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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O que fazer com Dwight Howard


Dwight Howard tem cosquinha

Minha relação com o Dwight Howard é cheia de altos e baixos: já cansei de criticar o pivô pela falta de evolução no seu jogo, mas já cansei de babar pela sua recente capacidade de mudar os rumos de uma partida sozinho. Tem sido assim entre nós mesmo antes dele entrar na NBA: com os relatos de olheiros antes do seu draft, fiquei preocupado com os avisos de que ele era muito sério e religioso, mas assim que se acostumou com as quadras da NBA fiquei fascinado com o modo como ele se diverte em quadra. Sua capacidade atlética sempre foi impressionante, mas o avanço de aspectos básicos do seu jogo é mais lento do que o Ilgauskas correndo embaixo d'água.

Hoje em dia, mesmo com nossa relação de novela mexicana, já não posso mais negar que Dwight Howard seja o melhor pivô da NBA, independente de quais defeitos possa ter em quadra. O que eu posso negar, e com prazer, é a função de Dwight nesse Orlando Magic e as premissas básicas do time. Por isso é que, antes de mais nada, é importante colocarmos na mesa as facilidade e as dificuldades do pivô para sabermos como funciona a parceria entre o Magic e ele.

Pra começar, Dwight Howard não é um grande defensor individual. Quando outros pivôs jogam de costas para ele, Dwight é facilmente enganado, comete muitas faltas e tem certa dificuldade em manter sua posição. Mas com sua capacidade atlética alienígena e velocidade lateral absurda, é um excelente defensor na cobertura, bloqueando ou ao menos alterando grande parte dos arremessos de jogadores que partem em direção à cesta ou que passaram pelos outros defensores. Não vou entrar nos méritos do Dwight merecer ou não o prêmio de melhor defensor da NBA, basta apenas que entendamos que ele joga bem um tipo de defesa e é bastante fraco em outro. Cabe ao Magic, portanto, saber explorar isso. Jogadores grandes mas pouco atléticos, como Yao Ming era, são excelentes para defender o aro quando o resto da equipe afunila a defesa em dua direção. Dwight, ao contrário, é excelente quando a defesa não leva os jogadores para ele, permitindo que ele venha do lado oposto para bloquear os arremessos. Disso percebemos que o Magic se beneficiaria de uma defesa por zona que permitisse ao Dwight se movimentar para os dois lados do garrafão cobrindo os outros defensores. Não é o que acontece no Magic dos últimos anos.

No ataque, o Dwight é uma força da natureza (como um tsunami ou a Alinne Moraes) quando briga por rebotes ofensivos e pontua em seguida, quando recebe passes logo abaixo da cesta ou então acima do aro, e quando recebe a bola em movimento após fazer um corta-luz na cabeça do garrafão. Nessas situações o pivô pode usar sua explosão, pular por cima de seus defensores ou então ganhar espaço com sua força física antes de pular para pontuar. Quando está de costas para a cesta, ou com um pé para fora do garrafão, aí ele encontra sua kryptonita: seus insistentemente treinados arremessos usando a tabela não são nem um pouco confiáveis, seus movimentos batendo em direção à cesta geram muitos desperdícios de bola e acima de tudo lhe falta uma visão de jogo capaz de passar a bola para o perímetro quando a marcação aperta. O que concluímos com isso, crianças? Que isolar o Dwight Howard com um pé fora do garrafão é furada, que ele não pode ser o principal foco do ataque, e que é verdadeiramente efetivo quando recebe bolas apenas quando bem posicionado abaixo do aro ou nos rebotes ofensivos.

No entanto, esse Magic não foi criado com isso em mente - e mesmo assim tem tido enorme sucesso, o que é assustador. Vale uma breve retrospectiva: quando Dwight começou a ser fodão, especialistas começaram a dizer que faltava apenas um grande arremessador de três pontos para tornar o Magic um forte candidato ao título. Com isso em mente os engravatados começaram a investir em vários jovens arremessadores e ofereceram uma grana absurda para o Rashard Lewis, na época um excelente arremessador que segurava o Sonics nas costas junto com o Ray Allen. O contrato de 124 milhões por 6 anos foi absurdo, mas as equipes pagam qualquer coisa por aquela última peça que finalmente levará o time ao anel de campeão. Na temporada seguinte à chegada do Rashard Lewis, o Magic foi campeão do Leste, mesmo com o Rashard não jogando lá grandes merdas, e perdeu para o Lakers na grande final. Com um jogador dominante no garrafão e bons arremessadores, faltava então um jogador capaz de criar o próprio arremesso para decidir os jogos no final, tarefa que Dwight não conseguia executar. Contrataram o Vince Carter, que havia transformado sua imagem na liga, e que era capaz de dar os arremessos finais. Mesmo com o Carter atrapalhando o ritmo da equipe às vezes e não tendo medo de dar uns arremessos idiotas, o Magic chegou na final do Leste de novo e perdeu para o Celtics.

O Magic não insiste nunca no mesmo erro, sempre muda alguma coisa. Trocaram então por Jason Richardson e Gilbert Arenas, fortalecendo o perímetro e em busca sempre de alguém capaz de criar o próprio arremesso. Aí o time foi um desastre, perdeu na primeira rodada dos playoffs passados, e pior de tudo é que foi para o Hawks, que nem é uma equipe de basquete de verdade.

A equipe de Orlando tem bagos de jumentinho, sem medo de arriscar, de contratar, de trocar. Percebe suas falhas e tenta conseguir peças que arrumem o que está quebrado. Mesmo com alguns problemas óbvios, conseguia chegar longe nos playoffs porque é um baita time, mas isso não basta. Ao chegar na Final da NBA mas perder feio feio, resolveu colocar tudo em risco para aumentar sua chances de título. Não é um time disposto a ficar no "quase". Genial, ponto pra eles, eu também queria ter oito testículos quando eu crescer. O único problema é que eles mudam tudo, menos a base em que a equipe foi formada: um jogador forte no garrafão que abra espaço para arremessadores. E o Dwight Howard não é o jogador ideal para esse estilo de jogo pelos motivos que vimos acima: dificuldade em colocar a bola nas mãos dos arremessadores e dificuldade de criar pontos de costas para a cesta.

Como resultado disso, temos um time que usa demais os arremessos de três pontos. Quando a bola chega no Dwight e gera desperdícios (ou então, cada vez mais frequentemente, lances livres errados porque todo mundo aprendeu que é melhor encher o Dwight de porrada), o elenco perde o ritmo e começa a despencar no placar. É normal que o perímetro então acabe segurando a bola, esperando o momento certo de um chute de três, acione pouco o Dwight e acabe até perdendo as melhores chances de usar o pivô, quando ele consegue espaço abaixo do aro, afinal os jogadores são todos arremessadores e não armadores capazes de reagir às defesas. É um efeito dominó: bolas de três pontos são inconstantes, podem vencer um jogo ou perdê-lo de um minuto para o outro, e não são o arremesso certo quando você precisa de uma bola de segurança em um jogo disputado nos playoffs. Como todo mundo no Magic está focado nos arremessos de três, o Dwight se acha o mais indicado para essa "bola de segurança" e portanto quer receber a bola no final dos jogos, quer ser mais acionado no ataque, quer ser o foco ofensivo. Quando isso acontece, no entanto, o resto do elenco fica lá no perímetro olhando e o Magic perde sua maior arma, que são os arremessos de longe.

O Dwight está de saco cheio, já há duas temporadas dizendo que não é usado ofensivamente como gostaria. Mas nas vezes em que foi usado, o Magic se desmonta e é um time muito mais frágil, que comete muitos erros, de ritmo truncado e sem jogo no perímetro. Nesse modelo, o Dwight sempre vai estar descontente: ou ele recebe pouco a bola e o time ganha mas é inconstante, ou ele recebe mais a bola e o time é mais fácil de ser vencido.

Contra equipes com garrafão muito fraco, como o Houston, o Bobcats ou o Raptors atuais, o Dwight pode vencer o jogo sozinho numa boa, como fez nessa temporada. Mas contra as equipes de garrafão mais forte, e por 7 jogos no caso dos playoffs, o Dwight simplesmente não pode receber a bola constantemente no ataque sem sua equipe ser punida duramente. As derrotas do Magic até agora na temporada  vieram para a marcação do Kendrick Perkins e ontem para o Pistons, com Ben Wallace e Jonas Jerekbo.
Mas o Dwight Howard está descontente ao ponto de pedir para ser trocado. Se quiser, o pivô pode encerrar o seu contrato ao fim dessa temporada e aí dar o fora para um lugar em que ele se sinta mais querido e melhor utilizado no ataque. O que o Magic pode fazer então?

A situação é ainda pior porque o trauma de perder Shaquille O'Neal ainda é fresco na carne. Draftado em 1992, Shaq levou o Magic para uma final da NBA (em que perderam feio para o Rockets de Hakeem) e para uma outra final do Leste (em que perderam feio para o Bulls de Jordan). Depois disso, em 96, o contrato de Shaq terminou e ele se pirulitou para o Lakers onde julgava ter mais chances de título e supostamente não teria que dividir o papel de líder da equipe com ninguém (no Magic, havia um jovem Penny Hardaway). O Magic levou uma década para se recuperar da saída do Shaq, e foi justamente com a chegada de outro pivô dominante e bonachão, que os levou de novo a uma derrota na final do Leste e outra na final da NBA. Coincidência? E você que pensava que o mundo real não era igual a novela da Globo...

Manter o Dwight a todo custo, tentando convencê-lo de que esse elenco atual pode ser campeão em breve,  é o que o Magic decidiu fazer. Ignorou seus pedidos de troca, estreitou a comunicação com o jogador, e está focado na atual temporada. Mas e se der tudo errado e o Dwight der o fora ao fim da temporada? E se o Dwight fizer o que fez Shaquille O'Neal, ou LeBron James com o Cavs, que foi um trauma mais recente? O Magic fica sem nada a não ser um bizarro elenco formado apenas de arremessadores. Para evitar esse tipo de coisa é que o Nuggets trocou Carmelo Anthony e o Hornets trocou Chris Paul, ninguém quer sair com as mãos abanando como saiu o Cavs.

O Magic só tem duas coisas que pode fazer. A primeira é trocar o Dwight até a data limite permitida para trocas na NBA, que será 15 de março nessa temporada. Ofertas por ele já estão na mesa, especialmente uma do Nets que incluiria o jovem pivô Brook Lopez. Outras ofertas devem aparecer, especialmente de times novos e ruins, mas o Dwight pode dizer que não assinará contrato com essas equipes, e aí o Magic não conseguirá trocá-lo. O pivô já avisou que gostaria de ir para os times de sempre, Knicks e Lakers, mesmo se esses times não tiverem nada especial para mandar em troca. É claro que as duas equipes podem esperar o contrato do Dwight acabar para que ele vá para lá por livre e espontânea vontade, mas sempre há a chance de um time aleatório conseguir uma troca e convencer o Dwight a ficar, como aconteceu com o Clippers e o Chris Paul. O Magic pode esperar até a data limite para que times desesperados façam melhores ofertas, mas se nada bom surgir é possível que Knicks e Lakers não mandem nada esperando que o Dwight vá para lá sozinho na temporada que vem.

