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quarta-feira, 11 de maio de 2011

Altos, baixos e gordos

Perkins e Randolph se odeiam, mas em quadra tentam imitar a cara do Duncan


O que tivemos entre Grizzlies e Thunder foi o mais próximo possível no mundo real de um confronto entre dois Cavaleiros de Ouro (do desenho "Cavaleiros do Zodíaco", é preciso avisar às novas gerações), em que duelos entre lutadores poderosos durariam mil dias e mil noites (curiosamente no desenho a maioria das lutas só levava uns minutinhos e uns 90 litros de sangue). Foi uma batalha épica com 3 prorrogações em que ambos os times foram levados à exaustão total. Para se ter uma ideia, pelo Grizzlies o Zach Randolph jogou 56 minutos e Marc Gasol jogou 57, enquanto pelo Thunder o Durant jogou quase 57 minutos e Westbrook jogou 51. É quase uma hora inteira e ininterrupta de basquete para esses jogadores, o que é especialmente surreal se você pensar que um deles é um baita gordinho. Jogos com três prorrogações são sempre aberrações e dedam alguns fatos: para chegar nesse ponto não é necessário apenas que os times sejam parelhos, mas também que eles tenham muitos altos e baixos. Se um dos times fosse capaz de manter a superioridade conquistada em alguns momentos do jogo, teria vencido no tempo normal, sem prorrogações. Os dois times tiveram grandes momentos na partida (o Grizzlies chegou a vencer por 18, o Thunder vencia por 10 no meio do quarto período), mas também tiveram momentos medonhos e expuseram todas as suas fragilidades. Em uma série normal, uma superioridade física ou tática momentânea poderia garantir a liderança sendo sustentada até o fim da partida, mas Grizzlies e Thunder não são muito afeitos da regularidade ou dos planos de jogo, especialmente na parte ofensiva. O resultado é uma montanha-russa divertidíssima que gerou 3 prorrogações e que arrancou preciosas horas de sono de todos nós (por aqui, ainda estou devendo ao meu cérebro as horas de sono roubadas pelo jogo e boto nisso a culpa por tudo que disser aqui sem o meu advogado). Ao fim do jogo e do atraso no sono causado nos dias seguintes, me sinto tão exausto quanto o Randolph gordinho e seus 56 minutos em quadra.

Durante o jogo, entretanto, estive muito acordado e fuzilei o dedo no print screen para analisar a jogada que o Grizzlies usou à exaustão em seus melhores momentos - e que foi completamente abandonada nos momentos mais cruciais da partida. Vamos então às imagens (que podem ser clicadas caso você queira ver gigante, em detalhes):


1. Acima podemos ver uma jogada simples de pick and roll. Mike Conley, marcado por Westbrook, leva a bola e recebe um corta-luz de Marc Gasol na linha de três pontos.


2. O marcador de Marc Gasol na jogada, Serge Ibaka, tenta impedir então a progressão do Mike Conley e entra na frente do armador. Se bem executada, essa troca de marcação impediria o passe de volta para Marc Gasol, mas veja como Conley tem bastante espaço para olhar o jogo enquanto Gasol se movimenta livremente rumo à cesta. (Veja também a mensagem do meu computador, avisando que eu posso apertar Esc para sair do modo tela cheia. Esc, a famosa tecla inútil que só serve quando vejo NBA.)


3. Conley faz o passe para Marc Gasol facilmente, que tem um corredor até o aro. A reação da defesa do Thunder é risível: James Harden abandona seu homem na zona morta para tentar cavar a mais idiota falta de ataque do planeta, dando espaço para o Gasol passar bem do seu lado; enquanto isso Kendrick Perkins não se atreve nem lascando a desgrudar do Zach Randolph, já que Gasol é bom passador e constantemente aciona seu parceiro de garrafão quando pressionado.

O que vemos nas três imagens acima é uma cesta simples para o Grizzlies. A jogada pode ser repetida com o corta luz sendo efetuado pelo Randolph, com a única diferença de que ele gosta de arremessar ao receber a bola tanto quanto gosta de bater para dentro. Se a marcação do Harden fosse melhorzinha, o Grizzlies ganharia então um arremesso da zona morta. Se o Perkins reagisse, um jogador de garrafão estaria livre embaixo do aro e provavelmente sofreria a falta ou conseguiria o rebote ofensivo. Não é à toa que Randolph cobrou 17 lances livres e teve 8 rebotes ofensivos, portanto.

Agora, vamos analisar o que acontece quando o Thunder finalmente coloca em prática o que aprendeu no primeiro jogo e defende direito esse maldito pick and roll:


1. Na imagem acima Marc Gasol acabou de fazer o corta-luz e abriu novamente para a cabeça do garrafão, mas dessa vez Ibaka conseguiu entrar na frente do Mike Conley lhe tirando o espaço, enquanto Russell Westbrook aperta o armador e bloqueia a linha de passe. Eles tentaram fazer isso na jogada anterior que vimos, mas dessa vez o armador do Grizzlies é verdadeiramente pressionado como deveria.


2. Com Mike Conley espremido na lateral, evitando um passe muito arriscado que precisaria ser alto demais para passar por cima da marcação, Ibaka tem tempo de usar sua velocidade e alcançar Gasol, entrando na frente da linha da bola. Mesmo se o passe tivesse sido feito por cima dos marcadores, Ibaka ainda assim teria tempo o bastante para alcançar Gasol na corrida porque o passe seria alto e ele é rápido pra burro. Então o pick and roll do Grizzlies está oficialmente bloqueado. Mas, opa, o que é aquela lua pequena com um pé lá dentro do garrafão? É o Zach Randolph conquistando posição perto da cesta! Agora Ibaka já está longe demais para ajudar na marcação do Randolph e James Harden ainda está focado no pick and roll, pensando no Marc Gasol. Conley teve então facilidade na sequência dessa jogada em colocar a bola nas mãos do Randolph, que apenas girou em cima do Perkins rumo à cesta. Ah, sim: era uma bola fácil, mas ele errou o arremesso. Funhé.

Então mesmo quando o pick and roll é muitíssimo bem marcado pelo Thunder, o Grizzlies ainda consegue colocar a bola no garrafão, que no fundo é a bola de segurança deles. Randolph e Gasol são maiores e mais fortes que o Thunder inteiro, cavam faltas, acertam lances livres com facilidade e pontuam na marra. Perkins é um bom defensor embaixo do aro, mas é péssimo tendo que correr atrás de jogadores de garrafão com arremesso de média distância. Por serem versáteis, Randolph e Gasol estão constantemente trocando de posição, gerando uma bagunça defensiva para o Thunder e um pesadelo para o Perkins.

Por isso, depois da derrota no primeiro jogo o Perkins chamou toda a equipe para a sua casa para comerem (coisa que nenhum pivô abre mão) e para que vissem juntos a gravação do jogo sem a equipe técnica, pausando em cada jogada para criticar o posicionamento um do outro. Genial, coisa de Celtics, de time vencedor, de elenco em que os jogadores não têm medo de reclamar e cobrar uns dos outros em busca da perfeição. Com isso, a defesa de pick and roll do Thunder melhorou muito e é preferível que o Randolph tenha que enfrentar o Perkins no mano-a-mano embaixo da cesta do que arremessar livre de média distância quantas bolas quiser. Mas a preocupação com parar a dupla de garrafão do Grizzlies é tanta que, associada à vontade do Westbrook de forçar o ritmo de jogo no ataque, estragou totalmente o posicionamento para os rebotes defensivos. Dá uma olhada nessa foto:


Vamos contar juntos, crinçada: são um, dois, três, quatro jogadores do Thunder na foto. Um deles contesta o arremesso, os outros três estão no garrafão para o rebote. Então adivinhem só o que aconteceu: o Zach Randolph, único de branco num raio de 1km, saiu com o rebote ofensivo. Foram ao todo 24 rebotes ofensivos para o Grizzlies, 10 do Marc Gasol e 8 do Randolph. A preocupação em pressionar os arremessos da dupla acaba deixando um dos dois livre para um rebote ou um tapinha. A preocupação em sair correndo para acompanhar o Westbrook também faz com que exista menos proteção nos rebotes. É uma combinação mortal e que permitiu que Randolph e Gasol dominassem o jogo mesmo sendo duramente marcados.

