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sábado, 4 de dezembro de 2010

Ódio

Momento "Onde está o Wally": quantos dedos do meio levantados
 você consegue encontrar nessa foto? Eu contei seis.

Quem esperava uma vitória do Cavs contra o Heat na noite de quinta provavelmente ainda achava que o LeBron jogava pelo Cavs. Não havia qualquer possibilidade de que tivéssemos um bom jogo, disputado ou interessante, simplesmente porque o Cavs fede. Resultado de uma equipe montada ao redor de LeBron por anos e que, mesmo em seu auge, tinha jogadores que nunca fizeram sentido uns com os outros, o que restou da equipe é uma vergonha para o basquete. Alguns jogadores possuem momentos de talento, o Byron Scott é um técnico genial (que, curiosamente, teria tornando LeBron um jogador melhor), então o Cavs até engana um pouco às vezes, tipo mulher feia porém maquiada. O Heat, no entanto, tem umas espinhas na cara e provavelmente não tem uma perna ou um braço, mas ainda assim é um mulherão.

O espetáculo da partida de ontem não estava, certamente, dentro da quadra. Até mesmo porque LeBron teve a decência de tratar o jogo como se fosse qualquer outro de sua vida - ou seja, com profissionalismo. Foi uma partida comum entre um time ruim e um time bom, com lances bonitos e uma tonelada de airballs, que jamais teria chamado a atenção do público. O espetáculo estava, sim, fora da quadra, na arquibancada. Os torcedores, como adolescentes ainda apaixonados por uma mulher que os deixou, deixaram que LeBron soubesse que estavam magoados. As placas, os cantos e as reações foram tolas como só um adolescente de coração partido consegue ser, ouvindo NX Zero no quarto enquanto briga com os seus pais. Mas mostram, também, como a relação de amor e ódio por um jogador pode ser paradoxal. Para falar sobre isso, vamos dar uma olhada em alguns vídeos das reações na partida de quinta:


No vídeo acima, a torcida canta "asshole" ainda durante o aquecimento de LeBron. Numa tradução Google, "asshole" seria algo como bundaburaco. Numa tradução livre, seria o nosso "seu cuzão de merda". 


Nesse outro vídeo, acima, vemos dois gritos. O primeiro é "Akron odeia você", e é pra machucar mesmo. Akron é a cidade em que o LeBron nasceu, significa muito para ele, e LeBron já disse esperar que sua cidade não lhe julgue traidor como Cleveland faz. O segundo, mais bem humorado, é "Delonte", em referência ao boato ridículo de que o Delonte West teria comido a mãe do LeBron (não num sentido "Walking Dead") e que isso teria criado uma fissura no grupo que levou à eliminação nos playoffs na temporada passada. 


O vídeo acima, último, é um documentário de dois adolescentes de Cleveland e mostra a rotina dos dois antes do jogo, entrevista com alguns torcedores no ginásio e registra todos os cantos contra o LeBron durante o jogo, além dos torcedores do Heat tomando um monte de copos de cerveja na cabeça e sendo expulsos do ginásio. Nele podemos ouvir cantos como "Scottie Pippen" (coitado do Pippen, sempre sobra pra ele essa fama de não ter sido estrela, de ter sido apenas secundário, que é tão injusta), "sidekick"(algo como "ajudante", tipo o Robin é do Batman, em referência ao papel do LeBron frente ao Wade no Heat) e "who is your dad" ("quem é seu pai", em triste referência ao LeBron ter sido criado só pela mãe). 

Apesar do cunho agressivo de muitos dos cantos para o LeBron, não achei nada tão absurdo assim. Principalmente porque fica implícito que ninguém no ginásio acredita realmente naquilo. Levanta um cara puto da vida, dizendo que o LeBron é um cuzão e que o Delonte comeu sua mãe, enquanto veste uma camiseta do LeBron com o número 23 nas costas, riscado. Fica tão óbvio que o cara era completamente fã do LeBron que não dá pra acreditar que ele esteja puto com o jogador, está puto é com o fato de que ele foi embora. Ódio de ex não dá pra levar a sério, porque ele quer dizer exatamente o contrário do que realmente diz. Os cantos de ódio ao LeBron significam apenas que queriam que ele estivesse ali, mas que ele não está. É o ódio que se joga em cima do morto durante um funeral, aquele ódio que só significa que amamos muito alguém que não podemos mais ter de volta. 

Justamente por isso, durante o jogo me surpreendi com a baixa intensidade das vaias quando o LeBron tocava na bola. É como se o pessoal, consciente de que o LeBron sabe o quanto é amado naquela arena, nem se esforçasse tanto para mostrar o contrário. Comentei na hora, no nosso Twitter, que o Vince Carter tinha sido muito mais vaiado no seu primeiro retorno a Toronto - e olha que canadense só assiste basquete se tiver entrado no ginásio por engano, achando que ia ser jogo de hóquei. Hoje, Morris Peterson confirmou meu comentário. Ele, que jogava no Raptors na época, disse que as vaias ao Carter foram mesmo mais intensas que as contra o LeBron. O motivo é simples: Carter pediu para ser trocado e chegou a boicotar o time para que acatassem sua vontade. Além de começar a dar migué durante os jogos, chegou ao absurdo de dedar para o banco do Celtics qual jogada o Raptors faria para tentar empatar um jogo nos segundos finais. Com a jogada previamente dedada, a defesa do Celtics foi perfeita e o Raptors perdeu o jogo. Nunca mais o Carter seria visto de outro modo que não vilão, inimigo. Sua camiseta nunca será aposentada por lá, porque a reação da torcida é de puro e verdadeiro ódio.

Em Cleveland a torcida não tem motivo para odiar LeBron a não ser pelo fato de que ele foi embora. Claro, há um ou outro caso de etiqueta desrespeitada, como dar o pé na bunda do seu ex em rede nacional (quem fez isso por Orkut sabe que dá merda), mas não foi nada absurdo. Os torcedores falam que foi traição, que ele é um cagão, mas no fundo todo mundo sabe que não há nada de errado em ele ter escolhido jogar com dois de seus melhores amigos e aumentar suas chances de conseguir um anel - principalmente porque a torcida do Cavs sabe muito bem como o LeBron toma porrada injustamente graças a comparações injustas e aleatórias (que porra ele tem a ver com o Jordan?), e que essas críticas sempre caem no fato de que ele ainda não foi campeão. Se ele faz ritual antes do jogo como trocentos jogadores fazem, é porque é estrelinha. Se ri durante o jogo, é mala. E tudo sempre recai no fato de que ele só poderia fazer essas coisas se fosse campeão. Então beleza, no fundo todo torcedor do Cavs sabe que o LeBron foi para o Heat ter mais chances de ser campeão e pronto. Dói, dá raiva, mas no fundo tá tudo bem. Pra mim é bem óbvio que, assim que o Cavs arrumar um novo namorado (uma ou duas estrelas vindas de draft e que tornem o time relevante de novo), a relação com o ex volta a ser de boas memórias. Não tenho a menor dúvida de que sua camiseta será aposentada em Cleveland, porque faltam ainda muitos e muitos anos e essa bobagem toda vai esfriar inteiramente até lá. Diferentemente do ódio de Toronto pelo Vince Carter, por exemplo. Lembram que o Shaq, por exemplo, era vaiado em Los Angeles quando falou merdas sobre Kobe e o resto do elenco e ganhou um anel de campeão pelo Heat falando que o Wade era o melhor jogador do planeta? Pois bem, aquilo durou 15 minutos. Alguém em sã consciência acharia que a camiseta de Shaq não será aposentada em Los Angeles?

Chego até a deixar a hipótese de que o LeBron será sempre muito mais vaiado quando for para Chicago do que ele é em Cleveland. Isso porque a torcida do Bulls, ressentida com o fato de que LeBron (e Wade, e Bosh) não toparam jogar lá nessas férias, não têm como barreira o fato de tê-lo amado, de ter suas camisetas, de tê-lo como ídolo. Ele é um jogador mais fácil de odiar em Chicago, e as vaias de desdém por alguém com quem não se tem uma história são mais simples, violentas e barulhentas.

A história sempre dói, é claro que o LeBron se sente magoado de ter que ouvir tanta merda num lugar em que sempre deu tudo de si, em que nasceu, cresceu e se tornou um homem de barba na cara. Mas ele também está consciente de que a reação dos torcedores é só ruído, calor do momento e piada. Eu sou fã do LeBron e teria mijado fácil num dos seus bonequinhos que foram atirados nos mictórios do ginásio por torcedores mais fanáticos, simplesmente porque é uma reação caricatural, comicamente exagerada, inofensiva - muito longe das provocações completamente cruéis que acontecem regularmente nos jogos do Utah Jazz, por exemplo. O pessoal foi pra lá, gritou bobagem, cantou que o Delonte comeu a mãe do cara, mas quando o LeBron jogou seu pó de magnésio para cima antes do jogo, a maioria achou o máximo e estava fotografando com o celular. Sabem que estão vendo história - e esse é um sentimento delicioso que só podemos ter com os melhores jogadores, os Kobes e LeBrons da vida. Seria muita perda de tempo perder a história sendo feita fazendo birra, e acho que por isso a reação do povo de Cleveland não deve durar, eles sabem bem quão especial LeBron é. Vamos dar a eles então dois drafts, deixemos que o LeBron volte pra casa, e vamos ver se não vão estar todo sorrisos novamente.

Para o próprio LeBron, voltar a Cleveland também vai deixar de doer. Porque agora dói, claro, a gente esquece que o cara é um ser humano que foi trabalhar - trabalho, tipo a gente, embora não esperemos ser chamados de cuzão por 20 mil pessoas quando vamos no almoxerifado da firma - e tem que se preocupar se vão tacar uma cadeira em sua cabeça depois de tudo que fez por esses malucos. Mas uma hora passa, fica ameno para todas as partes. E a dor vai ser outra: "será que tomei a decisão certa?"

