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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Para falar de Lin, não da Linsanity

Mais famoso que John Lennon, que era mais famoso que Jesus Cristo, que...

A imprensa, ou a mídia em geral, sabe como destruir um assunto interessante. Ela faz isso o tempo inteiro, aliás. Se uma música faz sucesso, tocam até ela se tornar a que você mais odeia na vida. Se alguém faz algo de interessante, tudo o que essa pessoa faz vira notícia, até se cutuca o nariz ou almoça salada com frango. Pensando nisso hesitei muito em começar esse post sobre o Jeremy Lin, que acaba de aparecer pela segunda semana seguida na capa da revista Sports Illustrated, a mais importante sobre esportes nos EUA. Ele também já foi capa da TIME e aqui no Brasil até na Globo já apareceu. Outro dia até vi uma notícia rápida sobre ele naquela TV Minuto que fica passando manchetes dentro do Metrô de São Paulo. Sobre LeBron James ou Kobe Bryant não lembro de ter visto nada.

Essa atenção exagerada quase me fez desistir de falar sobre Linsanity. Ou melhor, me fez desistir sim, ao invés de falar sobre a Linsanity, vou falar apenas sobre Jeremy Lin. Nade de fanatismo, histórias curiosas, o passado diferente da maioria dos jogadores ou tudo o que eu sei que vocês já leram. É hora de uma análise basquetebolística: Por que esse novo armador fez o New York Knicks voltar a vencer? Continuará a dar certo?

Antes vamos entender por que estava dando errado. Para isso ajuda ler esse post que fiz um tempo atrás, falando de Knicks e Lakers. Nele tento deixar claro que por mais que se tente colocar a culpa das falhas do Knicks no técnico Mike D'Antoni, não acho que ele seja de todo mal. É limitado, não sabe se adaptar aos diferentes tipos de elenco, mas o contrataram sabendo disso e não deram pra ele o que precisava. Pelo contrário, parece que deram o oposto. Talvez não haja na NBA jogador que menos combine com D'Antoni do que Carmelo Anthony.

O famoso "7 seconds or less" que D'Antoni usou no Phoenix Suns não existe no Knicks, mas alguns dos princípios são parecidos. Entre eles o de fazer muitos bloqueios para quem controla e bola e o desejo de espaçamento da quadra, evitando aglomeração no garrafão e obrigando a defesa a abrir para cobrir todos os arremessadores do time. Não podemos esquecer do detalhe de que esses arremessadores não podem ficar em qualquer lugar, uma das bolas mais mortais daquele Suns eram as da zona morta. De Joe Johnson até Leandrinho, passando por Raja Bell, muitos se consagraram com o chute lá do cantinho. Ela obriga a defesa a abrir mais que o normal, dando espaço para a infiltração ou liberando o arremesso em caso de ajuda. Isso não é nem exclusividade de D'Antoni, é um princípio básico de qualquer esquema baseado em abrir espaço na quadra. O Spurs usou muito isso com Bruce Bowen, era o cara que sobrava sempre que dobravam a marcação sobre Tim Duncan.

E o que tudo isso tem a ver com Carmelo Anthony? Um olheiro da NBA entrevistado pelo Eye on Basketball lembra bem que o lugar onde Carmelo mais gosta de atuar é o menos indicado para espaçar a quadra. É na diagonal da cesta, não muito perto do garrafão e nem na linha dos 3 pontos, mas no meio termo. Não tem espaço para o pivô receber a bola e embola o arremessador da zona morta. Sem Melo, contra o Mavs, o Knicks acertou 5 bolas de 3 pontos da zona morta e errou 3, contra o Nets, com o time completo, foram 3 erros e só um acerto.

Mas não que Melo seja burro ou se posicione mal, é uma posição mortal e perfeita para as jogadas de isolação. Carmelo pode jogar de costas pra cesta, de frente, driblar, arremessar na cara, infiltrar para os dois lados e até dar um step back e chutar de 3 pontos. Nesse ponto da quadra ele vira imprevisível e perigoso.

O problema é que o Knicks não queria isso, queria outras jogadas, queria os bloqueios para poder envolver Amar'e Stoudemire e Tyson Chandler no jogo. E aí vinham outros problemas: Se Amar'e virar o homem do bloqueio no pick-and-roll, onde fica Chandler? Embolando o garrafão para impedir Stoudemire de infiltrar? Ou longe da cesta, onde é inútil? A solução foi fazer a maior parte dos bloqueios com Chandler e deixar Amar'e no chamado "weak side" da quadra, no lado oposto dos bloqueios, esperando o colapso da defesa para receber a bola. Ou seja: Carmelo e Amar'e faziam coisas que não eram suas melhores armas só para se encaixar no esquema. Lógico que estava dando errado.

Aí chegou Jeremy Lin. Pouco depois Carmelo Anthony se machucou e Amar'e Stoudemire se afastou devido ao falecimento de seu irmão. Isso fez com que D'Antoni pudesse acabar com todas as improvisações, era só seu armador comandar o show, o pivô fazer os bloqueios e os outros jogadores se posicionarem bem abertos na quadra, com eventuais cortes em direção à cesta. Com isso Landry Fields, que tem ótimo senso de posicionamento, começou a pontuar mais, Tyson Chandler passou a receber um bom passe atrás do outro embaixo da cesta e Steve Novak passou a ser arma mortal dos 3 pontos. Até Iman Shumpert se beneficiou mesmo indo para o banco, ao invés de causar impressão ruim por más decisões tomadas com a bola passou a chamar a atenção pela excelente defesa.

Nas palavras do próprio D'Antoni, o segredo do sucesso de Lin no time é simples: "Ele pensa como armador e joga como armador". A defesa do Knicks, por mais estranho que isso seja se levarmos em consideração os últimos anos, já estava bem, bastou o ataque se organizar que tudo passou a fluir com eficiência assustadora. Some isso à confiança absurda de Lin, a forma com que o time abraçou a Linsanity de maneira positiva e temos um caso de sucesso.

Tem outras coisas interessantes nesse êxito do Jeremy Lin. Todo time que tem sucesso nesse tal espaçamento da quadra tem que ter uma ameaça no garrafão. É assim com o Magic e Dwight Howard, era assim com todo time que o Shaquille O'Neal jogou, foram assim os bons times do Spurs com Tim Duncan. Mas o Phoenix Suns que matava todo mundo de 3 pontos não era assim por causa de Amar'e Stoudemire, tanto que manteve sucesso mesmo quando ele se machucou e usaram o Boris Diaw de pivô, a grande ameaça ao garrafão adversário era o Steve Nash. A capacidade do Nash de usar múltiplos bloqueios e manter o drible vivo obrigava os adversários a sempre mandar ajuda para cobri-lo. Ele é bom arremessador, tem boa bandeja com qualquer uma das mãos e forçava o outro time a correr pra cima dele, aí era só distribuir os passes e os arremessos caíam.

Nesse Knicks agora acontece a mesma coisa. Amar'e Stoudemire não era ameaça porque jogava longe da bola, Chandler não é grande jogador ofensivo e Carmelo Anthony tem jogo baseado na meia distância. Nesse novo time Jeremy Lin passou a ser o homem do garrafão, suas impressionantes infiltrações não estão conseguindo ser paradas por ninguém. Por mais que não pareça, ele tem muita força e é capaz de finalizar mesmo sofrendo marcação bem pesada fisicamente. Entre todos os armadores da NBA, ele é o 5º em porcentagem de seus pontos marcados no garrafão. Apenas caras como Derrick Rose e Tony Parker estão à sua frente. Basta ele passar por seu marcador que a defesa tem que se mexer e aí a máquina do D'Antoni funciona do jeito que ele sempre quis.

Agora vamos tentar dar umas respostas menos óbvias do que as lidas por aí para algumas perguntas que estão pipocando pela internet:

- Jeremy Lin vai dar certo por mais tempo ou é fogo de palha?


Tem jogadores que atuam bem por uma temporada inteira antes de cair muito de produção. Lembram do Channing Frye, que era "introcável" no seu primeiro ano no mesmo Knicks? É divertido até ficar brincando de prever o futuro às vezes, eu costumava fazer posts de Mãe Dinah sobre os novatos, mas no fundo não é mais do que uma adivinhação com só um pouquinho de base racional. Não dá pra saber no que vai dar. O próprio Jeremy Lin é uma prova de como coisas improváveis podem acontecer.

O que sabemos é que até agora ele mostrou características de jogadores que costumam dar certo na NBA: Treina bastante, tem cabeça para lidar com pressão e expectativas, boa visão de jogo e capacidade para criar o próprio arremesso. Dá pra dizer com alguma certeza que ele tem lugar na liga por um bom tempo, com que nível e responsabilidade dentro do time é melhor esperar mais tempo antes de responder.

- Não estão exagerando com o Lin? Ele comete muitos turnovers!


Até agora a média de Jeremy Lin é de 3.4 desperdícios de bola por jogo. É bastante? Sim, mas não absurdo. Russell Westbrook lidera a NBA com 4.2 turnovers por jogo, empatado com John Wall e Deron Williams. Pouco abaixo deles aparecem Kobe Bryant, Steve Nash, LeBron James e, empatado com Lin, Ricky Rubio. 

Todos tem em comum o fato de serem jogadores espetaculares. O Russell Westbrook é fora de série, talentosíssimo e é sua função e característica controlar a bola durante boa parte do tempo pelo Thunder, além de tentar costurar a defesa adversária sempre que possível. Ele é ótimo nisso, mas eventualmente erra. Em alguns jogos esses erros custam mais caro, alguns podem ser bobos, mas olhando o geral vale a pena. Não é à toa que o Thunder nem cogita trocar Westbrook, pelo contrário, já ofereceu uma extensão de contrato bem grande e gorda. O mesmo vale para Kobe Bryant, volta e meia ele tem jogos com 7 ou até 10 desperdícios. Acontece. Ele é o começo, meio e fim do ataque do Lakers, tudo passa por ele em todas as situações de jogo, erros vão acontecer.

O estranho nessa história toda é o Lin ser, de repente, tão importante para o ataque do Knicks, não que cometa erros por ser tão importante. Alguns anos atrás, John Hollinger, um dos grandes especialistas em estatísticas na ESPN gringa, escreveu um texto sobre armadores jovens. Ele dizia que apesar de todo o hype em cima do OJ Mayo e de Derrick Rose, ele apostava que Westbrook seria o melhor depois de alguns anos. E dizia, "Ele tem mais turnovers que os outros dois, mas por incrível que pareça jogadores com mais erros como novatos costumam ter evolução maior nos anos seguintes".

Curioso pelo lado estatístico dessa afirmação, o Ian Levy, do Hickory-High, foi fazer uma pesquisa com números sobre o tema. Ele encontrou dificuldades porque é algo difícil de medir. Hoje claramente Kobe protege melhor a bola do que quando era um jovem jogador, mas não necessariamente isso se reflete só no número de turnovers cometidos. De qualquer forma ele fez um levantamento com vários jogadores, comparando seus anos de novato com a média da carreira. Nenhum grande padrão se revelou exatamente como Hollinger afirmou, mas é bem claro que boa parte dos jogadores passaram a ter um número de erro por posse de bola bem menor com o passar dos anos. Em outras palavras, o óbvio: Lin erra bastante, mas não muito mais ou menos que qualquer outro armador jovem na NBA. A afirmação de Hollinger não pode ser totalmente comprovada por números, mas a história mostra que muitos armadores que começaram a carreira cometendo muitos erros não deixaram de ser grandes jogadores por isso.

