
domingo, 30 de maio de 2010
O fator X
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sábado, 29 de maio de 2010
A vitória de Nate Robinson

Em 2003 o San Antonio Spurs estava em uma das partes mais difíceis de seu caminho para o título quando enfrentava o Dallas Mavericks de Steve Nash, Michael Finley e Dirk Nowitzki na final da conferência Oeste. Era o jogo 6 e eles podiam fechar a série em Dallas ou ter um perigoso jogo 7 em casa. O jogo estava disputado, com os dois times jogando em alto nível e o Spurs tinha dificuldade na armação de jogadas já que Tony Parker só tinha jogado 13 minutos de jogo e não conseguia voltar para a quadra por estar com dor de barriga. Seu substituto Speedy Claxton não estava numa noite inspirada e restou à Manu Ginobili virar o armador da equipe. Mas com ele na armação, faltava quem arremessasse e colocasse a bola na cesta, acertasse umas bolas de 3 e abrisse a quadra.
.....
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sexta-feira, 28 de maio de 2010
Feio, emocionante e divertido

Eu disse que o Lakers precisava melhorar o ataque. O Kobe Bryant disse que o Lakers precisava melhorar a defesa. Adivinha quem o Phil Jackson escutou? Pois é, não dá pra culpá-lo, acho que o Kobe entende um pouco mais de basquete que eu. Mas só porque ele é mais velho, claro.
O ajuste defensivo do Lakers deu certo durante quase todo o jogo. A estratégia era trocar o marcador sempre que houvesse um corta-luz. Ou seja, se o Amar'e, marcado pelo Gasol, faz um bloqueio para o Nash, o Gasol marca o Nash e o Fisher tenta impedir o passe para a continuação da jogada. Essa estratégia faz com que o Nash fosse obrigado a passar mais tempo com a bola na mão e que ele fosse obrigado a arremessar mais e passar menos. O Steve Nash fez uma partida espetacular dentro dessa situação que o colocaram, com 29 pontos, a maioria arremessando sobre Gasol, Bynum, Odom ou qualquer gigante que fizesse a troca em cima dele.
Mas aqui vale a mesma observação que fizemos ontem sobre o Dwight Howard. Assim como o Magic joga melhor quando o Dwight toca menos na bola no ataque, o Suns joga melhor quando todo mundo participa, não quando o Nash faz tudo. Só com o Nash, o ataque fica mais previsível e todo mundo se movimenta pouco, deixando tudo mais fácil para o Lakers. Mas não foi só isso, o time de LA também jogou com mais inteligência, fechando o garrafão nas tentativas de infiltração do Suns, causando faltas de ataque e bem menos lances-livres.
Foi com essa defesa forte que o Lakers chegou a abrir 17 pontos no primeiro tempo. Mas não foi só assim, o ataque melhorou demais em relação aos últimos dois jogos. Para enfrentar a zona o Lakers resolveu, finalmente, atacar a cesta. O Odom fez a festa saindo do perímetro ou de trás de seu marcador para se posicionar no ponto fraco da defesa zona 2-3, entre as duas linhas de defesa, e então fazendo bandejas. Outra coisa que mudou foi o posicionamento dos pivôs, especialmente de Pau Gasol, que conseguiu ficar mais perto da cesta, aí era só receber a bola e finalizar rápido, antes que aquela marcação dupla ou tripla fizesse ele jogar a bola para fora do garrafão de novo.
Outro mérito enorme no ataque do Lakers vai para o Derek Fisher. Passamos a temporada inteira comentando como ele está velho, como não consegue mais marcar ninguém e repetimos tudo isso aqui mesmo nos playoffs, quando ele foi esmagado pelo Russell Westbrook na primeira rodada. Mas depois disso o Fisher se revolucionou. Na segunda rodada fez um ótimo trabalho marcando o Deron Williams e nessa série está marcando muito bem o Nash, em especial nos jogos 1 e 2. Ontem foi a hora de contribuir no ataque e toda vez que o Lakers se perdia naqueles passes sem objetividade ele aparecia para resolver acertando um arremesso longe. Foram 22 pontos e sempre nos momentos mais importantes e tensos do jogo.
