terça-feira, 25 de março de 2008

Apelando no draft

Chris Quinn, atual cestinha do Heat, tem cara de quem é preso dentro do armário pelos coleguinhas


Eu gosto pacas do sistema que a NBA utiliza para formar os elencos, com tetos salariais para as equipes e as escolhas de draft todo ano. Se eu pudesse ser mais radical, arrancaria a regra que permite aos times pagar multas para cada dólar acima do teto salarial, obrigando todo mundo a pagar exatamente a mesma grana para compor o elenco, sem tirar nem por. De todo modo, é um jeito interessante de igualar as chances de todas as equipes e, tirando as mutretas por aí (multas, jogadores que aceitam ganhar um pacote de bolachas e mais o dinheiro do busão só para ter chances de título, e jogadores que recebem "por fora" pra não contar na folha salarial) é uma idéia bacanuda para evitar apelações. Se a NBA vigiasse o Street Fighter, por exemplo, hadouken seria mais difícil de dar e o E. Honda não poderia andar enquanto dá "tapinha".

Nesse esquema, coisas ridículas que acontecem no futebol são evitadas. Jogadores não são vendidos por milhões de dólares para outras equipes, deixando o time desfalcado e enriquecendo dirigentes. Times mais pobres não são obrigados a ter o Túlio em fim de carreira, e fica difícil montar um time só de estrelas só porque você tem poder financeiro. Na NBA você tem que trocar jogadores, igualar salários, analisar bem quanta grana você quer mesmo oferecer praquele sujeito que está prestes a ser contratado. É mais intelectual do que jogar dominó!

Além disso, os times que mais fedem na Liga são agraciados com as primeiras escolhas de draft. Eu adoro essa idéia mas algumas coisas nela são um tanto engraçadas. Por exemplo, acho que os americanos jogaram "Banco Imobiliário" demais e são muito apaixonados pela idéia de dados, sorte e revés. Por que o time com pior campanha não tem a primeira escolha do draft e pronto? Não, não, tem que ter um sorteio, tem que ter sorte e azar envolvidos, e sempre tem aquele time azarado que, com a pior campanha, acaba saindo só com a quarta escolha na noite do draft. Vai dizer que não dá um pouco de dó?

Eu também adoro o fato de que, em geral, o time com pior campanha é favorecido com uma boa colocação na hora de escolher seus novatos mas depende dele próprio para conseguir fazer a escolha certa. Tem que estudar cada jogador, analisar a fundo, ver como eles se saíriam em cada esquema de jogo. Se você achou que o Kwame Brown um dia ia ser bom, azar o seu. Se você resolveu apostar naquele tal de MVP da Euroliga ("Euroliga é um país, é?") que, por algum motivo, ninguém mais quer, então parabéns por ter em seu elenco Manu Ginobili. Por isso, analisar cada jogador do draft é uma das coisas mais divertidas da NBA e lição de casa de todas as equipes. (E de todos os blogueiros desocupados por aí. Aliás, já adiantando, não percam daqui a trocentos meses nossa já genial cobertura do draft!)

Isiah Thomas, por exemplo, conseguiu certa fama como um cara que sabe draftar muito bem. Apesar de ser um técnico mequetrefe, feder ao se relacionar com os atletas e transformar o Knicks numa piada de mau gosto, até mesmo suas escolhas de draft questionáveis (David Lee, Renaldo Balkman) são realmente interessantes. Mas li dia desses na DimeMag que, quando estava em Indiana, Isiah cismou que queria draftar o Fred Jones. Enquanto isso, todos os olheiros eram unânimes no interesse por um rapaz com potencial chamado Tayshaun Prince. Na última hora, Isiah recebeu carta branca para escolher quem ele bem entendesse e acabou pegando mesmo o Fred Jones, que foi campeão de enterradas e nada mais. Enquanto isso, Prince acertava arremessos decisivos e históricos pelo Detroit em sua temporada de novato e hoje é um dos jogadores mais completos (e esquisitos!) de toda a Liga. Oras, bem feito, mais uma pro titio Isiah levar na orelha!

São essas coisas que tornam a NBA tão divertida. Já pensou que loucura seria o pior time do Brasileirão podendo escolher a novo promessa que surgiu em alguma categoria de base? Já pensou dirigentes estúpidos escolhendo o Carlos Alberto ao invés do Ronaldinho Gaúcho? Ah, teríamos mais motivos para odiar os dirigentes e times mais equilibrados. Diversão pura! Quer dizer, isso até algum fanfarrão querer estragar a brincadeira. Não adianta olhar pro lado, fingir que não é com você. É com você sim, senhor Miami Heat! Com quem mais seria, mocinho?