Outro problema de trocar o Dwight é que o Magic não é uma equipe em reconstrução, pelo contrário, é uma equipe preparada para disputar títulos imediatamente. O Magic está atolado em contratos longos com jogadores secundários e arremessadores, tudo na crença de que o Dwight fique para sempre como força no garrafão. Sem Dwight, o que fazer com esse monte de jogador mais-ou-menos e essa coleção imensa de arremessadores? É por isso que faria sentido para o Magic não trocar por pirralhada, como é o costume, mas sim por outra presença no garrafão - talvez uma que até se adeque mais a esse esquema "isolar um pivô lá embaixo para abrir espaço para os arremessos". Andrew Bynum seria perfeito (embora oficialmente o Lakers diga que nunca, nunca, nunca ofereceu Bynum por Dwight) e, para mim, Brook Lopez seria fantástico nesse esquema. Ele sabe criar o seu espaço, tem um arremesso de média distância completamente mortal, e poderia ser isolado ali com um pé para fora do garrafão onde o Magic insiste em isolar o Dwight. Na defesa o Brook Lopez é muitíssimo pior, quase medonho, mas se sairia muito bem no esquema atual do Magic de só usar o pivô como um cara grande lá embaixo para intimidar as infiltrações. A oferta do Nets parece permitir que o Magic mantenha o esquema atual, as chances de título, e o Brook Lopez até se encaixa melhor nessa bagunça que o Magic quer fazer. O maior obstáculo para essa troca é que o Brook Lopez quebrou o pé direito e deve voltar muito próximo da data limite para trocas - mas andei lendo por aí que ele não deveria voltar antes de junho, e que se estiver em quadra antes será algo perigoso e forçado apenas para tentar a tal troca pelo Dwight. O Magic teria que trocar sabendo que essa temporada foi pro saco, que o Brook Lopez não está em condições. Se for pra fazer isso, então é melhor trocar agora mesmo, imediatamente, e jogar a temporada no lixo mesmo em busca de uma escolha de draft.

Se não trocar o Dwight, que é outra opção possível, o Magic precisa ir longe nos playoffs para provar para o pivô que ele está no lugar certo. Como fazer isso? Muita coisa precisa mudar. A primeira, e mais óbvia, é instaurar uma defesa por zona constante, o tempo todo mesmo, que permita ao Dwight ser verdadeiramente a maior força defensiva da NBA. Mesmo que leve uma temporada inteira para que ela funcione direito, seria algo mortal nos playoffs - e seria particularmente eficaz contra o Heat, atualmente o pior time em aproveitamento contra essa defesa. No ataque, todo o foco precisa mudar. O Dwight não deve mais ser isolado, e a bola não deve ficar girando no perímetro. O Magic precisa virar um time de pick-and-rolls constantes, como era o Suns de D'Antoni, com Jameer Nelson e Turkoglu atacando a cesta sem parar com corta-luz do Dwight, e soltando a bola para ele quando o espaço existir. Os arremessadores de três estarão a postos para o espaço criado pelo pick-and-roll, e não pelas movimentações de costas do Dwight Howard. Ryan Anderson é melhor do que o Rashard Lewis jamais foi nessa equipe e precisa ser envolvido no ataque, com jogadas para ele e o Dwight apenas nos rebotes. É uma mudança bem drástica de estilo de jogo, o Dwight precisa topar não ser isolado o tempo todo, mas vai perceber logo que receberá bem mais a bola do que jamais imaginou se seu jogo se concentrar em corta-luz na cabeça do garrafão. Resumindo: para o Magic ter reais chances e ter alguma chance do Dwight ficar, é preciso mudar de técnico. Adeus, Stan Van Gundy, você fede. Se o seu estilo de jogo continuar sendo executado, é melhor você se acostumar com a ideia de executá-lo com o Brook Lopez. Com o Dwight, o negócio é esse: defesa por zona e corta-luz. O resto pode até levar a equipe a uma outra final da NBA, mas de uma coisa temos certeza: não será o bastante.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Anistia Já!

-Querem que eu fique? Mesmo?


O novo CBA ainda não foi oficialmente assinado, donos e jogadores ainda estão votando no que eles chamam de B-List, uma lista de pequenas coisas que não são importantes o bastante para quebrar o acordo, mas que precisam ser feitas para que tudo dê certo. Coisas como doping, por exemplo. Pois é, em um locaute regido pelo dinheiro, doping é questão secundária. De qualquer forma, a votação pode acabar já amanhã.

Mas algumas coisas, relacionadas à grana, claro, já foram decididas. Uma delas é a tal cláusula de anistia, muito comentada nos últimos dias. É essa regra que vem ditando quais times podem ou não entrar em disputa por Free Agents, logo é importantíssima nesse período frenético de contratações. Vamos explicar aqui alguns detalhes dela, começando por citar um post nosso que fala da última vez que essa regra foi válida, em 05-06.

"A regra foi adotada logo antes da temporada 2005-06 e permitia que os times dispensassem alguns jogadores e assim tirassem os seus salários da contagem das multas. O time continuaria pagando o jogador normalmente (mesmo ele sendo dispensado e atuando em outro time) mas esse salário não contaria no teto salarial.

Por exemplo, o Dallas Mavericks dispensou o Michael Finley, que na época ganhava por volta de 17 milhões por temporada. Continou pagando os 17 milhões para o Finley mas não pagava os outros 17 milhões que pagava de multa por esse salário ultrapassar o limite aceito pela liga. Foi uma baita economia mas que lhes fez perder o Finley para o Spurs. Em San Antonio ele ganhava os seus milhões do Mavs e mais um salário mínimo do Spurs.

A regra ganhou o nome de Allan Houston porque diziam que ela havia sido criada para beneficiar o Knicks, que na época pagava um dos maiores salários da NBA, cerca de 20 milhões de dólares por ano, para o armador que estava sempre machucado. Os gastos com multas eram enormes no Knicks, que na época tinha a maior folha salarial da NBA, beirando os 100 milhões de dólares. Porém, quando chegou a data de anúncio dos jogadores dispensados sob essa regra, o Knicks decidiu manter o Allan Houston e dispensar o Jerome Williams. Mesmo assim o nome pegou e podemos dizer que o Allan Houston não usou da regra Allan Houston."

A aprovação dessa regra pelos donos é uma grande prova de que eles não estão tão preocupados assim com os salários altos dos jogadores. Queriam mesmo era recuperar a porcentagem do BRI e o resto era menor. Afinal, dá para pensar numa regra que incentive mais a gastança? Você continua pagando um jogador caro, mas não usa mais ele e abre espaço para pagar mais por outro. Tá bom que em casos extremos, como era o do Mavs no exemplo do Michael Finley, você acaba gastando a mesma coisa, apenas com jogadores ao invés de multas. Mas não é o mesmo para os times abaixo do tal luxury tax, o limite das multas.

A regra da anistia já foi notícia essa semana porque o Portland Trail Blazers disse que já se decidiu e vai dar mais uma chance ao Brandon Roy. Ao invés de dispensar seu jogador de maior salário e segundo pior joelho, atrás apenas de Greg Oden, decidiram esperar pelo menos um ano para ver se ele consegue render pelo menos um pouco. O uso ou não da anistia era essencial para saber se eles teriam espaço salarial para assinar o Nenê, por exemplo.

Já o New York Knicks está com a mão coçando para usar a anistia no Chauncey Billups e abrir dinheiro para contratar alguém, possivelmente Tyson Chandler. O Washington Wizards, contra todos os prognósticos e reeditando o caso do Allan Houston, disse que não deve usar no Rashard Lewis. Já o antigo time do ala, o Orlando Magic, pode decidir usar ou não em Gilbert Arenas dependendo no que isso beneficia eles na busca por segurar Dwight Howard na franquia. No Cavs, Baron Davis é forte candidato a ser anistiado, assim como Travis Outlaw no Nets.

O uso dessas regras é importante também porque favorece muito os times que estão no topo da NBA, o que contraria o tal desejo dos times de uma liga mais igualitária, outra bobagem propagada nos tempos de locaute. Isso porque a anistia atinge jogadores de salário alto, que geralmente são veteranos, jogadores que passaram da fase de ter nome, ganhar dinheiro e que agora só querem estar em um time competitivo. Então se todos esses jogadores forem anistiados podemos ver eles topando salários ridículos, mínimos de veterano, para ir para o Miami Heat, Dallas Mavericks ou Los Angeles Lakers. Já estão ganhando seu salário gigante do ex-time mesmo, dá pra fazer um sacrifício de faturar só 1 milhão de dólares extra para ganhar um título.

É importante também conhecer algumas especifidades da regra da anistia antes de cobrar coisas do seu time:

1. A anistia não ficará disponível durante toda a temporada. Os times terão um período de sete dias, antes da temporada começar, para decidir se usam ou não. Depois disso acabou. Ainda é possível que ela seja aberta anualmente durante a offseason, mas isso ainda não ficou claro. Em 2005-06 ela foi usada apenas uma vez, sem repetição até essa de agora.

2. A regra da anistia só pode ser usada em contratos que o time já possui. Não adianta um time topar uma troca pelo Gilbert Arenas ou Hedo Turkoglu com o Orlando Magic pensando em usar a anistia em um desses jogadores, só o Magic pode fazê-lo.

3. O salário do jogador cortado não contará mais para o teto salarial, mas conta para o piso. Ou seja, o Washington Wizards, que tem uma folha salarial baixa, pode dispensar o Rashard Lewis sem se preocupar em ficar abaixo do piso salarial exigido pela NBA. E para os que não sabiam: Sim, a NBA tem um piso salarial (49 milhões de dólares) para que não exista um time que junte apenas uns 12 jogadores com salários mínimos.

4. O time que contratar jogadores anistiados terão que oferecer um contrato da mesma duração do que o jogador já tinha antes. Ou seja, se o Wizards dispensar o Lewis, quem o pegar terá que oferecer um contrato (de qualquer valor) de pelo menos 2 anos. Se pegarem o Roy, de 4 anos, porque é o que resta do seu contrato atual.

Acho que agora tudo ficou mais claro sobre essa regra. Talvez já na semana que vem os times possam começar a anunciar oficialmente quem eles vão dispensar e isso vai agitar o mercado de Free Agents. Estaremos aqui para analisar todas as mudanças.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Bagos gigantes

Sam Cassell mostra o tamanho das bolas do Magic, 
que trocou dois de seus jogadores titulares

O Magic sempre mostrou que é um time disposto a arriscar. Quando o elenco parecia ter futuro e os comentários eram de que, com um grande arremessador de três pontos, eles seriam capazes de lutar pelo título, juntaram todas as moedinhas e ofereceram tudo que tinham disponível para o Rashard Lewis - na época um dos arremessadores mais badalados da NBA. O contrato foi ridículo, somando 124 milhões de dólares em 6 anos, e dá pra ter ideia do absurdo fazendo uma visita a esse site aqui, que calcula em tempo real quanto o Rashard Lewis ganhou no mundo real a partir do momento em que você entrou na página (adianto, é mais de 1 dólar por segundo). O jogador não vale tudo isso, nunca fez grandes coisas pela equipe, mas quanto você estaria disposto a pagar por um jogador que pode ser a última peça para vencer um anel? Na temporada seguinte à sua contratação, o Magic se tornou campeão do Leste e perdeu na Final da NBA para o Lakers. Não dá pra criticar a decisão.

