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domingo, 11 de dezembro de 2011

A primeira leva

Como esperado, com pouco tempo de Free Agency antes de começar a temporada os times estão correndo e fazendo dezenas de contratações  num curtíssimo período de tempo. Com um fim de semana corrido ficou difícil acompanhar o ritmo. Mas estamos postando todas as novidades nessa planilha e começamos hoje a análise de algumas contratações.


Tracy McGrady
Atlanta Hawks - 1.3 milhão por 1 ano
Assim que essa troca foi anunciada eu achei a ideia fantástica e anunciei minha opinião no Twitter. O Hawks tinha acertado em cheio. Fui bombardeado com críticas, dizendo que o T-Mac, já velho, jamais seria uma reposição à altura do Jamal Crawford, que já havia anunciado sua saída. Vou argumentar o porque de ter gostado da contratação aqui e ver se alguém muda de ideia.

Primeiro que não existem muitos jogadores como o Jamal Crawford disponíveis no mercado. Caras que pontuam tão facilmente como ele e sabem criar seu próprio arremesso são raros, ainda mais os que topam salário apenas razoável e um papel secundário atrás do Joe Johnson. O Hawks teria que esperar o JR Smith conseguir se livrar de seu contrato na China ou torcer para o Pistons usar a anistia no Ben Gordon, não dá pra contar com isso. A saída então era contratar um jogador com características diferentes, mas ainda úteis ao time. Um dos grandes problemas do Hawks, embora seja até um ataque relativamente eficiente, é a tomada de decisões no ataque. Muitos jogos bons são arruinados porque o Al Horford recebe a bola muito longe da cesta, o Joe Johnson força arremessos longínquos e o Josh Smith acha que seu arremesso de longa distância é igual ao do Ray Allen. São jogadores talentosos fazendo o que não deveriam.

No ano passado o Tracy McGrady revolucionou sua carreira ao atuar como armador principal no Detroit Pistons. Teve um ano saudável e como reserva, atuando minutos limitados, foi uma das pouquíssimas boas surpresas vindas de Detroit na última temporada. Ele usou seu tamanho para passar por cima de armadores mais baixos, distribuiu muito bem a bola e até voltou a pontuar razoavelmente. No Hawks ele deve fazer a mesma coisa, envolver seus companheiros de time.

Sem a pontuação vinda de Jamal Crawford, o ideal é que o resto do elenco compense isso. Aí é a hora de Marvin Williams aparecer mais para o jogo, Josh Smith melhorar seu jogo ofensivo e o jovem Jeff Teague jogar bem como fez na série de playoff contra o Bulls no ano passado. Ele, aliás, é o mais próximo de Crawford que eles tem, um bom armador que pontua mais do que organiza. Outro que deve fazer o mesmo trabalho de McGrady é Hinrich, que deve ser o titular.

O técnico Larry Drew tentou no último ano mudar o ataque do Hawks, deixá-lo mais coletivo e inteligente. Deu certo durante um tempo, mas nos momentos de tensão eles voltavam a isolar o Joe Johsnon e deixar o Josh Smith na linha dos três. Com um elenco de jogadores que tem como característica o jogo coletivo, a mudança deve ser mais fácil. E T-Mac, esse novo de fim de carreira, bem diferente daquele que se consagrou em Orlando, tem todas as características para ajudar muito o Hawks nessa nova fase.


Vladmir Radmanovic
Atlanta Hawks - 1.3 milhão por 1 ano
O Radmanovic entra no discurso do T-Mac, é um cara que ajuda com a pontuação perdida de Crawford e o faz com um jogo coletivo. O ala sérvio não sabe criar seu arremesso, simplesmente se posiciona e arremessa de longa distância. Ele também pode ser um dos arremessadores de 3 que o time procura há anos. Melhor ter ele arremessando de longe quando o time quer abrir a quadra do que o Josh Smith jogando aqueles tijolos para o alto.




Mike Dunleavy Jr.
Milwaukee Bucks - 7.5 milhões por 2 anos
Li na piauí do mês passado a história do músico russo Sergei Prokofiev. Ele teve o azar de morrer no mesmo dia de Josef Stálin e mesmo tendo sido um dos maiores músicos do século XX ninguém percebeu sua morte, seu corpo só pôde ser transportado até a sede da União dos Compositores três dias depois do falecimento e o velório foi feito com flores de papel, já que todas as floriculturas de Moscou tinham enviado todas as suas para o enterro de Stálin.

Por que digo isso? Porque anunciaram o Dunleavy no Bucks quase ao mesmo tempo que aquele rolo do Chris Paul no Lakers. Eu mesmo só fui me tocar que isso tinha acontecido muito tempo depois, numa notinha minúscula. Ninguém percebeu. Mas será que na prática vai fazer mais diferença?

O Mike Dunleavy é um jogador estranho. Pode jogar muito bem na posição 3, ser um ótimo improviso de "small ball" na posição 4, mas pode ser abusado por outros alas mais altos assim como desaparecer de um jogo por ser muito inconsistente. Acho que ele é uma boa para o Bucks porque o time deles tem um elenco completo em que todos têm seu papel. Drew Gooden, Carlos Delfino, Beno Udrih e Ersam Ilyasova são todos bons jogadores que sofrem pela irregularidade. Ter mais um jogador para entrar na rotação pode ser uma boa para que o time como um todo não sofra com os altos e baixos. Não é fácil trabalhar com times com tanta rotatividade, mas é algo que o técnico Scott Skiles sempre foi bom em fazer.


Luc Mbah a Moute
Milwuakee Bucks - 19 milhões por 4 anos

O Denver Nuggets fez uma proposta para o Free Agent restrito Mbah a Moute, mas não demorou nada para o Bucks ir lá e igualar a proposta para o príncipe camaronês. O Mbah a Moute é o cara que mais sofre no time do Bucks. Especialista em defesa, ele é o cara que o Skiles bota para marcar qualquer cara que seja o melhor atacante do outro time. Pode ser o ala de força ou o armador principal, lá está Mbah a Moute, no maior estilo Shawn Marion, defendendo o cara. Um técnico maluco por defesa não deixaria ele ir embora por nada.

Curioso que o Mike Dunleavy, citado acima, deve ser a versão ofensiva do camaronês. Precisa de um cara para segurar a armação do time durante alguns minutos de descanso do Brandon Jennings? Dunleavy. Um ala de força que chute de 3? Dunleavy. Um shooting guard mais alto do que os padrões? Dunleavy. Se Skiles não se perder com seu exército de faz-tudo, o time pode voltar a incomodar (mas não mais que isso) no Leste.


Marcus Thornton
Sacramento Kings - 31 milhões por 4 anos

O ala Marcus Thornton é um pontuador nato, daqueles que o Hawks poderia ter ido atrás para compensar a perda do Jamal Crawford. Como nunca é demais ter gente que pontua no time, o Kings logo tratou de oferecer um bom contrato para ele ficar por lá. Comparado ao que a gente vê por aí o seu salário não é absurdo, mas ninguém poderia prever isso quando ele foi a 43ª escolha do Draft de 2009.

O problema maior do Kings foi o timing. No ano passado o time precisava de um pontuador de perímetro como ele porque Tyreke Evans estava sofrendo com uma contusão no pé, Francisco Garcia perdeu uns 30 jogos machucado e John Salmons é imprevisível. Mas e nesse ano que os três estão saudáveis e eles ainda tem outro cara que adora arremessar, o novato-sensação Jimmer Fredette? Se Fredette for bom como era no basquete universitário eles não precisam de Thornton, será redundante. Mas como prever isso? Como recusar Thornton sem ter visto sequer uma Summer League do ex-cestinha da NCAA? Tiveram que tomar uma decisão e apostaram no que conheciam. Dá pra entender, mas tem seus riscos.


Chuck Hayes
Sacramento Kings - 20 milhões por 4 anos

O Chuck Hayes merece todo o dinheiro do mundo só por conseguir atuar com boa qualidade como pivô titular da NBA mesmo tendo apenas 1,98m. Isso é impensável até para jogadores tecnicamente espetaculares, o que dizer de um cara que é apenas esforçado? Inexplicável.

O Houston Rockets está em reconstrução e claramente atrás de um novo pivô. Pipocam rumores de Nenê, Marc Gasol e tem também a troca pelo outro irmão Gasol que quase deu certo. Assim Hayes viu que seu ex-time não iria oferecer grande coisa, e aproveitou o interesse do Kings pelo seu talento. O contrato é justo e ele chega para ocupar o espaço da rotação aberto pela saída do Samuel Dalembert. Não deve ser titular já que o DeMarcus Cousins tem jogado como pivô e deve apenas dividir minutos com o recém-chegado JJ Hickson. Hayes é discreta mas boa ajuda defensiva para o time que teve a 10ª pior defesa da última temporada.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Novos ares

Vergonha eterna dessas fotos de estúdio


Um dos lados ruins do blog estar crescendo (o único, talvez) é que tem mais gente cobrando posts. Vocês não tem noção de como isso é chato! Não que as pessoas não tenham razão em muitos dos assuntos propostos, mostra que tem muita gente atenta ao que está acontecendo na NBA, o que é bom, mas não dá pra só um blog falar de tudo. Também é chato essa idéia de que posts são homenagens, coisas do tipo "O time X está jogando bem, merece um post". Tá, ele está jogando bem, mas tem uma história legal por trás disso? Tem algo que merece ser estudado, questionado ou explicado? Se não tem, acho que não vale a babação de ovo virtual.

Outro tema muito pedido é sobre jogadores que estão tendo atuações abaixo ou acima do esperado. A cada boxscore bizarro surge a vontade de saber se aquilo foi uma aberração, se o cara vai ser All-Star ou se é só o outro time que vacilou grandão. Eu acho que um post inteiro para falar de um jogo ou de uma sequência de jogos de que não estamos acostumados é demais, mas eu gosto de comentar sobre como os jogadores mudaram e tentar descobrir da onde veio essa mudança. Nada muda assim simplesmente por mudar e tentar descobrir a razão é bem interessante. Afinal, pode ser treino (como foi com o Richard Jefferson), mudança de ambiente, técnico, esquema tático, pintura do cabelo, esposa, sei lá! 

