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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Para falar de Lin, não da Linsanity

Mais famoso que John Lennon, que era mais famoso que Jesus Cristo, que...

A imprensa, ou a mídia em geral, sabe como destruir um assunto interessante. Ela faz isso o tempo inteiro, aliás. Se uma música faz sucesso, tocam até ela se tornar a que você mais odeia na vida. Se alguém faz algo de interessante, tudo o que essa pessoa faz vira notícia, até se cutuca o nariz ou almoça salada com frango. Pensando nisso hesitei muito em começar esse post sobre o Jeremy Lin, que acaba de aparecer pela segunda semana seguida na capa da revista Sports Illustrated, a mais importante sobre esportes nos EUA. Ele também já foi capa da TIME e aqui no Brasil até na Globo já apareceu. Outro dia até vi uma notícia rápida sobre ele naquela TV Minuto que fica passando manchetes dentro do Metrô de São Paulo. Sobre LeBron James ou Kobe Bryant não lembro de ter visto nada.

Essa atenção exagerada quase me fez desistir de falar sobre Linsanity. Ou melhor, me fez desistir sim, ao invés de falar sobre a Linsanity, vou falar apenas sobre Jeremy Lin. Nade de fanatismo, histórias curiosas, o passado diferente da maioria dos jogadores ou tudo o que eu sei que vocês já leram. É hora de uma análise basquetebolística: Por que esse novo armador fez o New York Knicks voltar a vencer? Continuará a dar certo?

Antes vamos entender por que estava dando errado. Para isso ajuda ler esse post que fiz um tempo atrás, falando de Knicks e Lakers. Nele tento deixar claro que por mais que se tente colocar a culpa das falhas do Knicks no técnico Mike D'Antoni, não acho que ele seja de todo mal. É limitado, não sabe se adaptar aos diferentes tipos de elenco, mas o contrataram sabendo disso e não deram pra ele o que precisava. Pelo contrário, parece que deram o oposto. Talvez não haja na NBA jogador que menos combine com D'Antoni do que Carmelo Anthony.

O famoso "7 seconds or less" que D'Antoni usou no Phoenix Suns não existe no Knicks, mas alguns dos princípios são parecidos. Entre eles o de fazer muitos bloqueios para quem controla e bola e o desejo de espaçamento da quadra, evitando aglomeração no garrafão e obrigando a defesa a abrir para cobrir todos os arremessadores do time. Não podemos esquecer do detalhe de que esses arremessadores não podem ficar em qualquer lugar, uma das bolas mais mortais daquele Suns eram as da zona morta. De Joe Johnson até Leandrinho, passando por Raja Bell, muitos se consagraram com o chute lá do cantinho. Ela obriga a defesa a abrir mais que o normal, dando espaço para a infiltração ou liberando o arremesso em caso de ajuda. Isso não é nem exclusividade de D'Antoni, é um princípio básico de qualquer esquema baseado em abrir espaço na quadra. O Spurs usou muito isso com Bruce Bowen, era o cara que sobrava sempre que dobravam a marcação sobre Tim Duncan.

E o que tudo isso tem a ver com Carmelo Anthony? Um olheiro da NBA entrevistado pelo Eye on Basketball lembra bem que o lugar onde Carmelo mais gosta de atuar é o menos indicado para espaçar a quadra. É na diagonal da cesta, não muito perto do garrafão e nem na linha dos 3 pontos, mas no meio termo. Não tem espaço para o pivô receber a bola e embola o arremessador da zona morta. Sem Melo, contra o Mavs, o Knicks acertou 5 bolas de 3 pontos da zona morta e errou 3, contra o Nets, com o time completo, foram 3 erros e só um acerto.

Mas não que Melo seja burro ou se posicione mal, é uma posição mortal e perfeita para as jogadas de isolação. Carmelo pode jogar de costas pra cesta, de frente, driblar, arremessar na cara, infiltrar para os dois lados e até dar um step back e chutar de 3 pontos. Nesse ponto da quadra ele vira imprevisível e perigoso.