Não faltaram momentos importantes nessa partida. Mesmo depois de abrir 17 pontos no primeiro tempo, o Lakers não conseguiu manter a diferença e o Suns respondeu diminuindo para 7. Depois, no segundo tempo, o Lakers abriu ainda mais, 18, mas de novo o Suns voltou. As corridas do Suns de volta no placar sempre aconteceram quando o centro do jogo não foi o Nash, que mantinha o time no jogo mas não era capaz de virar o placar só com seus arremessos de meia distância. Eles tiraram a vantagem quando conseguiam parar o ataque do Lakers e atacar na velocidade, na transição. Foram em jogadas assim que sairam os arremessos de 3 do Channing Frye, o arremesso de 3 com falta para o Jared Dudley e a bandeja com falta do Jason Richardson. Como disse o comentarista (e recém-contratado para a vaga de técnico do Philadelphia 76ers) Doug Collins, "Times que arremessam tão bem de 3 nunca estão completamente fora do jogo".
A reação do Suns nasceu na defesa, virou ataque e em poucos minutos os 18 pontos de diferença viraram 3 e o relógio marcava um minuto para o fim da partida. Então o Ron Artest deu um arremesso, errou e o Gasol pegou o rebote. O Lakers poderia matar 24 segundos do relógio e manter a diferença em 3 pontos, mas ao invés disso o Artest resolveu que era a hora de um segundo arremesso seguido e, tendo gastado só 2 segundos de posse de bola, chutou de 3, errando feio.
Esse erro do Artest poderia ser fatal, mas Channing Frye respondeu errando outra bola de três. Foi a vez do Lakers ir para o ataque e errar de novo, dessa vez Pau Gasol tentou enterrar na cara de Amar'e Stoudemire e acertou o aro. Para a sua última posse de bola no jogo o Suns foi de novo para a bola de três, aí Nash errou uma bola de 3, o Suns pegou o rebote, Jason Richardson errou outra bola de 3 e quando parecia que esse seria o minuto final mais desastroso dos playoffs, a bola caiu de novo para Jason Richardson, que acertou um arremesso de três usando a tabela (quem joga basquete sabe que isso não deveria valer!) e empatou o jogo.
Se já deixavam os outros arremessarem para marcar o Kobe antes, imagina o que o Suns ia fazer no último arremesso do jogo? Pois é, mandaram um monte de gente pra tentar parar o Kobe e conseguiram pará-lo. Saiu uma air ball feia da mão dele, mas assim como um erro do Kobe rendeu a cesta da vitória de Pau Gasol no jogo 6 contra o Thunder, ontem foi a vez do rebote ofensivo ser de Ron Artest, que fez a cesta no estouro do cronômetro. Nunca um minuto final com tantos erros foi tão emocionante e divertido!
Sério, as únicas duas cestas desse período foram um rebote de air ball e uma bola de três rabuda usando a tabela. Mas era exatamente esse tipo de emoção que a gente estava pedindo na pós-temporada. Mesmo com erros no final, o jogo foi bem jogado, Nash e Kobe jogaram muito e o jogo foi decidido no último segundo possível, os fãs não tem do que reclamar.
Quem tem é o Suns, que perdeu um jogo que tinha boas chances de ganhar e o fez tomando uma cesta do pior jogador ofensivo do Lakers. Muita gente tem falado que o Suns deve estar se matando porque perdeu um jogo simplesmente por não ter colocado um corpo na frente do Ron Artest, o famoso "box out". Essa crítica valia para o Thunder no jogo 6, na cesta do Gasol que eu citei, mas ontem nem tanto. Todo mundo que está no rebote sempre espera a bola bater no aro, pegar o rebote de um arremesso que passa reto é bem mais complicado, dá pra entender a falha.
Espero mais uma partidaça no jogo 6. O Lakers melhorou, se ajustou ao Suns, que vinha sendo o melhor time nos últimos jogos, e mesmo assim o jogo foi disputadíssimo. Não dá pra esperar que seja diferente no próximo, só esperaremos um final de acertos, não de erros.