Durante essa semana e a próxima vou aos poucos falando de vários casos de jogadores diferentes, hoje vamos começar com os jogadores que mudaram de time, explicando como a mudança de ambiente fez o cara subir de nível. 

......
Todo mundo, em qualquer área que trabalhe, sabe como um ambiente ruim pode estragar o desempenho. Se você é motivo de fofoca em volta do bebedouro da firma é normal que trabalhe sem o mesmo empenho ou que simplesmente faça o que tem que fazer com cara de bunda enquanto procura um trabalho novo. Na NBA não é diferente, um jogador pode não se adaptar à cidade, aos companheiros de time, técnico ou esquema tático e não ficar à vontade por lá. 

O Antawn Jamison, por exemplo, é um caso extremo de fracasso. Nunca entendeu o sistema defensivo do Cavs no ano passado, dizem que era meio excluído dentro de um grupo bem fechado e nesse ano fica de lado porque é um veterano caro em um time que tenta se reconstruir. Por fim até passou a arremessar cada vez pior. Poucas vezes vi um cara perder tanto valor em tão pouco tempo, é o jogador errado no lugar errado e com possibilidades remotíssimas de troca. Jogadores não esquecem como jogar basquete, mas podem cair muito de produção quando estão num time que não os valorize.

O oposto também acontece. Quem melhorou por estar no lugar certo na hora certa é o ex-Cavs Shaquille O'Neal. Duas coisas mostram bem essa evolução e a sua razão: Na semana passada ele teve seu primeiro jogo com 25 pontos e 10 rebotes em mais de dois anos, finalmente, e antes disso foi divulgado que ele disse para o Kevin Garnett algo como "Vocês levam esse negócio de jogar em equipe bem sério aqui, né?".

Dizem que o Shaq está encantado com a maneira que as coisas são levadas no time do Boston e tem se dado bem com todo mundo. Naturalmente se dedica mais e quando o Shaq está motivado ele é um dos melhores, sempre. Mesmo que hoje em dia só tenha físico para aguentar ser o melhor por uns 20 minutos por partida, mas não importa, é o que o Celtics precisa. Ele também disse antes do último jogo contra o Hawks que cogitou seriamente ir para o Hawks por gostar da cidade de Atlanta, mas que decidiu pelos verdes pela chance maior de título. O Larry Drew, técnico do Hawks, disse que concordava com o Shaq e que até achava que, embora não fosse nada mal tê-lo por lá, ele não ia se dar bem com um time tão jovem e com uma mentalidade tão diferente da dele. Embora muita gente tenha feito piadinha com o fato do Hornets ter trocado pelo Jarrett Jack, amigo do Chris Paul, para agradá-lo, é essencial que um jogador tenha amizades dentro do clube. Eles passam muito tempo junto, qualquer briguinha pode arruinar uma temporada.

Outro que foi para o lugar certo na hora certa foi o Dorrell Wright. Eu não sei explicar bem porque o Heat não era o lugar certo pra ele, mas a coisa não tava rolando. Afinal, o técnico Erik Spoelstra queria montar um time com uma defesa fortíssima e cada um que não se adaptasse ficava mofando no banco batendo palma e entregando toalhas. O Heat também queria alguém que tivesse um bom arremesso para se aproveitar do espaço criado pelas infiltrações do Dwyane Wade. O Wright não é o Ray Allen ou o Ron Artest, mas faz um pouco das duas coisas, não sei porque jogava tão pouco, eles também não tinham outras opções muito melhores. Alguns acham que é porque ele causou uma má impressão nos seus primeiros anos na NBA, passou muito tempo machucado, não se posicionava bem na quadra e foi naturalmente sendo última opção. Às vezes jogava bem, mas não conseguia embalar uma sequência de jogos bons e voltava a ser resto.

O Golden State Warriors foi atrás dele porque era barato, ninguém mais queria e eles estavam com falta de jogadores para a ala: a disputa de posição estava entre Ekpe Udoh, novato que está machucado, a eterna promessa Brendan Wright, e o Reggie Williams, que pra mim tem nome de jogador de futebol americano e foi uma daquelas descobertas bisonhas do Don Nelson no ano passado. Com adversários tão discretos, deram para o Dorrell a chance de jogar mais tempo e ele começou a corresponder. Só precisavam que ele acertasse bolas de três e de vez em quando corresse junto nos contra-ataques, nada mais. 

Mas ele tem feito mais do que isso. Com seus roubos de bola e dedicação defensiva tem sido um dos fatores para o Warriors sair da última posição da liga em defesa (embora ainda sejam um dos piores). Mas ele tem contribuído mesmo é com as bolas de longa distância. No jogo contra o Wolves no fim de semana ele acertou 9 bolas de longa distância, recorde da história do Warriors. E lembrem que nos últimos 5 anos do time e no timaço que eles tinham nos anos 90, com Chris Mullin e Tim Hardaway, muitos bons chutadores passaram por lá, é um feito gigantesco um cara com só um mês de time bater esse recorde. 

Esse desempenho bem acima do que até o Warriors poderia imaginar (nem a mãe dele deveria sonhar com o cara jogando tanto!) é razão também dele estar em um esquema tático que o favorece. Apesar das mudanças que o técnico Keith Smart tenta impôr em relação à doideira dadaísta de Don Nelson, o time ainda é baseado em contra-ataque, infiltrações e jogadas individuais. Wright sabe criar seu próprio arremesso, acerta seus arremessos quando a marcação corre para tentar defender Monta Ellis e Stephen Curry e ele ainda tem se entrosado muito bem com o David Lee.

Lee veio do Knicks com a função de melhorar o rebote da equipe mas tem sido bem útil no ataque. Faz o pick-and-roll com perfeição com todos os jogadores e quando tem a bola  no garrafão sabe distribuir, a inteligência dele em quadra merecia mais atenção de todos. Nos jogos em que o David Lee joga, o Wright tem médias de 17,8 pontos, 47% de aproveitamento, 3.9 arremessos de três feitos e 56% de aproveitamento nas bolas de longe. Nos jogos em que o Lee ficou de fora, machucado, as médias de Wright despecaram para 12,9 pontos, 34% de aproveitamento nos arremessos e 0,8 bolas de três por jogo com 18% de acerto. 

Os talentos do Dorrell Wright até poderiam ser aproveitados no Heat, mas nunca o foram e depois de até correr o risco de ficar sem time, achou o ambiente perfeito para exercer o seu jogo. É um dos motivos para a gente pensar duas vezes antes de sair tendo certeza absoluta que um jogador é ruim mesmo tendo visto ele jogar só em uma situação.


Quem a gente já viu em várias ocasiões e nunca foi o bastante para convencer era o Darko Milicic. Ele passou por Pistons, Magic, Grizzlies e Knicks antes de ir para o Wolves. Em todos os times virou motivo de piada e sempre insistem em lembrar que ele foi escolhido no Draft antes de Chris Bosh, Dwyane Wade e Carmelo Anthony. Ok, ele foi, não foi melhor que nenhum deles, mas e daí? Pensando além do Draft, ele foi realmente ruim? No Pistons não dá pra saber porque nem entrava, era o "Human Victory Cigar", no Magic jogou bem (8 pontos, 4 rebotes e 2 tocos em 20 minutos por partida) e manteve o mesmo nível de jogo no Grizzlies. Nada espetacular, clara afobação e nervosismo em situações de pressão, mas ainda assim, um cara com talento de sobra para jogar na NBA. Pivôs como o Marcin Gortat estão no mesmo nível ou mostraram até menos coisas do que ele e são adorados simplesmente porque não esperavam nada deles. Mesmo passados 7 anos desde o Draft de 2003, Darko ainda sofre com a maldição da expectativa. 

Mas aí veio o Wolves, o time dos renegados, para tentar resolver tudo isso. Lá ele recebeu a garantia de que seria titular e que iria jogar bastante, tirando o nervosismo e o medo de que iria para o banco depois de uma bobagem em quadra. Pelo Wolves ser uma porcaria, também ficou longe da imprensa e da pressão de torcidas mais fanáticas. Aos poucos ele foi se sentindo mais à vontade em quadra e esse ano tem sido sua redenção. Ele chegou lá no meio da temporada passada, não nesse ano como os outros casos desse post, mas mesmo assim considero que a melhora foi causada pela mudança de ambiente em fevereiro desse ano.

Foi nessa temporada que ele ganhou a responsabilidade de ser o pilar defensivo do Wolves e hoje lidera a NBA em tocos, com 2,9 por partida. Seus rebotes poderiam ser melhores, mais que os 6 que pega, mas pra quem joga ao lado do ímã Kevin Love até que não está mal. No ataque a média de 9,1 pontos por jogo pode indicar que ele não é bom o bastante, mas isso tem mudado também. 

Nos primeiros 10 jogos da temporada ele tentou se impor, chamar jogadas, forçar o jogo e não deu nada certo, estava tentando ser mais do que deveria. Não sei se por conta própria ou se por ordem do técnico Kurt Rambis, ele passou a arremessar só quando a chance parecia realmente boa e com isso seus números e aproveitamento cresceram. A confiança subiu ao ponto dele conseguir, pela primeira vez na carreira, três jogos seguidos com mais de 20 pontos: 23 pontos, 16 rebotes e 6 tocos contra o Lakers, 21 pontos, 4 rebotes e 3 tocos contra o Thunder e 22 pontos, 8 rebotes, 4 assistências e 5 tocos contra o melhor time da temporada, o Spurs

Nos perguntaram se a gente ficou surpreso com esses números ou se era mais um sinal do fim do mundo, e a resposta é não para as duas coisas. Eu ficaria surpreso se ele fizesse isso durante todos os jogos de uma temporada completa, mas acho comum e normal um jogador bom ter algumas sequências acima da média quando joga durante 6 meses seguidos. Darko é hoje um jogador veterano, com lugar garantido em um time e com algumas qualidades óbvias. Nada mais e certamente nada menos que isso. É bom nos acostumarmos a vê-lo misturar jogos comuns, medianos, com outros muito bons. Ele é um cara normal no fim das contas. Ou quase

Está ao lado de Darko no Wolves o maior exemplo de como às vezes basta uma mudança de time para o cara mostrar o que sabe: Michael Beasley. Ele me lembra um pouco o caso do Tracy McGrady, que parecia ser muito bom no Toronto Raptors mas que não conseguia se destacar jogando ao lado do seu primo Vince Carter. A grande diferença entre os dois é o Efeito Darko: T-Mac foi a 9ª escolha do Draft de 1997, Beasley foi a 2ª escolha do Draft de 2008. Ver o T-Mac indo mais ou menos rendia comentários do tipo "Imagina quando ele tiver o seu espaço. Tem futuro o garoto!", ver o Beasley indo mais ou menos ganhava um nervoso "Bust! E ainda tinha gente que achava que ele poderia ser melhor que o Derrick Rose!". 

