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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Preview 2010-11 / Los Angeles Lakers


Adeus número 37. Artest agora usará o número 15, o primeiro que usou na NBA



Objetivo máximo: Terceiro título seguido
Não seria estranho: Perder na final do Oeste
Desastre: Cair antes da final de conferência

Forças: Time experiente, talentos em todas as posições, um dos melhores técnicos da história e Kobe Bryant
Fraquezas: Às vezes é um time relaxado e dependendo da formação que usa tem dificuldades nas bolas de três.

Elenco:

Los Angeles Lakers
Titulares
Reservas
Resto
PG
Derek Fisher
Steve Blake
Shannon Brown
SG
Kobe Bryant
Sasha Vujacic
Devin Ebanks*
SF
Ron Artest
Matt Barnes
Luke Walton
PF
Pau Gasol
Lamar Odom
Derrick Caracter*
C
Andrew Bynum
Theo Ratliff

...
Técnico: Phil Jackson

Quando o cara tem mais anéis de campeão do que dedos na mão (e não é o Lula), o negócio é sério, ele é bom mesmo. Os malas sempre vão falar que ele teve sorte por sempre ter à mão elencos ótimos, sendo campeão com Jordan, Pippen, Shaq, Kobe e Gasol. Bom, Jordan não foi campeão nos anos que passou sem Phil Jackson no Bulls. Shaq ganhou 3 títulos em 5 anos com Jackson e só um nos outros 13 anos de carreira, e a única vez que Kobe não foi para os playoffs foi no ano que o técnico tirou de férias. Phil Jackson é como o arremesso feio do Leandrinho, você acha que é sorte na primeira vez que acerta, na segunda também, mas na décima primeira você se convence que ele sabe o que está fazendo.

Phil Jackson, junto com Greg Popovich, são os treinadores que melhor sabem combinar tudo o que um treinador precisa ter para ser bem-sucedido. Ambos tem um sistema tático definido há muito tempo e sabem ensinar isso para os novos jogadores, os dois são bons em motivar e tirar o melhor do elenco que tem e também sabem fazer os pequenos ajustes dentro de um jogo quando as coisas não andam bem. Não dá pra pedir mais nada de um técnico.

A tática de Phil Jackson é o internacionalmente conhecido sistema de triângulos. A criação não é de Phil Jackson, ele aprendeu com seu assistente Tex Winter, que por sua vez aprendeu o sistema com seu antigo técnico Sam Barry. Mas foi com Jackson que ela foi consagrada, sendo usada em todos os 11 títulos vencidos pelo treinador.

O sistema é bem simples no fim das contas, é uma movimentação ofensiva em que os jogadores se adaptam ao que a defesa oferece, respondendo com os passes rápidos e cortes para os espaços vazios, sempre se movimentando em busca da formação de um triângulo que tenha um jogador no pivô e duas opções de passe para ele. Do outro lado da quadra os dois jogadores que sobram fazem o chamado “jogo de dupla”. Essa movimentação tem como objetivo abrir espaços na defesa adversária e o ataque responde sempre da maneira mais eficaz de acordo com o que lhe é oferecido. Por isso que sempre dizemos que jogador burro não funciona nesse sistema, precisa entender de basquete. Quem quiser mais detalhes do sistema de triângulos pode ver esse site que usa umas animações em flash.

Já na parte da motivação o Phil Jackson é gênio. Não é amigão e incentivador como Doc Rivers, mas mais um provocador. Sabe quando elogiar e quando criticar um jogador publicamente, sabe quando dar tapinha nas costas e quando dar um esporro. Ele também ficou famoso por distribuir livros para seus jogadores. Anualmente, geralmente antes de uma longa viagem para jogos fora de casa, ele compra livros e dá de presente para os jogadores. É um jeito sutil e inteligente de conhecer melhor os jogadores, passar uma mensagem para eles que não seja através de um discurso e também para se aproximar deles, afinal, é um presente.

No ano passado ele comprou “Montana 1948”, sobre uma família de classe média abalada por um escândalo nos anos 40 para Kobe Bryant, “2666”, um livro de quase 1.000 páginas sobre assassinatos não resolvidos no México para Pau Gasol e “Sacred Hoops”, um livro escrito pelo próprio Phil Jackson sobre o que ele acredita e prega dentro do basquete para Ron Artest.

O próprio Phil Jackson diz ter sido muito influenciado na sua vida por um livro, que, aliás, foi o que lhe rendeu o apelido de “Zen Master”. O livro tem o hilário título “Zen and the art of Motorcycle Maintenence” ou “Zen e a arte da manutenção de motocicletas”. Logo no começo do livro o autor explica que o título é uma brincadeira com o livro “Zen in the art of Archery” (Zen na arte do tiro com arco) e que na verdade não tem nem a ver com o Zen Budismo e nem com manutenção de motos. Na verdade conta a história do autor e da viagem que fez de moto de Minnesota até a California com o seu filho e as conversas entre os dois sobre, segundo a Wikipedia, epistemologia, filosofia da ciência e emotivismo ético, seja lá o que isso queira dizer.

O técnico também tem ficado conhecido nos últimos anos por seus problemas de saúde. Ele tem uma cadeira especial que leva a cada jogo fora de casa para suas dores nas costas e não assina mais contratos longos. Ao fim de cada temporada diz que precisa consultar seus médicos antes de se comprometer com um novo contrato. Por isso e por ser um chato com a imprensa já disse umas mil vezes que “essa é minha última temporada como técnico”. Se vencer mais um título nesse ano irá conseguir o seu quarto “three-peat”, o tri-campeonato consecutivo, sendo o primeiro e provavelmente o único em muito tempo a ter alcançado esse feito.

....

O Lakers não começou bem sua pré-temporada, perdendo para o Wolves e ontem para o Barcelona. Contra o Barça eles até tentaram ganhar no final, colocando os titulares em quadra, mas não foi o bastante e o JC Navarro é bom demais. Gasol não voltou bem do banco depois de muito tempo sentado e Kobe, ainda se recuperando de uma cirurgia no joelho, jogou mal e foi muito bem marcado por Pete Mickael. Achei legal um jogo entre o campeão da NBA e o da Euroliga, mas o jogo significou muito pouco e não foi disputado em alto nível por nenhuma das duas equipes.

O que podemos esperar do Lakers nessa temporada é mais do que vimos nos últimos dois anos, em especial na última temporada: Um time com algumas dificuldades nas bolas de três, com eventuais apagões mas que, sem ser perfeita, é a melhor equipe da NBA. Além disso tem um garrafão que, nesse ano, só pode ser superado pelo do Boston Celtics. Sempre ganhando nos rebotes, em especial nos ofensivos e com um ataque que flui bem, o Lakers é novamente o favorito.

O que será mais interessante de acompanhar na temporada regular são as novas contratações e os novatos. O Lakers contratou bem demais para um time que acabou de ser campeão. Já declarei nesse post o meu amor ao Steve Blake e acho que ele vai se adaptar muito bem ao Lakers. Não há necessidade de colocá-lo de titular já que o Derek Fisher ainda sabe jogar e é um líder, mas até para poupar o vovô para os playoffs (quando ele melhor joga, sempre) é importante ter Blake adaptado e jogando muitos minutos. O armador chegou nos ginásios do time algumas semanas antes dos demais para receber treinamento especial sobre o sistema ofensivo e quando o training camp começou de fato todos rasgaram elogios ao Blake, dizendo que ele aprendeu muito rápido e já está adaptado ao estilo de jogo antes mesmo da temporada começar.

Quando Kobe estava elogiando Steve Blake ele também fez menção ao Matt Barnes, dizendo que era um jogador esperto e que estava treinando bem também. A posição de Barnes é mais fácil de aprender que a do Blake e, pra falar a verdade, ele nem precisaria ser um gênio tático para se adaptar. Barnes foi contratado para defender e acertar bolas de três, se fizer isso está ótimo. Nessa semana foi divulgado pela NBA o "GM Survey", uma pesquisa anual feita entre os General Managers de cada equipe, e nela Kobe e Artest foram eleitos os melhores defensores de perímetro da liga. Barnes, portanto, nem era tão necessário, mas deixa o time ainda mais forte, com mais opções e oferece as bolas de três.

Como se não fosse o bastante, o Lakers ainda tem um promissor defensor no novato Devin Ebanks, que, já aviso, posso eventualmente chamar de Trevor Ariza. Eles tem as mesmas características de jogo, o mesmo tamanho, o mesmo físico, o mesmo arremesso feio. É um clone! Bom ir treinando o garoto para quando o Artest se aposentar. Nessa semana Ron Ron afirmou que esse atual contrato é o seu último na NBA. Quando ele acabar irá tentar uma carreira no futebol americano e depois no boxe. Na mesma entrevista disse que "O único jeito de parar Kevin Durant é sendo Ron Artest. Se você não for Artest, não tem chance".

No garrafão o Lakers conseguiu um senhor de idade e um pirralho gordo, mas, apesar do que parece, é uma coisa boa. O senhor é Theo Ratliff, que já teve seus bons tempos na liga há muito tempo, uns 10 anos atrás, quando tinha média de 4 tocos por jogo, mas ainda pode fazer um ou outro estrago defensivo jogando 5, 10 minutos por jogo. É uma versão menos desastrada e com menos força nominal do DJ Mbenga, digamos. O pirralho é Derrick Caracter, novato que se mostrou um ótimo reboteiro nas summer leagues, mas recebeu a exigência de perder peso para ganhar um contrato. Ele pode ser um Josh Powell que pode jogar de pivô, nada mal, vamos ver no que dá.

Essa ajuda, mesmo que discreta, é bem vinda porque Andrew Bynum está sempre machucado. Ele demorou para fazer sua cirurgia ao fim da temporada porque queria ter tempo de viajar para a África do Sul para assistir a Copa do Mundo. Nem ele e nem o Lakers imaginavam que no fim das contas a reabilitação demoraria tanto e ele correria o risco de voltar só no final de novembro ou no meio de dezembro. Mas apesar disso Phil Jackson não ficou bravo, disse que a viagem para ver a Copa era importante para o Bynum se recuperar de uma temporada estressante e que não se incomoda de ficar sem o pivô no começo da temporada, que o que importa é o que acontece em maio e junho. Ele tem razão, o Lakers sempre soube se virar sem Bynum na temporada regular, ele é importante contra outros garrafões fortes na pós-temporada. Pensando nisso até estão considerando usar o Bynum apenas por cerca de 24 minutos por jogo na temporada regular, como o Rockets pretende fazer com o Yao Ming.

