ele era pivô só no box score, na prática ficava na linha dos três e o Amar'e era o pivô de novo. No meio da temporada então resolveram promover o Robin Lopez para o time titular. Foi quando o Suns deslanchou e quando Stoudemire passou dos 25 pontos por jogo de média. Não seria exagero dizer que o Amar'e estava entre os dois ou três melhores jogadores da liga inteira nos últimos dois ou três meses da temporada quando jogou ao lado de Lopez.

O Robin Lopez sai bastante do garrafão para fazer corta-luz ou só para rodar a bola, abrindo espaço para o Amar'e infiltrar, coisa que o Shaq não fazia. Mas ao contrário do Frye, por exemplo, o Robin depois voltava para o garrafão para pegar rebotes de ataque, assim como ficava no rebote quando o Amar'e saía para arremessar. Os dois também eram velozes o bastante para não empacar o jogo veloz (não tão rápido quanto aquele time de 2005 e 2006, mas ainda baseado na transição) do Suns. Acontecia até do Lopez ser o responsável pelo corta-luz do pick-and-roll do Nash e o passe acabar saindo pro Amar'e! Achei um mix com enterradas do Amar'e na última temporada e é legal ver as que o Robin Lopez está em quadra, sempre abrindo espaço para o STAT. Ah, sem contar que o Robin Lopez livrava a barra do Amar'e ao sempre marcar o cara mais forte do garrafão adversário.

Triste então que bem quando a dupla perfeita de garrafão do Suns foi encontrada, também foi desfeita. E pior, assim como Lopez fazia o Amar'e parecer melhor, o contrário também era verdade. Ter Stoudemire fazendo 25 pontos por jogo disfarçava o quanto o Robin Lopez é limitado no ataque, embora seja até melhor do que parecia quando chegou na NBA. Todos perderam.

Mas como ela já estava consumada e o Suns não estava afim de entregar a rapadura e pensar em uma reestruturação geral, partiram para trocas e contratações. Hakim Warrick e Frye são bons, mas seus contratos indicavam que deveriam ser reservas, eles precisavam de um novo ala de força, de um novo parceiro para Robin Lopez. Mas quem? Chegou-se a cogitar David Lee, mas logo ele fechou com o Warriors. Bosh nem cogitou ir pra lá, Nowitzki, dizem, pensou em se juntar de novo com Steve Nash, mas preferiu ficar no forte time do Mavs. Com os grandes nomes de fora, a solução foi inovar. De novo.

Em 2005 o Phoenix Suns revolucionou a NBA com o seu ataque chamado "7 segundos ou menos". Era um sistema ofensivo em que o time tinha que definir a posse de bola em sete segundos ou menos, antes que a defesa adversária conseguisse se armar direito. Uma das coisas legais desse time era justamente usar o Stoudemire, um jogador relativamente baixo, como pivô, deixando o time mais veloz. No ano seguinte, com Amar'e machucado, o time foi além e usou Boris Diaw, que tinha sido contratado para ajudar o Nash na armação (absurdos de apenas 4 anos atrás!), como pivô! Era um time baixo, sem um cara de físico imponente e mesmo assim o melhor ataque da NBA.

Depois disso eles conseguiram surpreender ao encaixar com relativo sucesso caras que ninguém nunca apostaria que funcionariam em um sistema rápido, como Grant Hill e Shaquille O'Neal. Transformaram jogadores aleatórios em grandes arremessadores, como Jared Dudley e Channing Frye.

O Suns tem feito isso ano a ano. Sempre aparece uma dificuldade nova e eles vão arranjando as peças de reposição e organizando de maneira criativa, mantendo sempre o time rápido e ofensivo. Em alguns anos mais ofensivo e rápido que outros, mas existe uma base, um padrão. E o legal é que isso tem acontecido desde a chegada do Steve Nash e só ele sobrou daquela época! Já saíram todos os jogadores com exceção do canadense, mudaram de técnico umas três vezes e de General Manager duas. Dá até pra considerar que é o time, e não um ou outro lá dentro, que tem essa identidade. Sem as mesmas proporções, porque no exemplo que vou dar essas coisas estão acontecendo há muito mais tempo, mas me lembra um pouco o Barcelona no futebol. Mudam gerações, times inteiros, técnicos, dirigentes, mas existe uma filosofia básica que quem é contratado deve ter condição de seguir.

A base do Phoenix Suns eu definiria como velocidade, esquema de jogo ofensivo e mismatches.
Como disse antes, uns podem ser mais rápidos que outros, o esquema de jogo pode variar de acordo com as peças, mas todos são focados em fazer muitos pontos antes de pensar em defesa e sempre em velocidade. A exceção pode ter sido aquele time de 2007-08 que tentou virar o Spurs e ser certinho e só deu merda. E todos, com exceção desse mesmo time de metade da temporada 07-08, apelava para os mismatches.

