sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Teoria e Prática

Spanoulis ouve o coração de Kobe


Vencer a seleção americana não é uma tarefa fácil. De 2002 até 2006 eles se mostraram bem mais vulneráveis do que antes (embora algumas pessoas esqueçam de comentar a semi-final de Sydney 2000 em que eles ficaram a um arremesso da derrota) mas mesmo assim era preciso uma grande atuação para derrubar os americanos, ninguém os venceu com uma atuação mediana.

E é justamente por isso que eu acredito que os Estados Unidos irão vencer a Olimpíada em Pequim. Até agora nenhum time mostrou basquete bom o suficiente para bater os americanos embora todos tenham a teoria de como vencê-los já na ponta da língua, é só seguir alguns pontos básicos:

1- Usar defesa por zona: Os americanos treinaram e já tem mais noção de como enfrentar uma zona, mas não é nenhuma maravilha ainda. A paciência deles acaba em poucos segundos e rapidinho o Kobe pensa "para que fazer uma jogada se eu posso acertar um arremesso na cara desse gringo?"

2- Forçar as bolas de 3 pontos dos americanos: Os americanos perceberam que precisavam de mais bolas de 3 e para isso convocaram Michael Redd, deram luz verde para o Kobe chutar quando quiser e esse é um dos motivos que levam o Coach K a usar o Carmelo na posição 4. Mas a verdade é que nem Kobe e nem Carmelo estão bem nas bolas de 3 pontos e Redd participa pouco dos jogos.

3- Não desperdiçar bolas: Errar arremesso é ruim mas é aceitável, o que os times que enfrentam os americanos não podem fazer é desperdiçar a bola. Cada bola perdida vira uma enterrada do LeBron James em questão de segundos.

4- Usar o pick-and-roll:
Para quem faltou nas aulas e não sabe o que é um "pick and roll", assista esse educativo vídeo. Essa e a situação que mais atrapalha os americanos. Ouvi gente (gente = Mike D'Antoni) dizer que eles defenderam bem a estratégia grega de usar essa jogada mas eu não achei não. Eles tomaram muitas cestas e fizeram várias faltas no começo do jogo, a solução foi embolar todo mundo no meio do garrafão, que deu certo só porque a Grécia estava em dia pouco inspirado no arremesso de 3 pontos.

5 - Arremessar bem de 3 pontos: Um sábio já disse que as bolas de 3 é que decidem os jogos FIBA. Na NBA ajudam bastante também, mas no basquete FIBA, com a defesa por zona fechando o garrafão, as bolas de longe se tornam ainda mais importantes. Você não vence os Estados Unidos se não arremessar bem de longe, as bolas de 3 acabam com a moral do outro time, tira a defesa do garrafão e deixa mais espaço para as infiltrações. Sem contar que uma bola de 3 vale mais do que a de 2, é sempre importante lembrar disso.


Agora, falar é uma coisa, fazer é outra. Ou como o Galvão Bueno adora dizer nas transmissões de Fórmula 1, chegar é uma coisa, passar é outra. Falar tudo isso é fácil, o difícil é chegar lá e conseguir não perder a bola com o Chris Paul e o Kobe te marcando com pressão quadra inteira, acertar as bolas de 3 sabendo que você tem que acertar o arremesso senão o contra-ataque vira Top 10 do SportCenter da ESPN ou ainda manter a confiança na defesa por zona mesmo depois de uma ou duas infiltrações malucas do Dwyane Wade.

Precisa de muita frieza, muito talento e muita confiança para bater esse time dos Estados Unidos, e não vejo nenhum time assim na Olimpíada. Os Estados Unidos estão dominando o jogo na defesa e enquanto eles forçarem as outras seleções a perdas de bola, o time americano não deve ter problemas para vencer os jogos.

A Rússia venceu o campeonato europeu do ano passado mas não lembra nem um pouco aquele time, já a Espanha até teve bons momentos mas aquela prorrogação contra a China me fez perder qualquer confiança que eu tinha dos espanhóis baterem os americanos. Sobra então Argentina e Lituânia. A Lituânia eu achava que era o pior dos melhores, mas eles estão jogando muito bem, talvez seja o time que mais dê trabalho para os americanos. Já a Argentina acho que não terá muitas chances de vencer porque o banco de reservas, com exceção de Carlos Delfino, não tem sido forte o bastante. E basta algumas faltas do Scola no Dwight Howard para que entre o fofinho do Roman Guiterrez, que certamente é um pouco menos atlético que os jogadores americanos.

Só não comecem com coisas como "A Argentina de 2004 venceria esses Estados Unidos" ou coisas do tipo, eles não vão se enfrentar e a gente nunca vai saber. Nunca vamos saber se o Brasil da Copa de 82 venceria o Brasil da Copa de 70 e temos que conviver com isso também. O negócio é aceitar, aproveitar e, quem quiser, comemorar que os Estados Unidos estão de volta ao topo do basquete e que a medalha de ouro é apenas questão de tempo.

Eu concordo com o texto de ontem do Danilo quando ele diz que o comprometimento dos americanos é uma das coisas mais importantes nessa seleção. No jogo contra a Grécia deu pra ver que eles estavam mais focados do que nunca e que a gana de ganhar era tamanha que eles não se intimidaram pelo começo tranquilo e eficiente dos gregos. Só que o comprometimento não fez eles mais humildes e amigáveis com seus rivais estrangeiros. Eles ainda são um bocado convencidos. Depois da vitória sobre a Grécia, o Wade deu uma entrevista bem humorada mas que bem poderia ser interpretada pelos mais chatos como mal-educada e pedante. Quando perguntado se ele conhecia os jogadores gregos, Wade respondeu:

"Conheço, nosso técnico mostrou alguns vídeos sobre eles. Só não pede para eu pronunciar os nomes, porque aí complica. Só sei pelo número da camisa".

Se o basquete de 2008 fosse um romântico jogo do campeonato paulista do final dos anos 50, o próximo time a enfrentar os EUA iria trocar o número da camiseta de todo mundo e iria deixar todo mundo careca e sem barba para atrapalhar o reconhecimento, assim a seleção americana perderia o jogo e a história viraria lenda que veríamos em DVD da história das Olimpíadas e contaríamos para os nossos netos com muito mais exageros e dizendo que essa Olimpíada de 2048 não tem mais graça com os andróides tomando conta do quadro de medalhas.

Mas sabe que eu fico feliz em ver os americanos confiantes e convencidos assim? É o jeito deles, faz parte do charme da coisa. O legal é ver os americanos se achando o máximo em toda Olimpíada e então torcemos contra eles, imagina se o Corinthians vira um dia um time simpático, amigável, nada polêmico e que ninguém odeia? O futebol não ia ter a mesma graça. Olimpíada tem que ser assim mesmo, os americanos convencidos e o mundo torcendo contra.

Um dia, não em Pequim, vão aparecer seleções capazes de derrotar os americanos de novo no basquete e isso vai fazer eles continuarem mandando as super estrelas. Melhor pra eles que vão ganhar o ouro na maioria das vezes e melhor pra gente que está vendo o show.

Falando em show, que tal a ponte-aérea do D-Wade para o Kobe? Espetacular.

3 comentários:

Anônimo disse...

Se eu jogasse como Kobe Bryant só ficaria humilde quando encontrasse uma camisa verde na minha frente.

Heverton Elias

Guilherme²³ disse...

O video ta fora do ar :)

Danilo disse...

Malditos direitos autorais de imagem...