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quinta-feira, 28 de abril de 2011

Desastre anunciado

Pois é, foi daí que o Manu acertou o arremesso dele


Foi por pouco, por muito pouco. O Memphis Grizzlies estava a 1.7 segundo de eliminar o San Antonio Spurs, vencer sua primeira série de playoff na história, causar uma zebra do tamanho de um elefante (só pra ficar no mundo animal) e tudo isso, é sempre bom lembrar, sem o Rudy Gay! Ficou no quase porque o técnico Gregg Popovich resolveu colocar o trabalho de um ano inteiro nas mãos de um novato. Ele desenhou uma jogada para Gary Neal, que meteu a bola de três pontos que levou o jogo para a prorrogação e salvou o Spurs das férias indesejadas. Não que vocês não saibam disso tudo, devem ter visto o jogo ou visto o resumo hoje cedo, mas estou colocando tudo isso no papel (ou na tela) para ver se acredito. Alguém alguns meses atrás imaginaria que esse parágrafo pudesse ser escrito de maneira séria?

São muitas coisas estranhas acontecendo e a primeira a gente já alertou durante a temporada regular. Nesse post sobre o Spurs eu disse que eles estavam se parecendo mais com os times que estavam acostumados a vencer, ofensivos, velozes, baseados nas bolas de 3, do que com o "clássico" Spurs defensivo, pragmático e entediante. Acabaram o ano com o segundo melhor ataque da NBA e 11ª melhor defesa, números parecidos com o Phoenix Suns de alguns anos atrás que eles enjoaram de vencer. A fragilidade defensiva era ainda maior quando o Popovich, por falta de opção provavelmente, usava formações que favoreciam as bolas de três pontos ao invés do poder defensivo, foi o aproveitamento insano nas bolas de longe que fizeram o Matt Bonner ser mais usado que o Tiago Splitter durante todo o ano, por exemplo.

O discurso do Popovich e dos jogadores nunca mudou, eles sempre disseram que queriam voltar a ser um time defensivo, mas na prática não mudaram muita coisa, preferiram seguir com esse plano estranho que estava garantindo uma vitória atrás da outra na temporada regular. Eles falharam em perceber alguns sinais importantes, porém, como alguns jogos contra o Lakers e o próprio Grizzlies em que foram engolidos vivos pelos fortes garrafões das duas equipes. Claro que venceram jogos contra eles também, mas ficou bem claro que quando eles enfrentavam um garrafão alto e em boa forma, não sabiam como responder defensivamente e precisavam de dias inspirados nas bolas de três para vencer. E, como todo mundo no mundo do basquete sabe, nada é tão perigoso quanto depender dessas bolas de longa distância, é a bola mais irregular e imprevisível do basquete, uma temporada pode ir para o ralo em um dia ruim.

O Grizzlies provavelmente sabia disso. Perdeu alguns jogos bobos no final da temporada regular quando poderia avançar até a 6ª posição no Oeste e deu a impressão (que eles negam) de que estavam escolhendo enfrentar o Spurs. Verdade ou não a gente nunca vai saber, mas se foi intencional, foi inteligente. Na temporada regular eles fizeram jogo duro para o Spurs e têm as qualidades que mais os incomodam, a começar pela dupla de garrafão mais entrosada da NBA com Zach Randolph e Marc Gasol. Sim, o outro Gasol e o Andrew Bynum são do caralho e Serge Ibaka e Kendrick Perkins são a perfeita combinação na defesa, mas atualmente ninguém é páreo para o entrosamento da dupla do Memphis. Eles executam muitas jogadas um com o outro, ambos passam bem a bola e ainda são potências nos rebotes de ataque.

Como o Spurs usa muito o Tim Duncan no ataque, principalmente fazendo a maioria dos bloqueios e corta-luzes dos pick-and-rolls, que são responsáveis por 27% das ações ofensivas do Spurs (disparado a jogada mais usada por eles), eles liberaram o TD do fardo físico e perigoso, pelas faltas, que é marcar o Zach Randolph. Isso resultou num banho do Z-Bo para cima do Antonio McDyess e, principalmente, do Matt Bonner. Aliás, parece uma ordem bem clara do técnico Lionel Hollins para os seus jogadores: se Bonner está em quadra a jogada é simplesmente acionar quem está sendo marcado por ele, sucesso garantido.

Isso obriga Popovich a usar menos o Bonner e no lugar dele não pode colocar uma escalação mais baixa, que também seria explorada do mesmo jeito pelo garrafão forte do Grizzlies, então tem que colocar o McDyess e, nos últimos jogos, Tiago Splitter. O DeJuan Blair, titular durante muito tempo, é solenemente ignorado e não me pergunte o motivo. Todas essas opções, mesmo quando McDyess e Splitter jogam decentemente, não são o bastante para vencer a disputa no garrafão e ainda tiram as bolas de três do Spurs. O Spurs não tem opção, é na defesa que o Grizzlies está vencendo essa série.

O ótimo site NBA Playbook fez um post só para explicar como o Grizzlies está parando o ataque do time de Popovich. A principal estratégia está em limitar as bolas de três pontos ao mesmo tempo que não abrem um corredor para infiltrações. Na jogada que ele dá de exemplo abaixo, a ajuda fecha a infiltração de Parker mas sem que ele tenha espaço para tocar para Bonner nos três pontos, resta um arremesso longo de dois para Tim Duncan. E nem é da posição onde ele pode usar a tabelinha.



Vale reforçar também o empenho com que todo mundo no Grizzlies está correndo em toda santa posse de bola para cobrir as opções mais óbvias de passe depois de cada corta que o Spurs faz. É um trabalho digno de defesa do Celtics. Em muitas vezes eles sabem onde dobrar, onde ajudar e o cara que fica livre é sempre o mais distante da bola, obrigando o Spurs a passes complicados, longos ou infiltrações em um garrafão congestionado. Outra decisão importante está em tirar o arremesso da zona morta; se deixam alguém livre de três, não é lá. É o arremesso favorito do Spurs, tentavam 8 desses por jogo na temporada regular, e agora estão tentando só metade e sempre marcados. A bola na zona morta era a válvula de escape deles e não está funcionando. Para compensar o Spurs precisa  passar mais a bola no perímetro e forçar jogadas individuais, deixando aparecer ainda mais as qualidades defensivas de Shane Battier, Tony Allen e as mãos rápidas do Mike Conley para interceptar passes. É simplesmente um massacre! Pode-se dizer que o Lionel Hollins era um stalker do Spurs e sabe todas as qualidades, defeitos, desejos, medos e comida favorita do seu adversário.

Se essa série já não está morta e enterrada é porque o Spurs tem a mão certeira de Gary Neal e o Grizzlies também tem os seus defeitos. Quando Zach Randolph está no banco eles não tem alguém que pode criar o seu próprio arremesso do nada diante de uma defesa mais forte, Tony Allen é um dos piores arremessadores da NBA e OJ Mayo compromete na defesa. E embora o Randolph esteja dando conta do recado na hora de arremessar bolas decisivas, às vezes é difícil passar a bola lá pra dentro do garrafão, nessas horas faz falta o Rudy Gay para receber a bola mais longe da cesta e criar alguma jogada.

Mas defeitos a parte, o Grizzlies é o melhor time da série e quem dominou todos os jogos. Se tiverem a cabeça no lugar e não ficarem lamentando a classificação que escorregou por entre os dedos devem fechar a série já na próxima partida. Não dá pra cravar isso porque séries longas de playoff são interessantes pelos ajustes que cada técnico faz para resolver os problemas, mas o negócio é que tenho a pequena impressão de que o Popovich não sabe mais o que tentar para sair das armadilhas do Grizzlies.