Com a derrota, vieram novos papos. Supostamente o que faltava para ganhar o título era, então, alguém capaz de criar o próprio arremesso, decidir os jogos no final, encontrar uma bola de segurança que não fosse um arremesso de três forçado. Fizeram uma troca para conseguir Vince Carter, jogador longe de seu auge e com fama de fominha. Foi arriscado, mas o Magic preferiu apostar na imagem que o Carter construíra no ano anterior como tutor da pirralhada do New Jersey Nets. O sucesso do Carter foi moderado, por vezes parecia estragar o ritmo da equipe, por outras salvava o jogo, mas o Magic com ele chegou novamente à final do Leste - desse vez perdendo para o Celtics.

Não é estranho, portanto, que um time que chegou a duas finais de Conferência em anos consecutivos esteja sempre envolvido em tantos boatos de troca. Estão sempre dispostos a arriscar, a acrescentar uma peça final, a mudar o elenco vencedor para conseguir dar um passo a mais. É por isso que a resposta a uma fase de derrotas nessa temporada foi trocar vários jogadores - aquisições, como as de Carter e Lewis, arriscadas mas inteligentes. O Magic não tem aquela postura bizarra do Cavs da era LeBron, que trocava apenas por trocar e formou um circo de horrores, em Orlando as trocas tem uma visão de conjunto, um plano definido de qual é a identidade do time. Só trocam por quem se encaixa na brincadeira.

O primeiro passo do Magic nessa maratona de trocas anunciadas hoje foi se livrar do Rashard Lewis. Não que ele feda, como muita gente anda sugerindo recentemente. Longe disso, ele é um bom jogador, mas seu contrato vai até 2013 lhe pagando mais de 20 milhões por temporada bem quando o Magic não precisa mais de arremessadores. Todo mundo no elenco, até o garoto da água e a mãe do Dwight Howard, arremessam de três mesmo durante o sono. O processo de montar um elenco eficiente no perímetro que teria o Rashard Lewis como peça final deu tão certo, mas tão certo, que agora o Lewis é descartável. Já não fará nenhuma falta.

Em seu lugar, o Wizards manda nosso canalha favorito, Gilbert Arenas. Nos últimos anos Arenas sofreu com uma lesão, depois com a lesão resultante dele tentar voltar cedo demais para as quadras, depois com a lesão resultante dele treinar demais para se reabilitar mais rápido, e depois com a punição por ter feito uma piada com armas de fogo no vestiário (que ele ainda não engoliu muito bem e diz ter sido julgado injustamente). Faz tanto tempo que ele não pisa numa quadra de basquete que até dá pra esquecer que, uns anos atrás, ele era um dos jogadores mais fodões da NBA, cotado para ser MVP, marcando 60 pontos nos times com os quais tinha birra, e dando mais de 10 assistências por jogo em sua volta às quadras só pra provar que, se quisesse, teria fácil média de double-double como armador. Arenas era tão bom que recebeu um contrato de 111 milhões e um elenco de apoio de respeito para tentar um título do Leste, mas todo mundo do elenco se lesionou numa hora ou em outra (e quando estavam saudáveis perdiam pro Cavs de LeBron nos playoffs) e agora já era, desistiram do projeto, desmontaram o time, e já é tarde demais para o Arenas voltar e tentar fazer valer o contrato gigantesco Ele merecia esse contrato quando o Wizards queria ganhar naquela hora e acreditava em títulos, agora estão reconstruindo em volta do John Wall e o Arenas não apenas ganha dinheiro demais e é bom demais, mas também rouba minutos do novato John Wall porque jogam basicamente na mesma posição. Para o Wizards é melhor se livrar do Arenas por qualquer outro jogador que seja de outra posição e dê ideia de recomeço, de que o John Wall é a estrela, e se tiver um contrato mais curto é brinde. O Rashard Lewis tem um contrato um ano mais curto, não é metido a estrela (nem nunca foi, tem "jogador secundário" escrito na testa), e não vai roubar minutos do John Wall, pronto, tá ótimo. Enquanto isso o Arenas está jogando cada vez melhor, recuperando a forma, e pode criar o próprio arremesso como se esperava que o Carter fizesse na temporada passada. Fora que, como já provou que sabe passar a bola como armador principal, pode substituir Jameer Nelson numa das trocentas contusões anuais do garoto.

É claro que o Arenas pode pregar uma peça e envenenar a água de Orlando, exagerar e querer dar todos os arremessos finais do meio da quadra enquanto grita algo absurdo como "Colher!", e segurar demais a bola, mas é mais um risco para o Magic que simplesmente vale a pena. O Arenas tenta começar de novo e deixar as polêmicas para trás, vai querer ser bom moço na nova equipe, está cada vez em melhores condições de jogo e tem potencial para voltar a ser jogador digno de papo sobre MVP. Se fizer merda e forçar muito o jogo, não vai ser nada que o Carter já não tenha feito tantas vezes no último ano, com a vantagem de que o Arenas é mais versátil e pode jogar nas duas posições de armação.

Essa troca, além disso, permitiu que o Orlando fosse ainda mais além com seus bagos gigantes. Com a chegada do Arenas, ficaram livres para enviar o Carter para o Suns. Aproveitaram para enviar dois jogadores de valor mas que, assim como Rashard Lewis, eram cada vez mais inúteis na equipe: Mickael Pietrus e Marcin Gortat. O Pietrus era importante na equipe graças à sua defesa e às bolas de três, mas desde que o JJ Redick passou a defender o bastante para conseguir ficar em quadra e teve atuações memoráveis nos playoffs, tem tido prioridade. Já o Gortat nunca foi muito usado mesmo, mas ele teve alguns momentos brilhantes em quadra, mesmo que raros, e o Magic resolveu lhe dar um salário gordinho só para impedir que os outros times interessados contratassem o rapaz (sabe como é, pivô é raro hoje em dia). No Magic faltam oportunidades porque o Dwight Howard é o dono absoluto do garrafão e o Brandon Bass joga cada vez melhor, em especial porque ele tem um arremesso de média distância consistente e aí não bate cabeça com o Dwight. No fim, valeu a pena investir no Gortat porque ele agora virou moeda de troca, só isso. Nenhum desses jogadores, no momento, fará falta para o Magic. O risco está mesmo é no que eles recebem em troca.

Em troca de Gortat, Pietrus, Carter e uma escolha de primeiro round no draft, o Suns mandou Jason Richardson e Hedo Turkoglu, além do Earl Clark (que só vai junto porque deve ter entrado no avião sem querer). Pra mim, Jason Richardson é o jogador perfeito para o Magic atual. Sua temporada pelo Suns tem sido fantástica, seus arremessos andam precisos, seu basquete anda eficiente como nunca, ele cria o próprio arremesso, e tudo isso sem exigir a bola nas mãos. Até chega a forçar o jogo, especialmente no primeiro período (dizem que se ele domina o primeiro quarto, é certeza de que terá um jogo fodão), mas nunca segurando demais o jogor. J-Rich joga bem sem a bola em mãos, se posiciona bem no perímetro e está sempre cortando para a cesta. É o jogador ideal para continuar a tradição de arremessos de três do Magic, um especialista no quesito que já liderou a NBA mais de uma vez em bolas de 3 convertidas, mas capaz de se virar quando o perímetro não estiver funcionando - e tudo isso sem comprometer a rotação de bola e o ritmo da equipe. Com o Hedo Turkoglu o negócio é diferente, ele também arremessa bem de três mas segura muito mais a bola, gosta de jogar como armador, e agora o Magic parece ter excesso de gente assim. Mas mesmo que o turco tenha minutos limitados, já deve valer a pena. Postei no começo da temporada sobre como o estilo do Turkoglu não se encaixava com o Suns de modo algum, que ele não tinha como render lá, e que sofrera com a mesma questão em Toronto. No estilo do Magic, pelo contrário, o Turkoglu parece um bom jogador, usa suas principais qualidades. Então mesmo que seus minutos fiquem restritos pela presença de Brandon Bass, Jameer Nelson, Jason Richardson e Gilbert Arenas, será no mínimo um jogador que pode render um pouco ao invés daquela lástima que ele era no Suns, em que não rendia nada. O jogador foi salvo e o Magic ganha de volta um reforço que deve estar muito grato e já conhece todo o andamento da equipe. É arriscado porque o contrato do turco é enorme e ele pode bater cabeça com outros jogadores, mas é tentador conseguir por um preço baixo um jogador que você sabe que vai render muito mais justamente no estilo de jogo da sua equipe - e que não rende nada em nenhum outro lugar.

Pro Suns, é um alívio se livrar do Turkoglu e receber o Marcin Gortat é um motivo para ver alegria na vida outra vez. Hakim Warrick quebra um belo galho no garrafão ofensivo mas falta alguém que possa sequer se fingir de pivô desde que o Robin Lopes se contundiu. Se o Gortat for mesmo aquilo que se supunha e puder dominar na defesa enquanto contribui no ataque com enterradas e jogo físico, o Suns nem fica com tanta saudade do Amar'e e para de tomar um pau de qualquer jogador com mais de um metro e meio de altura. E se o Gortat for um jogador limitado e souber apenas levantar os braços, o garrafão do Suns também já fica imediatamente melhor - estavam numa situação tão ruim que se um torcedor sorteado fosse jogar de pivô, seria lucro. Para isso perdem J-Rich numa temporada magistral, o que é uma pena, mas o Carter tem ao menos em teoria a possibilidade de tapar o buraco. Precisa de entrosamento com o Nash, soltar a bola, correr um bocado, mas o Carter já começa se encaixando no time em um aspecto básico: ele nunca defendeu bulhufas mesmo.

O Wizards deu o último passo necessário em sua reconstrução - que pra mim foi, até agora, impecável e relâmpago - se livrando de seu melhor jogador e dando espaço para John Wall, e o Suns ainda se debate para conseguir um garrafão pós-Amar'e e vai tentar tapar o buraco do J-Rich enquanto tenta descobrir se pode sonhar com alguma coisa enquanto ainda possuem o Nash. São todas mudanças significativas, mas quem mais tinha a perder com tudo isso era o Magic, porque o Suns e o Wizards fediam enquanto o Magic é um timaço que vem de duas finais de Conferência. A equipe de Orlando tem testículos de jumentinho para arriscar a esse ponto, e pra mim só apostou em coisas que valem a pena - mesmo se derem errado.