O problema é que o Knicks não queria isso, queria outras jogadas, queria os bloqueios para poder envolver Amar'e Stoudemire e Tyson Chandler no jogo. E aí vinham outros problemas: Se Amar'e virar o homem do bloqueio no pick-and-roll, onde fica Chandler? Embolando o garrafão para impedir Stoudemire de infiltrar? Ou longe da cesta, onde é inútil? A solução foi fazer a maior parte dos bloqueios com Chandler e deixar Amar'e no chamado "weak side" da quadra, no lado oposto dos bloqueios, esperando o colapso da defesa para receber a bola. Ou seja: Carmelo e Amar'e faziam coisas que não eram suas melhores armas só para se encaixar no esquema. Lógico que estava dando errado.

Aí chegou Jeremy Lin. Pouco depois Carmelo Anthony se machucou e Amar'e Stoudemire se afastou devido ao falecimento de seu irmão. Isso fez com que D'Antoni pudesse acabar com todas as improvisações, era só seu armador comandar o show, o pivô fazer os bloqueios e os outros jogadores se posicionarem bem abertos na quadra, com eventuais cortes em direção à cesta. Com isso Landry Fields, que tem ótimo senso de posicionamento, começou a pontuar mais, Tyson Chandler passou a receber um bom passe atrás do outro embaixo da cesta e Steve Novak passou a ser arma mortal dos 3 pontos. Até Iman Shumpert se beneficiou mesmo indo para o banco, ao invés de causar impressão ruim por más decisões tomadas com a bola passou a chamar a atenção pela excelente defesa.

Nas palavras do próprio D'Antoni, o segredo do sucesso de Lin no time é simples: "Ele pensa como armador e joga como armador". A defesa do Knicks, por mais estranho que isso seja se levarmos em consideração os últimos anos, já estava bem, bastou o ataque se organizar que tudo passou a fluir com eficiência assustadora. Some isso à confiança absurda de Lin, a forma com que o time abraçou a Linsanity de maneira positiva e temos um caso de sucesso.

Tem outras coisas interessantes nesse êxito do Jeremy Lin. Todo time que tem sucesso nesse tal espaçamento da quadra tem que ter uma ameaça no garrafão. É assim com o Magic e Dwight Howard, era assim com todo time que o Shaquille O'Neal jogou, foram assim os bons times do Spurs com Tim Duncan. Mas o Phoenix Suns que matava todo mundo de 3 pontos não era assim por causa de Amar'e Stoudemire, tanto que manteve sucesso mesmo quando ele se machucou e usaram o Boris Diaw de pivô, a grande ameaça ao garrafão adversário era o Steve Nash. A capacidade do Nash de usar múltiplos bloqueios e manter o drible vivo obrigava os adversários a sempre mandar ajuda para cobri-lo. Ele é bom arremessador, tem boa bandeja com qualquer uma das mãos e forçava o outro time a correr pra cima dele, aí era só distribuir os passes e os arremessos caíam.

Nesse Knicks agora acontece a mesma coisa. Amar'e Stoudemire não era ameaça porque jogava longe da bola, Chandler não é grande jogador ofensivo e Carmelo Anthony tem jogo baseado na meia distância. Nesse novo time Jeremy Lin passou a ser o homem do garrafão, suas impressionantes infiltrações não estão conseguindo ser paradas por ninguém. Por mais que não pareça, ele tem muita força e é capaz de finalizar mesmo sofrendo marcação bem pesada fisicamente. Entre todos os armadores da NBA, ele é o 5º em porcentagem de seus pontos marcados no garrafão. Apenas caras como Derrick Rose e Tony Parker estão à sua frente. Basta ele passar por seu marcador que a defesa tem que se mexer e aí a máquina do D'Antoni funciona do jeito que ele sempre quis.

Agora vamos tentar dar umas respostas menos óbvias do que as lidas por aí para algumas perguntas que estão pipocando pela internet:

- Jeremy Lin vai dar certo por mais tempo ou é fogo de palha?


Tem jogadores que atuam bem por uma temporada inteira antes de cair muito de produção. Lembram do Channing Frye, que era "introcável" no seu primeiro ano no mesmo Knicks? É divertido até ficar brincando de prever o futuro às vezes, eu costumava fazer posts de Mãe Dinah sobre os novatos, mas no fundo não é mais do que uma adivinhação com só um pouquinho de base racional. Não dá pra saber no que vai dar. O próprio Jeremy Lin é uma prova de como coisas improváveis podem acontecer.