Abaixo, o arremesso insano em uma jogada desastrada do Manu Ginobili, que cortou a diferença para um ponto, e depois a bola de três salvadora do Gary Neal. E vale uma nota para algo impressionante: Foi dito pelo próprio elenco do Spurs depois do jogo que a jogada final foi mesmo desenhada para o Neal, não era segunda ou terceira opção. O novato disse que a sensação foi ótima de ouvir as instruções e ver que ninguém nem por um segundo questionou a decisão do treinador de colocar toda a temporada nas mãos de um novato que nem foi draftado. Sangue frio e obediência ao treinador, talvez o Spurs ainda tenha um pouco do velho Spurs escondido lá no fundo.

sábado, 23 de abril de 2011

Reconstrução capenga

Falando sobre comida

Estamos acompanhando (eu, por entre o muco abundante da minha gripe) playoffs bastante disputados, com jogos interessantes e parelhos. Mas aquele clima de zebra foi embora bem rápido, os resultados não são mais surpreendentes e tudo está mais ou menos dentro do esperado. O Lakers perdeu um jogo mas apenas em atuação épica de Chris Paul, vencendo o segundo mesmo com uma das piores partidas conjuntas de Kobe e Pau Gasol de todos os tempos, e vencendo ontem fora de casa na maior mamata. O Pacers, que deu sufoco no Bulls em todas as partidas até agora, perdeu 3 jogos seguidos mesmo com atuações bem mequetrefes do Derrick Rose (e marcação genial do Paul George, assunto pra um futuro post), estando praticamente eliminado da pós-temporada. Mesma coisa com Sixers e Knicks, que até deram trabalho mas já estão planejando as férias. Thunder contra Nuggets e Mavs contra Blazers são terra de ninguém, como previsto. Então restam apenas duas séries dessa primeira rodada dos playoffs que ainda tem cara de estar completamente fora do controle: a primeira é Magic e Hawks, que exige uma retratação da minha parte então por enquanto vou fingir que nada está acontecendo; e a segunda é Spurs e Grizzlies.

Quão surreal é dizer que uma série com o Grizzlies, que até outro dia era uma das maiores piadas da NBA e se classificou em oitavo para os playoffs, é uma das que está completamente fora de controle? O Spurs dorme todos os dias com medo do Zach Randolph, e nem é de que ele coma tudo que o time tem na geladeira. A defesa do Grizzlies é sufocante, o garrafão é forte e movimenta a bola, os jogadores são jovens e motivados. Em apenas três anos a equipe deixou se ser presa fácil nos playoffs, passou por um processo completo de reconstrução, e venceu sua primeira partida de pós-temporada em cima do todo-poderoso Spurs. Melhor projeto de reconstrução de todos os tempos? Pelo contrário. A reconstrução do Grizzlies foi uma bosta, um projeto completamente atrapalhado e cheio de tropeços, e que deu certo mesmo assim simplesmente porque acertaram em alguns aspectos fundamentais. Ou seja, é a prova definitiva de que reconstruir uma equipe não é tão difícil assim: se até o Grizzlies consegue, qualquer time do planeta pode fazer também. Até eu. Ou sua avó, que quando você diz "basquete" ela entende "chacrete".

Em 2003, o Grizzlies conseguiu chegar aos playoffs pela primeira vez, mas perdeu todos os jogos. Tudo bem, era um time ruim que estava apenas pegando o jeito das coisas. Na temporada seguinte, foram aos playoffs de novo e perderam todos os jogos de novo. Vários jogadores deixaram a equipe, outros foram contratados às pressas, mas o time foi aos playoffs de novo, uma terceira vez. E, de novo, foi eliminado da pós-temporada sem vencer uma mísera partida sequer. As duas temporadas seguintes foram cheias de contusões e jogadores fazendo de tudo pra não jogar lá. Como diabos lidar com uma franquia em que nenhum jogador quer jogar? Em um post de dois anos atrás, o Denis conta como Steve Francis foi draftado pelo Grizzlies e se negou a jogar lá, e como quase todos os novatos de 2009 (quando o time tinha a segunda escolha do draft) se negaram a treinar pela equipe, evitando assim ser draftados pela franquia. Como melhorar uma equipe em decadência se ninguém quer jogar por ela? O Grizzlies tinha a possibilidade de se reconstruir em volta de Pau Gasol e seu salário gigantesco, mas teria que apostar em novatos com uma equipe que sempre estaria às bordas dos playoffs, correndo o risco de ser ruim demais para ganhar um joguinho sequer na pós-temporada mas boa demais para conseguir escolhas altas no draft. Foi preciso muita coragem e muita falta de cérebro (coragem e burrice não estão intimamente ligadas?) para cortar esse círculo vicioso e trocar Pau Gasol por um pacote de bolachas.

A troca, na verdade, visava o futuro e só pode ser melhor analisada agora. Na época, foi Pau Gasol e uma escolha de segunda rodada por duas escolhas de primeira rodada, Kwame Brown, Javaris Crittenton e os direitos pelo Marc Gasol, escolhido na segunda rodada pelo Lakers. Na prática, o Kwame Brown era apenas um contrato expirante para o Grizzlies economizar dinheiro e reconstruir as finanças, o Crittenton foi mandado para o Wizards por uma escolha de primeira rodada (e lá acabou sacando uma arma contra o Gilbert Arenas no incidente que quase acabou com a carreira do Arenas), e o que o Grizz conseguiu no final das contas foi uma caralhada de escolhas de draft e o Marc Gasol.

O que o Grizzlies fez com essas escolhas de draft é coisa de Grizzlies mesmo, uma bagunça: eles são obrigados a escolher os jogadores que ninguém mais quer, ou então draftar jogadores que claramente não querem jogar para a franquia ou que não treinaram para eles antes do draft. Chegaram a ter o Kevin Love, por exemplo, e acabaram trocando pelo OJ Mayo porque não tinham visto o Love em ação. Gastaram a segunda escolha do draft de 2009 com o Hasheem Thabeet, o pivô gigante que não sabe amarrar os próprios cadarços. Então é claro que eles não são o Spurs, cujos olheiros conseguem prever o futuro e draftam gênios até em divisão de time de futebol de aula de Educação Física da quarta série. Pra piorar, o Grizzlies ainda encrenca com os novatos na hora de assinar contratos, criando uma imagem ainda pior na mídia. É bem claro que eles são atrapalhados, não tomam as decisões certas e têm dificuldades com novatos, tanto na hora de draftar quanto na hora de assinar, agradar e tentar mantê-los na equipe. Mas há uma coisa que eles fizeram muito bem: guardar a grana liberada com a troca dentro de um cofre de porquinho.

Em geral quando uma equipe tem espaço salarial sobrando, a lógica é que você está sendo burro se não usar esse espaço salarial para contratar alguém e melhorar seu time. As regras te deixam pagar salários até um limite, pra quê ficar abaixo dele ao invés de contratar o máximo de ajuda com ele? O problema é que usar o espaço salarial em uma temporada significa que você sem querer comprometeu o espaço salarial das temporadas seguintes. Os contratos tendem a ser de longa duração, os jogadores ficam sob contrato por vários anos, e os salários vão subindo de temporada em temporada. Então usar o espaço salarial ao máximo numa temporada "só porque eu posso" pode mandar pelo ralo as finanças do time pela próxima década (né, Knicks?). O Grizzlies conseguiu espaço salarial de sobra ao trocar Pau Gasol, e com ele tentou contratar o Josh Smith, por exemplo. O Hawks igualou a oferta, o Josh ficou em Atlanta, e aí ao invés de gastar a grana no segundo melhor jogador disponível, ou contratando um pivô qualquer que não sabe o que é basquete mas é alto e pode trocar lâmpadas sem escadas, o Grizzlies economizou. Não teve medo de feder, de conseguir escolhas altas no draft, e de evitar ao máximo ter prejuízos. Por muitos anos a equipe teve a pior audiência de toda a NBA, o melhor a se fazer mesmo é tentar cortar os gastos ao máximo e saber esperar. Fazendo trapalhadas no draft ou não, se metendo em bagunças com os novatos ou não, o Grizzlies soube esperar e cuidar do dinheiro.

Quando isso acontece, é possível se aproveitar de oportunidades que volta e meia dão sopa na NBA mas ninguém está em condições de agarrar. Tipo um time querendo se livrar do Kevin Garnett, por exemplo, ou do Ray Allen, ou do Kendrick Perkins, ou do... Pau Gasol? Então, o que o Grizzlies fez foi achar alguém que quis se livrar do Zach Randolph (porque havia na cagada conseguido a primeira escolha no draft e iria pegar o Blake Griffin) e, com o espaço salarial para conseguir fazer a troca funcionar, conseguiu um jogador que de outro modo não aceitaria jogar por eles. Paciência foi tudo: conseguiram jogadores veteranos como o Zach Randolph, tiveram grana para dar um contrato gigantesco para os novatos que deram certo como o Rudy Gay, deixaram os novatos que eram mais-ou-menos em quadra sem medo de perder até ver se podiam render algo, deram a grana para os que se sairam bem depois de muita insistência como o Mike Conley, e trocaram os que não deram em nada por jogadores veteranos, como o Hasheem Thabeet mandado pelo Shane Battier.

