terça-feira, 17 de junho de 2008

Meu novo Kevin Garnett

Kevin Garnett combina melhor com o amarelo do Lakers


Todo mundo que me conhece, leitor ou não do Bola Presa, sabe que sou fã do Garnett. A camiseta 21 do Wolves, preta - a primeira que comprei quando as camisetas surgiram no Brasil - foi usada por mim à exaustão e simplesmente não me deixa mentir. Para mim, Garnett foi por muitos e muitos anos o melhor jogador de toda a NBA, mas continuamente amaldiçoado com elencos capengas, técnicos mequetrefes e dirigentes imbecilóides. Com seu talento, as pessoas cobravam de Garnett o mesmo número de anéis de Duncan, sem levar em conta tudo que faltava à sua volta: David Robinson, Ginóbili, Greg Poppovich.

Num artigo meio velho, falei sobre o absurdo de comparar jogadores por não sermos capazes de levar em consideração todos os fatores, como comissão técnica, restante do elenco e até o momento histórico da NBA. Mas ainda assim sempre acreditei que o Garnett, no Spurs, teria tido o mesmo sucesso do Duncan. Só agora, depois de toda essa temporada com KG no Celtics, prestes a vê-lo com um anel no dedo quando, pela primeira vez, ele tem um elenco decente, me atrevo a dizer: acho que eu estava errado.

Não é nem uma questão de talento o que me fez repensar a posição sobre o Garnett, mas sim sua abordagem, o modo como encara o jogo. O que é sua principal qualidade é também o seu maior defeito. Enquanto o Duncan está sempre com aquela cara de "tanto faz" e parece que não lhe faz diferença a Eva Longoria ou um tomate, nem uma cesta no primeiro quarto da pré-temporada contra o Clippers ou uma cesta de 3 pontos no final de um jogo de playoff contra o Suns (a não ser em lances livres, porque nisso aí o Duncan costuma fazer cara de "tô fudido" e amarela legal) o Garnett é justamente o contrário. Ele parece se importar tanto, mas tanto, com cada coisinha que acontece em quadra, que isso acaba prejudicando seu jogo. O Garnett é aquele cara que deixa um companheiro de equipe de castigo por ter atravessado fora da faixa de pedestres, e que puxa a orelha de todo mundo por não lavar as mãos antes das refeições. Ele parece consciente demais da importância de cada bola, cada momento, cada companheiro. Ele grita, berra, se taca, quebra paredes de concreto com cabeçadas. Mas é justamente essa consciência que parece segurar seu braço, suas pernas e sua mente nos momentos decisivos de jogos importantes. É como se ele ficasse pensando sem parar o quanto ele não pode errar aquele arremesso, o quanto ele não pode errar aquele lance livre, e com tamanha preocupação e ansiedade, não consegue fazer nada certo.

São duas abordagens completamente distintas. De um lado, o Duncan recebe a bola na linha de 3 pontos num momento crucial contra o Suns e simplesmente arremessa como se fosse qualquer outro dia da sua vida, como se estivesse no supermercado comprando ervilhas. Do outro lado, temos um Garnett que assumiu, em entrevistas, que está tendo um terrível problema de insônia durante os playoffs. A preocupação, auto-cobrança e intensidade não o deixam dormir. Temos um Garnett que errou lances livres e arremessos importantíssimos no final de um Jogo 5 que poderia ter lhe rendido seu primeiro anel de campeão e, frente a isso, disse claramente que teve um jogo de merda, que ele sabe que poderia ter acertado tudo, e que espera apenas a oportunidade para provar.

Esse é o Garnett que eu não consigo deixar de idolatrar, cuja camiseta eu orgulhosamente vestia o tempo inteiro e cuja paixão pelo basquete é, no mínimo, inspiradora. Ao invés de caras-de-nada, não consigo deixar de me fascinar com um cara que diz que é sensacional, que pode e deve concertar todas as falhas que cometeu em quadra, que se esforça e sangra pelo seu amor de forma épica. Infelizmente, talvez isso seja justamente a barreira que o separa - para sempre - de uma vaga entre os maiores de todos os tempos. Essa dedicação e paixão irrestritas é que puxam seu braço na tensão do último arremesso, que quebram sua concentração e causam aquela falta tola e imperdoável nos segundos finais.

Pessoalmente, não tenho dúvidas de que Kevin Garnett é um dos melhores que eu já vi jogar, uma figura incrível e emocionante. Mas como a história o abraçará se ele tiver mais uma atuação mediana, falha nos momentos principais, e o Lakers vencer o Jogo 6 de hoje a noite? A situação não é nem um pouco favorável: se um milagre acontecer e o Celtics perder um Jogo 7 para o Lakers, o Garnett será para sempre enterrado na escória da Liga. Caso seja campeão, como tudo indica, e o MVP das Finais for - merecidamente - Paul Pierce, o Kevin Garnett vai ser lembrado como o homem que não precisava de um elenco melhor: ele próprio era o elenco melhor para a estrela decisiva de verdade, Paul Pierce. O que não é ruim, veja bem, Duncan tem vários anéis graças a Parker e Ginóbili, por exemplo. Mas Garnett precisava de mais do que isso para elevar seu nome ao patamar merecido e retirar o fardo de fracassado.

Espero que ele se contente em ter sido apenas um colaborador na busca pelo anel, apenas mais uma peça no Celtics de Paul Pierce, e esqueça o que a história dirá. Talvez Garnett precisasse justamente compreender que, no fundo, isso é tudo uma besteira: basquete, história, legado, tudo. Assim como comprar ervilhas num supermercado.

3 comentários:

Nobody Go. disse...

Ah, Danilo... Preciso falar que você é hater do Duncan?
ahhahahaaah

E, sim, prefiro a cara de comprar ervilhas do Duncan e prefiro o jogo ultra eficiente tbm.
=)

Ronin disse...

Ele é o Cara. Seria uma grande tristeza pro esporte esse sujeito não ganhar um título. Joga como poucos.
E o melhor,nem é mala.

enrique disse...

nao foi o ray allen q falou q estava com insonia?