O que é de enlouquecer, entretanto, é que o Grizzlies não acionou sua dupla dominante em momentos essenciais da partida. Mike Conley forçou muitas bolas e até o seu reserva Greivis Vasquez (que é da escola Steve Nash de armadores que não pulam, e que esteve naquela polêmica em que o Grizzlies não queria lhe garantir o salário inteiro de novato e que portanto não treinou com a equipe antes da temporada) acertou arremessos fantásticos que foram completamente idiotas, impensados e passíveis de punição se o técnico tivesse bom senso. OJ Mayo, então, nem se fala. Forçou arremessos que fariam JR Smith corar de vergonha, mas acertou alguns que deixariam Ben Gordon orgulhoso. Foi capaz de tomar um toco em uma bola de 3 crucial e, depois de uma falha de arbitragem devolver a bola para o Grizzlies, arremessou de 3 de novo como se tivesse amnésia - mas aí acertou. O Grizzlies conseguiu empatar o jogo no quarto período e levou a partida a 3 prorrogações graças a alguns desses arremessos mágicos, mas que tal manter o padrão ofensivo, tentar o pick and roll e colocar a bola no garrafão ao invés de deixar um armador novato, o Tony Allen se achando o Kobe, e uns arremessadores loucos, tomarem as rédeas do jogo? O Grizzlies às vezes simplesmente sai do seu eixo, esquece quais são as bolas fáceis e coloca tudo a perder porque o ataque é mesmo fraco, desorganizado. Quando tentou voltar a jogar com seus pivôs, eles já haviam jogado 50 minutos e não conseguiam nem se mover. Randolph teve uma bola desviada das suas mãos no fim da terceira prorrogação e nem fingiu que iria tentar recuperar, apenas fez cara de quem queria ir para casa ver os Ursinhos Carinhosos. Gasol tomou um toco absurdo na mesma prorrogação porque deu um giro na velocidade do Ilgauskas, ou seja, como se estivesse debaixo da água. A questão física pesou demais porque, sem trocadilhos, Gasol e Randolph são mesmo pesados e não conseguem passar tanto tempo em quadra sofrendo porrada - fora que conseguir pegar tantos rebotes ofensivos assim cansa qualquer um, vai ver foi uma tática do Thunder para cansar os dois. "Vamos deixar eles fazerem o que quiserem e levar o jogo pra terceira prorrogação, lá não poderão nos deter!". Coisa de gênio maligno.

Da parte do Thunder, eles podem ser geniais quando acertam a marcação e rodam a bola no ataque. São geniais também simplesmente quando envolvem o Durant no jogo, especialmente isolando ele na cabeça do garrafão com um ou dois corta-luzes simples. Esse time cheio de role players, jogadores especialistas e dedicados, e defesa sufocante parece imbatível às vezes. Mas às vezes um dos maiores trunfos da equipe, que é o Russell Westbrook, não é o bastante para compensar um dos maiores problemas da equipe, que é o Russell Westbrook.

Avisei no preview dessa série que uma das questões fundamentais para a vitória do Grizzlies era deixar o Westbrook forçar o ritmo de jogo e cometer turnovers. Quanto mais ele desperdiçar a bola, mais o Grizzlies fica perto de uma final da NBA. Mas os problemas com o Westbrook vão além. Ele é tão bom, tão rápido, tão físico, seu arremesso de média distância (conquistado nos treinos com a seleção americana) tão mais eficiente do que antes, suas bolas de 3 pontos tão mais mortais do que já foram, que ele às vezes simplesmente esquece que tem companheiros em quadra. O Durant tem um dos melhores aproveitamentos da NBA em momentos decisivos dos jogos, mas o Westbrook quer ser herói e se agarra à bola. Na partida de três prorrogações, Durant foi ignorado em várias bolas decisivas ou então foi acionado tarde demais ou longe demais da cesta. O problema é que ninguém quer ver seu armador idiota decidindo o jogo quando ele é o Rafer Alston ou um jogador secundário semelhante, mas como convencer a jovem estrela Westbrook de que ele deve passar essa bola mais rápido e com mais frequência? O paradoxo parece sem saída: quando ataca a cesta e acerta seus arremessos, Westbrook é impossível de ser marcado pelo Grizzlies; mas quando força arremessos no final dos jogos permite que o Grizzlies acabe com a desvantagem de pontos, quando força a velocidade da equipe esquece de passar a bola, e quanto mais rápido corre mais perde a bola permitindo pontos fáceis para o Grizzlies.

No final da terceira prorrogação, Durant envolvido no ataque, Westbrook já satisfeito com seus 40 pontos e Randolph e Gasol cansados, a vitória era obviamente do Thunder. Mas o jogo poderia facilmente ter acabado antes disso graças às cagadas do armador e sua dificuldade de impor um padrão de jogo quando se é tão aleatório e impulsivo. O ataque do Thunder é estagnado, cheio de isolações, e isso é culpa especialmente da irregularidade do armador. Quando Westbrook mostra seu melhor e seu pior tantas vezes numa partida, oscilando de um para o outro, e o Grizzlies esquece suas jogadas principais na gaveta por uns tempos enquanto o Tony Allen força as infiltrações mais desastradas do mundo (ele ficou de castigo no banco por ter sido bastante responsável pelo sumiço da liderança de 18 pontos), podemos esperar mesmo muitas prorrogações. Com tanta instabilidade das duas partes, só podemos esperar equilíbrio - e torcer para que algum dos dois times, qualquer um, consiga vencer o cansaço e adquirir uma consistência para enfrentar o Dallas Mavericks. Que, nesse minuto, torce por oito mil prorrogações até que Zach Randolph caia no chão desidratado e abra com isso uma cratera do tamanho de Plutão. Fora o cansaço, o Mavs está assistindo aos baixos das duas equipes e está se preparando. Thunder e Grizzlies estão lascados, mas já não dá pra duvidar deles. Do Westbrook e do Tony Allen dá, mas do conjunto não, por favor. Já são dois times calejados.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Desastre anunciado

Pois é, foi daí que o Manu acertou o arremesso dele


Foi por pouco, por muito pouco. O Memphis Grizzlies estava a 1.7 segundo de eliminar o San Antonio Spurs, vencer sua primeira série de playoff na história, causar uma zebra do tamanho de um elefante (só pra ficar no mundo animal) e tudo isso, é sempre bom lembrar, sem o Rudy Gay! Ficou no quase porque o técnico Gregg Popovich resolveu colocar o trabalho de um ano inteiro nas mãos de um novato. Ele desenhou uma jogada para Gary Neal, que meteu a bola de três pontos que levou o jogo para a prorrogação e salvou o Spurs das férias indesejadas. Não que vocês não saibam disso tudo, devem ter visto o jogo ou visto o resumo hoje cedo, mas estou colocando tudo isso no papel (ou na tela) para ver se acredito. Alguém alguns meses atrás imaginaria que esse parágrafo pudesse ser escrito de maneira séria?

São muitas coisas estranhas acontecendo e a primeira a gente já alertou durante a temporada regular. Nesse post sobre o Spurs eu disse que eles estavam se parecendo mais com os times que estavam acostumados a vencer, ofensivos, velozes, baseados nas bolas de 3, do que com o "clássico" Spurs defensivo, pragmático e entediante. Acabaram o ano com o segundo melhor ataque da NBA e 11ª melhor defesa, números parecidos com o Phoenix Suns de alguns anos atrás que eles enjoaram de vencer. A fragilidade defensiva era ainda maior quando o Popovich, por falta de opção provavelmente, usava formações que favoreciam as bolas de três pontos ao invés do poder defensivo, foi o aproveitamento insano nas bolas de longe que fizeram o Matt Bonner ser mais usado que o Tiago Splitter durante todo o ano, por exemplo.