Essa é uma receita razoável para reconstruir um time, mesmo se for feita de modo capenga. Basta apertar o botão do apocalipse, se livrar das estrelas, guardar a grana para abraçar alguma oportunidade maluca, draftar uma caralhada de novatos, e não ter vergonha de perder muito até dar certo. O Wolves está no mesmo caminho. Não é um plano genial como o do Thunder ou do Blazers, mas é um plano acessível até para as equipes mais confusas, como o Pistons. Só que ainda falta o ingrediente secreto capaz de tornar essa reconstrução capenga do Grizzlies uma equipe capaz de vencer o Spurs, falta o "elemento X" capaz de tornar açúcar, tempero e tudo-que-há-de-bom em Meninas Superpoderosas: um cara como o Tony Allen.

"Isso é fácil", você deve estar pensando. "Conheço um monte de idiotas sem cérebro capazes de se machucar sozinhos dando uma enterrada que não vale pra porcaria nenhuma".



Sim, isso é verdade. Jogadores que esquecem o cérebro num pote na geladeira antes de saírem de casa são comuns, e o Tony Allen deu mais dor de cabeça para o Celtics do que ajudou nos anos que esteve lá. Mas algumas coisas são fundamentais: ele é um bom defensor, aprendeu a defender em conjunto com Kevin Garnett, e veio de um ambiente extremamente motivado, coletivo e focado em vitórias. Imagina só o Tony Allen e sua mentalidade vencedora herdada dos tempos de Celtics no vestiário do Grizzlies, em que todo mundo devia achar a coisa mais natural do mundo perder jogos de lavada (especialmente o Zach Randolph, que provavelmente sempre pensou que "vitória" fosse apenas uma palavra que queria dizer "o time adversário"). O confronto com certeza foi imediato. Tony Allen não teve medo de pegar no pé dos companheiros, de exigir uma postura diferente em quadra, de cobrar por defesa. Mesmo sendo um jogador zé-ninguém com minutos limitados. Em quadra, guiou pelo exemplo sendo um jogador burro que mesmo assim dava o sangue dentro de quadra na defesa.

Diz a lenda que numa partida de pôquer no avião do Grizzlies, indo para um jogo, OJ Mayo perdeu 1.500 dólares para o Tony Allen mas se recusou a pagar. Tony Allen teria agredido verbalmente o adversário, questionado sua moral, e os dois saíram na porrada a um ponto tal que o OJ ficou cheio de hematomas na cara e teve que ficar de fora da partida seguinte da equipe. Desde então, pelo que dizem, os jogadores do Grizzlies chegaram a um acordo: todo mundo pode falar o que quiser para todo mundo, cobrar, questionar caráter, o que for, porque eles são uma família e não vão sair na porrada. O pôquer passou a ser proibido nas viagens da equipe, mas o incidente uniu os jogadores. Tony Allen vem de um lugar em que é normal exigir, cobrar e questionar seus companheiros de equipe, o Garnett até fez o Glen Davis chorar dentro de quadra. Quando o Grizzlies entendeu que é esse tipo de ligação que faz equipes vencedoras (e equipes defensivas), as coisas finalmente entraram nos rumos.

O dinheiro do Grizzlies foi bem usado com os novatos que quiseram ficar (ao invés de esperar por estrelas que só querem jogar com outras estrelas) e com jogadores caros que seus times estavam jogando no lixo, como o Zach Randolph, que agora se sente acolhido e valorizado (tudo porque o Grizzlies, além de dar uma oportunidade ao ala, não esperou um segundo para lhe dar um contrato gordo assim que ele teve uma partida genial contra o Duncan). Mas um dos dinheiros mais bem gastos dessa equipe é com o porcaria do Tony Allen. O que ele trouxe à franquia é inigualável. O Grizzlies até trouxe de volta o Shane Battier, ainda um dos melhores defensores da liga, mas ele é bom moço, reservado, controlado. Tony Allen vem da linhagem Garnett de gritos, cuspe na cara e beber sangue de criancinhas que motiva qualquer equipe - mesmo aquelas que preferem sair para ir no bingo.

É claro que esse Grizzlies ainda tem muitos problemas. Pra começar, sentem falta do Rudy Gay, que sabe criar o próprio arremesso, é o melhor arremessador de três da equipe e defende várias posições. Falta um facilitador no ataque para que as cestas não precisem ser todas brigadas, ganhas na marra. E o banco ainda é mais mirrado do que os seios da Keira Knightley. Mas agora eles têm uma dupla de garrafão que acredita um no outro, Marc Gasol e Zach Randolph se procuram no ataque, abrem espaço um para o outro, e se complementam na defesa - e essa dupla só foi possível graças à troca do irmão do Marc, Pau Gasol. E isso é maior do que parece: nenhuma dupla de garrafão na NBA tem, nesse momento, esse grau de companheirismo e essa intimidade em quadra, nem mesmo Pau Gasol e Andrew Bynum. E o resto do time acredita que pode vencer jogos de verdade, mesmo se forem nos playoffs, mesmo se forem fora de casa, mesmo se forem contra o Spurs, e mesmo se forem contra o melhor colocado do Oeste - tudo porque um tal de Tony Allen mudou a postura dessa equipe, encheu de porrada um ladrão no pôquer, e custou apenas um punhado de milhões antes tão bem economizados.

Tony Allen e Shane Battier vão ter muito trabalho marcando Tony Parker e especialmente Manu Ginóbili, que voltou de contusão agora com um braço biônico e continua acertando aquelas cestas idiotas e inexplicáveis que vencem jogos de playoffs dos modos mais aleatórios possíveis. Mas bizarramente a batalha no garrafão contra o todo-poderoso Tim Duncan parece tender para o Grizzlies. Eu sei que todo mundo aqui por essas bandas da caipirinha pede pelo Tiago Splitter para ajudar na marcação de Randolph e Marc Gasol, mas sejamos realistas, por melhor defensor que o Tiago seja, ainda falta treino físico para lidar com o muro de tijolos que é o Marc e o muro de banha que é o Randolph. É desleal. Popovich prefere apostar na experiência de Duncan e McDyess, ou compensar no ataque com Matt Bonner, coisa que o Splitter ainda não pode fazer. De todo modo, o Grizzlies está um passo a frente no garrafão (com a ajuda do excelente Darrel Arthur e de Sam Young, também vindos com escolhas de draft da troca do Gasol) e mordendo com força em tudo em que estão atrás, tentando vencer mais na vontade do que na técnica - e gerando com isso a série mais equilibrada desses playoffs. Se fosse a equipe de Pau Gasol e Jason Williams de três anos atrás, com técnica de sobra, entraria se achando incapaz de vencer uma partida de playoff. Isso não é auto-ajuda, não tem nada mais idiota do que esse lance de "tudo que você acha que pode fazer, você pode fazer", mas postura é algo essencial no esporte. Quando uma equipe realmente acha que pode vencer, ela fará o que for necessário. Se tiver dois gordos gigantes no garrafão, então, é capaz que até consiga.

Esse Grizzlies então nos serve de alerta não só para o papel da postura, da defesa e da paciência na construção de uma equipe, mas também para como uma troca pode parecer muito, muito idiota quando acontece - e ser mesmo idiota - apenas porque não temos como perceber que seria ainda mais idiota continuar insistindo nos mesmos erros. Memphis Grizzlies: tropeçando sempre de novas maneiras desde 1995.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Preview 2010/11 - Memphis Grizzlies

Leveza, arte e beleza


Objetivo máximo: Ir para os playoffs
Não seria estranho: Repetir a campanha do ano passado e acabar em 10º no Oeste
Desastre: Voltar a ser um dos piores times da conferência

Forças: Time que mais pega rebotes de ataque na NBA, time titular muito bem entrosado
Fraquezas: Não tem banco de reservas e Mike Conley passa pouca confiança na armação

Elenco: Amém.