Depois de anos crescendo sem pressão no Raptors, o T-Mac foi para o Orlando Magic como Free Agent ser o cestinha da NBA por dois anos seguidos, o Beasley foi trocado por uma escolha de segundo round e feijões mágicos para o Minnesota Timberwolves. Com apenas três minutos a mais por jogo ele tem 7 pontos a mais de média, pulou de 14 para 21 por partida. Os arremessos de três melhoraram de 27% para 45%! E hoje você até pode ver ele rindo em quadra:

- sup


Dava pra ver no Heat como ele não se encaixava lá. O Spoelstra morria um pouco a cada falha defensiva do Beasley e o jogador parecia completamente desinteressado na partida e fora de ritmo porque não suportava ver o Dwyane Wade chutar 25 bolas antes dele ter a chance de tentar a sua. No Wolves o ataque passa por ele, as jogadas são desenhadas para que Beasley finalize e desde o começo do jogo ele pega o ritmo da partida, participa e toma a iniciativa. Ainda não sou um dos que vai dizer isso do LeBron James, mas não é todo mundo que consegue render ao lado de gente como o Dwyane Wade que concentra tanto o jogo na mão dele. 

Nada contra o Wade, muito pelo contrário, é o estilo de jogo dele e foi assim que ele foi o melhor jogador dos playoffs de 2006 levando o Heat ao título, mas não é fácil encontrar gente que combine com esse jeito de jogar. E também o Beasley não é coitadinho, ele nunca parecia sequer interessado quando estava no Heat, claramente incomodado por não ser muito acionado. Com um pouco de vontade e treino ele poderia ter rendido bem mais em Miami. A mudança de time e ambiente não é sempre a libertação de um jogador coitado que estava preso nas amarras de um técnico do mal, às vezes o próprio jogador não tem o talento ou vontade de se adaptar. Esperto foi o o General Manager David Kahn de perceber a chance de levar o Beasley para o Wolves, saiu barato e já está dando muito resultado. 

Ainda tem muita gente que está subindo de nível nesse começo de temporada, por outros motivos, e vamos continuar nesse assunto em breve! 

sábado, 18 de setembro de 2010

Peças de museu

"Não tô chorando, é que entrou um cisco aqui..."

Quando falta um tempinho para a pré-temporada (que começa dia 3 de outubro) e as coisas andam devagar na NBA, começam a surgir questões em nossa mente que aos poucos vão comendo nosso cérebro, especialmente naquelas horas em que você precisa passar muito tempo no banheiro. No meu caso, fico tentando encontrar respostas mágicas, místicas, sociológicas, marxistas, estatísticas ou astrológicas para entender o motivo do Allen Iverson ainda não ter um contrato com um time da NBA - e, pelo jeito, a temporada começará e ele continuará desempregado. O que mais me intriga é que o jogador em quem eu apostava para estar desempregado, Tracy McGrady, ganhou uma chance de um time que não tem qualquer motivo para contratá-lo. Qual o critério?

Desde que o McGrady foi parar no meu Houston Rockets, acompanhei sua carreira bem de pertinho. Antes disso, ele era o cestinha da NBA, um dos melhores jogadores da liga, mas não conseguia vencer com o elenco terrível que era aquele Magic. No Houston ele supostamente teria a ajuda que queria, mas nunca teve sucesso. Costumo colocar a culpa no elenco, que era meio esburacado, nas constantes contusões de Yao Ming e do próprio T-Mac, que são de vidro, e no estilo de jogo das duas estrelas, que nunca se complementaram. Mas a verdade é que, apesar de ter sempre inocentado o McGrady dos fracassos da minha equipe, nunca me senti tranquilo quando ele estava em quadra.

A capacidade de ser cestinha da NBA está lá, McGrady é um pontuador nato, mas sua seleção de arremessos nunca foi muito inteligente. Ofensivamente, sempre esteve tão acostumado a forçar o jogo que parece que ele não acha divertido arremessar livre, prefere enfrentar toda a defesa adversária e mais a torcida do Corinthians. Sua mecânica de arremesso também não é das mais confiáveis, então todo arremesso importante seu é motivo para um ataque cardíaco da torcida, especialmente quando ele dá o arremesso marcado por cinco carinhas em seu cangote. O mais triste é que ele quer envolver os companheiros, sabe passar a bola, mas perde muito de sua efetividade quando faz isso. McGrady só funciona quando tem a bola nas mãos, não se sente confortável armando as jogadas, e tende a desaparecer do jogo quando não está inteiramente envolvido no ataque. É daquelas coisas impossíveis de solucionar: o que o cara faz de melhor é bater para a cesta e forçar arremessos, mas com isso não envolve seus companheiros e ai não dá pra ganhar; quando resolve passar a bola e trabalhar na armação de jogadas, aí deixa de lado o que faz de melhor e torna-se apenas um jogador comum.

Assim como Kobe e LeBron, que já passaram jogos inteiros dos playoffs passando a bola pro lado e se negando a arremessar, T-Mac entrou em quadra em jogos decisivos disposto a apostar nos companheiros, provar que o basquete é um esporte coletivo. Os resultados - assim como para Kobe e LeBron - foram desastrosos, com gente chamando o McGrady de amarelão, clamando que ele precisava ser o homem encarregado de decidir o jogo. Aí ele entra em quadra, faz miséria, pontua como um maluco, o resto do time não faz nada porque está apenas sentado assistindo, e a equipe é derrotada nos playoffs. Quando sentou e chorou numa coletiva de imprensa após a eliminação, T-Mac havia prometido que ganharia o jogo com seu próprio esforço, teve uma partida histórica e perdeu mesmo assim. Que mais poderia ter feito? Passado a bola e visto um Houston apavorado querendo que sua estrela decidisse?

Parece que, aos poucos, esses jogadores foram ganhando papéis cada vez mais secundários, ou então sumindo do mapa, sendo tacados para debaixo do tapete. Se o cara só consegue render quando ganha o jogo sozinho, ele não é mais bem visto pela liga. Talvez a resposta mágica para o contrato oferecido ao Tracy McGrady seja justamente algo que quase acabou com sua carreira: suas contusões. Depois de sofrer tanto com seus joelhos e costas, T-Mac teve que aprender a comer pelas beiradas, jogar um basquete diferente. Nas poucas vezes em que entrou em quadra pelo Houston Rockets na temporada passada, não tinha nem sinal da explosão que lhe era característica, tinha nítida dificuldade de bater para dentro do garrafão e pouca elevação em seu arremesso. Acabou se focando em passar a bola, acertar arremessos livres, jogar basquete como um jogador comum, talentoso mas que não resolverá nenhuma partida. Curiosamente o Houston havia montado um elenco apenas de coadjuvantes, então o T-Mac não era necessário - fora que o medo de que seus companheiros olhassem para ele como se fosse alguma estrela capaz de fazer milagres poderia destruir o trabalho coletivo montado pelo técnico Rick Adelman. Conforme sua carreira foi avançando, ele não conseguia passar da primeira fase dos playoffs e as contusões iam piorando, McGrady foi ficando mais à vontade com a ideia de ter um papel mais coadjuvante, mas aquilo que as pessoas esperavam dele destruía essa possibilidade. Todo mundo queria ver o T-Mac monopolizando o jogo e fazendo 30 pontos para só aí não chamá-lo de amarelão. É tipo com o LeBron, cujo estilo está mais focado nas assistências (tipo Magic Johnson) do que nos pontos (tipo o Jordan), mas que ninguém permite a omissão no setor ofensivo, não é aceitável. Apenas graças às lesões do T-Mac esse papel secundário foi sendo aceito. Quando foi trocado para o Knicks, ninguém ficava secretamente esperando que alguma hora ele pirasse e tentasse ganhar um jogo sozinho, arremessando do meio da quadra, porque sabiam que seu físico não ia aguentar. Sua estadia em New York foi comportada e deu até que bastante certo principalmente porque T-Mac armou o jogo num time em que ninguém sabia cumprir essa função. Além de, claro, ele ser péssimo na defesa mas isso no Knicks não significar nada, porque ninguém defende mesmo.

O discurso do McGrady agora é de que ele está em forma, que não é mais capaz de enterrar na cabeça de ninguém mas que ainda pode pontuar muito de outras maneiras. Mas a simples constatação de que nem ele, nem seus companheiros, acreditam que ele possa ganhar um jogo sozinho garante que não haverá monopólio da bola nem ataque-de-um-homem-só. É aí que provavelmente deve morar o medo com relação ao Allen Iverson: supostamente ele ainda acredita ser um dos melhores jogadores da NBA, ainda acha que pode ser cestinha da temporada, e quem quer arriscar destruir todo o trabalho coletivo de sua equipe colocando um jogador que vai tentar ganhar sozinho apenas para provar que "o mundo estava errado"? Mesmo os piores times da liga não acreditam mais nesse lance de ter uma estrela e deixar que ela faça tudo por si mesma, porque a experiência provou que não dá certo. Se o time for uma merda (como era o Magic com McGrady), o jogador-estrela atrapalha o desenvolvimento da pirralhada, que precisa aprender tudo na prática, com minutos de jogo e a bola nas mãos (deu certo no Thunder com o Durant, não deu?). Se o time for bom (como era o Houston com McGrady) não dá pra vencer se todo o elenco acreditar que a vitória em um jogo decisivo depende de apenas um homem. Nem o Bulls do Jordan ficava parado assistindo as coisas acontecerem, e o Lakers de Kobe só deu resultado com um elenco sólido recheado de jogadores capazes de vencer jogos. O que o Iverson precisa, então, é transformar a sua fama, mostrar para as pessoas que ele não quer mais - ou não pode mais - vencer sozinho. Um jeito, adotado pelo Vince Carter, é jogar de boa num time ruim, aceitar vir do banco, não reclamar de nada, achar tudo divertido e ajudar a molecada. Bastou isso para que o Carter fosse de fominha maluco para "líder dentro e fora de quadra" no Nets e ganhasse uma chance no Magic. O outro jeito é a tática T-Mac, que consiste em se contundir o bastante para que ninguém acredite que você pode carregar um time nas costas. Ou seja, a melhor coisa que pode acontecer para o Iverson agora é quebrar o pé. E feio.