O que sabemos é que até agora ele mostrou características de jogadores que costumam dar certo na NBA: Treina bastante, tem cabeça para lidar com pressão e expectativas, boa visão de jogo e capacidade para criar o próprio arremesso. Dá pra dizer com alguma certeza que ele tem lugar na liga por um bom tempo, com que nível e responsabilidade dentro do time é melhor esperar mais tempo antes de responder.

- Não estão exagerando com o Lin? Ele comete muitos turnovers!


Até agora a média de Jeremy Lin é de 3.4 desperdícios de bola por jogo. É bastante? Sim, mas não absurdo. Russell Westbrook lidera a NBA com 4.2 turnovers por jogo, empatado com John Wall e Deron Williams. Pouco abaixo deles aparecem Kobe Bryant, Steve Nash, LeBron James e, empatado com Lin, Ricky Rubio. 

Todos tem em comum o fato de serem jogadores espetaculares. O Russell Westbrook é fora de série, talentosíssimo e é sua função e característica controlar a bola durante boa parte do tempo pelo Thunder, além de tentar costurar a defesa adversária sempre que possível. Ele é ótimo nisso, mas eventualmente erra. Em alguns jogos esses erros custam mais caro, alguns podem ser bobos, mas olhando o geral vale a pena. Não é à toa que o Thunder nem cogita trocar Westbrook, pelo contrário, já ofereceu uma extensão de contrato bem grande e gorda. O mesmo vale para Kobe Bryant, volta e meia ele tem jogos com 7 ou até 10 desperdícios. Acontece. Ele é o começo, meio e fim do ataque do Lakers, tudo passa por ele em todas as situações de jogo, erros vão acontecer.

O estranho nessa história toda é o Lin ser, de repente, tão importante para o ataque do Knicks, não que cometa erros por ser tão importante. Alguns anos atrás, John Hollinger, um dos grandes especialistas em estatísticas na ESPN gringa, escreveu um texto sobre armadores jovens. Ele dizia que apesar de todo o hype em cima do OJ Mayo e de Derrick Rose, ele apostava que Westbrook seria o melhor depois de alguns anos. E dizia, "Ele tem mais turnovers que os outros dois, mas por incrível que pareça jogadores com mais erros como novatos costumam ter evolução maior nos anos seguintes".

Curioso pelo lado estatístico dessa afirmação, o Ian Levy, do Hickory-High, foi fazer uma pesquisa com números sobre o tema. Ele encontrou dificuldades porque é algo difícil de medir. Hoje claramente Kobe protege melhor a bola do que quando era um jovem jogador, mas não necessariamente isso se reflete só no número de turnovers cometidos. De qualquer forma ele fez um levantamento com vários jogadores, comparando seus anos de novato com a média da carreira. Nenhum grande padrão se revelou exatamente como Hollinger afirmou, mas é bem claro que boa parte dos jogadores passaram a ter um número de erro por posse de bola bem menor com o passar dos anos. Em outras palavras, o óbvio: Lin erra bastante, mas não muito mais ou menos que qualquer outro armador jovem na NBA. A afirmação de Hollinger não pode ser totalmente comprovada por números, mas a história mostra que muitos armadores que começaram a carreira cometendo muitos erros não deixaram de ser grandes jogadores por isso.

O que talvez seja mais importante e que Ian também fez em seu post é descobrir que erros ele comete. Ele compara os erros de Jeremy Lin com o de outro novato que perde bastante a bola, Kyrie Irving.



Jeremy Lin é bem cuidadoso com as faltas de ataque para alguém que infiltra tanto, também erra até menos em passes que Kyrie Irving. Seu problema mesmo está no controle do drible. As infiltrações em lugares complicados, tentar manter o drible vivo mesmo dentro do garrafão, essas tem sido as maiores fontes de erros para o armador do Knicks. Nada muito preocupante, acho. Fazer isso é difícil para qualquer armador e é bem mais fácil de treinar e ganhar experiência do que o passe, esse um talento mais difícil de aprender. Daqui uns anos Irving e Lin podem muito bem serem provas vivas da teoria de Hollinger.

- Lin é previsível, bate sempre para a direita!