Times campeões costumam relaxar, bi-campeões mais ainda, mas acho que o jogo 7 da final contra o Boston mostrou como é bom sempre decidir em casa. Espero um Lakers competitivo e interessado na maioria dos jogos da temporada regular.

terça-feira, 25 de maio de 2010

De castigo

"JJ é Redickulo"..."samente gay". Tá certo, quem
faz trocadilho merece mesmo cadeira elétrica


Depois de ganhar trocentos prêmios de "melhor jogador do ano" no basquete universitário, JJ Redick foi escolhido pelo Magic com a décima primeira escolha do draft. O contrato tinha duração de dois anos, com o Magic escolhendo se manteria o pivete por um terceiro ou até um quarto ano. Na sua temporada de novato, até que ele entrou bastante em quadra, mas ficou bem claro que era incapaz de defender, fraco demais fisicamente para fazer qualquer coisa além de arremessar, e os seus arremessos sequer entravam. No segundo ano quase não entrou em quadra, ficou apodrecendo no banco, e quando entrou passou pouquíssimo tempo. Estava bem claro que o Magic não se interessava pelo garoto, não iria optar por mantê-lo por mais dois anos, e o JJ Redick estaria livre para procurar outro time, jogar na Europa ou vender pipoca com provolone. E foi aí que o Magic extendeu o contrato do JJ Redick, que ficou com cara de bunda. Rá, pegadinha do Mallandro! Glu, glu, glu!

E não é como se tivessem mantido o JJ Redick para finalmente colocar o cara pra jogar. Não entrou em várias partidas, tinha minutos limitados, papel limitadíssimo, e começou a pedir uma troca. Lembro perfeitamente bem de ler os comentários dos engravatados do Magic afirmando categoricamente que uma troca não iria acontecer: o Redick iria continuar no time a todo custo. O próprio técnico, Stan Van Gundy, disse que era difícil manter um jogador bom no banco o tempo todo, mas que ele ainda não estava pronto para jogar e que o time estava dando certo sem ele. Para a gente entender o que aconteceu, o Magic é uma guria e o JJ Redick é um sapato: pode ser que ela nunca vá usar esse modelo, mas como não está quebrado é melhor manter no armário, mesmo que tenha custado 2 milhões de dólares. A mesma coisa aconteceu com o Marcin Gortat: o Magic sabia que ele não teria muitos minutos com o Dwight e o Brandon Bass no time, o Mavs ofereceu uma fortuna pra ele, mas mesmo assim o time de Orlando fez questão de cobrir a proposta e manter o sapato no armário. Com a diferença de que ele custa 7 milhões de verdinhas. O Magic não sabe usar direito o cartão de crédito do pai: todos nós sabemos o que eles também aprontaram com o Rashard Lewis e seu monstruoso contrato de 118 milhões, só porque era a blusinha que faltava naquele "look matador" - que no fim não fez tanto sucesso assim na baladinha.

Por isso está todo mundo tão confuso de ver o JJ Redick saindo de seu castigo que durou anos para liderar o ataque do Magic em momentos cruciais desses playoffs. Na partida de ontem, primeira vitória do Magic em cima do Celtics nessa série, o JJ Redick não apenas ficou em quadra como acabou tomando o lugar de Vince Carter, que foi pro castigo em seu lugar: colocou o bumbum no cantinho da disciplina (a "Super Nanny" pediria um minuto de castigo por ano de idade, mas o Carter deve ter ficado um minuto por arremesso errado, porque pareceu uma eternidade). Ver o Redick tanto tempo em quadra não é assim tão bizarro, porque desde que sua defesa melhorou um pouquinho (agora ele pelo menos finge que defende, e a farsa é sempre um bom começo) tem ganhado mais minutos nessa temporada. Com mais minutos e mais jogos (pela primeira vez entrou em todas as partidas do Magic na temporada), voltou a ganhar ritmo nos arremessos e se tornou ao menos um arremessador confiável. Mas liderar o ataque do Magic é um tanto demais mesmo.

Esse tipo de aberração às vezes acontece: já vimos jogadores aleatórios levando o Spurs a ganhar um anel com atuações-surpresa que nunca mais se repetiriam em suas carreiras. No caso do Redick, no entanto, vem acontecendo em toda a série e as atuações do rapaz sequer são impressionantes, não passam de uns arremessos certos aqui ou ali - é o time que está se focando nele porque não sabe mais pra onde olhar. Sempre batemos nessa tecla aqui no Bola Presa: mudar drasticamente seu estilo de jogo nos playoffs é sinal de burrice ou de desespero. Tem gente que acha que "playoff é diferente" e que por isso precisa mudar a rotação dos jogadores ou o esquema tático, o que é burrice. Mas tem vezes em que nada mais dá certo e você precisa tentar um troço completamente diferente, um jogador completamente esquecido, e aí é desespero. Acho que podemos considerar o Magic oficialmente desesperado.

As bolas de três pontos são parte essencial da tática da equipe, mas o Rashard Lewis é uma versão anêmica do Dirk Nowitzki de uns anos atrás: basta ser marcado de perto, com contato físico, e ele não consegue um arremesso sequer. Matt Barnes não é um gênio nos arremessos, mas tem que ficar em quadra o máximo possível para marcar Paul Pierce. E Mickael Pietrus está tendo uma série horrível no ataque a ponto de não valer a pena colocá-lo só pra defender. Na noite de ontem, errou dois arremessos seguidos, o Van Gundy quase teve um derrame cerebral, e lá foi apodrecer no banco. Nessas horas em que os arremessos não caem, em que as armas estão anuladas, deveria ser a hora do Vince Carter. Pena que ele fede.

Vale aqui uma pequena recapitulação: o Carter é aquele sujeito que dedou a jogada final do próprio time, quando estava no Raptors, para que a equipe perdesse e ele fosse trocado. É o cara fominha que não leva o time à vitória mas abandona o barco se não estiver dando certo. Até que o Nets trocou todo mundo, menos ele, e vimos um novo Vince Carter. Aquele Nets fedia mais do que fede hoje, era terrível, mas o Carter segurou as pontas, não reclamou, não pediu para ser trocado, virou líder da pirralhada, figura mais importante dos vestiários da equipe, passou a treinar os novatos e a tentar salvar os jogos no final depois de envolver o resto dos companheiros. Foi esse Carter, maduro e líder em quadra, que o Magic contratou. Sua temporada no Nets salvou sua carreira de um modo que o Iverson precisava desesperadamente mas não conseguiu aceitar. Não tenho medo de dizer: o Magic é um time melhor com Carter do que era com Turkoglu. Sei que Carter prejudicou o Magic muitas vezes na temporada por segurar demais a bola e por não querer decidir alguns jogos, mas ele é uma presença inestimável no vestiário e traz uma confiança em jogos decisivos que o Turkoglu nunca traria (vai, nem a mãe do turco acreditava que o rapaz decidiria alguma coisa, mesmo que ele sempre acertasse). Só que os jogos decisivos estão aí, e o Carter fede. Não é do meu feitio ficar dando desculpa para salvar um jogador, mas o caso do Vince Carter é quase todo mérito da defesa do Celtics, aquela que anulou LeBron James. E o Carter, crianças, não é nenhum LeBron James. Frustrado e sem saber como atacar a cesta, depois de ter perdido dois lances livres cruciais que poderiam ter tornado a série competitiva, parece que ele não acredita mais na vitória e não vê motivo em ficar dando cabeçada na parede. A partida de ontem foi terrível para ele, e aí o Magic tem que olhar para quem está interessado em ganhar, para quem quer arremessar. Sobra apenas um arremessador ultra-confiante, mas nem tão eficiente: JJ Redick. Se ele quer arremessar e o Carter não quer, então o Carter vai pro banco e o Redick fica em quadra. O time fica completamente diferente, é mais fraco, mais previsível, mas no desespero a gente fica com aquilo que tem. Parece que a estadia em New Jersey não deixou apenas Carter mais maduro, também o tornou mais incrédulo, como se a vitória pouco importasse, como se não fosse responsabilidade dele. De fato, não é. Carter não quer mais esse posto de líder da equipe no ataque, e ninguém pode impor esse papel a ele. O problema é que o Magic pagou a massagem completa sem saber que não rolava sexo no final.

Para o Magic, então, vai o que tem. Assim, Rashard Lewis não acertando nada por causa do jogo físico e o Dwight Howard incapaz de jogar de costas para a cesta abriram espaço para Brandon Bass e Marcin Gortat. Os dois conseguem jogar melhor nessas circunstâncias? Então coloca os dois em quadra. O Magic é um time irreconhecível, muito diferente, bizarro. Mas é melhor ser irreconhecível e ganhar uma partida do que insistir nos mesmos defeitos e ser varrido dos playoffs. O Magic desesperado, como vimos ontem, é um time muito melhor do que o time calmo, confiante e preso ao plano de jogo que enfrentou o Celtics nos primeiros jogos. O desespero ensinou coisas muito bacanas para a equipe de Orlando: o Dwight não pode receber a bola de costas pra cesta, tem que recebê-la no ar para enterrar, ou em movimento depois de um corta-luz. O Jameer Nelson tem que atacar a cesta em toda bola, passando a bola para o Dwight por cima dos defensores, cavando faltas e pontuando em bandejas. E o time precisa correr como louco para nunca, jamais, em hipótese alguma, enfrentar a defesa de meia quadra do Celtics montadinha e preparada. O resultado foram 30 pontos do Dwight, uma ótima partida de Jameer Nelson, e várias posses de bola em que Perkins acabou marcando o Rashard Lewis e o Garnett acabou marcando o Dwight, por causa da correria. Em todas, o Celtics foi punido.

Correria, menos bolas de 3, infiltrações, acionando menos o Dwight fora do garrafão, jogo baseado em pick-and-rolls, e JJ Redick na quadra. É um Magic do mundo bizarro, mas a vitória veio. E veio mais fácil do que parece, a prorrogação só aconteceu porque esse Magic tem memória curta. De vez em quando o Howard foi acionado de costas pra cesta, e claro que errou tudo. Nos minutos finais, o Jameer Nelson parou de correr como um retardado e passou a enfrentar a defesa do Celtics arrumada. E o armador do Magic resolveu também, no final, só arremessar de três ao invés de cavar mais faltas e atacar o aro como vinha fazendo. Esses momentos em que o Magic é o velho time de sempre foram um fracasso. Os momentos de desespero absoluto e histérico, digno de mulher vendo barata, com Carter no banco e outro estilo de jogo foram um sucesso.

Esperava, claro, um 4 a 0 para o Celtics nessa série. Mas tudo porque não tinha como imaginar um Magic desesperado, fazendo qualquer coisa que venha a dar certo e deixando em quadra quem quer arremessar, não quem ganha o maior salário ou foi contratado para decidir. Baita coragem do Van Gundy de deixar Pietrus e Carter no banco por tanto tempo, baita sacada de tirar JJ Redick e Brandon Bass do castigo. Só falta agora tirar o Rashard Lewis da quadra e colocar o Ryan Anderson. Vamos combinar que depois do Carter, o Rashard também tá merecendo um castigo lá no cantinho da disciplina.

Não sei mais o que pensar dessa série. No desespero, é bem provável que o Magic prolongue esse embate muito mais do que poderíamos sonhar. O jogo de ontem foi um dos mais físicos, brigados e divertidos jogos desses playoffs, e a primeira prorrogação até agora. Ou seja, vamos torcer para que o Van Gundy - famoso por ser "o técnico do desespero", no sentido de que na hora que importa não sabe o que fazer - continue apostando apenas naquilo que der certo. Seja o que for. Colocar o Dwight na armação e o Jameer Nelson de pivô? Por que não? O legal de ver nesse Magic é que, perdendo por 3-1, eles não tem muito a perder.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Em busca de uma explicação (e de um culpado!)