Abaixo o vídeo da cesta do Ron Artest:
E tem outro vídeo, o do técnico Alvin Gentry, que não aguentou ver tantos erros do seu time.
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Denis
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quinta-feira, 27 de maio de 2010
Dia de Clippers
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Denis
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quarta-feira, 26 de maio de 2010
A prancheta do Phoenix Suns
Como prometido mais cedo, estou aqui para falar do jogo de ontem entre Suns e Lakers, em que o time de Phoenix conseguiu vencer mais uma em casa e igualar a série em 2 a 2. O que eu achei mais legal desses dois jogos em Phoenix foi ver como eles não tiveram nada a ver com os dois jogos de Los Angeles. Os playoffs estavam chatos até agora porque a maioria das séries começava de um jeito e acabava do mesmo jeito, o time que parecia melhor nos primeiros jogos mantinha a hegemonia até o final, e mesmo nos jogos em que perdia não parecia que corria risco de perder a série. E o legal de uma série de sete jogos em relação ao mata-mata em um jogo só (como ocorre no Final Four da Euroliga ou na NCAA) é justamente ver os ajustes que um time faz contra o outro no decorrer dessas longas séries.
Segundo a teoria de quem estuda basquete, o passe direto de um lado para o outro procurando quem ficou livre é uma ótima maneira de furar essa zona, mas para o Lakers ela não funciona quando Artest está na quadra, já que o ala não tem acertado seus arremessos de longa distância.
Para saber outras maneiras de furar essa defesa, eu procurei um vídeo do Coach K, o técnico da Universidade de Duke e da seleção americana, em que ele ensina como lidar com uma defesa Zona 2-3.
Nesse vídeo o Coach K dá 5 dicas de como furar a zona. Será que o Lakers tem feito alguma coisa disso tudo?
1. Uso inteligente do drible
Usar o drible para atacar o buraco que fica entre os dois defensores da frente, fazendo-os fechar no mesmo homem e assim deixar um dos jogadores livres. O Lakers não tem feito nada disso, ao contrário, tem tentado furar a zona apenas com passes, nunca com o drible.
2. Mudar o lado da bola
Isso o Lakers tem feito e é isso o que o Suns quer que o Lakers faça. Ao invés de atacar a cesta, ficar mudando a bola de lado. Mas o Suns tem tido a preocupação de deixar livre Lamar Odom ou Ron Artest, raramente Fisher ou Kobe. Uma solução para o Lakers pode ser usar outros jogadores no lugar desses dois durante alguns momentos do jogo. Duas ou três bolas de três do Sasha Vujacic, por exemplo, poderiam fazer a diferença.
3. Usar o meio da zona
Se essa zona 2-3 tem um ponto fraco ela é o ponto do meio entre as duas linhas de defesa. Alguns técnico até dizem que isso é tão básico que se aprende na sétima série. O Lakers, no entanto, tem feito isso muito pouco, mas quando o faz, dá certo. Por exemplo, em uma jogada do último jogo em que o Kobe atrai a marcação dupla e solta a bola para o Lamar Odom, que corre para o meio da zona e faz a cesta.
O passe para o meio não precisa resultar sempre numa bandeja, pode ser também um arremesso curto ou até outro passe, mas é importante colocar um jogador depois da linha dos dois marcadores e sem um marcador próximo. E quando os defensores se preocupam demais em fechar o meio, algum outro ponto da quadra acaba ficando livre.
4. Manter os pivôs atrás da zona
Esse é o ponto chave que o Lakers não tem feito e é o que falta para superar essa zona. Pau Gasol e Andrew Bynum estão tentando ficar na frente da defesa para conseguir receber a bola no meio daquela procissão de passes que o LA tem dado, quando na verdade eles devem ficar atrás da linha de três defensores.