O que talvez seja mais importante e que Ian também fez em seu post é descobrir que erros ele comete. Ele compara os erros de Jeremy Lin com o de outro novato que perde bastante a bola, Kyrie Irving.



Jeremy Lin é bem cuidadoso com as faltas de ataque para alguém que infiltra tanto, também erra até menos em passes que Kyrie Irving. Seu problema mesmo está no controle do drible. As infiltrações em lugares complicados, tentar manter o drible vivo mesmo dentro do garrafão, essas tem sido as maiores fontes de erros para o armador do Knicks. Nada muito preocupante, acho. Fazer isso é difícil para qualquer armador e é bem mais fácil de treinar e ganhar experiência do que o passe, esse um talento mais difícil de aprender. Daqui uns anos Irving e Lin podem muito bem serem provas vivas da teoria de Hollinger.

- Lin é previsível, bate sempre para a direita!


Essa eu ouvi bastante semana passada e acho uma bobagem sem tamanho. Só ver alguns jogos dele, ou até só os melhores momentos, para ver como ele tem capacidade e talento para cortar e infiltrar para os dois lados. Tem apenas uma preferência. Mas até aí o Tim Duncan prefere receber a bola do lado direito do garrafão, o Ginóbili gosta de cortar para a esquerda, o Ricky Rubio prefere receber o bloqueio no seu lado esquerdo, o Paul Pierce gosta de arremessar driblando para a direita, o Tyreke Evans usa e abusa do Euro-Step e por aí vai. Todo mundo tem preferências e a liga inteira sabe quais são, parar elas é que é um trabalho muito mais difícil. E até agora ninguém parou Lin.


- Tá bom, mas ele pode jogar ao lado de Carmelo Anthony?

Eu acho que pode, mas alguns ajustes devem ser feitos. O primeiro deles é que se D'Antoni é o técnico e ele só sabe montar o time de um jeito, que seja esse. O sistema está dando certo para Lin, Novak, Chandler, Jeffries, Fields e Shumpert. Todos melhoraram individualmente com ele e as vitórias apareceram. Cabe a Melo e Stoudemire se adaptarem.

Para Melo é só ele aceitar que não precisa agir como macho alfa para ser a estrela do time. Todo mundo sabe que ele é o jogador com mais talentos e recursos no elenco, mas não é por isso que ele deve controlar a bola o tempo todo e chutar mais que o resto do mundo inteiro. Carmelo é tão completo que eu acho ele um dos poucos jogadores na NBA que podem ser cestinha de um time mesmo arremessando pouco, e deveria usar isso a seu favor. Lembra na seleção americana como várias vezes o jogo acabava com show de Kobe ou LeBron e no fim das contas o cestinha do time tinha sido Carmelo Anthony? Um arremesso de 3 aqui, um contra-ataque ali, uma bola que sobrou ali e ele mata todas, fazia 20 pontos sem ninguém nem citar o nome dele.

Já que comparamos tanto esse Knicks ao velho Suns de D'Antoni, Melo seria o Shawn Marion: Tem pouquíssimas jogadas desenhadas pra ele mas mesmo assim faz 20 pontos por jogo. Melo nem precisa ser tão extremo, já que tem cem vezes mais recursos de ataque que Marion, mas pode usar sua versatilidade ofensiva para se movimentar com liberdade no ataque e fazer pontos de qualquer canto da quadra. Mais produtivo, veloz e eficiente do que ficar isolando ele o tempo todo.

A situação de Amar'e Stoudemire é mais delicada porque não consigo lembrar de uma vez que ele tenha jogado ao lado de um pivô e que tenha dado certo. Lembra quando ele jogou com o Shaq no Suns? Os dois reclamavam de não ter espaço, do garrafão embolado e o time nunca embalou. Amar'e não gosta de jogar de costas para a cesta, prefere se virar e bater pra dentro, para isso precisa de espaço e ninguém na cobertura de seu defensor. Com Chandler lá é o contrário que acontece. A solução de usá-lo do lado oposto do pick-and-roll é até funcional porque ele tem bom arremesso de meia distância, mas isso é função de um Udonis Haslem da vida, não de um cara caro e completo como é Stoudemire. Sei que mesmo quando não está em seus melhores dias e mesmo quando não é tão bem aproveitado, o pivô é bom o bastante para conseguir seus pontos. Acho que é um problema que pode ser resolvido ou contornado sem que o time perca muitos jogos por causa disso. Será que é ousadia demais pensar em usar Amar'e numa espécie de time reserva com Baron Davis e JR Smith, enquanto Chandler passa mais tempo com Carmelo e Lin no time titular?

Não é de surpreender que falem tão pouco do lado do basquete na história de Jeremy Lin. É simples demais. O Mike D'Antoni não sabia como contornar sua necessidade de um armador agressivo que se tornasse a ameaça ao garrafão adversário, achou um jovem que se destacou na Liga de Desenvolvimento da NBA e o contratou. Deu certo. Sem falar de nomes de faculdade ou etnia a história não parece tão boa assim, mas a revolução dentro da quadra é enorme e merece, também, toda atenção do mundo.

8 ou 80
As estatísticas bizarras de Jeremy Lin

- Jeremy Lin é o jogador que mais marcou pontos em seus primeiros 8 jogos como titular na NBA. Apenas Michael Jordan, Bernard King, Shaquille O'Neal e Brandon Jennings marcaram mais que os 200 de Lin. Em assistências, nem Magic Johnson ou Isiah Thomas conseguiram números melhores que os de Lin em seus primeiros 8 jogos como titular.

- Voltando aos turnovers. Lin foi o primeiro jogador da história a ter pelo menos 6 desperdícios de bola em 6 jogos seguidos. Se compensa, seu time venceu 5 dessas partidas.

- O Knicks marca apenas 40% de seus pontos no garrafão quando Jeremy Lin está fora da quadra, o número sobre para 47% quando ele está jogando. Outro número que sobe é o aproveitamento de arremessos: 48% com ele jogando, 41% com Lin fora da quadra.

sábado, 22 de maio de 2010

LeBron e o capital

LeBron pode vencer a mentalidade corporativa
se decidir não enfiar dinheiro na orelha


Quem acompanha o Bola Presa sabe que temos horror ao debate "quem é melhor" e todas as inimizades que ele levanta. Se já não bastasse esse tipo de questionamento ser completamente impossível de ser feito adequadamente por ter que levar em conta aspectos demais (elenco, técnico, momento histórico, adversários, situação econômica global, programação da Record), ainda temos o ódio de quem defende um lado por quem defende o outro, impedindo que ambos os jogadores sejam apreciados como merecem. Como ficou claro numa questão do "Both Teams Played Hard" dia desses, um defensor do Kobe acaba tendo que odiar LeBron apenas para proteger seu ídolo das comparações desnecessárias. Aquele que cresceu com Michael Jordan construindo seu imaginário e associando-o às deliciosas memórias de infância é, agora, obrigado a odiar LeBron para defender seu ídolo máximo das comparações com alguém que, novo demais, não as merece. Protegendo a própria infância, as memórias felizes de madrugadas vendo o Jordan jogar numa transmissão mequetrefe da Bandeirantes, muitos fãs criam um culto de ódio irracional contra os melhores jogadores do planeta. Isso não deveria ter que acontecer: admirar alguém jogar não deveria ter nada a ver com as lembranças ou com a apreciação de outros jogadores. Mas acontece, e por isso a eliminação de LeBron dos playoffs foi um gozo coletivo similar a um lançamento de uma Playboy da Sandy.

As críticas e o descontentamento com a última atuação de LeBron chegaram a um ponto em que torcedores dizem que o time estaria melhor sem ele, ou que algumas equipes que guardaram tanta grana para contratar uma estrela ao fim dessa temporada deveriam gastar com outro jogador que não ele. Prefiro imaginar que as pessoas que dizem isso confundiram o LeBron James com o JJ Hickson, que são mais ou menos parecidos se a tua televisão for muito ruim. Se alguém soltar um "o LeBron não fez nada no jogo, mas tinha um outro cara no Cavs que fez um triple-double", aí já sabemos que a confusão aconteceu.

LeBron é provavelmente o jogador mais odiado da NBA no momento e ele bem sabe que não adianta se defender. Seu técnico é patético, o time não tem jogadas ofensivas, e o elenco de talento não fez nada, o que na prática é a mesma coisa que não tê-lo, mas não há desculpa. O Celtics foi muito superior, a reação do Cavs durou pouco, todos estavam exaustos e o time humildemente aceitou a derrota no minuto final. O que para mim foi um gesto de respeito, similar ao jogador de xadrez que derruba o próprio rei quando a derrota é iminente (é falta de respeito prolongar a partida desnecessariamente até tomar um xeque-mate) e me tirou sorrisos quando aconteceu, foi para o resto do mundo uma desistência imperdoável de um jogador covarde. Não há defesa, o único modo de escapar a esse criticismo seria sair de quadra com a vitória.

O LeBron James não é burro. Na entrevista coletiva após a partida, repetiu um par de vezes que "só lhe interessa a vitória", que ele "só quer vencer". Seu modo de jogo, suas decisões, sua personalidade e sua história de vida serão julgadas em relação às suas vitórias e derrotas, e ele sabe disso. Seu fardo é um mundo sem desculpas: se o ginásio desabar, ele que segure o teto, leve os fãs para uma área segura, lhes fornece comida e água, salve as duas tabelas da quadra e então acerte o arremesso da vitória. É o que o Jordan faria. LeBron rapidamente entendeu que precisa vencer jogos para ter alguma chance, mas eventualmente precisará entender que não se pode competir com as memórias. Sabe aquela coisa de que, na sua memória, teve uma chuva de meteoros épica quando você tomou aquele fora da guria gostosinha e nada vai te convencer do contrário 10 anos depois? O reconhecimento para LeBron virá apenas quando for tarde demais e ele tiver reumatismo. Até lá, precisa dar um jeito de segurar as pontas.

O plano de LeBron, então, é simples: vencer imediatamente, e muito. Por diversas vezes indiquei no Bola Presa que LeBron provavelmente não sairia do Cavs e que não iria nem fodendo para o Knicks. Agora abaixo a cabeça, escondendo o rosto pra ver se ninguém me reconhece na rua, e mudo de ideia. Se o LeBron tiver um pouco de cérebro e quiser mesmo vencer, vai dar o fora de Cleveland rapidinho.