Essa eu ouvi bastante semana passada e acho uma bobagem sem tamanho. Só ver alguns jogos dele, ou até só os melhores momentos, para ver como ele tem capacidade e talento para cortar e infiltrar para os dois lados. Tem apenas uma preferência. Mas até aí o Tim Duncan prefere receber a bola do lado direito do garrafão, o Ginóbili gosta de cortar para a esquerda, o Ricky Rubio prefere receber o bloqueio no seu lado esquerdo, o Paul Pierce gosta de arremessar driblando para a direita, o Tyreke Evans usa e abusa do Euro-Step e por aí vai. Todo mundo tem preferências e a liga inteira sabe quais são, parar elas é que é um trabalho muito mais difícil. E até agora ninguém parou Lin.


- Tá bom, mas ele pode jogar ao lado de Carmelo Anthony?

Eu acho que pode, mas alguns ajustes devem ser feitos. O primeiro deles é que se D'Antoni é o técnico e ele só sabe montar o time de um jeito, que seja esse. O sistema está dando certo para Lin, Novak, Chandler, Jeffries, Fields e Shumpert. Todos melhoraram individualmente com ele e as vitórias apareceram. Cabe a Melo e Stoudemire se adaptarem.

Para Melo é só ele aceitar que não precisa agir como macho alfa para ser a estrela do time. Todo mundo sabe que ele é o jogador com mais talentos e recursos no elenco, mas não é por isso que ele deve controlar a bola o tempo todo e chutar mais que o resto do mundo inteiro. Carmelo é tão completo que eu acho ele um dos poucos jogadores na NBA que podem ser cestinha de um time mesmo arremessando pouco, e deveria usar isso a seu favor. Lembra na seleção americana como várias vezes o jogo acabava com show de Kobe ou LeBron e no fim das contas o cestinha do time tinha sido Carmelo Anthony? Um arremesso de 3 aqui, um contra-ataque ali, uma bola que sobrou ali e ele mata todas, fazia 20 pontos sem ninguém nem citar o nome dele.

Já que comparamos tanto esse Knicks ao velho Suns de D'Antoni, Melo seria o Shawn Marion: Tem pouquíssimas jogadas desenhadas pra ele mas mesmo assim faz 20 pontos por jogo. Melo nem precisa ser tão extremo, já que tem cem vezes mais recursos de ataque que Marion, mas pode usar sua versatilidade ofensiva para se movimentar com liberdade no ataque e fazer pontos de qualquer canto da quadra. Mais produtivo, veloz e eficiente do que ficar isolando ele o tempo todo.

A situação de Amar'e Stoudemire é mais delicada porque não consigo lembrar de uma vez que ele tenha jogado ao lado de um pivô e que tenha dado certo. Lembra quando ele jogou com o Shaq no Suns? Os dois reclamavam de não ter espaço, do garrafão embolado e o time nunca embalou. Amar'e não gosta de jogar de costas para a cesta, prefere se virar e bater pra dentro, para isso precisa de espaço e ninguém na cobertura de seu defensor. Com Chandler lá é o contrário que acontece. A solução de usá-lo do lado oposto do pick-and-roll é até funcional porque ele tem bom arremesso de meia distância, mas isso é função de um Udonis Haslem da vida, não de um cara caro e completo como é Stoudemire. Sei que mesmo quando não está em seus melhores dias e mesmo quando não é tão bem aproveitado, o pivô é bom o bastante para conseguir seus pontos. Acho que é um problema que pode ser resolvido ou contornado sem que o time perca muitos jogos por causa disso. Será que é ousadia demais pensar em usar Amar'e numa espécie de time reserva com Baron Davis e JR Smith, enquanto Chandler passa mais tempo com Carmelo e Lin no time titular?

Não é de surpreender que falem tão pouco do lado do basquete na história de Jeremy Lin. É simples demais. O Mike D'Antoni não sabia como contornar sua necessidade de um armador agressivo que se tornasse a ameaça ao garrafão adversário, achou um jovem que se destacou na Liga de Desenvolvimento da NBA e o contratou. Deu certo. Sem falar de nomes de faculdade ou etnia a história não parece tão boa assim, mas a revolução dentro da quadra é enorme e merece, também, toda atenção do mundo.