Um mismatch é quando o time usa um jogador com alguma característica física ou técnica diferente do padrão para incomodar um adversário acostumado com o habitual. É colocar um armador alto para abusar dos baixinhos, um ala de força ágil para ganhar da maioria pesadona na velocidade, essas coisas. O Suns já usou Tim Thomas e Channing Frye para fazer pivôs pesadões saírem do garrafão para marcar bolas de três, fez armadores principais serem marcados por caras altos como Grant Hill, Shawn Marion ou Jared Dudley, colocou o ala Boris Diaw como um pivô passador, o mesmo Marion como um ala de força que puxava contra-ataque. E se puxar da memória dá pra achar outras bizarrices do tipo que sempre fazem o jogo contra o Suns ser diferente do normal para os adversários.

Nada mais justo, portanto, do que repôr a peça perdida em Amar'e Stoudemire com um improviso, um mismatch. Foi aí que o Suns enviou o brazuca Leandrinho para o Toronto Raptors em troca de Hedo Turkoglu.

Segundo diversos relatos de gente próxima ao Suns, a idéia é ter o Turkoglu para ele jogar na posição número 4, como um ala de força, por mais bisonho que isso possa parecer. Eles querem usar o time com Steve Nash, Jason Richardson, Grant Hill, Turkoglu e Robin Lopez para depois colocar aquele grupo de reservas que apavorou o Lakers nos playoffs da última temporada.

Turkoglu seria útil, nesse esquema, para enlouquecer os alas de força adversários, que acostumados a marcar gente com o estilo de Tim Duncan, Kevin Garnett e Zach Randolph, que são lentos e jogam perto da cesta, teriam que marcar um cara rápido, que sabe controlar a bola, driblar, passar e arremessar de três. É a velha idéia de colocar um time baixo para obrigar o outro a jogar baixo também, com a diferença que eles não estão acostumados a isso.

Outra idéia dita por lá é que com o Turkoglu em quadra, o Nash irá se desgastar menos. Durante alguns momentos do jogo, em especial quando estiverem fazendo ataques de meia quadra ao invés de transição, o Turkoglu será o armador enquanto o Nash irá se posicionar para fazer outra coisa que sabe muito bem: arremessar. Mas que fique claro, ninguém confirmou que isso vai acontecer, a idéia pode ser jogada no lixo depois de um mês se der errado.

Mas se eu tiver que apostar, acho que vai dar muito certo. Provavelmente não tão certo quanto manter o Amar'e Stoudemire e ter um cara que faça pontos no garrafão (isso vai fazer falta, pode ter certeza), não tão certo a ponto de brigar pelo título, mas o suficiente para fazer com que, de novo, a gente sinta aquela vontade de ver jogos do Suns ao invés dos outros times. Vai ser outro Phoenix Suns estranho, improvisado, criativo e inovador.

E uma coisa legal é que o Suns não perdeu quase nada para conseguir essa revolução tática que pode manter o time na elite do Oeste mesmo depois de perder sua estrela. O Leandrinho é bom, não me entendam mal, mas ele simplesmente não era mais necessário por lá. Até por isso a troca foi boa pra ele também! Com o crescimento alucinante do Goran Dragic, ficou desnecessário usar o Leandrinho como reserva do Nash. E com o Jason Richardson acertando tantos arremessos quanto o Barbosa, e o Dudley marcando bem melhor do que ele, sobravam apenas alguns minutos por jogo para o brasileiro. Mesmo quando ele jogava bem, era por poucos minutos. Ele foi um daqueles casos de bom funcionário que perdeu o emprego depois que ninguém sentiu falta dele nas férias.

No Toronto, Leandrinho provavelmente não vai ser titular, de novo não por falta de talento, mas porque o Raptors, sem esperança de ir longe, vai querer dar o máximo de tempo de jogo possível para a prata da casa e esperança do futuro, DeMar DeRozan. Mesmo assim ele terá mais espaço e menos concorrência lá do que em Phoenix. E tempo regular de quadra é só do que ele precisa para voltar a chamar a atenção da NBA. Ao voltar a fazer o que fazia antes, provavelmente vai conseguir um bom contrato quando virar Free Agent. Já estamos cansados de falar que o Leandrinho tem uma renca de defeitos no seu jogo, principalmente a defesa, mas ele pode muito mais do que fez na temporada passada. Um bom mundial pela seleção brasileira e um recomeço no Raptors pode ser o que ele precisava para voltar aos bons tempos. Mas vamos esperar que ele não fique muito bravo em perder, no Suns estava acostumado a ganhar e nesse ano o Raptors tem tudo pra ser saco de pancadas.

A última contratação do Suns para a temporada foi o Josh Childress, dono de um dos penteados mais legais da última década na NBA e que passou as últimas duas temporadas jogando na Grécia. Vi pouco o Childress jogar nos últimos anos se comparado ao que vi de jogadores da NBA, mas pelo que deu pra acompanhar ele só melhorou nos dois anos jogando na Europa. Childress é o exemplo perfeito para a definição "all-around player". Faz um pouco de tudo e faz tudo bem, deve ser um coringa nesse time do Suns. Pode ser o segundo armador titular se o time precisar de mais defesa, pode ser o ala titular se eles preferirem deixar o Grant Hill como organizador do time reserva ou pode mesmo ser reserva, fazendo o papel de segundo responsável pela armação que o Turkoglu fará no time titular. Foi uma ótima contratação, jogadores completos e inteligentes como o Childress são essenciais em equipes que gostam de inovar em esquemas táticos.