Vince Carter tem sua bunda fotografada


A noite de segunda-feira teve um jogo que tinha tudo pra ter um clima de playoff, uma tensão no ar e os times com os ânimos à flor da pele. Mas acabou sendo mais um jogo comum da temporada regular. Foi a primeira partida entre Lakers e Magic desde a final do ano passado e por motivos difíceis de explicar, o jogo não era assim tão esperado. A NBA escolheu por dar à rodada de Natal Lakers-Cavs, que a torcida e a mídia abraçaram como um jogo imperdível, e eu, nesse post, sugeri que na verdade o grande jogo da NBA para o Natal ainda deveria ter sido Lakers e Celtics. E ninguém questionou dizendo que deveria ser uma revanche da final do ano passado.

Um dos motivos para essa aparente falta de respeito contra o Magic pode ser explicado pelo placar amplo da final do ano passado, 4 a 1, embora não dê pra esquecer que os jogos foram difíceis e que dois deles foram para a prorrogação. Talvez tenha faltado uma rivalidade maior, brigas, declarações polêmicas, sei lá. Outro motivo que justificaria um pouco esse descaso seria o time titular do Magic. 3 dos 5 que começaram aqueles jogos foram embora: Turkoglu, Rafer Alston e Courtney Lee.

Esses argumentos parecem válidos e certamente o são, mas tem uma outra coisa que eu acho que estragou tudo: timing. Se essa partida tivesse acontecido no meio de dezembro ela seria entre o líder do Oeste e o líder do Leste, os dois em grande fase. O jogo de ontem foi entre o líder do Oeste que perde terreno a cada semana e tem o Kobe muito baleado por dores nas costas, e o quarto colocado do Leste que perdeu mais do que ganhou nos últimos 20 jogos.

Se o problema do Lakers é bem claro, a saúde do seu principal jogador (que claramente precisa de pelo menos uma semana de descanso antes que desmonte como um lego mal montado), o problema do Magic é muito difícil de entender.

O jogo contra o Lakers foi o exato meio de temporada para o Magic, a partida de número 41. E essa metade pode ser cortada em mais dois pedaços pra mostrar como esse time não faz um puto de um sentido. Nos primeiros 21 jogos o Magic venceu 17 partidas e perdeu 4. Nas últimas 20 partidas ganhou 9 e perdeu 11.

A primeira reação a esses números é um sonoro "Que porra é essa, viado?". Se o time mudou muitas peças, perdeu três titulares dos playoffs do ano passado e precisa pegar todo o entrosamento de novo não deveria ser o contrário, começar mal e melhorar depois? E faz menos sentido ainda quando se pensa que o time ainda estava sem Rashard Lewis e Jameer Nelson no começo da temporada.

Um dos motivos destacados durante o começo da temporada para o sucesso do Orlando Magic era o seu elenco profundo e talentoso. Se Rashard Lewis não poderia jogar como ala de força titular o técnico Stan Van Gundy tinha a opção de um garrafão pesado usando o Brandon Bass ou manter o mesmo esquema com o Ryan Anderson. Para a contusão do Nelson tinha o Jason Williams jogando muito. Isso sem contar as combinações nas posições 2 e 3 com Vince Carter, Matt Barnes, Mickael Pietrus e JJ Redick, todos com condição de ser titular, oferecendo talentos diferentes.

O número e a qualidade do elenco do Magic, portanto, está longe de ser uma desculpa, talento é o que não falta por lá. Inclusive eu cheguei a apostar no começo da temporada que o Magic tinha tudo para ter um dos três melhores ataques, tamanho o domínio do time nas primeiras rodadas, com o Jameer Nelson e o Vince Carter machucando as defesas com as infiltrações, o domínio dos rebotes ofensivos do Dwight Howard e o bombardeio constante e eficiente nas bolas de 3. Eles pareciam imparáveis.

Durante um tempo eu cheguei perto de acertar minha previsão, mas com esses últimos 20 jogos a coisa mudou. Hoje o Magic é apenas o 11º colocado no ranking de pontos por jogo e o 9º no ranking que conta o número de pontos marcados a cada 100 posses de bola. Os próprios números também descartam a defesa como motivo da queda de rendimento, o Magic é o 8º melhor em pontos sofridos por jogo e o 6º em pontos sofridos a cada 100 posses de bola.

Uma derrota para o Lakers em Los Angeles não é motivo para eu vir aqui escrever um post falando que o Magic está fedendo, mas nos últimos 9 jogos eles conseguiram perder para Bulls, Pacers, Raptors e Wizards, todos times com recorde bem inferior ao deles. E quando pegaram times mais fortes, o Nuggets e o Blazers, não só perderam como tomaram surras que me lembraram a saudosa Dóris em "Mulheres Apaixonadas". A derrota para o Lakers, inclusive, foi até motivo de alguma comemoração por ter representado a melhor partida do time desde a última vitória sobre o Atlanta Hawks, equipe que hoje está na frente do Magic na classificação do Leste.

A gente comentou por aqui como o Dwight Howard estava jogando muito mal e muito abaixo do que se espera dele, e esse poderia ser um motivo para que o Magic estivesse mal das pernas, afinal é o melhor jogador do time. Eis então que na partida contra o Lakers o Superman resolve ligar para o Danilo, dizer "eu li teu post, moleque!" e começar a jogar como o Tim Duncan. Gancho pra cá, giro pra lá, vários arremessos usando a tabela e impressionantes 18 pontos no primeiro tempo contra o melhor garrafão da NBA. O Magic, no entanto, estava perdendo.

No segundo tempo o Magic começou a ter a síndrome do armador bom. É uma síndrome que ataca todo mundo que já jogou basquete em qualquer pracinha do mundo e funciona da seguinte maneira: se um armador ou qualquer outro jogador de perímetro está jogando bem e com confiança, ele não passa a bola para o pivô. Simples assim, não importa o quanto aquele grandalhão bobo fique balançando os braços. Foi o que aconteceu quando Jameer Nelson, Mickael Pietrus, Matt Barnes e principalmente o Rashard Lewis começaram a mandar bala no segundo tempo do jogo. E foi quando eles jogaram bem e o Dwight Howard nem enconstou na bola (foi dar seu primeiro arremesso no segundo tempo só no meio do quarto período) que o Magic cortou a diferença do Lakers e abriu mais de 10 de vantagem.

Até comentaram aqui no blog que não adiantava o Dwight Howard jogar melhor porque o time não jogava bem com ele como foco no ataque e a prova tinha sido o jogo contra o Lakers. Mas se você viu o jogo, deve ter percebido que enquanto o Dwight tomava conta do ataque, a defesa sofria com o Lakers acertando mais de 60% dos seus arremessos, enquanto no segundo tempo, quando o Magic abriu, o Lakers não conseguia fazer ponto nem arremessando papel amassado no lixo.

O Magic ideal é um mix disso tudo. O Magic pareceu melhor com o time correndo e todos os jogadores de perímetro envolvidos, mas só deu certo porque eles estavam jogando em contra-ataque, pegando a defesa do Lakers ainda na volta para a defesa. Quando a defesa do Magic funciona bem é que o time tem que partir rápido para o ataque e usar a velocidade de todos os seus jogadores, nenhum ala de força na NBA acompanha o Rashard Lewis na corrida. Dá para o Jameer Nelson ou o Vince Carter puxarem o contra-ataque e eles mesmos podem desmontar a defesa com uma infiltração e provavelmente outros três caras vão acompanhar e parar em diferentes lugares da quadra para se posicionar para o arremesso, é muito difícil marcar um time que sabe fazer um jogo de transição assim.

O Dwight Howard entraria para o jogo como o cara que pega o rebote para essa transição e principalmente para quando ela não desse certo. Ele tem que ser o foco ofensivo da equipe quando eles forem obrigados a jogar um basquete de meia quadra e quando isso acontecer ele deve ser o jogador que foi contra o Lakers, com recursos ofensivos e com arremesso de meia distância. Não vai ser sempre que vai dar certo, ele não desenvolveu esse jogo como deveria nos últimos anos, mas cedo ou tarde vai ter que começar.

Tudo isso parece bem óbvio e é mesmo, mas não é o que estamos vendo no Magic. A transição e o jogo de meia quadra como eu descrevi dependem de uma coisa básica para todo o time, a movimentação de jogadores e de bola. O Rashard Lewis só é um matchup ruim para um outro ala de força mais alto e mais pesado quando ele se movimenta bem pelo perímetro, o Jameer Nelson é um armador que mereceu ser chamado para o All-Star Game do ano passado quando usa e abusa dos bloqueios para achar arremessadores e seu próprio arremesso. O que a gente tem assistido é o Rashard Lewis parado em um canto para arremessar enquanto Jameer Nelson e Vince Carter passam 20 segundos driblando a bola e aí forçam um arremesso.

Parte da culpa é dos dois jogadores, principalmente do Carter. Ele está jogando tão mal, mas tão mal, que eu o colocaria como a maior decepção individual de toda a temporada, inclusive à frente do Turkoglu, que tem sido pior e menos útil do que o Jarret Jack no Toronto Raptors. O Carter está com uma patética média de 16 pontos por jogo, 38% de aproveitamento nos arremessos de quadra e só 30% nos três pontos. Isso sem contar os inúmeros jogos em que arremessou 15 bolas e acertou duas. A grande desvantagem de ter o Carter ao invés do Turkoglu na equipe é que o Magic perdia em movimentação de bola e passe, já que o Turko era um armador em corpo de ala, mas pelo menos ganhavam alguém que poderia marcar pontos criando o próprio arremesso quando o ataque estivesse estagnado. Alguém pra isolar e ganhar uns pontos só no talento.

Pois o Carter realmente não tem um terço da visão de jogo do Turkoglu, a bola não se mexe, o resto do time fica parado vendo o Carter jogar (isso não é culpa dele, no entanto) e ele não consegue marcar os seus pontos. Ele trouxe todos os pontos negativos que a gente esperava e não trouxe os positivos.

Sabe a última grande vitória do Magic que eu citei, a contra o Hawks? Ela foi seguida de uma vitória sobre o Kings e os dois jogos tinham uma coisa em comum entre eles e de diferente em relação à derrota anterior para o patético Washington Bullets: Vince Carter não estava jogando. Pois é, com o branquelo do JJ Redick no time titular e com ele dividindo os minutos com Pietrus e Barnes, o time foi infinitamente melhor do que com Vince Carter. Tá bom que não deu muito certo contra o Nuggets, mas é que o Redick oferece a movimentação e a filosofia que o Magic precisa para jogar, mas em compensação não é bom o bastante para se garantir como titular e fazer o time vencer o Nuggets em Denver.