Assim que LeBron foi para o Heat, Tracy McGrady veio a público dizer que invejava LeBron, que ele próprio nunca tivera um companheiro tão talentoso quanto LeBron teria em Wade (com exceção de Grant Hill, mas com o qual pouco jogou graças às contusões constantes dos dois), e que se arrependia de ter passado boa parte da carreira tentando levar times sozinho. Garnett também fizera discurso similar para o LeBron quando alegou que ir para o Celtics jogar com outras estrelas foi a melhor coisa que poderia ter feito em sua vida, ao invés de ficar numa franquia fracassada e apagada (a gente mal lembra do Garnett no Wolves, quando ele era fácil o melhor jogador da NBA). Mas agora, depois que a decisão óbvia foi tomada, o pessoal volta com outro discurso. O Tracy Mcgrady veio a público de novo dizer que LeBron e Wade não se complementam (o que é fato, porque nenhum deles gosta de arremessar), que o time não vai funcionar porque eles dois querem segurar a bola, e que a química que o LeBron tinha no Cavs era espetacular e não deveria ser trocada por nada no mundo. E é esse o peso que o LeBron terá que carregar: ir para o Heat era fácil, parecia genial, apelação, gerou inveja, mostrou uma nova mentalidade de jogadores que deixam o ego de lado e topam jogar juntos para vencer. Mas jogar num time na vida real é diferente, significa enfrentar contusões, más decisões do técnico, jogadores que não combinam, gente com chulé, abrir mão de muitas coisas. O Celtics foi campeão porque soube apanhar, soube feder, e soube como sair disso tudo. Depois quase entrou em crise, mas eles dão um jeito, sabem unir as forças e começar de novo. Falta ainda para o Heat isso, se lascar no começo de temporada e saber sair melhor disso, com contusões ou não, jogadores que encaixam ou não. Agora é fácil de criticar dizendo que vai dar merda, antes era fácil dizer que o LeBron e o resto do Heat tavam apelando.

Contra o Cavs, vimos um Heat unido tentando proteger o LeBron de uma ex-namorada furiosa. Esse é o tipo de coisa que pode salvar um time e fazer com que superem as limitações. Ou que pode não servir para nada, e apenas aumentar o peso das expectativas - que já começa a fazer ruir, pouco a pouco, as bases desse Miami Heat muito mais do que os egos muito bem contidos de todo o elenco. Quem diz que Wade, Bosh e LeBron perdem porque seus egos entram em conflito se encaixa naquele ódio fácil do Chicago Bulls, por exemplo, aquele ódio de quem quer odiar e pronto. Porque quem odeia o LeBron com seu coração partido sabe: montar um time que funciona não é fácil pra ninguém, eles viram que em Cleveland levou tempo - e que mesmo assim não funcionou a ponto de trazer um anel. Quanto tempo será que os críticos darão a esse time para se acertar até que a imagem dos jogadores envolvidos esteja permanentemente manchada por ódio e ignorância?

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Tudo por um amigo

Bromance

Sempre que tem uma troca aqui a gente gosta de meter o bedelho, dar palpite, analisar as causas e possíveis consequências. E não é que com menos de um mês de temporada já temos uma grande que envolve cinco jogadores? O Toronto Raptors mandou David Andersen, Marcus Banks e Jarrett Jack em troca de Peja Stojakovic e Jerryd Bayless do New Orleans Hornets. Um detalhe curioso (que não muda nada) é que Bayless, por ter sido adquirido há pouquíssimo tempo pelo Hornets, não poderia ser envolvido em nenhuma troca que envolvesse mais de 2 jogadores até o dia 23 de dezembro. Então, oficialmente, foram duas trocas: Bayless por Andersen e outra envolvendo os outros três atletas.

Foi uma troca bem secundária, dos cinco jogadores só um era titular nessa temporada, Jarrett Jack, e mesmo assim ele só joga 26 minutos por jogo. A média dos cinco envolvidos na troca é de 15 minutos por partida. A questão é, portanto, pra que se deram ao trabalho de fazer a troca se não tem ninguém importante nela?

O Raptors está pensando no futuro. O time que eles tem hoje não tem talento para ir longe e a solução para melhorar nos próximos anos está em conseguir jovens talentos no Draft (bem encaminhado com a campanha ruim), desenvolver alguns jogadores bons e jovens (Sonny Weems, Andrea Bargnani e DeMar DeRozan) e, é aí que entra a troca, conseguir alguns jogadores via Free Agency ou trocas.

Nessa troca o Raptors se livra dos contratos já expirantes de Andersen e Banks e o contrato do Jarrett Jack, que ainda durava mais dois anos com 5 milhões por ano por mais duas temporadas além dessa. Em troca eles recebem a pechincha do Bayless e os 14 milhões do Stojakovic que acaba ao fim dessa temporada. Além de economizar o dinheiro do Jack, que vai poder ser usado para renovar com o Weems, eles tem duas peças valiosas para troca. O próprio contrato do Stojakovic e a trade exception que eles receberam quando mandaram o Chris Bosh para o Miami Heat. Uma trade exception é mais ou menos um pedaço do seu salary cap que pode ser trocado. Ele é usado muitas vezes para fazer funcionar trocas entre jogadores de salários diferentes, como mandar um jogador que ganha 5 milhões por outro que ganha 12.

Portanto a gente espera que esse movimento do Raptors seja a primeira parte de um plano maior. Não é garantia que dê certo, como vimos o Bobcats não conseguindo trocar o contrato não garantido do Erick Dampier é capaz que o Raptors morra com a exception e o Peja na mão, mas eles vão estar ativos nas discussões de troca visando os times que estão interessados em contratos expirantes ou em se livrar de jogadores caros.

Se a troca pelo sérvio foi unicamente econômica, a do Bayless tem um fundo basquetebolístico. O jogador mostrou algum talento no Blazers (vocês lembram daquele jogo com quase 30 pontos contra o Spurs que a ESPN transmitiu?) e ainda é bem jovem, é um projeto que vale a aposta, até porque é uma aposta barata. Devem colocar ele de reserva do José Calderon, entrando para botar fogo no jogo e ver o que acontece, vai que ele resolve explodir e jogar o que poderia bem agora! O sucesso dessa troca vai ser medido pelo o que eles fazem com o contrato do Peja e como o Bayless joga. Vai ser uma temporada movimentada nos bastidores do Raptors.

O lado do Hornets é bem menos econômico e mais afetivo. O Jarrett Jack, jogador mais importante da troca, é amigo bem próximo do Chris Paul e eles sabem a importância que uma amizade pode ter em quadra. Existe um documentário chamado "The Youngest Guns" que acompanha os primeiros anos de carreira de dois jovens jogadores, Darius Miles e Quentin Richardson, na época jogando juntos no Los Angeles Clippers. É um filme ótimo para ver o lado psicológico do jogo: os dois são amigos bem próximos, fazem tudo juntos, descobrem o mundo da NBA, como é ter dinheiro, e não se desgrudam nunca. Até que Miles é trocado para o Cavs e sua carreira vai para o ralo, ele se sente sozinho em Cleveland, sente saudade do amigo, não tem com quem compartilhar as alegrias e as dificuldades e deixa de jogar o bom basquete que o havia transformado em grande promessa do começo da década.

Outro exemplo famoso é o de Steve Francis e Cuttino Mobley. Quando jogava ao lado de Mobley, seu melhor amigo, ele era o Stevie Franchise, um All-Star que era um dos melhores armadores da NBA. Quando foi trocado para o Orlando Magic ao lado do seu amigo ainda jogava muito bem, mas aí quando foi para o NY Knicks sozinho deixou de jogar basquete. Muitos analistas e até o próprio Francis colocam a falta do parceiro para justificar a queda de qualidade. Francis nunca foi dos jogadores com mais cabeça no lugar dentro do mundo da NBA.

São dois casos extremos, eu sei, mas que mais uma vez mostram que ao montar um time existem muitos outros fatores além de só amontoar talento. Eles viajam juntos, treinam juntos, conversam, quanto mais entrosamento tiverem fora de quadra mais fácil fica para jogar, para se apoiar nas derrotas e coisas assim. Se você não gosta do seu companheiro de time é bem fácil jogar a culpa nele depois de uma sequência de derrotas durante a temporada, por exemplo. Com o Chris Paul enchendo o saco para ser trocado antes da temporada começar, o Hornets tem feito de tudo para manter a sua estrela calma, conseguiram primeiro Trevor Ariza, depois o surpreendente Marco Belinelli e agora um grande amigo de Paul. É tudo para manter ele lá jogando bem e feliz.

O problema da troca está quando pensamos nos resultados práticos em quadra. O Jarrett Jack é um armador que pode jogar também na posição dois. Ou seja, ele só vai entrar em quadra quando o Paul descansar ou quando o técnico Monty Williams achar que ele rende mais do que Willie Green, Marco Belinelli e Marcus Thornton como armador de apoio. Isso vai dar o quê, uns 15 minutos por jogo? 20 no máximo. Valeu abandonar o Jerryd Bayless (que veio em troca de uma escolha de 1º round há poquíssimo tempo), e mais o valioso contrato expirante do Peja, só por um amigo e um armador reserva? E o contrato do Jack é longo, quem quer pagar 5 milhões por ano, durante três anos, para um cara que joga tão pouco? O cara é bom, mas ganha demais para ter um papel tão pequeno. Não foi o negócio dos sonhos.

Os outros dois que vieram no pacote não me incomodam. O Marcus Banks vai ficar batendo palmas no banco até seu contrato acabar no fim da temporada e o David Andersen deve até ser bastante usado. Ele é inteligente dentro da quadra e podemos dizer grosseiramente que ele é uma versão piorada do David West. Não tem a mesma capacidade de criar seu arremesso, mas pode passar o dia brincando de pick-and-pop com o Chris Paul e terá números expressivos quando seu arremesso estiver calibrado. Essa foi uma boa adição para ter mais opções no banco. O Andersen tem um Team Option na próxima temporada, isso quer dizer que o Hornets decide se mantém ele para a temporada que vem ou o libera, esse sim foi um bom negócio.

Mais trocas devem acontecer nessa temporada, menos vezes por amiguinhos e mais pelos contratos expirantes. Dêem uma olhada nos valiosos contratos expirantes dessa temporada e como vários envolvem times que estão atrás de mudanças. Michael Redd, Troy Murphy, Kenyon Martin... até fevereiro muita coisa rola.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Montanha Russa (Canadense)

Vestido para dar o fora desse time bizarro, Bosh?