A nota triste da offseason do Suns é que eles decidiram não renovar o contrato do Louis Amundson! Ter Nash, Amundson, Robin Lopez e Childress no mesmo time deixaria o Suns como o time com maior força capilar (parente não muito distante da Força Nominal) desde a seleção da Romênia da Copa de 98, quando todo mundo descoloriu o cabelo ao passar da primeira fase.























Minha aposta para o começo de temporada do Suns é a seguinte rotação:

PG: Steve Nash / Goran Dragic
SG: Jason Richardson / Josh Childress
SF: Grant Hill / Jared Dudley
PF: Hedo Turkoglu / Hakim Warrick
C: Robin Lopez / Channing Frye

Mas atenção para possíveis entradas de Warrick ou Frye caso a experiência usando o Turkoglu como point-forward não dê certo e também com a ameaça do Josh Childress sobre Jason Richardson e Grant Hill, nenhum dos dois são intocáveis no time titular.

Não gosto de dar nota para a offseason dos times como muitos sites americanos fazem, não acho justo. O Suns, por exemplo, já recebeu muitas notas baixas por ter perdido o Amar'e, mas eles ofereceram um contrato enorme pra ele, que simplesmente achou que era a hora de sair e tentar vida nova em Nova York, não dá pra culpar o time por uma atitude que foi totalmente do jogador. Então acho que apesar do time ter tudo para ser pior do que o do ano passado, principalmente por não ter força no garrafão, a offseason foi boa. Dentro das limitações salariais e frente à perda de um Free Agent, se viraram muito bem. Perderam apenas uma escolha de 2ª rodada e Leandrinho para ter os multi-uso Turkoglu e Childress, ótimos negócios.

Como primeiro passo foi muito bom e criativo, mas julgaremos de novo daqui uns meses quando as peças começarem a ser treinadas para formar um time.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Montanha Russa (Canadense)

Vestido para dar o fora desse time bizarro, Bosh?


O Raptors é um dos times mais esquisitos da temporada. No ano passado eles foram uma espécie de Nets, tinham um elenco decente (ainda mais para o Leste) e federam bem fedido. Para essa temporada abriram a carteira e levaram o Hedo Turkoglu pra lá, era o parceiro de perímetro que o Chris Bosh precisava.

Começou a temporada e o Raptors não. As primeiras semanas do time canadense foram desastrosas! Pra começar temos o próprio Turkoglu, que teve alguns jogos em que mal arremessou a bola e não chegava nos 10 pontos, ficou durante muito tempo aquela dúvida entre se ele estava com dificuldade de se adaptar ao novo esquema tático ou se era mais um caso de Erick Dampiers e Bobby Simmons que desistem de jogar basquete depois de assinar um contrato grande e gordo.

Se fosse só isso tava bom, mas ele não era o único a começar mal. Ao contrário de aberrações como Brandon Jennings e Tyreke Evans, o novato do DeMar DeRozan demorou um bom tempo para começar a se acertar na liga. Ainda hoje ele tem dificuldades de se destacar, mas pelo menos ele participa mais das jogadas, acerta arremessos de meia distância, no começo ele só fazia pontos em enterradas de contra-ataque, nada mais.

Agora imagina o que era um trio com Hedo Turkoglu, DeMar DeRozan e Jose Calderon! O armador espanhol se destaca pelos passes, pelo controle de jogo, pelos poucos erros, nunca pelo número de pontos que marca. Se ele não faz ponto, o Turkoglu também não e nem o DeRozan, dá pra imaginar a carga que ficou nas costas do Chris Bosh e da garotinha Andrea B. O Bosh lidou bem com isso, claro, ele é monstruoso. Mas ficou na sua vidinha de Marbury, fazendo 25, 30 pontos e vendo seu time perder. A Andrea não dominou jogos como o Bosh, mas foi uma das poucas gratas surpresas do time no começo da temporada, melhorando nos rebotes e sendo uma ameaça constante nas bolas de 3.

Uma contusão do Jose Calderon forçou o técnico Jay Triano a trocar de armador, no lugar dele colocou o Jarret Jack. Foi quando o time começou a se acertar no ataque, o estilo mais agressivo e pontuador do Jack funcionou melhor para um time que precisava de pontos vindo de seus jogadores mais baixos e a equipe ameaçou uma reação. Só ameaçou, porque não dá pra fazer muita coisa tendo a pior defesa de toda a NBA. Sério, a menina desse vídeo faria cestas no Raptors de olhos vendados. Era impressionante como eles não tinham resistência nenhuma a infiltrações (nem Bosh e nem Bargnani são grandes bloqueadores) e qualquer armador mais rapidinho já costurava o time inteiro.

Mas defesa é algo que pode ser treinado. Mesmo sem grandes especialistas em defesa um time esforçado, dedicado e principalmente entrosado pode sair do status de medíocre para regular, e foi o que o Raptors fez para começar a crescer na temporada. Junto disso o Turkoglu começou a jogar bem melhor, foi quando ele deu a fatídica entrevista em que respondeu "Bola".

Para quem não lembra, vou colar aqui o escrevi no dia que postei da primeira vez esse episódio:

"-Depois de três meses de temporada o Turkoglu finalmente jogou uma partida boa. Tá bom que foi contra o Knicks e não contra o Cavs ou o Celtics, mas é um começo. Marcou 26 pontos, seu máximo na temporada, e foi entrevistado ao fim do jogo.