Memphis Grizzlies
TitularesReservasResto
PGMike ConleyGreivis Vasquez*Acie Law
SGOJ MayoTony AllenXavier Henry*
SFRudy GaySam YoungDeMarre Carroll
PFZach RandolphDarrell Arthur
CMarc GasolHasheem ThabeetHamed Haddadi



Técnico: Lionel Hollins

Lionel Hollins é mais um daqueles caras que fez carreira como assistente técnico e agora tenta a sorte como treinador principal. O que diferencia ele da maioria dos outros assistentes é que não são muitos os que já trabalharam com tanta gente boa como Hollins. O atual técnico do Grizzlies era assistente de Cotton Fitzsimmons quando ele treinava o Suns nos anos 90 e eles alcançaram a final da NBA contra o Bulls, também foi assistente de Larry Brown no Pistons em 2005 (quando Brown foi eleito o técnico do ano), de Lenny Wilkens, Chuck Daly e Paul Silas. Ele teve muito tempo pra aprender, muitos professores e vários estilos diferentes.

Antes de entrar no mundo dos técnicos ele ainda foi um bom jogador. Escolhido na sexta posição do draft de 1975 pelo Blazers, foi campeão pelo time em 77, ano em que também foi para o All-Star Game. No ano seguinte foi eleito para o primeiro time de defesa da liga e aos poucos foi caindo de produção, mas fez o bastante para ter seu número 14 aposentado pelo time de Portland.

Como treinador principal tem pouquíssima experiência. Treinou duas vezes o Grizzlies, uma vez em Vancouver e outra já em Memphis, apenas como interino em 2000 e 2004. Ganhou finalmente uma chance de ser efetivado em janeiro de 2009. Ele pegou um time esquecido, fraco, que os Free Agents ignoravam quando tinham a chance de mudar de franquia e montou uma equipe de verdade. Já naquela temporada ele conseguiu um feito que seria comum em muitos times, mas que o Grizzlies não conseguia fazer há 3 anos: acabar um mês com mais vitórias do que derrotas! Em abril de 2009 ele fechou a temporada com 5 vitórias e 4 derrotas. É como um nerd fracassado conseguir um beijo na bochecha da garota que ama há anos.

No ano passado conseguiu o feito de ser o primeiro técnico da história da NBA a fazer o Zach Randolph se esforçar em uma quadra de basquete. Todo mundo sabia do talento dele, mas sabia também que ele não dava a mínima pra nada, imaginava-se que ele faria até menos que o normal por estar jogando em um time ruim e nos confins da liga. Mas a filosofia de Hollins do jogo em equipe, da defesa bem treinada e dos muitos passes no ataque contagiou o nosso gordinho favorito e ele entrou no jogo, rendendo até um convite para participar do All-Star Game. Lionel Hollins merecia entrar para o Hall da Fama do basquete só por isso!

O momento de fama de Hollins no ano passado foi quando recebeu uma falta técnica bizarra quando interceptou um passe de um torcedor para Kenyon Martin. Sério.



Apesar do pouco tempo como treinador ele já é bem visto no mundo da NBA e deve ter uma boa carreira pela frente. Se desistir logo da idéia de OJ Mayo como armador principal deve ter mais um bom ano pela frente. Vale ressaltar que o ex-assistente tem nomes conhecidos na sua comissão atual: Henry Bibby, pai de Mike Bibby e a única pessoa a vencer títulos da NBA, CBA e NCAA, e Damon Stoudamire, ex-jogador que se aposentou em 2008. Stoudamire foi um baita armador nos seus anos de Toronto Raptors, mas tem dois recordes interessantes nos seus tempos de Jail Blazers: 54 pontos em um jogo, recorde da história do Blazers, e 21 bolas de três arremessadas num jogo, recorde da história da NBA! Ele só acertou 5 desses arremessos, mas quem liga pra isso?
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O Grizzlies foi um dos times que eu mais assisti na temporada passada. Não só tiveram muitos jogos apertados e bons como também era um prazer ver um time funcionando tão bem e com jogadores tão malhados ao longo de suas curtas carreiras: OJ Mayo chegou na NBA com fama de moleque sem cabeça pro jogo, um talento absurdo mas sem concentração, disciplina e que nunca conseguiria jogar ao lado de Rudy Gay pelo seu ego enorme. Mike Conley foi visto como um fracasso completo depois da sua primeira temporada, Zach Randolph a gente nem precisa falar nada e Marc Gasol era a versão mais feia e piorada do seu irmão, que as pessoas só conheciam por estar envolvida naquela troca famosa com o Lakers que transformou a NBA.

Pois OJ Mayo mostrou na temporada passada que é o oposto do que falavam: Não só tem muita concentração e é um jogador exemplar e fácil de lidar como funciona muito bem ao lado do Rudy. E quis contrariar tanto os seus críticos que ainda não se tornou a estrela espetacular que tanta gente previa. Mike Conley talvez nunca faça jus à 4ª escolha no draft que recebeu em 2007, mas é bom o bastante para ser titular na NBA e quebrou muitas vezes o galho do time como único arremessador de três do elenco. Zach Randolph virou um All-Star e Marc Gasol tem jogado tão bem que hoje aquela troca nem parece tão absurda.

Repito, trocar Pau Gasol pelo o que chamamos, na época, de pacote de bolacha, não foi ruim. Com a troca eles conseguiram o atual pivô da equipe, Marc Gasol, e com as escolhas de draft conseguiram o melhor reserva do elenco, Darrell Arthur e o atual reserva da armação, o novato Greivis Vásquez. E foi com o salário expirante do Kwame Brown que eles puderam negociar com o Clippers e conseguir Zach Randolph. Pau Gasol por Arthur, Marc e Randolph? Eu toparia. Claro que nem tudo isso poderia ser previsto na época e foi um risco absurdo que eles correram de perder sua melhor estrela por nada, mas temos que admitir que, mesmo sem querer, fez bem para a franquia.

Assistir ao crescimento desse time condenado foi bem divertido, mas é difícil acreditar que eles estejam preparados para ir além disso. Durante a offseason eles foram notícia três vezes:

1- Contrataram Tony Allen, bom defensor de perímetro (necessidade gritante do time), mas que joga na mesma posição de OJ Mayo e do recém-draftado Xavier Henry.

2- Demoraram meses e meses para assinar o tal novato por uma briguinha contratual imbecil, o que deixou o garoto fora das ligas de verão. (E, por curiosidade, no fim das contas o Grizzlies deu os 120% para Henry depois que o agente Arn Tellem disse que se fosse preciso pagaria ele mesmo, do seu bolso, os 20% que o Grizz não queria dar)

3- Deram um contrato de 80 milhões de doletas para o Rudy Gay, o máximo que ele poderia receber, ao invés de esperar uma oferta de outro time. Como Gay era um Free Agent Restrito, era só igualar a tal oferta e manter o jogador.

Em resumo eles gastaram seu dinheiro mal, mesmo tendo sido em bons jogadores de que eles precisavam. Perder Gay era impensável e as novas aquisições vão ser úteis para o Grizzlies ter finalmente um banco de reserva, já que eles tinham talvez o pior de todos no ano passado. Mas só isso? No sempre difícil Oeste é difícil crer que isso será o bastante. Dos oito classificados para os playoffs do ano passado só o Suns teve mudanças significativas no elenco a ponto de talvez ter uma queda, e eles ainda tem que lidar com o crescimento de Sacramento Kings, Houston Rockets e talvez até do LA Clippers. O time deve continuar bom, mas só um milagre faz o Grizzlies ir além do que já foram na temporada passada.

A maior esperança de um milagre está nas mãos de Mike Conley, o jogador que menos inspira confiança em Lionel Hollins e na direção da equipe. Como acontece com a maioria dos armadores, quando ele joga bem o time inteiro sobe de nível. Mas Conley é bem irregular e defende mal, obrigando o Grizzlies a deixá-lo no banco nos momentos decisivos do jogo. Sem ele a armação fica toda quebrada na mão de Mayo ou Gay, o time perde seu único arremessador de três e vários jogos já escapuliram no final por causa disso.