Como o Coach K mostra muito bem no vídeo, quando se fica atrás da zona o atacante tem melhor posição do que o defensor para o rebote ofensivo em caso de um arremesso errado. E com a vantagem de altura que o Lakers tem sobre o Suns em vários momentos do jogo, isso pode ser decisivo. A outra vantagem é não ter o defensor sempre controlando você, ao ficar atrás do pivô pode-se cortar para a frente a qualquer momento sem ser visto e fazer um movimento de ataque rápido, antes que a marcação dobre. Pode-se dizer que o defensor pode ir mais para trás na linha de fundo para tentar ficar atrás do atacante, mas isso seria marcação individual, o garrafão ficaria aberto para infiltrações e o princípio da zona seria quebrado.
5. Uso do corta-luz
Aqui os pivôs usam o corta-luz para deixar um dos jogadores do perímetro livres. O corta faz com que a movimentação da zona seja interrompida e o ataque tenha algum espaço. O Lakers fez uma jogada perfeita nesse sentido no segundo tempo do jogo 4, quando o Amar'e Stoudemire até acabou fazendo falta no Gasol ao tentar passar pelo bloqueio, mas foi pouco repetida ao longo da partida. Bynum, que tem tido dificuldade no ataque, poderia ser mais útil fazendo bloqueio e criando espaços para o Lakers atacar a cesta.
Após o jogo o Kobe deu uma entrevista dizendo que a maior preocupação dele está no que eu disse na primeira parte desse texto, o ataque do Suns contra a defesa do Lakers. Ele disse que é na defesa que se ganha títulos e que lá está o problema do time. Ele tem seu argumento sustentado quando se vê que o Lakers, apesar de estar visivelmente sofrendo contra a Zona 2-3, marcou 109 e 106 pontos nos dois jogos em Phoenix. Uma defesa que segurasse o Suns a 100 pontos já teria garantido a varrida.
Eu não tenho moral pra discordar do Kobe, mas não gosto de ver os jogos com tanta diferença entre as duas partes da quadra. O Lakers precisa de ajustes da defesa e talvez (só talvez) isso seja o bastante para voltar a vencer, mas basta ver os jogos pra perceber que o ataque está sofrendo e algo precisa ser feito para mudar a situação.
Para o Suns resta manter o que está dando certo, mas também não custa pensar num plano B caso o Lakers descubra como voltar a render mais no ataque e na defesa. O técnico que escreve no site Bballbreakdown, por exemplo, sugere que o Suns mude sua defesa para um Box and one. Nessa defesa quatro jogadores mantém a zona como ela já está sendo feita enquanto outro jogador fica na marcação individual, para esse técnico o Grant Hill deveria ficar marcando Kobe no mano a mano enquanto o resto marca em zona.
Vale a pena ver o vídeo em que ele conta tudo isso, lá ele selecionou várias jogadas do jogo 4 em que mostra como o Lakers lida com a zona. Destaque para as duas cestas do Odom que aparecem na compilação. Em uma ele se movimenta atrás da zona e na outra correndo para o meio da zona (a jogada que citei alguns parágrafos acima), tudo do jeitinho que o Coach K ensinou. Também é legal (ou um saco, se você torce para o Lakers como eu) ver como o Lakers insiste em passar a bola sem parar ao invés de atacar a zona.
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Passatempo até o próximo post
Pessoal, hoje estou bem atarefado e a análise do jogo entre Lakers e Suns vai vir só de noite. Mas acho que a espera vai valer a pena, achei um material legal para explicar como funciona uma defesa zona 2-3, a defesa que o Suns usou para mudar absurdamente a cara dessa série e também algumas formas que existem para furar essa defesa. Vamos analisar o que deve ser feito e se o Lakers tem time para realizar essas mudanças.
Mas também falaremos do outro lado da quadra que está fazendo muita diferença e recebendo menos atenção: como o Suns conseguiu mudar seu esquema ofensivo e por que o Lakers está cometendo tantas faltas (não, os juízes não estão roubando!).
Até o post ficar pronto vocês podem fazer duas coisas: A primeira é responder a esse questionário sobre consumo de produtos de basquete no Brasil. Um colega nosso está fazendo uma tese sobre o assunto na sua pós-graduação e precisa que basqueteiros respondam sobre o consumo de produtos do esporte. Que marca você mais gosta, qual mais tem a ver com basquete, que tipos de produto compra, o que valoriza e coisas assim. Depois até vou ver com ele se consigo alguns dados para publicar aqui quando a tese estiver pronta! Clique aqui e ajude um dos raros trabalhos acadêmicos sobre nosso esporte!