Minhas defesas ao Cavs sempre foram de que o time, ainda que pobre financeiramente, meio Chavinho do Oito, nunca poupou esforços para dar ao LeBron o melhor elenco disponível. O elenco que recebeu LeBron à NBA era horrendo, nível Preta Gil, e todo o possível foi feito para transformá-lo em algo pelo menos do nível "comia, mas não contava". Por vezes as contratações e as trocas pareciam até aleatórias, como se o Cavs não soubesse bem que tipo de time estava montando mas quizesse mostrar serviço, pelo menos dar uma mudada no elenco. Tipo um estagiário fazendo qualquer coisa, estabanado, pro patrão ficar contente. Perto de outros estagiários, que observam a empresa morrendo e cospem em cima (tipo eu, ou tipo e o Warriors) até que o Cavs se saiu muitíssimo bem. O Mo Williams, que me parecia a peça mais idiota na época da contratação (achei que ele fosse levar o LeBron à loucura sendo um fominha biruta) conseguiu até enganar todo mundo e virar All-Star. Então por que o LeBron sairia dessa organização comprometida em mudar de novo, outra vez, quantas forem necessárias, mesmo se afundando em dívidas, até que sua estrela ganhe um anel de campeão?

São dois pontos cruciais. O primeiro que vamos abordar é o técnico. As vitórias que LeBron e o resto do elenco conseguem camuflam a falta de capacidade da comissão técnica. Recentemente o Denis colocou aqui no blog um vídeo com os pontos que LeBron marcou em seu primeiro jogo na NBA, e eu fiquei monstruosamente chocado:





Por favor, pra quem não viu no post original, assistam a esse vídeo, é assustador. Nele, é possível ver LeBron participando de jogadas DESENHADAS para que ele receba a bola. Sério, jogadas de verdade. Juro que o vídeo não é montagem, não tem Photoshop. Quando chegou no Cavs como novato, o técnico era Paul Silas e, olha só que bizarro, ele DESENHAVA jogadas ofensivas! Não é estranho? Porque depois de ver o Mike Brown como treinador, dá a impressão de que ser técnico de basquete é apenas sentar no banco, ser um cara legal e tomar umas faltas técnicas de vez em quando pra lembrarem de que você existe.

No vídeo acima dá pra ver um LeBron cru, com movimentos que abandonou conforme foi amadurecendo, mas que é bastante eficiente ao participar de um esquema tático. O mais estranho é que LeBron era o armador daquele time na maior parte dos jogos, e mesmo assim existem jogadas planejadas para que ele finalize. Isso nunca mais aconteceu no Cavs e LeBron não pode passar a carreira inteira sofrendo por causa disso. Kobe e Jordan tiveram Phil Jackson, por que o coitado do LeBron tem que ter o Mike Brown? Parece que ele gastou todos os pontos de experiência em "força física de um cavalo" e esqueceu de comprar um técnico decente achando que não ia mudar nada na ficha de personagem.

É hora, então, do LeBron ir atrás de um técnico. Para o Cavs, é muito difícil demitir Mike Brown. É uma questão de ética, de boa educação, tipo não colocar os cotovelos na mesa: como você demite um técnico que ganha mais de 60 partidas com um time em todas as temporadas? Não rola. Mike Brown está comodamente escondido atrás da aura de LeBron James. E como o Cavs não vai mandar o cara vender pipoca, o LeBron vai ter que arrumar um técnico em outro lugar. A escolha óbvia, aqui, é Mike D'Antoni, técnico do Knicks. Os dois já jogaram juntos na seleção americana e o LeBron ficou fascinado com as movimentações ofensivas (deve ser como crianças se sentem ao ver o mar pela primeira vez), mas existe o erro do excesso. Criança que é obrigada a só comer brócolis, quando ganha liberdade, tende a só comer chocolate, e ninguém sobrevive comendo só chocolate por muito tempo. Depois de tanto tempo num time que só defende, o LeBron pode correr pro colo do D'Antoni só para desforrar e jogar num time que só ataca. Mas assim com o Cavs não ganhava só na defesa, o D'Antoni nunca ganhou nada só no ataque. Dá pra entender se o LeBron infantilmente quiser fugir para o outro extremo, mas desconfio que não deve dar muito certo.

Outros times com técnicos razoáveis são também uma opção, mas nesse caso em especial eu prefiro uma escolha hipotética, saída diretamente do inútil mundo da boataria. As ofertas para que o técnico Mike Krzyzewski, lenda universitária, vá para a NBA nunca param, mas podem ficar muito tentadoras quando envolverem treinar LeBron James. Fala-se muito sobre um possível projeto de reconstrução do Nets que envolveria um novo dono, uma mudança de cidade, o Coach K e a primeira escolha do draft para convencer LeBron a jogar por lá. Faz bastante sentido, porque o elenco do Nets é muitíssimo melhor do que parece, e pegaria muito bem para o LeBron chegar nos playoffs com um time que quase bateu o recorde de pior campanha da NBA - se beneficiando secretamente de bons jogadores que ninguém sabe que são bons de verdade e, talvez, de um técnico genial. A equipe vai se mudar para o Brooklyn em breve e aí o LeBron estaria em New York como quer tanto o pessoal que vive de propaganda. O primeiro golpe nesse projeto do Nets foi que eles são tão azarados, mas tão azarados, que acabaram com a terceira escolha ao invés da primeira, então não vai ter a tentadora presença de John Wall por lá (deve ir para o Wizards tirar duelo de pistola com a Arenas, mais disso a gente fala depois). Funhé. Ainda assim, é uma possibildade.

Mas existe outro ponto crucial, além do treinador, para que LeBron saia do Cavs: mercado. Cleveland é um lugar famoso por ser uma joça, por estar falido e por "pelo menos não ser Detroit". Em New York, LeBron poderia se tornar um bilionário apenas com vendas de camisetas. Na verdade, se apenas os turistas que visitam o Madison Square Garden tivessem o acesso para comprar as camisetas, as vendas já seriam centenas de vezes superiores ao que são agora, com LeBron em Cleveland.

Essa possibilidade financeira abre um caminho único para LeBron James. Como vimos acima, o que importa na carreira de um jogador são as vitórias. O esporte ficou assim, dependente das vitórias, quando tornou-se uma fonte tão gigantesca de renda para os que trabalham com ele. O esporte é uma empresa, os funcionários precisam gerar lucro. Quando você vê algum vovôzinho falar sobre o esporte poético, sobre o futebol-arte ou alguma coisa emo desse tipo, é porque está falando do esporte amador, ou quase-amador, em que a pessoa pratica aquilo por amor, e a vitória é apenas secundária. Agora, o esportista deve fazer tudo para alcançar a vitória assim como um empresário engravatado, os escrúpulos existem apenas se eles pegarem bem com os clientes e gerarem, por isso, mais lucros. Os ursos só param de ser chacinados pelas empresas alimentícias porque hoje em dia dizer que você é "ecologicamente correto" lhe dá um aumento percentual nas vendas. Do mesmo modo, o Bruce Bowen pararia de torcer tornozelos apenas se isso deixasse a torcida mais feliz, satisfeita e comprando mais camisetas e burritos - mas não é o caso, o que importa é a vitória (como os torcedores do Spurs sabem tão bem). O esporte, como insisto em dizer, é a continuação do mundo, não um universo à parte. Então como fazemos parte de uma cultura obcecada pelo sucesso e pela vitória, esperamos sucesso e vitória dos esportistas pelos quais torcemos, custe o que custar. De novo, o esporte é apenas uma janela, um recorte, pela qual podemos ver melhor o mundo: na quadra fica mais claro como as pessoas só se importam em vencer, fazem o que for necessário, enquanto nas ruas e no escritório ocorre o mesmo mas de forma mais velada. O pessoal se sacaneia para conseguir uma promoção, mas não fala disso no seu Twitter.

LeBron precisa vencer, é para isso que ele está na NBA. Foi isso que ele repetiu diversas vezes na coletiva de imprensa, que é apenas com isso que ele se importa. Mas é claro que não é verdade: ele, assim como todos os outros jogadores e a esmagadora maioria das pessoas do planeta, se importa também com ganhar dinheiro. Todo mundo na NBA procura o maior salário que puder agarrar, o Zach Randolph reclama de ganhar salários menores do que jogadores que ele acha serem inferiores (agora deu pra dizer que quer o mesmo salário que o Pau Gasol, por ser tão bom quanto ou até melhor), e muitas das estrelas que assinarão contratos na temporada que vem procuram "salários máximos", o valor máximo estipulado pelas regras da NBA. Alguns não conseguirão, mas Dwyane Wade e LeBron James, por exemplo, devem alcançar tal marca. É assim que funciona, os melhores vão receber a remuneração devida pelas regras do jogo.

O Knicks tem grana o bastante para assinar duas estrelas de salário máximo, por exemplo. Acaba funcionando como um jogo de videogame em que cada membro da equipe tem um valor em pontos e, pra não ficar apelão, existe um máximo de pontos que cada time pode ter. Mas é aqui que LeBron James pode subverter essa relação universal com o capital. Como um dos melhores e mais famosos jogadores dos nossos tempos, LeBron tem uma oportunidade única na história: ele pode mandar o salário às favas.

Funciona assim: se for para New York (ou para o Brooklyn), por exemplo, LeBron pode re-assinar um contrato milionário com a Nike e outras diversas empresas, ganhando mais do que nunca por estar num mercado de enorme exposição, público e poder de compra inigualável. Um grupo de investidores pode se unir e financiar, em troca de propagandas, um salário de 10 milhões anuais para LeBron, ou até mais. Seria o bastante para que ele ficasse rico, garantisse o resto de sua vida, mantivesse o mesmo padrão biliardário que conquistou. E pudesse assinar um contrato com o Knicks ou o Nets de "apenas" 2 milhões por temporada, ou quanto for o mínimo permitido para veteranos segundo as normas da temporada que vem. Sem mudar um centavo em sua vida, e se realmente "vencer" é aquilo que mais lhe importa, LeBron pode mandar as regras para a privada e competir num Knicks com outras duas estrelas de salário máximo, como Wade e Bosh, por exemplo. Que tal?

Financeiramente falando, LeBron nem precisaria do apoio de investidores ou de assinar contratos publicitários gigantescos, bastaria assinar o contrato de 2 milhões e qualquer um já pode levar uma vida fantástica, nada modesta, para sempre (é só não comprar casa pra todo mundo que cruza o seu caminho e nem apostar 10 milhões num cassino toda semana, né, Antonie Walker?). Diabos, o LeBron pode até assinar um contrato de 5 ou 6 milhões e viver numa casa de ouro com piscina de champagne ainda assim sem quebrar o cofre do Knicks.

O esporte foi completamente tomado pela mentalidade corporativa, onde só importa a vitória, cumprir as metas, e ganhar salários maiores do que se pode engolir ou enfiar na orelha. Quando fazem algo a respeito, é apenas um Karl Malone velho abrindo mão da grana para ganhar um anel desesperado em seu último ano de NBA para não voltar para casa e ser chamado de perdedor por uma legião de fãs que só se importam com a vitória. E se uma grande estrela em seu auge, que ainda não está desesperada, fizesse isso? E se LeBron tivesse coragem para tornar isso uma tendência? Ganharia certamente todos os anéis de campeão possíveis durante a extensão do seu contrato (como perder com Wade, Bosh e D'Antonni), e na hora de assinar novos contratos outros iriam querer (ou teriam que) fazer também. Vale mais a pena jogar com um técnico de verdade, com Wade, com Bosh, sair vencedor de quadra, ou ganhar um salário de 20 milhões anuais? Hein?