Eu me lembro muito bem da temporada em que o Cavs fedia horrores e placas dos torcedores de Cleveland diziam, humoradas: "Percam pelo LeBron". Na época já era certeza que o LeBron seria a primeira escolha, mas ainda assim não consigo me lembrar do Cavs perdendo de propósito, abandonando a temporada no meio para agarrar o rapaz. Pode ser que eu tenha uma visão romântica, porque naquela época a gente podia brincar de pião na rua, não tinha assalto, dengue, essas coisas, mas eu juro que não lembro do time ter abandonado a temporada de vez pra se sair melhor no draft. Eles perdiam porque eram surrealmente ruins, assim como aquele Nuggets que tinha Nenê novato e Juwan Howard cestinha do time. Irch! Se eu contar isso no futuro, meus filhos não dormirão de noite.

Já o Miami Heat dessa temporada chutou o balde. Quando Wade e Marion não jogaram a mesma partida, desconfiei de que algo estava errado. Fui atrás de anúncios de contusão mas sempre com um pé atrás. Aí o Wade ficou fora para o resto da temporada, o Marion joga dia sim, dia não, o Heat chamou uma dúzia de manés da Liga de Desenvolvimento para serem titulares e o Pat Riley, técnico da equipe, foi embora para "analisar os jogadores que estarão no próximo draft". Voltou só ontem, conheceu pela primeira vez os jogadores vindos da Liga de Desenvolvimento, e viu o zé-ninguém branquelo e magrelo Chris Quinn ser o cestinha da equipe depois de, dias atrás, o mesmo Quinn ter jogado todos os minutos de uma partida, sem sentar um segundinho sequer. Aliás, o Heat ganhou ontem, mas só porque era contra o Bucks, e provavelmente foi muito sem querer.

Resumindo, o Miami só não colocou cinco gorilas adestrados de circo para jogar porque as regras não permitem. E só não colocou cinco cachorros para jogar porque, caso um deles viesse a ser parente do Bud, o cão amigo, era capaz do time vencer uns jogos.

As regras de teto salarial são legais, o draft é uma sacada genial, mas sempre tem uns manés pra avacalhar com tudo. Abandonar a temporada nesse nível não dá. Ter 4 caras da D-League compondo o seu time? Vergonhoso. A NBA deveria dar um jeito de dar a primeira escolha do draft para o Miami mas obrigar o time a draftar o Kwame Brown. Se isso não for possível, é preciso pensar em outra coisa para que o final da longa temporada, que é justamente quando o negócio esquenta, não seja comprometido porque um time que precisa de uma vitória enfrente o Heat com o Chris Quinn como cestinha. Mas acho que estou sonhando, não dá pra evitar que os jogadores digam que estão contundidos, sentem no banco, e o técnico vá viajar a negócios para a praia de Miami. Se alguém tiver uma idéia a respeito, sou todo ouvidos. Já o David Stern, por sua vez, não se importa. Como um leitor do Bola Presa certa vez afirmou, ele está ocupado demais assinando as bolas que levam a marca da NBA.

15 comentários:

Nobody Go. disse...

Poisé, Danilo, concordo!

Fiquei tão emocionado que conheci [aahhaahah] que escrevi um post
http://ninguememcasa.blogspot.com/2008/03/homenagem-rpida.html

pronto.

Nobody Go. disse...

E, Danilo, qr dizer q foi pra fazer esse post q vc saiu mais cedo?
haaahahha

;)

Danilo disse...

Valeu pela homenagem! Você é o primeiro leitor do Bola Presa que eu conheci por acaso, e juro que fiquei feliz pacas! Sobre o post, ele já estava pronto desde tardezinha... ;)

Abraços!

Anônimo disse...

Pensa bem: o fato do Miami Heat fazer isso e proporcionar a piada do Bud, o Cão Amigo, também torna todo o sistema divertido.

Anônimo disse...

Acho que seria bem complicado punir uma equipe "desistente" como o Heat, mesmo que eles estejam deliberadamente alheios à atual temporada.

Isso porque se iniciaria uma complexa discussão sobre o que seria "desistir" da temporada e quem mereceria ser punido.
Ou seja: até que ponto um time fede por sua própria natureza? Até que ponto pode se inferir que ele fede de propósito? Trata-se de uma análise mais subjetiva até mesmo do que aquela sobre o MVP da temporada, convenhamos.

Ora, pessoal, será que é só o Heat que desistiu da temporada desde o começo?
Ainda que mais "discretamente", não dá para negar que times como Sonics e T´Wolves estão no mesmíssimo barco que o pessoal de Miami.
Alguns dirão: "eles pensam no futuro!". Tudo bem, mas esse futuro passa claramente pelo futuro draft 2008, não tenham dúvida disso.