Há a esperança de que o outro novato além de Henry, Greivis Vásquez, possa ser uma solução. Ele era bom arremessador no basquete universitário. Sua defesa, no entanto, é questionada e não pudemos vê-lo em ação ainda porque está machucado. Ele pode até ser bom, mas não fez nada que justifique colocar expectativas grandes nas suas costas.

Ver todos aqueles jogadores questionados se juntarem para montar um time foi especial e raro, mas é bom não se iludir muito com a animação do ano passado, o time não mudou tanto assim e playoffs só seria uma possibilidade realista se eles estivessem no Leste.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Negócios fechados

Steve Blake leva seu rosto bonito para Hollywood

Vocês viram aquele banner com o LeBron e várias notas de dólar na nossa barra lateral? Gostaram? Ao clicar na imagem você entra numa planilha feita por nós que acompanha toda a movimentação de Free Agents da temporada. Na primeira parte da tabela estão todos os jogadores disponíveis, os times que já demonstraram publicamente algum interesse neles e depois um palpite (embasado em livre interpretação de notícias gringas) feito por nós.

Na segunda parte estão os jogadores que já foram assinados. Sempre que um contrato novo foi concluído a gente atualiza a planilha na hora. Assim você pode ficar bem informado mesmo que a gente demore uns dias para colocar a análise da contratação aqui no blog. Fala aí se não foi uma boa idéia? Salvamos a pele de muita gente que tem matado as aulas de inglês pra ir no bar e/ou para jogar fliperama.

Também estão lá na planilha os links para os posts onde comentamos as contratações. Entre as já comentadas falta só dizer que a do Joe Johnson pelo Hawks foi confirmada. Quando escrevemos o post ainda faltava o JJ aceitar, mas ele topou e receberá um dinheirão pelos próximos 6 anos. Como já dissemos lá, mas vale repetir, sim, é muito caro para um jogador do nível do JJ. Mas sem ele o Hawks não tinha espaço na folha salarial para contratar um substituto. Ou era pagar caro por um bom jogador ou voltar a ser um timeco por anos e anos a fio.

Entre os outros contratados já anunciados, dois vão receber uma atenção especial no próximo post do Danilo: Paul Pierce e Dirk Nowitzki. Ambos tinham a opção de ganhar muita grana na próxima temporada pelos seus times, mas preferiram usar sua opção de sair do contrato, virar Free Agents e então assinar um contrato de menos dinheiro (mas mais longo) com os mesmos times. Por que fizeram isso? Tem uma explicação. E é a mesma que levou o Richard Jefferson a decidir não ficar mais um ano recebendo 15 milhões de dólares do Spurs para tentar a vida como Free Agent. Como esses caras exigem uma outra explicação (e, sejamos sinceros, recusar mais de 15 milhões de dólares exige uma bela explicação), por enquanto comento os outros contratados.

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Rudy Gay - Memphis Grizzlies (80 milhões por 6 temporadas)

O Rudy Gay era um Free Agent restrito. Ou seja, ele poderia receber ofertas de outros times e o Grizzlies tinha a opção de igualar a oferta e manter o jogador ou deixá-lo sair. O Wolves e o Clippers vinham namorando a possibilidade de ter Gay em seus times (finalmente veríamos a dupla Gay-Love no Wolves!), mas o Grizz não quis nem se arriscar e ofereceu, de cara, o máximo que um cara com o tempo de NBA do Rudy poderia receber: 80 milhões de doletas por um contrato de 6 anos!

Será que ele é um jogador tão completo assim para merecer um contrato tão gigantesco? Provavelmente não. Aliás, certeza absoluta que não.

Apesar de ser um grande jogador, não é nenhum gênio. Mas o Grizzlies vive aqui uma situação parecida com a do Hawks com o Joe Johnson. Se eles perdem o Gay iriam fazer o que? Parar o seu crescimento no tão difícil Oeste e voltar para a ralé da liga? Esperar mais um draft pra ver se acha uma estrela? Vocês não imaginam como é para o Grizzlies atrair bons jogadores. O time não é rico, a cidade não é grande, os jogos do time não passam em rede nacional. Ninguém quer ir jogar lá a não ser que seja por muito dinheiro.

Assim o Grizzlies gasta mais do que devia, mas paga o que tem que pagar para se manter como uma boa equipe. Ainda falta banco de reservas, ainda falta um armador mais confiável, mas tudo isso é bem mais fácil de achar que um substituto a altura para o cestinha da equipe.

Eu achei mais arriscado, na verdade, para o próprio jogador. Claro que nunca vou chamar de errado alguém faturar 80 milhões de doletas por jogar basquete, errado é escrever num blog de graça. Quem me dera errar desse jeito, mas o Gay está se amarrando no Grizzlies durante todo o melhor período da sua carreira. Quando esse contrato acabar ele já vai estar com 30 anos e é possível que tenha passado o auge da sua carreira em um time que nunca tenha a chance de ir longe nos playoffs. Temos que lembrar que ele está em uma franquia que nunca ganhou um jogo de playoff sequer na sua história. Mesmo naqueles três anos seguidos quando o técnico era o Hubie Brown e o time tinha Pau Gasol, Jason Williams, James Posey, Mike Miller e Bonzi Wells eles só conseguiram 3 varridas em 3 anos de pós-temporada.

Assim como tantos outros jogadores, nada garante que OJ Mayo, Zach Randolph e Marc Gasol não sigam os mesmos passos de Gay e decidam sair de Memphis quando seus contratos chegarem ao fim. Assim o Rudy Gay ficaria sozinho (e zilionário) andando de Ferrari numa cidade que tem, como é de costume, um timeco. Exigir uma troca caso ele não esteja num time bom daqui uns anos pode ser uma solução, mas sempre é mais difícil quando se tem um contrato tão grande.

Para o Grizzlies não foi um grande negócio financeiramente, mas perfeito para manter a evolução da equipe. Para o Rudy Gay foi o contrato que pagou a faculdade dos bisnetos, mas que pode fazer ele entrar naquele grupo de velhos desesperados quando seu contrato chegar ao fim.


Steve Blake - Los Angeles Lakers (16 milhões por 4 anos)

Vocês não tem idéia de como eu comemorei essa contratação! Não tenho idéia se eu já comentei nesses anos de blog como eu sou fã do Steve Blake. Entre todos os armadores que não são espetaculares, que não são estrelas, ele é o meu favorito. E desde quando ele ainda estava no Nuggets eu torcia para ele, um dia, ir para o Lakers. Meu sonho virou realidade!

Antes de jogar no Denver ele era atleta do Blazers e depois do Bucks e já passou pelo Wizards. Nesses times foi bem, mas discreto. No Nuggets ele chamou mais a atenção porque foi na época em que o time era uma potência ofensiva desorganizada e com o Blake como armador titular todo mundo começou a jogar melhor e o time passou a funcionar direito.



Foi a presença do Blake no Nuggets que deixou claro como eles seriam um time melhor com um armador de verdade, coisa que ficou comprovada quando eles contrataram o Chauncey Billups, que é 100 vezes melhor que o Steve Blake.

O Lakers estava sem armador. Jordan Farmar e Derek Fisher são Free Agents e Shannon Brown ainda pode vir a ser (ele que tem a opção de encerrar ou não o contrato), mas mesmo que não vire, é mais um segundo armador do que um armador nato. Não tem um bom drible e domínio de bola para ser um armador de verdade. Fisher já disse que quer voltar ao Lakers, provou que pode ser útil nos playoffs e o time o quer de volta, parece ser só uma questão de acertar valores.

Mas a temporada regular do ano passado mostrou como o Lakers precisava de um armador. Até para o Fisher continuar sendo essencial na pós-temporada como foi agora em 2010, ele precisa de descanso, não dá pra ficar jogando mais de 30 minutos todos os dias naqueles 82 jogos inúteis da temporada regular. A boa campanha dele nos playoffs foi uma prova de que ele ainda é bom, mas não de que o Lakers podia considerar que a posição de armador estava resolvida.