O discurso do LeBron só fala em vencer, vencer, vencer. É o único jeito dele se safar dessa legião burra que não lhe para de tacar cocô. Mas até onde ele está disposto a levar esse discurso, ou é apenas um barulhinho que ele faz com a boca para se safar de que pensem que "ele não se importa"? Dificilmente o veremos assinar um contratinho mixuruca, mas da próxima vez ouvirei seu discurso sobre vitórias de um modo diferente, porque ele vai ter escolhido aquilo que lhe cair sobre a cabeça. O único modo de escapar do mundo burro é fazer diferente. Será que ele é capaz?

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Nate Robinson voltou

-Aaaaaah!

Olá pessoal, Bola Presa de volta depois de um pequeno recesso de ano-novo. Espero que tenham gostado do nosso show da virada. E eu tenho uma vida sim, não postei o último post à meia-noite e um, eu fiz o post antes e deixei programado pra ir ao ar no primeiro minuto do ano. Moderno, né? Coisas do século XXI.

Nesses dias fora a gente perdeu cerca de 20 jogos da temporada regular, foi angustiante mas deu pra correr atrás e ver tudo o que precisava. O grande momento desses dias do novo ano foi o jogo entre Atlanta Hawks e New York Knicks, a primeira prorrogação de 2010.

O Knicks venceu e o cestinha do jogo foi o Nate Robinson. Não, o bug do milênio não chegou atrasado e você não está lendo uma notícia atrasada, o Nate Robinson voltou e fez QUARENTA E UM pontos depois de ficar 14 jogos sem sequer pisar em quadra. Pelo jeito a resolução de ano novo do Mike D'Antoni foi perdoar as pessoas, dar uma nova chance a todos e ser um pouco mais tranquilo.

Os problemas entre o D'Antoni e o Nate Robinson já existem faz tempo. Começaram porque o jogador é um baita de um fominha! Ele é talentoso, ele sabe marcar pontos e joga com uma vontade e uma dedicação fora do comum, mas o seu "QI de basquete", essa expressão bizarra e feia que soa um pouco melhor em inglês, é igual ao de um macaco. Ele força arremessos em qualquer momento do jogo e força ainda mais no fim das partidas, é um cara qualquer metido a herói. Ele tem o espírito de Kobe e LeBron sem ter o talento deles.

Ele lembra bastante o JR Smith. Basta ver um jogo deles pra perceber que não são jogadores normais, eles podem fazer a diferença, o problema é que querem tanto decidir os jogos que às vezes definem para o lado errado. E o Nate Robinson está no time do Mike D'Antoni, um cara que valoriza demais o passe e a movimentação da bola. De que vale o time se espalhar pela quadra, espaçar bem a defesa adversária, se o que vem depois é mais uma jogada de isolação do Nate Robinson?

Durante a temporada passada o clima ficou ruim algumas vezes mas deixaram passar, afinal o Nate Robinson viveu alguns bons momentos e venceu alguns jogos importantes para o Knicks. Mas nesse ano a coisa esquentou já que David Lee, Al Harrington e a Beyoncé Gallinari estão jogando muita bola (olha o que o Gallo fez com o Roy Hibbert) e o Nate estava atrapalhando o desempenho dos três. Uma vez até foi publicado um número que mostrava que o Knicks tinha um aproveitamento de vitórias infinitamente melhor quando o Nate jogava menos de 15 minutos no jogo.

A gota d'água foi uma discussão sobre a jogada abaixo:


É isso mesmo que você viu. Com meio segundo para o fim do primeiro período do jogo contra o Nets, o Nate Robinson pegou a bola, virou e acertou a própria cesta. Os três pontos não valeram porque o tempo já tinha estourado e o Nate sabia disso, mas a atitude e risco levaram o D'Antoni à loucura. E, convenhamos, o técnico tinha razão. Mais valia ele atirar a bola para a outra cesta e tentar uma cesta maluca a favor da sua equipe. Para um cara que já tinha fama de tomar má decisões em quadra, essa foi decisiva.

D'Antoni então decidiu que Nate Robinson não ia mais jogar, o que foi bem exagerado. Ele tem seus defeitos, toma decisões erradas e tudo mais, mas é para corrigir isso que serve um técnico, não para simplesmente punir. A banição faria mais sentido se fosse em um time que briga pelo título e não pode aceitar erros, mas o Knicks está numa fase de descobrir quem são os poucos talentos que valem a pena manter para a temporada que vem. A melhor coisa que o D'Antoni poderia fazer era chamar o Nate Robinson de lado, dar um belo de um sermão e começar a treiná-lo no dia-a-dia para que ele usasse seu talento para o bem da equipe.

Com o JR Smith tem dado certo. Se compararmos o jogador de hoje com o de uns 2 anos atrás, a diferença é muito perceptível. Hoje ele tem muito mais noção de quando deve tentar ser herói e quando deve passar a bola de lado, ainda erra muitas vezes mas compromete bem menos o time. Além de algumas vezes vencer uns jogos sozinho, como quando meteu 10 bolas de 3 contra o Atlanta Hawks.

Durante esses 14 jogos o Nate Robinson chegou a ser multado em 25 mil dólares por ter exigido publicamente uma troca. Na verdade foi o agente dele que disse que o seu cliente tinha exigido a troca, mas o Tio Patinhas Stern não perde uma chance de faturar e aplicou a multa da mesma maneira. Dizem na imprensa americana que uma troca quase aconteceu, para o Memphis Grizzlies. Curioso que o Grizzlies pegou o Zach Randolph, o Iverson, o Tinsley e agora foi atrás do Nate Robinson. A solução deles para o problema de ninguém querer jogar em Memphis foi correr atrás dos caras que não são queridos em nenhum outro lugar da NBA! Tirando o fiasco do Iverson, o resto tem dado certo. O Grizzlies venceu 6 dos últimos 7 jogos, deu uma surra no Suns em Phoenix (onde Lakers e Celtics tinham perdido semana passada) e alcançou os 50% de aproveitamento (16 vitórias e 16 derrotas) depois de começar a temporada com 1 vitória e 8 derrotas. A sequência de vitórias começou assim que Iverson saiu, não que eu queira dizer algo com isso...

Como disse no começo do post, o D'Antoni resolveu dar uma nova chance ao seu jogador. Quando chamou Nate Robinson do banco de reservas ele nem respondeu, não tinha percebido. Depois de um cutucão do jogador ao seu lado é que ele se tocou e foi pra quadra "com borboletas no estômago", segundo ele mesmo. Fez trocentos pontos rapidamente e depois foi herói no fim do jogo. Marcou 22 dos últimos 24 pontos do Knicks, incluindo 11 dos 13 do time na prorrogação.

Depois da partida foi só alegria. Nate Robinson desabafou dizendo que entrou no jogo sentindo um baita frio na barriga mas empolgado e dedicado, "Vou fazer tudo o que o técnico me mandar". E depois ainda deu uma mini declaração de amor ao time, "É aqui que eu quero jogar e espero que possa ficar no time. É um novo ano, um novo começo e não estou mais olhando pra trás".

Acho que o D'Antoni não lidou direito com isso a princípio, o Nate foi meio apressado em exigir uma troca mas ao que parece tudo acabou bem, certo? No jogo seguinte ele foi bem mais discreto mas é até bom que seja assim. O papel do Nate nesse time, pelo menos por enquanto, é vir do banco, botar um fogo no jogo, ser a fonte de pontos da equipe no banco de reservas e, eventualmente, quando estiver num dia inspirado, ganhar uma partida ou outra. Se tentar mais do que isso ele corre novamente o risco de mais atrapalhar do que ajudar.

Abaixo os melhores momentos da vitória do Knicks sobre o Hawks. Destaque para os pontos do Nate the Great na prorrogação, o moleque estava muito inspirado!



Coisas que eu perdi quando estava fora:
- Passei uns dias fora e perdi o terceiro arremesso de último segundo do Kobe na temporada!



Dois meses de temporada e o Kobe tem 3 arremessos de último segundo salvando o Lakers de derrotas para times bem mais fracos: Heat, Bucks e agora Kings. Além disso o Kobe, que tinha feito 40 pontos ou mais em apenas 4 jogos em toda temporada passada, já passou dessa marca 7 vezes nesse ano. Com o Gasol contundido, esperem mais game winners e jogos de 40 pontos para esse mês. Essa temporada fenomenal do Kobe é mais um sinal de que o Lakers tem problemas.

- Ano novo, cabelo novo. E feio. Vocês viram o novo visual do Michael Beasley? Big Ben style. Só tá perdoado porque ele conseguiu uma enterrada alucinante contra o Charlotte Bobcats:

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

A arte de feder

Devin Harris esconde o rosto pra não ser apedrejado nas ruas


Perder já é completamente normal para o New Jersey Nets: o elenco acorda, faz xixi, toma café, escova os dentes e aí perde. É como se fosse parte da rotina, não dá pra passar um dia sem um fracasso. Mas temos que dar crédito para o Nets, eles estão levando isso à perfeição, com toda a dedicação que apenas os gênios conseguem imprimir às coisas. Muitos times, como o Knicks e o Clippers, por exemplo, se contentam apenas em perder. Mas o Nets não, eles querem perder como nunca se perdeu antes, querem alcançar a essência da derrota, atingir a ideia platônica do fracasso. O mais incrível é que eles estão conseguindo.

Na noite de ontem, o Nets teve a chance de conseguir o recorde de pior começo de temporada da história da NBA, com 18 derrotas seguidas. O novo técnico, Kiki Vandeweghe (aposto que nem ele sabe escrever o próprio nome), ainda não assumiu o time e é claro que eles iriam perder para o Mavs. Mas o nível da derrota foi épico: apesar de ter jogado bem, com destaque para o Chris Douglas-Roberts que voltou de contusão, o Nets conseguiu dar de presente ao Mavs provavelmente o melhor segundo quarto da história do esporte. Nele, o Mavs errou apenas dois arremessos dos 19 que tentou, acertou todas as 4 bolas de três tentadas e todos os 10 lances livres cobrados. Foram 49 pontos apenas no segundo período, o que já é mais do que o Bobcats consegue fazer num jogo inteiro.

O engraçado desse aproveitamento surreal do Mavs é que dificilmente eles conseguiriam acertar tanto durante o treino ou o aquecimento, arremessando sozinhos. Talvez o Nets devesse ter tirado os jogadores da quadra porque aí, com a pressão de estarem sem marcação, talvez eles errassem um pouco mais do que com os defensores do Nets em jogo. Eu não acertaria tantos arremessos, bolas de três e lances livres sem errar nem em um milhão de anos, sozinho, numa quadra particular. O Nets conseguir permitir esse feito ao Mavs é um passo rumo à perfeição absoluta na arte de feder. Um dia, o mundo se lembrará desse time como os homens que alcançaram a perfeição e a iluminação budista através do fedor. Eles terão templos e seguidores, e o Clippers terá alguém em que se espelhar para tentar sair da mediocriedade e entrar para a história.