Repórter: Você ditou o ritmo do jogo desde o começo nessa noite, o que aconteceu de diferente?
Turkoglu: Bola."


Meus anos de estudo e de dedicação à interpretação de textos, aliados ao conhecimento do estilo de jogo do Turkoglu me fizeram interpretar essa aberração de entrevista da seguinte maneira: Ele quer a bola na sua mão, não quer ficar assistindo o Jack e o Calderon armarem enquanto ele fica quieto esperando um arremesso, ele precisa ter a bola com ele para criar seu próprio arremesso e armar jogadas para outros jogadores. Algo como ele fazia no Magic na temporada passada, em especial nos quartos períodos.

A gente nunca vai ter certeza disso porque ele só disse "bola", mas beleza, vamos com a minha interpretação porque ela até faz bastante sentido. Tanto que durante algum tempo o Raptors jogou assim, com mais atenção para o Turko e foi quando eles tiveram mais sucesso. Emendaram uma sequência de vitórias, ganharam do Lakers e de outros times grandes e alcançaram o quinto lugar do Leste. Durante algumas boas semanas eu tinha certeza que com esse elenco e com a melhora deles durante o ano era certeza que ficariam em quinto até o fim da temporada regular, podendo até engrossar contra o Hawks ou o Celtics na primeira rodada dos playoffs.

Então, do nada, a defesa entrou em colapso de novo. No começo de março eles tiveram uma sequência de 7 jogos em que perderam 6, veja o número de pontos sofridos nas derrotas: 114, 109, 113, 124, 109 e 115. A única e solitária vitória veio quando conseguiram tomar "apenas" 105 do Atlanta Hawks. O Raptors tem hoje, oficialmente e numericamente, a pior defesa da NBA mais uma vez. São 112 pontos sofridos a cada 100 posses de bola! Nets, Wizards, Warriors, Clippers, Wolves, todo mundo consegue ser melhor que o Raptors, é assustador!

O recorde do time por mês mostra como foi essa temporada montanha russa:

Novembro: (6 vitórias, 10 derrotas)
Dezembro: (9 vitórias, 6 derrotas)
Janeiro: (10 vitórias, 5 derrotas)
Fevereiro: (5 vitórias, 5 derrotas)
Março: (5 vitórias, 10 derrotas)

Como se não bastasse a queda do time desde novembro agora eles lidam com problemas disciplinares. O Turkoglu pediu para não jogar uma partida porque estava com dores fortes no estômago e foi poupado, o time perdeu e horas depois da partida ele estava numa balada de Toronto jogando seu xaveco ("Bola") para todas as canadenses firmeza de Toronto.

Os próprios torcedores do time dedaram o Turko para os dirigentes do Raptors, que puniram o jogador deixando-o no banco de reservas no jogo seguinte. Quando questionado sobre a situação o Turko foi bem humorado mas pareceu também de saco cheio:

"Tá tudo bem. Eu tenho lidado com isso o ano todo. Eles tem ficado em cima de mim sobre esse negócio de sair à noite desde que eu cheguei aqui. Mesmo se eu não estivesse doente eles falariam alguma coisa do mesmo jeito. Eu que não vou falar nada, temos 10 jogos até o fim da temporada e vou tentar terminar jogando bem".

Ele falou bem mais que "Bola" dessa vez, mas já que eu sou o intérprete oficial do Turkoglu no Brasil, vou dizer o que eu li disso tudo:

"Tá tudo bem, eu não me importo com o que esse bando de guarda florestal fala de mim. Eu saio quando eu quero e jogo quando eu quero, a temporada regular tá acabando e no fim das contas só vão lembrar do que eu fiz nos playoffs. Bola".

O problema no que esse Turkoglu estilizado que eu criei falou é que eles estão correndo sérios riscos de não irem para os playoffs. Depois de chegar ao quinto lugar e parecer um time bom, estão em oitavo e apenas uma vitória na frente do Chicago Bulls. Sim, o Bulls!!! O time do Derrick Rose trocou um monte de cara bom, perdeu jogadores machucados, chegou a perder 10 jogos seguidos e mesmo assim está na boca dos playoffs. Isso é o Leste, senhoras e senhores. No Oeste bastou uma sequência de 6 derrotas seguidas do Houston e do Grizzlies para que os dois dessem adeus a qualquer chance de classificação, são conferências muito desiguais.

Eu ainda aposto no Raptors para essa última vaga porque o Bulls está muito mal e porque o Raptors tem a vantagem no confronto direto e se classifica em caso de empate, mas se classificar será apenas algo simbólico, um jeito menos humilhante de acabar essa temporada. Na prática qualquer um dos times que passar para a pós-temporada tem tudo pra ser varrido sem dó nem piedade pelo Cavs. Um final melancólico para um ano cheio de expectativas altas e que, embora estejamos longe de qualquer definição, pode ser o último de Bosh por lá.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Filtro Bola Presa - Um resumo semanal

Certas coisas deveriam parar no nosso filtro, mas passam...