Jordan Farmar teve anos e anos para mostrar seu valor mas sempre foi muito irregular. Teve até muita sorte de continuar na rotação, porque em 2008 ele já tinha virado terceiro armador com o crescimento do então novato Javaris Critentton. Mas teve sorte quando ele foi envolvido na troca que trouxe Pau Gasol para o Lakers, assim Farmar voltou a ser o primeiro armador do banco. Nos últimos meses ele disse que queria ser titular no próximo ano e o Lakers respondeu não fazendo nenhuma oferta para que ele continuasse no time. Não precisa manjar muito de basquete pra saber que o Farmar não tem condição de ser titular num time de alto nível. Aliás acho que nem em uma de baixo nível.

Steve Blake quase nunca foi titular na vida e provavelmente não foi para o Lakers pensando nisso. Dizem até que ele recusou outras propostas que rendiam mais grana para jogar em LA. Lá ele sabe que será reserva de Fisher mas que terá bastante tempo de quadra principalmente na temporada regular e será importante quando o Lakers enfrentar armadores rápidos, o que é bem comum atualmente. Blake não é um defensor nato, mas dificilmente é batido com facilidade, sabe ficar na frente e atrapalhar seu adversário. Também é muito inteligente, tem ótimo passe e sua principal virtude ao longo dos anos foi o baixo número de erros. Isso é essencial num ataque baseado em passes precisos como é o do Lakers. Por fim e mais importante nesse time do Lakers, Steve Blake é um ótimo arremessador de três. Acertou mais de 40% dos seus arremessos de longe nos últimos 3 anos e terá muitas chances de chutar sem marcação na próxima temporada.

Ele só precisa defender bem, acertar seus arremessos e dar bons passes para Bynum e Gasol no garrafão para ser o que o Lakers precisa de um armador. E sua história indica que vai fazer isso com a mão nas costas. Contratação perfeita.

Antes de Steve Blake o Lakers ofereceu um contrato até maior para o Mike Miller, que demorou para responder e perdeu a chance. O Mike Miller tem mais nome, talvez seja um melhor arremessador e ao longo da sua carreira até já jogou de armador, mas eu prefiro o Blake, que é melhor para marcar outros armadores, saiu mais barato e não tem um cabelo tão feio.


Channing Frye - Phoenix Suns (30 milhões por 5 temporadas)

O Channing Frye tem uma das carreiras mais estranhas da NBA. Foi a 8ª escolha do Draft de 2005, fez uma temporada de novato espetacular pelo Knicks (na época o Lakers ofereceu Odom por Frye e o Knicks recusou) e logo depois começou a cair de produção. Ano após anos foi piorando até ser trocado para o Blazers e depois ficou sem time. Esquecido, o Suns o resgatou na temporada passada e ele ganhou espaço com seus arremessos de 3. Ele tinha acertado uns 10 arremessos de 3 na carreira antes do Suns, aí foi pra lá virar especialista. Muito, muito bizarro. O Gilberto Silva ter disputado 3 Copas do Mundo é menos estranho.


Apesar daquela amarelada monstruosa na série contra o Lakers, o Frye provou na temporada passada que pode fazer a diferença no Suns. Pedir para ele ser titular talvez seja muito, mas fazendo parte do banco de reservas com Dragic, Dudley e Leandrinho é com ele. Assim ele pode fazer suas bolas de 3 na velocidade e confundir os pivôs adversários que nunca o acompanham na linha dos três.

Uns 6 milhões por temporada para o Frye não parece algo absurdo, mas geralmente os contratos não funcionam assim, costumam ir aumentando ano a ano. Então é bem possível (ainda não temos certeza, os valores por ano não foram divulgados) que ele ganhe uns 4 milhões nesse ano e chegue perto dos 8 no último ano. Pagar 8 milhões pelo Frye reserva e mais velho não parece um negócio tão legal assim. Para o Suns teria sido melhor um contrato um pouco menor, talvez de três anos, mas não sei se o Frye aceitaria, em último caso é sempre bom pra eles ter um bom arremessador no elenco. Para o jogador foi bom conseguir ficar em um time onde seu jogo finalmente voltou a se encaixar. No Suns ninguém percebe como ele marca mal e pega poucos rebotes.


Hakim Warrick - Phoenix Suns (18 milhões por 4 temporadas)

Esse sim foi uma baita bom negócio para o Suns! Uma temporada a menos de compromisso e 12 milhões a menos de verdinhas do que o Frye e o Hakim Warrick ainda pode acabar sendo mais usado!

O Suns, dizem os noticiários americanos, ofereceu cerca de 90 milhões de dólares num contrato de 6 anos para o Amar'e Stoudemire, mas ele está ainda seduzido pela suposta proposta de mais de 100 milhões feita pelo Knicks. Mas o mundo dos boatos é tão bizarro que estão dizendo que o Knicks só concretiza a oferta para o Amar'e quando o LeBron aceitar ir pra lá. E mesmo que Amar'e não acabe no Knicks, dizem que as ofertas por ele em Miami, Chicago e New Jersey parecem estar interessando mais do que a do Suns.


Assinar com Warrick foi mais ou menos admitir essa derrota na luta por Amar'e Stoudemire. Warrick está longe de ser tão bom, nunca vai poder jogar de pivô como jogava Amar'e, mas deve render mais do que muita gente imagina com a ajuda de Steve Nash. Ele é rápido, forte e agressivo ao atacar a cesta. Entre as soluções baratas para repor a perda, Warrick foi um achado.

Sem Stoudemire a chance de Nash ir para uma final da NBA diminui ainda mais, mas considerando que Frye está de volta, Warrick é bom jogador e que Robin Lopez está melhorando ano após ano, essa saída não vai ser motivo para o Suns desabar na tabela. Vai ser um time divertido de ver no próximo ano e Warrick tem tudo para ser presença constante nas listas de melhores jogadas com boas enterradas. Também há de se louvar o lado defensivo dessa troca, Warrick pelo menos se esforça quando está defendendo, Amar'e quase nunca se deu ao trabalho, mesmo sendo bom quando tentava.


John Salmons - Milwuakee Bucks (39 milhões por 5 temporadas)

O Salmons foi quem transformou o Bucks num time de verdade na temporada passada. A equipe era uma potência defensiva, mas só com Salmons conseguiu poder no ataque para transformar a boa defesa em vitórias. Com o fim do contrato de Salmons, parecia que não tinha mais volta. Por isso o Bucks fez trocas para adicionar Chris Douglas-Roberts e Corey Maggette ao elenco. Mas não é que o Salmons voltou?


O contrato do Salmons é alto, mas a ajuda dele para o time sempre foi alta também, como já havia sido antes no Bulls. Ele é um baita jogador, tem muito talento e costuma ser decisivo em quartos períodos e é um daqueles raros jogadores que conseguem criar arremessos do nada, eu acho que valeu a investimento.

O time só irá se arrepender se o Salmons acabar sendo um Bobby Simmons ou um Erick Dampier, aqueles caras que jogam bem logo antes de renovar o contrato e depois se acomodam e não fazem mais nada. Acreditando na ética do Salmons, que há muitos anos esperava um time que acreditasse nele como algo mais que um tapa buraco, acredito que foi um bom negócio.

Essa contratação não resolve, no entanto, alguns buracos na equipe. No ano passado o Luke Ridnour fez um bom trabalho como reserva do Brandon Jennings, que como todo novato não chamado Tyreke Evans, era irregular. Nesse ano eles já perderam Ridnour, Free Agent na mira do Knicks, e no meio de tantas contratações não conseguiram ninguém. Improvisar o Delfino por uns minutos como eles já fizeram é até possível, mas por uma temporada inteira? Sem chance.