Mas não é apenas o Nets que escolheu esse caminho de fracassos. O Sixers, que receberá Iverson de volta na segunda-feira para enfrentar o Nuggets, está cada vez mais indo ladeira abaixo. Ontem contra o Thunder, o novato Jrue Holiday assumiu a armação em tempo integral, com pequenos momentos em que até o Willie Green (que é um arremessador puro) teve que ficar na função. Embora isso não seja um problema tão grande no esquema do técnico Eddie Jordan, acabou se mostrando um problema defensivo considerável quando vemos que o Westbrook bateu seu recorde de assistências num jogo, com 15. Nos moldes do Nets, o Sixers está permitindo atuações épicas dos seus adversários. Já são 8 derrotas seguidas, só perdem em fedor para as históricas 18 seguidas do time mestre-zen de New Jersey.

Com 5 derrotas seguidas e humildemente trilhando o mesmo caminho, temos também o Toronto Raptors. Eles formam o fundo da Conferência Leste junto com o Knicks, que fede mas disfarça, e com o Pistons, que a gente já sabia que ia ser uma droga mas tem uns malucos que achavam que ia dar certo. O Raptors, no entanto, não tinha nenhum motivo para estar adotando esse percurso de iluminação através do fedor. O elenco é bom, adicionaram o Turkoglu, mas as coisas vão de mal a pior. O Chris Bosh está tendo a melhor temporada de sua carreira, pontuando como um maluco inclusive da linha de três pontos, de onde seus arremessos estão bizarramente consistentes. Complementando seu jogo está o Bargnani, que é um dos jogadores que está chutando traseiros da linha de três pontos nessa temporada. Finalmente ele conseguiu criar confiança nos arremessos e está mostrando um arsenal ofensivo bastante surpreendente para alguém que supostamente só sabia arremessar, com muita técnica dentro do garrafão e uma boa velocidade nos giros e no jogo de costas para a cesta. O Calderon é um dos melhores armadores puros da NBA, sempre disposto a dar o passe certo e com um arremesso macio nos moldes do Steve Nash, mas nessa temporada ele não acertou a mão e nem seus lances livres, em que ele bateu recordes na temporada passada, estão caindo. Seu reserva agora é o Jarret Jack, que está jogando bem, sendo agressivo e pontuando um bocado, e o novato DeRozan está jogando bem embora se esperasse muito mais dele na noite do draft (a gente esperava pelo menos que ele passasse mais tempo em quadra, ao invés de ser titular e sumir depois do primeiro quarto, o que lhe coloca na ponta para o Prêmio Royal Ivey do ano). O Turkoglu ganhou suas verdinhas e agora está de boa, bem confortável em seu papel secundário na equipe, de carregador de piano. Tá bom que ele recebeu contrato de estrela para decidir jogos e carregar o time nas costas de vez em quando, mas ele está satisfeito em ser um jogador apenas para complementar a equipe e, nesse sentido, está se saindo bem. Azar de quem pagou o dinheiro, sorte do turco que faz aquilo que sabe e ganha o quádruplo pra isso.

Com tantos jogadores bons e tanta gente pontuando com bastante facilidade, é assustador que esse time esteja despencando na tabela. Pelo jeito, o plano de anos atrás de transformar o Raptors no Suns do Leste (ou seja, tática "corra pela sua vida", ataque forte, defesa mequetrefe, vencer os times mais-ou-menos e perder para o Spurs nos playoffs) deu mais ou menos certo. Como não tem Spurs no Leste, a ideia de imitar o Suns parecia uma boa, mas agora podemos apreciar um pouco mais o pessoal de Phoenix vendo como tantas cópias paraguaias acabaram virando farofa. O Knicks do técnico D'Antoni pontua como retardado mas não adianta nada, porque a defesa não existe e o ataque é completamente caótico e destrambelhado. O Raptors corre muito e tem um ataque inteligente e balanceado, mas tem uma defesa tão medonha que não dá pra ganhar nem dos times capengas do Leste. Aquele Suns não era um experimento bizarro de feira de ciências, uma ideia furada, um caso de time que não defende bulhufas e acaba fedendo: eles eram um caso único, um time especial capaz de fazer esse estilo dar ao menos moderadamente certo. Talvez a gente devesse repensar algumas ideias sobre defesa, acho que o Suns de hoje e o Suns de uns anos atrás, que tanto criticamos por não defender nem ponto de vista, na verdade quebram um belo de um galho defensivamente. Sabe o que é não defender? É esse Raptors tomando 146 pontos do Hawks ontem (achei que nunca fosse viver para ver um troço desses!), é o Knicks sem um único jogador que saiba o que significa a palavra "defesa". Esses times não tem chance de dar certo, não tem como ir pra frente. O Suns é um caso raro, único, que merece mais atenção. Talvez eles defendam, afinal de contas. Ou não estariam lá no topo do Oeste, atrás apenas do todo-poderoso Lakers. Alguém tem alguma outra hipótese?

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Os imprevisíveis

Al Harrington foge da mão boba


Tem uns times que eu simplesmente não consigo sacar. Se você assiste a um jogo do Spurs você já percebe qual é a deles, é um time centrado no Duncan, com Parker e Ginobili auxiliando no perímetro e qualquer ser humano capaz de defender e/ou arremessar em volta. Falando sério, qualquer um que acompanha basquete com regularidade saca isso em um jogo deles. Perceber nuances táticas e comportamentos-padrão do time e do técnico aí só pra quem manja mais ou acompanha de pertinho toda a temporada.

Não estou desmerecendo o Spurs com isso, embora seja legal fazer isso de vez em quando. É um sistema simples mas já foi provado zilhões de vezes que é eficiente. Agora o Knicks eu não entendo de jeito nenhum. Eu não assistia o Knicks quase nunca porque era chato, o time era um lixo e tinha o Marbury. Mas a partir da temporada passada, com a aquisição do Mike D'Antoni, resolvi dar uma chance pra eles, mas cada vez que eu os assisto acho uma coisa diferente. Para tentar organizar o pensamento sobre eles, faço esse post.

Uma coisa é bem clara, eles estão lá para atacar. A filosofia dos "7 segundos ou menos" vinda dos tempos de Suns ainda está presente mas, ao que me parece, um pouco distorcida. Esse esquema do D'Antoni cria jogadas rápidas para pegar a defesa desprevenida, ainda em formação, para ter bons e fáceis arremessos. D'Antoni diz que são nos primeiros sete segundos de posse de bola que existem as melhores chances de se conseguir um bom arremesso sem marcação.

Muitas vezes eu tenho a impressão de que o Knicks ignora essa parte de ter um bom arremesso e queima a bola mesmo quando a oportunidade não foi tão boa assim. É uma distorção absurda de uma boa teoria. Mas em compensação, algumas jogadas depois, você vê os mesmos cinco jogadores em quadra fazendo a mesma coisa direitinho: não deu pra dar o arremesso rápido então continuam se movimentando, fazem um ou dois pick and rolls até achar o melhor jogador posicionado. Aí na jogada seguinte alguém tenta um arremesso do meio da quadra só por esporte.

Um exemplo óbvio disso é o Danilo Gallinari. Eu considero ele um novato porque até cara com contrato de 10 dias jogou mais do que ele no ano passado, então tem esse perdão, mas mesmo assim ele parece muito irracional às vezes, um Antoine Walker sem a cabeça de Lego. Em algumas ocasiões ele recebe a bola, fica parado e de repente arremessa de 3 com o marcador na cara dele. Só dois jogadores da NBA fazem isso com um bom nível de sucesso: Kobe Bryant e Carmelo Anthony. Por mais que você goste do Gallo, você sabe que ele não está nesse nível.

E quem dera fosse o caso dele simplesmente não saber driblar ou passar. Se fosse assim ele seria um novo Eddie House e pronto, não é culpa dele não saber outra coisa. Mas não, ele tem uma boa altura, um bom controle de bola pro seu tamanho e poderia muito bem ser um Lamar Odom Jr. no Knicks, pegando rebotes e já saindo pra puxar o contra-ataque.

Duvida que o Gallinari sabe driblar? Olha esse vídeo dele fazendo um clássico God Shamgod, típico do basquete de rua.




Não que ele vá fazer isso todo dia, mas o rapaz tem talento para fazer mais do que brincar de 21-parado no meio da NBA. Outro que eu não entendo é o Larry Hughes. Nesses cinco primeiros jogos dele na temporada, misturou momentos de mediocridade completa (com seus típicos arremessos ruins da época do Cavs) com outros de boa defesa e arremessos de meia distância da época do Wizards.

E se o assunto é irregularidade, não tem como não falar do Chris Duhon. O cara que tem RESERVA tatuado na testa no maior estilo 'Bastardos Inglórios' é um misto constante de mini-Steve Nash com um Nezinho mais afobado. Por tudo o que já disse do run-and-gun consciente do D'Antoni, um armador bom é essencial, é ele quem geralmente tem que tomar a decisão de quem arremessa nos tais 7 segundos. Tem que ser o líder.

Al Harrington, apesar de ter virado o sexto homem logo depois dos primeiros jogos, tem sido o líder ofensivo do time até agora, mas ele, como sempre na sua carreira, não é nada confiável e pode jogar um jogo no ralo com a mesma facilidade com que tira uma diferença de 10 pontos em minutos. Aliás, essas viradas tem ocorrido muito nos jogos do Knicks: se tem uma área onde eles estão regulares é no quarto período. Dos 5 jogos disputados até agora (4 derrotas, 1 vitória) eles venceram 4 quartos períodos, marcando duas vezes pelo menos 40 pontos e 3 vezes tirando diferenças superiores a 10 pontos. Com 30,8 pontos por quarto período o Knicks é atualmente líder da NBA nesse quesito, na média geral o NY fica apenas em oitavo.

Eu atribuo essa superioridade nos períodos decisivos à defesa. Uma defesa afobada e desorganizada, claro, é um time do D'Antoni afinal, mas no desespero eles conseguem turnovers e com isso é que melhor executam sua correria inconstante. Até na defesa eles mostram que podem ter flashes de talento mas não conseguem manter isso por muito tempo. Tanto que mesmo depois de quartos períodos tão fantásticos eles perderam as duas prorrogações que disputaram.

Como já é costume há anos, o único ponto sólido do time é o David Lee. Sempre com seus rebotes, pontos vindos de bom posicionamento e muita vontade, é o único porto seguro do D'Antoni. Não é necessário dizer que não é o bastante. Apesar de ser imensamente valorizado, não é jogador pra carregar time nenhum nas costas, muito menos jogando de pivô improvisado de novo. O sonho de ver o Darko Milicic rendendo alguma coisa em um esquema novo já foi para as cucuias depois de poucos jogos. Falando sério, sem querer zoar a escolha de draft mais aloprada da história: o Darko não sabe o que faz numa quadra de basquete. Ele comete erros de amador durante as partidas. Em um momento do jogo contra o Hornets ele deixou o Chris Paul livre três vezes seguidas depois de pick and roll e nas três o Paul acertou um arremesso livre. E isso é só um exemplo, melhor nem começar a comentar do número de passes que ele não segura porque não estava preparado para receber.