Nasce aqui um novo espaço no Bola Presa, o Filtro Bola Presa. Não sei se ele vai ser duradouro ou não porque só com o tempo vou descobrir se ele é divertido de fazer e se vocês vão se divertir lendo, então não prometo nada, é uma experiência. Não venham me cobrar depois!

A idéia é um post semanal (a cada domingo ou segunda-feira, depende do meu tempo) para abordar alguns assuntos da semana que passou e que passaram em branco nos nossos posts enormes, ou seja, o que ficou preso no nosso filtro e agora jogamos no ralo.

Muita coisa acontece na NBA e nem tudo é importante o bastante para render um post inteiro aqui no blog. Aí acabamos comentando só no Twitter ou no tumblr e muita gente que não está por lá acha que a gente ignorou o assunto por completo. Aqui fazemos um apanhado de tudo e comentamos, combinado? Fechado? Estando bom para ambas as partes...
...

- O Hornets teve um mês de janeiro inesquecível. Venceu 11 partidas, 8 delas fora de casa, finalmente alcançou o oitavo lugar no Oeste, venceu o Grizzlies, em Memphis, sem Chris Paul e James Posey depois de estar perdendo por 21 pontos e... o Chris Paul precisa operar o joelho e ficará fora por um mês ou dois. C-c-c-c-combo breaker.

- No último sábado o Milwaukee Bucks enfrentou e venceu o Miami Heat. O Bucks é um time de ataque muito limitado mas que se garante no 9º lugar do Leste porque tem uma defesa bastante forte, resultado de ser treinado pelo chato do Scott Skiles. A defesa do time parou o Heat e até o Dwyane Wade, marcado pelo Charlie Bell.

Depois do jogo, o Brandon Jennings, celebrando a vitória, disse a pérola "Achamos nosso D-Wade Stopper, o Charlie Bell". "Stopper" poderia ser traduzido bem ao pé da letra como "parador", mas como essa palavra não existe, ficamos no "stopper" mesmo. Agora alguém imagina a fúria com que o Wade vai pra cima do Bell na próxima vez que eles se enfrentarem? Pobre do Bell! E o pior é que nem foi ele quem provocou. Da última vez que eu vi o Wade ser provocado foi quando ficou com a boca sangrando contra o Knicks, a resposta foram 46 pontos, 24 no último período.



- Depois de três meses de temporada o Turkoglu finalmente jogou uma partida boa. Tá bom que foi contra o Knicks e não contra o Cavs ou o Celtics, mas é um começo. Marcou 26 pontos, seu máximo na temporada, e foi entrevistado ao fim do jogo.

Repórter: Você ditou o ritmo do jogo desde o começo nessa noite, o que aconteceu de diferente?
Turkoglu: Bola.



É isso, essa foi a resposta. E foi seguida pelos 5 segundos mais constrangedores desde que o Dicésar falou no BBB que adora pegar nas bolas. Por que momentos constrangedores sempre tem que ter a ver com bolas? Mas se você pensar bem, o Turko disse tudo, o que importa na vida? Bola. Qual é a resposta pra tudo, é 42? Não, é bola. Bola. Pense nisso. Pense nas bolas.

- Alguém ainda vai continuar sendo chato ao dizer que o LeBron James não tem arremesso de longa distância? O único arremesso que eu não vejo o LeBron acertar com regularidade é aquele depois de um giro, quando ele começa a jogada de costas pra cesta, de resto ele acerta absolutamente tudo. Ontem foram 5 bolas de três em posses de bolas consecutivas contra o Clippers, algumas de uma distância pra dar inveja ao NBA Jam.



- O Clippers, sempre ele, conseguiu feitos impressionantes na última semana. Além do recorde de 11 bolas de 3 sofridas para o Cavs em apenas um período, e da cesta contra do Rasual Butler que aparece no vídeo acima, conseguiu perder do Nets e do Wolves na mesma semana. Bola, Clippers, bola.

- O Bulls sempre tem uma viagem nessa época do ano, quando um circo se apresenta em seu ginásio em Chicago, é o Circus Road Trip. Alguns times tem equivalentes, como o Spurs que viaja na época dos rodeios em San Antonio e o Lakers que viaja para o STAPLES Center poder abrigar o Grammy (Taylor Swift?)

Essa viagem costuma ser desastrosa para o Bulls, mas nesse ano foi estranha e espetacular. Começou com duas derrotas embaraçosas para Clippers e Warriors, mas depois o time venceu Suns, Spurs, Thunder, Rockets e Hornets. Foi a primeira vez em todos os tempos que um time venceu 5 jogos seguidos fora de casa contra times que tem mais vitórias do que derrotas.



- O Glen Davis ganhou status de grande jogador ao substituir com enorme qualidade o KG nos playoffs do ano passado. De lá pra cá, no entanto, só desgraça. Se machucou numa briga com um amigo, perdeu um tempão na temporada e quando voltou foi multado porque discutiu com um torcedor de Detroit (sempre em Detroit!) que o chamou de "moleque gordo" (não dá pra culpar o torcedor).

Em resposta a essas atitudes a direção do Celtics pediu que ele melhorasse sua atitude. Glen Davis assumiu os erros e disse que para começar iria abandonar o apelido "Big Baby" que ele tem desde os tempos de faculdade. Agora ele quer ser chamado de "Uno Uno", uma referência ao seu número de camiseta (11) e ao Ocho Cinco, jogador da NFL. Aqui no Bola Presa ele sempre será o Ursinho Carinhoso, mas o Turkoglu tenho certeza que o chamaria de "Bola".