Sem o Carter o time não tem pra quem entregar a bola e ficar esperando alguma coisa acontecer. O Jameer Nelson até é mais do tipo fominha mas não chega aos pés do Carter, e com a bola na sua mão o time se mexe mais e ele responde com mais passes.

O Vince Carter como o principal motivo do Magic estar jogando mal acaba respondendo uma crítica que eu tinha feito a ele no começo na temporada. Eu tinha falado que esperava que ele fosse mais do que só um arremessador e finalizador de contra-ataques como vinha sendo nos primeiros jogos e que se tornasse um líder, alguém que chamasse o jogo como fazia o Turkoglu, principalmente nos minutos finais do jogo. Errei feio. Carter não é Turkoglu e o time funcionava bem melhor quando o VC se limitava a ser um marcador de pontos, um cara que se posiciona para finalizar jogadas e só. Parece ridículo contratar um cara desse nome e desse porte só para isso mas era assim que o Magic jogava quando vencia.

Não custa lembrar esse post que eu escrevi depois de um mês de temporada, lá já me mostrei preocupado com a quantidade de tempo que o Vince Carter passava com a bola na mão. Naquele texto, porém, falei como é bom para eles ter um cara talentoso para arremessar umas bolas importantes no fim dos jogos, só falta achar equilíbrio.

Se eles voltarem a tirar a bola da mão do Carter e descobrirem quando usar o perímetro e quando apelar para o pivô que eles tem lá no meio, o Magic estará de volta à briga do título do Leste. Do jeito que eles estão jogando hoje eles não passam da segunda rodada dos playoffs nem com reza brava. E que atirem as pedras no Carter, mas não no ombro porque ele já está machucado.

sábado, 8 de agosto de 2009

Nem faz falta

Trabalhando com um gordinho pizzaiolo, deve ser difícil cuidar do físico


O Orlando Magic adicionou muitas peças novas desde o fim da temporada passada, mas agora acaba de perder uma peça fundamental, ao menos momentaneamente: Rashard Lewis passará os primeiros 10 jogos da temporada regular suspenso por ter mandado pro bucho substâncias proibidas. Não foi nada muito pesado, ele não andou "metendo o nariz onde não devia" como o Chris Andersen, que ficou suspenso por 2 anos, e nem utilizou esteróides pra ficar com o físico do Dwight Howard. Na verdade, o rapaz tomou apenas um suplemento alimentar, aqueles famosos sacos de pó que empelotam quando você bate com leite, e que são perfeitamente acessíveis para qualquer um e consumidos por pessoas comuns mundo afora. O critério para substâncias proibidas no basquete americano é meio incompreensível: muito do que é banido no basquete internacional é permitido até mesmo no basquete universitário de lá, e muita coisa banal para o resto do mundo gera suspensões nos Estados Unidos. Deve haver um critério, algum padrão cultural, mas como meu conhecimento de drogas resume-se a saber que Coristina D pode causar úlceras estomacais (experiência própria, crianças), não me sinto em condições de opinar.

Tudo nos leva a crer, então, que foi apenas um incidente azarado. Na NBA é muito comum os jogadores preocuparem-se com seus rendimentos e tentarem coisas bizarras para superar uns aos outros, dos treinos com porradas do Jermaine à câmera hiperbárica do Gilbert Arenas que simula a altitude dos Andes. Faz muito sentido o Rashard Lewis ir por conta própria atrás de um suplemento, comprar um desses troços feitos para civis, e acabar sendo pego no teste de doping sem fazer a menor ideia do que está acontecendo. Mas aí a gente respira um pouco e se pergunta o porquê de um cara com esse físico, que puxa uns ferros absurdos e recebe um dos melhores preparamentos físicos do mundo, achar que precisa de um suplemento alimentar. Vai ver ele é um tipo de anoréxico ao contrário, se olha no espelho e se acha magrinho, então se esconde no banheiro e fica comendo donuts e suplementos escondido. Perto do Dwight Howard, convenhamos, todos os seres humanos são uns magrelos.

Pode até ter havido má fé, mas o ganho de rendimento deve ser uma besteira. Seria muito idiota arriscar ser pego no rígido programa de testes de doping da NBA tomando uma porcaria que tem efeito mínimo num sujeito já forte pra burro como o Rashard Lewis. Os dez jogos de suspensão nem fazem muito sentido, sob esse prisma, mas constam aí só para ninguém dizer que a NBA não está de olho. O Orlando perde um jogador nos primeiros jogos, que nem valem nada mesmo e todos os times estão meio que se descobrindo, e não se fala mais nisso.

No entanto, a briga no Leste está cada vez mais acirrada com as novas aquisições de Cavs e Celtics, então o Magic não pode demorar muito pra pegar ritmo. Com isso, a preocupação da equipe já passa a ser quem ocupará o lugar do Rashard Lewis nas dez primeiras partidas e nós vamos dar uma olhada nisso.

O meio-técnico, meio-pizzaiolo Stan Van Gundy já havia avisado que Pietrus e Matt Barnes estavam lutando para saber quem seria o ala titular da equipe, jogando na posição três. Isso significa, na prática, que Vince Carter já está consolidado como armador na posição dois e Rashard Lewis como ala de força, na posição quatro. Com a contratação de Brandon Bass e a renovação do Gortat, muito se falou sobre um deles jogar no garrafão ao lado do Dwight Howard para permitir que o Lewis jogasse em sua posição natural, que é ala-armador. Sabiamente, não é o que acontecerá: o time se saiu tão bem usando apenas o Dwight dentro do garrafão, criando problemas defensivos para as outras equipes com o Rashard Lewis saindo para arremessar de três pontos, então por que mudaria a fórmula? Brandon Bass cria a possibilidade de estabelecer um garrafão mais forte, reboteiro, que não arremesse de fora, mas isso no decorrer de uma partida, em momentos específicos. Agora o time tem opções, pode variar, mas seria muito idiota abandonar o padrão que funcionou tão bem na temporada passada. Então, com Lewis suspenso por dez jogos, a lógica é que dois jogadores briguem para assumir sua posição, e nenhum deles é o Bass.

A primeira possibilidade seria o próprio Matt Barnes. No Warriors, muitas vezes jogou de ala de força. Não tem a altura ou o físico, mas é intenso, se posiciona muito bem para os rebotes e, o mais importante, sai do garrafão para arremessar de trás da linha de três pontos. É isso que fez sua fama no Warriors: bolas de três e rebotes ofensivos. No Suns, também se encaixou bem quando a ideia era colocar um time mais baixo em quadra. Matt Barnes foi uma aquisição silenciosa para o Magic mas ela faz muito sentido. Barnes é versátil, joga em múltiplas posições e atende justamente à necessidade do time de poder variar em quadra. Como reserva de Lewis ou de Pietrus, Matt Barnes sempre dará um jeito de contribuir.

Se não for o Barnes, resta ao Magic colocar Ryan Anderson como titular desde o primeiro jogo da equipe. Para muitos, Anderson veio do Nets na troca do Carter como brinde, provavelmente porque tinham acabado as bolachas de água e sal que costumam vir nessas transações. Mas o Magic deixou bem claro, desde o princípio, que a troca não teria acontecido se o Ryan Anderson não estivesse envolvido. Novamente faz sentido, já que Anderson é um jogador que pode jogar no garrafão, garantir seus rebotes, mas garante o pão-nosso-de-cada-dia arremessando de três pontos e de meia distância. Ou seja, o Magic viu um cover do rashard Lewis bem barato e quis garantir que ele estivesse na troca do Carter. A aposta rendeu frutos imediatos, porque o Ryan Anderson chutou traseiros nas Ligas de Verão desse ano e foi inclusive eleito o MVP do torneio.

Resumindo: ninguém percebeu, foi bem na miúda, mas o Magic garantiu sem alarde dois excelentes substitutos para o Rashard Lewis que casam perfeitamente com o estilo de jogo que a equipe estabeleceu na temporada passada (será que eles já esperavam a suspensão, ou uma contusão?). Ao contrário do Pistons, do Clippers e do Warriors, que ficam adicionando peças aleatórias, o Magic conseguiu com enorme talento e pouco dinheiro acrescentar peças que casam direitinho com o time. Inclusive substituindo o talento de Turkoglu em criar as próprias jogadas pelo Vince Carter na fase mais inteligente da sua carreira.

Isso, aliás, mostra todo o lado volúvel da NBA. Uns anos atrás, Vince Carter era um fominha maluco que boicotava o próprio time (lembram da história de que ele dedou para o Paul Pierce, numa partida contra o Celtis, a jogada que seu Raptors faria na última posse de bola, apenas para perder o jogo?). Saiu de Toronto cuspido e escarrado, não ganhou absolutamente nada no Nets e foi taxado de fracassado, vovô, acusado de não ter mais físico para enterrar e nem técnica para compensar essa falta. Besteira. Bastou pouco mais de uma temporada para que Carter mostrasse sua técnica, espírito de equipe, liderança, aceitando um papel secundário num time de pirralhos que não ia ganhar nem par-ou-ímpar, adaptando-se ao estilo do time e tornando-se um arremessador cauteloso e comedido, sem nunca omitir-se em quadra. Pronto, agora todo mundo quer o Carter na equipe e existem pouquíssimas dúvidas sobre sua capacidade de encaixar-se no elenco do Magic.

Por outro lado, seu primo Tracy McGrady deixou de ser o maior pontuador da NBA, o homem que carregava o lixo do Magic nas costas doloridas e que não tinha elenco pra ganhar nada, e tornou-se um jogador estigmatizado como perdedor, amarelão, sempre contundido e "fazendo corpo mole". Recentemente disse que está com o melhor físico dos últimos anos, finalmente sem dores nos joelhos, treinando loucamente e sentindo-se capaz de meter 30 pontos na cabeça de qualquer um nesse exato momento. Não deu data de volta, mas prometeu que estará destruindo em algum ponto da temporada que vem.É claro que o mundo riu. Em algum lugar do Brasil, alguém inclusive gargalhou até morrer, mas alegaram que foi gripe suína. Nem eu, como torcedor do Rockets e fã incondicional do McGrady, acredito no homem. Em duas ou três temporadas, toda sua carreira foi por água abaixo numa situação em que fica difícil saber o que é fama e o que é realidade. Mas na NBA isso não importa, cada jogador constrói sua imagem momentaneamente e é julgado apenas por aquele momento.

Isso nos leva, óbvio, a Allen Iverson. Eu achava que ele tinha provado seu valor de todos os modos possíveis: sendo o cestinha da NBA de forma egoísta e fominha, sendo o cestinha da NBA jogando como armador principal e envolvendo os companheiros, levando um time vagabundo para as Finais da NBA, evoluindo seu jogo ano após ano. Mas não, sua passagem pelo Nuggets estigmatizou sua vida para sempre, porque lá ele tinha o elenco certo e não ganhou nada. Seu estilo não casou com a equipe e a experiência ficou marcada como o seu fracasso de encaixar-se em qualquer time, para sempre nomeado fominha e perdedor. O Billups ter aparecido por lá e tornado o time vencedor sem muito esforço não ajudou em nada a causa do Iverson. O Pistons se demolir justamente com a sua chegada também não foi muito legal, nesse momento até os marcianos sabem que onde o Iverson pisa não nasce grama. Mas com isso chegamos a um nível absurdo, exagerado: Iverson está desempregado. Devean George vai ter trabalho no Warriors, DJ Mbenga continua na NBA, mas Iverson não tem um emprego. Que diabos de memória curta tem essa gente do basquete. Baseados na fama momentânea de cada jogador, Vince Carter é um líder nato, T-Mac é feito de vidro e Allen Iverson é um mendigo que vai vender Moranguitos no farol.