O Raptors é um dos times mais esquisitos da temporada. No ano passado eles foram uma espécie de Nets, tinham um elenco decente (ainda mais para o Leste) e federam bem fedido. Para essa temporada abriram a carteira e levaram o Hedo Turkoglu pra lá, era o parceiro de perímetro que o Chris Bosh precisava.

Começou a temporada e o Raptors não. As primeiras semanas do time canadense foram desastrosas! Pra começar temos o próprio Turkoglu, que teve alguns jogos em que mal arremessou a bola e não chegava nos 10 pontos, ficou durante muito tempo aquela dúvida entre se ele estava com dificuldade de se adaptar ao novo esquema tático ou se era mais um caso de Erick Dampiers e Bobby Simmons que desistem de jogar basquete depois de assinar um contrato grande e gordo.

Se fosse só isso tava bom, mas ele não era o único a começar mal. Ao contrário de aberrações como Brandon Jennings e Tyreke Evans, o novato do DeMar DeRozan demorou um bom tempo para começar a se acertar na liga. Ainda hoje ele tem dificuldades de se destacar, mas pelo menos ele participa mais das jogadas, acerta arremessos de meia distância, no começo ele só fazia pontos em enterradas de contra-ataque, nada mais.

Agora imagina o que era um trio com Hedo Turkoglu, DeMar DeRozan e Jose Calderon! O armador espanhol se destaca pelos passes, pelo controle de jogo, pelos poucos erros, nunca pelo número de pontos que marca. Se ele não faz ponto, o Turkoglu também não e nem o DeRozan, dá pra imaginar a carga que ficou nas costas do Chris Bosh e da garotinha Andrea B. O Bosh lidou bem com isso, claro, ele é monstruoso. Mas ficou na sua vidinha de Marbury, fazendo 25, 30 pontos e vendo seu time perder. A Andrea não dominou jogos como o Bosh, mas foi uma das poucas gratas surpresas do time no começo da temporada, melhorando nos rebotes e sendo uma ameaça constante nas bolas de 3.

Uma contusão do Jose Calderon forçou o técnico Jay Triano a trocar de armador, no lugar dele colocou o Jarret Jack. Foi quando o time começou a se acertar no ataque, o estilo mais agressivo e pontuador do Jack funcionou melhor para um time que precisava de pontos vindo de seus jogadores mais baixos e a equipe ameaçou uma reação. Só ameaçou, porque não dá pra fazer muita coisa tendo a pior defesa de toda a NBA. Sério, a menina desse vídeo faria cestas no Raptors de olhos vendados. Era impressionante como eles não tinham resistência nenhuma a infiltrações (nem Bosh e nem Bargnani são grandes bloqueadores) e qualquer armador mais rapidinho já costurava o time inteiro.

Mas defesa é algo que pode ser treinado. Mesmo sem grandes especialistas em defesa um time esforçado, dedicado e principalmente entrosado pode sair do status de medíocre para regular, e foi o que o Raptors fez para começar a crescer na temporada. Junto disso o Turkoglu começou a jogar bem melhor, foi quando ele deu a fatídica entrevista em que respondeu "Bola".

Para quem não lembra, vou colar aqui o escrevi no dia que postei da primeira vez esse episódio:

"-Depois de três meses de temporada o Turkoglu finalmente jogou uma partida boa. Tá bom que foi contra o Knicks e não contra o Cavs ou o Celtics, mas é um começo. Marcou 26 pontos, seu máximo na temporada, e foi entrevistado ao fim do jogo.

Repórter: Você ditou o ritmo do jogo desde o começo nessa noite, o que aconteceu de diferente?
Turkoglu: Bola."


Meus anos de estudo e de dedicação à interpretação de textos, aliados ao conhecimento do estilo de jogo do Turkoglu me fizeram interpretar essa aberração de entrevista da seguinte maneira: Ele quer a bola na sua mão, não quer ficar assistindo o Jack e o Calderon armarem enquanto ele fica quieto esperando um arremesso, ele precisa ter a bola com ele para criar seu próprio arremesso e armar jogadas para outros jogadores. Algo como ele fazia no Magic na temporada passada, em especial nos quartos períodos.

A gente nunca vai ter certeza disso porque ele só disse "bola", mas beleza, vamos com a minha interpretação porque ela até faz bastante sentido. Tanto que durante algum tempo o Raptors jogou assim, com mais atenção para o Turko e foi quando eles tiveram mais sucesso. Emendaram uma sequência de vitórias, ganharam do Lakers e de outros times grandes e alcançaram o quinto lugar do Leste. Durante algumas boas semanas eu tinha certeza que com esse elenco e com a melhora deles durante o ano era certeza que ficariam em quinto até o fim da temporada regular, podendo até engrossar contra o Hawks ou o Celtics na primeira rodada dos playoffs.

Então, do nada, a defesa entrou em colapso de novo. No começo de março eles tiveram uma sequência de 7 jogos em que perderam 6, veja o número de pontos sofridos nas derrotas: 114, 109, 113, 124, 109 e 115. A única e solitária vitória veio quando conseguiram tomar "apenas" 105 do Atlanta Hawks. O Raptors tem hoje, oficialmente e numericamente, a pior defesa da NBA mais uma vez. São 112 pontos sofridos a cada 100 posses de bola! Nets, Wizards, Warriors, Clippers, Wolves, todo mundo consegue ser melhor que o Raptors, é assustador!

O recorde do time por mês mostra como foi essa temporada montanha russa:

Novembro: (6 vitórias, 10 derrotas)
Dezembro: (9 vitórias, 6 derrotas)
Janeiro: (10 vitórias, 5 derrotas)
Fevereiro: (5 vitórias, 5 derrotas)
Março: (5 vitórias, 10 derrotas)

Como se não bastasse a queda do time desde novembro agora eles lidam com problemas disciplinares. O Turkoglu pediu para não jogar uma partida porque estava com dores fortes no estômago e foi poupado, o time perdeu e horas depois da partida ele estava numa balada de Toronto jogando seu xaveco ("Bola") para todas as canadenses firmeza de Toronto.

Os próprios torcedores do time dedaram o Turko para os dirigentes do Raptors, que puniram o jogador deixando-o no banco de reservas no jogo seguinte. Quando questionado sobre a situação o Turko foi bem humorado mas pareceu também de saco cheio:

"Tá tudo bem. Eu tenho lidado com isso o ano todo. Eles tem ficado em cima de mim sobre esse negócio de sair à noite desde que eu cheguei aqui. Mesmo se eu não estivesse doente eles falariam alguma coisa do mesmo jeito. Eu que não vou falar nada, temos 10 jogos até o fim da temporada e vou tentar terminar jogando bem".

Ele falou bem mais que "Bola" dessa vez, mas já que eu sou o intérprete oficial do Turkoglu no Brasil, vou dizer o que eu li disso tudo:

"Tá tudo bem, eu não me importo com o que esse bando de guarda florestal fala de mim. Eu saio quando eu quero e jogo quando eu quero, a temporada regular tá acabando e no fim das contas só vão lembrar do que eu fiz nos playoffs. Bola".

O problema no que esse Turkoglu estilizado que eu criei falou é que eles estão correndo sérios riscos de não irem para os playoffs. Depois de chegar ao quinto lugar e parecer um time bom, estão em oitavo e apenas uma vitória na frente do Chicago Bulls. Sim, o Bulls!!! O time do Derrick Rose trocou um monte de cara bom, perdeu jogadores machucados, chegou a perder 10 jogos seguidos e mesmo assim está na boca dos playoffs. Isso é o Leste, senhoras e senhores. No Oeste bastou uma sequência de 6 derrotas seguidas do Houston e do Grizzlies para que os dois dessem adeus a qualquer chance de classificação, são conferências muito desiguais.

Eu ainda aposto no Raptors para essa última vaga porque o Bulls está muito mal e porque o Raptors tem a vantagem no confronto direto e se classifica em caso de empate, mas se classificar será apenas algo simbólico, um jeito menos humilhante de acabar essa temporada. Na prática qualquer um dos times que passar para a pós-temporada tem tudo pra ser varrido sem dó nem piedade pelo Cavs. Um final melancólico para um ano cheio de expectativas altas e que, embora estejamos longe de qualquer definição, pode ser o último de Bosh por lá.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

A arte de feder

Devin Harris esconde o rosto pra não ser apedrejado nas ruas


Perder já é completamente normal para o New Jersey Nets: o elenco acorda, faz xixi, toma café, escova os dentes e aí perde. É como se fosse parte da rotina, não dá pra passar um dia sem um fracasso. Mas temos que dar crédito para o Nets, eles estão levando isso à perfeição, com toda a dedicação que apenas os gênios conseguem imprimir às coisas. Muitos times, como o Knicks e o Clippers, por exemplo, se contentam apenas em perder. Mas o Nets não, eles querem perder como nunca se perdeu antes, querem alcançar a essência da derrota, atingir a ideia platônica do fracasso. O mais incrível é que eles estão conseguindo.

Na noite de ontem, o Nets teve a chance de conseguir o recorde de pior começo de temporada da história da NBA, com 18 derrotas seguidas. O novo técnico, Kiki Vandeweghe (aposto que nem ele sabe escrever o próprio nome), ainda não assumiu o time e é claro que eles iriam perder para o Mavs. Mas o nível da derrota foi épico: apesar de ter jogado bem, com destaque para o Chris Douglas-Roberts que voltou de contusão, o Nets conseguiu dar de presente ao Mavs provavelmente o melhor segundo quarto da história do esporte. Nele, o Mavs errou apenas dois arremessos dos 19 que tentou, acertou todas as 4 bolas de três tentadas e todos os 10 lances livres cobrados. Foram 49 pontos apenas no segundo período, o que já é mais do que o Bobcats consegue fazer num jogo inteiro.