O discurso do Popovich e dos jogadores nunca mudou, eles sempre disseram que queriam voltar a ser um time defensivo, mas na prática não mudaram muita coisa, preferiram seguir com esse plano estranho que estava garantindo uma vitória atrás da outra na temporada regular. Eles falharam em perceber alguns sinais importantes, porém, como alguns jogos contra o Lakers e o próprio Grizzlies em que foram engolidos vivos pelos fortes garrafões das duas equipes. Claro que venceram jogos contra eles também, mas ficou bem claro que quando eles enfrentavam um garrafão alto e em boa forma, não sabiam como responder defensivamente e precisavam de dias inspirados nas bolas de três para vencer. E, como todo mundo no mundo do basquete sabe, nada é tão perigoso quanto depender dessas bolas de longa distância, é a bola mais irregular e imprevisível do basquete, uma temporada pode ir para o ralo em um dia ruim.

O Grizzlies provavelmente sabia disso. Perdeu alguns jogos bobos no final da temporada regular quando poderia avançar até a 6ª posição no Oeste e deu a impressão (que eles negam) de que estavam escolhendo enfrentar o Spurs. Verdade ou não a gente nunca vai saber, mas se foi intencional, foi inteligente. Na temporada regular eles fizeram jogo duro para o Spurs e têm as qualidades que mais os incomodam, a começar pela dupla de garrafão mais entrosada da NBA com Zach Randolph e Marc Gasol. Sim, o outro Gasol e o Andrew Bynum são do caralho e Serge Ibaka e Kendrick Perkins são a perfeita combinação na defesa, mas atualmente ninguém é páreo para o entrosamento da dupla do Memphis. Eles executam muitas jogadas um com o outro, ambos passam bem a bola e ainda são potências nos rebotes de ataque.

Como o Spurs usa muito o Tim Duncan no ataque, principalmente fazendo a maioria dos bloqueios e corta-luzes dos pick-and-rolls, que são responsáveis por 27% das ações ofensivas do Spurs (disparado a jogada mais usada por eles), eles liberaram o TD do fardo físico e perigoso, pelas faltas, que é marcar o Zach Randolph. Isso resultou num banho do Z-Bo para cima do Antonio McDyess e, principalmente, do Matt Bonner. Aliás, parece uma ordem bem clara do técnico Lionel Hollins para os seus jogadores: se Bonner está em quadra a jogada é simplesmente acionar quem está sendo marcado por ele, sucesso garantido.

Isso obriga Popovich a usar menos o Bonner e no lugar dele não pode colocar uma escalação mais baixa, que também seria explorada do mesmo jeito pelo garrafão forte do Grizzlies, então tem que colocar o McDyess e, nos últimos jogos, Tiago Splitter. O DeJuan Blair, titular durante muito tempo, é solenemente ignorado e não me pergunte o motivo. Todas essas opções, mesmo quando McDyess e Splitter jogam decentemente, não são o bastante para vencer a disputa no garrafão e ainda tiram as bolas de três do Spurs. O Spurs não tem opção, é na defesa que o Grizzlies está vencendo essa série.

O ótimo site NBA Playbook fez um post só para explicar como o Grizzlies está parando o ataque do time de Popovich. A principal estratégia está em limitar as bolas de três pontos ao mesmo tempo que não abrem um corredor para infiltrações. Na jogada que ele dá de exemplo abaixo, a ajuda fecha a infiltração de Parker mas sem que ele tenha espaço para tocar para Bonner nos três pontos, resta um arremesso longo de dois para Tim Duncan. E nem é da posição onde ele pode usar a tabelinha.



Vale reforçar também o empenho com que todo mundo no Grizzlies está correndo em toda santa posse de bola para cobrir as opções mais óbvias de passe depois de cada corta que o Spurs faz. É um trabalho digno de defesa do Celtics. Em muitas vezes eles sabem onde dobrar, onde ajudar e o cara que fica livre é sempre o mais distante da bola, obrigando o Spurs a passes complicados, longos ou infiltrações em um garrafão congestionado. Outra decisão importante está em tirar o arremesso da zona morta; se deixam alguém livre de três, não é lá. É o arremesso favorito do Spurs, tentavam 8 desses por jogo na temporada regular, e agora estão tentando só metade e sempre marcados. A bola na zona morta era a válvula de escape deles e não está funcionando. Para compensar o Spurs precisa  passar mais a bola no perímetro e forçar jogadas individuais, deixando aparecer ainda mais as qualidades defensivas de Shane Battier, Tony Allen e as mãos rápidas do Mike Conley para interceptar passes. É simplesmente um massacre! Pode-se dizer que o Lionel Hollins era um stalker do Spurs e sabe todas as qualidades, defeitos, desejos, medos e comida favorita do seu adversário.

Se essa série já não está morta e enterrada é porque o Spurs tem a mão certeira de Gary Neal e o Grizzlies também tem os seus defeitos. Quando Zach Randolph está no banco eles não tem alguém que pode criar o seu próprio arremesso do nada diante de uma defesa mais forte, Tony Allen é um dos piores arremessadores da NBA e OJ Mayo compromete na defesa. E embora o Randolph esteja dando conta do recado na hora de arremessar bolas decisivas, às vezes é difícil passar a bola lá pra dentro do garrafão, nessas horas faz falta o Rudy Gay para receber a bola mais longe da cesta e criar alguma jogada.

Mas defeitos a parte, o Grizzlies é o melhor time da série e quem dominou todos os jogos. Se tiverem a cabeça no lugar e não ficarem lamentando a classificação que escorregou por entre os dedos devem fechar a série já na próxima partida. Não dá pra cravar isso porque séries longas de playoff são interessantes pelos ajustes que cada técnico faz para resolver os problemas, mas o negócio é que tenho a pequena impressão de que o Popovich não sabe mais o que tentar para sair das armadilhas do Grizzlies.

Abaixo, o arremesso insano em uma jogada desastrada do Manu Ginobili, que cortou a diferença para um ponto, e depois a bola de três salvadora do Gary Neal. E vale uma nota para algo impressionante: Foi dito pelo próprio elenco do Spurs depois do jogo que a jogada final foi mesmo desenhada para o Neal, não era segunda ou terceira opção. O novato disse que a sensação foi ótima de ouvir as instruções e ver que ninguém nem por um segundo questionou a decisão do treinador de colocar toda a temporada nas mãos de um novato que nem foi draftado. Sangue frio e obediência ao treinador, talvez o Spurs ainda tenha um pouco do velho Spurs escondido lá no fundo.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Preview 2010/11 - Memphis Grizzlies

Leveza, arte e beleza


Objetivo máximo: Ir para os playoffs
Não seria estranho: Repetir a campanha do ano passado e acabar em 10º no Oeste
Desastre: Voltar a ser um dos piores times da conferência

Forças: Time que mais pega rebotes de ataque na NBA, time titular muito bem entrosado
Fraquezas: Não tem banco de reservas e Mike Conley passa pouca confiança na armação

Elenco: Amém.

Memphis Grizzlies
TitularesReservasResto
PGMike ConleyGreivis Vasquez*Acie Law
SGOJ MayoTony AllenXavier Henry*
SFRudy GaySam YoungDeMarre Carroll
PFZach RandolphDarrell Arthur
CMarc GasolHasheem ThabeetHamed Haddadi



Técnico: Lionel Hollins

Lionel Hollins é mais um daqueles caras que fez carreira como assistente técnico e agora tenta a sorte como treinador principal. O que diferencia ele da maioria dos outros assistentes é que não são muitos os que já trabalharam com tanta gente boa como Hollins. O atual técnico do Grizzlies era assistente de Cotton Fitzsimmons quando ele treinava o Suns nos anos 90 e eles alcançaram a final da NBA contra o Bulls, também foi assistente de Larry Brown no Pistons em 2005 (quando Brown foi eleito o técnico do ano), de Lenny Wilkens, Chuck Daly e Paul Silas. Ele teve muito tempo pra aprender, muitos professores e vários estilos diferentes.

Antes de entrar no mundo dos técnicos ele ainda foi um bom jogador. Escolhido na sexta posição do draft de 1975 pelo Blazers, foi campeão pelo time em 77, ano em que também foi para o All-Star Game. No ano seguinte foi eleito para o primeiro time de defesa da liga e aos poucos foi caindo de produção, mas fez o bastante para ter seu número 14 aposentado pelo time de Portland.