Vamos acompanhar a situação do Iverson bem de perto, com sua frustração e seus desabafos, tudo no aguardo de que um time o acolha. Talvez alguma equipe que precise exatamente do seu estilo de jogo, como o Orlando Magic faz tão bem. Na temporada passada eles tinham um elenco minúsculo e sem reservas, hoje já podem se dar ao luxo de perder Rashard Lewis sem se importar muito. Allen Iverson pode trazer esse tipo de profundidade para qualquer time da NBA, e nessas circunstâncias já está aceitando qualquer mixaria. Só não vale jogar no Grizzlies, que aí é muito fim de carreira.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Sapato apertado

Essa foto só tem um problema: Billups não está nela


Após a derrota feia para o Boston Celtics no domingo, podemos ter certeza de que o Suns voltou ao normal: faz 140 pontos contra os times que fedem e é incapaz de defender sequer ponto de vista quando enfrenta times de verdade com ataques mais lentos, de meia quadra. Não há dúvida alguma de que o time melhorou e, ao mesmo tempo, não há dúvidas de que o Suns não seria capaz de ganhar uma série nos playoffs contra o Celtics ou, pior ainda, contra o Spurs. Sem o Amaré, então, nem se fala.

Ainda assim, o retorno ao basquete veloz no estilo "corram pelas suas vidas" era a única atitude que fazia qualquer sentido para a franquia. O elenco tem um punhado de jogadores versáteis, capazes de jogar tanto em transição quanto num basquete de meia quadra, como Steve Nash, Shaquille O'Neal e Jason Richardson. É óbvio que o rendimento do Nash é infinitamente superior quando está correndo, e que Shaq, pelo contrário, é muito mais dominante num jogo mais lento. No entanto, os dois são jogadores competentes capazes de produzir de qualquer modo, sendo as mudanças táticas na equipe a diferença entre ter em quadra um bom jogador, como o Nash do técnico Terry Porter, e uma estrela com um prêmio de MVP, como o Nash do técnico Mike D'Antonni. O mesmo ocorre com Jason Richardson, que pode ser o principal pontuador de uma equipe que jogue na correria, como ocorria no Warriors de Don Nelson, ou apenas um contribuidor sólido como ocorreu no Bobcats de Larry Brown.

Alguns jogadores, entretanto, não são capazes de manter algum rendimento em quaisquer condições. Num esquema tático mais cadenciado, Leandrinho torna-se um jogador inútil. Dificuldades em armar as jogadas ofensivas, decisões questionáveis com a bola em mãos, arremesso inconsistente e, acima de tudo, horrível em ajudas defensivas. Num esquema puramente ofensivo de transição, Leandrinho pode explorar sua velocidade, mostrar sua criatividade na hora de bater para dentro do garrafão, não tem que se preocupar em passar a bola e suas falhas defensivas são escondidas num esquema em que ninguém está defendendo mesmo. O mesmo acontece, em certa medida, com Matt Barnes. Um dos reforços mais ignorados dessa temporada, Barnes é um jogador versátil e completo para times que joguem em velocidade. Fora do seu estilo de jogo, tornou-se uma peça descartável e desapareceu no banco de reservas do Suns.

Mais do que chances de título, a volta à correria significa para o Suns a recuperação de uma série de jogadores: Leandrinho volta a ser uma estrela (com 41 pontos contra o Thunder), Matt Barnes passa a ser um dos melhores reservas da NBA (capaz de jogar em múltiplas posições, dentro e fora do garrafão, arremessar de três, jogar na defesa), Jason Richardson volta a ser uma máquina de pontuar (e de arremessar de três, já que foi o líder de arremessos do perímetro convertidos na temporada passada) e Steve Nash volta a ser um dos armadores de elite da Liga com seu estilo de jogo característico. O compromisso com o jogo de velocidade deixa de ser uma escolha pelas vitórias ou pelas chances de título e passa a ser uma simples questão de reabilitar os jogadores que compõe o elenco. Se você tem dez chineses trabalhando num restaurante, é melhor que eles façam comida chinesa - mesmo que ela não venda nada, mesmo que dê prejuízo - ao invés de mandar todo mundo cozinhar jerimum e perder os vestígios de talento possuídos. É como se todo mundo em Phoenix estivesse usando um sapato apertado para esconder o pé feio, é melhor tirar o sapato, deixar todo mundo sorrir e respirar aliviado, e mostrar o pé mesmo.

E o que fazer com Shaq? Bem, ele pode render menos na velocidade, mas é capaz de se adequar. No nosso Tumblr (o local em que postamos vídeos e fotos aleatórias sobre NBA), colocamos um vídeo do Shaq tentanto mostrar que pode puxar os contra-ataques. Ainda que ele não possa fazer isso o tempo todo, não usar suas principais qualidades é melhor do que não usar as principais qualidades de todo o resto do elenco. Passa a ser uma questão de lógica, não de sucesso garantido. Contra o Celtics, eles foram incapazes de defender Rajon Rondo, que fez 32 pontos (maior marca da carreira) praticamente apenas em bandejas, e mesmo atacando bem e encostando no placar diversas vezes, em nenhum momento conseguiram as jogadas defensivas necessárias para virar o placar. Foi um jogo típico do Suns contra o Spurs, em que o placar fica apertado mas no final não há dúvidas de quem será o vencedor. Não deu certo, não venceram, mas pelo menos as qualidades da equipe estão mantidas, ao invés de feder em tudo. Para que esmagar o pé feio com o sapato e deixar todo mundo triste, miserável e perdendo ainda mais?

O mesmo caso acontece com o Detroit Pistons, só que mais complicado. É como se o Pistons tivesse a Monica Mattos e a Fernanda Montenegro, apenas um filme para fazer, e tivesse que decidir o que dirigir: um filme pornô, mas aí perde-se o talento da atriz séria; um filme sério, mas aí perde-se o talento da atriz pornô; um filme pornô com historinha, daqueles que ninguém assiste e todo mundo pula a parte da história; um filme sério com pornografia, daqueles que ninguém leva a sério e chama de pornochanchada; ou então ficar com apenas uma das atrizes e se livrar da outra.

Pior: é como se o Pistons, ainda por cima, tivesse duas Monica Mattos, além da Fernanda Montenegro. Funciona assim: o Richard Hamilton precisa de um esquema para ele, que permita sua movimentação característica de hamster em rodinha pela quadra para então lhe entregar a bola em mãos para um arremesso. Enquanto isso, o Iverson precisa da bola em suas mãos o tempo inteiro e liberdade para atacar a cesta para, só então, ser efetivo. Mesmo caso do pirralho Rodney Stuckey, detentor das mesmas características, mas que quando tem a bola em mãos acaba anulando o Allen Iverson. Em teoria, é um pesadelo. Na prática, todos estão dividindo o tempo de quadra, cada hora joga-se um estilo de jogo, todo mundo sai prejudicado e o time é uma pornochanchada ruim com a Vera Fisher.

O clima na equipe não poderia ser pior: com a derrota para o Cavs na segunda, já são 6 derrotas seguidas e a pressão para que o Iverson volte aos "velhos tempos" aumenta sem parar. Acontece que, quando o Iverson ataca como um louco em Detroit, costuma de fato colocar o time nas costas e permitir ao menos um esboço de chances de vitória, mas o custo é alto demais - todo o resto do elenco está sendo desperdiçado. E se o Iverson não está pontuando sem pensar no resto da humanidade, que é aquilo que ele sabe fazer de melhor, para que serve tê-lo no time? Eis uma jogada típica do novo Pistons: Iverson vem armando o jogo, enfrenta seu marcador no mano-a-mano, dá alguns dribles, ensaia uma penetração, mas então passa a bola de lado seguindo o esquema tático que exige rotação de passes. Queimou-se então quase 10 segundos no cronômetro para nada, para a bola ser passada de lado, coisa que milhões de outros jogadores podem fazer por menos dinheiro - alguns até de graça, tipo eu - e com a vantagem de que não vão tacar na privada segundos preciosos num drible desnecessário. É o famoso "ou caga ou sai da moita", mas o Iverson é obrigado a ficar no meio termo. Se ele não ataca, o time fede e sente falta de seu talento para decidir; se ele ataca, o time deixa de usar todas as outras armas ofensivas que possui e desestrutura a química da equipe que funcionava há anos. Não dá pra vencer.

No Suns, a decisão era fácil. Até os reservas mais nada-a-ver, como o Goran Dragic, rendem muito mais correndo do que renderiam em milhares de anos de basquete cadenciado. Mas no Pistons, cada um rende em um esquema diferente e, não importa qual seja a abordagem tática, eles continuam sem ter um armador puro capaz de fazer a bagunça funcionar. No fim, quem acaba sofrendo mais é o Rasheed Wallace, que fica como cego no meio de um tiroteio. Preso num time subitamente sem identidade, tentando resolver o que fazer com suas quinhentas peças que não se encaixam, Rasheed não sabe o que fazer em quadra - e, em alguns jogos, parece que sequer se importa. Não consigo pensar numa troca tão desastrosa quanto essa do Billups pelo Iverson, e aí está um pé que estou engolindo. Para mim, um pontuador nato como o Iverson seria a resposta (sem trocadilhos, por favor) perfeita para um time que parecia falhar na hora de decidir jogos nos minutos finais contra times munidos de superestrelas. Na verdade, era justamente o contrário: sem a armação comedida de Chauncey Billups, o Detroit tornou-se um time sem resposta. Enquanto o Nuggets, que parecia um caso perdido, encontrou na armação aquilo que tanto faltava à equipe.