8 ou 80 - O cantinho das estatísticas
As estatísticas daqui são coletadas em muitos lugares. Vários blogs e sites diferentes e algumas até buscadas por mim mesmo, mas a maioria é descoberta pelo Elias Sports Bureau. 


- E não é que o Leste melhorou? O Heat passou a temporada inteira em quinto lugar na conferência porque tinha o aproveitamento sempre um pouco maior do que 50%. Hoje o Heat continua com o mesmo aproveitamento (24 vitórias, 23 derrotas) mas caiu para oitavo! Resultado da incrível ascenção de Raptors, Bulls e Bobcats. Primeira vez em pelo menos dois anos que todos os 8 classificados para os playoffs no Leste têm mais vitórias do que derrotas.

- O Bobcats, inclusive, foi um dos destaques da última semana. Na segunda-feira passada era o quarto melhor time da NBA em casa e o quarto pior fora de casa, com apenas 3 derrotas fora de Charlotte. Em uma semana, no entanto, venceu Suns, Warriors e Kings e dobrou o número de vitórias longe de seus domínios.

- A derrota do Kings para o Bobcats foi só mais uma para a coleção do time. Depois de começar a temporada com 13 vitórias e 14 derrotas nos primeiros 27 jogos, o time caiu muito de produção e venceu apenas 3 das últimas 19 partidas.

- O que esperar do Hawks? Na mesma semana em que varreram o Celtics na temporada, com 4 vitórias em 4 jogos, eles perderam para o Orlando Magic e assim perderam pela terceira vez para o Dwight Howard em três jogos nesse ano. A soma das diferenças de pontos nas derrotas dá vergonhosos 67 pontos.

- Hasheem Thabeet, o pivô novato do Grizzlies que foi a segunda escolha do draft do ano passado, não é ruim como alguns acham. Ele foi escolhido antes de muita gente boa e não está pronto na NBA, mas a promessa de que ele será um bom defensor parece que eventualmente será cumprida. Ele tem média de 1,2 toco por jogo em 11 minutos de partida, isso dá 5,2 tocos a cada 48 minutos, mais do que qualquer outro jogador na NBA.

- Vamos fazer um jogo: alguém diz pra você que um armador titular da NBA marcou 52 pontos em um jogo e pede pra você adivinhar quem foi, quem você arriscaria? Chris Paul? Baron Davis? Deron Williams? Bom, faça você mesmo a sua lista. Na minha o Andre Miller só ficou na frente de Derek Fisher, Jason Kidd, Rafer Alson e Earl Watson, mas não é que ele saiu de um jogo contra o Rockets em que fez 2 pontos para fazer 52 contra o Mavs? Seu antigo recorde na carreira era de 37 pontos.

No vídeo abaixo todos os pontos. Interessante que ele fez isso acertando apenas uma bola de três e 7 lances livres, o resto foi só na manha, na habilidade, nos arremessos curtos e até em um gancho. É o cara mais old school de toda a NBA, de longe!

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Em busca de uma explicação (e de um culpado!)

Vince Carter tem sua bunda fotografada


A noite de segunda-feira teve um jogo que tinha tudo pra ter um clima de playoff, uma tensão no ar e os times com os ânimos à flor da pele. Mas acabou sendo mais um jogo comum da temporada regular. Foi a primeira partida entre Lakers e Magic desde a final do ano passado e por motivos difíceis de explicar, o jogo não era assim tão esperado. A NBA escolheu por dar à rodada de Natal Lakers-Cavs, que a torcida e a mídia abraçaram como um jogo imperdível, e eu, nesse post, sugeri que na verdade o grande jogo da NBA para o Natal ainda deveria ter sido Lakers e Celtics. E ninguém questionou dizendo que deveria ser uma revanche da final do ano passado.

Um dos motivos para essa aparente falta de respeito contra o Magic pode ser explicado pelo placar amplo da final do ano passado, 4 a 1, embora não dê pra esquecer que os jogos foram difíceis e que dois deles foram para a prorrogação. Talvez tenha faltado uma rivalidade maior, brigas, declarações polêmicas, sei lá. Outro motivo que justificaria um pouco esse descaso seria o time titular do Magic. 3 dos 5 que começaram aqueles jogos foram embora: Turkoglu, Rafer Alston e Courtney Lee.

Esses argumentos parecem válidos e certamente o são, mas tem uma outra coisa que eu acho que estragou tudo: timing. Se essa partida tivesse acontecido no meio de dezembro ela seria entre o líder do Oeste e o líder do Leste, os dois em grande fase. O jogo de ontem foi entre o líder do Oeste que perde terreno a cada semana e tem o Kobe muito baleado por dores nas costas, e o quarto colocado do Leste que perdeu mais do que ganhou nos últimos 20 jogos.

Se o problema do Lakers é bem claro, a saúde do seu principal jogador (que claramente precisa de pelo menos uma semana de descanso antes que desmonte como um lego mal montado), o problema do Magic é muito difícil de entender.