Como treinador principal tem pouquíssima experiência. Treinou duas vezes o Grizzlies, uma vez em Vancouver e outra já em Memphis, apenas como interino em 2000 e 2004. Ganhou finalmente uma chance de ser efetivado em janeiro de 2009. Ele pegou um time esquecido, fraco, que os Free Agents ignoravam quando tinham a chance de mudar de franquia e montou uma equipe de verdade. Já naquela temporada ele conseguiu um feito que seria comum em muitos times, mas que o Grizzlies não conseguia fazer há 3 anos: acabar um mês com mais vitórias do que derrotas! Em abril de 2009 ele fechou a temporada com 5 vitórias e 4 derrotas. É como um nerd fracassado conseguir um beijo na bochecha da garota que ama há anos.

No ano passado conseguiu o feito de ser o primeiro técnico da história da NBA a fazer o Zach Randolph se esforçar em uma quadra de basquete. Todo mundo sabia do talento dele, mas sabia também que ele não dava a mínima pra nada, imaginava-se que ele faria até menos que o normal por estar jogando em um time ruim e nos confins da liga. Mas a filosofia de Hollins do jogo em equipe, da defesa bem treinada e dos muitos passes no ataque contagiou o nosso gordinho favorito e ele entrou no jogo, rendendo até um convite para participar do All-Star Game. Lionel Hollins merecia entrar para o Hall da Fama do basquete só por isso!

O momento de fama de Hollins no ano passado foi quando recebeu uma falta técnica bizarra quando interceptou um passe de um torcedor para Kenyon Martin. Sério.



Apesar do pouco tempo como treinador ele já é bem visto no mundo da NBA e deve ter uma boa carreira pela frente. Se desistir logo da idéia de OJ Mayo como armador principal deve ter mais um bom ano pela frente. Vale ressaltar que o ex-assistente tem nomes conhecidos na sua comissão atual: Henry Bibby, pai de Mike Bibby e a única pessoa a vencer títulos da NBA, CBA e NCAA, e Damon Stoudamire, ex-jogador que se aposentou em 2008. Stoudamire foi um baita armador nos seus anos de Toronto Raptors, mas tem dois recordes interessantes nos seus tempos de Jail Blazers: 54 pontos em um jogo, recorde da história do Blazers, e 21 bolas de três arremessadas num jogo, recorde da história da NBA! Ele só acertou 5 desses arremessos, mas quem liga pra isso?
.....

O Grizzlies foi um dos times que eu mais assisti na temporada passada. Não só tiveram muitos jogos apertados e bons como também era um prazer ver um time funcionando tão bem e com jogadores tão malhados ao longo de suas curtas carreiras: OJ Mayo chegou na NBA com fama de moleque sem cabeça pro jogo, um talento absurdo mas sem concentração, disciplina e que nunca conseguiria jogar ao lado de Rudy Gay pelo seu ego enorme. Mike Conley foi visto como um fracasso completo depois da sua primeira temporada, Zach Randolph a gente nem precisa falar nada e Marc Gasol era a versão mais feia e piorada do seu irmão, que as pessoas só conheciam por estar envolvida naquela troca famosa com o Lakers que transformou a NBA.

Pois OJ Mayo mostrou na temporada passada que é o oposto do que falavam: Não só tem muita concentração e é um jogador exemplar e fácil de lidar como funciona muito bem ao lado do Rudy. E quis contrariar tanto os seus críticos que ainda não se tornou a estrela espetacular que tanta gente previa. Mike Conley talvez nunca faça jus à 4ª escolha no draft que recebeu em 2007, mas é bom o bastante para ser titular na NBA e quebrou muitas vezes o galho do time como único arremessador de três do elenco. Zach Randolph virou um All-Star e Marc Gasol tem jogado tão bem que hoje aquela troca nem parece tão absurda.

Repito, trocar Pau Gasol pelo o que chamamos, na época, de pacote de bolacha, não foi ruim. Com a troca eles conseguiram o atual pivô da equipe, Marc Gasol, e com as escolhas de draft conseguiram o melhor reserva do elenco, Darrell Arthur e o atual reserva da armação, o novato Greivis Vásquez. E foi com o salário expirante do Kwame Brown que eles puderam negociar com o Clippers e conseguir Zach Randolph. Pau Gasol por Arthur, Marc e Randolph? Eu toparia. Claro que nem tudo isso poderia ser previsto na época e foi um risco absurdo que eles correram de perder sua melhor estrela por nada, mas temos que admitir que, mesmo sem querer, fez bem para a franquia.

Assistir ao crescimento desse time condenado foi bem divertido, mas é difícil acreditar que eles estejam preparados para ir além disso. Durante a offseason eles foram notícia três vezes:

1- Contrataram Tony Allen, bom defensor de perímetro (necessidade gritante do time), mas que joga na mesma posição de OJ Mayo e do recém-draftado Xavier Henry.

2- Demoraram meses e meses para assinar o tal novato por uma briguinha contratual imbecil, o que deixou o garoto fora das ligas de verão. (E, por curiosidade, no fim das contas o Grizzlies deu os 120% para Henry depois que o agente Arn Tellem disse que se fosse preciso pagaria ele mesmo, do seu bolso, os 20% que o Grizz não queria dar)

3- Deram um contrato de 80 milhões de doletas para o Rudy Gay, o máximo que ele poderia receber, ao invés de esperar uma oferta de outro time. Como Gay era um Free Agent Restrito, era só igualar a tal oferta e manter o jogador.

Em resumo eles gastaram seu dinheiro mal, mesmo tendo sido em bons jogadores de que eles precisavam. Perder Gay era impensável e as novas aquisições vão ser úteis para o Grizzlies ter finalmente um banco de reserva, já que eles tinham talvez o pior de todos no ano passado. Mas só isso? No sempre difícil Oeste é difícil crer que isso será o bastante. Dos oito classificados para os playoffs do ano passado só o Suns teve mudanças significativas no elenco a ponto de talvez ter uma queda, e eles ainda tem que lidar com o crescimento de Sacramento Kings, Houston Rockets e talvez até do LA Clippers. O time deve continuar bom, mas só um milagre faz o Grizzlies ir além do que já foram na temporada passada.

A maior esperança de um milagre está nas mãos de Mike Conley, o jogador que menos inspira confiança em Lionel Hollins e na direção da equipe. Como acontece com a maioria dos armadores, quando ele joga bem o time inteiro sobe de nível. Mas Conley é bem irregular e defende mal, obrigando o Grizzlies a deixá-lo no banco nos momentos decisivos do jogo. Sem ele a armação fica toda quebrada na mão de Mayo ou Gay, o time perde seu único arremessador de três e vários jogos já escapuliram no final por causa disso.

Há a esperança de que o outro novato além de Henry, Greivis Vásquez, possa ser uma solução. Ele era bom arremessador no basquete universitário. Sua defesa, no entanto, é questionada e não pudemos vê-lo em ação ainda porque está machucado. Ele pode até ser bom, mas não fez nada que justifique colocar expectativas grandes nas suas costas.

Ver todos aqueles jogadores questionados se juntarem para montar um time foi especial e raro, mas é bom não se iludir muito com a animação do ano passado, o time não mudou tanto assim e playoffs só seria uma possibilidade realista se eles estivessem no Leste.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Feitos um para o outro

Iverson, forte como o Grizzlies

Tem coisas que a gente acha que nunca vai ver na vida mas acaba vendo. Ronaldo no Corinthians, Once Caldas campeão da Libertadores, o Dado Dolabella milionário porque o povo escolheu e até o Allen Iverson no Grizzlies.

Está finalmente confirmada a contratação do armador pelo time de Memphis. Contrato de apenas um ano no valor de 3,5 milhões de dólares, 17 milhões a menos do que recebeu no ano passado. Deve ser a única vez que um cara desse nível aceitou tamanho corte de salário para jogar em um time pior do que o que jogava antes! Geralmente as estrelas ganham menos pela chance de ganhar um título.

Há alguns anos o Iverson era jogador garantido no All-Star Game, um dos melhores jogadores do planeta e com vaga assegurada no Hall da Fama quando encerrasse a carreira. Para muitos foi o melhor jogador da história da NBA entre os com estatura comum para um ser humano. Foi o ídolo de uma geração por ser o mais humano entre os gigantes, qualquer um podia se identificar com ele.