O engraçado desse aproveitamento surreal do Mavs é que dificilmente eles conseguiriam acertar tanto durante o treino ou o aquecimento, arremessando sozinhos. Talvez o Nets devesse ter tirado os jogadores da quadra porque aí, com a pressão de estarem sem marcação, talvez eles errassem um pouco mais do que com os defensores do Nets em jogo. Eu não acertaria tantos arremessos, bolas de três e lances livres sem errar nem em um milhão de anos, sozinho, numa quadra particular. O Nets conseguir permitir esse feito ao Mavs é um passo rumo à perfeição absoluta na arte de feder. Um dia, o mundo se lembrará desse time como os homens que alcançaram a perfeição e a iluminação budista através do fedor. Eles terão templos e seguidores, e o Clippers terá alguém em que se espelhar para tentar sair da mediocriedade e entrar para a história.

Mas não é apenas o Nets que escolheu esse caminho de fracassos. O Sixers, que receberá Iverson de volta na segunda-feira para enfrentar o Nuggets, está cada vez mais indo ladeira abaixo. Ontem contra o Thunder, o novato Jrue Holiday assumiu a armação em tempo integral, com pequenos momentos em que até o Willie Green (que é um arremessador puro) teve que ficar na função. Embora isso não seja um problema tão grande no esquema do técnico Eddie Jordan, acabou se mostrando um problema defensivo considerável quando vemos que o Westbrook bateu seu recorde de assistências num jogo, com 15. Nos moldes do Nets, o Sixers está permitindo atuações épicas dos seus adversários. Já são 8 derrotas seguidas, só perdem em fedor para as históricas 18 seguidas do time mestre-zen de New Jersey.

Com 5 derrotas seguidas e humildemente trilhando o mesmo caminho, temos também o Toronto Raptors. Eles formam o fundo da Conferência Leste junto com o Knicks, que fede mas disfarça, e com o Pistons, que a gente já sabia que ia ser uma droga mas tem uns malucos que achavam que ia dar certo. O Raptors, no entanto, não tinha nenhum motivo para estar adotando esse percurso de iluminação através do fedor. O elenco é bom, adicionaram o Turkoglu, mas as coisas vão de mal a pior. O Chris Bosh está tendo a melhor temporada de sua carreira, pontuando como um maluco inclusive da linha de três pontos, de onde seus arremessos estão bizarramente consistentes. Complementando seu jogo está o Bargnani, que é um dos jogadores que está chutando traseiros da linha de três pontos nessa temporada. Finalmente ele conseguiu criar confiança nos arremessos e está mostrando um arsenal ofensivo bastante surpreendente para alguém que supostamente só sabia arremessar, com muita técnica dentro do garrafão e uma boa velocidade nos giros e no jogo de costas para a cesta. O Calderon é um dos melhores armadores puros da NBA, sempre disposto a dar o passe certo e com um arremesso macio nos moldes do Steve Nash, mas nessa temporada ele não acertou a mão e nem seus lances livres, em que ele bateu recordes na temporada passada, estão caindo. Seu reserva agora é o Jarret Jack, que está jogando bem, sendo agressivo e pontuando um bocado, e o novato DeRozan está jogando bem embora se esperasse muito mais dele na noite do draft (a gente esperava pelo menos que ele passasse mais tempo em quadra, ao invés de ser titular e sumir depois do primeiro quarto, o que lhe coloca na ponta para o Prêmio Royal Ivey do ano). O Turkoglu ganhou suas verdinhas e agora está de boa, bem confortável em seu papel secundário na equipe, de carregador de piano. Tá bom que ele recebeu contrato de estrela para decidir jogos e carregar o time nas costas de vez em quando, mas ele está satisfeito em ser um jogador apenas para complementar a equipe e, nesse sentido, está se saindo bem. Azar de quem pagou o dinheiro, sorte do turco que faz aquilo que sabe e ganha o quádruplo pra isso.

Com tantos jogadores bons e tanta gente pontuando com bastante facilidade, é assustador que esse time esteja despencando na tabela. Pelo jeito, o plano de anos atrás de transformar o Raptors no Suns do Leste (ou seja, tática "corra pela sua vida", ataque forte, defesa mequetrefe, vencer os times mais-ou-menos e perder para o Spurs nos playoffs) deu mais ou menos certo. Como não tem Spurs no Leste, a ideia de imitar o Suns parecia uma boa, mas agora podemos apreciar um pouco mais o pessoal de Phoenix vendo como tantas cópias paraguaias acabaram virando farofa. O Knicks do técnico D'Antoni pontua como retardado mas não adianta nada, porque a defesa não existe e o ataque é completamente caótico e destrambelhado. O Raptors corre muito e tem um ataque inteligente e balanceado, mas tem uma defesa tão medonha que não dá pra ganhar nem dos times capengas do Leste. Aquele Suns não era um experimento bizarro de feira de ciências, uma ideia furada, um caso de time que não defende bulhufas e acaba fedendo: eles eram um caso único, um time especial capaz de fazer esse estilo dar ao menos moderadamente certo. Talvez a gente devesse repensar algumas ideias sobre defesa, acho que o Suns de hoje e o Suns de uns anos atrás, que tanto criticamos por não defender nem ponto de vista, na verdade quebram um belo de um galho defensivamente. Sabe o que é não defender? É esse Raptors tomando 146 pontos do Hawks ontem (achei que nunca fosse viver para ver um troço desses!), é o Knicks sem um único jogador que saiba o que significa a palavra "defesa". Esses times não tem chance de dar certo, não tem como ir pra frente. O Suns é um caso raro, único, que merece mais atenção. Talvez eles defendam, afinal de contas. Ou não estariam lá no topo do Oeste, atrás apenas do todo-poderoso Lakers. Alguém tem alguma outra hipótese?

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Preview da Temporada - Divisão Atlântica

Rasheed parece até menos biruta com a camiseta do Celtics
(é que o Garnett deixou nosso padrão de loucura alto)



Enfim, o último preview para a gente poder acompanhar a temporada que começa logo mais, às 21h30, com Celtics e Cavs. Rá, conseguimos cumprir a promessa de entregar todos os previews a tempo, o que certamente causou uma fissura no espaço-tempo pior do que quando os Caça-Fantasmas cruzam os raios. Se você não acredita, pode abusar da barra de rolagem e conferir, lá embaixo no blog, todos os 6 posts dos nossos previews em sequência, descrevendo como seria a temporada "filme pornô" e a "drama mexicano" de todos os times da NBA. Ou seja, como seria a temporada perfeita, sabor Viagra, e como seria a temporada horrorosa, sabor veneno no vinho para o irmão gêmeo maligno ficar com a herança. Vamos ler rapidinho antes da temporada começar?

Divisão Atlântica

Boston Celtics
Temporada Filme Pornô: O time já foi campeão uma temporada atrás, antes do Garnett contundir, então já é um filmaço de sucesso que entrou na história, tipo "Garganta Profunda". Dá pra repetir a dose, mas dá pra fazer ainda melhor: com Rasheed Wallace o time é mais versátil no ataque, graças às suas bolas de três pontos, e mais versátil na defesa, graças à sua possibilidade de marcar pivôs. Com ele motivado por Kevin Garnett - o homem que bebeu energético pelas orelhas - não haverá corpo-mole, apenas dedicação em quadra e um Rasheed que não vemos há anos e que poderia ser uma das maiores estrelas da NBA se quisesse. Rajon Rondo vai ser All-Star, vencer jogos sozinho, ser o novo Jason Kidd - ou seja, fazer vários triple-doubles sem saber arremessar - e dominar partidas enquanto as estrelas de verdade sentam no banco e fazem tricô. Essa é a temporada para todo mundo jogar menos minutos, ganhando os jogos com mais facilidade, e chegar com muito gás e saúde para os playoffs pra ser campeão sem problemas.

Temporada Drama Mexicano: Rasheed Wallace pode não se encaixar na equipe, não conseguir jogar com intensidade, não gostar de ser reserva, não acertar os arremessos. Ray Allen pode entrar naquelas sequências em que ele não acerta nem o dedo no nariz, nenhuma bola entra e ele fica imprestável. Garnett pode se machucar de novo e deixar o time sem energia e sem técnica no garrafão. Glen Davis pode tropeçar e esmagar o banco de reservas, ou então engolir o Rajon Rondo quando estiver numa crise de fome. E mesmo assim o time chega nas semi-finais do Leste, e como favorito!


Toronto Raptors
Temporada Filme Pornô: De pornochanchada brasileira com a Vera Fischer, o Raptors se tornou uma bela produção da Brasileirinhas com gente de futuro como a Vivi Fernandes, que nunca foi tudo isso mas pode render horrores dependendo do que se filma. Nada de Shawn Marion, Kapono e Anthony Parker: na temporada perfeita, o Raptors terá um Chris Bosh (que ganhou músculos desde a última temporada) ajudado pelo Turkoglu, que mesmo em seus piores momentos ainda sabe criar para si mesmo e tem os culhões para decidir jogos no final com um grande arsenal de jogadas diferentes. Andrea Bargnani (que é nome de atriz pornô) terá finalmente a sua temporada de "o novo Nowitzki", com um sensacional jogo ofensivo e com sorte até pegando rebotes, enquanto Jose Calderon ficará saudável e será ajudado pelo Jarrett Jack, que sabe pontuar. Com Amir Johnson ajudando o garrafão que era magrela e o novato DeMar DeRozan trazendo sua força nominal e explosão física, o Raptors vai ter um dos melhores e mais eficientes ataques da NBA aliado à força no garrafão e profundidade do elenco, o bastante para uma segunda rodada de playoffs.

Temporada Drama Mexicano: Perceber que o Turkoglu não é lá grandes merdas pode abalar esse time, que precisa desesperadamente de um cara para decidir os jogos, dar ordens e querer ficar com a bola na mão. O Andrea Bargnani vai ser só mais um europeu que arremessa de longe mas não aguenta levar porrada, não pega rebotes e foge do garrafão, e o Jose Calderon vai machucar e deixar o time nas mãos do Jarrett, que de armador não tem nada. O Bosh odeia jogar de pivô, não tem saúde pra segurar o time sozinho, e aí além do time ficar nas últimas posições do Leste, o Bosh decide ir embora e assina com outro time ao fim da temporada.