Jameer Nelson já está confirmado como titular (enquanto não se contundir, ele nunca joga mais de 70 partidas numa temporada), Arenas já avisou que está sussa de vir do banco, então o resto do quinteto inicial deve ter Jason Richardson (no papel de Vince Carter) e Turkoglu (no papel de Rashard Lewis), com o garrafão reforçado por Brandon Bass. Subitamente o time mantém as características usuais, sua identidade como um time de arremessadores, mas todo mundo sabe criar o próprio arremesso e o garrafão fica mais forte. Gilbert Arenas pode vir do banco armando o jogo e, claro, criando as próprias situações de cesta, ao lado de JJ Redick, e nos momentos cruciais de jogo o quinteto pode ter Jameer Nelson, Arenas, J-Rich, Turkoglu de ala (como teve que jogar no Suns) e Dwight no garrafão. Lembra quando ninguém no Magic queria decidir? E a bola parecia batata quente? O Turkoglu passou a criar cestas mesmo que a contragosto, o Jameer Nelson aprendeu a bater para dentro e forçar pontos, Arenas tem história como um dos jogadores mais decisivos de sua geração, e o Jason Richardson sabe muito bem criar espaço para si mesmo. É um Magic irreconhecivel.

Passei muito tempo não levando esse Magic a sério, meio como se eles fossem um Mavericks do Leste, sabendo que eles poderiam chegar a uma Final de NBA e esfregar minha cara no troféu e mesmo assim eu sempre iria achar que tudo ia dar merda. É que acho difícil ter medo de times que se baseiam nos arremessos de três porque eles são inconstantes e é preciso ter uma bola de segurança pra quando tudo o mais falha, pra quando a água bate na bunda. Pois agora eles tem, ao menos no papel, tudo o que é necessário. Devem chegar a mais uma final de Conferência, mesmo com os inevitáveis problemas de entrosamento que surgirão nos próximos meses. E, mesmo se der tudo errado, aplaudo os bagos dos engravatados de Orlando. Essa equipe que arrisca e inova já tem, pra mim, muito mais valor do que qualquer equipe de sucesso que bate na trave e não tem coragem de mudar os rumos. Quero ser igual ao Magic quando eu crescer.

Outras equipes, como Lakers, Nets e Rockets, fizeram trocas recentemente e vamos comentar delas nos próximos dias (sei que estamos meio devagar, prometo que a gente engrena ainda esse ano). Mas pegar um time vencedor, com chances de título, e mandar embora peças tão importantes para trazer jogadores polêmicos é coisa para poucos. Só por isso, já merecia que desse certo. Bem que o Arenas poderia tentar não andar nos vestiários armado dessa vez só pra ajudar um pouco.

sábado, 29 de maio de 2010

A vitória de Nate Robinson


Em 2003 o San Antonio Spurs estava em uma das partes mais difíceis de seu caminho para o título quando enfrentava o Dallas Mavericks de Steve Nash, Michael Finley e Dirk Nowitzki na final da conferência Oeste. Era o jogo 6 e eles podiam fechar a série em Dallas ou ter um perigoso jogo 7 em casa. O jogo estava disputado, com os dois times jogando em alto nível e o Spurs tinha dificuldade na armação de jogadas já que Tony Parker só tinha jogado 13 minutos de jogo e não conseguia voltar para a quadra por estar com dor de barriga. Seu substituto Speedy Claxton não estava numa noite inspirada e restou à Manu Ginobili virar o armador da equipe. Mas com ele na armação, faltava quem arremessasse e colocasse a bola na cesta, acertasse umas bolas de 3 e abrisse a quadra.


Foi então que o técnico Gregg Popovich resolveu tirar do banco o veteraníssimo Steve Kerr. Loirinho branquelo que tanto ajudou Michael Jordan em seus títulos e que jogava sua última temporada na NBA. Em quadra pela primeira vez desde o início dos playoffs, Kerr entrou e jogandoa apenas o último quarto acertou 4 bolas de 3 em 4 bolas tentadas e garantiu o título do Oeste para o Spurs.


Foi nessa história que eu pensei ontem quando o Nate Robinson entrou em quadra. Ele havia jogado apenas 44 minutos somados em todos os 15 jogos que o Celtics disputou nesses playoffs e só entrava em quadra como última opção dos armadores, depois de Rajon Rondo, Marquis Daniels e Tony Allen. Mas com Daniels fora, machucado e Rajon Rondo, que estava arrasando no jogo, fora depois de um tombo feio no começo do 2º quarto, Doc Rivers não tinha outra opção senão colocar o KryptoNate em quadra.

E parece que o Nate Robinson é um personagem de video game, que quanto mais tempo você deixa descansando mais ele carrega suas energias e se você guarda ele por um tempão ele fica super poderoso. Depois de tanto tempo guardado no banco ele entrou em quadra e parecendo uma criança hiper-ativa, não parou um segundo de se mexer, de pular, de marcar e de acertar arremessos. Nos seus poucos minutos de ação ele anulou o Jameer Nelson, acertou arremessos em sequência e marcou 13 pontos em cerca de 8 minutos. Segundo o técnico do Orlando Magic Stan Van Gundy, foi o momento crucial da partida.

O Doc Rivers deve ter aprendido com o Mike D'Antoni. No Knicks, o Nate Robinson ficou mais de um mês sem pisar na quadra depois de brigar com o técnico e quando finalmente voltou marcou 41 pontos contra o Atlanta Hawks, estão lembrados?


Mas o mais estranho dessa história foi ter acompanhado o pré-jogo da ESPN norte-americana. Durante a discussão sobre o que cada time deveria fazer para vencer o jogo, todos os comentaristas falavam as coisas mais óbvias, quando de repente o Magic Johnson disse que achava que quem deveria aparecer mais no jogo era o Nate Robinson! Sério, da onde o Magic tirou essa? O cara nem tava entrando em quadra e provavelmente jogaria pouquíssimos minutos se o Rondo não tivesse se machucado, por que sequer citar o cara? Mas ele citou, disse que sua energia, seus arremessos e sua capacidade de infiltração poderiam e deveriam fazer a diferença. O cara já foi um dos melhores jogadores de todos os tempos e ainda palpita melhor que todo mundo? Apelação.

Outro que acertou na previsão foi o técnico Doc Rivers. Que certa vez questionado por não usar muito o Nate Robinson disse "Ele ainda vai ganhar um jogo pra gente nesses playoffs". E ganhou um dos mais importantes! Mas o Doc está bem certo, o Nate Robinson não é bom ou regular o bastante para ser titular na NBA, ele é impulsivo demais e não sabe jogar em equipe. Se você coloca ele em quadra por 40 minutos todo jogo ele vai te ganhar 3 jogos e perder 10, não vale a pena. Mas sabendo controlar seu tempo em quadra e lendo as situações de jogo dá pra usar ele só nas situações onde ele ganha jogos e todo time que quer ser campeão precisa ter no banco um desses caras que te arranjam uma vitória do nada.

O Magic não tem do reclamar do jogo de ontem, eles perderam essa série quando perderam os dois primeiros jogos em casa. A partida de ontem foi um típico jogo em Boston, com a defesa do Celtics mordendo forte e Paul Pierce acertando seus arremessos sempre que o Magic ameaçava uma reação. Eles tentaram, se esforçaram, mas é difícil vencer 4 jogos seguidos contra uma forte defesa. Basta um dia as bolas de longe não caírem (e eles criaram boas situações para esses arremessos!) e já era. Se tivessem vencido um daqueles dois jogos em Orlando poderiam estar se preparando para um jogo 7 agora, mas já foi, o negócio é pensar no futuro.

Vale a pena pagar quase 40 milhões de dólares por ano pela dupla Rashard Lewis e Vince Carter depois que os dois oscilaram tanto nos playoffs? E, mais, dá pra trocar um dos dois? Vão manter Brandon Bass e Marcin Gortat, que querem ser trocados? Que trocas fazer para conseguir manter o Free Agent JJ Reddick? Pronto, vários problemas futuros para o Magic esquecer os do passado recente.

Para o Celtics o momento é de ligar para o David Stern e agradecer quem fez o calendário das finais. O primeiro jogo (que será em Los Angeles ou Phoenix, já que ambos tem campanha melhor que a do Celtics) será só na próxima quinta-feira, no dia 3 de junho. Quase uma semana de folga para o Celtics descansar o seu time que foi se desmontando em dores e contusões nessa série. Na partida de ontem o Marquis Daniels não entrou, o Rasheed Wallace não jogou o fim da partida com fortíssimas dores nas costas e o Rondo teve o seu homérico tombo de costas no chão. Imagina se eles chegam assim sem banco de reservas para enfrentar aquela correria do banco do Suns? Seria caótico, será um descanso essencial para o Celtics lutar pelo título.

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Kevin Durant x Hasheem Thabeet
Achei essa história muito engraçada e tive que postar aqui mesmo não tendo nada a ver com os playoffs. O Bill Simmon, colunista da ESPN, postou na sua última coluna uma mensagem que foi enviada pra ele por email por um fã, que traduzo aqui embaixo:

"Bill, achei que você ia gostar dessas mensagens enviadas em sequência no Twitter:

15:50, Hasheem Thabeet - Almoço tarde antes de tirar uma soneca! Mhmmm yummy!
16:00, Kevin Durant - Acabei um ótimo treinamento. Trabalhei o controle de bola, finalização com contato, arremessos, pick and rolls e arremessos com marcação.

Agora você consegue dizer qual dos dois jogadores que foram escolhidos como número 2 no draft passou um tempo na D-League?
Brian Seboly, Memphis, Tenn"

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O pássaro do Leandrinho
Outra história para postar aqui e encerrar o texto é sobre o sinal que o Leandrinho tem feito com a mão depois de acertar seus arremessos. Eu achei estranho, me lembrou a campanha "Sou da Paz" e fiquei perdido. Aí, talvez com medo de multas, já que alguns jogadores já foram suspensos por terem feitos "sinais de gangue", ele resolveu explicar logo o que era isso aqui:


"É um pássaro, um pássaro branco. Significa que minha mãe ainda está por perto, estou fazendo para ela. Eu sonhei com isso por algum motivo e então comecei a fazer". Para quem não lembra, a mãe do Leandrinho morreu em novembro de 2008.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Dia de Clippers

A cara do Ray Allen explica a situação

Como conclusão ao jogo de ontem entre Magic e Celtics eu disse no Twitter que o Celtics estava vivendo o seu dia de Clippers, o time mais amaldiçoado da NBA em termos de azar, derrotas humilhantes e contusões. É estranho para o time mais vencedor a história da liga ter um dia desses, mas acontece nas melhores famílias.

O jogo começou com a série em 3 a 1 para o Celtics, que precisava de mais uma vitória fora de casa para se classificar para a final. Uma missão possível para um time que havia vencido seus últimos 4 jogos fora de Boston (2 contra o Cavs, 2 contra o Magic) e que claramente estava no domínio da série. Mesmo no jogo 4 em que o Magic venceu, não dá pra dizer que o time azul foi dominante. O jogo foi apertado, feio e decidido por alguns flashes de estrelismo de Dwight Howard e Jameer Nelson. O resto do Magic tinha jogado mal como em todos os outros jogos.

Mas dessa vez o Orlando começou diferente. Ou melhor, começou ruim igual aos outros, com três turnovers em menos de 2 minutos de jogo, mas passada essa marca, começaram a jogar bem demais. Vince Carter, Jameer Nelson e Rashard Lewis meteram bolas de 3 logo no começo do jogo e impulsionaram o resto do time a acertar suas bolas de longa distância. Foram 13 acertos em 25 tentativas. O Celtics ameaçou uma reação ainda no primeiro quarto, mas sempre a resposta vinha com bolas de três ou na defesa, com tocos espetaculares do Dwight Howard, que fez seu melhor jogo defensivo na série.