É natural comparar esse Knicks ao Suns de alguns anos atrás porque eles tem o mesmo técnico e divertem com a correria. Mas em uma análise um pouco mais profunda é possível ver o que realmente decide na NBA. Não é só esquema tático, técnico ou filosofia, em uma liga de tão alto nível, ganha quem tem técnica, quem tem bons jogadores, simples assim. Enquanto o Knicks tiver o elenco que tem não vai a lugar nenhum nem que se foque em jogar defesa, em atacar melhor ou tudo mais, o time para no limite técnico dos seus jogadores.

Acho que depois de escrever tudo isso deu pra entender, a característica básica do Knicks é o "que porra a gente vai ver hoje?" que eles causam antes de cada jogo. Ou de cada quarto.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

8 ou 80 - Bolas de 3 e contra-ataques

O número 8 é uma homenagem a Antoine Walker:
"chuto bolas de 3 porque não existem de 4 pontos"

O Orlando Magic, que já era aquela máquina de acertar bolas de 3, contratou Vince Carter, Ryan Anderson, Matt Barnes e Jason Williams. Todos, absolutamente todos, chutam da linha dos 3. No massacre de ontem contra o Sixers foram 16 bolas de três em 29 tentativas. Sete jogadores contribuiram com esse tipo de arremesso e Ryan Anderson foi o líder, com 4 acertos.

Essas 4 bolas representam ao mesmo tempo 1/4 de todas as bolas do Magic no jogo ou 4 vezes mais do que o número total de bolas de 3 feitas no jogo inteiro entre Nets e Wolves. Os dois times somados acertam 1 mísero arremesso. O Nets tentou 8 e errou todos, o Wolves tentou 7 e apenas o Brian Cardinal, justo ele, acertou uma bolinha.

Não dá pra falar de bolas de 3 sem falar do Knicks. Na derrota humilhante de ontem contra o Heat, o time do Mike D'Antoni conseguiu chutar 39 bolas de três pontos! Destes, acertaram apenas 10. Foi apenas a 29ª vez na história da NBA que um time arremessou pelo menos 39 bolas de 3 num mesmo jogo.

O recorde é do Mavs, que chutou 49 bolas de 3 em um jogo contra o Nets em 1996. Naquela partida o George McCloud tentou 20 arremesso de três e acertou 7. O recordista de ontem foi o Danilo Gallinari que, dos seus 14 arremessos de quadra, 13 foram da linha dos três. Pois é, pra ele tem carvão quente no garrafão.

O ala italiano foi apenas o oitavo jogador do Knicks em todos os tempos a tentar pelo menos 13 bolas de 3 em um jogo. Allan Houston, Latrell Sprewell, John Starks, Jamal Crawford, Quentin Richardson, Nate Robinson e Stephon Marbury foram os outros. Com 7 acertos nas 13 tentativas o Gallo fica em segundo no aproveitamento entre esses aprendizes de Antoine Walker. Melhor que ele só quando o Latrell Sprewell acertou 9 bolas de três em 14 tentativas em 2002.

Por curiosidade, o recorde de mais arremessos de 3 tentados em um jogo é de Damon Stoudamire, que tentou 21 em um jogo pelo Blazers contra o Warriors em 2005. Nos playoffs o recorde é de Ray Allen com 18.

O Suns, antigo time do D'Antoni e que também arremessava de três a rodo, está maneirando um pouco. Ontem foram 7 acertos em 15 tentativas, um pouco pior do que o Gallinari sozinho. O que time tinha prometido voltar pra correria nesse ano terminou sua vitória contra o Clippers com míseros 2 pontos de contra-ataque, o menor número, empatado com o Kings, entre os 24 times que jogaram ontem.

Nos números o destaque negativo da super rodada foi o Bobcats. Seus 59 pontos na derrota para o Celtics foi o número mais baixo de pontos em uma estréia de temporada desde a implementação do relógio de 24 segundos na temporada 1954-55. Os Bobgatos acabaram o jogo com aproveitamento de 31% nos arremessos de quadra, 52% no lance livre e nenhuma bola de três certa em 10 tentativas.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Começar de novo

Shaq e LeBron são miguxos, e o Kobe finge que não se importa


As trocas não param. Não me lembro de uma semana de draft tão movimentada há anos, as trocas sequer esperaram para acontecer na própria noite do draft como é de costume. Se eu continuar nesse ritmo, com um post novo para cada troca que acontece, vou ter que pedir aumento de salário e pagamento de hora extra. Mas aí eu vou perceber que estou sozinho no meu quarto, não trabalho pra ninguém, não ganho porcaria de salário nenhum e estou com um comportamento um tanto esquizofrênico pedindo aumento pra mim mesmo, pareço o Chaves se vendendo churros.

Recapitulando: nos últimos dias tivemos a ida de Richard Jefferson para o Spurs, Randy Foye e Mike Miller para o Wizards, e Jamal Crawford para o Hawks. E se a troca do Hawks parecia simples arrependimento do Warriors por ter apostado no Crawford, ela agora parece fichinha perto do tamanho do arrependimento da troca que acabou de rolar: Shaquille O'Neal vai para o Cavs, que manda Sasha Pavlovic e Ben Wallace para o Suns.

Lembram quando o Suns era um time de verdade que chutava o traseiro de todo mundo mas invariavelmente tomava um cacete do Spurs? Ah, bons tempos aqueles, a casquinha do McDonald's até custava um real. Na tentativa de variar o estilo de jogo, permitindo que o Suns jogasse também em meia quadra num ritmo mais lento (e de quebra ainda defender Tim Duncan), Shawn Marion foi trocado pelo Shaq. Aqui no Bola Presa, apoiei a troca mas com dor no coração: era o fim do Suns que eu amava, do basquete veloz e descompromissado, do basquete-arte, do basquete-moleque, mas pelo menos iria dar certo e eles conseguiriam enfim chutar o traseiro fedido do Spurs nos playoffs. Ao invés de dizer que eu errei, afinal a troca foi um fracasso e o time desmanchou, prefiro dizer que acertei a parte em que previ o fim do Suns que eu amava. Tentando implementar um estilo diferente de jogo, o time perdeu sua identidade, não sabia mais o que fazer em quadra, trocou de técnico, tentou se focar na defesa, e o resultado foi o fim do Suns que eu amava, o fim do Suns que eu odiava e o fim do Suns que não fedia-nem-cheirava, ou seja, o Suns morreu mesmo. O esquema vencedor montado pelo demitido Mike D'Antoni camuflava as falhas do time, utilizava os pontos fortes em todo seu potencial e usava ao máximo um elenco minúsculo. Sem ele, o time percebeu que era ruim, problemático, e ficou preso num estranho limbo, incapaz de abandonar os velhos hábitos e igualmente incapaz de abraçar uma nova filosofia. Shaquille O'Neal, coitado, ficou ali no meio da bagunça, tipo visita em briga de família. Não sabia se provava que podia jogar em velocidade ou se exigia a bola num jogo cadenciado e mudava a cara da equipe, desestruturando aquilo que sempre havia dado certo.

Parece que, aos poucos, os engravatados de Phoenix foram voltando atrás e se arrependendo da cagada que cometeram, apesar das melhores intenções. Conseguiram Jason Richardson para aumentar o poder ofensivo da equipe, esquecendo aquele lance de "defesa forte", e se livraram do técnico Terry Porter, retranqueiro e incapaz de conter as brigas que começaram a surgir no elenco. Agora, a última cartada nessa tentativa de voltar atrás foi se livrar do Shaquille O'Neal.

Sasha Pavlovic é um bom arremessador de três pontos (ou pelo menos era, nos seus 15 minutos de fama no Cavs) que terá um lugar no Suns, vindo do banco de reservas. Ben Wallace deve se aposentar e esfregar na nossa cara o quanto estamos ficando velhos, só pra gente se sentir mal. Então, a troca tem a função apenas de se livrar do Shaq, não de trazer reforços à equipe. Financeiramente, o Suns economiza quase uns 10 milhões de verdinhas em salários e taxas, mas o principal é que o time volta a não ter pivô, a depender de Amar'e Stoudemire no garrafão, e a jogar na correria. Parece uma tentativa de encenar o velho Suns de sempre, o equivalente a uma velhinha se vestindo de ninfeta gostosa. Ao que parece, será o último suspiro de um time que já está começando a se preocupar com outras coisas: economizar dinheiro, se livrar de contratos grandes, dar minutos para os novatos, colocar o Robin Lopez para jogar. Vocês reconhecem esse cheiro, crianças? É cheiro de time em processo de reconstrução, pronto para começar de novo. Não me surpreenderei se o Jason Richardson for trocado em breve e só sobrar o Amar'e e o Leandrinho nesse time, cercados por uma série de pivetes e uns jogadores contratados futuramente e cheirando a talco. É triste ver um time que sai das Finais do Oeste e vai parar em reconstrução desse modo, foi uma caída mais meteórica do que a Tiazinha. Mas é preciso admitir o erro e se preparar para começar de novo, ao invés de perder tempo insistindo numa fórmula fajuta como o Suns tem feito nas últimas duas temporadas. Dava pra ir empurrando com a barriga, ganhando umas partidinhas, arrumando uma oitava vaga nos playoffs, mas era claro que não daria pra chegar em nenhum lugar importante. Essas são as posições mais complicadas da NBA, os times que não cagam e nem saem da moita, sempre ali entre os piores dentre os melhores, não ganhando nada relevante e nem conseguindo boas posições no draft. É por isso que o Shaq foi embora e agora o Suns está se preparando para refazer o elenco, mesmo que demore algumas temporadas.

No Cavs, é justamente o contrário: a chegada de Shaq é sinal de urgência. LeBron James, como todos os mamíferos bípedes do mundo não param de comentar, pode sair do Cavs após a próxima temporada e assinar com qualquer equipe (presumidamente o Knicks, sempre o Knicks, mesmo que eles fedam). Com isso, a hora do Cavs ser campeão da NBA e provar para o LeBron que ele deve ficar na equipe é agora ou nunca. O contrato de Shaq também se encerra na próxima temporada, tornando a troca uma experiência de vida ou morte. Será apenas uma temporada em que qualquer coisa que não seja um anel de campeão será pouco. Se vencerem a NBA, LeBron pode ficar no Cavs sabendo que terá chances de ganhar outros anéis e Shaq poderá aceitar continuar na equipe, ainda que em papel reduzido, ganhando menos dinheiro. Se não vencerem, Shaq estará contemplando sua aposentadoria com dois fracassos seguidos e LeBron terá que questionar até que ponto o Cavs lhe dá as possibilidades de colocar seu nome na história.