Mas ainda assim não faz sentido o Pistons - que é um time que deveria estar em reconstrução mas não está - achar que tem algo a ganhar com o McGrady em quadra. Provavelmente ele tem mais habilidade na armação do que jogadores mais pontuadores como Rodney Stuckey e Will Bynum, mas colocar um armador veterano num elenco que já tem armadores e veteranos demais não tem qualquer propósito. Se é para tirar minutos da pirralhada, algum engravatado do Pistons deve realmente acreditar que falta apenas o T-Mac para que eles tenham chances de playoff, o que é ridículo. Ou é ilusão de grandeza ou então é simples desespero, necessidade de vender camisetas, ingressos, aparecer na TV se aproveitando da antiga popularidade do McGrady. Mas sua popularidade foi pelo ralo junto com a fama do Iverson nessa NBA subitamente apaixonada pelo jogo coletivo e pela estrela capaz de fazer de tudo, não apenas pontuar. Não vale mais nada ganhar sozinho. E é assim que toda a mentalidade da liga fecha as portas para Iverson e abre as portas devagarinho para LeBron, Wade e Bosh. Aos poucos eles param de receber ovos na cabeça enquanto assistem ao Iverson e ao T-Mac virarem peças de museu.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Liberdade ainda que tardia

T-Mac machucado lendo revista de mulher. Ele ofereceu 50 conto para não publicarmos a foto.


Quando Tracy McGrady chegou ao Houston Rockets, era sua primeira chance de ser a estrela de um time de verdade. Isso porque, no caso do Magic, chamar aquela joça de "time" era ser bastante bonzinho - o único outro jogador de verdade era o Grant Hill, que não chegou a jogar por contusão. Em Houston as coisas mudaram bastante: T-Mac era o grande reforço que tornaria Yao Ming campeão, mas as contusões lascaram os dois. O time, que agora é um time de verdade, segura as pontas sozinho a ponto de nem pensar mais em McGrady. Em Orlando era ele quem segurava um time que não existia, em Houston o time é tão bom que não precisa dele.

Em nenhum desses dois extremos T-Mac poderia dar certo. Quando foi cestinha da NBA seus esforços eram inúteis e foi, como todo grande jogador em time medíocre, tratado como perdedor, nos moldes de Kevin Garnett. Quando jogou em um time coletivo, não conseguia produzir sem reter a bola e diminuir o ritmo da equipe, decidiu passar a bola e foi tratado como amarelão, assumiu toda a responsabilidade pelo time nos playoffs e aí o elenco lhe deixou na mão nos momentos cruciais. Nunca houve um momento de equilíbrio, uma situação em que ele precisasse do time tanto quanto o time precisasse dele.

O técnico Rick Adelman sempre sonhou com um tipo bastante específico de basquete: coletivo, em que todos participem do ataque, criativo, com total liberdade para os jogadores, e baseado na constante movimentação de cada uma das peças da equipe. Na teoria é lindo, cheio de borboletas e pôr-do-sol e fadinhas coloridas, mas na prática exige uma caralhada de jogadores inteligentes que entendam perfeitamente a filosofia por trás dessa brincadeira. O Kings regido por Adelman, quando finalmente pegou o jeito, era uma maravilha de ver. Não ganhou bulhufas, tinha problemas claros, mas funcionava tão bem basicamente pela inteligência de três jogadores:
Vlad Divac
, Chris Webber e Mike Bibby. Os dois primeiros figuram entre os melhores passadores de todos os tempos dentre jogadores de garrafão. O terceiro estava sempre disposto a dar o passe certo, sem frescuras - motivo pelo qual foi amado-idolatrado-salve-salve quando chegou à equipe no lugar do firulento Jason Williams, que curte a ideia de passar bolas enquanto equilibra pratos no nariz. Quando mais Rick Adelman teria outra oportunidade de encontrar jogadores tão eficazes, inteligentes e capazes de colocar sua filosofia ofensiva em prática?

O Houston Rockets parecia uma boa ideia (o Yao Ming é um excelente passador, e não é porque eu tenho fetiche por chineses gigantes não), mas o time era lento, tinha dificuldades em correr, segurava demais a bola e faltavam arremessadores. Tanto Yao quanto T-Mac sofreram bastante tentando abraçar as ideias de Adelman, porque quando faziam a bola rodar, eram criticados por não serem agressivos. Por um bilhão de vezes, Yao chamou uma marcação dupla no garrafão e passou a bola para fora, onde ela girava de encontro a um arremessador livre. Não é exatamente o que se espera de uma estrela de seu calibre passar um jogo tendo arremessado apenas um par de vezes. Eu nunca aceitei muito bem como o Yao era mal aproveitado no esquema, mas era um caso em que a postura do técnico sempre falou mais alto do que os jogadores que deveriam obedecê-la. Não interessava se havia um chinês gigante e um dos maiores cestinhas de todos os tempos na NBA, a postura ofensiva do Rick Adelman já chegou montada e não era maleável. O time que se adaptasse a ela.

É por isso que, justamente nas contusões de Yao e T-Mac, o sistema ofensivo floresceu. O resto do time, inteligente mas com menos talento, pressão ou potencial, parecia perfeito para o Rick Adelman. A escolha do Houston por trazer Trevor Ariza foi tratada com dúvida, "será que ele é jogador para ser estrela, para ser cestinha, para jogar sozinho, liderar um time?". Ninguém entendeu que a comissão técnica procurava justamente isso, um jogador que não fosse estrela, que não pudesse jogar sozinho, que não tivesse pretenções de liderar uma equipe. Esperava-se mais um jogador secundário e inteligente, e isso todo mundo que assistiu ao entendimento relâmpago do Trevor Ariza com relação ao sistema de triângulos do Lakers sabia que o Houston tinha conseguido.

Não há estrelas, não há líderes, não há jogadores que possam dominar o jogo sozinhos. Finalmente a presença de Rick Adelman é maior do que aquilo que está em quadra, é quase como se fosse ele a jogar ali todas as noites. Nunca um elenco entendeu tão bem sua filosofia nem executou tão bem seu plano ofensivo. É o elenco mais inteligente em que o técnico colocou suas mãos, a rotação é definida, todo mundo compreende seu papel e faz diretinho sem reclamar. Pode não dar certo sempre, mas mesmo as derrotas saem sempre como planejado. Durante as últimas temporadas, Rick Adelman passava todos os jogos chamando as jogadas ofensivas em voz alta no banco de reservas, decidindo o que o time deveria fazer em cada posse de bola, e quando parava de fazê-lo - deixando o time tomar as próprias decisões - a coisa descambava para a pourra-louquisse (algo tipo o Knicks de hoje em dia) e ele voltava a chamar as jogadas. Nessa temporada, a câmera durante as partidas insiste em mostrar um Adelman em silêncio, coçando a cabeça, cutucando a barba, apertando o nariz. É a imagem mais clara de que seu plano deu certo. E a constatação óbvia de que ter McGrady de volta lhe dá mais arrepios de medo do que ter que ver a Playboy da Fernanda Young.

Foi por isso que o T-Mac saudável recebeu a postura do "vamos fingir que ele não está aí para ver se desaparece", algo que o Pacers fez com o Jamaal Tinsley e que todos os seres humanos fazem com novela da Record. Mas no caso do Tinsley, o time arrancou até seu nome dos armários da equipe, a gente fica imaginando ele chegando para o jogo e não ter sequer onde se trocar, ao ponto de se esconder num cantinho da parede e ficar cantando músicas de ninar. Com o T-Mac a coisa foi bem mais sutil, falou-se sobre o medo de sua condição física, de ritmo de jogo, pavor de que ele voltasse a desmanchar o joelho - tudo bastante infudado porque ele passou as férias inteiras treinando com os melhores e competindo com jogadores de peso da NBA. Mas tudo também bastante justificável, tendo em vista que voltas apressadas por parte do T-Mac tiveram resultados catastróficos. Então usaram isso como uma desculpa sincera e mantiveram McGrady longe das quadras o máximo de tempo possível, ao ponto da paciência torrar e do T-Mac aparecer para jogar, vestido com o uniforme, mesmo sem a liberação da equipe. Talvez o Rick Adelman quisesse sumir com a placa do T-Mac do vestiário do Rockets, mas preferiram uma abordagem mais diplomática. O problema é que, cedo ou tarde, não daria para manter a postura. Uma hora ele teria que entrar em quadra.

Quando o Trevor Ariza foi pentelhado o jogo inteiro pelo DeMar DeRozan e deu uma cotovelada no ar (louvada seja sua falta de mira), acabou suspenso pela NBA. Além de umas piadinhas na equipe chamando-o de boxeador frustrado e da própria compreensão do Ariza de que ele perdeu a paciência e foi só isso ("me suspende, pronto, e depois deixa eu jogar"), a suspensão lascou a rotação da equipe e deixou bem claro aquele Tracy McGrady quietinho sentado no cantinho do banco, no maior estilo gordinho descoordenado que fica sentado encolhido esperando alguém escolher ele pra jogar na Educação Física. Não havia qualquer desculpa que pudesse impedí-lo de jogar e então, contra o Detroit Pistons, T-Mac entrou em quadra.
Shane Battier foi para o banco depois de uns minutos de jogo e McGrady entrou em seu lugar. Jogou por 7 minutos, até o final do primeiro quarto, e depois não voltou mais, com a desculpa de que não tem ritmo de jogo e não valhe a pena comprometer o ritmo da equipe por isso. Já foram três jogos e o que ocorre é sempre igual, esses minutinhos poucos e controlados. A torcida foi à loucura quando ele finalmente entrou em quadra, teve orgasmos múltiplos quando ele converteu sua primeira cesta, mas lá no fundo todo mundo vê a verdade, um T-Mac com dificuldades para correr, que não sabe para onde deveria passar a bola e que não defende nem ponto de vista. Nessa altura das coisas, não há muito que McGrady possa acrescentar que o time já não faça bem - pontuar, encontrar companheiros livres, arremessar do perímetro - e, ao contrário, sua saída debilita o time defensivamente, já que Ariza e Battier são excelentes defensores. Contra o Nuggets chegou a ser ridículo: assim que T-Mac entrou em quadra o Carmelo Anthony começou a devorar o Houston vivo com azeite e sal. Para que ele entrou em quadra, então? Por mais triste que seja, ele não é mais necessário.