Mas em um ano tudo desabou. A simples troca do Iverson de Denver para Detroit colocou em evidência todos os seus defeitos. O time que ele deixou melhorou absurdamente com a sua saída e o que ele chegou, que era sucesso há anos, foi um fracasso. Iverson então era um cara que estragava a química das equipes, era fominha, estava velho, não podia jogar como armador principal e prendia a bola demais para um ala-armador. Convencidos de tudo isso, nenhum time o quis.

Com o risco de ficar sem emprego, o quinto maior cestinha em média da história da NBA aceitou essa proposta mixuruca do pior e mais pobre time da NBA. Esse é o momento em que qualquer um que nunca gostou do Iverson dá aquela olhar de dó pra ele e pensa "Nem eu desejava isso pra você".

Não vou repetir toda minha opinião sobre o Iverson, que já disse aqui. Mas para quem está com preguiça de clicar no link, o resumo é que o A.I. não desaprendeu a jogar, ainda tinha o mesmo talento na temporada passada, mas suas características de jogo são muito específicas, não se encaixam em qualquer time. Mas não importa que eu ache isso, o que importa é que os caras que mandam na NBA acham que ele estraga equipes, simples assim. E importa saber se ele, já com 34 anos, vai conseguir fazer estes caras mudarem de idéia.

Essa é, portanto, uma temporada decisiva para o Iverson.
Podemos compará-la a uma temporada de novato. Quando um jogador entra na NBA ele tem uma imagem que carrega de sua carreira internacional ou de faculdade e ela o faz ser draftado em certa posição do draft. Depois tudo se apaga e começa do zero. O que o cara fizer na sua primeira temporada entre os profissionais é o que vale. Se foi um sucesso mesmo sendo lixo em 4 anos de faculdade, então o cara é um achado de um olheiro genial, se é um fracasso depois de ter sido tetra-campeão universitário, então o cara é um lixo que tinha um bom técnico.

Iverson é o laranja podre da NBA e tem um ano para mudar isso. Se der errado como deu no Pistons, esta pode ser a sua última temporada como jogador da NBA. Se ele tiver sucesso, liderar o jovem Grizzlies a grandes vitórias, aí será um festival de matérias dizendo que Iverson deu uma resposta aos críticos e no ano que vem ele estará em algum time bom, recebendo um salário altíssimo de novo. O desafio até chegar nisso é gigantesco.

Iverson sempre foi criticado por não ser um bom líder e não comandar bem jovens companheiros, e ele agora é o cara mais experiente de um time horrível e cheio de pivetes. O jogador mais experiente depois dele é Zach Randolph, talvez o único cara na NBA com fama de ser mais fominha que o A.I.

Sei que o Iverson já jogou partidas históricas de playoff e até partidas de finais, mas talvez esse seja o maior desafio da sua carreira até agora. É uma luta contra si mesmo para mudar o seu estilo de jogo ou uma luta com os outros para provar que o antigo estilo ainda pode render bons frutos. Não sei o que ele vai escolher mas será dificílimo de qualquer jeito.

Vamos ver pelo outro lado agora, se foi difícil para o Iverson, será que foi também para o Grizzlies tomar essa decisão? Se nenhum time queria o risco de ter o Iverson, por que o Grizzlies topou? Até porque seu melhor jogador na temporada passada foi justamente o OJ Mayo, que joga na posição do A.I.

Ok, mas pensem bem, o que o Grizzlies tem a perder?

Eles são o pior time da NBA, o mais pobre. Não tem audiência na TV, as camisetas não vendem e o ginásio está sempre vazio. Todo ano na época do draft tem um monte de pirralho sem moral dizendo que querem ir pra qualquer lugar menos pro Grizzlies. Já existem boatos desde a apresentação de cada um deles que Marc Gasol, Mayo e Rudy Gay vão dar o fora do time assim que virarem Free Agents, tamanha a falta de atenção e de perspectiva de sucesso no Grizzlies.

Com esse pesadelo todo em vista, onde está o mal negócio em ter um dos maiores ídolos da última década no time? Ele vai fazer os ginásios encherem, vai ser a atração da cidade, vai vender camisetas e pode até atrair um ou outro joguinho na TV. Será até esquisito ver um jogo do Grizzlies no League Pass sem ouvir o eco da bola batendo no chão ou os gritos dos jogadores!

Além disso, tem toda essa situação do Iverson, que é muito delicada. Se ele tem alguma esperança de continuar com uma carreira na NBA não vai faltar dedicação e esforço para que tudo dê certo. Ele até já disse que pretende mostrar para a pirralhada que é importante treinar. Treinar! Practice! Isso não é garantia de resultado nenhum, mas é um bom começo.

Pensando na parte tática, a coisa fica menos bonita. Mike Conley, armador principal do time, finalmente começou a deslanchar na segunda metade da temporada passada e seria terrível interromper esse desenvolvimento jogando o garoto pro banco.

E difícil imaginar Mayo como um reserva depois de ser o melhor jogador do time na temporada passada e mais difícil ainda imaginar o Iverson chegando lá pra ser reserva depois de toda polêmica que o assunto deu na briga dele com o Rip Hamilton pela vaga de titular em Detroit.

Desses três que não vemos como reservas, um terá que ser. Se for o Conley o Iverson vira armador titular, posição onde ele não rendeu nada bem no Sixers e no Nuggets. Se for o Mayo é capaz do pivete começar a pedir pra ser trocado logo de cara. E finalmente tem a última opção que é a que eu faria, Iverson na reserva.

E faria sem pensar duas vezes. Em um texto um tempo atrás, já disse que a característica principal daquele Sixers em que o Iverson brilhou e foi até as finais era a boa defesa, o time equilibrado e o ataque todinho na mão do Iverson. No Grizzlies ele pode vir do banco junto com caras como o Darrell Arthur e o Hasheem Thabeet e concentrar o ataque todo em suas mãos.

Isso deixaria o Grizzlies desenvolver bem os seus jogadores mais jovens e eles ainda não ficariam completamente na mão na hora de usar o banco de reservas. Acho que é uma solução bem básica e que pode ser colocada em prática logo no começo da temporada. Ficaremos atento (olha o que o Iverson faz, nos deixa atentos ao Grizzlies!) em como o técnico Lionel Hollins arma o time desde a pré-temporada.

Com o Iverson por lá, o Grizzlies não fica devendo nada a ninguém no quesito talento. Tem muitos elencos melhores por aí, óbvio, mas olhando friamente são caras bons em todas as posições! Conley, Mayo, Gay, Randolph, Gasol. É talento o bastante pra engrossar contra qualquer equipe. Só que são caras bons que não conseguem transformar esse talento individual em um time e, logo, em vitórias.

É, pensando desse jeito, Iverson e Grizzlies foram feitos um para o outro.

terça-feira, 10 de março de 2009

Chances no Oeste

Kyle Lowry é meio desconhecido, mas o Nowitzki já ouviu falar


Tem um certo blogueiro por aí, que torce para um time aí, que por acaso está em terceiro lugar na Conferência Oeste, que não vai conseguir não escrever a respeito. Ao vencer o Nuggets na noite de ontem, o Houston Rockets manteve a terceira colocação e, ao mesmo tempo, evitou uma bagunça considerável na tabela.

O time de Denver mantinha o sétimo lugar no Oeste mas, se saísse vitorioso da partida de ontem contra o Houston, teria empatado na terceira colocação, ambos os times com campanhas idênticas nos quesitos vitórias e derrotas. Isso é um bocado retardado: a diferença entre o terceiro e o sétimo colocado ser apenas um simples confronto direto mostra o nível de competição que teremos na definição de cada vaga. A temporada passada apareceu constantemente na mídia sendo anunciada como "a mais disputada de todos os tempos", graças à Conferência Oeste com 10 times capazes de pegar uma vaga e com chances de abocanhar mando de quadra.