O jogo contra o Lakers foi o exato meio de temporada para o Magic, a partida de número 41. E essa metade pode ser cortada em mais dois pedaços pra mostrar como esse time não faz um puto de um sentido. Nos primeiros 21 jogos o Magic venceu 17 partidas e perdeu 4. Nas últimas 20 partidas ganhou 9 e perdeu 11.

A primeira reação a esses números é um sonoro "Que porra é essa, viado?". Se o time mudou muitas peças, perdeu três titulares dos playoffs do ano passado e precisa pegar todo o entrosamento de novo não deveria ser o contrário, começar mal e melhorar depois? E faz menos sentido ainda quando se pensa que o time ainda estava sem Rashard Lewis e Jameer Nelson no começo da temporada.

Um dos motivos destacados durante o começo da temporada para o sucesso do Orlando Magic era o seu elenco profundo e talentoso. Se Rashard Lewis não poderia jogar como ala de força titular o técnico Stan Van Gundy tinha a opção de um garrafão pesado usando o Brandon Bass ou manter o mesmo esquema com o Ryan Anderson. Para a contusão do Nelson tinha o Jason Williams jogando muito. Isso sem contar as combinações nas posições 2 e 3 com Vince Carter, Matt Barnes, Mickael Pietrus e JJ Redick, todos com condição de ser titular, oferecendo talentos diferentes.

O número e a qualidade do elenco do Magic, portanto, está longe de ser uma desculpa, talento é o que não falta por lá. Inclusive eu cheguei a apostar no começo da temporada que o Magic tinha tudo para ter um dos três melhores ataques, tamanho o domínio do time nas primeiras rodadas, com o Jameer Nelson e o Vince Carter machucando as defesas com as infiltrações, o domínio dos rebotes ofensivos do Dwight Howard e o bombardeio constante e eficiente nas bolas de 3. Eles pareciam imparáveis.

Durante um tempo eu cheguei perto de acertar minha previsão, mas com esses últimos 20 jogos a coisa mudou. Hoje o Magic é apenas o 11º colocado no ranking de pontos por jogo e o 9º no ranking que conta o número de pontos marcados a cada 100 posses de bola. Os próprios números também descartam a defesa como motivo da queda de rendimento, o Magic é o 8º melhor em pontos sofridos por jogo e o 6º em pontos sofridos a cada 100 posses de bola.

Uma derrota para o Lakers em Los Angeles não é motivo para eu vir aqui escrever um post falando que o Magic está fedendo, mas nos últimos 9 jogos eles conseguiram perder para Bulls, Pacers, Raptors e Wizards, todos times com recorde bem inferior ao deles. E quando pegaram times mais fortes, o Nuggets e o Blazers, não só perderam como tomaram surras que me lembraram a saudosa Dóris em "Mulheres Apaixonadas". A derrota para o Lakers, inclusive, foi até motivo de alguma comemoração por ter representado a melhor partida do time desde a última vitória sobre o Atlanta Hawks, equipe que hoje está na frente do Magic na classificação do Leste.

A gente comentou por aqui como o Dwight Howard estava jogando muito mal e muito abaixo do que se espera dele, e esse poderia ser um motivo para que o Magic estivesse mal das pernas, afinal é o melhor jogador do time. Eis então que na partida contra o Lakers o Superman resolve ligar para o Danilo, dizer "eu li teu post, moleque!" e começar a jogar como o Tim Duncan. Gancho pra cá, giro pra lá, vários arremessos usando a tabela e impressionantes 18 pontos no primeiro tempo contra o melhor garrafão da NBA. O Magic, no entanto, estava perdendo.

No segundo tempo o Magic começou a ter a síndrome do armador bom. É uma síndrome que ataca todo mundo que já jogou basquete em qualquer pracinha do mundo e funciona da seguinte maneira: se um armador ou qualquer outro jogador de perímetro está jogando bem e com confiança, ele não passa a bola para o pivô. Simples assim, não importa o quanto aquele grandalhão bobo fique balançando os braços. Foi o que aconteceu quando Jameer Nelson, Mickael Pietrus, Matt Barnes e principalmente o Rashard Lewis começaram a mandar bala no segundo tempo do jogo. E foi quando eles jogaram bem e o Dwight Howard nem enconstou na bola (foi dar seu primeiro arremesso no segundo tempo só no meio do quarto período) que o Magic cortou a diferença do Lakers e abriu mais de 10 de vantagem.

Até comentaram aqui no blog que não adiantava o Dwight Howard jogar melhor porque o time não jogava bem com ele como foco no ataque e a prova tinha sido o jogo contra o Lakers. Mas se você viu o jogo, deve ter percebido que enquanto o Dwight tomava conta do ataque, a defesa sofria com o Lakers acertando mais de 60% dos seus arremessos, enquanto no segundo tempo, quando o Magic abriu, o Lakers não conseguia fazer ponto nem arremessando papel amassado no lixo.

