sexta-feira, 13 de maio de 2011

(título engraçadinho tirando sarro da idade dos jogadores do Celtics)

Clique na foto e veja ampliada, são muitas expressões ótimas além da cara de bunda do Paul Pierce


E acabou para o Boston Celtics também. Em uma série em que eles nunca pareceram ter muita chance, tomaram de 4 a 1 do Miami Heat. Antes do campeonato começar esse confronto era aguardado ansiosamente, durante a temporada regular o Boston venceu os três primeiros confrontos categoricamente, mas na famosa hora de "separar os homens dos meninos" os meninos venceram com o pé nas costas. E as coisas ficam mais simbólicas do que isso: Com a eliminação de Shaquille O'Neal, que mal jogou nessa série por causa das suas contusões, é oficialmente o fim de uma era na NBA. Desde 1995 não víamos uma final da NBA sem Phil Jackson, Gregg Popovich ou Pat Riley treinando um dos finalistas. Jackson e Riley já se aposentaram e Popovich diz que pendura a prancheta quando Tim Duncan encerrar a carreira, ou seja, falta pouco. Entre os jogadores essa será a primeira final desde a aposentadoria de Michael Jordan em 1998 que não terá Kobe Bryant, Tim Duncan ou Shaq em uma das equipes.

Até o ano passado a gente dizia que a pivetada, com Kevin Durant, Chris Paul, Dwight Howard e mais um monte de gente estava aos poucos tomando conta da NBA, mas enquanto os títulos ficavam nas mãos de Paul Pierce e Kobe Bryant era difícil aceitar que a mudança tinha chegado. Mas nesse ano só o Dallas Mavericks com Dirk Nowitzki e Jason Kidd ainda pode honrar a velha guarda. Essa mudança de cenário, se concretizada, terá como símbolo maior essa vitória esmagadora do Heat sobre o Celtics.

A estratégia do Celtics para vencer o Heat foi a mesma que usaram na temporada regular, tentando impedir as infiltrações de Dwyane Wade e LeBron James e forçando eles e o resto do elenco a arremessos de longa distância, Chris Bosh seria bem marcado por Kevin Garnett dentro do garrafão e tudo estaria certo. Acontece que eles sabiam o que fazer, só não conseguiam. Por melhor que Delonte West tenha sido incomodando Wade, não conseguiu deixá-lo longe da cesta, mesma coisa vale para Pierce marcando LeBron e, *gasp*, Garnett com Bosh. O Chris Bosh não foi magnífico ou fora de série, mas fez alguns bons jogos e foi mais regular que seu adversário de posição. Aliás, o que se passa com os alas de força da NBA nessa rodada? Bosh foi bom, mas longe de ser um All-Star. Boozer e Josh Smith tiveram cada um deles um jogo bom em toda uma série de 6 partidas, Pau Gasol foi um desastre e Serge Ibaka nem sombra do cara que arrasou com o Nuggets. Todo o talento deles foi transformado em bratwurst e engolido pelos dois que sobraram, Zach Randolph e Dirk Nowitzki estão destruindo com tudo e todos.

Voltando ao Heat e Celtics, em alguns jogos, no primeiro por exemplo, os verdes ainda tiveram o azar dos coadjuvantes do Heat estarem acertando as bolas de três, o que deixou tudo mais difícil. Mas nos últimos jogos nem isso, o Big 3 (que tá mais para Big 2 e mais um bom jogador chamado Chris Bosh depois das críticas) arremessava 90% das bolas da equipe e ignorava o resto e mesmo assim não foram parados.

No último jogo da série o placar estava parelho até o finalzinho quando o Heat disparou, nesses minutos finais o Heat tentou 8 arremessos: 4 foram bandejas (3 entraram), 3 foram bolas de três quase sem marcação (todas caíram) e só uma foi a bola que o Celtics queria ver, um longo arremesso de 2 forçado. Esse não virou cesta. O Heat também garantiu a vitória na defesa, sua pressão e dobras na marcação já eram efetivas e melhoraram ainda mais quando o Rajon Rondo se machucou e eles perceberam que poderiam deixar ele de lado, cheio de espaço. A boa defesa garantiu o placar apertado até nos momentos em que o Miami Heat lembrava um pouco mais aquele time não tão brilhante da temporada regular.