Para as posições 2 e 3 o time tem Salmons, Maggette, Carlos Delfino, Douglas-Roberts e Michael Redd. Lembram dele? A enfermeira, o cirurgião e as velhinhas do hospital lembram. Depois de tantas contusões seguidas ele deve estar de volta para a última temporada do seu contrato milionário. Com essas cinco opções para duas posições o Bucks nunca mais vai ter problema de marcar poucos pontos de novo, mas o time ainda parece capenga. Muitos jogadores algumas posições, poucos de outras. Esperem que Redd e seu contrato expirante de 18 milhões sirvam de isca para ajeitar o resto do time.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Filtro Bola Presa - Um resumo semanal

Ninguém sabe que fim levaram as sobrancelhas de Mike Woodson

Pra quem perdeu o Filtro da semana passada, uma breve explicação: o Filtro Bola Presa é uma seção semanal que será postada toda segunda-feira até que a gente canse e comece a adiar para sempre. Ela trata de assuntos pequenos, tudo o que não passou no nosso filtro e, portanto, não virou um post gigante. As sobrancelhas do técnico Mike Woodson, por exemplo, eventualmente serão comentadas nessa seção. Aproveitem nossos restos!
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- O Marbury voltou! Depois de enlouquecer, comer vaselina e passar dias a fio chorando e cantando na frente de uma webcam, ele resolveu voltar a jogar basquete. Como a NBA só aceita loucos que façam seus times vencer jogos, ele teve que se virar na China. Assinou com o penúltimo colocado da liga amarela e estreou com derrota. Foram 15 pontos, 8 assistências e 4 roubos no seu primeiro jogo. O time perdeu na posse de bola final, com chance de arremessar para a vitória o Starbury resolveu que sua época fominha passou e tocou para o Maurice Taylor errar o arremesso final. Lembram do Mo Taylor? Eu tinha que aguentar o Danilo xingando ele todo dia quando o desgraçado jogava no Rockets e só saiu de lá quando o Isiah Thomas o levou para o Knicks em uma daquelas trocas inexplicáveis por jogadores ruins. É os EUA usando a China como depósito de lixo.

- Será que o Marbury está tentando aprender chinês? Ou está obrigando os caras a se arriscar num engrish? Se ele quiser ajudar os chinas a aprenderem a língua do Tio Sam ele pode mostrar pra eles esse vídeo do Marc Gasol. English, Baby! Mostra como se faz, Medvedenko!


- Depois que o Raptors conseguiu a façanha de tomar 130 pontos do lixo do Pacers, todo mundo queria uma explicação. O sábio Jarret Jack parou, pensou, leu um livro do Roberto Justus e disparou: "A razão para termos jogado como jogamos foi... não sei exatamente o que foi". Tem certas coisas que é melhor não tentar explicar mesmo.

- Devia ter esperado um dia a mais para o meu post sobre o Celtics. Se tivesse escrito ele hoje cedo ao invés de ontem à tarde teria tempo de ter falado sobre mais uma derrota, para o Magic de novo, e sobre a frase do Doc Rivers. Falaram que no vestiário um dos jogadores do Celtics disse "Nós somos melhores que o Orlando!" e o técnico respondeu "Não, vocês não são melhores. Eles nos tiraram dos playoffs no ano passado. Orlando é melhor que a gente agora, Atlanta é melhor que a gente agora, LA é melhor que a gente hoje". Agora isso foi para colocar o pé dos jogadores no chão ou só pura e bela sinceridade?

- Vai visitar Houston? Não deixe de passar no restaurante chinês do Yao Ming. Se bem que tem sushi bar. Sushi não é coisa de japonês? Ou é dos dois? Sei lá, vamos deixar de fingir que a gente entende a diferença entre eles e só comer o diabo do peixe cru.

- Talvez o Rudy Gay pudesse pedir os óculos do Amar'e emprestado. Ou talvez ter companheiros de time que gritassem o famosos "Calmou, calmou!" quando é pra ele parar e não sair por aí arremessando bolas do seu campo de defesa quando ainda se tem 8 segundos no relógio. Ou poderia fazer suas cagadas quando o Kobe não estivesse no outro time pra fazer ele sonhar com seus erros.


- Mike Dunleavy não é mais técnico do Los Angeles Clippers. Ele já não fazia um trabalho bom há tempos e o time cansou de perder jogos apertados por decisões duvidosas suas nos minutos finais. Talvez a demissão tenha demorado porque o Dunleavy também é o General Manager da equipe! Ele se despediu da função de técnico mas em uma reunião consigo mesmo decidiu continuar como manager, coisas de Clippers.

Porém, com o Clippers tudo pode piorar. O assunto agora nos EUA é que eles estariam atrás do Isiah Thomas para ser o novo técnico da equipe! Sério, é Thomas e Clippers juntos! Só falta assinar o contrato numa sexta-feira 13 em cima de um espelho quebrado.
Mas piora ainda mais: Cogita-se que ele não vá só para treinar a equipe, mas também para roubar toda a vaga do Dunleavy e se tornar o novo manager da franquia!!!! Sério, o cara não fez tanta bobagem assim como técnico do Knicks, perdeu a mão depois de um tempo, mas não foi tão desastroso, sua maior desgraça foi na direção da equipe. E aí aparece o time mais amaldiçoado da liga e quer contratar ele para fazer as duas coisas? Foge, Blake Griffin, foge!

- E quem achou que não tinham Kakázetes na NBA? Outro dia duas mulheres conseguiram driblar a segurança do Rose Garden e entraram na quadra durante um pedido de tempo para abraçar o Rudy Fernandez. Segundo o Rudy elas o pegaram de surpresa e disseram "Amo você, Rudy. Um prazer te conhecer. Bom jogo". E segundo o Jerryd Bayless "Elas estavam claramente bêbadas. Eu até estava perto do Rudy quando elas estavam chegando mas quando eu vi eu pulei fora". Pô, Bayless! Ou você não gosta de mulher ou estava com medinho, sob qualquer interpretação essa história não ficou boa pra você.

Momento Ego
Enterradas na cara e tocos sempre acontecem para machucar ou inflar o ego de alguém. Nessa semana tivemos dois confrontos de ego com resultados diferentes:

Nate Robinson 1 x 1 Shaquille O'Neal
Primeiro Shaq deu um toco seguido de ippon no pequeno Nate, mas logo depois o Diesel sentiu o peso dos seus 37 anos. Pelo menos agora ele e o Yao Ming tem mais alguma coisa em comum para conversar.


JJ Hickson 2 x 0 Dwyane Wade
O Wade teve uma atitude nobre. Enquanto a maioria das estrelas deixam enterradas passar em branco só para não correr o risco de serem humilhados, o Wade vai em todas para tentar dar o toco. Como nem sempre dá certo, ele foi humilhado. No segundo tempo teve a chance de dar o troco justamente sobre quem havia enterrada nele na primeira etapa, JJ Hickson, mas não deu certo. Bora dormir sem assistir o SportsCenter, Dwyane.


8 ou 80 - O cantinho das estatísticas
- "Talvez janeiro não tenha sido o meu mês". A frase foi uma observação muito bem feita pelo Vince Carter. Ele acabou o primeiro mês do ano com média de 8,7 pontos por jogo, 28% de aproveitamento dos arremessos, 22% dos arremessos de três, 2,2 rebotes e 2,7 assistências por jogo. Se o Magic tivesse jogado com o Sasha Vujacic no lugar dele os números não teriam sido muito diferentes. Quando perguntado se tinha uma razão pra ele ter jogado tão mal, Carter disse: "Bola". Mentira, não disse.

- Nos últimos 30 jogos o Pistons conseguiu várias coisas: conseguiu vencer um punhadinho de partidas, conseguiu se salvar por pouco de derrotas seguidas para o Nets, conseguiu ver Rip Hamilton e Tayshaun Prince de volta de contusões, mas não conseguiu uma coisa, marcar 100 pontos em um jogo. A última vez que isso aconteceu foi no dia 12 de dezembro contra o Warriors! E foi contra o Warriors, nem deveria valer.

- Pra completar, o Pistons conseguiu a façanha de ter um aproveitamento de menos de 50% em 25 jogos seguidos! É oficialmente o pior ataque da NBA. Foi-se o tempo em que eles faziam 65 pontos e ganhavam jogos segurando o adversário a 64.

- Não é algo exatamente numérico, de estatísticas. Mas é nerd o bastante para ficar dentro do cantinho das estatísticas. Quer saber como o seu time foi montado, jogador por jogador? Quem veio via troca, via Free Agent, via draft? É só acessar essa pequena maravilha, escolher seu time e ver tudo num formato gráfico, separados por ano.

- E já que o assunto é ser nerd, que tal o Marvin Williams resolvendo um cubo mágico em menos de 2 minutos? Agora sabemos porque o Hawks escolheu ele antes do Chris Paul e do Deron Williams. Um talento como esse não se joga fora.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Quarenta

Apesar da crença popular, Zach Randolph
não engoliu a bola depois da foto



A noite de domingo teve três jogadores alcançando a marca dos 40 pontos - dois deles, inclusive, no mesmo jogo. Esses são os primeiros indícios de uma briga pelo posto de cestinha da temporada entre Kobe Bryant e Carmelo Anthony, especialmente graças às condições de suas equipes.