8 ou 80
As estatísticas bizarras de Jeremy Lin

- Jeremy Lin é o jogador que mais marcou pontos em seus primeiros 8 jogos como titular na NBA. Apenas Michael Jordan, Bernard King, Shaquille O'Neal e Brandon Jennings marcaram mais que os 200 de Lin. Em assistências, nem Magic Johnson ou Isiah Thomas conseguiram números melhores que os de Lin em seus primeiros 8 jogos como titular.

- Voltando aos turnovers. Lin foi o primeiro jogador da história a ter pelo menos 6 desperdícios de bola em 6 jogos seguidos. Se compensa, seu time venceu 5 dessas partidas.

- O Knicks marca apenas 40% de seus pontos no garrafão quando Jeremy Lin está fora da quadra, o número sobre para 47% quando ele está jogando. Outro número que sobe é o aproveitamento de arremessos: 48% com ele jogando, 41% com Lin fora da quadra.

sábado, 24 de julho de 2010

Summer Leagues - O resto


Chegou a hora de conhecer Jeremy Lin


Chegou a última parte da análise das Summer Leagues. Na primeira contamos um pouco do propósito desses campeonatos onde ninguém olha o placar final do jogo e falamos um pouco do desempenho dos recém-draftados. Na segunda parte falamos de quem se destacou entre os que já jogam na NBA e hoje, finalmente, falaremos do resto. Aqueles que já foram da NBA mas estão sumidos, os caras que jogavam na Europa e vieram tentar a sorte na liga americana e os caras que saíram da universidade mas passaram pelo draft sem terem sido escolhidos por ninguém.

Não quero enrolar mais do que já enrolo, mas queria dizer o motivo para não estarmos falando nada do Chris Paul, que parece ter pedido para sair do Hornets: até agora o único fato consumado é que ele está insatisfeito com o elenco do time e quer conversar disso com o novo General Manager. Eles ainda vão ter uma reunião na segunda-feira e só a partir daí pode acontecer alguma coisa de concreto. Desde o começo da offseason a gente se focou em comentar contratações e trocas, nunca boatos. E ficar dizendo o que a saída do Chris Paul significaria para o Hornets sem isso ter acontecido parece uma perda de tempo gigantesca sendo que aconteceram tantas outras mudanças reais que ainda não ganharam seus textos.

Isso dito, vamos voltar aos campeonatinhos de verão:

Os Outros
Gary Neal (SG - San Antonio Spurs) - Depois de uma boa temporada no basquete italiano, o Gary Neal foi tentar a sorte nos Estados Unidos. Fez cinco jogos pelo Spurs e convenceu a equipe do Greg Popovich. E convenceu por um único motivo, algo que faltou ao Spurs na temporada passada, as bolas de longa distância. Neal acertou bolas de três em todos os jogos e mesmo chutando bastante e com arremessos difíceis, acabou a Summer League de Las Vegas com 50% de aproveitamento. Na última partida, contra o Grizzlies, tentou 10 bolas e acertou 6, fechando o jogo com 25 pontos.

Com as infiltrações sempre perigosas do Tony Parker e Manu Ginobili e a marcação dupla que o Tim Duncan costuma exigir, o Spurs foi sempre um time que conseguiu produzir muitas situações para bolas de longa distância, mas no ano passado não estava conseguindo transformar essas boas jogadas em pontos. Se meter algumas bolinhas dessas por jogo, o Neal já terá sido uma contratação que valeu a pena.

Morris Almond (SG - Chicago Bulls) - Lembram no post passado quando eu contei que o Joe Alexander era um dos poucos jogadores na história da NBA a terem sido dispensados após apenas dois anos de seus contratos de novato? E lembram que naquela lista tinha um mané chamado Morris Almond? Pois é, ele estava jogando em Las Vegas.

O Almond foi dispensado após duas temporadas improdutivas no Jazz. Depois disso continuou nos EUA e jogou muito na D-League, onde simplesmente arrebentou com tudo, incluindo jogos com mais de 50 pontos. Ele é um excelente arremessador, às vezes fominha, é verdade, mas que faz pontos com facilidade. O problema é que na NBA parece ser abatido por um nervosismo que faz com que suas bolas não caiam. E arremessadores que não acertam arremessos são tão úteis quanto um açogueiro com nojo de carne.