Nessa temporada não há a mesma propaganda, talvez tenhamos coisas menos nobres como "a temporada com mais contusões de todos os tempos" ou "a temporada com menos jogos do Marbury em todos os tempos", o que certamente não tem o mesmo apelo e não vai ajudar a enfiar dinheiro nas orelhas do David Stern. Apenas oito times têm chances reais de ir para os playoffs pelo Oeste dessa vez, a não ser que você seja a mãe do Nash e realmente acredite que eles vão conseguir chegar lá. Admiro a volta ao estilo "corra pela sua vida", o Shaq está jogando pra burro e o time melhorou muito, mas chegar aos playoffs já não é mais questão de mérito do próprio Suns. Alguém tem que despencar lá de cima da tabela para abrir uma vaga e nenhum time parece em condições de começar a feder de uma hora para outra (principalmente porque o Marbury foi parar num time do Leste). O Blazers já provou que tem maturidade o bastante para manter um jogo consistente, o Nuggets com o Billups estranhamente sabe o que faz em quadra, e até o Mavs parece estar se esforçando depois do time inteiro ter tomado sermão do dono Mark Cuban, que colocou seus empregos a perigo. Difícil achar que alguma dessas equipes vai ter um piripaque.

Então, se você estudou matemática na primeira série e aprendeu frações usando pedaços de pizza, sabe muito bem que oito vagas para os playoffs e oito times lutando por elas vai dar mais ou menos, arredondando pra cima, uma vaga para cada time. Ou seja, o clima de derramar sangue pelos playoffs já era mesmo, mas a definição de quem vai pegar cada vaga está prestes a atingir níveis épicos: qualquer time pode acabar em qualquer posição. Menos o Lakers, disparado lá no topo, mas eles não têm graça mesmo.

Atrás do meu Houston, em terceiro lugar, Jazz e Blazers têm duas vitórias a menos - mas com dois jogos disputados a menos. O Hornets vem logo atrás, com três vitórias a menos e três jogos disputados a menos. O Spurs, segundo colocado, tem três derrotas a menos que o Houston - mas com três jogos a menos também. Denver e Mavs também estão encostadinhos, e basta uma sequência de vitórias para uns e uma sequência de derrotas para outros para termos sete times perfeitamente empatados na tabela, o que seria muito engraçado (embora pouco provável) e algum astrólogo por aí diria que é um alinhamento similar ao de Marte com Mercúrio e que os espíritos menos evoluídos vão, por isso, ser transferidos para o Hercólobus, o temível planeta vermelho.

Gostaria de me vangloriar do Houston estar na terceira colocação, tendo vencido 11 das últimas 13 partidas (e 9 das últimas 11 sem o Rafer Alston, que foi tarde!), mas a verdade é que essa posição não deve durar na bagunça do Oeste. Qualquer colocação vai dar mais ou menos na mesma (tirando o oitavo colocado, que vai pegar o Lakers e se lascar, a não ser que seja o Blazers, porque eles chutam o traseiro do Kobe e seus amiguinhos). Mas para o Houston, é essencial garantir um tipo específico de posição: uma que não enfrente o Utah Jazz.

O Denis falou de como o Jazz é realmente uma potência no Oeste e o time que joga mais bonito na NBA, mas além disso eles são simplesmente especialistas em chutar o traseiro do meu time. Das duas derrotas nos últimos 13 jogos, uma veio para o Bulls numa moscada bonita, e a outra veio para o Jazz, numa partida comum com a qual já estou mais do que acostumado. Eliminado duas vezes seguidas pelo time de Utah nos playoffs, as duas vezes mesmo tendo mando de quadra, o Houston é obviamente incapaz de descobrir o que fazer contra eles.

O Aaron Brooks está destruindo na armação do Houston, fazendo trocentos pontos e batendo pra dentro a torto e a direito, muitas vezes querendo ser a estrelinha assim como o Alston fazia de vez em quando, mas os resultados são mais positivos e ele está muito mais sob controle graças a um trunfo do Rockets: o armador Kyle Lowry. Ele pode não ser genial, pode não ter muito talento, mas mesmo assim era difícil mantê-lo longe do time titular no Grizzlies. O Mike Conley era o armador do futuro naquela equipe, mas como arrancar o Lowry da vaga se seu jogo era mais constante, mais sólido, mais eficiente? Ele é o armador com o qual eu sempre sonhei: bom o bastante para controlar o ritmo do jogo, ruim o bastante para não achar que o time é dele. Sua falta de talento é sua melhor qualidade nesse elenco, e seu jogo constante e mentalidade de trabalhar para a equipe lhe rendem assistências a rodo sempre que lhe são dados os minutos adequados. É com ele em quadra quando a coisa aperta que eu vejo meu Houston indo longe nos playoffs (com ele em quadra e com o T-Mac no banco, flutuando num pote de formol), mas há algo importante sobre o Lowry: ele não pode marcar o Deron Williams. O Yao Ming não pode marcar o Okur. Não há uma estrela no time que o Artest pudesse marcar, e não creio que ele se saísse muito bem contra o Boozer. Ou seja, eu preferia pegar o Lakers. Juro mesmo.

Portanto, não deixem a falta de barulho na mídia enganar: essa temporada pode ser tão ou mais disputada do que a anterior, qualquer um dos oito times pode terminar em qualquer colocação, e não tirem os olhos do meu Houston Rockets, que sofreu com tantas contusões, é sempre tão desconsiderado, tão ridicularizado, e tem no Kyle Lowry as chances de chutar todos os traseiros dessa Conferência. Menos o do Jazz. Afinal, não se pode ter tudo.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Levado a sério

Carmelo não pode segurar Marc Gasol: ele
come ônibus escolares toda manhã



O Grizzlies agora é um time de verdade, um time de respeito. Digo isso porque existe uma coisa fundamental que deve ser feita por todo e qualquer time que tem pretensões de ser levado a sério: se livrar do Antoine Walker.

O pior é que eu gosto bastante do cabeça-de-Lego. Em seus melhores momentos, era um jogador inteligente capaz de armar o jogo, encontrar seus companheiros livres, pegar rebotes e acertar arremessos do meio da quadra. Em seus piores momentos, era um débil mental que arremessaria a própria mãe, uma espécie de JR Smith, do Nuggets, só que incapaz de sair do chão. Ele até poderia ser bem aproveitado, como foi naquele Heat campeão ou no Dallas, quando vinha do banco de reservas, mas a verdade é que quando a coisa fica feia em qualquer equipe, o primeiro sinal de reconstrução, novos tempos e um futuro promissor a frente é justamente dar um jeito de se livrar do Walker. Foi o que aconteceu no Celtics quando eles resolveram começar do zero e apostar na molecada, com o Wolves quando desistiu dos tempos de Garnett, e agora com o Grizzlies que tenta deixar para trás seus tempos de Pau Gasol e derrotas metódicas na primeira rodada dos playoffs. Antoine Walker sequer entrou em quadra nessa temporada, mas sua presença no time, aquele medo irracional de que ele invada a quadra para arremessar uma toalha na cesta pelo puro hábito da coisa, impedia o crescimento da equipe. Agora que o Grizzlies conseguiu quatro vitórias consecutivas pela primeira vez em quase 3 anos, era melhor que a aura de Walker virasse farofa para não comprometer a evolução. Encheram o bolso do rapaz de dinheiro, acabaram com seu contrato e, agora sim, podemos falar de verdade sobre o time de Memphis.

Apesar da sequência de vitórias e de estar, assustadoramente, em décimo lugar no Oeste - na frente de times supostamente muito superiores, como Clippers, Warriors e Kings - fica difícil levar o Grizzlies a sério. Em parte por causa da presença de azul-bebê no uniforme, mas também graças à lendária troca de Pau Gasol para o Lakers, que não só permitiu ao time de Los Angeles ganhar o Oeste como também afundou de vez a equipe de Memphis no fundo do poço. Mas agora que a poeira abaixou um pouco, talvez seja hora de dar uma nova olhada na troca tão polêmica e ver o que saiu dela, afinal.

Na época, Pau Gasol havia perdido com o Grizzlies todos os jogos de playoffs que havia disputado. Foi mandado então, junto com uma escolha de segundo round, em troca de uma escolha de primeiro round no draft (que após umas mutretas virou o Darrel Arthur e mais uma escolha de segundo round), o contrato expirante do Kwame Brown, uma escolha de primeira rodada em 2010 e mais o Javaris Crittenton (que recentemente virou, junto com uma escolha de segunda rodada, a escolha de primeira rodada que o Grizzlies tinha perdido para o Wizards). Bem, como eu sei que a Mari Alexandre não entendeu nada, e ela tem um lindo par de... olhos... vou resumir direitinho para ela entender.