No ataque o Dwight estava bem, mas sendo bem menos envolvido do que nos jogos anteriores. Curiosamente é assim que o Magic joga melhor, quanto mais o Dwight pega na bola, menos o resto do time participa do jogo, menos a bola roda, mais o time é previsível e piores são os resultados. E chance para usar bastante o Dwight Howard não faltaram, já que a zica do Celtics começou quando o Kendrick Perkins, o único que consegue segurar o Dwight no 1-contra-1, foi expulso do jogo por duas faltas técnicas. Abaixo o vídeo das duas faltas com narração em chinês da saudosa Star Sports, nossa companheira dos tempos em que só dava pra ver NBA na internet com links bizarros da China.


A primeira falta técnica parece ter sido por causa de uma cotovelada depois que o seu braço escorregou e a segunda depois de uma reclamação exaltada. Duas faltas técnicas bem ridículas, mas justificadas em parte pelo histórico do Perk, líder em faltas técnicas nos playoffs e segundo colocado na mesma categoria na temporada regular. A segunda falta técnica causou a expulsão dele do jogo de ontem e teria causado também a suspensão dele para o próximo jogo, por ser a 7ª falta desse tipo na pós-temporada, mas hoje a NBA disse que ela foi retirada, garantindo o Celtics com seu quinteto titular completo para o jogo 6.

Dá pra analisar essa segunda técnica em cima do Perkins sob duas óticas: a primeira dizendo que ele foi injustiçado, já que além de ter razão em reclamar da marcação da falta, foi uma reação bem comum em um jogo da NBA. Por outro lado, porém, podemos dizer que não deveria ser uma reação normal em um jogo da NBA. Os juízes, cedo ou tarde, devem começar a ser mais duros com tantas reclamações e xingamentos que são obrigados a ouvir mesmo quando acertam as marcações. O ponto é que Perkins foi mais um chato reclamão ontem, grosseiro como é sempre, mas Dwight Howard, Vince Carter, Paul Pierce e o Rasheed Wallace também foram e não receberam falta técnica. Como diria o Arnaldo, "Faltou critério".

Mas a noite do Celtics estava longe de acabar, esse foi só o primeiro problema. Se não bastasse o jogo mais apagado de Rajon Rondo em muito tempo, que estava sendo engolido pelo Jameer Nelson, Paul Pierce não acertava um arremesso e ainda quase se machucou feio em mais uma falta dura de Dwight Howard nessa série:


Depois dele foi a vez do Glen Davis ser mais uma vítima de Dwight Howard. Sem querer, o pivô do Magic atingiu o rosto do Big Baby com seu fraco e delicado cotovelo. O resultado foi um nocaute digno dos melhores dias de Mike Tyson.


Mas não é só isso! Na compra de uma expulsão e uma concussão você leva uma segunda pancada na cabeça totalmente de graça! Dessa vez foi Marquis Daniels, que foi pro jogo e meteu a cabeça no peito do Marcin Gortat, o homem com o peito mais duro do mundo.


O engraçado é que a jogada não parece tão forte assim, mas o coitado não conseguiu voltar para o jogo e dizem que é dúvida para o jogo 6 em Boston. Outra dúvida? Rasheed Wallace. O único homem capaz de ter mais faltas técnicas que Perkins na temporada regular saiu do jogo com 6 faltas mas também com fortes dores nas costas. Imagina se a NBA tivesse mantido a suspensão no Perkins e eles fossem para o decisivo jogo 6 sem Rasheed, Glen Davis e Perkins? Seriam obrigados a usar Shelden Williams, o homem com o formato de cabeça mais estranho da NBA, e Brian Scalabrine para parar Dwight Howard! Para sorte deles a suspensão é que foi suspensa e os dois machucados garantiram que estarão em quadra. Vamos esperar e ver.

Apesar do cenário Clipperiano, o Celtics ainda chegou no último período com uma diferença pequena atrás do Magic, que acabou aumentando drasticamente quando Jameer Nelson e depois Rashard Lewis entraram em ação. O armador já tinha sido o herói da vitória na prorrogação do jogo 4, mas o que foi horrível para o Celtics foi ver o Rashard finalmente se sentindo à vontade no jogo. Como disse antes, o jogo 4 não havia sido trágico para os verdinhos porque eles ainda pareciam no controle, mas aquela derrota acabou acordando muitos jogadores do Magic que estavam apagados. Rashard Lewis foi o destaque do último período e antes dele Matt Barnes e Jason Williams também tiveram boas atuações. Se você colocar na conta que o JJ Redick é um dos poucos bons jogadores desde o jogo 1, vai perceber que só falta o Vince Carter parar de parecer o Adam Morrison em quadra para o Magic voltar a ter força total.

O dia de Clippers acontece com todo mundo, provavelmente o Celtics não vai ter tanto azar e tantas coisas contra eles no mesmo jogo de novo, mas bastou acontecer uma vez para deixar o Orlando Magic (e meio mundo!) acreditando que pode ser o primeiro time da história da NBA a virar uma série de 0-3 para 4-3.

Razões para isso eles tem. Agora falta apenas uma vitória fora de casa para igualar a série e levar a decisão para casa, com o Celtics contra a parede com medo de entrar para a história pelo pior dos motivos. E para acreditar que dava pra vencer esse jogo 6 o Magic precisava ver o que viu ontem à noite: Rashard Lewis em forma, Jameer Nelson enfrentando de igual pra igual o espetacular Rajon Rondo, a movimentação de bola funcionando e o Celtics finalmente não parecendo um time perfeito e invencível. Tá bom, ainda falta o Vince Carter começar a jogar, mas alguém ainda acha mesmo que o Magic precisa desesperadamente dele? Eu acho que não, se ele jogar bem, ótimo, eles ficam ainda melhores, mas se ele continuar apagado basta que o trio Nelson-Lewis-Dwight jogue bem para que o time ainda fique em altíssimo nível e com chances de bater o Celtics.

Para o jogo 6 eu não aposto no Celtics abalado, acho que eles são experientes o bastante para lidar com essa situação e esse é um grupo que costuma atuar bem sob pressão. A grande diferença mesmo é que essa será a primeira vez desde o jogo 1 que o Magic não entra em quadra sem confiança, finalmente eles tem um jogo bom para se espelhar. Embalados, tem tudo para jogar seu melhor basquete. Não vou tentar prever resultados porque seria impossível e ridículo, mas essa combinação de Celtics sob pressão, Magic confiante e jogo decisivo para os dois lados tem tudo para render uma das melhores partidas dessa pós-temporada. Nada mal para uma série que parecia acabada há alguns dias, não?

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Verde e amarelo

Juízes tendenciosos deram falta do Dwight Howard nesse lance. Roubo!

O Boston Celtics não consegue mais perder. São 5 vitórias seguidas no geral e 4 vitórias seguidas fora de casa, um número que já é impressionante na temporada regular, mais ainda nos playoffs e assustador quando se pensa que as vítimas foram os dois melhores times do Leste na temporada regular.

Quando o Celtics venceu o Cavs, muita gente ainda não queria acreditar que os verdinhos estavam de volta pra valer. Era mais fácil (ou mais divertido) jogar toda a culpa em cima do LeBron James e de seus companheiros de time. Eu acho que toda vitória e toda derrota tem contribuições dos dois lados, por um o Cavs jogou mesmo mal, num nível muito abaixo do que eles mesmo se mostraram capazes na temporada regular, e por outro o Celtics se superou e fez uma série ótima, não dá pra dizer que uma coisa elimina a outra. Mas para os que ignoram isso, bastaram esses dois jogos em Orlando para deixar bem claro: o Celtics está de volta e é, hoje, o melhor time do Leste.

Durante a temporada regular eu lembro de ter feito um post sobre Cavs ou Orlando, não lembro, mas que terminava dizendo que quando todos os times do Leste jogavam o seu máximo o Celtics era o melhor deles. Se você pegar o jogo perfeito de cada time do Leste, o melhor é o Celtics, mas afirmei na época que o mesmo time do Boston era o que menos vezes chegava perto desse potencial. Até o Hawks, que era o mais limitado time do Top 4 do Leste, jogou melhor mais vezes e não a toa se classificou em terceiro, deixando o time do Doc Rivers em quarto. Apostar no Celtics durante a temporada regular era apostar em um potencial escondido lá no fundo e que, agora, voltou a aparecer.

Eu não acredito nesses papos de que um time liga e desliga um botão para querer jogar bem ou mal, não acho que o Boston Celtics sofreu tantas derrotas humilhantes em casa durante a temporada a toa. Eles não estavam jogando bem e não era por falta de interesse. Em entrevista recente Paul Pierce disse que foram dois motivos que levaram à campanha ruim na temporada reuglar: o primeiro foram as contusões e dores que muitos jogadores importantes sofreram durante a temporada, e o segundo o tempo excessivo que reservas passavam em quadra, dando experiência para eles e descanso para os titulares.

Mas acho que foi algo mais do que isso. Primeiro um fator emocional, já que existe uma motivação extra por ser playoff, o momento da decisão. Mas mais importante do que isso acho que o Celtics aceitou a idade do seu elenco e suas limitações. O Paul Pierce tem flashes de excelência em que lembra o melhor jogador dos playoffs de 2008, mas não consegue ser assim todo jogo. Até a metade da série contra o Cavs ele tinha média de 12 pontos por jogo! Ray Allen também não brilha em todo jogo, assim como Garnett, que só se destaca quando encara no mano a mano jogadores muito inferiores a ele.

O que víamos na temporada regular era o Garnett tentando ir pra cima de todo mundo, o Paul Pierce querendo ganhar períodos por conta própria e o Ray Allen arremessando de três o tempo todo mesmo que estivesse errando tudo. Agora não, quem está num dia ruim faz seu papel como coadjuvante, aparece só quando chamado e se dedica o triplo na defesa. Então se Paul Pierce só marcava 12 pontos por jogo, compensou isso fazendo parte daquela defesa magnífica que parou LeBron James.

Aquele Boston Celtics que foi campeão em 2008 era um time completamente dedicado à defesa e que no ataque apelava para o mais simples possível. Parecia que treinava tanto na defesa que não dava tempo de ensaiar uma jogada no ataque, compensando isso com o talento individual do chamado "Big 3". Como nesse ano esse talento individual não estava dando conta do recado, achamos, com bons argumentos, que o Celtics já era. Mas eis que surgiu um rapaz chamado Rajon Rondo. Em 2008 ele era talvez o quinto ou sexto melhor jogador do time, atrás de Pierce, Allen, Garnett, Posey e, talvez, Perkins. Dois anos depois precisamos garimpar a NBA inteira para achar um ou dois armadores melhores do que ele.