Na Summer League ele fez um bom trabalho, acabou com 13 pontos de média mas no seu dia mais inspirado chegou a fazer 22 pontos. Ele não faz nada além disso, claro, mas pode ser uma boa para o Chicago Bulls que está em busca de arremessadores. Eles conseguiram o Korver mas não o Redick, então talvez sobre um espaço para ele. Tudo deve depender da contratação do Tracy McGrady, que já treinou com o Bulls e espera uma resposta do time.

Sofoklis Schortsanitis (PF/C - Los Angeles Clippers) - Tá, não vou mentir, dei um Ctrl+C - Ctrl+V para escrever o nome dele aqui, mas alguém aqui faria diferente? Todo mundo conhece o pivô grego apenas como "Baby Shaq", e seus 142kg bastam como justificativa para o apelido.

Ele ganhou alguma fama nos EUA quando foi escolhido pelo Clippers na segunda rodada do agora longínquo Draft de 2003, impressionou pelo corpo gigantesco mas foi deixado na Europa. Três anos depois, no Mundial de 2006 no Japão, ele foi peça importante do time vice-campeão da Grécia e foi um dos melhores jogadores da seleção grega durante a semi-final contra os Estados Unidos. Ele e o Vassilis Spanoulis, que teve uma boa, mas discreta, passagem pelo Rockets, aniquilaram a defesa americana com seus pick-and-rolls. Aliás, vale a pena ver os melhores momentos daquele jogo histórico:


Depois dessa partida parecia claro que o Baby Shaq teria uma chance na NBA, mas acabou recebendo ofertas mais lucrativas na própria Grécia e ficou por lá. Quatro anos depois, às vésperas de outro mundial, ele finalmente tenta ir para a NBA. Hoje o grego tem 25 anos, poderia ter sido uma boa idéia esperar, como foi com Tiago Splitter, mas a carreira do "Sofo" teve um caminho diferente. Depois de brilhar 4 anos atrás na Grécia e no Olimpyacos, seus minutos por quadra e produtividade foram caindo aos poucos. Hoje não é tão badalado dentro do seu time como já foi quando mais novo.

Talvez até por isso tenha ido tentar a sorte nos EUA, mas não foi bem na Summer League de Las Vegas. Jogou apenas 13 minutos por jogo, pouco mais de um período (nesse torneio cada quarto tem 10 minutos, como na FIBA) e teve médias ridículas de 2.5 pontos e 3.8 rebotes por partida. Os rebotes até que foram bons para o tempo jogado, é verdade, mas ele não conseguiu render bem no ataque como esperado e participou pouco dos jogos. O Clippers acabou de manter o Craig Smith no time e ainda tem Blake Griffin, Chris Kaman e DeAndre Jordan no garrafão, não sei se existe um interesse real em levar o Baby Shaq para a NBA. Aposto mais que ele volte para a Summer League do ano que vem para tentar de novo.

Jaycee Carroll (SG - Boston Celtics/New York Knicks) - Esse deve ter sido o jogador que mais atuou nas ligas de verão. Jogou tanto a de Orlando, pelo Celtics, quanto a de Las Vegas, essa pelo Knicks. E jogou bem pelos dois times.

O Carroll fez uma boa carreira universitária pela Utah State University, mas não chegou a ser draftado. Atuou nas Summer Leagues de 2008, 2009, e jogou a última temporada pelo Gran Canaria da Espanha. Antes disso atuou no Teramo Basket da Itália, onde virou lenda ao marcar duas bolas de 3 nos últimos 7 segundos de um jogo decisivo.

Com o sonho de atuar na NBA, veio de novo jogar as ligas de verão e finalmente teve sucesso. Ele teve média de 15 pontos por jogo na Summer League de Orlando, onde foi eleito para a segunda seleção do torneio. Pelo Knicks em Las Vegas não jogou tanto, mas 8 pontos de média em 14 minutos por partida não é nada mal! Com as más atuações de Andy Rautins pelo Knicks, é possível que eles estejam atrás de contratos pequenos com jovem jogadores da posição. Alguém para ser testado, para contribuir vindo do banco e não comprometer as finanças do time. Jaycee Carroll não é tão inexperiente como Rautins e serve a todos esses objetivos, pode ser uma opção.