Mas essa superação individual dos jogadores do Miami sobre os do Boston  não quer dizer que eles não joguem como um time. Esse tipo de acusação fazia mais sentido no começo da temporada, mas agora é birra de quem (com vários motivos, é verdade) quer odiar o Heat. Eles apelam para a individualidade muitas vezes, fato, mas pelo menos dividem entre dois ou três jogadores, o idolatrado Bulls que todo mundo aprendeu a amar só tem o Derrick Rose. E, não custa lembrar, o Celtics campeão de 2008 era o menos coletivo de toda essa era do Big 3. Naquele ano Rajon Rondo era bem menos importante e eles foram campeões basicamente sendo uma das melhores defesas da história e mantendo as coisas simples no ataque. Era isolação do Paul Pierce, alguns corta-luzes para o Ray Allen e pick-and-pop com o KG. Muito diferente das mesmas jogadas repetitivas (e agora eficientes) do Miami? Eu acho que não.

Existe muito a se criticar sobre o Miami Heat no último ano, desde o comportamento esnobe até o estilo de jogo feio e que muita gente considera "peladeiro". Mas nos playoffs está tudo diferente, o time está jogando consistentemente e até os jogadores estão controlando mais a boca. Quer dizer, mais ou menos, quando o Wade deu um waza-ari no Rondo e o armador do Celtics machucou o cotovelo uma repórter perguntou na entrevista coletiva se o Wade considerava que tinha feito uma jogada suja. Enquanto o D-Wade foi politicamente correto, o LeBron só disse de canto de boca: "retardada". A polêmica foi grande, mas ele não só pediu desculpas depois como até pediu desculpas sobre a maneira com que deixou o Cavs na última offseason! Sério, ele realmente disse que queria que as coisas tivessem sido levadas de um jeito diferente. É a redenção do King James? Ainda não, mas foi um bom começo, nada como vencer para acalmar os ânimos.

Mas e o Celtics? Quem culpar? O que aconteceu? Para onde apontar o dedo? É a parte mais divertida, afinal! Bom, não tem como não pensar "E se eles não tivessem trocado o Kendrick Perkins?". Eu não sei se seria o bastante para eles vencerem a série, mas as coisas teriam sido diferentes. Não que o Perkins seja deus na terra, valorizaram ele mais do que deveriam esse ano, mas o Celtics funcionava melhor com um pivô forte lá no meio e sentiram falta disso na hora de parar as infiltrações de Wade e LeBron. No começo da temporada o Celtics até venceu o Heat sem Perk, mas tinha Shaq jogando minutos consideráveis e Jermaine O'Neal um pouco mais saudável (para o nível Jermaine, claro). E se vocês lembrarem até o novato Semih Erden estava mandando bem no garrafão por alguns minutos no começo da temporada. O Celtics sentiu falta não só do Perkins, mas de qualquer pivô que pudesse dar uma defesa forte para eles, então não é para culparmos o General Manager Danny Ainge só por trocar o Perkins, mas por também mandar Erden para o Cavs e confiar que os dois O'Neals estariam saudáveis para segurar o tranco. E não dá pra culpar os pivôs, eles não escolheram se machucar, o Danny Ainge deixou a chave do carro com a criança de 2 anos e não pode culpar ela por ter tacado no bueiro.

A troca do Erden faz parte da destruição do banco de reservas do Celtics que aconteceu na data-limite das trocas em fevereiro. Além do pivô turco e de Perkins, saíram Nate Robinson, Marquis Daniels (que estava machucado) e Luke Harangody. Com todas essas mudanças em poucas semanas o eficiente banco verde tinha virado um apanhado de jogadores que nunca tinham treinado juntos como Carlos Arroyo, Jeff Green, Troy Murphy e Nenad Krstic. Nenhum deles é ruim, mas nenhum também conseguiu se adaptar ao esquema tático verde e pouco contribuíram até o fim da temporada. Nessa série contra o Heat só o Delonte West foi relevante vindo do banco e em algumas vezes, como na prorrogação do jogo 4, chamou a atenção mais pelos defeitos do que pelas qualidades. Se o Celtics tivesse um bom grupo de reservas para abusar do fraco banco do Heat talvez as coisas tivessem sido um pouco diferentes. Com os titulares jogando tempo demais deu até tempo para eles se desentenderem: o que diabos o Rajon Rondo queria entregando a bola para o Paul Pierce? Você é o armador, toma essa porra de bola de volta!