Espelhando-se no Suns que voltou à correria, talvez a única solução para o Pistons seja decidir por aquilo que beneficiará a maior parte do elenco. Não tenho dúvidas de que trata-se de um basquete lento de defesa forte, sem grandes estrelas ou individualismo, que rendeu ao Pistons um título da NBA não tanto tempo atrás. Iverson deve ir embora, mas com ele deveria partir Rodney Stuckey, figurinha repetida. Seria preciso um armador de verdade, retornar aos velhos tempos - mesmo que isso signifique perder para o LeBron, mesmo que signifique não ganhar um título. Às vezes, é melhor ater-se ao que o time faz de melhor do que feder por completo em todas as áreas, tirar o sapato apertado que tenta disfarçar o indisfarçável. É assim que o Knicks já igualou, nessa temporada, o número de vitórias que havia conseguido em toda a temporada passada. Não sabem defender e não vão arrumar um esquema que finja que eles são capazes nisso. Vão ganhar um título sem defesa? Diabos, provavelmente sequer cheguem aos playoffs. Mas o avanço já é alguma coisa: são cozinheiros chineses fazendo comida chinesa, são atrizes pornôs num bom filme das Brasileirinhas, quer a gente goste, quer não.

sábado, 3 de janeiro de 2009

A maldição dos ladrões de franquia

Eu sei que a foto é velha, mas meu senso de estética me
impede de mostrar a porcaria do novo uniforme



Que eles são ruins, todo mundo sabe. O Denis até desabafou um tempo atrás sobre seu desespero com o tamanho fedor do time. Mas, justiça seja feita, a equipe de Oklahoma City tem melhorado a cada jogo e já é um time completamente diferente desde a mudança de técnico. O problema, no entanto, continua: o time outrora-conhecido-como-Sonics caminha para uma das piores campanhas da história da NBA. Agora começo a suspeitar que o problema não é talento, tática ou esforço. É maldição. Estamos lidando com forças cósmicas transcendentais que estão punindo a equipe por ter saído de Seattle. E não me venha dizer que você não acredita em maldições cósmicas em pleno auge de "O Segredo", que conta até com versão da Ana Maria Braga (estou aguardando a versão audio-livro com a Bruna Surfistinha). Essa é uma época em que todo mundo explica superstição barata através de física quântica (mesmo sem fazer a menor idéia do que significa "física", e muito menos o que significa "quântica"), então é melhor você levar a sério esses papos místicos, senão você não será "in" e ninguém vai querer te adicionar no Orkut.

Quando o PJ Carlesimo foi demitido, seu time havia ganhado apenas um jogo e perdido outros 12. Quando o então assistente técnico Scott Brooks assumiu, tentou imediatamente implementar algumas mudanças que foram dando resultado. O novato Russel Westbrook virou o armador titular, Kevin Durant deixou de ser armador e passou a ser ala, Jeff Green virou ala de força, e com isso o time ficou obviamente mais veloz - e mais baixo. O pivô Robert Swift foi deixado de molho até estar com a saúde nos trinques e agora é titular, única presença realmente física na equipe. Outros jogadores de garrafão como Chris Wilcox e Nick Collison foram perdendo espaço, vindo do banco de reservas e jogando cada vez menos minutos. A idéia, aparentemente, é focar em quem vai ser o futuro da franquia e deixar os outros de lado. Desde o primeiro segundo no comando, Scott Brooks instituiu treinamentos longos, puxados e, acima de tudo, didáticos. A abordagem dele é bem escolar, preocupada em ensinar a pirralhada a adquirir fundamentos. Daqui a pouco o resto do elenco vai dar o fora de lá e só a criançada vai sobrar, então nada mais justo do que se concentrar neles mesmo. Seja como for, um núcleo com Westbrook, Durant e Jeff Green não é de se jogar fora, especialmente quando eles tiverem idade para dirigir e ganharem algum pelo na cara. O Robert Swift também tem potencial, mas como ele é um adolescente revoltado e um pouco "emo", talvez não sobreviva à puberdade.

Se a defesa da equipe não melhorou muito, o ataque pelo menos começou a entrar nos eixos. A melhora tem sido expressiva e, na base da correria, tem dado trabalho pra muitos times. O elenco mais baixo causa uma série de problemas para a marcação adversária, com alguém sendo obrigado a sair do garrafão para marcar Jeff Green, por exemplo. Mas ainda assim, o time de Scott Brooks só ganhou 3 partidas desde que ele assumiu, perdendo outras 18. O resultado é o fundo do poço, 4 vitórias e 30 derrotas ao todo.

É aqui que entra a maldição. Rá, vocês pensavam que poderiam deixar a cidade de Seatle sem um time? O sofrimento de todos aqueles torcedores que perderam sua grande paixão se materializou e começou a interferir com os jogos, quase como o Boneco de Marshmallow dos Caça-Fantasmas. A quantidade de vezes em que o Thunder quase saiu com a vitória mas falhou no final é assustadora. E isso sem falar das derrotas que vieram em cestas convertidas no último segundo. Então, vamos recapitular!

Logo no começo do trabalho de Scott Brooks com a equipe, eles perderam para o Suns por um pontinho graças a uma cesta de 3 pontos do Matt Barnes a 20 segundos do final. Foi a única liderança do Suns no segundo tempo, mas como Durant e Westbrook erraram dois arremessos que poderiam ter ganhado o jogo, se lascaram. Depois, teve a derrota por dois pontos para o Wolves graças a uma cesta no último segundo de Mike Miller, em resposta a uma enterrada de Durant que teria garantido a vitória. Então, perderam por 5 pontos para o Bobcats em noite inspirada de Okafor, por 6 pontos para o Heat num jogo que estava empatado nos minutos finais, por 9 para o Magic num jogo em que o Thunder tinha tudo pra ganhar até o quarto período, e por 6 para o Grizzlies numa virada histórica no último quarto, já que o time de Memphis chegou a perder por 21 pontos. O Thunder ainda perdeu para o Mavs por apenas 4 pontos, graças a 46 pontos do Nowitzki em noite espetacular - e pouco antes havia perdido para o Hawks graças a um triplo-duplo de Joe Johnson. No dia seguinte, perderam para o Spurs por 5 pontos, apesar de estarem vencendo o jogo com 30 segundos restando para o final da partida - o Thunder chegou a virar o jogo depois de estar perdendo por 26.

Pensa que acabou? Contra o Pistons, a derrota veio nas mãos de um arremesso incrível de Allen Iverson no último segundo:



Por fim, na sexta-feira teve reprise. Cesta de 3 pontos sensacional de Durant que daria a vitória à sua equipe apagada por uma cesta no segundo final de Carmelo Anthony. Vale a pena ver o vídeo pela reação da torcida de Oklahoma, totalmente desesperada:



A torcida está pagando o preço de ter arrancado o time que pertencia a outros torcedores. Eles roubaram uma uva que, magicamente, estragou bem na boca deles. O ex-Sonics pode fazer tudo certo, bater de frente com os grandes, deixar bons times no sufoco, mas tudo vai sempre dar errado no final, não tem jeito. É tipo o Clippers, mas com um uniforme mais ridículo.

Ainda assim, é curioso ver como os discursos de Nowitzki e de Tony Parker, depois de terem vencido o Thunder por pouco, eram extremamante parecidos: os dois disseram que o jogo foi feio mas que a vitória saiu. Parece que a pirralhada está jogando com vontade, criando problemas para as defesas adversárias e enfeiando o jogo. Isso é sempre um bom sinal, porque enfeiar o jogo - principalmente contra as melhores equipes - é marca dos campeões. O Cavs foi campeão do Leste apenas enfeiando todas as partidas, jogando mal pra burro mas fazendo os outros times jogarem ainda pior. Se o Cavs é uma gordinha, então eles faziam questão de tornar o outro time uma gordinha banguela. O Thunder não faz isso do mesmo modo que o Cavs, que dependia da defesa para tornar qualquer partida um espetáculo de estrume. Ao contrário, eles fazem isso através do ataque, do ritmo de jogo, forçando as outras equipes a entrarem na brincadeira, aumentarem a velocidade e cometerem trocentos erros - exatamente como o próprio Thunder, que corre, corre e depois faz merda.

Confesso que ando adquirindo um prazer mórbido em ver o time outrora-conhecido-como-Sonics jogar. É corrido, é intenso, é feio, é cheio de enterradas, de trapalhadas, de erros. É quase como o programa da Luciana Gimenes, uma besteira simples, veloz e sem sentido. E ainda dá pra contar sempre com alguma maluquisse acontecendo no final - na Luciana Gimenes, seria o Inri Cristo batendo no Toninho do Diabo; no jogo do Thunder, seria o outro time dando um jeito de vencer. Pela simples relação matemática entre minutos jogados e arremessos de último segundo convertidos, os jogos do Thunder já são uma atração à parte. Pode não ser pelos motivos mais nobres do mundo, mas a verdade é que eu recomendo. Tem o selo Bola Presa de qualidade, seja lá o que isso quiser dizer.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

O Atlanta Hawks não é mais piada

Joe Johnson é mala


E não é que o Atlanta Hawks é um time de verdade?

Estava esperando o jogo chave contra o Celtics para ter uma opinião mais bem formada sobre o Atlanta Hawks e apesar da derrota eles definitivamente ganharam muitos pontos comigo e com qualquer um que os viu jogar nessa temporada. Estão parecendo um time de verdade que vamos ver dando dor de cabeça pra muita gente nos playoffs.

Fazer julgamentos assim no começo da temporada é sempre perigoso, mas quem disse que a vida de blogueiro palpiteiro é fácil? Tem que se arriscar. Por exemplo, no ano passado vimos o Portland Trail Blazers ter um começo de temporada ótimo, 13 vitórias seguidas no meio do campeonato e depois vimos eles caírem na realidade de que eles não eram um time pronto para os playoffs.

Com o Hawks pode acontecer a mesma coisa, mas pelo jeito que eles estão jogando eu não acredito nisso. Meu embasamento vem de uma teoria que eu tenho de que ataques não são confiáveis mas que defesas são. Explico: todo mundo tem sua boa fase no ataque, volta e meia algum jogador bizarro tem uma sequência de 5 ou 6 jogos com pontuações fora do comum ou jogadores medianos tem uma temporada de boas marcas em pontos, isso acontece. No ano passado vimos um bom exemplo disso quando o Damien Wilkins começou a temporada fazendo quase 20 pontos por jogo e depois voltou ao normal, alguns anos atrás tivemos o Mike James com uns 19, 20 por partida e hoje ele se mata pra fazer meia dúzia no Hornets.

Como time temos o caso do Bulls. Em um ano eles eram uma máquina de arremessos certos, Hinrich, Deng e Gordon fizeram 4 a 0 no então campeão Miami Heat e eram o time do futuro. Aí todo mundo se deu conta de que não precisavam marcar o garrafão deles e era só contestar os arremessos e atacar as linhas de passe e já era o Bulls, nem para os playoffs foram.

Em resumo: jogadores medianos conseguem boas marcas ofensivas de vez em quando e times limitados conseguem, muitas vezes pelo elemento surpresa, marcar muitos pontos. Mas quando estes ficam conhecidos, perdem seu poder.

Enquanto isso, quem sabe defender sabe defender e pronto. Arremessadores costumam ter seus dias bons e ruins, defensores não têm esses problemas, quem defende bem, defende bem sempre e quem defende mal tá sempre tomando vareio (e aí Nash, beleza?). Por isso, times que defendem bem estão sempre com boas atuações defensivas, que muitas vezes salvam o time em dias ruins do ataque.

E o Hawks nesses primeiros jogos foi um ótimo time defensivo. Eles obviamente sentem falta do melhor jogador defensivo do time, o Josh Smith, mas eles aprenderam a não viver só dos tocos do Josh, eles defendem como um time, contestam arremessos e pressionam bastante os armadores adversários. O problema principal da equipe está apenas nos rebotes, já que é o time que mais sofre com rebotes ofensivos dos adversários (13,6 por jogo!) mas o número deve baixar com o passar dos jogos e com a volta do Josh.