O bonitinho dessa história é o discurso de Tracy McGrady, de que ele não tem nada a provar a ninguém: já foi All-Star sete vezes, cestinha da NBA por duas, frequentou os playoffs com constância. Tá bom que nunca passou da primeira rodada, nunca ganhou nada, mas deixou seu nome na história como um dos grandes de seu tempo. O que T-Mac diz querer é provar coisas para ele, provar que ainda pode jogar, que venceu suas contusões, que pode se encaixar. Seu discurso nunca soube encontrar um equilíbrio, em horas colocava todo o peso nas suas costas, em outras responsabilizava seus companheiros. Agora ele sabe que é desnecessário e no discurso só quer entrar em quadra e mostrar que pode jogar. Sem ser líder, sem responsabilidades, sem ganhar um título. Até porque essa postura é a mais capaz de lhe levar a um título. Nem ele nem nós, torcedores, podemos esperar grandes coisas: uns minutos aqui, outros minutos ali, umas bolas no último segundo, dar uma força no ataque em momentos específicos do jogo. Ou seja, tornar-se mais um jogador secundário e inteligente nas mãos de Rick Adelman. Se ele compreender que é apenas um grão de areia nas mãos do todo-poderoso técnico, jogará pouco e conquistará muito.

Será uma pena ver seu talento mal aproveitado, e muito possivelmente ele procurará outro lugar em que possa ter a bola nas mãos na temporada que vem, quando seu contrato finalmente termina. Mas se o seu discurso for real, o Houston será uma oportunidade fantástica de lhe tirar o peso nas costas, o caráter de estrela que sempre lhe podou o estilo de jogo, a fama de amarelão, as contusões que sempre lhe cobraram por um corpo que se esforça demais. É a chance que T-Mac tem de ser livre - tudo que ele tem que fazer é se deixar escravizar por Rick Adelman. A torcida de Houston vibra quando McGrady entra em quadra, resquício dos velhos tempos, mas a real felicidade está em vê-lo funcionando num papel limitado. Aplaudamos Tracy McGrady por tudo que ele fez, mas sejamos abertos àquilo que ele quer e pode fazer agora: vencer jogos, liberto das pressões que colocou em si mesmo. O engraçado é que trata-se do mesmo futuro que aguarda Yao Ming, desnecessário, pressionado, contundido. Que os dois, então, pequenos perto de Rick Adelman, possam ser livres.

sábado, 28 de novembro de 2009

Muito ajuda quem não atrapalha

Aqui jaz um McGrady


Enquanto Allen Iverson decidiu se aposentar e provavelmente apenas vai tirar um ano de folga pra fazer umas cruzadinhas em casa, outra estrela se segura pelas beiradas para não se aposentar: Tracy McGrady. A diferença principal é que, ao contrário do Iverson, McGrady está sendo aposentado, não se aposentando.

Os problemas de saúde do T-Mac são antigos, desde seus tempos de Orlando Magic. Sempre sentiu dores terríveis nas costas, o que era bastante simbólico já que ele carregava a equipe inteira sozinho sendo o cestinha da NBA. No Houston, as dores nas costas começaram a dar as mãos para uma dor no joelho. Toda vez que um chinês espirrava no mundo, McGrady perdia um jogo graças a alguma contusão. As partidas que jogou ao lado de Yao Ming foram pouquíssimas ao longo dos anos, porque sempre um dos dois tinha virado farofa - McGrady, sozinho, perdeu 125 partidas ao longo de suas 6 temporadas em Houston. Aos poucos, a equipe teve que aprender a se virar sem os dois. Mas o que sempre estragou as coisas era aquele ar de dúvida, "será que o McGrady vai ou não vai jogar essa noite?", porque ninguém sabia que papel teria em quadra e como enfrentaria o outro time até o último segundo, quando o estado do T-Mac era liberado. Alguns jogos ele entrava, outros não, e o time inteiro ficava refém de sua condição. Nem sei se o Houston tinha "Síndrome de Gilbert Arenas", aquele fenômeno que faz o Wizards jogar melhor sem sua estrela (e o Kings chutar traseiros sem o Kevin Martin), o que importa é que o time jogava muito melhor tendo certeza de que o T-Mac não iria entrar em quadra do que quando ficava na dúvida.

Conforme o Houston foi pegando mais as manhas do esquema do técnico Rick Adelman e abraçando um basquete mais coletivo, começou a ficar meio óbvio que o McGrady não era tão importante assim. Foi sem ele que o time passou da primeira rodada dos playoffs, foi sem ele que o time surpreendeu todo mundo e se mantém na elite do Oeste mesmo sem nenhum sinal de estrela. Mas o tempo passa, o tempo voa, a poupança Bamerindos foi à falência, e eis que a reabilitação de Tracy McGrady está completa: ele pode voltar a jogar.

A verdade é que, depois da temporada passada, T-Mac foi liberado para treinar em Chicago, no paraíso dos ratos de ginásio, com o sujeito responsável por fazer Dwyane Wade voltar de contusão e quase ser MVP. T-Mac passou todas as suas férias treinando com o próprio Wade e com o Devin Harris em regime integral, sem falar nos outros jogadores que sempre dão uma passadinha para torrar suas verdinhas e tentar se manter em forma. Para participar dos treinos, McGrady foi liberado por um cirurgião fodástico - ainda havia dor, mas o corpo estava recuperado.

Quando a temporada começou, no entanto, o Houston preferiu não liberar o T-Mac para jogar. Sequer deixaram que ele participasse dos jogos de pré-temporada. Disseram que dessa vez ele precisava voltar com o corpo impecável e sem qualquer sinal de dor, ou seja, disseram que ele precisava nascer de novo ou trocar de corpo com a mãe, tipo aquele filme com a Linsey Lohan. Juntos, marcaram uma data para sua volta, mas desde então continuam adiando à espera de mais e mais exames, alegando que os resultados ainda não são suficientes. O Iverson percebeu que não era querido no Grizzlies em apenas um jogo, ele precisa dar uns toques para o McGrady perceber que o pessoal em Houston não parece gostar muito do sujeito.

Os motivos são bem óbvios e não muito nobres: após perder 41 jogos seguidos, a NBA passa a devolver para o time até 80% do salário do jogador bichado. É quase um seguro para jogadores com defeito de fabricação e acredito que, secretamente, essa regra deve chamar "Cláusula Tracy McGrady", porque nenhum jogador de basquete passa mais tempo contundido na história do esporte do que ele. Com um time funcionando bem pra burro, temores reais (e bem válidos) de que seu jogo interrompa a química do time e o jogo mais coletivo da NBA até agora, e o maior salário da NBA na temporada (são mais de 23 milhões de doletas!) podendo ser devolvido em grande parte para os cofres da equipe, não é surpresa nenhuma que estejam empurrando T-Mac com a barriga. Todo mundo por lá quer mais é que ele encha o saco e aposente, como o Iverson, e como seu contrato acaba ao fim da temporada, ele pode voltar ano que vem e arrumar outra equipe que tope lidar com suas contusões.

Mas o McGrady não está muito interessado em se aposentar, deve ter enjoado de fazer cruzadinhas nesse tempo todo que passou lesionado. Quando ele cansou de perder, de jogar em times que fediam, de ter dores terríveis nas costas, falou para os jornalistas que jogaria apenas mais alguns anos, ganharia um título e daria o fora desse esporte idiota. Mas o título, que parecia tão plausível no Rockets, foi ficando cada vez mais distante, a maldição de não passar da primeira rodada dos playoffs foi pegando cada vez pior pro currículo, e agora o papo de aposentadoria deixou de vir à tona. Com o fim do seu contrato, é bem possível que T-Mac aposente, principalmente se apenas o Grizzlies se interessar em lhe oferecer um contrato mequetrefe, mas o mais provável é que ele ainda tenha muita energia para tentar mudar a fama que adquiriu nos últimos anos. Sem dores pela primeira vez desde que chegou a Houston, tendo aprendido a centralizar menos o jogo, atacar menos a cesta e a armar as jogadas da equipe, McGrady quer mostrar que pode vencer, que pode se encaixar, que ele só se lasca porque está doendo ou porque seu time fede. Ou seja, ainda não está preparado para assumir a responsabilidade pelos seus fracassos.

Então, com isso em mente e de saco cheio de ficar sendo deixado de escanteio (prática conhecida como "a técnica ninja Jamaal Tinsley de ignorar um jogador tempo o suficiente para ver se ele desaparece sozinho"), T-Mac vestiu seu uniforme mesmo sem ter sido liberado pela equipe e foi se aquecer normalmente como se estivesse listado para a partida. Sentou no banco de reservas, torceu pelos companheiros, e a torcida ficou mesmo achando que ele entraria em quadra. Ele próprio sabia que não entraria, mas a ação foi o bastante para gerar uma discussão épica com o técnico Rick Adelman nos bastidores e alertar o planeta inteiro de que ele quer e pode jogar, é o time que não deixa.

Estou me divertindo muito com o Houston nessa temporada, o time fede mas funciona, o jogo é bonito de se assistir, o banco de reservas é cheio de energia, o elenco é recheado de especialistas e todo mundo está disposto a dar um passe a mais. Mas no final do jogo contra o Spurs, ontem de noite, faltou alguém para decidir o jogo no finalzinho - Kyle Lowry estava no fim da bateria e o Trevor Ariza não é particularmente decisivo, nem anda com a pontaria boa. Contra o Mavs foi ainda pior, sem uma jogada de segurança quando as coisas estavam dando errado, o Houston tomou um pau vergonhoso. A previsão para a equipe continua: vão ganhar muitos jogos, ir para os playoffs, mas não tem como ganhar dos times grandes de verdade, principalmente em uma série de 7 jogos. Ninguém vai querer enfrentar o Houston, isso é verdade, porque os jogos vão ser brigados, suados e censurados para menores de 18 anos, mas a vitória seria difícil.