É muito fácil só culpar a idade dos jogadores e a ausência do Perkins, mas eram duas coisas que já estavam lá quando eles foram o melhor time da NBA nos dois primeiros meses da temporada, o que faltou foi manter o banco de reservas que deixava os vovôs respirarem, o garrafão forte e um pouco de saúde; as contusões de Shaq, Jermaine e também de Rondo, que sofreu com dores nas costas e outros incômodos mesmo antes de machucar o cotovelo, deixaram o Celtics vulnerável. E calma lá, não quero dizer que eles venceriam o Miami Heat se tivessem mantido o elenco e estivessem saudáveis! Esses "e se" são tão interessantes quanto tomar coca-cola sem gás e sem gelo no meio de uma aula de trigonometria. Mas foram coisas que fizeram falta e que deixariam a série mais parelha, sem dúvida.

Para o futuro não tem nem o que pensar. É difícil demais na NBA conseguir uma base de elenco tão boa como essa do Celtics, por isso eu sou quase sempre contra desmontar times inteiros depois de alguma decepção. A era pode ser outra, mas não consigo imaginar alternativas melhores do que manter o trio de veteranos, Jeff Green, Rajon Rondo e sair por aí atrás de bons reservas para fechar o elenco. Doc Rivers já confirmou que fica no Celtics e assinou uma extensão de contrato de cinco anos, é continuar insistindo até que todo o trio seja tão velho que não possa mais participar dessa triste brincadeira:


quarta-feira, 11 de maio de 2011

Altos, baixos e gordos

Perkins e Randolph se odeiam, mas em quadra tentam imitar a cara do Duncan


O que tivemos entre Grizzlies e Thunder foi o mais próximo possível no mundo real de um confronto entre dois Cavaleiros de Ouro (do desenho "Cavaleiros do Zodíaco", é preciso avisar às novas gerações), em que duelos entre lutadores poderosos durariam mil dias e mil noites (curiosamente no desenho a maioria das lutas só levava uns minutinhos e uns 90 litros de sangue). Foi uma batalha épica com 3 prorrogações em que ambos os times foram levados à exaustão total. Para se ter uma ideia, pelo Grizzlies o Zach Randolph jogou 56 minutos e Marc Gasol jogou 57, enquanto pelo Thunder o Durant jogou quase 57 minutos e Westbrook jogou 51. É quase uma hora inteira e ininterrupta de basquete para esses jogadores, o que é especialmente surreal se você pensar que um deles é um baita gordinho. Jogos com três prorrogações são sempre aberrações e dedam alguns fatos: para chegar nesse ponto não é necessário apenas que os times sejam parelhos, mas também que eles tenham muitos altos e baixos. Se um dos times fosse capaz de manter a superioridade conquistada em alguns momentos do jogo, teria vencido no tempo normal, sem prorrogações. Os dois times tiveram grandes momentos na partida (o Grizzlies chegou a vencer por 18, o Thunder vencia por 10 no meio do quarto período), mas também tiveram momentos medonhos e expuseram todas as suas fragilidades. Em uma série normal, uma superioridade física ou tática momentânea poderia garantir a liderança sendo sustentada até o fim da partida, mas Grizzlies e Thunder não são muito afeitos da regularidade ou dos planos de jogo, especialmente na parte ofensiva. O resultado é uma montanha-russa divertidíssima que gerou 3 prorrogações e que arrancou preciosas horas de sono de todos nós (por aqui, ainda estou devendo ao meu cérebro as horas de sono roubadas pelo jogo e boto nisso a culpa por tudo que disser aqui sem o meu advogado). Ao fim do jogo e do atraso no sono causado nos dias seguintes, me sinto tão exausto quanto o Randolph gordinho e seus 56 minutos em quadra.