Kobe marcou 41 pontos contra o Hawks, acertando 15 de seus 29 arremessos, 10 de seus 11 lances livres, e apenas uma bola de três pontos. Mas no primeiro tempo, quem estava chutando traseiros era o Joe Johnson, errando apenas um de seus oito arremessos, marcando 18 pontos e mantendo o jogo disputado. Foi aí que entrou em ação Ron Artest. Embora ele esteja tendo alguns problemas de decisão no novo esquema tático e a pontaria esteja um bocado desregulada (embora nós torcedores do Houston saibamos que sua mira é desregulada por natureza), sua defesa foi o grande diferencial. Tá legal, a gente sabe que o Trevor Ariza é um bom defensor, mas o Artest vai estar em outro nível mesmo com os cabelos brancos e numa cadeira de rodas. Ele é simplesmente mais forte, mais físico, mais chato e mais rápido do que o Ariza pode ser. Não vejo o Artest numa forma física tão boa desde os tempos de Kings, então acho que o sujeito ficou empolgadinho de jogar com seu ídolo Kobe e compareceu de vez em quando a uns treinamentos de férias. Quando ele resolveu defender o Joe Johnson no segundo tempo, que até então havia sido responsabilidade do Kobe, o jogo desandou. O coitado do Joe Johnson não conseguia mais fazer nada, o Kobe ficou livre para ser Kobe, marcou 14 pontos no terceiro período, o time inteiro do Hawks se desesperou, começou a dar uns passes ridículos e aí a partida virou "NBA Live": todo mundo roubando a bola, correndo e terminando com uma enterrada (para quem não sabe, toda jogada no "NBA Live" pode acabar com uma enterrada se você quiser, por favor faça um favor a si mesmo e ao bom gosto e compre imediatamente o "NBA 2K10", combinado?).

Aí está finalmente a diferença que Artest pode trazer ao Lakers. Não é tão inteligente quanto o Ariza, não é tão obediente taticamente, não é tão explosivo atacando a cesta e nem tão concentrado e focado na partida. Mas sua defesa transforma o jogo quando ele não precisa se preocupar em carregar o time nas costas ofensivamente, e o próprio Kobe disse que foi a energia de Artest que transformou o ânimo de todo mundo em quadra no terceiro período. É claro que ele também vai eventualmente discutir com alguém, fazer uma gracinha e tacar sorvete na cabeça de algum torcedor, mas isso são apenas mais coisas que o chato do Ariza não era capaz de trazer ao Lakers. Do jeito que eles são favoritos, com um elenco ainda mais forte e um Andrew Bynum cada vez mais consistente, eles precisam mesmo de um jogador mais fanfarrão pra não virarem uma coisa chata como o Spurs ou uma visita ao pinguinário.

Mas enquanto o Kobe tinha o apoio de Artest para marcar 41 pontos, o Carmelo foi lá e marcou 42, só de pirraça. Sempre bati na tecla de que o Carmelo Anthony é o jogador ofensivamente mais completo da NBA, e dia desses uma velhinha me deu uma bengalada na rua por causa disso. Eu sinto muito, mas nem Kobe, nem Wade, nem o Chuck Norris têm o arsenal ofensivo que o Carmelo tem, tudo por culpa do seu tamanho, habilidade, distância no arremesso e possibilidade de jogar com as costas para a cesta como praticamente ninguém na NBA consegue. Muito mais maduro, longe daquela besteira de querer ser reconhecido pela mídia e ser melhor do que LeBron James, Carmelo está mais focado, lendo melhor as defesas que tacam em cima dele, sabendo quando parar de forçar os arremessos e quando passar a bola. O resultado é bastante engraçado: os colegas de equipe agora confiam em seu julgamento, o Billups não tem medo de deixar a bola em suas mãos, e o que acontece é que Anthony ganha mais oportunidades de finalizar - e converter - do que em qualquer outro momento de sua carreira quando ele apenas se preocupava em arremessar sem parar. Não dá pra enganar ninguém, o Nuggets é o time do Billups, foi ele quem tornou a equipe uma coisa séria, e se ele falar que o Mark Madsen é melhor que o Carmelo, a equipe provavelmente coloca o Carmelo pra vender cachorro-quente na porta do ginásio. Se o Billups disse que a maturidade do Carmelo é evidente e que coloca a bola em suas mãos mais vezes agora, então o time inteiro também o fará e, tendo em vista o arsenal e aproveitamento que vem apresentando, não tenho como imaginar que ele não seja o cestinha da temporada. Em três jogos, a média é de quase 38 pontos por jogo (foram mais de 40 em duas partidas seguidas), e tudo isso sem precisar acertar mais do que uma bola de três por jogo. O Carmelo joga mais perto da cesta, cobra mais lances livres, e o Nuggets é muito mais eficiente. Apesar de não ter se reforçado como as principais equipes do Oeste, o time de Denver tem tudo para melhorar muito a campanha já irrepreensível da temporada passada.

Mas o mais curioso é que os 41 pontos do Carmelo ontem fizeram todo mundo esquecer dos 40 pontos que o OJ Mayo fez no mesmo jogo. Ao contrário da overdose de arremessos com a qual o Mayo nos acostumou, ontem ele atacou a cesta, foi agressivo, abusou das infiltrações - principalmente nos momentos decisivos do jogo - e manteve o time sempre na cola do Nuggets. Ué, mas o Grizzlies não ia ser um dos piores times do Oeste, não ia feder pra burro, não ia ter que jogar com seis bolas em quadra para conseguir deixar Mayo, Rudy Gay, Zach Randolph e Iverson felizes? Pois é, mas estranhamente o time está bastante contido. Rudy Gay está focado na defesa, Iverson ainda está machucado e não estreiou, e Zach Randolph se diz um novo homem. Não porque ele perdeu peso, afinal aquelas bochechinhas gordinhas de Quico a gente reconheceria em qualquer lugar, mas porque Randolph está decidido a não arremessar mais bolas de três nessa temporada, deixando isso para quem realmente sabe o que está fazendo, e com isso forçando menos arremessos, ficando mais perto da cesta e tentando se encaixar numa rotação ofensiva que tem que deixar todo mundo feliz. É o ápice de maturidade de um sujeito que antigamente já veio a público reclamar que sua pontuação no videogame era mais baixa do que a do Nenê e que isso era uma afronta. Em três partidas, Randolph ficar mais perto do aro já deu resultados, com uma média de 5 rebotes ofensivos por jogo. Quer mais? Randolph deu pelo menos duas assistências em todos os jogos, incluindo 7 ontem quando ele resolveu deixar o OJ Mayo brilhar e tentou pouquíssimos arremessos. A média de assistências por jogo já é de 4, o que é um absurdo para o homem conhecido como "Buraco Negro", afinal quando a bola chega nele não volta nunca mais.

Com esse Randolph mais transformado do que bêbado em programa da Igreja Universal, Mayo parando de arremessar só de fora e o time focado em colocar a bola nas mãos de todo mundo, o Grizzlies já surpreendeu vencendo o Raptors, que por sua vez já venceu o Cavs, o que numa lógica fajuta significa que o Zach Randolph é melhor do que o LeBron James. Hoje, Carmelo e Kobe tiram uma folga de sua disputa pelo título de cestinha, mas o Grizzlies volta às quadras e merece que todo mundo dê uma espiada em como os jogadores estão funcionando juntos. Até porque hoje estreia Allen Iverson, que fará parte de uma rotação de três jogadores junto com Mike Conley e OJ Mayo. Um Randolph mudado já é milagre o suficiente, será que veremos um novo Iverson em quadra, obstinado a se encaixar na equipe para salvar sua carreira? Quando Vince Carter topou se encaixar naquele Nets porcaria, ganhou fama o bastante para que o Magic topasse colocá-lo num elenco sem medo de destruir a química do time. Iverson precisa ganhar a mesma fama, e o primeiro passo é hoje. Estaremos de olho, até porque só acredito num Randolph que não é fominha vendo com meus próprios olhos - e o Iverson, quer você ame ou odeie, merece sua audiência. Sempre.