Philadelphia 76ers
Temporada Filme Pornô: De volta da enfermaria, o Sixers recebe o Elton Brand, que até ir para o Sixers era o jogador mais consistente do planeta. E de volta do cemitério o Sixers recebe o Jason Smith, que não jogou uma partida sequer na temporada passada. Isso só pode ser bom sinal, e a temporada perfeita ainda terá Iguodala indo para o All-Star, Thaddeous Young sendo o novo Rashard Lewis (mas sem um salário absurdo) e o Marreese Speights mantendo o nível surreal da pré-temporada, em que ele mostrou que é um Elton Brand mais rapidinho. Com tanto talento, o time ainda terá Louis Williams como a reencarnação do Allen Iverson, um armador nanico que vai penetrar, pontuar e dar o que falar, como filme pornô com anões. Dá pra passar da primeira rodada dos playoffs, até porque mesmo quando o time fede às vezes continua dando certo, é tipo o Clippers mas ao contrário. Só que dessa vez com a famosa Princeton-offense, que o técnico Eddie Jordan vai implementar e que chuta uns traseiros.

Temporada Drama Mexicano: O Elton Brand esfarela o joelho de novo, fica fora por toda a temporada. Não há armador na equipe, com o Louis Williams tendo que assumir o time porque o Andre Miller deu o fora. O Williams não tem gabarito nem pra ser reserva, cérebro nem pra ser Big Brother, e vai complicar ainda mais um time que já não sabia muito bem o que fazer em quadra. Como é que um armador sem noção como o Williams vai entender a Princeton-offense, o ataque mais complexo da história do basquete? Na prática eles vão continuar sem arremessadores de três pontos, tacando a bola pra dentro do garrafão e não tendo ninguém pra pontuar lá porque o Elton Brand vai estar de férias no Havaí - numa maca, claro. Não seria surpresa alguma eles não irem para os playoffs.

New Jersey Nets
Temporada Filme Pornô: O potencial é para ser um filme dos bons, e ainda com uma chinesinha, o que é ótimo para quem tem o fetiche. Na temporada perfeita, o Yi Jianlian será titular absoluto e vai jogar tão bem quanto estão dizendo por aí que ele está jogando nas férias, em que passou treinando o tempo inteiro e chutando traseiros nos rachões em New York. Junto com ele, Brook Lopez vai formar um garrafão absurdo, já que o Lopez vai para o All-Star Game, vai se tornar o melhor pivô do Leste (mais completo e refinado do que o Dwight, é que o mundo nunca percebeu), e vai ter o benefício de jogar com um dos melhores armadores da NBA, que é o Devin Harris, o homem que ataca o garrafão com o ímpeto de uma atriz fogosa. Nada de Vince Carter, mas agora o Nets terá Douglas-Roberts, que enfim terá minutos para provar que é um dos melhores pontuadores que o jogo já viu, e Courtney Lee, que já foi estrela de jogo de playoff para o Magic e ficou tão puto de ser trocado que é bem capaz que ele se torne o novo Gilbert Arenas só de birra. Fora o novato Terrence Williams, que vem de uma ótima pré-temporada. Ou seja, um filme pornô cheio de ninfetas que pode até arrancar uma vaga nos playoffs quando ninguém imaginava possível.

Temporada Drama Mexicano: O Devin Harris pontua mas não passa a bola, o Yi Jianlian mostra que eu só acredito que ele vai dar certo porque tenho fetiches por chineses gigantes, e ninguém no elenco com idade para beber sabe pontuar. Todo mundo faz cocô nas fraldas durantes os jogos, um rouba a chupeta do outro, e o time não dá certo (menos o Brook Lopez, esse eu acredito mesmo) porque ninguém tem experiência fora do Jardim de Infância. Mas mesmo assim o Nets briga de longe pela última vaga dos playoffs, só pra perder no final e os bebês chorarem ainda mais.

New York Knicks
Temporada Filme Pornô: Podem me bater, mas na temporada perfeita o Knicks tem Nate Robinson e David Lee destruindo como as estrelas do time, o Danilo "Xará" Gallinari finalmente jogando basquete e virando o quadragésimo Dirk Nowitzki reencarnado, o Wilson Chandler virando um jogador completo e acertando bolas de três pontos até de costas, e o Duhon provando para todos que o Nash é uma enganação e que basta jogar para o técnico D'Antoni para ser uma estrela. E mesmo assim o Knicks fica fora dos playoffs. É tipo pornô com gordas, tem gente que gosta, dependendo de quem você é rola até um charme, mas não dá pra levar a sério.

Temporada Drama Mexicano: David Lee e Nate Robinson se sentem traídos pelo time, que na expectativa por um futura estrela não quis dar o dinheiro que os dois mereciam. Assim, eles fazem corpo mole porque sabem que o time não vai dar em nada e só quer convencer o LeBron mesmo, que por fim fica mesmo no Cavs. Descobre-se que o Gallinari é na verdade apenas um pirralho branco e magrelo, como exames pictográficos antes apontavam, e aí desistem do moleque. Eddy Curry passa fome e come o resto do elenco, o estádio do time e metade da cidade de New York, mas quando a outra metade da cidade percebe que o Jared Jeffries é titular, decide se matar por conta própria mesmo.

domingo, 5 de julho de 2009

Pegadinha do Mallandro

"Glu, glu, glu, ó a pegadinha!"


Estava praticamente certo, segundo fontes seguras, que o Hedo Turkoglu estava indo para o Blazers, e eu não conseguia entender muito bem a lógica da contratação. Gosto muito do turco, é verdade, jogadores com sua altura e a capacidade de armar o jogo são muito raros e permitem uma série de variações táticas aos seus times. Sei que a comparação é um tanto infame, mas até mesmo o Antoine Walker, que tinha quinhentos defeitos, mostrava-se valiosíssimo para suas equipes quando armava as jogadas mesmo estando em quadra como ala. O Turkoglu se encaixa na mesma categoria e, embora não seja muito criativo e nem um pouquinho atlético (vê-lo acima do aro, só se for com uma escada), seus arremessos de longa distância, tranquilidade nos momentos decisivos, técnica apurada e capacidade de armar o jogo são o bastante para torná-lo bastante versátil e compensar bem o fato de que não defende bulhufas e que sua velocidade às vezes faz parecer que ele está jogando basquete embaixo d'água. O turco tem as características perfeitas para compor elencos bem montados, ao invés de ser estrela e carregar times nas costas, o que tornaria o Blazers uma opção plausível porque o plantel lá é muito completo. Mas é justamente essa profundidade incrível no elenco (que o Blazers construiu com tanto custo, num processo de reconstrução inteligente e ousado) que não casa com oferecer 10 milhões por ano para um jogador que traria versatilidade a um time já exageradamente versátil.

Com tantos jogadores merecendo minutos consideráveis por lá, todos talentosos, jovens e podendo jogar em várias posições, o Blazers às vezes é uma incógnita muito grande. Um elenco profundo demais é um problema que qualquer técnico quer ter (menos o Isiah Thomas, que ficaria desesperado e trocaria metade do elenco por jogadores ruins com contratos gigantes e feijões mágicos), mas fica difícil saber qual é a função de cada jogador no time e os próprios jogadores por vezes não fazem ideia do que estão fazendo ali. Jerryd Bayless e Sergio Rodriguez (que o Denis ficou tão puto quando foi trocado para o Kings) às vezes eram tratados como simples reservas, às vezes como peças fundamentais, às vezes eram esquecidos no banco de reservas e nem entravam em quadra. E isso porque Martell Webster quebrou a perna e passou a temporada inteira de fora, senão seria mais um jogador a dividir minutos, funções e atenção, tipo uma ninhada de gêmeos querendo mamar na mamãe. Na ala, o Blazers já conta com a revelação-surpresa Nicolas Batum, que é tipo um Shane Battier francês, e o Rudy Fernandez, que abriu mão de uma carreira tendo seu saco lambido lá na Europa pra ganhar pouco e poder brincar na NBA. Sem falar no Brandon Roy, que é absurdamente versátil e além de poder jogar em qualquer das duas posições de armador, pode jogar também de ala e inclusive armar o jogo nessa posição - como o Turkoglu, aliás. Quando o Roy joga de ala, os trocentos armadores do Blazers ganham mais minutos de jogo sem que lhes caiba a responsabilidade de manter a bola nas mãos, o que é perfeito para uma equipe que não se envergonha de colocar-se nas costas do Brandon sem abrir mão de uma infinidade de variações táticas e os serviços de uma dúzia de outros bons jogadores.

O Blazers montou uma equipe através de trocas inteligentes e escolhas de draft, sempre focado no talento mais do que nas posições, mas aproxima-se a hora em que os engravatados vão ter que escolher quem é o núcleo desse time e quem se comprometerá a estar lá a longo prazo. Quase todo mundo no time ganha pouco e tem idade pra jogar Pokémon, então renovar alguns contratos será bastante salgado para a visão que o Blazers mantém agora de um basquete coletivo e versátil. Onde o Turkoglu se encaixa nisso eu não sei, 10 milhões por ano durante 5 anos poderia comprometer o contrato de Roy, Aldridge, Oden, Rudy Fernandez (que imediatamente reclamou da contratação do Turkoglu, já que esperava merecidademente mais minutos de quadra) e Bayless, todos jogadores essencials para esse Blazers. Pensando que o Turkoglu não traria ao time nada que eles já não tenham, me vi no direito de ficar um pouco confuso.

Mas não adiantava questionar, o turco já tinha dito que aceitaria a proposta, todos os veículos davam como certa a contratação, e tinha até gente cobrando do Bola Presa o já tradicional post analisando a aquisição do Blazers (a gente tem preguiça, leva com a barriga, mas só escrevemos os posts quando tudo está absolutamente confirmado - não porque somos um site sério e com um compromisso com a informação e a verdade, que se lasque a verdade, mas é que fazer um outro post se corrigindo daria o dobro do trabalho!). Fizemos bem em esperar, ao contrário do resto da internet: todo mundo levou um susto.