Discordo do blog quanto ao sorteio do draft. A grande sacada da NBA é justamente o fato de que o time mais fedido não tem garantida a melhor escolha, mas sim "apenas" a maior quantidade de bolinhas no sorteio.
Ajuda-se os piores mas não se premia deliberadamente sua incompetência, pois outros times podem ser agraciados com a primeira escolha mesmo não sendo tão horríveis assim.
Portanto, ainda que bolinhas a mais teoricamente aumentem as chances dos piores times, sorteio sempre redunda em sorte.

Gosto desse sistema de draft, assim como gosto do sistema salarial.
São duas estruturas que ajudam em muito no sucesso da liga.
Já quanto ao ora tão apedrejado sistema de divisão em conferências e o extenuante calendário de jogos da temporada regular, vejo as críticas como sensatas, mas me mantenho conservador nesse tópico.
Melhor manter tudo como está, pois tudo funciona muito bem.
Imaginem se os times do Oeste jogariam tão freneticamente se a classificação aos playoffs não fosse pelas conferências, mas sim pelas melhores campanhas...
Imaginem ficar sem a fartíssima variedade de jogos diariamente...

Aderindo ao clima futebolístico recém-incrementado no blog, concluo: o Stern faz lá suas cagadas, mas pelo menos não se sente tão à vontade como o Blatter para inventar mudanças mirabolantes da noite para o dia.
Menos mal assim.

Danilo disse...

Mas será que tudo funciona tão bem assim quanto você diz? Não temos uma NBA infestada de contusões o tempo inteiro, culpa direta da quantidade de jogos desumana? Times obrigados a contratar jogadores de baixo nível só porque todo o resto está na enfermaria? A fartíssima variedade de jogos diários é maravilhosa, com menos jogos e uma temporada mais curta eu provavelmente teria que aprender a fazer tricô, mas estou disposto a deixar pra lá esses meus desejos egoístas em nome de uma NBA com mais qualidade e menos problemas físicos para os atletas. Fazer os jogadores terem tantos jogos por temporada apenas para o nosso divertimento para coisa da Roma Antiga!

Abraços!

Anônimo disse...

presente para o Isiah

http://www.youtube.com/watch?v=r1ob8mNDcNk

Renan Ronchi disse...

Por que o time com pior campanha não tem a primeira escolha do draft e pronto?


Simples, porque se fosse assim o Boston colocaria Paul Pierce, Ray Allen e Kevin Garnett na D-League, mandaria os jogadores da D-League para a NBA e no ano seguinte era garantia que teria Beasley jogando ao lado dos outros 3. Teria muita palhaçada simplesmente pra ganhar a primeira escolha. Também acho mais justo o sorteio, mas tinha que aumentar as chances dos times! Só 25% pra quem perdeu a temporada inteira não dá!

Anônimo disse...

e o meu philadelphia hem...
spurs,detroit,denver e os celtics la em boston!!!
isso so nos ultimos 7 jogos!!!
nos vamos para os playoffs e iverson nao...
SIXERS CHAMPION!!!

Anônimo disse...

F5 ?????

eiuheiuehieuheiuehiueheiu
brincaderinha gente !!!
a derrota do lakers que me deixou com esse bom humor todo =D

Clóvis disse...

Gostaria de perguntar se vcs sabem me dizer se o site da nba (a nba.store especificamente) entrega para o Brasil, se vcs já compraram ou algo assim. Eu tenho uma camisa do Wade e do Ginobili oficiais, e queria comprar uma do Ray Allen ou do Arenas, meu pai vai pra Houston, mas é só no fim do ano que vem, e ele me disse que era pra eu comprar logo a camisa pela internet ao invès de esperar ele ir, vcs sabem se o nba.store entrega para o Brasil, ou sabem de algum lugar na net que vende camisas da Nba que possa entregar aqui ??
Obrigado.

Anônimo disse...

Bud é um clássico.

Denis disse...

Salgueiro, acho que a NBA Store entrega para fora dos EUA sim. Tem que ver negócio de imposto e tudo mais, mas acho que entrega, mas não tenho certeza porque nunca comprei por lá.
Mas no eBay tb deve ter camiseta pra vender e lá tem muita gente que entrega para o mundo todo.

Abraços!

Danilo disse...

Tem aquele lance esquisito de que produtos que são vendidos no Brasil recebem impostos altos quando você compra eles de fora... como supostamente as camisetas da NBA são vendidas no Brasil, comprá-las da gringolândia pode te causar o azar de ter o produto bloqueado e você ter que pagar uns tufos de imposto. Já aconteceu comigo, mas não com camisetas. Então, vai saber...

jpmontalvao disse...

antigamente o sistema de draft era assim, tinha a primeira escolha o time com a pior campanha e pronto, mas na decada de 1980, o Knicks, sabendo que naum ia pro playoff, mas naum ia ser o pior time (como o blazers hj), começou a perder de proposito pra pegar na temporada seguinte o pivo patrick ewing. a direção da NBA, descobrindo isso mais tarde criou o sistema de sorteio, pra que esses times naum tentem mais essas coisas...