A segunda coisa que você pode fazer para esperar é assistir vídeos:
Que tal essa bandeja insana do Goran Dragic? "Dwyane Wade da Eslovênia" é um apelido muito brega ou será que pega?
E se Dragic é Wade, o que é Robin Lopez? É o cabelo do Varejão, com a animação do Ronny Turiaf e as drogas do Chris Andersen.
Por fim, achei essa coletânea com as 40 melhores enterradas da temporada regular. Também acharam que os efeitos de vídeo fizeram parecer que o vídeo está acontecendo no diário de bordo do Lucas Silva e Silva? Mas beleza, a lista é boa.
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terça-feira, 25 de maio de 2010
De castigo
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segunda-feira, 24 de maio de 2010
A batalha no garrafão
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sábado, 22 de maio de 2010
LeBron e o capital
As críticas e o descontentamento com a última atuação de LeBron chegaram a um ponto em que torcedores dizem que o time estaria melhor sem ele, ou que algumas equipes que guardaram tanta grana para contratar uma estrela ao fim dessa temporada deveriam gastar com outro jogador que não ele. Prefiro imaginar que as pessoas que dizem isso confundiram o LeBron James com o JJ Hickson, que são mais ou menos parecidos se a tua televisão for muito ruim. Se alguém soltar um "o LeBron não fez nada no jogo, mas tinha um outro cara no Cavs que fez um triple-double", aí já sabemos que a confusão aconteceu.
LeBron é provavelmente o jogador mais odiado da NBA no momento e ele bem sabe que não adianta se defender. Seu técnico é patético, o time não tem jogadas ofensivas, e o elenco de talento não fez nada, o que na prática é a mesma coisa que não tê-lo, mas não há desculpa. O Celtics foi muito superior, a reação do Cavs durou pouco, todos estavam exaustos e o time humildemente aceitou a derrota no minuto final. O que para mim foi um gesto de respeito, similar ao jogador de xadrez que derruba o próprio rei quando a derrota é iminente (é falta de respeito prolongar a partida desnecessariamente até tomar um xeque-mate) e me tirou sorrisos quando aconteceu, foi para o resto do mundo uma desistência imperdoável de um jogador covarde. Não há defesa, o único modo de escapar a esse criticismo seria sair de quadra com a vitória.
O LeBron James não é burro. Na entrevista coletiva após a partida, repetiu um par de vezes que "só lhe interessa a vitória", que ele "só quer vencer". Seu modo de jogo, suas decisões, sua personalidade e sua história de vida serão julgadas em relação às suas vitórias e derrotas, e ele sabe disso. Seu fardo é um mundo sem desculpas: se o ginásio desabar, ele que segure o teto, leve os fãs para uma área segura, lhes fornece comida e água, salve as duas tabelas da quadra e então acerte o arremesso da vitória. É o que o Jordan faria. LeBron rapidamente entendeu que precisa vencer jogos para ter alguma chance, mas eventualmente precisará entender que não se pode competir com as memórias. Sabe aquela coisa de que, na sua memória, teve uma chuva de meteoros épica quando você tomou aquele fora da guria gostosinha e nada vai te convencer do contrário 10 anos depois? O reconhecimento para LeBron virá apenas quando for tarde demais e ele tiver reumatismo. Até lá, precisa dar um jeito de segurar as pontas.
O plano de LeBron, então, é simples: vencer imediatamente, e muito. Por diversas vezes indiquei no Bola Presa que LeBron provavelmente não sairia do Cavs e que não iria nem fodendo para o Knicks. Agora abaixo a cabeça, escondendo o rosto pra ver se ninguém me reconhece na rua, e mudo de ideia. Se o LeBron tiver um pouco de cérebro e quiser mesmo vencer, vai dar o fora de Cleveland rapidinho.