A resposta para a queda de produção dos jogadores mais velhos foi deixar Rajon Rondo 42 minutos por jogo em quadra nos playoffs, o máximo entre todos os jogadores. É ele quem decide para quem vai a bola, se o time corre ou para. Ontem, por exemplo, houve um momento impressionante em que o Paul Pierce segurava a bola na mão enquanto o Rondo gritava com outros 3 jogadores indicando onde cada um deveria ir. Ao fim da jogada o próprio Rondo marcou dois pontos em um arremesso. Alguma pessoa conseguiria imaginar, dois anos atrás, que o Rondo estaria mandando nesse time de veteranos e ainda mais acertando arremessos? Acho que eles precisaram chegar nos playoffs e sentir o desespero de aceitar qualquer coisa por uma vitória para oficialmente entregar o time nas mãos do Rondo, é ele quem deve ser regular e decisivo, o resto do time defende e, nos dias bons, ajuda o armador no ataque.

Essa dedicação defensiva também conseguiu resolver um dos maiores problemas do Boston na temporada regular, os rebotes defensivos. Eles passaram o ano todo figurando entre os três piores times nesse quesito em toda a NBA. Sério, nas estatísticas o Wizards, o Nets e o Wolves são considerados times de verdade e participam do ranking e alguns deles tinham médias melhores do que a do Celtics! Nos playoffs, em compensação, o Celtics é o quarto melhor time no mesmo quesito. Contra o Orlando pegou mais rebotes defensivos que o adversário nos dois jogos.

Mas será que alguém imaginava que mesmo com o Celtics de volta aos trilhos daria para bater o Magic duas vezes seguidas em Orlando? Eu não. O Magic, que desde os últimos meses da temporada regular é um dos ataques que melhor funcionam na NBA, pareceu sem opções nos dois primeiros jogos da série. Rashard Lewis parece que nem estava em quadra, Jameer Nelson só arremessava bolas forçadas e toda tentativa de infiltração do Vince Carter acabava sendo, no fim das contas, um arremesso caindo para trás com uma mão na sua cara. Sem saber o que fazer vendo suas três armas de perímetro não funcionando, o Magic ficou jogando a bola na mão do Dwight Howard sem parar, esperando que ele dominasse o jogo. A única exceção, vale a pena dizer, foi JJ Redick que se esforçava para continuar movimentando a bola no perímetro. Ele foi tão bem no ataque nos dois primeiros jogos que os principais marcadores do Pierce, Matt Barnes e Mickael Pietrus, ficaram mofando no banco.

O Dwight Howard fez uma ótima partida, com 30 pontos, mas não dominou a partida em nenhum momento. Deu pra enjoar de ver o Magic cometer erros e mais erros ao ficar buscando o melhor ângulo para dar o passe para Dwight. Até ontem o Magic era o time que tinha muitos recursos ofensivos de perímetro que, de tão vastos, abriam espaço para Dwight Howard fazer seus pontos. Ontem foi o caminho inverso, eles estavam tentando fazer o D-Ho dominar o garrafão para ver se abria um espaço no perímetro. Mas o Celtics confiou na defesa individual dentro do garrafão e mesmo os pontos marcados por Dwight não serviram para embalar qualquer outro jogador ofensivamente. Foi uma tortura assisti-los tentando furar a defesa verde.

Nós já falamos aqui de times que mudam drasticamente o seu jeito de jogar durante os playoffs, é o primeiro sinal de desespero. O segundo sinal são erros fáceis em momentos decisivos. O que falar, então, dos lances livres errados de Vince Carter a 33 segundos do fim do jogo? Se o Celtics é o time verde, o Magic, ontem, foi o amarelo.


Outro vacilo monstruoso foi do do JJ Redick que não pediu tempo a 7 segundos do fim do jogo quando o seu time poderia ter mais uma chance para empatar a partida. Redick tinha três opções: a primeira era pedir tempo assim que pegasse o rebote do arremesso de Ray Allen, assim o Magic iria repor a bola no campo de ataque e teria 7 segundos para executar um ataque. A segunda era pegar o rebote e correr para o campo de ataque e lá pedir tempo. Se você bate a bola depois de pegar o rebote a reposição só é no campo de ataque se você passar da linha do meio da quadra. A terceira era correr para o ataque e tentar arremessar logo, pegando a defesa do Celtics desprevenida.

Pois é, na dúvida entre essas opções o Redick pegou o rebote, bateu a bola, correu, não passou do meio da quadra e só aí pediu tempo. Ou seja, não pegou a defesa desprevenida, gastou 4 segundos preciosos de tempo e mesmo assim o time teve que começar o novo ataque do campo de defesa. Acabou não dando em nada e o time perdeu o jogo.

Dá pra dizer com tranquilidade que apesar de mais um bom jogo do Celtics, não faltaram chances para o Magic virar o jogo, mas nada como o desespero de ver que o seu time é o pior da série, não é? Paul Pierce sabe disso e garantiu, com direito a piscadinha de xavequeiro malandro, que irão fechar a série em 4 a 0 em Boston.


Alguém duvida? Levanta a mão quem acha que o Magic ainda tem alguma chance. Alguém?

Eu não acho, mas queria achar, não aguento mais lavadas nesses playoffs! Será que alguma série não vai ter um time obviamente superior desde o jogo 1? Ainda dá tempo para uma série histórica ou a temporada vai acabar com Thunder x Lakers sendo a série mais emocionante dos playoffs? Que a grande final nos salve.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Em busca de uma explicação (e de um culpado!)

Vince Carter tem sua bunda fotografada


A noite de segunda-feira teve um jogo que tinha tudo pra ter um clima de playoff, uma tensão no ar e os times com os ânimos à flor da pele. Mas acabou sendo mais um jogo comum da temporada regular. Foi a primeira partida entre Lakers e Magic desde a final do ano passado e por motivos difíceis de explicar, o jogo não era assim tão esperado. A NBA escolheu por dar à rodada de Natal Lakers-Cavs, que a torcida e a mídia abraçaram como um jogo imperdível, e eu, nesse post, sugeri que na verdade o grande jogo da NBA para o Natal ainda deveria ter sido Lakers e Celtics. E ninguém questionou dizendo que deveria ser uma revanche da final do ano passado.

Um dos motivos para essa aparente falta de respeito contra o Magic pode ser explicado pelo placar amplo da final do ano passado, 4 a 1, embora não dê pra esquecer que os jogos foram difíceis e que dois deles foram para a prorrogação. Talvez tenha faltado uma rivalidade maior, brigas, declarações polêmicas, sei lá. Outro motivo que justificaria um pouco esse descaso seria o time titular do Magic. 3 dos 5 que começaram aqueles jogos foram embora: Turkoglu, Rafer Alston e Courtney Lee.

Esses argumentos parecem válidos e certamente o são, mas tem uma outra coisa que eu acho que estragou tudo: timing. Se essa partida tivesse acontecido no meio de dezembro ela seria entre o líder do Oeste e o líder do Leste, os dois em grande fase. O jogo de ontem foi entre o líder do Oeste que perde terreno a cada semana e tem o Kobe muito baleado por dores nas costas, e o quarto colocado do Leste que perdeu mais do que ganhou nos últimos 20 jogos.

Se o problema do Lakers é bem claro, a saúde do seu principal jogador (que claramente precisa de pelo menos uma semana de descanso antes que desmonte como um lego mal montado), o problema do Magic é muito difícil de entender.

O jogo contra o Lakers foi o exato meio de temporada para o Magic, a partida de número 41. E essa metade pode ser cortada em mais dois pedaços pra mostrar como esse time não faz um puto de um sentido. Nos primeiros 21 jogos o Magic venceu 17 partidas e perdeu 4. Nas últimas 20 partidas ganhou 9 e perdeu 11.

A primeira reação a esses números é um sonoro "Que porra é essa, viado?". Se o time mudou muitas peças, perdeu três titulares dos playoffs do ano passado e precisa pegar todo o entrosamento de novo não deveria ser o contrário, começar mal e melhorar depois? E faz menos sentido ainda quando se pensa que o time ainda estava sem Rashard Lewis e Jameer Nelson no começo da temporada.

Um dos motivos destacados durante o começo da temporada para o sucesso do Orlando Magic era o seu elenco profundo e talentoso. Se Rashard Lewis não poderia jogar como ala de força titular o técnico Stan Van Gundy tinha a opção de um garrafão pesado usando o Brandon Bass ou manter o mesmo esquema com o Ryan Anderson. Para a contusão do Nelson tinha o Jason Williams jogando muito. Isso sem contar as combinações nas posições 2 e 3 com Vince Carter, Matt Barnes, Mickael Pietrus e JJ Redick, todos com condição de ser titular, oferecendo talentos diferentes.

O número e a qualidade do elenco do Magic, portanto, está longe de ser uma desculpa, talento é o que não falta por lá. Inclusive eu cheguei a apostar no começo da temporada que o Magic tinha tudo para ter um dos três melhores ataques, tamanho o domínio do time nas primeiras rodadas, com o Jameer Nelson e o Vince Carter machucando as defesas com as infiltrações, o domínio dos rebotes ofensivos do Dwight Howard e o bombardeio constante e eficiente nas bolas de 3. Eles pareciam imparáveis.

Durante um tempo eu cheguei perto de acertar minha previsão, mas com esses últimos 20 jogos a coisa mudou. Hoje o Magic é apenas o 11º colocado no ranking de pontos por jogo e o 9º no ranking que conta o número de pontos marcados a cada 100 posses de bola. Os próprios números também descartam a defesa como motivo da queda de rendimento, o Magic é o 8º melhor em pontos sofridos por jogo e o 6º em pontos sofridos a cada 100 posses de bola.

Uma derrota para o Lakers em Los Angeles não é motivo para eu vir aqui escrever um post falando que o Magic está fedendo, mas nos últimos 9 jogos eles conseguiram perder para Bulls, Pacers, Raptors e Wizards, todos times com recorde bem inferior ao deles. E quando pegaram times mais fortes, o Nuggets e o Blazers, não só perderam como tomaram surras que me lembraram a saudosa Dóris em "Mulheres Apaixonadas". A derrota para o Lakers, inclusive, foi até motivo de alguma comemoração por ter representado a melhor partida do time desde a última vitória sobre o Atlanta Hawks, equipe que hoje está na frente do Magic na classificação do Leste.

A gente comentou por aqui como o Dwight Howard estava jogando muito mal e muito abaixo do que se espera dele, e esse poderia ser um motivo para que o Magic estivesse mal das pernas, afinal é o melhor jogador do time. Eis então que na partida contra o Lakers o Superman resolve ligar para o Danilo, dizer "eu li teu post, moleque!" e começar a jogar como o Tim Duncan. Gancho pra cá, giro pra lá, vários arremessos usando a tabela e impressionantes 18 pontos no primeiro tempo contra o melhor garrafão da NBA. O Magic, no entanto, estava perdendo.

No segundo tempo o Magic começou a ter a síndrome do armador bom. É uma síndrome que ataca todo mundo que já jogou basquete em qualquer pracinha do mundo e funciona da seguinte maneira: se um armador ou qualquer outro jogador de perímetro está jogando bem e com confiança, ele não passa a bola para o pivô. Simples assim, não importa o quanto aquele grandalhão bobo fique balançando os braços. Foi o que aconteceu quando Jameer Nelson, Mickael Pietrus, Matt Barnes e principalmente o Rashard Lewis começaram a mandar bala no segundo tempo do jogo. E foi quando eles jogaram bem e o Dwight Howard nem enconstou na bola (foi dar seu primeiro arremesso no segundo tempo só no meio do quarto período) que o Magic cortou a diferença do Lakers e abriu mais de 10 de vantagem.