Curioso ver como a história de Carroll é uma boa prova do quanto é difícil entrar na NBA. Carreira universitária boa, boas temporadas na Europa, destaque nas ligas de verão e mesmo assim ele tem uma chance remotíssima de conseguir ser apenas o último cara do banco de um time da NBA. Tem que ser espetacular, não basta ser bom.

Pooh Jeter (PG - Cleveland Cavaliers) - Eugene Jeter III é uma força nominal absurda, mas ele prefere usar o apelido de ursinho dele, vai entender! O armador batalha por um lugar na NBA há muito tempo. Ele jogou na D-League em 2006-07, depois jogou na Ucrânia, Espanha e Israel. Na liga de desenvolvimento ele era um dos líderes em assistência com mais de 7 por jogo, mas não chegou a ter grandes chances na NBA. Já havia voltado para disputar Summer Leagues, mas só agora pelo Cavs é que ele se destacou. Foi o quarto líder em assistências do torneio e ainda meteu 14 pontos por jogo.

Não foi páreo para caras como Jrue Holiday e John Wall, mas entre os que não tinham contrato garantido foi disparado o melhor armador. Apesar de apenas 1,80m de altura, sabe das suas limitações e se destaca por comandar o jogo, por tomar boas decisões em quadra, talento que, dizem (não vejo o campeonato ucraniano), cresceu com a sua passagem pela Europa. Finalmente pronto para a NBA acaba de assinar um contrato com o Sacramento Kings, onde provavelmente será reserva imediato de Beno Udrih.

Jeremy Lin (PG - Dallas Mavericks) - Finalmente a estrela da liga! Ele não foi o melhor jogador, mas teve a atuação mais impressionante e a história que mais chamou a atenção. Tudo em Jeremy Lin é diferente do padrão da NBA, absolutamente tudo.

Lin é americano, nascido em Palo Alto na California, descendente direto de família Taiwanesa, sem qualquer sangue americano na família. É o primeiro jogador americano de origem asiática a chegar na liga desde Wataru Misaka, um americano de origem japonesa que foi o primeiro jogador não-branco a atuar na NBA há 63 anos. Na NCAA, apenas 0,5% dos jogadores tem origem asiática.

O armador também é diferente pelo desenho da sua carreira. Começou a jogar basquete quando criança em uma YMCA (é uma rede de clubes que deu origem à música que todo mundo conhece) de Palo Alto por incentivo de seu pai, que mesmo quando ainda morava em Taiwan caçava algumas jogadas da NBA na TV para saciar sua vontade de basquete. Nas suas palavras, "Não sei porque gosto de basquete, apenas gosto". Na terra do basquete não teve dúvidas e levou os filhos para jogar, mas Jeremy apenas ficava no meio da quadra chupando o dedo como uma criança desinteressada. Depois de alguns jogos sua mãe deixou de ir assistir, Jeremy viu aí um incentivo e pediu para ela voltar no próximo jogo, para ele resolver parar de chupar o dedo e ir brincar com as outras crianças. Por "brincar" entenda "fazer todos os pontos do jogo".

No colegial ele liderou a Palo Alto High School, uma escola sem tradição no basquete, ao título da Divisão II estadual, sendo considerado o melhor jogador do torneio por diversas publicações locais, mas mesmo assim não recebeu nenhuma bolsa de estudos dos times da primeira divisão da NCAA. Foi recusado pela UCLA e em entrevista à CAL U até o chamaram pelo nome errado. Foi então para o outro lado do país para uma universidade muito conhecida, embora nunca pelo seu basquete: Harvard. Membro da Ivy League, que concentra 8 das melhores unversidades americanas, entre elas Yale, Columbia e Princeton, Harvard não pode oferecer bolsas de estudo para atletas. Jeremy Lin, porém, nunca escolheu entre estudar ou jogar, fez os dois.