Minhas defesas ao Cavs sempre foram de que o time, ainda que pobre financeiramente, meio Chavinho do Oito, nunca poupou esforços para dar ao LeBron o melhor elenco disponível. O elenco que recebeu LeBron à NBA era horrendo, nível Preta Gil, e todo o possível foi feito para transformá-lo em algo pelo menos do nível "comia, mas não contava". Por vezes as contratações e as trocas pareciam até aleatórias, como se o Cavs não soubesse bem que tipo de time estava montando mas quizesse mostrar serviço, pelo menos dar uma mudada no elenco. Tipo um estagiário fazendo qualquer coisa, estabanado, pro patrão ficar contente. Perto de outros estagiários, que observam a empresa morrendo e cospem em cima (tipo eu, ou tipo e o Warriors) até que o Cavs se saiu muitíssimo bem. O Mo Williams, que me parecia a peça mais idiota na época da contratação (achei que ele fosse levar o LeBron à loucura sendo um fominha biruta) conseguiu até enganar todo mundo e virar All-Star. Então por que o LeBron sairia dessa organização comprometida em mudar de novo, outra vez, quantas forem necessárias, mesmo se afundando em dívidas, até que sua estrela ganhe um anel de campeão?
São dois pontos cruciais. O primeiro que vamos abordar é o técnico. As vitórias que LeBron e o resto do elenco conseguem camuflam a falta de capacidade da comissão técnica. Recentemente o Denis colocou aqui no blog um vídeo com os pontos que LeBron marcou em seu primeiro jogo na NBA, e eu fiquei monstruosamente chocado:
Por favor, pra quem não viu no post original, assistam a esse vídeo, é assustador. Nele, é possível ver LeBron participando de jogadas DESENHADAS para que ele receba a bola. Sério, jogadas de verdade. Juro que o vídeo não é montagem, não tem Photoshop. Quando chegou no Cavs como novato, o técnico era Paul Silas e, olha só que bizarro, ele DESENHAVA jogadas ofensivas! Não é estranho? Porque depois de ver o Mike Brown como treinador, dá a impressão de que ser técnico de basquete é apenas sentar no banco, ser um cara legal e tomar umas faltas técnicas de vez em quando pra lembrarem de que você existe.
No vídeo acima dá pra ver um LeBron cru, com movimentos que abandonou conforme foi amadurecendo, mas que é bastante eficiente ao participar de um esquema tático. O mais estranho é que LeBron era o armador daquele time na maior parte dos jogos, e mesmo assim existem jogadas planejadas para que ele finalize. Isso nunca mais aconteceu no Cavs e LeBron não pode passar a carreira inteira sofrendo por causa disso. Kobe e Jordan tiveram Phil Jackson, por que o coitado do LeBron tem que ter o Mike Brown? Parece que ele gastou todos os pontos de experiência em "força física de um cavalo" e esqueceu de comprar um técnico decente achando que não ia mudar nada na ficha de personagem.
É hora, então, do LeBron ir atrás de um técnico. Para o Cavs, é muito difícil demitir Mike Brown. É uma questão de ética, de boa educação, tipo não colocar os cotovelos na mesa: como você demite um técnico que ganha mais de 60 partidas com um time em todas as temporadas? Não rola. Mike Brown está comodamente escondido atrás da aura de LeBron James. E como o Cavs não vai mandar o cara vender pipoca, o LeBron vai ter que arrumar um técnico em outro lugar. A escolha óbvia, aqui, é Mike D'Antoni, técnico do Knicks. Os dois já jogaram juntos na seleção americana e o LeBron ficou fascinado com as movimentações ofensivas (deve ser como crianças se sentem ao ver o mar pela primeira vez), mas existe o erro do excesso. Criança que é obrigada a só comer brócolis, quando ganha liberdade, tende a só comer chocolate, e ninguém sobrevive comendo só chocolate por muito tempo. Depois de tanto tempo num time que só defende, o LeBron pode correr pro colo do D'Antoni só para desforrar e jogar num time que só ataca. Mas assim com o Cavs não ganhava só na defesa, o D'Antoni nunca ganhou nada só no ataque. Dá pra entender se o LeBron infantilmente quiser fugir para o outro extremo, mas desconfio que não deve dar muito certo.