Até comentaram aqui no blog que não adiantava o Dwight Howard jogar melhor porque o time não jogava bem com ele como foco no ataque e a prova tinha sido o jogo contra o Lakers. Mas se você viu o jogo, deve ter percebido que enquanto o Dwight tomava conta do ataque, a defesa sofria com o Lakers acertando mais de 60% dos seus arremessos, enquanto no segundo tempo, quando o Magic abriu, o Lakers não conseguia fazer ponto nem arremessando papel amassado no lixo.

O Magic ideal é um mix disso tudo. O Magic pareceu melhor com o time correndo e todos os jogadores de perímetro envolvidos, mas só deu certo porque eles estavam jogando em contra-ataque, pegando a defesa do Lakers ainda na volta para a defesa. Quando a defesa do Magic funciona bem é que o time tem que partir rápido para o ataque e usar a velocidade de todos os seus jogadores, nenhum ala de força na NBA acompanha o Rashard Lewis na corrida. Dá para o Jameer Nelson ou o Vince Carter puxarem o contra-ataque e eles mesmos podem desmontar a defesa com uma infiltração e provavelmente outros três caras vão acompanhar e parar em diferentes lugares da quadra para se posicionar para o arremesso, é muito difícil marcar um time que sabe fazer um jogo de transição assim.

O Dwight Howard entraria para o jogo como o cara que pega o rebote para essa transição e principalmente para quando ela não desse certo. Ele tem que ser o foco ofensivo da equipe quando eles forem obrigados a jogar um basquete de meia quadra e quando isso acontecer ele deve ser o jogador que foi contra o Lakers, com recursos ofensivos e com arremesso de meia distância. Não vai ser sempre que vai dar certo, ele não desenvolveu esse jogo como deveria nos últimos anos, mas cedo ou tarde vai ter que começar.

Tudo isso parece bem óbvio e é mesmo, mas não é o que estamos vendo no Magic. A transição e o jogo de meia quadra como eu descrevi dependem de uma coisa básica para todo o time, a movimentação de jogadores e de bola. O Rashard Lewis só é um matchup ruim para um outro ala de força mais alto e mais pesado quando ele se movimenta bem pelo perímetro, o Jameer Nelson é um armador que mereceu ser chamado para o All-Star Game do ano passado quando usa e abusa dos bloqueios para achar arremessadores e seu próprio arremesso. O que a gente tem assistido é o Rashard Lewis parado em um canto para arremessar enquanto Jameer Nelson e Vince Carter passam 20 segundos driblando a bola e aí forçam um arremesso.

Parte da culpa é dos dois jogadores, principalmente do Carter. Ele está jogando tão mal, mas tão mal, que eu o colocaria como a maior decepção individual de toda a temporada, inclusive à frente do Turkoglu, que tem sido pior e menos útil do que o Jarret Jack no Toronto Raptors. O Carter está com uma patética média de 16 pontos por jogo, 38% de aproveitamento nos arremessos de quadra e só 30% nos três pontos. Isso sem contar os inúmeros jogos em que arremessou 15 bolas e acertou duas. A grande desvantagem de ter o Carter ao invés do Turkoglu na equipe é que o Magic perdia em movimentação de bola e passe, já que o Turko era um armador em corpo de ala, mas pelo menos ganhavam alguém que poderia marcar pontos criando o próprio arremesso quando o ataque estivesse estagnado. Alguém pra isolar e ganhar uns pontos só no talento.

Pois o Carter realmente não tem um terço da visão de jogo do Turkoglu, a bola não se mexe, o resto do time fica parado vendo o Carter jogar (isso não é culpa dele, no entanto) e ele não consegue marcar os seus pontos. Ele trouxe todos os pontos negativos que a gente esperava e não trouxe os positivos.

Sabe a última grande vitória do Magic que eu citei, a contra o Hawks? Ela foi seguida de uma vitória sobre o Kings e os dois jogos tinham uma coisa em comum entre eles e de diferente em relação à derrota anterior para o patético Washington Bullets: Vince Carter não estava jogando. Pois é, com o branquelo do JJ Redick no time titular e com ele dividindo os minutos com Pietrus e Barnes, o time foi infinitamente melhor do que com Vince Carter. Tá bom que não deu muito certo contra o Nuggets, mas é que o Redick oferece a movimentação e a filosofia que o Magic precisa para jogar, mas em compensação não é bom o bastante para se garantir como titular e fazer o time vencer o Nuggets em Denver.

Sem o Carter o time não tem pra quem entregar a bola e ficar esperando alguma coisa acontecer. O Jameer Nelson até é mais do tipo fominha mas não chega aos pés do Carter, e com a bola na sua mão o time se mexe mais e ele responde com mais passes.

O Vince Carter como o principal motivo do Magic estar jogando mal acaba respondendo uma crítica que eu tinha feito a ele no começo na temporada. Eu tinha falado que esperava que ele fosse mais do que só um arremessador e finalizador de contra-ataques como vinha sendo nos primeiros jogos e que se tornasse um líder, alguém que chamasse o jogo como fazia o Turkoglu, principalmente nos minutos finais do jogo. Errei feio. Carter não é Turkoglu e o time funcionava bem melhor quando o VC se limitava a ser um marcador de pontos, um cara que se posiciona para finalizar jogadas e só. Parece ridículo contratar um cara desse nome e desse porte só para isso mas era assim que o Magic jogava quando vencia.

Não custa lembrar esse post que eu escrevi depois de um mês de temporada, lá já me mostrei preocupado com a quantidade de tempo que o Vince Carter passava com a bola na mão. Naquele texto, porém, falei como é bom para eles ter um cara talentoso para arremessar umas bolas importantes no fim dos jogos, só falta achar equilíbrio.

Se eles voltarem a tirar a bola da mão do Carter e descobrirem quando usar o perímetro e quando apelar para o pivô que eles tem lá no meio, o Magic estará de volta à briga do título do Leste. Do jeito que eles estão jogando hoje eles não passam da segunda rodada dos playoffs nem com reza brava. E que atirem as pedras no Carter, mas não no ombro porque ele já está machucado.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Trocas furadas

Mandar jovens talentos como o Eric Maynor em troca de
nada dá bastante certo, basta perguntar para o Knicks


O Hornets é o pior time do mundo pra fazer trocas. Não é que eles façam trocas idiotas, é que as trocas que eles fazem sequer chegam a se concretizar. Na temporada passada, o time resolveu mandar o Tyson Chandler para o Thunder, mas na hora dos exames médicos o pivô foi diagnosticado com uma lesão grave no pé e não foi liberado para ser trocado. Ou seja, voltou para o Hornets com aquela cara de bunda de quem tomou pé na bunda da namorada mas a namorada voltou porque não arranjou ninguém melhor. Nessa temporada, eles conseguiram mais uma troca que não aconteceu: Devin Brown iria para o Wolves em troca de Jason Hart, o magrelo que quase não entrou em quadra na sua carreira, mas no último segundo, depois da troca já ter sido amplamente anunciada e os jogadores já estarem de malas feitas, o Wolves deu pra trás e preferiu aceitar uma outra troca, dessa vez do Suns.

A troca do Suns mandou Alando Tucker pelo Jason Hart, mas garantiu também que o Suns vai continuar pagando o salário do Tucker nessa temporada. Então, já que o Jason Hart ficou tão concorrido pela primeira vez desde o baile de formatura, lá foi o Devin Brown voltar para o Hornets com cara de bunda, sabendo agora que ele é meio indesejado. O motivo da troca frustrada do Brown é o mesmo que a troca frustrada do Tyson Chandler: economizar umas verdinhas. O Hornets está bastante acima do limite salarial, tendo que pagar multas por isso, e o time fede um bocado. Depois de uma campanha forte nos playoffs e a ideia de que "com apenas mais um grande jogador de banco a gente chega lá", o Hornets percebeu que era apenas um time mequetrefe que, no momento certo, com o ritmo certo e a mentalidade certa, chegou bem mais longe do que devia. Nem em um bilhão de anos aquele time, com aquelas mesmas peças, conseguiria chegar de novo onde chegou. Bastou o Chris Paul estar sentindo mais o físico para o time despencar e perceber que James Posey, nada além de um bom carregador de piano para vir do banco, não iria fazer milagre. Não tem absolutamente ninguém no elenco capaz de pontuar, já que o Stojakovic é do tempo da tevê Manchete e o David West está longe de ser uma máquina de fazer pontos.

O Devin Brown, por isso, quebra um belo de um galho. Sempre foi subestimado, já chutou traseiros com o Spurs quando foi campeão, já ajudou o Cavs chutando traseiro nos playoffs, e portanto tem mais experiência em pós-temporada do que todo mundo no elenco do Hornets. O rapaz é forte, sabe atacar a cesta, é muito bom nos arremessos de três pontos e aprendeu a ser um bom defensor. Não é muito consistente ofensivamente, mas sempre dá um jeito de contribuir e eu fico aqui pensando o porquê dele ter partidas tão boas e ficar migrando de time para time sem uma casa fixa, parece até o Quentin Richardson. Com média de 10 pontos por jogo já dá pra ser escolhido o macho-alfa do Hornets quando o Chris Paul está de férias, mas com a crise econômica acabou sobrando pra ele.

O ridículo é que o Hornets está nessa situação de não ter pontuadores e estar acima do limite salarial porque o Stojakovic ancião ganha 14 milhões esse ano (e 15 milhões no ano que vem), o lixo do Morris Peterson ganha 6 milhões (ele foi contratado como a grande esperança do time nos arremessos de fora, mesmo que na época qualquer um que assistisse aos seus jogos soubesse que ele era o pior titular da NBA), e o James Posey ganha outros 6 milhões (um tanto salgado para um reserva de luxo). Essa receita todo mundo conhece: umas trocas imbecis e uma caralhada de contratos inflados e você tem um delicioso Knicks para viagem, com refrigerante e batatas médias. Pelo menos como o Chris Paul é um jogador espetacular que faz até os piores companheiros de equipe renderem razoavelmente, o Hornets consegue se safar de ser o Knicks e ao menos luta por uma vaga nos playoffs. Há esperança para esse time voltar a fazer barulho nos playoffs, aliás, mas é só quando esses contratos idiotas terminarem e é necessário assinar com moderação os contratos novos. A equipe está longe de um título, não dá pra ir dando bilhões para jogadores que são tratados como "a peça faltante". Quando o Magic exagerou no contrato do Rashard Lewis, não dava pra criticar muito porque eles acreditavam que um grande arremessador de três era o que faltava para que o time fosse campeão. E, bem, eles acertaram em cheio e agora não dá pra criticar o contrato inflado. O Hornets não pode pagar Stojakovic, Posey e Peterson como se eles fossem apenas o arremessador que falta para um título, o time está completamente pelado. Chris Paul e David West são a alma da equipe, um par de jogadores inteligentes e que jogam com habilidade e finesse, mas todo o resto dá pra jogar fora e começar de novo. Em plena crise econômica, com os times desesperados quando ultrapassam o limite salarial, é preciso se livrar dos contratos ruins e ter moderação nos novos. Mas se livrar do contrato de 1 milhão do Devin Brown é exagero, o rapaz não merecia essa humilhação enquanto o Stojakovic enche as orelhas com 14 vezes mais grana. Pra provar o ridículo, Devin Brown voltou a jogar pelo Hornets, fingiu que o namoro não tinha terminado e enfiou 30 pontos no Jazz só pra provar que pode. Ou seja, voltou pra casa corno mas deu um trato na patroa.