O técnico do time, Mike Woodson, atribui essa melhora defensiva do time à série de playoff do ano passado contra o Boston, quando o Hawks levou o Celtics a 7 partidas.

"Eles sabiam, depois daqueles dois primeiros jogos em Boston, que era daquele jeito que o jogo deveria ser jogado. E então viemos para casa e jogamos do jeito que eles jogaram contra a gente. Foi uma ótima bagagem que trouxemos para esse ano porque eles sabem que foi a defesa que deu ao Boston a vitória e a única chance que nós temos é se defendermos e pegarmos os rebotes também."

As palavras dele dizem quase tudo, o Joe Johnson completou com algo também importante:

"Nós acreditamos na gente. Acho que aquela série contra o Boston realmente nos deu confiança. Nós olhamos todos os jogos com olhos diferentes agora. Estamos mais focados, mais intensos, mais em sintonia com o que está acontecendo à nossa volta."

A fórmula é simples: confiança no jogo + vontade de defender + aprender a defender é = a um time competitivo. Para completar a mistureba, faltava um ataque mais confiável. Afinal, no ano passado as opções de pontuação já eram poucas e nesse ano eles perderam Salim Stoudemire e Josh Childress.

A solução dos problemas começou com os próprios jogadores. O Bibby está parecendo mais o jogador que era nos tempos de Kings e está jogando muito bem no setor ofensivo, seja como organizador ou como pontuador, o Joe Johnson é hoje um dos melhores jogadores da NBA na posição 2, talvez atrás apenas de Kobe e Wade. E o Horford tem tido seus dias bons ofensivamente, ele ainda pode fazer 25 ou 5 pontos em um jogo, mas só por ter um topo de 25 já é uma melhora em relação ao ano passado.

Mas a grande mudança veio do banco de reservas. No ano passado o único impacto que o Hawks tinha do banco era o Josh Childress, que é um puta jogador, mas que nunca foi grande pela sua pontuação. Hoje, em compensação, eles têm o Mo Evans e o Flip Murray.

O Flip Murray não sabe jogar basquete, sabe fazer pontos. Simples assim. Nasceu para vir do banco, pegar a bola, meter uns 14, 15 pontos e voltar pro banco pra tomar Gatorade, o sexto homem perfeito.
Já o Mo Evans faz um trabalho defensivo ainda melhor que o Childress e se não tem a habilidade de criação de jogadas que o cabeludão, tem um arremesso de 3 muito melhor, o que nos leva a outro ponto muito interessante do Hawks.

Lembram um tempo atrás quando o Salim Stoudamire entrava no jogo só para chutar de 3? Eu lembro claramente (preciso achar os boxscores!) de jogos em que o Atlanta nem bola de 3 acertava. Mas hoje eles tem o melhor aproveitamento de bolas de 3 na NBA inteira! Nada de Suns, Nuggets, Warriors ou Orlando, a melhor marca é do Hawks.

São 42,4% de acerto nos arremessos com uma média de 9 bolas certas por jogo. Créditos para o Mo Evans, Flip Murray, Joe Johnson, Mike Bibby e Marvin Williams. Marvin Williams?

Até o ano passado o rapaz tinha um epíteto no nome. Tinha Alexandre, o Grande, Pepino, o Breve e Marvin Williams, o que foi draftado antes do Chris Paul. Mas hoje já consegue ser destaque no Atlanta e peça muito importante no ataque do Hawks. Nos 6 primeiros jogos da temporada ele chutou 11 bolas de 3 e acertou 8! Ontem contra o Celtics ele acertou todas as 4 que tentou, espetacular!

No jogo de ontem contra o Celtics deu pra ver tudo isso o que eu disse. Boa defesa, ataque forte, dividido entre bons jogadores, as bolas de 3, o Joe Johnson fora de série e tudo mais. Mas deu pra ver também que o Celtics faz tudo isso e faz um pouco melhor ainda. E que se Joe Johnson é um dos melhores jogadores da posição 2, o Paul Pierce é na posição 3. Vejam só o que ele fez no último segundo do jogo:





Oficialmente o Bola Presa deixa de transformar o Hawks em piada. Na hora de nos referirmos a um time medíocre, vamos usar o Thunder.

Exemplo: O Sasha Vujacic é muito ruim, mas seria titular no Thunder.

ou

Até meu time do colegial onde o Danilo era pivô ganhava do Thunder.

ou ainda

O Dwight Howard jogando ao lado de 4 anões pernetas venceria o Thunder.


Essa última afirmativa é até bem realista. Ontem o Superman Dwight meteu um triple-double contra o Thunder com alguns números dignos de um time inteiro: 30 pontos, 19 rebotes e 10 tocos. Para se ter uma idéia, os quatro titulares não chamados Duncan do Spurs somaram: 14 pontos, 1 toco e 13 rebotes.

A NBA deveria suspender o Johan Petro já que ele não teve a dignidade de se aposentar ontem à noite depois da partida.

Ontem ainda tivemos muitas outras grandes atuações. Brandon Roy e Rudy Fernandez jogaram muito contra o Wade, que fez isso. O Chris Paul fez um Dwight Howard dos pequeninos ao marcar 30 pontos e dar 13 assistências e o Kobe fez uma cesta fora do comum para selar a vitória do Lakers contra o Hornets. A bola, um arremesso dificílimo na cara do Posey, foi comentado depois pelo próprio Kobe:

"Eu só queria acertar um arremesso bem na cara dele."

O espírito olímpico ainda está presente em Kobe Bryant.

Mas entre tantas estrelas e atuações geniais e uma boa briga, vocês preferem o quê? Imaginando a resposta eu deixo o melhor para o final e aqui está o vídeo da treta entre o Rafer Alston e o Matt Barnes. Quem diria que o Artest não estaria presente na primeira briga do Rockets na temporada....



Detalhes legais do vídeo:

- O Barnes provocou e merecia uns tapas mesmo.
- O Nash ou é o pior separador de brigas da história ou foi lá causar mais confusão. Quem diria que ele é um brigão?
- O Shaq venceu a luta ao empurrar, em sequência, T-Mac, Yao e um grupo de umas 9 pessoas.
- No final o Yao afaga a cabeça do Alston como quem diz "bom menino". Tocante.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Das coisas que aprendi com a pré-temporada

"Não tá valendo nada? Então eu enterro a bola!"


Estava eu, criança, numa aula entediante de soma ou subtração, essas coisas de primeira série. A monotonia me consumia, não havia nada a fazer, nada com o que se divertir. Foi então que, do mais puro e simples tédio, puxei a trancinha da garota da minha frente, que gritou de dor - e passou a saber quem eu era. Foi assim que descobri o sexo, as garotas e como fazer para que notem que nós, homens, existimos. E tudo isso sem ter um carro, veja bem.

O aprendizado mais profundo, no entanto, era que havia a possibilidade de descobrir algo, de compreender algo, mesmo na mais completa e absoluta chatisse. O que isso tem a ver com basquete? Simples: a pré-temporada é simplesmente uma das coisas mais chatas que existem no mundo e, portanto, o lugar ideal para colocar em prática minha teoria. O que somos capazes de aprender apesar do tédio desses jogos que não valem nada?

Bem, a primeira coisa que todos os que assistem à pré-temporada compreendem é que seus vícios foram longe demais. Ser maluco por NBA é compreensível, mas tente manter sua paixão pelo esporte no instante em que LeBron James senta no banco de reservas ainda no primeiro quarto, a quadra fica tomada por anônimos sem talento, e você sabe que LeBron não voltará mais porque tem coisas mais importantes para fazer, tipo cutucar o nariz ou aparar os pêlos do suvaco. Continuar acompanhando o jogo de seu time favorito quando todos os jogadores de verdade sentam é prova de que você está exagerando um pouco. Assistir a Bucks e Wizards sem torcer para nenhum dos dois é uma lição importante de que você foi completamente consumido por seu vício. Ou que precisa urgentemente de uma namorada ou de um peixinho dourado, o que estiver mais à mão.

Outra coisa que aprendemos com a pré-temporada é não confiar na pré-temporada. Os minutos são fajutos, as rotações absurdas e as atuações não valem coisa alguma. Ainda assim, alguns números revelam detalhes interessantes e é necessário saber filtrá-los. Se um jogador faz 40 pontos em um jogo de pré-temporada, o que isso significa? É preciso muita calma, tato, talento e vontade de chutar usando pouco fundamento para saber ler nas entrelinhas o que está acontecendo. Por isso, usarei minha experiência de muitos anos assistindo a esses jogos insuportáveis que não valem nada para separar os jogadores em alguns tipos mais comuns e, aproveitando, dar uma olhada em como estão se saindo alguns jogadores nessa pré-temporada que está rolando agora.


O jogador-máquina

Alguns jogadores são máquinas de precisões matemáticas: possuem a mesma produção não importa o que aconteça, pode ser na pré-temporada, na temporada regular, nos playoffs, nas férias, na festa de aniversário do sobrinho. Exemplos não faltam, mas são em geral jogadores de garrafão que vêm do banco de reservas mas quando são titulares na pré-temporada mantém os mesmos números. Ou seja, são eternos reservas mesmo quando são titulares.

Como exemplo, podemos citar o Brandon Bass, do Mavs, com seus 12 pontos e 5 rebotes por jogo, o Carl Landry, do Houston, com 12 pontos e 6 rebotes, o Paul Millsap, do Jazz, com 8 pontos e 6 rebotes, e o Leon Powe, do Celtics, com 11 pontos e 3 rebotes mas salvando o Celtics em praticamente todos os jogos até agora com cestas decisivas e lances livres nos segundos finais. Ou seja, igualzinho na temporada regular.


O astro de pré-temporada


Alguns jogadores só gostam de jogar pra valer quando não está valendo nada, o que é uma inversão bizarra de valores. É como se eles fossem muito tímidos e só pudessem mostrar o real talento quando ninguém está olhando (todos eles deveriam, então, ir jogar no Grizzlies - ninguém assiste uma partida sequer deles). Esses jogadores já são figurinhas carimbadas, todo mundo sabe com antecedência que eles vão destruir quando não servir pra nada.

Os mais clássicos membros dessa categoria são o Louis Williams, do Sixers, que está com 16 pontos por jogo, o Belinelli, do Warriors, com 11 pontos por jogo, o Aaron Brooks, do Rockets, com 12 pontos e 4 assistências, e o Tony Allen, cestinha do Celtics com 15 pontos por jogo. Quando o negócio esquenta eles vão sempre esquentar o banco, mas na pré-temporada chutam traseiros. Aí fica todo mundo comentando como dessa vez eles vão explodir pra valer, fazer estrago, ganhar minutos. Rá, tem gente que não aprende, é tipo os manés que acham que o Gugu ainda vai roubar minutos do Silvio Santos.