Outros times com técnicos razoáveis são também uma opção, mas nesse caso em especial eu prefiro uma escolha hipotética, saída diretamente do inútil mundo da boataria. As ofertas para que o técnico Mike Krzyzewski, lenda universitária, vá para a NBA nunca param, mas podem ficar muito tentadoras quando envolverem treinar LeBron James. Fala-se muito sobre um possível projeto de reconstrução do Nets que envolveria um novo dono, uma mudança de cidade, o Coach K e a primeira escolha do draft para convencer LeBron a jogar por lá. Faz bastante sentido, porque o elenco do Nets é muitíssimo melhor do que parece, e pegaria muito bem para o LeBron chegar nos playoffs com um time que quase bateu o recorde de pior campanha da NBA - se beneficiando secretamente de bons jogadores que ninguém sabe que são bons de verdade e, talvez, de um técnico genial. A equipe vai se mudar para o Brooklyn em breve e aí o LeBron estaria em New York como quer tanto o pessoal que vive de propaganda. O primeiro golpe nesse projeto do Nets foi que eles são tão azarados, mas tão azarados, que acabaram com a terceira escolha ao invés da primeira, então não vai ter a tentadora presença de John Wall por lá (deve ir para o Wizards tirar duelo de pistola com a Arenas, mais disso a gente fala depois). Funhé. Ainda assim, é uma possibildade.
Mas existe outro ponto crucial, além do treinador, para que LeBron saia do Cavs: mercado. Cleveland é um lugar famoso por ser uma joça, por estar falido e por "pelo menos não ser Detroit". Em New York, LeBron poderia se tornar um bilionário apenas com vendas de camisetas. Na verdade, se apenas os turistas que visitam o Madison Square Garden tivessem o acesso para comprar as camisetas, as vendas já seriam centenas de vezes superiores ao que são agora, com LeBron em Cleveland.
Essa possibilidade financeira abre um caminho único para LeBron James. Como vimos acima, o que importa na carreira de um jogador são as vitórias. O esporte ficou assim, dependente das vitórias, quando tornou-se uma fonte tão gigantesca de renda para os que trabalham com ele. O esporte é uma empresa, os funcionários precisam gerar lucro. Quando você vê algum vovôzinho falar sobre o esporte poético, sobre o futebol-arte ou alguma coisa emo desse tipo, é porque está falando do esporte amador, ou quase-amador, em que a pessoa pratica aquilo por amor, e a vitória é apenas secundária. Agora, o esportista deve fazer tudo para alcançar a vitória assim como um empresário engravatado, os escrúpulos existem apenas se eles pegarem bem com os clientes e gerarem, por isso, mais lucros. Os ursos só param de ser chacinados pelas empresas alimentícias porque hoje em dia dizer que você é "ecologicamente correto" lhe dá um aumento percentual nas vendas. Do mesmo modo, o Bruce Bowen pararia de torcer tornozelos apenas se isso deixasse a torcida mais feliz, satisfeita e comprando mais camisetas e burritos - mas não é o caso, o que importa é a vitória (como os torcedores do Spurs sabem tão bem). O esporte, como insisto em dizer, é a continuação do mundo, não um universo à parte. Então como fazemos parte de uma cultura obcecada pelo sucesso e pela vitória, esperamos sucesso e vitória dos esportistas pelos quais torcemos, custe o que custar. De novo, o esporte é apenas uma janela, um recorte, pela qual podemos ver melhor o mundo: na quadra fica mais claro como as pessoas só se importam em vencer, fazem o que for necessário, enquanto nas ruas e no escritório ocorre o mesmo mas de forma mais velada. O pessoal se sacaneia para conseguir uma promoção, mas não fala disso no seu Twitter.