Em troca de Pau Gasol, o Grizzlies recebeu os novatos Darrel Arthur, Marc Gasol, e escolhas de draft na primeira rodada em 2009 e 2010 - sem falar em espaço na folha salarial, com o fim do contrato do Kwame Brown, que foi bem economizado até aqui, ao invés de ser gasto às pressas com qualquer jogadorzinho disponivel.

Lembro de ter gargalhado quando o chefão do Grizzlies disse que, na prática, Pau Gasol tinha sido trocado por três escolhas de draft, todas de primeira rodada. Mas o pior é que é verdade: Crittenton virou a escolha de 2009 e o Marc Gasol teria sido escolhido facilmente na primeira rodada do draft passado, foi apenas sorte do Lakers ter agarrado o moço na segunda rodada um ano antes. Embora eu ainda ache o espanhol um troglodita que engoliria uma mesa antes de ser obrigado a utilizar essas frescuras conhecidas como "talheres", não dá pra negar que sua produção em quadra vem sendo excelente. Do ponto de vista defensivo, ele é um bocado lento mas sem dúvidas é uma parede que se atira em todas as bolas, não tem medo do contato e possui um bom tempo de bola nos tocos. No ataque, é muito competente na hora de passar a bola, tem uma boa mira na linha de lances livres, mas é bastante grosso em todo o resto. No entanto, só digo isso porque não tenho medo de ser aloprado depois. É bem óbvio que Marc Gasol está pegando o jeito da coisa e em breve será uma força dos dois lados da quadra, embora sempre um pouco lento e largo demais - mas talvez seja só a impressão que ele dá porque comparo instintivamente com seu irmão Pau, magro, rápido e meio cagão. Por enquanto, Marc tem 11 pontos, 7 rebotes e 1 toco de médias por partida, o que é excelente para um novato tacado aos lobos e titular na maior parte dos jogos do Grizzlies até agora. Outro novato titular, Darrel Arthur, foi uma surpresa muito feliz (para não dizer que foi um "baita rabo"). Um boato sobre supostos problemas renais levaram Arthur a ser draftado apenas no final da primeira rodada, trocado para uns setenta times diferentes e caiu então no colo do Grizzlies. Mesmo com minutos limitados, tem mostrado um jogo refinadíssimo e um potencial infinito, maior cara de futura estrela.

Com Marc Gasol, Darrel Arthur e Rudy Gay, o núcleo da equipe é muito jovem e promissor. Mas é outra escolha de primeira rodada no draft passado que está fazendo barulho: OJ Mayo.

Muita gente criticou o Grizzlies, na época do draft, por ter se livrado do Mike Miller só para poder trocar a quinta escolha (Kevin Love) pela terceira (OJ Mayo). Pois parece que as trocas da equipe não são tão ruins quanto parecem à primeira vista, são como um vinho que precisa de um tempo para pegar sabor. Tá bom, as trocas têm mais cara de vinho barato, comprado no supermarcado, que precisam de um tempo para não feder tanto, mas ainda assim são melhores do que se pensava. O Kevin Love está tendo uma boa temporada lá no Wolves até, trazendo energia do banco de reservas, mas Mayo está colocando seu nome na briga pelo título de Calouro do Ano. Por enquanto, já é o cestinha entre os novatos, com 20.8 pontos por jogo. Para se fazer uma comparação, Derrick Rose está com 18 pontos, Carmelo Anthony teve 21 e LeBron James teve 20.9 em suas temporadas de estréia. Mesmo que não seja nem de longe tão completo quanto todos os nomes dessa lista, como pontuador OJ Mayo está entre os melhores. Passar a bola não é muito a praia dele e diz a lenda que quando a estrela do time, Rudy Gay, faz uma ou duas cagadas num jogo, Mayo simplesmente desiste de lhe passar a bola. Mesmo assim, ter um pontuador com essa habilidade é algo inestimável para qualquer equipe. Com o tempo, ele pode aprender a envolver mais seus companheiros, armar o jogo (ficar longe do Antoine Walker sempre ajuda nesse sentido). Há potencial, ali, para vermos uma espécie de Allen Iverson. Para alguns isso significa que ele fará seu time perder para sempre, mas essas são apenas pessoas amargas que deveriam ir lamber sabão.

A sequência de 4 vitórias do Grizzlies foi contra uns times capengas, tipo o Houston sem Artest nem T-Mac, e o time-outrora-conhecido-como-Sonics. Mas contra os times em condições mais respeitáveis, OJ Mayo foi fundamental: primeiro no duelo contra Derrick Rose e seu Bulls, depois na vitória mamata-iá-iá em cima do Miami Heat de Dwyane Wade. Nos melhores momentos da partida, que você pode ver aqui, dá pra perceber como o Mayo é simplesmente retardado e arremessa bolas que, em sã consciência, ninguém ousaria arremessar. Mas acontece que ele converte esses arremessos e esmaga os bagos do Dwyane Wade no processo.

Justiça seja feita, o Wade devolveu com um drible tão, tão seco, que o OJ Mayo caiu como um pino de boliche.



Sempre que um cara desafia os maiorais logo no primeiro ano e figura entre os cestinhas de toda a NBA, dá pra saber que ele vai ser especial (não no sentido Telethon, por favor). O único problema é a inexperiência, mas isso percorre o Grizzlies inteiro, com dois novatos titulares, uma estrela que está em seu terceiro ano, um banco recheado de pirralhos e um técnico que fez sua estréia na temporada passada. Justamente por isso não há qualquer sinal de regularidade, nem nas atuações e nem nas escalações da equipe. Para começar, há a armação: tem hora em que o Mike Conley é titular, tem hora em que ele é reserva e Kyle Lowry assume as rédeas. Na prática, o Conley tem mais potencial mas está demorando para produzir em quadra, e o Lowry tem reserva tatuado na testa mas produz muito mais quando começa o jogo em quadra. No garrafão a bagunça consegue ser ainda maior: o técnico Iavaroni tentou todas as combinações possíveis entre Marc Gasol, Darko Milicic e Darrel Arthur. Na maior parte das vezes, Gasol é o pivô e Arthur é o ala, mas as vitórias têm vindo com Darko e Arthur titulares e Gasol no banco. Aliás, como curiosidade, todas as vezes em que Darko e Lowry foram titulares juntos, o Grizzlies perdeu apenas uma vez e ganhou outras cinco. E eu que pensava que o Darko tinha sido amaldiçoado.

Nada mais natural num time jovem com vários jogadores inconsistentes do que um bilhão de formações diferentes, apenas com Rudy Gay e OJ Mayo como titulares absolutos. Mas em breve esse time terá que decidir qual será o garrafão titular e abraçar essa idéia. Pessoalmente, torço pro Darko. Acho o rapaz competente na defesa, veloz em quadra e, quando não fica brincando de arremessar do meio da quadra, pode ser bem útil no ataque. É hora de pararem de exigir dele a produção de uma segunda escolha de draft. Ele próprio deve parar de exigir isso de si mesmo e começar a compreender que ele pode ser apenas uma peça de apoio, importante para um time em reformulação, se ele controlar sua agressividade, intensidade e vontade de provar que pode dominar o jogo. Não são apenas camisetas rasgadas como se ele fosse virar o Hulk ou palavrões mais do que cabeludos, ele também acaba cometendo milhões de faltas em poucos minutos de jogo, segurando a bola demais no ataque e querendo mostrar seu talento de forma exagerada. Sou um otário, do tipo que acredita que o Richarlyson saía mesmo com aquela guria capa da Playboy, mas eu ainda acredito no Darko. Ele e Marc Gasol podem fazer um garrafão defensivamente impressionante num futuro próximo se ele souber contornar seus problemas. E o Grizzlies, com tanto talento e galgando posições no Oeste na miúda, sem ninguém perceber, pode ser a última chance dele antes que retorne inevitavelmente para a Europa, onde poderá dominar como deseja.