Aquele Tracy McGrady que participou da sequência de 22 vitórias seguidas do Rockets se encaixaria nesse time. Jogaria de armador, abusaria nos passes, arremessaria de longe mas sem forçar arremessos. Já o McGrady de antes afundaria esse time, todo mundo iria parar para ver a estrelinha jogar e todo o coletivo iria para o buraco. É por isso que eu confio no T-Mac: ele sabe se adaptar, sabe mudar seu jogo, é capaz de jogar pelo coletivo - só não consegue assumir a responsabilidade nas horas decisivas, mas certamente consegue pontuar quando ninguém mais está tendo sucesso. Só não sei se, nos moldes do Iverson no Grizzlies, ele toparia jogar só uns 20 minutos por jogo para continuar dando espaço para toda a pirralhada que está mantendo o Houston vivo. Sou a favor de sua volta, e é bem claro que ele quer voltar, mas não sabemos do que ele está disposto a abrir mão para isso.

Assim como o Jamaal Tinsley foi ignorado no Pacers até desaparecer e agora tem nova chance no Grizzlies (sempre o Grizzlies, pegando essas estrelas em decadência), que aliás está aproveitando muito bem, McGrady pode passar a temporada ignorado no Houston e ano que vem arrumar espaço em outra equipe para aproveitar o pouco que sobra no seu tanque (e no seu saco). Só esperamos que ele não seja aposentado antes da hora contra sua própria vontade apenas por razões financeiras. No Houston, a política é que o T-Mac ajuda quando não estraga o time e quando devolve seu salário para os engravatados, mas se isso levar McGrady a se aposentar será uma enorme tristeza. Ele e Iverson podem ter papeis secundários na NBA, mas ainda são capazes de transformar partidas, adaptar seus jogos e iluminar esse nosso esporte que já tem saudade dessas estrelas. Quer dizer, o Grizzlies não tem saudade de nada - e o Houston, se receber o dinheiro de volta, também não.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

As quebradeiras - parte 1

O texto é sobre contusões de verdade, dá o fora Paul Pierce!

Ontem estava assistindo a lavada espetacular que o Lakers deu no Suns e em determinado momento a transmissão da ESPN gringa mostrou na tela uma lista com dados muito interessantes. Era uma lista com todos os machucados dos principais times do Leste e Oeste. Basicamente todos os 9 candidatos a vaga nos playoffs do Oeste e os 3 favoritos do Leste sofrem ou sofreram com contusões de peças importantes nessa temporada.

Eles ainda fizeram um paralelo legal dizendo como no ano passado, nessa mesma época do ano, a graça da temporada estava em ver como os times estavam lidando com suas novas aquisições (Gasol, Shaq, Kurt Thomas, Kidd, Korver, etc.) e nesse ano o interessante está em ver como as equipes estão se saindo ao perder jogadores.

Vou tentar não me alongar muito porque são muitos times, mas é essencial comentar como cada time está lidando com as perdas. Nesse ano não é um time ou outro que perdeu um grande jogador por contusão, foram praticamente todos e em uma liga disputada isso faz toda a diferença. E não, não vou comentar do Wizards sem o Gilbert Arenas, podem ficar tranquilos.



Los Angeles Lakers - O Lakers perdeu o Andrew Bynum como no ano passado mas não está com nenhum problema. Sem ele o Lakers venceu o Celtics em Boston e logo depois foi o único time a bater o Cavs em Cleveland. Na ausência do Bynum, o Gasol voltou a jogar de pivô, jogando até melhor do que antes, e o Odom está com atuações que renderiam até um lugar no All-Star Game se fossem no começo da temporada.

Desde a contusão do Bynum, o Kobe tem mais ou menos uns 6 pontos a mais de média, o Gasol mais uns 4 e o Odom quase o dobro, os três estão dando conta do recado e até defensivamente o Lakers não tem sentido tanto a falta do Bynum como sentiu no ano passado. Quer dizer que o time de LA vai ser campeão mesmo se o Bynum não voltar? É possível, mas eu não apostaria dinheiro nisso.


San Antonio Spurs - Primeiro foi o Ginobili fora no começo da temporada, logo depois o Tony Longoria. As duas contusões comprometeram um pouco o começo da campanha dos Spurs em termos de números mas serviram para outras coisas: mostraram que o George Hill e o Roger Mason dão conta do recado e que o Bruce Bowen já pode começar a procurar por asilos confortáveis na região de San Antonio.


Com os dois de volta, as vitórias apareceram e o Spurs entrou de novo entre os favoritos. Aí o Ginobili se machucou de novo, ficará de fora por pelo menos duas semanas e o Duncan está com fortes dores no joelho, desfalcando o time também. O resultado disso? 35 e 39 pontos para Tony Parker em jogos consecutivos contra Dallas e Portland. Como disse o Popovich, "O importante é todos estarem saudáveis nos playoffs". Até lá, de alguma maneira que a ciência não explica, o Spurs dá um jeito.


Utah Jazz - Se para o Spurs as contusões de Parker e Manu serviram para revelar Mason e Hill, no Jazz a contusão de Carlos Boozer serviu para eles verem que mesmo se perderem o ala na temporada que vem, o Millsap dá conta do recado. Quer dizer, mais ou menos.

Muita gente disse que a surpresa do Millsap aparecer fazendo trocentos pontos na ausência do Boozer foi ótima porque assim o Jazz não precisa se preocupar em gastar uma grana preta pra manter o Boozer na temporada que vem. Mas acho que essa pode ser uma aposta errada. O Millsap jogou muito bem, teve números dignos do próprio Boozer, é mais jovem e nunca teve problemas de contusão. Mas até onde ele levou o Jazz? Com ele jogando muito bem o Jazz não foi tão bem, ficou sempre ameaçado de ficar fora dos oito classificados para os playoffs e só se recuperou mesmo quando o Deron Williams voltou da sua contusão e, com a ajuda de Kirilenko e Okur, botaram o time nas costas.

Ou seja, esse time funciona bem se Deron, AK47 e Okur estiverem bem, o talento de Millsap e Boozer são "apenas" o diferencial, entre o Jazz ser um time mediano e um que briga pelo título.

O Millsap é muito bom, isso é fato. Mas não tem o arremesso do Boozer, o que é importante demais pra esse Jazz. E ele pode levar o time tão longe quanto o Boozer? Se eu tivesse os dois como Free Agents e pudesse pagar apenas um, levaria o Boozer. E tudo indica que o Jazz não concorda comigo.


New Orleans Hornets - Nunca um time pareceu envelhecer tanto de um ano para o outro. Passou apenas um verão nos Estados Unidos e de repente o Stojakovic e o Morris Peterson pareciam ter 90 anos de idade, rugas e um estranho gosto por bocha.

O sucesso do Hornets ficou na mão do Chris Paul, do David West e do Tyson Chandler. Até que o Chandler perde quase a temporada inteira e um time candidato a título se tornou um time de dois jogadores.

Para o Hornets ser um time bom eles precisam demais do Chandler como o principal reboteiro ofensivo da NBA, como um dos líderes em tocos e da sempre ameaçadora ponte-aérea dele com o Chris Paul. A contusão dele serviu para mostrar um Hornets limitado, dependente das suas poucas boas peças e mostrou também como o Chris Paul é o melhor armador do mundo. Sério, se ele fosse um armador só bom, não espetacular, esse time estaria em nono no Oeste facilmente.


Houston Rockets - O Rockets agora é um time forte. Ontem eles bateram o Cavs, limitaram o LeBron James a seu primeiro jogo na carreira sem assistências e o Yao se mostrou um novo homem: machucou o Ben Wallace (depois de uma trombada o Ben Wallace saiu do jogo com a perna quebrada) ao invés de sair machucado e enterrou na cabeça do LeBron James ao invés de ser marretado. É o mundo às avessas!

Essa nova fase do Houston que venceu 8 dos últimos 10 jogos se deve a duas perdas, a do Tracy McGrady e a do Rafer Alston. A troca do Alston foi uma injeção de confiança no Aaron Brooks que transformou o Houston em um time com um ataque mais dinâmico, e ainda trouxe o Kyle Lowry que joga demais e é ótimo para se ter no banco. Já a perda do T-Mac foi bom porque fechou o grupo, ele finalmente parou com esse vai não vai e afirmou com certeza que não volta mais nessa temporada.

O Houston, então, agora sabe que não tem mais ninguém pra ser trocado, sabe ao certo quem é o time titular e sabe o papel de todo mundo. Depois de uma temporada cheia de lenga-lenga mais chato que a atual novela das 8, o Houston agora tem identidade, tem uma rotação fixa. É, afinal, um time. Um time bem forte, aliás, que o diga o LeBron, que além da enterrada do Yao sofreu com um mix de marcação do Artest e do Shane Battier. Eu prefiro apanhar de cinta a ser marcado pelos dois no mesmo jogo.


Denver Nuggets - Em comparação aos outros, é um dos times que menos sofreu com as contusões. Perdeu o Carmelo Anthony por 10 jogos (6 vitórias, 4 derrotas) mas acabou no fim das contas servindo apenas para a liderança da divisão noroeste ficar um pouco menor sobre o Portland, nada comprometedor. Mais preocupante é a atual contusão do Nenê, que ainda bem não parece séria. Se eles perdem o Nenê, dão adeus a qualquer resto de esperança de passar da segunda rodada dos playoffs.



Você acha que as contusões param aí? Que nada, foi só metade. Amanhã falaremos mais de como as contusões de jogadores importantes em absolutamente todos os grandes times das duas conferências estão definindo os rumos dessa temporada.

Ainda temos que falar de Boston Celtics, Cleveland Cavaliers, Orlando Magic, Dallas Mavericks, Portland Trail Blazers e Phoenix Suns. Pra quem gosta de sangue e dor é um prato cheio!

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Defendendo a defesa

O único site a não ter uma foto do Obama como destaque


Há alguns anos atrás eu odiava times muito defensivos. Nada contra defender, eu só não entendia porque os times defensivos também tinham que ser ruins no ataque. É pra deixar o jogo equilibrado e ganhar em um emocionante 55 a 54?