LeBron precisa vencer, é para isso que ele está na NBA. Foi isso que ele repetiu diversas vezes na coletiva de imprensa, que é apenas com isso que ele se importa. Mas é claro que não é verdade: ele, assim como todos os outros jogadores e a esmagadora maioria das pessoas do planeta, se importa também com ganhar dinheiro. Todo mundo na NBA procura o maior salário que puder agarrar, o Zach Randolph reclama de ganhar salários menores do que jogadores que ele acha serem inferiores (agora deu pra dizer que quer o mesmo salário que o Pau Gasol, por ser tão bom quanto ou até melhor), e muitas das estrelas que assinarão contratos na temporada que vem procuram "salários máximos", o valor máximo estipulado pelas regras da NBA. Alguns não conseguirão, mas Dwyane Wade e LeBron James, por exemplo, devem alcançar tal marca. É assim que funciona, os melhores vão receber a remuneração devida pelas regras do jogo.
O Knicks tem grana o bastante para assinar duas estrelas de salário máximo, por exemplo. Acaba funcionando como um jogo de videogame em que cada membro da equipe tem um valor em pontos e, pra não ficar apelão, existe um máximo de pontos que cada time pode ter. Mas é aqui que LeBron James pode subverter essa relação universal com o capital. Como um dos melhores e mais famosos jogadores dos nossos tempos, LeBron tem uma oportunidade única na história: ele pode mandar o salário às favas.
Funciona assim: se for para New York (ou para o Brooklyn), por exemplo, LeBron pode re-assinar um contrato milionário com a Nike e outras diversas empresas, ganhando mais do que nunca por estar num mercado de enorme exposição, público e poder de compra inigualável. Um grupo de investidores pode se unir e financiar, em troca de propagandas, um salário de 10 milhões anuais para LeBron, ou até mais. Seria o bastante para que ele ficasse rico, garantisse o resto de sua vida, mantivesse o mesmo padrão biliardário que conquistou. E pudesse assinar um contrato com o Knicks ou o Nets de "apenas" 2 milhões por temporada, ou quanto for o mínimo permitido para veteranos segundo as normas da temporada que vem. Sem mudar um centavo em sua vida, e se realmente "vencer" é aquilo que mais lhe importa, LeBron pode mandar as regras para a privada e competir num Knicks com outras duas estrelas de salário máximo, como Wade e Bosh, por exemplo. Que tal?
Financeiramente falando, LeBron nem precisaria do apoio de investidores ou de assinar contratos publicitários gigantescos, bastaria assinar o contrato de 2 milhões e qualquer um já pode levar uma vida fantástica, nada modesta, para sempre (é só não comprar casa pra todo mundo que cruza o seu caminho e nem apostar 10 milhões num cassino toda semana, né, Antonie Walker?). Diabos, o LeBron pode até assinar um contrato de 5 ou 6 milhões e viver numa casa de ouro com piscina de champagne ainda assim sem quebrar o cofre do Knicks.
O esporte foi completamente tomado pela mentalidade corporativa, onde só importa a vitória, cumprir as metas, e ganhar salários maiores do que se pode engolir ou enfiar na orelha. Quando fazem algo a respeito, é apenas um Karl Malone velho abrindo mão da grana para ganhar um anel desesperado em seu último ano de NBA para não voltar para casa e ser chamado de perdedor por uma legião de fãs que só se importam com a vitória. E se uma grande estrela em seu auge, que ainda não está desesperada, fizesse isso? E se LeBron tivesse coragem para tornar isso uma tendência? Ganharia certamente todos os anéis de campeão possíveis durante a extensão do seu contrato (como perder com Wade, Bosh e D'Antonni), e na hora de assinar novos contratos outros iriam querer (ou teriam que) fazer também. Vale mais a pena jogar com um técnico de verdade, com Wade, com Bosh, sair vencedor de quadra, ou ganhar um salário de 20 milhões anuais? Hein?
O discurso do LeBron só fala em vencer, vencer, vencer. É o único jeito dele se safar dessa legião burra que não lhe para de tacar cocô. Mas até onde ele está disposto a levar esse discurso, ou é apenas um barulhinho que ele faz com a boca para se safar de que pensem que "ele não se importa"? Dificilmente o veremos assinar um contratinho mixuruca, mas da próxima vez ouvirei seu discurso sobre vitórias de um modo diferente, porque ele vai ter escolhido aquilo que lhe cair sobre a cabeça. O único modo de escapar do mundo burro é fazer diferente. Será que ele é capaz?
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Danilo
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