O Magic ideal é um mix disso tudo. O Magic pareceu melhor com o time correndo e todos os jogadores de perímetro envolvidos, mas só deu certo porque eles estavam jogando em contra-ataque, pegando a defesa do Lakers ainda na volta para a defesa. Quando a defesa do Magic funciona bem é que o time tem que partir rápido para o ataque e usar a velocidade de todos os seus jogadores, nenhum ala de força na NBA acompanha o Rashard Lewis na corrida. Dá para o Jameer Nelson ou o Vince Carter puxarem o contra-ataque e eles mesmos podem desmontar a defesa com uma infiltração e provavelmente outros três caras vão acompanhar e parar em diferentes lugares da quadra para se posicionar para o arremesso, é muito difícil marcar um time que sabe fazer um jogo de transição assim.

O Dwight Howard entraria para o jogo como o cara que pega o rebote para essa transição e principalmente para quando ela não desse certo. Ele tem que ser o foco ofensivo da equipe quando eles forem obrigados a jogar um basquete de meia quadra e quando isso acontecer ele deve ser o jogador que foi contra o Lakers, com recursos ofensivos e com arremesso de meia distância. Não vai ser sempre que vai dar certo, ele não desenvolveu esse jogo como deveria nos últimos anos, mas cedo ou tarde vai ter que começar.

Tudo isso parece bem óbvio e é mesmo, mas não é o que estamos vendo no Magic. A transição e o jogo de meia quadra como eu descrevi dependem de uma coisa básica para todo o time, a movimentação de jogadores e de bola. O Rashard Lewis só é um matchup ruim para um outro ala de força mais alto e mais pesado quando ele se movimenta bem pelo perímetro, o Jameer Nelson é um armador que mereceu ser chamado para o All-Star Game do ano passado quando usa e abusa dos bloqueios para achar arremessadores e seu próprio arremesso. O que a gente tem assistido é o Rashard Lewis parado em um canto para arremessar enquanto Jameer Nelson e Vince Carter passam 20 segundos driblando a bola e aí forçam um arremesso.

Parte da culpa é dos dois jogadores, principalmente do Carter. Ele está jogando tão mal, mas tão mal, que eu o colocaria como a maior decepção individual de toda a temporada, inclusive à frente do Turkoglu, que tem sido pior e menos útil do que o Jarret Jack no Toronto Raptors. O Carter está com uma patética média de 16 pontos por jogo, 38% de aproveitamento nos arremessos de quadra e só 30% nos três pontos. Isso sem contar os inúmeros jogos em que arremessou 15 bolas e acertou duas. A grande desvantagem de ter o Carter ao invés do Turkoglu na equipe é que o Magic perdia em movimentação de bola e passe, já que o Turko era um armador em corpo de ala, mas pelo menos ganhavam alguém que poderia marcar pontos criando o próprio arremesso quando o ataque estivesse estagnado. Alguém pra isolar e ganhar uns pontos só no talento.

Pois o Carter realmente não tem um terço da visão de jogo do Turkoglu, a bola não se mexe, o resto do time fica parado vendo o Carter jogar (isso não é culpa dele, no entanto) e ele não consegue marcar os seus pontos. Ele trouxe todos os pontos negativos que a gente esperava e não trouxe os positivos.

Sabe a última grande vitória do Magic que eu citei, a contra o Hawks? Ela foi seguida de uma vitória sobre o Kings e os dois jogos tinham uma coisa em comum entre eles e de diferente em relação à derrota anterior para o patético Washington Bullets: Vince Carter não estava jogando. Pois é, com o branquelo do JJ Redick no time titular e com ele dividindo os minutos com Pietrus e Barnes, o time foi infinitamente melhor do que com Vince Carter. Tá bom que não deu muito certo contra o Nuggets, mas é que o Redick oferece a movimentação e a filosofia que o Magic precisa para jogar, mas em compensação não é bom o bastante para se garantir como titular e fazer o time vencer o Nuggets em Denver.

Sem o Carter o time não tem pra quem entregar a bola e ficar esperando alguma coisa acontecer. O Jameer Nelson até é mais do tipo fominha mas não chega aos pés do Carter, e com a bola na sua mão o time se mexe mais e ele responde com mais passes.

O Vince Carter como o principal motivo do Magic estar jogando mal acaba respondendo uma crítica que eu tinha feito a ele no começo na temporada. Eu tinha falado que esperava que ele fosse mais do que só um arremessador e finalizador de contra-ataques como vinha sendo nos primeiros jogos e que se tornasse um líder, alguém que chamasse o jogo como fazia o Turkoglu, principalmente nos minutos finais do jogo. Errei feio. Carter não é Turkoglu e o time funcionava bem melhor quando o VC se limitava a ser um marcador de pontos, um cara que se posiciona para finalizar jogadas e só. Parece ridículo contratar um cara desse nome e desse porte só para isso mas era assim que o Magic jogava quando vencia.

Não custa lembrar esse post que eu escrevi depois de um mês de temporada, lá já me mostrei preocupado com a quantidade de tempo que o Vince Carter passava com a bola na mão. Naquele texto, porém, falei como é bom para eles ter um cara talentoso para arremessar umas bolas importantes no fim dos jogos, só falta achar equilíbrio.

Se eles voltarem a tirar a bola da mão do Carter e descobrirem quando usar o perímetro e quando apelar para o pivô que eles tem lá no meio, o Magic estará de volta à briga do título do Leste. Do jeito que eles estão jogando hoje eles não passam da segunda rodada dos playoffs nem com reza brava. E que atirem as pedras no Carter, mas não no ombro porque ele já está machucado.