Depois fui vendo que não é bem assim. Para ter um bom time defensivo, às vezes você tem que colocar um cara em quadra que não é tão produtivo no ataque, um cara como o Bowen, Battier ou Camby, por exemplo, e o ataque fica naturalmente comprometido, sem contar que defender cansa! Um dos times que eu mais pegava no pé era o Indiana Pacers, aquele pós-final de 2000 que teve passagens de Reggie Miller, Jalen Rose, Jermaine O'Neal, Ron Artest e Brad Miller. O objetivo do time parecia ser, claramente, amarrar o jogo, destruir o ataque adversário para chegar no final e arranjar um arremesso para o Reggie Miller tentar vencer. Aquilo me tirava do sério! Odiava assistir três quartos inúteis de jogo.

Tudo mudou naquele histórico embate entre Pistons e Pacers em 2004, jogo 2 da final do Leste.
O jogo acabou com um magro 72 a 67 para o Pistons. O Detroit acertou 34% dos seus arremessos, o Indiana 27%. O Pistons acertou 2 bolas de 3, o Indiana 3 (tentando 20!). Só dois jogadores de Detroit alcançaram os 10 pontos, três do Pacers. O time titular do Pacers deu, somado, 3 assistências e 12 turnovers. O jogo em geral teve 31 turnovers, 56 faltas e 26 tocos.

Foi um dos jogos mais legais que eu já vi na minha vida.

O toco do Tayshaun Prince sobre o Reggie Miller não foi só uma aberração atlética, uma jogada de precisão defensiva, foi um símbolo, pelo menos pra mim, de como um jogo essencialmente defensivo pode ser legal, emocionante.
Eu estava vendo na quadra jogadores espetaculares. Tinha Jermaine O'Neal, Reggie Miller, Billups, o Tinsley em sua melhor forma, Hamilton, Rasheed, Artest e mesmo assim os pontos não saiam. Os jogadores não estavam mal, estavam bem, lutando, buscando alternativas, mas nada superava a defesa do outro time, por melhor que fosse a jogada do adversário o time defensor dava um jeito de colocar pelo menos uma mão no rosto na hora do arremesso. Era como se os dois times atacassem com 5 e defendessem com 6 ou 7 jogadores.

Aquele jogo foi o que mudou minha concepção de times defensivos, passei a admirá-los assim como admiro times essencialmente ofensivos como o Suns, o Warriors ou, naquela época, o Dallas do Don Nelson. Ambos os casos tinham desistido do mito do meio-termo, do equilíbrio, para pegar o que eles tinham de melhor e elevar a última potência.

Resultado não deu. O Pistons foi campeão naquele ano porque, além da defesa funcionar, o ataque fluiu perfeitamente na final contra o Lakers. E no ano anterior e no posterior vimos o time mais equilibrado de todos levar o caneco, o Spurs, que sempre foi um primor defensivo mas que com Duncan, Parker e Ginobili nunca ficou devendo nada no ataque.

Então talvez o melhor seja o equilíbrio mesmo, tudo bem, por isso mesmo precisa ter muita bola no saco pra não tentar o equilíbrio, para simplesmente se jogar com tudo em um esquema tático extremista e ver no que dá, por isso que sempre torci muito para o Suns, porque sabia que sua derrota era a derrota de todos os times que cogitavam um sistema ofensivo que deixasse a defesa de lado.

Hoje em dia o melhor time denfesivo da NBA é, sem dúvida alguma, o Boston Celtics. Como acabei de explicar, aprendi a gostar de times defensivos e ainda fico encantado em ver como transformaram o Kendrick Perkins de um pedaço de carne desforme e imprestável em um pivô muito eficiente na defesa. Mas vou falar a verdade, nada me irrita mais do que assistir jogos do Celtics hoje em dia.

O negócio é o seguinte, eles defendem tão bem, mas tão bem, que você começa a passar vergonha pelo outro time. Aquele jogo que a ESPN passou na semana passada entre Celtics e Bulls foi um horror, deveriam ter encerrado assim que o Tyrus Thomas errou o seu décimo arremesso seguido. Se seguisse as nobres regras do curling, o Bulls já teria entregado o jogo e saído de quadra. O Chicago já é limitado ofensivamente, marcado pelo Celtics parecia que eles não tinham chance alguma de fazer uma cesta, todas pareceram sorte. Foi um dos jogos mais chatos que eu já vi.

Ontem teve Houston Rockets enfrentando o Celtics. Pensei em assistir Spurs e Mavs, já que é um clássico dos últimos anos da NBA, mas não resisti e fui ver o time do Danilo enfrentar a melhor defesa da NBA. Não poderia ter feito escolha melhor. O Celtics jogou muito na defesa, o Houston também, e mesmo assim os jogadores se superaram a todo instante para marcar seus pontos.

O Ron Artest grudou igual página de Playboy do seu primo no Paul Pierce, que respondeu grudando de volta no Artest. Ray Allen e T-Mac se marcaram bem de perto, mas esses dois sem o mesmo sucesso, com os dois tomando arremessos na cara durante os 48 minutos de jogo, e o garrafão foi uma troca de sarrafos, pancadas, tocos e cestas conseguidas na marra. Quem se deu melhor nisso foi, claro, o Scola, que como bom argentino nasceu para jogar nesses jogos brigados.

O terceiro quarto em especial foi lindo demais. Todos os arremessos foram contestados, não teve uma bola que o outro time não tenha feito de tudo para parar, assim como naquele jogo citado do Pacers e Pistons, mas dessa vez, de alguma forma, os jogadores conseguiram colocar a bola pra dentro da cesta. Quer dizer, o Yao não conseguiu, ele tomou o seu segundo toco do aro na temporada, o que é inaceitável, mas tudo bem, se eu falar mal do Yao aqui o Danilo briga comigo e só não me chuta porque perdeu todos os seus pés em apostas.

No fim das contas o Celtics ganhou. Eles abriram 16 pontos no segundo quarto, o Houston respondeu virando o jogo liderado por Aaron Brooks no ataque e Chuck Hayes na defesa e depois o Celtics fez mais uma sequência de pontos para acabar o primeiro tempo na frente. O segundo tempo foi pau a pau até que no fim do quarto período o Ray Allen resolveu que não ia errar mais nada e acabou sendo demais para o Rockets.

Como torcedor do Lakers eu não tenho nada a ver com isso, só estou vendo um potencial adversário de final do Oeste e um potencial finalista da liga, então assisti só para ver o time dos outros e me diverti demais. O Celtics está bem, claro, com o time forte do ano passado, e o Rockets mostrou que mesmo com o Yao jogando mal eles podem jogar de igual pra igual com qualquer time na NBA, até agora foi o melhor jogo da temporada. E foi entre dois times defensivos.

Moral da história: times defensivos podem ser legais de assistir, às vezes até mais legais que os times que são só ataque, correria e showtime. Mas se for assistir a um deles jogar, assista quando enfrentar um time competente. Times ofensivos costumam dar chance para o adversário, mesmo mais fraco, jogar basquete, já times defensivos costumam humilhar quem não tem recursos ofensivos e aí você se sente assistindo aquelas partidas de Jogos Escolares onde um time ganha do outro de 68 a 8 (o que não é legal, que fique claro).


Lewis Hamilton venceu a F1, mas perdeu a garota

Vocês viram que a mina do Pussycat Dolls tá dando pro Lewis Hamilton, né? Certeza que ela ia dar pro Vettel se o Hamilton amarela de novo, mas beleza, ele acaba de perder a namorada, mesmo que seja de mentirinha, graças à um xaveco irresistível do LeBron James em um novo comercial da Nike. Vale a pena ver só pelo visual do LeBron.
A dica foi do nosso leitor Linniker. Valeu, Link!



Mas o melhor comercial do momento é o do Steve Nash! Ele arma o jogo, arremessa de três, joga futebol, é garoto propaganda, luta caratê e é modelo.

sábado, 26 de abril de 2008

Duelos pessoais

A bengala e a boina xadrez do Kidd não aparecem na foto


O que não faltam nos playoffs são caras se enfrentando por 48 minutos por trocentos jogos em sequência. Uma escolha mal feita de marcação, um cara que conheça demais a fraqueza do outro, e tudo estará perdido. Aqui está a lista com os duelos pessoais mais interessantes desse início de playoff.


Chris Paul x Jason Terry e Jason Kidd
A disputa originalmente era entre Chris Paul e Jason Kidd. Mas os dois primeiros jogos mostraram como o Kidd não tem mais físico e velocidade para acompanhar Chris Paul. No ataque Kidd não perdeu a visão de jogo e a precisão nos passes, mas as pernas já não acompanham mais. Byron Scott, que foi praticamente expulso pelo Kidd do New Jersey Nets, sabe muito bem disso e passou o aviso para seu novo pupilo, que não pára de atacar Kidd. Na falta de uma máquina do tempo, a solução encontrada por Avery Johnson foi trocar o encarregado da marcação e colocar Jason Terry em cima de Chris Paul.

A solução funcionou na primeira tentativa e Paul não jogou tão bem como nos primeiros jogos. O problema não é perfeitamente solucionado porque do banco vem Jannero Pargo, que muitas vezes divide a quadra com Paul, aí o Kidd tem que ficar em cima de um dos dois, e os dois são rápidos como o diabo.

Thaddeus Young x Antonio McDyess
Eu sei que desligar o computador, sair do Bola Presa e ir acompanhar as novidades sobre o caso "menina-Isabela" parece mais interessante que um duelo entre Thaddeus Young e Antonio McDyess. Mas a verdade é que esse é um dos duelos pessoais mais interessantes dos playoffs até agora.

Maurice Cheeks poderia ter optado por Reggie Evans para segurar o garrafão do Pistons mas ao invés disso decidiu apostar na velocidade e na potência física de Young e seu talento para atacar a cesta, seja para a bandeja, seja para conseguir rebotes ofensivos. O resultado é uma marcação que tem incomodado McDyess ao ponto dele não conseguir se estabelecer embaixo da cesta mas que causa muitos rebotes ofensivos para o Detroit. No lado do Philadelphia eles tem mais uma opção nos contra-ataques e também estão conseguindo rebotes ofensivos. Um duelo esquisito e que abre oportunidades para os dois times.