O "Agora vai"

A diferença entre o "Astro de pré-temporada" e o "Agora vai" é uma questão de fé e de experiência. Da primeira vez que o Aaron Brooks destruiu, eu (como bom torcedor do Houston) gritei "aê, agora vai!", só que não vou cair no mesmo truque duas vezes. Todo jogador com potencial e que mostre sinais de que pode ser bom mas nunca tenha feito nada se encaixa nessa categoria quando vai bem na pré-temporada.

O chinês Yi Jianlian, agora no Nets, está com média de 16 pontos por jogo, por exemplo. Além dele, David Lee está com absurdos 20 pontos e 12 rebotes por jogo no Knicks, o Mike Conley está finalmente armando alguma coisa no Grizzlies com 11 pontos, 5 rebotes e 4 assistências de média, e o Bargnani está com 14 pontos e 5 rebotes por jogo pelo Raptors. Até o Zach Randolph se encaixa aqui, mas não pelos 18 pontos e 11 rebotes por jogo, coisa que ele sempre fez. O nosso gordinho favorito cabe aqui porque está se saindo muito bem em quadra, correndo pra burro e se diz apaixonado pelo esquema de jogo do D'Antoni. Acho que agora vai!

Alguns parecem que finalmente vão mas não convencem tanto assim, tipo o Nenê com 10 pontos e 7 rebotes de média, o Sergio Rodriguez no Blazers com 9 pontos e 8 assistências por jogo e o Stuckey no Pistons com 11 pontos e quase 5 assistências de média. Os números são bons, o Nenê vai ser titular e o Stuckey deve ter minutos de titular, então parece que a coisa vai engrenar para os dois. O Rodriguez até pode se tornar o armador reserva, veja que honra. Mas o Nenê nunca ficou saudável, o Pistons fica completamente perdido com o Stuckey armando o jogo e o Blazers tem quinhentos jogadores por posição, fica difícil botar muita fé nos três.


O "Quem diabos é você?"

Na pré-temporada sempre surge uns carinhas aleatórios com atuações épicas, andando sobre a água, multiplicando pães, com números absurdos, mas você nunca ouviu falar nos sujeitos. Alguns têm nomes feitos para te enganar, tipo "B. Wallace", e você só percebe que o "B" é de "Bruno" e não de "Ben" ao notar que o cara acertou vinte bolas de 3 pontos ao invés de dar 20 tocos. O mais engraçado sobre esses caras é que, não importa quão bem eles joguem, não vão arrumar espaço num time nunca. Acho que todo mundo pensa "se eu não conheço o cara, ele não deve ser bom o bastante" e então ficam todos desempregados, desmoralizados e indo de um lado para o outro em busca de gana - tipo a bunda da Gretchen.

Os casos mais recentes são o Von Wafer, com média de 12 pontos por jogo e que dia desses acertou meio milhão de bolas de 3 pontos num jogo, o Bobby Brown, com 15 pontos e 3 assistências por jogo mas que não foi nem draftado em 2007, e o Mike Taylor, a quinquagésima quinta escolha do draft desse ano, que está com incríveis 18 pontos e 5 assistências por jogo. O Mike Taylor foi assinado pelo Clippers e vai ter um emprego nessa temporada, mas como ninguém tinha ouvido falar dele até ontem, a lógica de pré-temporada é que ele desapareça em breve, talvez engolido por leões.


O "Eu fedo até na pré-temporada"

Alguns jogadores mostram a verdadeira face na pré-temporada. Na temporada regular o cara parece bom e você acha que ele pode até ser genial um dia, mas aí quando enfrenta um monte de adversários meia-boca na pré-temporada, fede. Isso significa que o cara não consegue ser genial nem contra os melhores jogadores nem contra os piores, e aí a coisa começa a ficar feia.

Apesar de adorar o Luol Deng e dele ter chutado traseiros jogando pela Inglaterra nas férias, seus 11 pontos e 5 rebotes de média em exorbitantes 33 minutos por jogo (deve ser recorde de pré-temporada) mostram que ele não será um jogador dominante e que o contrato do Bulls foi, no mínimo, exagerado (evitei usar uma palavra escatológica aqui). Além dele, tem o Mo Williams mostrando que ele arremessa como um débil mental não importa quem sejam os adversários, e seu aproveitamento está em 30%. Ou seja, não dou nem 5 jogos quando estiver valendo para o LeBron dar umas porradas nelel. E tem também o Granny Danger (muito mais legal do que Danny Granger e algo que o Chapolim "não priemos cânico" adoraria dizer) acertando 15% dos seus arremessos, mostrando que o futuro do Pacers está em boas mãos mas em péssima mira. Mesmo caso do Ramon Sessions, que fez tanto sucesso no final da temporada passada dando milhares de assistências pelo Bucks, mas que na pré-temporada está acertando 21% dos arremessos e vai perder a vaga para o Ridnour, que fede mas que está com 9 pontos e 8 assistências de média, uma boa enganada.


O "Eu engano bem"

Pré-temporada é o momento em que uns malucos recebem carta branca para fazer o que quiser. O Mike James, por exemplo, está chutando o quanto quer e anda com 15 pontos de média. O JR Smith, por sua vez, é o cestinha do Nuggets com 18 pontos por jogo. Quem não conhece os dois acha até que eles são sujeitos bacanas e quer chamar os dois para uma cerveja, sem saber que assim que chegarem no bar eles vão tentar arremessar você dentro dos copos. Quando são as estrelas do time, se saem muito bem, mas na hora de jogar num time de verdade, ainda acham que são as estrelas - é um tipo de altismo. Para eles, a vida é uma eterna pré-temporada, hora de chutar muito e pensar pouco. O JR está acertando 21% de seus arremessos de 3 pontos, justo algo que deveria ser sua especialidade.


A cobaia

Alguns jogadores são colocados no meio de uma experiência bizarra e precisam usar a pré-temporada para se acostumarem com seus papéis. Não dá pra saber se o cara vai ser um bom jogador ou não através desses jogos, mas dá pra ter uma idéia se o cara está se acostumando com sua função.

O Devin Harris, por exemplo, está tendo que manter a bola nas mãos como um armador de verdade no Nets, o que não anda dando muito certo - são 4 desperdícios de bola por jogo. O Duhon está sendo obrigado a tornar-se o novo Nash, e apesar dos 12 pontos e quase 6 assistências, está perdendo a bola quase 5 vezes por jogo, inaceitável. O Bynum teve que tentar jogar ao lado de Gasol, e depois jogar vindo no banco, e depois sozinho, e depois com um anão de biquini, e com 10 pontos, 7 rebotes e 1 toco de média, parece que está tudo bem. Matt Barnes, que pra mim foi uma bela sacada do Suns, se encaixou muito bem no estilo do time e tem 11 pontos, 7 rebotes e 3 assistências por jogo. Outro que se deu bem é o Turiaf tendo que correr a quadra toda, até assistências o francês começou a dar. O único problema é que, com 3.3 assistências por jogo, ele é o líder da equipe no quesito. Ou seja, o negócio tá ruim.


O novato

Vamos ser sinceros, a gente aguenta os jogos chatos de pré-temporada porque fica morrendo de vontade de ver os novatos jogarem um pouquinho e ter alguma noção de como serão quando a coisa estiver valendo. Alguns novatos chutam traseiros mas nunca mais vão entrar em quadra porque não terão espaço, jogarão poucos minutos ou simplesmente vão desaprender a jogar. É difícil encaixar novatos nos outros grupos anteriores, então é melhor falar deles aqui, vendo cada caso.

O pivô Brook Lopes, do Nets, está com médias de 8 pontos, 11 rebotes, 2 roubos e 2 tocos. Os roubos são surpreendentes, o resto é mais do que sólido, e se ele não for titular é porque o técnico Lawrence Frank come meleca. Seu irmão, o Robin Lopez, está mostrando a veia defensiva com quase 3 tocos por jogo, mas está se mostrando um estabanado em quadra e comprometendo um pouco o Suns no ataque. Já o OJ Mayo, do Grizzlies, está com 14 pontos por jogo, o que era esperado, mas os dois roubos de bola por partida são um brinde extra. Seu companheiro de equipe, o Marc Gasol (também conhecido como "o Gasol que comeu demais"), até que não está fedendo tanto quanto eu imaginava, com 9 pontos e 5 rebotes. Já o Derrick Rose está fedendo como eu imaginava, embora mesmo assim seja espetacular: são 10 pontos e 6 assistências por jogo, mas quase 5 desperdícios de bola também. O Chalmers também tá fedendo um pouco, são apenas 3 assistências por jogo e a vaga de titular já era, deve ficar nas mãos do Marcus Banks. Com 10 pontos e 4 assistências, o Banks é candidato a "agora vai" mas está mais para "eu engano bem". Ele deve armar para o Beasley, que vai vir do banco porque não sabe defender mas que deve manter uma produção alta como na pré-temporada, em que tem 16 pontos e 8 rebotes de média, tudo enquanto boceja e coça as costas.

Dos que realmente surpreenderam tem o Roy Hibbert, pivô do Pacers com 12 pontos e 2 tocos de média, algo que ele deve ser capaz de manter porque em Indiana ninguém levanta os braços, a não ser em assalto. Outro pivô, o JaVale McGee, também deve ter muitos minutos porque o titular do Wizards, o Brendon Haywood, deve ficar de fora da temporada com uma contusão (sim, eles são mesmo o novo Clippers). Por enquanto ele foi muito bem, com 12 pontos e 6 rebotes por jogo.

E por falar em contusões, o Nicolas Batum, um dos cem alas disputando minutos no Blazers, deve ser o titular depois de atuações sólidas na pré-temporada e uma ajudinha do destino, que contundiu o Martell Webster. Quando eu analisei as possíveis escalações do Blazers, nem sonhei com o Batum, que supostamente deveria estar cru demais. Mas com 8 pontos por jogo, acertando mais da metade de seus arremessos, além de 1 roubo e quase 2 tocos por jogo, ele tem tudo para ser o ala defensivo que começa o jogo e senta logo para o Rudy Fernandez entrar.

...

Dá pra acreditar nos números? Não. Dá pra acreditar na virgindade da Sandy? Não. Mas dá pra ter uma noção de quem pode produzir, quais serão os papéis, quem deve se tornar titular e quem arrumará um lugar na rotação, mesmo que vindo do banco de reservas. Dá pra ver quem não consegue dominar nem quando a competição é fraca, quem tenta mostrar serviço, quem preferia ir ver o filme do Pelé. Dá pra ver que se você assiste demais essas partidas com gosto de chuchu, tem problemas. E se você vai atrás dos números dos jogadores da pré-temporada para fazer um post para o seu blog, precisa de ajuda médica. Urgente.

Mas, em breve, começa a temporada de verdade. Dê uma olhada nos jogadores acima e desista de assistir esses jogos porcarias, leve a namorada para sair, assista a uma peça de teatro, solte pipa e estude grego, porque em breve a coisa começa de verdade e você não terá tempo para essas coisas de gente normal. Arrume desde já um jeito de ler o Bola Presa até mesmo no banheiro. Eu avisei.