O Turkoglu estava visitando Portland, conhecendo o lugar em que iria morar, as instalações do time, os caras que iam pagar seu salário, e aí de repente, no meio da visita, gritou: "Olha a câmera ali! Vocês tão na pegadinha do Mallandro!" Pregou uma peça no Blazers e em todos os outros times da NBA ao avisar, de repente, sem ter dado qualquer sinal anterior, que vai assinar com o Toronto Raptors. Ele podia esperado a visita a Portland terminar, passar uns 3 dias se fazendo de difícil e aí aceitar o Raptors, porque decidir jogar no Canadá no meio de uma visita comendo e bebendo às custas do Blazers é um tanto indelicado, digamos assim. Meu palpite é que o Turkoglu deve ter visto muitos garotos de rua, pobreza, criminalidade e drogas pesadas nas ruas de Portland, e aí não conseguiu esperar um segundo sequer para avisar que ele vai jogar na terra dos guardas florestais e dos ursos, onde literalmente ninguém tranca suas portas e a maior transgressão do povo é cutucar o nariz quando ninguém está olhando.

O Turkoglu é uma boa aquisição para o Raptors, mas apenas intensifica o caráter bizarro desse time. Pra começar, já faz uns anos que a intenção por aquelas bandas é montar um clone do Phoenix Suns - ataque rápido, bolas de três pontos, defesa nula, armador estrangeiro, nenhum pivô e time baixo demais. Na época em que o projeto foi instituído, o Suns era um time espetacular criando um novo modo de jogar basquete no qual muita gente acreditava, mas a dura e cruel verdade é que eles nunca conseguiram vencer o Spurs e então abandonaram tudo na troca pelo Shaq que, com sua ida para o Cavs, se transformou numa reconstrução do Suns inteiro. O Raptors então é tipo um cover dos Menudos fora de época, não faz muito sentido. Depois de um sucesso moderado, o time amargou técnicos ruins e a clara dificuldade de montar um elenco capaz de se focar apenas no ataque - principalmente levando em consideração que esse Raptors, pelas características dos jogadores, sempre teve um pouco de dificuldade de jogar na velocidade e no contra-ataque. Por um lado, o Turkoglu se encaixa bem nesse time porque todo mundo lá arremessa de três pontos, é um pouco lento, tem bastante técnica, não faz ideia de como defender e é extrangeiro. Jogadores que saem desse esteriótipo, como Shawn Marion e Anthony Parker, são Free Agentes nessa temporada e não devem ficar em Toronto (Parker está sendo cotado pelo Cavs, e o Marion quer mais de 10 milhões por ano apesar de não ter uma temporada decente desde que saiu do Suns). Por outro lado, Turkoglu traz ao Raptors a mesma fórmula que claramente não vem dando certo já faz algum tempo. Com José Calderon, DeMar DeRozan, Turkoglu, Bosh e Bargnani, temos uma equipe talentosa, capaz de causar problemas no ataque para qualquer equipe da NBA, jogando um basquete coletivo, de meia quadra, arremessando de onde quiser, mas já está na hora de sermos céticos a respeito de um time sem pivô que se foca basicamente em arremessos de média e longa distância e que se nega a defender um mínimo que seja. Turkoglu está em casa, entre ursos, guardas florestais e jogadores fracotes, técnicos, europeus e bons arremessadores, mas o sucesso da equipe parece muito questionável. Os 56 milhões por 5 anos gastos nele poderiam garantir ao Raptors uma estrela de verdade, ou ainda tentar (provavelmente em vão) segurar Chris Bosh na equipe para a próxima temporada. Não posso criticar uma aquisição que se encaixa tão bem no que o Raptors é e propõe ser, mas critico gastar tanta grana em alguém que trará uma pequena variação de algo que já não estava dando certo.

Sinceramente, achei que o Blazers se safou de uma boa e teria se arrependido muito se tivesse pagado tanto dinheiro pelo Turkoglu. O problema é que parece que eles agora querem oferecer a mesma grana para outros jogadores mais-ou-menos, tipo o David Lee, que não tem nada a ver com aquilo que o Blazers precisa. Já o Raptors torrou verdinhas demais no turco, principalmente se a gente levar em conta que um cara como o Rasheed Wallace assinou com o Celtics por míseros 5 milhões por ano (só que dele a gente fala amanhã, pode esperar). Mas vamos tentar ser minimamente positivos e bater palmas: fedendo ou chutando traseiros, ao menos agora o Raptors tem uma filosofia muito bem definida e jogadores todos muito parecidos entre si. Talvez, se essa filosofia funcionar num Leste cada vez mais disputado e cercado de grandes estrelas, eles deixem de ser apenas mais um cover fora de hora, alguém que usa mullets sem perceber que, infelizmente, a moda já passou.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Exilado no Canadá

Shawn Marion mostra o número de
meses em que jogará no Raptors


Existe um joguinho ocorrendo entre os dirigentes da NBA para se divertir um pouco que não tem necessariamente nenhuma relação com ganhar partidas de basquete. Numa espécie de "Jogo do Mico" da vida real, o último time que ficar com o Marcus Banks perde. O Celtics se livrou dele na grotesca troca com o Wolves pelo Olowakandi. O time de Minessota não renovou o seu contrato mas o Suns quis continuar a brincadeira (dirigentes são entediados, sabe como é), assinou o Banks e mandou ele para o Heat na troca do Shaq. Agora, Marcus Banks acaba de ser trocado de novo, dessa vez para o Raptors - junto com Shawn Marion. A equipe de Toronto, por sua vez, manda para Miami o Jermaine O'Neal e o campeão de força nominal, Jamario Moon.

O Banks praticamente não jogou em todas as equipes em que foi parar, mas seu valor como piada interna, como jogo secreto, é inegável. Talvez sem ele a troca não tivesse saído, já que era cogitada há muito tempo mas faltava alguma coisa para que finalmente ocorresse de fato. Resta agora saber para qual time o Raptors vai mandar o Marcus Banks, e quem vai morrer com o mico na mão. Aposto que alguns sites de aposta devem estar criando uns bolões agora mesmo. Levando em conta que os jogadores que vão para o Clippers costumam morrer ou encerrar a carreira, eu acho que o Banks morre nas mãos deles e todos os outros dirigentes da NBA vão se divertir e voltar aos seus afazeres normais (coçar a bunda, claro).

Dado meu palpite, é hora de falar dos jogadores secundários nessa troca: Marion e Jermaine O'Neal. Para o Heat, a troca era óbvia. O Shawn Marion não deu muito certo por lá, pra começo de conversa. Não que ele estivesse fedendo, longe disso, mas você não contrata a Monica Mattos pra ficar na sua casa lavando louça, por mais que ela deixe seus pratos brilhando. O Marion até fazia o serviço bem feito, mas o Heat trocou por uma grande estrela capaz de fazer estrago no Leste, coisa que não aconteceu. Como o contrato do Marion acaba ao fim dessa temporada, o Heat tinha duas escolhas: trocar o Marion por qualquer coisa, nem que fosse uma paçoca para não sair de mãos vazias, ou então renovar com ele e mantê-lo na equipe por vários anos. É como dizem, em time que está ganhando não se mexe, então o Heat - que não está ganhando porcaria nenhuma - não podia manter o mesmo elenco e achar que Joel "Quem?" Anthony iria tapar o buraco no garrafão. O mais irônico dessa história é que, com Dwyane Wade plenamente saudável, Mario Chalmers saindo melhor do que a encomenda, e Beasley melhorando seu jogo, tudo que o Heat precisava agora para ter chances no leste era de Shaquille O'Neal, aquele que estava em fim de carreira e eles trocaram por um Marion que não deu certo. O time do Heat é baixo, sem nenhum jogador no garrafão capaz de acertar o próprio nome, e sem defesa alguma debaixo da cesta. Como uma troca Marion por Shaq de novo seria admitir o fracasso, o jeito foi trocar pelo outro O'Neal, aquele que está sempre contudido e tem um contrato ridículo.

Eu era um baita fã do Jermaine quando ele chutava traseiros lá em Indiana, mas até para mim assinar um contrato de 126 milhões por 7 anos (uma média de 18 milhões por ano, mas que na verdade lhe paga 23 milhões em seu último ano de contrato) pareceu completamente débil mental. Havia potencial, ele era uma estrela, mas alguém se empolgou demais na hora de assinar os cheques. Com tantas contusões, lembrar quanto dinheiro o Jermaine vai enfiar nas orelhas beira o ridículo, mas ele ainda é um jogador impressionante, principalmente no setor defensivo. Infelizmente ele nunca mais recuperou o ritmo nos arremessos que uma vez teve no Pacers, mas ainda é ao menos competente na hora de pontuar. Acontece que ele e o Bosh na verdade têm estilos similares, ou seja, não gostam muito de jogar muito próximos da cesta, e o Raptors rende melhor quando apenas um deles está em quadra e a posição de ala de força vai para o Andrea Bargnani, que anda jogando cada vez melhor apesar do nome de miguxa.

Trocar o Jermaine era meio inevitável, portanto. O Raptors deu trabalho para o Orlando Magic na temporada passada e agora, após perder o porra-louca TJ Ford e adicionar Jermaine O'Neal (o que deveria ter melhorado o time, se o Universo fosse lógico), foi parar no grupo de piores times do Leste. E convenhamos, é mais difícil ser o pior time do Leste do que ser o melhor, porque a disputa é mais acirrada. Deixar como estava não podia, o Bargnani merece passar mais tempo em quadra, e o Jamario Moon não estava numa boa fase: após uma ou duas jogadas bastante idiotas, se queimou com o técnico e com o Chris Bosh, e chegaram a cogitar que ele perderia numa partida de damas para o Kwame Brown, dado seu intelecto não muito privilegiado. O Raptors, então, não sai perdendo muito e ganha uma possível estrela em Shawn Marion. Se ele vai ser o mesmo dos tempos de Suns não se sabe, mas se não funcionar o contrato dele acaba e pronto, dinheiro para o time de Toronto gastar contratando algum urso ou guarda florestal.