Do ponto de vista tático, vejo o Shaq se encaixando bem na equipe. O Ilgauskas é o pivô do Cavs há anos e, convenhamos, ele sempre parece estar jogando basquete dentro de uma piscina, em câmera lenta. Shaq consegue até ser mais veloz, é mais competente na defesa, uma presença mais forte no garrafão, e inteligente o bastante para conseguir interagir com LeBron. Vai manter a característica do time nos rebotes ofensivos, atrair a atenção da defesa nas constantes isolações de LeBron no basquete de meia quadra lento e cadenciado, e não vai comprometer os contra-ataques que, em geral, são só o LeBron correndo sozinho mesmo. Shaq deve ter minutos bem limitados, dividindo tempo de quadra com o Ilgauskas, num caso muito bonito de união entre velhinhos - um ajuda o outro e aí é quase como se fosse um único jogador jovem em quadra. É a situação ideal para o Shaq encerrar a carreira: motivado pela chance de ganhar mais um título, não tendo sequer que ser titular no garrafão, podendo jogar apenas algumas partidas ou poucos minutos num time que se foca muito na defesa, nos rebotes, e não precisa de Shaq para carregar o fardo ofensivo. Eu disse que ele daria certo no Suns e errei feio, mas fica difícil achar um time em que ele se encaixaria melhor do que esse Cavs. Deixo o palpite de que ele virá do banco, não jogará partidas em dias seguidos, e terá um grande impacto quando estiver em quadra, nas partidas mais importantes.

Engraçado é que, durante o fim de sua carreira, Shaquille O'Neal teve a chance de jogar com três dos melhores alas-armadores do mundo: Kobe Bryant, depois Dwyane Wade, e agora LeBron James. Se for campeão com o Cavs na próxima temporada, como agora é sua simples obrigação, Shaq terá um anel com cada um desses jogadores espetaculares para colocar no currículo. O Suns não foi uma situação ideal, realmente, mas jogar com LeBron James não é uma situação ruim para ninguém (a não ser talvez pro Ricky Davis, que faria até uma trepada com a Alinne Moraes ser uma situação desagradável, provavelmente tentando arremessar ela dentro da privada). A troca permite ao Suns começar de novo, e o Shaq ganha a mesma oportunidade, mas no Cavs: começar de novo no que pode ser o último ano de sua carreira. Não dava para ser melhor e mais merecido para um jogador que por tantos anos foi a alma e o humor de toda a Liga. Com o LeBron em quadra, ao menos sabemos que ele certamente terá muitos motivos para sorrir. E duelos garantidos contra Dwight Howard e seus amigos.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

O basquete que ganha jogos

Nash mostra o que o basquete bonito fez com ele todos esses anos


Primeiro já deixo claro que não estou aqui pra falar do jogo do Cavs. Vamos falar do time do LeBron só quando eles enfrentarem um desafio de verdade, o que quer dizer que ficaremos mais algumas semanas sem mencioná-los. Essa série do Cavs com o Hawks já poderia ter acabado, deveriam usar uma variação da regra da Copa do Brasil de eliminar o jogo da volta. Somando os dois primeiros jogos, o Cavs está vencendo a série por 47 pontos, deveria ser o bastante.

Mas parei com o Cavs. Estou aqui para continuar a discussão do post de ontem do Danilo. Ele comentou o tal "basquete de playoff" e lamentou como os juízes levaram o jogo entre Lakers e Houston. O assunto rendeu muitos comentários então estou aqui para dar uma visão do lado vencedor do jogo, de modo que aqui todas as opiniões estão livres de qualquer sentimento imediato de derrota.

Primeiro eu acho deplorável que exista tal diferença de definição, não deveria existir o "basquete de temporada regular" e o "basquete de playoff" na NBA. É natural que o jogo seja mais disputado, mais tenso, com os jogadores se importando mais. Mas o jogo deve ser diferente para os jogadores, não para a arbitragem. Volta e meia tem comentarista gringo comentando que tal jogada teria sido falta na temporada regular mas que nos playoffs não é nada. Como assim? Falta é falta, o que não é falta não é falta.

Uma comparação que eu sempre faço na minha cabeça e que acho engraçada é que no futebol mundial é diferente. Os jogos da Copa do Mundo e da Champions League tem muito menos falta e é bem mais "leal" (não sei se é a palavra certa) do que a maioria mesmo sendo jogos de importância bem maior, os playoffs do futebol mundial. Em compensação, na América do Sul a Libertadores é dez vezes mais física que qualquer joguinho de playoff da NBA.

Na questão das faltas podemos fazer uma crítica geral, que engloba temporada regular e playoffs. O Danilo já fez um post comentando a vida dura dos pivôs que sofrem tanto com marcações de faltas, o Yao sofre com isso, o Dwight Howard, o Shaq e, no Lakers, o Bynum também. Tem jogo que eles simplesmente não conseguem jogar porque tudo o que fazem é falta, um dia depois fazem a mesma coisa e tá beleza, dominam o jogo. Parece escanteio no futebol, todo mundo se pega e tem dia que os juizes resolvem que um cara é o culpado e dão pênalti, ou que só o décimo quarto soco é que foi realmente falta.

Essa diferença de marcações dos juízes de um jogo para o outro e da temporada regular para os playoffs atrapalha bastante a vida dos jogadores, isso é fato, eu acho que demoraria para me adaptar a saber, de uma hora pra outra, o que pode e o que não pode fazer. Claramente o Bynum, por exemplo, não está conseguindo diferenciar o que é um jogo físico do que é fazer falta na visão dos juizes.

Essa diferenciação é idiota pra mim, mas nos EUA praticamente não achamos críticas sobre isso. Para eles é natural um empurrão ser falta na temporada regular e não ser nada nos playoffs, isso é consenso principalmente entre os ex-jogadores da liga que comentam jogos. O que é bem intimidante, convenhamos, quem sou eu pra discordar de caras que são jogadores de verdade e que estiveram lá jogando? Mas o dia em que eu entender, juro que concordo com eles.

Isso mostra como o jogo físico nos playoffs não só é aceito como é muito valorizado. É sempre dito por lá que times que jogam baseado em passes, velocidade e finesse são times de temporada regular, como o Suns do D'Antoni, o Mavs do Don Nelson e o Kings do Rick Adelman de 2002, 2003. Enquanto os times que são pura defesa, com jogo físico, são os que têm sucesso nos playoffs, como o Pistons de 2004, o Spurs dos últimos 10 anos e o atual campeão Boston Celtics.

A teoria ganhou ainda mais força nas finais da temporada passada quando o Celtics venceu o Lakers na final. O LA tinha um time que jogava com um ataque todo baseado em jogadores leves, rápidos e bom passadores, e o Celtics os anulou usando um basquete de força. E não vão entender que essa simplificação pareça que eu acho que o Celtics venceu só porque bateram no Lakers ou qualquer coisa assim.

Eu mesmo defendi que o Lakers deveria buscar jogadores mais físicos para conseguir competir com o Celtics e outros times parecidos nos playoffs para ser campeão (lembro que, num fórum, um torcedor do Lakers disse que faltavam uns "pretos ruins" pra fazer do Lakers campeão). Mas pra falar a verdade essa é a minha opinião de torcedor do Lakers, que quer ver o time ser campeão usando qualquer esquema de jogo. Como simples amante do basquete eu queria que o Lakers ganhasse com o time que joga mas bonito (que por sinal é o que tem o Odom no lugar do Bynum).

Mas fica aquela coisa, o Kings de 2002 tinha um dos basquetes mais bonitos de todos os tempos e perdeu do Lakers que tinha forte defesa, jogadores nada simpáticos com os adversários (Shaq, Kobe, Horry e a doçura do Rick Fox, por exemplo). O Suns e o Dallas, com um jogo de pura velocidade, eram presas fáceis para o Spurs. O Mavs só venceu o Spurs quando o Avery Johnson chegou lá implementando defesa forte, ataque de meia quadra e usando brucutus do nível de Erick Dampier e DeSagana Diop.

Como torcedor você acaba querendo o time mais físico porque historicamente é o que dá mais resultado e não quer torcer pra time de temporada regular.

Já sei que uns vão dizer que time que joga bonito é time que ganha. Mas isso pra mim é palhaçada, esse argumento só vale pra torcedor. Eu aceito ver o Corinthians ganhar com uma defesa forte e violenta e com 1 a 0 gol de sorte. Mas se o Once Caldas faz isso eu acho um porre.
Se o Lakers vence jogando como o Spurs eu acho legal, ver o Spurs jogar aquele joguinho deles trocentas vezes não é legal.

Mas será que tem um jeito de ser campeão da NBA sem se entregar à essa regra de time defensivo com alguma variação do Kendrick Perkins no garrafão? Qual é o limite do jogo físico, quando ele se torna desleal? Ele deveria ser aceito na temporada regular ou os playoffs é que deveriam ter arbitragem mais firme? Mais assuntos para a sessão "Kobe ou LeBron?" de discussões infinitas.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Temporada de caça

Alguém lá em cima não gosta do Redd;
alguém lá embaixo vai para os playoffs



Quando Ron Artest e Tracy McGrady entraram em quadra juntos contra o Pistons, levando meu Houston à vitória, já imaginei que alguém iria se machucar feio. Trata-se do princípio de equilíbrio que demonstrei recentemente, depois da volta do armador Monta Ellis às quadras. Pois bem, dito e feito: alguém em algum lugar teria que se contundir e, para meu alívio, não foi Yao Ming, que deve voltar a jogar já na próxima partida. O azarado foi Michael Redd, a estrela do Bucks, que está fora da temporada com uma lesão grave no joelho justamente quando estava esquentando. Em janeiro, ou seja, nas últimas 14 partidas, as médias eram de 24 pontos e mais da metade dos arremessos convertidos. Para um arremessador, os números eram incríveis, mas também não fazia muita diferença porque, oras, o Bucks fede. Com o Andrew Bogut sofrendo a temporada inteira com dores nas costas e praticamente não jogando, e o Richard Jefferson mostrando que é mais uma viúva do Kidd (ou seja, um daqueles jogadores que ganham contratos bilionários porque parecem bons pra burro apenas por jogar com o Kidd - Mikki Moore, estou olhando pra você!), não havia nada que o Redd pudesse fazer sozinho. Verdade seja dita, com Bogut saudável, Jefferson bem e o Redd acertando qualquer coisa que tacasse pra cima, também não daria pra concretizar muita coisa, o time fede em essência - é tipo a Roberta Close, pode parecer linda, mas você sabe que tem alguma coisa muito, muito errada.

Ainda assim, a contusão é uma pena. Não apenas pela fase do Redd, que estava chutando traseiros como na sua passagem pela seleção americana e era a única diversão nos jogos do Bucks que eu acabava assistindo (porque os jogos do Leste começam antes e eu assisto a qualquer coisa pra não morrer de tédio), mas também porque, de um modo ou de outro, os veados roxos estavam indo para os playoffs. Agora que três dos quatro melhores times da NBA estão no Leste, muita gente deixa escapulir que é a Conferência mais forte, mas isso só vale para quem não tem paciência de olhar a tabela de classificação até o final. O Heat mequetrefe bem posicionado? Bucks arrumando uma oitava vaga? Pois é, tão forte quanto novela da Bandeirantes, não é porque tem a delícia da Juliana Silveira que dá pra levar a sério.