O Jazz, aliás, também está nessa onda de economizar dinheiro. O armador draftado nessa temporada, Eric Maynor, que se saiu tão absurdamente bem na ausência do Deron Williams, foi trocado para o Thunder. O Jazz recebe um maluco draftado há muito tempo atrás que nunca vai aparecer pra jogar porque está na Europa comendo umas italianas, enquanto o Thunder consegue finalmente um excelente reserva para Russell Westbrook, ampliando ainda mais o núcleo jovem desse time que vai chutar traseiros num futuro bem próximo. Para completar a troca, o toque mágico, o pó de pirlimpimpim: o Jazz manda Matt Harpring para o Thunder. O vovô tem uma infecção no pé, não deve jogar basquete nunca mais (para nosso azar, porque ele é um dos piores comentaristas de basquete do planeta e vai ficar torrando nosso saco), mas seu salário continuava valendo para o Jazz. Agora, o time paga menos taxas por ultrapassar o limite, embora não esteja nem perto de gastar pouco. Tudo porque nessa temporada resolveram ficar com Paul Millsap e Carlos Boozer, sem no entanto procurar ativamente uma troca pelo Boozer quando ele decidiu não ir embora. Com isso, Millsap tem salário de titular mas minutos de reserva, o time tem uma folha salarial de campeão mas campanha digna de Clippers, e a crise econômica acaba obrigando o time a se livrar de bons jogadores a preço de banana. Essa é uma boa maneira de estragar um time bem rápido: se livrar dos jogadores bons e jovens porque você assinou contratos gigantes para uns jogadores velhinhos. O Suns ficou se livrando das escolhas de draft para não gastar o dinheiro que usava nos veteranos e quase acabou se lascando por isso. Acabou dando sorte com carregadores de piano como o Jared Dudley, mas aprenderam a lição e devem começar a colecionar uns novatos antes que esse time morra e eles tenham que reconstruir tudo do zero.

O Eric Maynor foi uma grande sacada do Thunder, que já estava de olho nele desde a época do draft. O time está uma vitória atrás do Jazz, mas tem também um jogo a menos, então vai ser divertido se o Jazz tiver ajudado justamente o time que grudar em sua cola. Os dois brigam pelas vagas finais para os playoffs do Oeste, com a diferença de que o time de Utah é um time com sérios problemas, como o Denis tão bem relatou, enquanto o Thunder é um time jovem, animado, veloz, que está nessa só para adquirir experiência. Por lá não existe pressa, o Kevin Durant já teve anos de carta branca para arremessar como quisesse não importavam quais fossem os resultados, e agora o time testa seu entrosamento sem muitos compromissos com a vitória. O fato de que as vitórias estão vindo é simples fruto do talento e amadurecimento dessa garotada, já que a equipe teve os bagos para se livrar dos jogadores mais velhos e experientes, mesmo que talentosos, para dar minutos integrais e irrestritos para os pirralhos. O amadurecimento veio rápido, mas o que mais intriga com relação à essa equipe é o ânimo dos jogadores. Desde a temporada passada, quando eles estavam flertando também com uma das piores campanhas de todos os tempos, a animação dos jogadores teve uma crescida assustadora e incendiou o time inteiro. O Thunder decidiu trocentas partidas nos segundos finais na temporada passada inteira, aprendeu a ganhar no quarto período com intensidade e vontade, conseguiram começar a segunda metade da temporada ganhando mais do que perdendo e salvaram o recorde patético se tornando um time a ser levado a sério. Não imagino o que tenha acontecido, mas muito provavelmente foi aquela água secreta do Jordan que o Pernalonga dá pro seu time no Space Jam (pra evitar a pior campanha de todos os tempos, o Nets não precisa apenas seguir o exemplo do Thunder, precisa também dessa água do Jordan urgentemente). Desde o começo dessa temporada esse ânimo ainda está lá, e quando jogadores tão talentosos, que evoluem com velocidade de pokémon, querem o seu sangue com tanta intensidade, fica bem claro que eles vão te dar dor de cabeça. E agora com um armador reserva jovem e talentoso, para manter o mote do resto da equipe. Contratos idiotas e má administração dos salários não apenas estraga equipes, mas também favorece muito quem sabe o que está fazendo. O Thunder agradece, e num par de anos vai colher os resultados enquanto Hornets e Jazz vão estar começando do zero. Pra ver se aprendem.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Onde o Leste se decide

- Ele tá falando que o Magic tem mais time que a gente
- lol

Ontem foi divertido, tivemos nossos 15 (ou 5) minutos de fama, mas é hora de voltar a falar do que interessa: basquete.

Ao acompanhar a pré-temporada reparei que Cavs, Celtics e Magic estão passeando sobre todos os seus adversários mesmo quando não usam a força máxima. E mesmo quando não dão lavadas, vencem os jogos. Embora todo esse post seja acompanhado de um negrito "é só pré-temporada", acho que isso significa alguma coisa sim.

Na temporada passada o Leste se dividia entre o trio Cavs-Celtics-Magic, os times intermediários (como Sixers, Heat e Hawks) e um bando de lixo imprestável. Nessa temporada o lixo continua lixo, os intermediários têm basicamente o mesmo elenco e o trio de ferro adicionou caras do calibre de Shaquille O'Neal, Vince Carter e Rasheed Wallace. O Leste tá menos equilibrado que campeonato carioca.

Quando o Cavs trocou o Ben Wallace, o Sasha Pavlovic e uma lancheira do Ben 10 pelo Shaq, pareceu que a troca tinha sido apenas uma resposta imediata à eliminação do Cavs pelo Orlando do Dwight Howard. E minha aposta é que foi isso mesmo. Aí muita gente criticou dizendo que é errado contratar um cara pensando apenas em vencer uma equipe, que deve-se pensar de maneira mais ampla e que o Shaq mudaria todo o esquema de jogo do Cavs.

De fato o Shaq muda muita coisa. Eu não lembro do último jogador de garrafão do Cavs que tinha por característica receber a bola de costas pra cesta e atacar, o Big Z até sabe fazer isso, mas se destaca mais pelos arremessos de média e longa distância. E, ainda só na teoria, não apenas muda muita coisa como atrapalha o básico do básico do Cavs: contra-ataque, arremessadores em todos os cantos e o garrafão aberto para o LeBron James atacar a cesta.

Porém, achar que porque o Cavs precisa mudar é sinal de que vai mudar pra pior é bobagem. O Shaq jogou junto com o Kobe na fase de sua carreira em que mais infiltrava e com o Wade, que era o Sr. Infiltração (porque Sr. Penetração só o Rocco), e sempre deu muito certo. É apenas uma questão de adaptação e eles terão 82 jogos para isso.

Se a adaptação der certo, aí eles têm nas mãos o que queriam desde o começo, um time feito para conseguir bater o Orlando Magic. Bobagem montar um time só para vencer um único adversário? Na grande maioria dos casos, sim, é só ver o Suns que se desmontou para vencer o Spurs. Mas nesse caso em especial faz muito sentido.

O Leste é uma briga de três times. Por mais dificuldades que os times tenham por contusão ou adaptação de novos jogadores, são Magic, Cavs e Celtics que irão definir nos playoffs quem ganha a vaga na final. Fazer a mesma coisa no Oeste é suicídio. Pensar só em bater o Lakers pode significar ter um time que não sabe enfrentar Nuggets, Spurs, Blazers ou Jazz, são muitas variáveis.

Como enjoamos de dizer na temporada passada, o time para ser campeão não precisa ter só o melhor time, precisa ter um time que se encaixa com seus adversários mais importantes. Não adianta saber ganhar de todo mundo menos de um time e enfrentar esse time na final.
Por isso, olhos muito bem atentos para o dia 27 de outubro quando começa a temporada regular e já teremos logo de cara um Cavs x Celtics. Será baseado apenas nesses confrontos diretos que eu vou levar em consideração na hora de declarar um favorito para a conferência.

Na largada dessa corrida eu coloco em terceiro lugar o Cavs, por tudo o que disse agora há pouco. Embora não seja sinal de fracasso, o fato deles precisarem se adaptar ao Shaq dá um sinal de ponto de interrogação sobre o time e por isso saem atrás.

Em segundo lugar coloco o Boston Celtics. A gente viu nos últimos dois anos que eles completos são a melhor defesa da NBA e talvez uma das melhores defesas de todos os tempos, mas se uma peça sai do time eles não tem boa reposição. Quem entra se o Rondo se machuca ou sai por faltas? O Eddie House? E se o Paul Pierce é suspenso num jogo de playoff, entra quem?
O Rasheed Wallace deu uma profundidade maior ao banco de reservas do Celtics e não podemos esquecer que eles tem o Kendrick Perkins, o cara que melhor marca o Dwight Howard na NBA, mas o banco ainda não passa toda a confiança do mundo (e eles ainda perderam o Leon Powe, vão se arrepender profundamente disso).

Em primeiro, portanto, coloco o time que eu tanto teimei em levar a sério, o Orlando Magic. Eles não estão aqui porque ganharam a conferência na temporada passada, de pouco vale aquilo hoje que o Cavs tem Shaq e o Celtics tem o Garnett de volta, são outros tempos. Mas os coloco em primeiro lugar porque o Magic é hoje o time com o elenco mais completo de toda a NBA. Não importa a característica do time que eles pegarem, eles tem uma resposta.

A perda do Turkoglu foi mais do que compensada com a chegada do Carter. O Vinsanity não é um líder, não leva time nenhum nas costas sozinho, mas ele não precisa mais. Como um coadjuvante ele vai brilhar demais. Na reserva dele tem Barnes e Pietrus, ótimos defensores, bons arremessadores e que podem jogar como alas, na posição 3. Posição que pode ser também a do Vince Carter e do Rashard Lewis. Na posição de ala de força eles tem o mesmo Rashard Lewis, o Brandon Bass ou até o Ryan Anderson, que ontem meteu 6 bolas de 3 no Hornets. De pivô eles tem o melhor pivô da NBA (que o Shaq se esforce para provar o contrário) e também o melhor pivô reserva (que o Ilgauskas prove o contrário).

Colocando o recuperado Jameer Nelson na armação e misturando essa renca de nego dá pra montar um time baixo e veloz, um time cheio de arremessadores, um time alto, um pesado que joga meia quadra, um time com infiltração, um especialista em defesa, um time de futebol, um gang bang com a Monica Mattos, o que você quiser! Depois até faço um post comentando em detalhes todas as opções que o Magic pode usar num mesmo jogo.

Por esse poder de adaptação ao que for necessário é que o Magic sai na frente, mas a diferença é pequena e ainda tem uma temporada regular inteira e séries de 7 jogos nos playoffs pela frente, muita coisa pode e deve mudar. Até boato do Stephen Jackson ir para o Cavs está rolando para deixar essa briga ainda mais interessante.