Boto uma fé no Marion por lá, no entanto. O manager do Raptors, Bryan Colangelo, foi o responsável por montar o Suns da era corra-por-sua-vida e parecia determinado a repetir a dose no Canadá. Com TJ Ford e Bosh, tinha as bases de um time veloz e desencanado dessa tal defesa, mas aos poucos o projeto foi se desvirtuando: o ex-técnico Sam Mitchell foi diminuindo a velocidade e o time quase que deu certo antes de desmoronar. Com a saída de Jermaine e Shawn Marion podendo jogar em sua posição natural, de 3, pela primeira vez nos últimos 50 anos, o Raptors tem tudo para impôr uma correria amalucada e é bem capaz que dê certo. Como todo jogador de basquete, o Marion vai querer escapar de Toronto bem rápido e jogar num lugar que exista de verdade, mas se tudo estiver dando bem certo por lá até consigo vê-lo reassinando com a equipe. O próprio Marion, que assim que ouviu a troca deve ter pensado em se matar, disse que agora está mais calmo e talvez renove seu contrato com o Raptors para a próxima temporada. Quer dizer, isso se alguém convencer o Bosh a ficar por lá também, já que vazou um depoimento dele praticamente contando os dias para se livrar do Canadá. O negócio é o seguinte: se o time de Toronto quer ser uma equipe minimamente relevante pela próxima década, essa segunda metade da temporada tem que ser perfeita. Tudo tem que se encaixar perfeitamente, em total sincronia, para Marion e Bosh continuarem por lá. Ou seja, acho que já era.

Os ares em Miami parecem bem melhores, em parte por causa de milhares de gostosas de biquini, mas também porque o Heat passa a ser uma força legítima no Leste se o Jermaine ficar saudável. Jamario Moon pode trazer defesa para a equipe se o Beasley continuar vindo do banco, mas mais para frente deve ser uma opção na reserva com Beasley titular. E Jermaine cuidará da defesa do garrafão - tudo que ele fizer além disso será lucro. Talvez seja um pouco tarde para contar com o Heat chutando traseiros nos playoffs, é preciso um pouco de química, de tempo, de saúde. Mas as chances nessa temporada são muito boas e, para a temporada que vem, talvez dê para considerá-los até um time de verdade. Só o que melhor fica por vir: o contrato do Jermaine acaba na já lendária temporada de 2010, então o Heat vai ter grana para reassinar o Wade com um contrato máximo e de brinde assinar outro jogador com um contrato similar. Se o Jermaine não der certo, abraço no cara e não esqueça de escrever. Ironicamente, em 2010 poderemos ver um Heat com Wade e Bosh, por exemplo. O que já dá para babar um pouco, e é bem mais realista do que feder por anos e ficar contando com a boa vontade do LeBron de mudar de time, não é mesmo, Knicks?

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

O que fazer com Jermaine O'Neal?

Da série "acho que fiz caca"


Alguns times têm que decidir o que fazer com o Kwame Brown, outros o que fazer com o Eddy Curry. Portanto, decidir o que fazer com o Jermaine O'Neal é um luxo para poucos, mesmo que ele seja um problema em muitos aspectos e, às vezes, mais atrapalhe do que ajude.

Das 43 partidas do Raptors na temporada até agora, Jermaine jogou apenas 29, isso contando os jogos em que passou meia dúzia de minutos em quadra antes de sair mancando. É impossível contar com ele, montar um esquema consistente, depender de sua presença. Suas lesões têm destruído sua promissora carreira desde os tempos no Pacers, que eventualmente foi obrigado a decidir o que fazer com o rapaz. O pessoal de Indiana tinha em mãos um All-Star, um jogador técnico e dominante capaz de liderar um time para granfes feitos, mas como lidar com seu salário de mais de 20 milhões de dólares quando ele mal entrava em quadra? Sua ausência, aliada a terríveis decisões do pessoal engravatado, levaram o Pacers a feder - e muito. Jermaine pediu para ser mandado para um lugar onde pudesse ser aproveitado, onde pudesse fazer a diferença. Sua saúde dava sinais de melhoras no final da temporada e a produção em quadra parecia razão para esperança. Rapidamente, foi parar em Toronto numa troca que aparentava envolver duas estrelas potenciais em Jermaine e TJ Ford. Agora, olhando com mais calma, parece que as duas equipes simplesmente queriam se livrar o mais depressa possível da bomba que tinham em mãos, estrelas cujas contusões tornaram-nos um fardo grande demais para suas equipes.

É aquela velha história da galinha do vizinho ser sempre melhor do que a nossa, principalmente se a galinha do nosso vizinho é uma de raça, tipo a Mari Alexandre. O TJ Ford parece um excelente armador, jovem, veloz, reboteiro, joga demais, mas quem conhece de perto sabe todos os podres. O TJ é frágil, teve lesões graves na coluna, ameaçou se aposentar do esporte depois que médicos alertaram que ele quase ficara aleijado após uma queda feia. Além disso, é agressivo demais no ataque, o que compromete tanto sua condição física quanto a capacidade de controlar o ritmo da equipe, sabendo quando atacar a cesta e quando passar a bola. Os times de TJ Ford são muitas vezes obrigados a ficar parados, assistindo o nanico correr de um lado para o outro da quadra sozinho.

O Pacers queria se livrar do contrato exagerado do Jermaine O'Neal e de sua presença que não permitia que o time fosse bem - já que ele estava sempre machucado - nem que fosse absolutamente mal, porque acabava sempre dando uma força. Para se renovar e colocar o controle em novas mãos, mais jovens, é necessário ter a coragem de feder um pouco, por uns tempos, e às vezes se livrar dos jogadores que impedem esse processo natural e obrigatório. Dois times querendo se livrar de dois estorvos que pareciam ser bastante apetitosos aos olhos alheios: um casamento perfeito que só poderia ter como resultado final dois times insatisfeitos. Afinal, casamento em que as duas partes estão satisfeitas, só naqueles casamentos arranjados em que uma russa quer nacionalidade americana, e um americano rico quer comer uma russa. Fora isso, a gente sabe que vai dar merda.

O TJ Ford jogou 34 dos 41 jogos do Pacers até agora. Ou seja, sofreu novamente com contusões. O time está fedendo como nunca e está lá no fundo da tabela do Leste. E, pra ser bem sincero, às vezes parece que o Pacers joga até melhor sem ele, com a bola mais nas mãos do Danny Granger e mais oportunidades para Marquis Daniels (por quem tenho um estranho Complexo de Drew Barrymore desde os tempos dele no Mavs) e para Jarret Jack.

Com o Jermaine, a história é mais complicada. Quando está em quadra, não há dúvidas de que torne o Raptors um time melhor. O problema é que talvez ele não melhore o time o suficiente. A situação acaba lembrando mais ou menos a do próprio Pacers, quando decidiu trocar sua estrela para dar espaço para o "Granny Danger": o Raptors não fede nem cheira, não está dando certo, muito provavelmente ficará fora dos playoffs, mas não estará entre os piores times. Não há chances mínimas de título e nem planos de tacar tudo no lixo e começar de novo, o que acaba deixando o time inteiro no limbo, sem saber para onde correr. Jermaine não resolve todos os problemas do Raptors, mas resolve alguns. Ele tem seus dias de estrela, mas em geral está no banco vestindo um terninho - que aliás não combina em nada com sua eterna cara de bebê.

Creio que o Raptors não está em condições de aceitar soluções pela metade. A crença de que o time estava apenas a uma peça de alcançar grandes feitos no Leste ainda permanece, embora eu ache ela tão pertinente quanto achar que a Terra está flutuando em cima de uma tartaruiga espacial. Então, se o Jermaine não é a peça que faltava, existem duas opções: trocá-lo imediatamente pela peça que falta, pois a data limite para trocas termina em 19 de fevereiro, ou então mantê-lo e esperar seu contrato terminar para liberar espaço na folha salarial para a lendária temporada de 2010 (LeBron, Wade, Bosh, dizem que talvez até Jesus Cristo e Buda).

Como antigo fã de Jermaine O'Neal que se achou velho quando ele parecia não ser mais capaz de ficar em pé, confesso que fiquei surpreso com seu rendimento em Toronto. Sua defesa continua impecável, embora os arremessos não tenham conseguido voltar ao velho ritmo e seu corpo não aguente mais o jogo físico de trombada que ele, com muito custo, havia desenvolvido em Indiana. Agora, é um jogador que pode ao menos contribuir sempre que consegue levantar da cama, e acho que ainda há espaço para ele na NBA se a natureza deixar. Ainda assim, concordo que o melhor a fazer é deixar Jermaine ir embora, por troca ou fim de contrato. Não que outra peça venha suprir aquilo que ele não conseguiu, é apenas que o Raptors também tem um Danny Granger que precisa de espaço para se desenvolver. Trata-se de uma versão com nome de garota e hábitos alimentares de uma Tartaruga Ninja: Andrea Bargnani.

Quando o Jermaine está desmontado como se fosse feito de Lego, o Bargnani é titular e tem médias excelentes de 17 pontos, 6 rebotes, 1.3 tocos e acerta 45% dos seus arremessos de três pontos. Jogar com o Bosh permite a "tática Rashard Lewis" de obrigar o defensor adversário a sair do garrafão e acertar arremessos de fora se ele não o fizer. Quando Jermaine joga, Bargnani joga em outras funções, passa menos minutos em quadra, e com isso faz apenas 8 pontos, pega 3 rebotes e acerta somente 34% dos arremessos de fora. A diferença é grande demais e é hora do conterrâneo do Super Mario ganhar confiança. Pra mim, todo time que não parece ir a lugar nenhum deveria começar a pensar em suas futuras estrelas, e o Raptors deveria estar distribuindo minutos para o Bargnani, para o Ukic (o armador que volta e meia tanto me impressiona) e para qualquer urso ou guarda florestal que parecer promissor lá no Canadá. Até porque eu duvido muito que o Chris Bosh continue por lá quando seu contrato se encerrar.