Ironicamente, os dois tomaram porradas fortes no nariz no jogo 3 da série. Pior para McDyess, que quebrou o nariz e pode não jogar o jogo 4.


Kobe Bryant x Kenyon Martin
O Carmelo não marca ninguém nem por decreto, o Iverson é baixo demais, o Kleiza é branco e o Diawara, outrora conhecido por ser um bom defensor, nem entra em quadra. Então qual a solução para marcar Kobe Bryant?

George Karl apostou em Kenyon Martin. Ele é largo, alto, forte e até por ser baixo para sua posição, é bem ágil. No primeiro jogo pareceu uma decisão correta até o quarto período. Mas no quarto período o Kobe tomou conta do jogo e acertou jumpers, bandejas e principalmente conseguiu faltas para cobrar lances livres.
No jogo 2, a situação fugiu um pouco do controle. Nem Kenyon Martin e nem ninguém conseguiu parar o Kobe por nada nesse mundo. Até o nosso Nenê estava lá colocando a mão na cara do Kobe e nada adiantou. Foram 49 pontos pra deixar a dúvida na cabeça de Karl, quem deve marcar Kobe Bryant?


Tony Parker x Steve Nash
Na série entre Spurs e Suns do ano passado, quem tomava conta dos armadores eram os alas. Bruce Bowen marcava Steve Nash e Shawn Marion, em boa parte dos jogos, ficava em Tony Parker. Isso não fez o Suns ganhar a série, mas fazia o Parker suar bastante pra chegar na cesta.
Nesse ano, com Marion em Miami, o responsável escolhido para a tarefa foi Grant Hill. Mas acontece que a maldição voltou e Grant Hill se machucou de novo nos playoffs, ou seja, sobrou a função para Steve Nash.

Nash é bom no futebol, todos sabemos, mas acho que ele é melhor até em boliche ou boxe-xadrez do que em defesa de basquete. Ontem o duelo foi chave na lavada que o Spurs deu e no recorde da pontos na carreira de Tony Parker. Ninguém esperava que fosse na defesa de um armador baixinho que seria onde o Suns mais sentiria falta de Shawn Marion.

Shaquille O'Neal x Tim Duncan
Mas vamos ser sinceros, se o Marion ainda estivesse no Suns, o problema seria outro: marcar Tim Duncan. Obviamente Amaré não é o cara pra isso e o Suns nem Kurt Thomas tem mais para quebrar um galho. O primeiro jogo mostrou, apesar dos 40 pontos de Duncan, que Shaq era o único cara capaz de dar trabalho pro Duncan no elenco do Suns. O Spurs admitiu isso e usou uma forma bem polêmica para parar Shaq, o hack-a-Shaq.

Esse é o nome para a estratégia de fazer faltas intencionais em Shaq, mesmo que ele esteja fora da jogada para fazê-lo cobrar lances livres. Então ele erra a maioria, o Spurs não toma pontos e ainda obriga o Suns a tirá-lo da quadra. Essa é uma tática velha que já foi usada contra outros jogadores como o Ben Wallace e o Bruce Bowen, mas que ficou famosa com o Shaq mesmo. A regra permite e o objetivo é claro, Gregg Popovich deu uma entrevista bem direta dizendo "Queremos ele no banco de reservas" e pra isso foi capaz de fazer o hack-a-shaq mesmo vencendo por 12 pontos ainda no primeiro quarto. Com isso, o Spurs, de certa forma, diz que Shaq pode parar Duncan e que essa batalha foi perdida, mas com um bom contra-ataque está vencendo a guerra.

LeBron James x DeShawn Stevenson
De todos os confrontos este é o mais pessoal. Muitas provocações, mãos na cara e pouca complexidade tática. O negócio é bem simples, eu marco você, você me marca, eu provoco quando acerto, você provoca quando acerta, e é isso. LeBront tem mais talento, mas se tem duas coisas que o DeShawn sabe fazer é incomodar na defesa e arremessar de 3 no ataque.

Tracy McGrady x Andrei Kirilenko
Nesse duelo aconteceu uma coisa que nunca aconteceria no duelo acima. Um disse que o outro é bom. Uau! Inimaginável pensar no DeShawn falando isso do LeBron. Mas nesse caso o Tracy McGrady disse mesmo que o Kirilenko marcou muito bem ele e que nos dois primeiros jogos ele estava exausto no quarto período devido à marcação do russo.
Kirilenko é bom mesmo e deve continuar fazendo um ótimo trabalho em McGrady que, com seu talento, sempre acha um jeito de ser bom mesmo assim. Mas o resultado dessa série não depende de McGrady ou de Kirilenko. Está nas mãos do irregular elenco de apoio do Houston a vitória ou derrota dos Rockets.

sábado, 29 de dezembro de 2007

O time do Wade fede

Pede pra sair, Wade! Pede pra sair!


O negócio é o seguinte: se você tem a noite da sua carreira e mesmo assim seu time sai de quadra derrotado, é porque alguma coisa muito errada está acontecendo. Dwyane Wade marcou 48 pontos além de 7 rebotes, 11 assistências, 3 roubos e 3 tocos. Mas isso não é o bastante para um dos times que mais fedem atualmente na NBA.

Isso me lembrou uma anedota. Em 2004, Tracy McGrady era o cestinha de toda a NBA, estava a 20 jogos seguidos marcando pelo menos 20 pontos por partida e havia feito mais de 40 pontos nos dois jogos anteriores. No entanto, seu time ainda ocupava o último lugar da tabela. A frustração com a campanha e com o resto da equipe levou a um total descontrole na partida contra o Denver Nuggets: após tomar um toco do Chris Andersen (alguém ainda lembra dele?), T-Mac simplesmente chutou a bola em direção à arquibancada, tomando uma falta técnica. Quando a bola foi devolvida para a quadra, T-Mac metodicamente pegou a bola de novo e chutou para fora outra vez, para ser expulso. Vale a pena dar uma olhada no vídeo:



O mais engraçado de tudo é a reação do Juwan Howard quando percebe que o T-Mac vai chutar a bola pela segunda vez. Ele corre como um desesperado tentando impedir o inevitável, obviamente pensando "pelamordedeus não seja expulso senão a gente vai ser humilhado aqui!" Ironicamente, o Magic ganhou aquela partida.

Eu não ficaria surpreso se o Wade chutasse umas bolas pra fora da quadra na próxima partida. Pra começar, ele foi obrigado a jogar de armador principal. O fato de ficar com a bola mais tempo em mãos ajudou a marcar 48 pontos, claro, mas é nítido o desconforto do Wade na posição. Ele se atrapalha, ele escorrega, e eventualmente ele recebe marcação dupla no meio da quadra e não tem ninguém para levar a bola e devolver para ele depois. Onde estavam os outros armadores? Jason Williams e Chris Quinn machucados, (o Quinn, aliás, estava risível no banco porque ele tem 4 anos de idade e parecia ter pegado o terno do pai para brincar) fora o Smush Parker que simplesmente resolveram esquecer que existe. Fora isso, o Earl Barron foi titular já que Shaq está com uma contusão no quadril e o Alonzo encerrou a carreira.

O resto do time até que se saiu bem, Dorrel Wright tem potencial (mas faz uns 15 anos, daqui a pouco ele vai ser daqueles vovôs que tinham potencial e nunca fizeram nada), o Cook é um bom arremessador (o arremesso pra levar o jogo pra prorrogação foi surreal), o Haslem é um dos jogadores mais consistentes da NBA, mas simplesmente não há talento o bastante ali para fazer justiça ao pobre do Dwyane Wade.

Todos os torcedores do Heat que pedem para que o Shaq seja trocado precisam pensar bem a respeito. Com o Shaq no banco, até a melhor noite da vida de Wade não foi o bastante. Mesmo quando o Shaq não está fazendo nada, desmotivado, entediado, parado no garrafão simplesmente pensando em donuts, a vida de todo o resto do Miami Heat já fica mais fácil. Ele é uma presença que sempre vai desestabilizar defesas e exigir ajustes defensivos mesmo quando tiver 120 anos e jogar basquete numa cadeira de rodas.

Outras trocas deveriam acontecer, claro, mas o Shaq deveria ficar lá. Obviamente, trazer o fominha do Ricky Davis não foi a resposta para nada. Trocas menores podem ser o bastante para dar um ânimo novo para a equipe que, como o Denis ressaltou nesse artigo sobre o Heat, precisa de motivação.

Enquanto isso, Sixers e Jazz fizeram uma troca menor que pode ser bastante útil para os dois times. Recentemente lembro de ouvir alguém falando sobre como o Kyle Korver estava sendo desperdiçado na Philadelphia. Em um time que precisasse de um arremessador puro para ficar lá parado matando bolas, ele seria uma peça fundamental. Some a isso o fato de que o Jazz vem sendo destruido por times que marcam por zona permitindo que a equipe de Utah apenas arremesse de fora, deixando óbvio o quanto eles precisam desesperadamente de um arremessador, e adquirir o Korver parece uma resposta perfeita. Deixar ele em quadra por alguns momentos, se aproveitando do espaço que o Boozer deve gerar, deve ser o bastante para que ele tenha a chance de sua carreira.

Em troca do Korver, o Sixers recebeu o Giricek e mais uma escolha de 1o round no draft do ano que vem. O Giricek arrumou encrenca com o Sloan e por isso vai embora. Ele até pode quebrar um bom galho em sua nova equipe, mas o fundamental é a escolha de draft. O Korver foi uma escolha de 2o round e eles receberam em troca uma de 1o, ou seja, no papel já saíram no lucro. No Sixers, o Korver nunca seria de grande valia mesmo. E como o time está se reconstruindo, nada melhor do que arrumar mais novatos para o ano que vem.

Para o bem do Wade, torço para que o Heat também arrume algumas trocas que adicionem peças importantes. O próprio Korver se daria bem por lá, substituindo o já foragido Jason Kapono. Ou, na pior das hipóteses, é bom o Heat pensar no futuro e começar a trocar por escolhas de draft do ano que vem. Mas aí podemos nos preparar para ver o Wade chutando um bocado de bolas para fora do ginásio...