Uma pessoa de origem asiática em uma das mais renomadas instituições de ensino é até um clichê, existiam 23 alunos com o sobrenome Lin em Harvard quando ele entrou, mas Jeremy foi além, foi um esportista, e no seu último ano (ele jogou os 4 e se formou em Economia), levou a universidade para a sua melhor campanha na história. Com atuações impressionantes, como a do vídeo abaixo contra a tradicional UConn, fora de casa, começou a ficar conhecido e até foi finalista para o Bob Cousy Award, prêmio dado ao melhor armador universitário do ano.


Não bastava ser um jogador de destaque em escolas que nunca tinham ouvido falar de basquete, ele queria quebrar mais alguns dos estereótipos do jogador de basquete. Não foi o basqueteiro que ignorava o estudo para jogar, nem o que só queria saber de festas, nem o que se envolveu com drogas e nem aquele que só queria saber de usar a fama do basquete universitário para pegar mulher. Também não tinha uma família desequilibrada para responsabilizar por se envolver com o crime e nem faltava dinheiro para ele se envolver no mundo das drogas. Dedicava todo o seu tempo livre do basquete para o estudo e principalmente para a Bíblia.

Lin criou um grupo de leitura da Bíblia e chegou a levar alguns de seus companheiros de time para lá, se organizando semanalmente para rezar e discutir o livro. Como acontece com quase todo atleta que se envolve demais com religião, começou a misturar as coisas: ele diz que lidera o time de uma maneira cristã, que joga para a glória de Deus e por Deus, e que não se foca tanto em ganhar ou perder, mas sim em ter fé no plano perfeito de Deus.

Eu sou ateu e confesso que pessoas que falam de Deus o tempo todo me irritam profundamente, mas elas existem e eventualmente algumas gostam de jogar basquete, outras, como Lin, não só gostam como são boas nisso. O esporte parece não combinar com religião, mas ele é feito de pessoas e elas tem suas características, sejam elas agradáveis para os outros ou não. Lembro de quando o Dwight Howard chegou na NBA e perguntou para o David Stern se poderia colocar uma cruz no seu uniforme, o que foi proibido. Stern estava certo nisso, o esporte é um lugar onde se juntam pessoas de qualquer tipo que tem em comum a atividade esportiva que praticam, mas ficar divulgando e colocando para fora parece mais propaganda do que fé. Jeremy Lin ser um cristão tão devoto é curioso e deixa a NBA com mais um personagem diferente, mas em algumas entrevistas ele pareceu tão bitolado que eu fico com a sensação de que em breve poderemos ter na NBA alguns dos exageros religiosos que vemos tantas vezes no futebol. Agora ele é um personagem diferente, exótico, interessante, mas isso pode mudar.

Na Summer League o Jeremy Lin jogou 4 partidas pelo Mavs. Fez 12 pontos em 18 minutos na primeira, somou 12 nas duas partidas seguintes e apenas no seu último jogo brilhou de verdade. Enfrentou mano a mano a estrela John Wall e marcou 13 pontos em 17 minutos. No vídeo abaixo dá pra ver o que fez a torcida ir ao delírio com o jovem: velocidade, dribles, bons roubos e uma capacidade impressionante de infiltrar na defesa adversária.


Apesar de estar jogando pelo Mavs, Lin não tinha vínculo nenhum com o time, e ganhou o interesse também do Lakers e do Warriors. Em entrevista ainda na faculdade já havia dito que o seu sonho era de jogar pelo time do coração, o Golden State, e acaba de finalizar um contrato de dois anos com eles. Com contrato assinado, Lin passa a ser o primeiro jogador a sair da Ivy League em 8 anos e segundo jogador da história da NBA a ter saído de Harvard, o último foi Ed Smith em 1953.

Difícil saber o quanto ele irá render na NBA, mas sua contribuição já começou com essa história pouco comum. Ele disse ter superado anos e anos de piadas racistas em quadras de basquete e na NCAA até chegar na NBA, o que é, Bíblia a parte, uma história fantástica. Eu imagino que no sistema veloz do Golden State Warriors ele tenha boas chances de se destacar. Provavelmente nunca vai ser titular, mas dá pra enxergar ele fazendo muitos pontos em alguns jogos isolados durante a temporada. A torcida do Warriors, tradicionalmente uma das mais fiéis (ao time, não necessariamente ao deus do Jeremy Lin) e apaixonadas da NBA, certamente irá ao delírio com o garoto da casa.