Pelo que parece, o pivô perdeu a paciência com a equipe. Na última partida contra o Hawks, surtou por completo com os erros de seu coleguinha Jamario Moon (que merecia respeito ao menos pela sua força nominal). Com o Raptors na frente e 90 segundos para o final, Moon deixou Joe Johnson livre para uma bandeja em que sofreu falta, diminuindo a diferença para um ponto. Com 55 segundos para o final, caiu na "tática Billups" de "eu vou fingir que arremesso pra ver se você é imbecil e vai pular no meu cangote" usada pelo Mike Bibby e cometeu uma falta, que resultou em dois lances livres e o Hawks liderando por um ponto. Em seguida, com 36 segundos para o final, deu um arremesso idiota de três pontos precipitado e bem, bem errado, que terminou de vez com o jogo. O Bosh arrancou os cabelos e, assim que a partida terminou, criticou o Moon abertamente, tanto pelas falhas defensivas quanto pelo arremesso desnecessário. Acrescentou que a mentalidade do time está errada, que no final dos jogos eles fazem tudo equivocado, e que não dá pra vencer assim.

Desconfio que, com essa equipe, o Bosh não queira ficar em Toronto. Como o contrato do Jermaine acaba potencialmente junto com o do Bosh, talvez acabe sendo tarde demais para usar a grana para contratar alguém de peso e convencer o pivô com pescoço de dinossauro a ficar. A lógica, portanto, se os engravatados estiverem dispostos a manter sua maior estrela, seria trocar Jermaine imediatamente - por alguém que, preferencialmente, não comprometa os minutos do Bargnani.

Os Nelsons Rubens do mundo da NBA falam constantemente de uma troca de Jermaine por Shawn Marion. Esse é um dos meus boatos preferidos, só perdendo para aquele que diz que a Maísa é na verdade uma anã e tem mais de 40 anos. Para o Raptors, essa troca traria uma defesa mais do que necessária, uma ajuda nas bolas de três pontos, daria uma força nos rebotes e permitiria que o Bargnani fosse titular ao lado do Marion. Além disso, o Jamario Moon iria para o banco de reservas, lugar a que ele pertence, já que contribui e muito para uma equipe mas jogar os minutos decisivos já é demais. Para o Heat, a troca traria tamanho - simples assim. Assistir Houston e Miami foi hilário, porque o Yao Ming podia fazer o que quisesse, incluindo pegar rebotes ofensivos no meio de 4 defensores enquanto dançava a macarena, e acabou o jogo com 12 arremessos convertidos em 12 tentados. Com Jermaine O'Neal, o Heat não teria que usar como titular o pivô Joel "Quem diabos?" Anthony, e o novato Beasley receberia muito mais minutos - coisa que ele está precisando urgentemente para pegar o jeito da brincadeira.

Por que essa troca não seria feita? Bem, provavelmente porque o Heat não é otário de pegar um jogador que tenha que entrar em quadra de cadeira de rodas. Antes de mais nada, é preciso que o Jermaine prove que pode jogar, que está saudável, e isso é como pedir para que o Clippers não tenha ninguém contundido no elenco. No entanto, há sempre uma possibilidade. Como acho que a temporada do Raptors já era, a prioridade deve ser mostrar que o Jermaine ainda dá pro gasto e forçar uma troca. Se não for pelo Marion, será por qualquer outra coisa que convença o Bosh a ter um pouco de fé, nem que seja uma troca por uma cinta pra dar na bunda do Jamario Moon. Mas nesse mundo de casamentos que são perfeitos porque dão errado, fico torcendo para ver o Marion no Raptors. Seria uma combinação ideal, ainda que - pode apostar - o time de Toronto não vá chegar a lugar algum do mesmo jeito.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Mentira tem perna curta

"Como assim vão me demitir porque eu fedo?
Quer dizer que não sabiam?"



Quando, pouco antes da temporada começar, fizemos uma análise de todos os técnicos da NBA, apontamos a Divisão Atlântica como o lar dos incompetentes. Para mim, o técnico Sam Mitchell podia ser apontado como o pior de toda a liga, enquanto Mo Cheeks não se encontrava muito longe, sendo um dos técnicos mais invisíveis quando seu time está em quadra. Os dois levaram suas respectivas equipes para os playoffs e, após serem chamados de burros e incompetentes, foram consagrados "gênios incompreendidos" e receberam total apoio dos dirigentes. Foram extensões contratuais, milhões de dólares indo parar em seus bolsos, discursos de que todos acreditavam em seus trabalhos técnicos que agora estavam dando resultado. Legal, e eu sou a Vovó Mafalda. Um punhado de meses depois, os dois estão no olho da rua.

Eu queria muito compreender o critério por trás das demissões, de verdade. Nenhum dos dois técnicos tinha qualquer talento, isso todo mundo sabe, e a melhor coisa a se fazer era colocar ambos para vender cachorro-quente. Mas frente aos resultados de certo modo positivos, os dirigentes se comprometeram com os trabalhos, assinaram embaixo, deram aquele clássico soquinho no queixo seguido por um "continue assim". Pois bem, "continuar assim" foi justamente o que Sam Mitchell e Mo Cheeks fizeram. Como demitir alguém que está fazendo exatamente a mesma porcaria que fazia antes, e pelo qual foi tão elogiado, aliás? A impressão que dá é de que os responsáveis pelas franquias não fazem a menor idéia do que estão fazendo, apenas acompanham os resultados e julgam baseados inteiramente nos números. E não em números difíceis, como "posses de bola por 48 minutos", mas apenas no número de vitórias e derrotas - talvez no número de torcedores por partida também, vá lá. Isso é até normal, o objetivo das franquias é dar lucro, ninguém é bonzinho e financia uma equipe de basquete porque isso traz alegria para o mundo ou é uma linguagem que permite a ampla expressão de seus membros constituintes. Seria como dizer que o objetivo do McDonald's é alegrar as crianças e espalhar a arte gastronômica como forma de comunicação. Pois é, o Joâo Kléber também só queria tornar o mundo um lugar melhor, pobre gênio imcompreendido.

Mas justamente por visar ao lucro é que mais atenção deveria ser dada ao que diabos os técnicos estão fazendo em quadra. Se colocassem um gorila de circo no Raptors que passasse os jogos comendo bananas e trepando em cima do banco de reservas, e o time chegasse aos playoffs, seria ridículo parabenizar-lhe por isso - pior ainda seria lhe oferecer uma extensão de contrato. O que dizer, então, da demissão do gorila caso o time desse errado na temporada seguinte? Sua ação no time (comer bananas) sempre foi a mesma e provavelmente eu tive mais influência nos resultados da equipe quando tirei meu pijama pela manhã do que ele.

No caso do Mo Cheeks, ainda há o agravante de ninguém ter percebido o desastre óbvio que se aproximava. Nenhuma estrela jamais conseguiu se encaixar em um time seu, de Rasheed Wallace a Allen Iverson, basicamente porque seu estilo de jogo parece ser invariavelmente coletivo para alguns, ridiculamente inexistente para outros. Ele tornou a meia tonelada de jogadores secundários do Sixers um conjunto coeso, mas era óbvio que a chegada de uma estrela obrigaria que ele mudasse sua tática e explorasse as novas possibilidades, coisa que ele nunca seria capaz de fazer. De certo modo, Elton Brand foi o atestado de óbito de Mo Cheeks por vários motivos: a princípio, porque o obrigou a utilizar-se de uma estrela; depois, porque o time deixou de ser uma porcaria que surpreendeu todo mundo para se tornar um time de verdade que supostamente deveria ser capaz de vencer. Convenhamos, vencer sem querer é muito mais fácil do que vencer quando você precisa mostrar resultados. O técnico quebra-galho será Tony DiLeo, que pelo menos não terá muita responsabilidade de vencer porque pegou o bonde andando. Se ele tem chances eu não faço idéia, afinal escrevo sobre NBA mas tenho mais o que fazer na minha vida do que digitar o nome desse pentelho no Google.

Também não faço idéia de quem seja o novo técnico do Raptors, o Jay Triano, que era assistente técnico da equipe (e tem nome de boxeador latino). Mas assim é que é bom, a gente julga o trabalho do cara na prática, não graças ao seu nome ou resultados passados, o que também é uma excelente desculpa para esconder a preguiça de ir pesquisar sobre alguém que pode ser mandado embora em 15 minutos. Mas vale dizer que suas poucas alterações no time me pareceram muito bem-vindas. Antes de mais nada, colocar o Jason Kapono pra jogar já é motivo de alegria. Militantes dos Direitos Humanos festejaram a libertação de Kapono do fim do banco do Raptors, onde ele apodrecia vivendo a pão e água. Sua situação não era tão ruim quanto a do Belinelli ou do JJ Redick, que estão escravizados e utilizados como pesos de papel em suas equipes, mas também era bem feia. Sam Mitchell não faz a menor idéia de como utilizar jogadores unidimensionais, especialistas em fazer apenas uma coisa, e os arremessos de fora do Kapono foram abandonados no banco graças à sua dificuldade nas outras funções - ainda que tenha sido peça fundamental naquele Heat que foi campeão da NBA. É verdade que o Anthony Parker está contundido e abriu uma vaga, mas Kapono está tendo minutos que nunca teve em Toronto e nem teria com o Mitchell, sem contar que Jamario Moon retornou à escalação titular. Com isso Bargnani voltou ao banco, o que compromete sua temporada de claros aprendizados, mas o italiano ainda é inconstante demais e seu amadurecimento não pode ser feito às pressas. Na verdade, tem que ser secundário frente ao elenco do Raptors que deveria poder vencer agora, e tem que se preocupar mais em encontrar um equilíbrio entre Bosh e Jermaine O'Neal do que qualquer outra coisa. Ser técnico em Toronto parece fácil porque ninguém dos Estados Unidos presta atenção no Canadá, e os torcedores do Raptors estão mais interessados em hockey e em chegar em casa sem serem atacados por ursos. Mas esse elenco é na verdade uma bomba para o próximo técnico: bom demais para ficar fora dos playoffs, limitado demais para ser campeão do Leste, apesar da obrigação de vencer imediatamente. Essa é uma zona perigosa de mediocriedade que fada times ao fracasso. A intenção declarada alguns anos atrás de se tornarem "o Suns do Leste" pode na verdade ser uma maldição e apontar os problemas presentes e futuros: o eterno "quase-chegamos-lá". Quem pegar os dinossaurinhos roxos vai ter que decidir se esse será o modelo a ser seguido, se eles correrão, se defenderão, se apostarão em Jermaine O'Neal, ou se já é hora de se preocupar com uma possível partida de Chris Bosh e, portanto, começar tudo de novo.