Enquanto no Oeste algum time considerável deve ficar de fora (Suns, alguém?), no Leste alguma equipe mequetrefe vai ter a honra de ser o capacho em que LeBron James vai limpar os pés na primeira rodada dos playoffs. O Bucks ia capengando mas ia, só que sem o Redd podemos descartar a possibilidade. Ontem, contra o Wolves, a estrela foi Richard Jefferson e seus 3 arremessos certos em 15 tentados. Ele já pode dar as mãos para o Kenyon Martin e pular num abismo, gritando o nome do Kidd, e dar adeus às chances de voltar aos playoffs tão cedo. O engraçado é que, se o Bucks despencar, uma série enorme de times horríveis podem conseguir agarrar essa oitava vaga. Ou seja, no fundo a briga no Leste vai ser muito boa, embora de qualidade questionável. Tipo uma maravilhosa luta no gel entre várias mulheres, mas todas pertencentes à banda Fat Family.

Na prática, todas as equipes (tirando o Wizards, que já desistiu da brincadeira faz tempo e já está muito interessado - talvez até demais - na primeira escolha do próximo draft) têm chances concretas de chegar à pós-temporada. Mas algumas são claras favoritas: o Nets, embora um leitor nosso ache fogo de palha; o Knicks, que ontem venceu o Houston, com o banco marcando mais de 50 pontos pela terceira vez consecutiva; e o Bobcats, que é o favorito do Denis pra conseguir a vaga. Vai ter gente dizendo que o Bulls e o Pacers têm chances reais, e até é verdade, mas fica difícil ver os dois times aguentarem o ritmo dos outros três acima. É uma corrida de cegos ajeijados, mas alguns pelo menos sabem pra que lado estão correndo.

No nosso preview de temporada da Divisão Central, rolou chororô porque colocamos o Bucks na frente do Pacers, lembram? No fundo acertamos em termos, o Bucks tinha mais time até o Redd virar farofa, mas agora é o momento do Pacers escalar a tabela e deixar os viadinhos roxos para trás. O Troy Murphy teve uma conversinha com os Monstars, do Space Jam, e pelo jeito conseguiu recuperar seu talento de jogar basquete, o TJ Ford está saudável de novo e o Mike Dunleavy finalmente retornou ao elenco depois de passar quase toda a primeira metade da temporada de fora. Ou seja, as peças estão aí para uma arrancada rumo aos playoffs, graças principalmente ao nível em que Danny Granger está jogando. Tenho algumas ressalvas aos seus números, porque ele sofre da "Síndrome de Kevin Durant novato", que é poder atacar quando e como quiser porque todo mundo vai passar a mão na cabeça e agradecer. "Senhor Granger, você arremessou do meio da quadra? Muito bem, senhor, faça de novo! Você assaltou três bancos, matou duas mulheres, vestiu sua cueca na cabeça e enfiou moedas nas orelhas? Muito bem, senhor, continue o bom trabalho!" Ainda assim, não dá pra negar que o Granger é agressivo, atlético, inteligente e tem uma mira privilegiada da linha de três pontos. Havia uma dúvida muito grande sobre se Granger seria uma estrela capaz de ter um time construído à sua volta, mas agora creio que nenhum fã razoável se pergunte isso de noite, antes de dormir. O Granger não é mais a estrela do futuro, ele é real e vai carregar esse time porcaria por muitos, muitos anos. Se isso é bom ou ruim, deixo para os torcedores do Pacers decidirem.

Mas como o Sindicato dos Blogueiros de Basquete que Não Ganham um Centavo exige que façamos palpites (e sequer nos dão um plano dentário ou cesta básica!), eu fico com o Knicks e, apoiando a aposta do Denis, tenho uma fé no Bobcats. Simplesmente porque são os dois times com mais identidade, mais conscientes do que estão fazendo, mesmo quando as coisas não dão nem um pouco certo. O Knicks tem a cara do D'Antoni, ataca sempre do mesmo jeito e no mesmo ritmo e, como o antigo Suns, vence os times medianos mesmo que não tenha muita chance contra os times de verdade. O Bobcats tem a cara do Larry Brown, defende cada vez melhor, e embora não tenha o talento ofensivo para derrotar os grandes times, consegue anular alguns ataques e sair vitorioso. Com Nets e Pacers tão inconstantes (eles não tem cara de nada, é tipo a Sandy!), com o Bulls jamais escapando da mesma deficiência (pare uma pessoa alatória na rua, pergunte a ela qual é o problema do Bulls, e se ela não perguntar se o Jordan ainda está jogando, a resposta será "pontos no garrafão") e com o Raptors sequer estando nessa conversa (o que diabos aconteceu com eles?), acho que a luta pela oitava vaga estará nas mãos dos elencos mequetrefes com técnicos experientes.

Os veados roxos estão com uma mira nas costas, e é temporada de caça a esses animais bizarros. Quem passar o Bucks primeiro estará com um pé nos playoffs, e a disputa será muito aberta. O Leste finalmente merece respeito: as equipes boas são boas de verdade, e as equipes ruins vão todas caçar a oitava vaga. No mínimo será divertido - menos pro Michael Redd, claro.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Como andam nossos gordinhos favoritos

- McDonald's ou Burger King?


Todo mundo que acompanha o Bola Presa com um mínimo de atenção conhece nossos gordinhos favoritos. Com todo o respeito pelo Faustão, Jô Soares, João Gordo, Ronaldo Fenômeno e Preta Gil, os nossos favoritos são Zach Randolph e Eddy Curry.

Desde que foram unidos no Knicks para formar o garrafão mais pesado, lento, preguiçoso e frágil da NBA, eles foram motivos das nossas piadas, que só aumentaram quando o time de Nova York contratou o Mike D'Antoni para ser o técnico da equipe.

Uma coisa era óbiva desde o começo. Não havia a menor chance do garrafão titular ser formado pelos dois se o D'Antoni quisesse usar qualquer coisa similar ao sistema de jogo veloz e ofensivo que ele usava no Suns, a única coisa que seria igual seria a incapacidade de defender, já que os dois não defenderiam nem se ganhassem 10 milhões de dólares pra isso. E eles ganham mais de 10 milhões pra isso, mas não vem ao caso.

O que agravava mais o caso é que o reserva dos dois era o David Lee, que sempre pareceu o cara ideal para o garrafão do D'Antoni. Então um dos dois ia ter que sair. Quem saiu foi o Eddy Curry e a solução foi fácil, já que ele machucou o joelho. O Randolph então foi titular junto com o Lee no começo da temporada.

Para minha surpresa, o Randolph se deu muito bem! E pensando melhor, ele foi feito para jogar com o D'Antoni. Eu sempre pensei no lado físico, que ele era gordo e preguiçoso e não ia aguentar a correria, mas ignorei todas as outras habilidades do rapaz.

O que ele gosta é de marcar pontos e pra isso ele aprendeu a arremessar de todos os lugares da quadra, se posiciona bem pra isso e não passa a bola. Então ele é ideal para finalizar as jogadas com rapidez: ele vai para o ataque, recebe a bola e finaliza. Pronto e ponto! Não precisa defender porque ninguém defende mesmo e ainda ajudava com os rebotes defensivos porque isso ele sempre soube fazer. O resultado foi que em 11 jogos como um Knick nessa temporada, ele teve média de 20 pontos e 12 rebotes.

Mas aí veio a troca para o Clippers visando aquele diabo do verão de 2010 que vai revolucionar a história da NBA, acabar com o aquecimento global, mudar os conceitos da física, da química, da matemática e vai reacelerar a economia. Então nunca vimos Randolph e Cury juntos no run and gun.

Mas vamos ver pelo menos o Curry, e começou ontem. Finalmente ele se recuperou de contusão e jogou poucos minutos nessa última quinta contra o Dallas. Por mais que o Curry tenha algum talento ofensivo, claramente ele não pertence a esse sistema de jogo, o que dá a entender que ele deveria ficar no fundo do banco, certo?

Errado. O Curry ganha pouco menos de 9 milhões de dólares nessa temporada e ganha mais de 10 nas próximas duas. E nessas duas temporadas ele tem aquele "player option", que quer dizer que ele só vira Free Agent se ele mesmo decidir encerrar o contrato. Agora, por que um ser humano racional desistiria de ganhar 10 milhões de dólares? Eu topava fazer um pornô com o Kid Bengala por 10 milhões! E ainda mais o Curry, que não deve estar recebendo muitas propostas parecidas de outros times na liga.

Com o perdão da piada, o Curry virou então um peso para o Knicks. Não se encaixa no esquema do time e ainda atrapalha contratações para os próximos dois anos, os dois anos com mais possibilidades para deixar o time com alguma chance de ser campeão. A solução para isso é achar um time que queira o Curry para si, alguém que tope pagar tantos milhões para ele pelos próximos anos mesmo sabendo que ele gosta mais de lasanha do que de basquete e que vai comer (oops) 10 milhões do espaço salarial no fatídico 2010.

Para enganar/sacanear/ferrar um time e empurrar o Curry para ele, o outro time tem que achar que o Curry é bom e tal time só vai achar isso se o Curry entrar em quadra. Então eu aposto que cada vez mais o Curry vai entrar em quadra e o tempo todo vão jogar a bola pra ele e que todo mundo vai fazer box out para os rebotes sobrarem livres pro Eddy. Com esse esforcinho extra talvez ele tenha umas médias impressionantes, uma atuação fora de série contra Thunder ou Warriors e talvez assim algum time se interesse por ele.

Mas com sorte o Curry até pode achar um lugar em que ele seja útil de verdade e não uma piada. Deu certo com o Randolph. Ele foi para o Clippers e lá ele se encontrou na situação perfeita ao lado do Marcus Camby. O Camby é capaz de dar 10 tocos e pegar 20 rebotes num mesmo jogo sem fazer um ponto, já o Randolph é capaz de fazer 30 pontos, meter bolas de 3 e nem fazer uma falta de tanto medo de jogar na defesa. Os dois juntos são, em corpos separados, um Tim Duncan sem a cara de bobo.

Tudo o que o Randolph não faz ele tem o Camby atrás pra fazer pra ele. Na soma dos papéis o Clippers tem dentro de seu garrafão todos os tipos de habilidade divividos em dois bons jogadores. E ainda pra completar, ao jogar com o Baron Davis e um Clippers veloz, ele tem uma situação parecida com a que ele se deu bem no Knicks do D'Antoni.

A situação só não é perfeita porque ele está no Clippers, logo ele está machucado e amaldiçoado. Assim como o Baron Davis, o Kaman e o próprio Camby, todos amiguinhos de enfermaria.

Para o Curry, eu imagino como uma situação boa atualmente o Heat. O time do Wade precisa de alguém que faça pontos dentro do garrafão e com o Wade e o Chalmers batendo pra dentro como doidos, vão sobrar bolas pro Curry só botar pra dentro. E assim como o Camby é para o Randolph, acho que o Haslem pode ser um bom complemento para o Curry pegando rebotes. E também tem o fato do Heat já estar se acostumando a não ter um bom garrafão defensivo e com isso eles jogam botando pressão nos armadores, cortam linhas de passe e forçam turnovers.

É um cenário meio irreal porque para isso o Heat deveria mandar na troca algum salário grande como o do Shawn Marion e não sei se é bom negócio deixar o Wade sem Marion e com o Curry do lado na hora dele decidir se fica no Heat ou não em 2010. Mas como exercício de imaginação, é em um time assim que nosso gordinho favorito se daria bem.