Com um punhado de trocas questionáveis, juventude, um técnico novo, dinheiro no cofre e potencial, o Grizzlies é um calderão cheio de ingredientes estranhos e só resta torcer para que o resultado seja bom daqui alguns anos. Talvez, se alguém tacar uma pitada de "tudo que há de bom" nessa mistura, saiam até as Meninas Superpoderosas. O Darko vai ser a Lindinha.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Contratando quem sobrar

"Hmm, sabe pular e levantar o braço. Contratado!"


Estou indignado. Toda a honra da NBA está maculada. Minha fé na humanidade está perdida. Tudo porque o Memphis Grizzlies mentiu bem na nossa cara.

Pouquíssimos times sobraram com espaço na folha salarial suficiente para fazer propostas para Andre Iguodala e Josh Smith, o que indicava que os dois jogadores acabariam ficando mesmo com suas equipes de antes. O Grizzlies, com várias verdinhas sobrando, simplesmente anunciou que não iria contratar mais ninguém. Foi um relato que me encheu de alegria porque pela primeira vez uma equipe não usou seu dinheiro como se fosse videogame: "ah, sobraram ainda $20, então compra umas cinco adagas." Parece que todo mundo na NBA tem horror a ficar com trocado no bolso e gasta todo o possível. Eu entendo que é meio complicado você ter um time que fede pra burro e dizer para seus fãs: "bem, nosso time é uma droga, tínhamos dinheiro para contratar reforços, mas preferimos não fazê-lo." Mas alguém precisa ter culhão para isso. Não é porque você tem grana e o Ricky Davis está disponível que você obrigatoriamente tem que contratá-lo. Depois o jeito é ficar desesperado choramingando e esperando contratos acabarem para poder assinar alguém que preste. Oras, se o Grizzlies achou que não havia ninguém disponível que pudesse se tornar uma peça fundamental na equipe, então é melhor guardar o dinheiro mesmo do que se arrepender do contrato depois. Guarda a grana, pensa melhor, e na temporada seguinte veja o que dá para fazer. Não é como se o time de Memphis fosse ganhar qualquer coisa na próxima temporada com os reforços disponíveis no mercado atualmente.

Mas eles não resistiram. Ignoraram o que haviam afirmado, quebraram sua promessa, cuspiram na cara dos fãs crédulos. Resolveram oferecer um contrato de 5 anos e 58 milhões de doletas para Josh Smith.

Agora, já que Smith é um Free Agent restrito, o Atlanta Hawks tem 7 dias para decidir se cobre ou não a oferta. O que é uma decisão deveras complicada, veja bem. O novo manda-chuva do Hawks, que eu não sei o nome mas que não vou procurar no Google porque o time Atlanta mal existe de verdade, resolveu renovar o contrato do técnico Mike Woodson. Diz a lenda que o titio Mike é odiado pelos jogadores e Josh Smith já deixou claro que se ele for o técnico, então o Josh não brinca. Como toda criança que é dona da bola, prometeu fazer bico, bater o pé e, finalmente, ir embora pra casa. Ainda assim, o Hawks ofereceu um contrato de 45 milhões para o ala. Primeiro porque o Josh Smith é bom, segundo porque ele enterra o tempo todo e torna o time vendável, terceiro porque todo time tem um fetichezinho por jogadores que se fazem de difícil. É o clássico "diz que não me quer que aí eu gamo mesmo", o que aliás parece verso de música de funk.

Josh Smith não aceitou os 45 milhões e agora tem um contrato consideravelmente mais gordo na mesa vindo de Memphis. Se o Hawks igualar, estará pagando mais do que queria por um jogador que estará assumidamente insatisfeito com o técnico. Se o Hawks deixar o Josh Smith ir embora, vai ser atacado pelos fãs e se arrepender profundamente se um dia ele se tornar mesmo a estrela que alguns acreditam que ele esteja prestes a se tornar. Ou seja, é a boa e velha vida na NBA: não há como acertar, todo dirigente está sempre fazendo merda.

Para o Grizzlies, apesar da mentira que me machucou porque sou um homem direito e que preza pelos bons costumes, só cutucando o nariz quando não estou em público, não deixa de ser um bom negócio. Se o Hawks cobrir a oferta, então essa novela mexicana digna da Talia com o Josh Smith termina logo de uma vez, o Josh ganha a grana que queria, vai pro time seguir a vida, e fica devendo uma para o empresário do garoto. Caso o Hawks não cubra a oferta, o Grizzlies ganha mais um jogador sensacional cheirando a talco e vestindo Pampers para compor o futuro elenco mais jovem e perdedor de toda a NBA. Ou seja, eles se tornam os sucessores espirituais do próprio Hawks de uns tempos atrás, antes de arrumarem o vovô Mike Bibby para introduzir o bingo e as boinas em Atlanta.

Mesmo assim, continuo achando que o melhor que o Grizzlies podia fazer era guardar a grana e pronto. Juntar um bando de jogadores aleatórios nunca dá certo, a não ser que você esteja montando um zoológico. Esse Grizzlies é novo demais e a maior parte dos jogadores nunca jogou junto. O armador deve ser Mike Conley, que ainda não teve reais oportunidades na NBA, ao lado do novato OJ Mayo, que acabou de chegar. O ala é Rudy Gay, a estrela do time mas que ainda não teve chances de mostrar que é capaz de levar um elenco nas costas. No garrafão, temos o fracasso-moderado Darko Milicic e a estrela européia Marc Gasol, que nunca colocou os pés numa quadra da NBA. A maioria dos jogadores nunca se viu e só devem saber os nomes uns dos outros lendo na camiseta. Será que faz sentido, portanto, gastar 58 milhões num jogador quando não se sabe qual é a identidade do time, quais suas deficiências, de que tipo de reforço ele precisa exatamente?

Contratar o primeiro desempregado que passar na frente é coisa do Clippers, e o Memphis Grizzlies não deveria seguir o exemplo se eles querem ser minimamente vencedores. O time fedido de Los Angeles continua seu estranho experimento social, juntando na mesma equipe as mais distintas personalidades, um bando de gente que não tem nada a ver um com o outro, um Big Brother Brasil em que - espero - ninguém vai posar pelado depois. Se não bastasse unir Baron Davis, Ricky Davis, Marcus Camby e Chris Kaman no mesmo barco, o Clippers acaba de assinar o armador Jason Williams. Eu já fui fã do moço nos seus tempos de Kings, mas ele é bastante descontrolado no ataque, arremessa sem muito peso na consciência e não consegue passar 15 minutos sem sofrer alguma contusão. De algum modo bizarro, isso faz dele uma escolha perfeita para compor o Los Angeles Clippers. A princípio, parecia que eles estavam contratando jogadores aleatoriamente, apenas gastando todo o dinheiro em quem estivesse disponível. Agora, já é possível notar o padrão: são jogadores que se machucam o tempo todo, vindos de times perdedores e incapazes de jogar coletivamente. Bem, cada um tem o fetiche que merece.

A preferência do Clippers ficou ainda mais óbvia quando eles ofereceram um contrato de um ano para o armador Shaun Livingston, cujo joelho havia arrebentado como fio de fone de ouvido paraguaio (crianças, nunca confiem na marca "Sonyc" ou nas pilhas "Durabell"). A lógica é simples: ele nunca ganhou nenhum jogo e tem saúde frágil? Então contrato nele! Mais bizarro que isso só o próprio Livingston que, depois de passar mais de uma temporada parado e com vários especialistas dizendo que ele nunca mais jogará basquete no mesmo nível de antes, acha que merece um contrato mais longo e portanto recusou a oferta do Clippers. Pensando bem, talvez ele esteja apenas fugindo do circo que está se formando em Los Angeles. Eu fugiria.

Até porque, num mundo em que todos os times parecem gastar até o último centavo em seja lá quem for o imbecil que estiver disponível, não há muitas dúvidas de que Shaun Livingston arrumará um contrato novo em algum lugar. Afinal de contas, se tudo mais falhar, sempre há a Europa para te arrumar um emprego. Não é o anãozinho Boykins que agora enche as orelhas com dinheiro europeu?