Durante o jogo, entretanto, estive muito acordado e fuzilei o dedo no print screen para analisar a jogada que o Grizzlies usou à exaustão em seus melhores momentos - e que foi completamente abandonada nos momentos mais cruciais da partida. Vamos então às imagens (que podem ser clicadas caso você queira ver gigante, em detalhes):


1. Acima podemos ver uma jogada simples de pick and roll. Mike Conley, marcado por Westbrook, leva a bola e recebe um corta-luz de Marc Gasol na linha de três pontos.


2. O marcador de Marc Gasol na jogada, Serge Ibaka, tenta impedir então a progressão do Mike Conley e entra na frente do armador. Se bem executada, essa troca de marcação impediria o passe de volta para Marc Gasol, mas veja como Conley tem bastante espaço para olhar o jogo enquanto Gasol se movimenta livremente rumo à cesta. (Veja também a mensagem do meu computador, avisando que eu posso apertar Esc para sair do modo tela cheia. Esc, a famosa tecla inútil que só serve quando vejo NBA.)


3. Conley faz o passe para Marc Gasol facilmente, que tem um corredor até o aro. A reação da defesa do Thunder é risível: James Harden abandona seu homem na zona morta para tentar cavar a mais idiota falta de ataque do planeta, dando espaço para o Gasol passar bem do seu lado; enquanto isso Kendrick Perkins não se atreve nem lascando a desgrudar do Zach Randolph, já que Gasol é bom passador e constantemente aciona seu parceiro de garrafão quando pressionado.

O que vemos nas três imagens acima é uma cesta simples para o Grizzlies. A jogada pode ser repetida com o corta luz sendo efetuado pelo Randolph, com a única diferença de que ele gosta de arremessar ao receber a bola tanto quanto gosta de bater para dentro. Se a marcação do Harden fosse melhorzinha, o Grizzlies ganharia então um arremesso da zona morta. Se o Perkins reagisse, um jogador de garrafão estaria livre embaixo do aro e provavelmente sofreria a falta ou conseguiria o rebote ofensivo. Não é à toa que Randolph cobrou 17 lances livres e teve 8 rebotes ofensivos, portanto.

Agora, vamos analisar o que acontece quando o Thunder finalmente coloca em prática o que aprendeu no primeiro jogo e defende direito esse maldito pick and roll:


1. Na imagem acima Marc Gasol acabou de fazer o corta-luz e abriu novamente para a cabeça do garrafão, mas dessa vez Ibaka conseguiu entrar na frente do Mike Conley lhe tirando o espaço, enquanto Russell Westbrook aperta o armador e bloqueia a linha de passe. Eles tentaram fazer isso na jogada anterior que vimos, mas dessa vez o armador do Grizzlies é verdadeiramente pressionado como deveria.


2. Com Mike Conley espremido na lateral, evitando um passe muito arriscado que precisaria ser alto demais para passar por cima da marcação, Ibaka tem tempo de usar sua velocidade e alcançar Gasol, entrando na frente da linha da bola. Mesmo se o passe tivesse sido feito por cima dos marcadores, Ibaka ainda assim teria tempo o bastante para alcançar Gasol na corrida porque o passe seria alto e ele é rápido pra burro. Então o pick and roll do Grizzlies está oficialmente bloqueado. Mas, opa, o que é aquela lua pequena com um pé lá dentro do garrafão? É o Zach Randolph conquistando posição perto da cesta! Agora Ibaka já está longe demais para ajudar na marcação do Randolph e James Harden ainda está focado no pick and roll, pensando no Marc Gasol. Conley teve então facilidade na sequência dessa jogada em colocar a bola nas mãos do Randolph, que apenas girou em cima do Perkins rumo à cesta. Ah, sim: era uma bola fácil, mas ele errou o arremesso. Funhé.

Então mesmo quando o pick and roll é muitíssimo bem marcado pelo Thunder, o Grizzlies ainda consegue colocar a bola no garrafão, que no fundo é a bola de segurança deles. Randolph e Gasol são maiores e mais fortes que o Thunder inteiro, cavam faltas, acertam lances livres com facilidade e pontuam na marra. Perkins é um bom defensor embaixo do aro, mas é péssimo tendo que correr atrás de jogadores de garrafão com arremesso de média distância. Por serem versáteis, Randolph e Gasol estão constantemente trocando de posição, gerando uma bagunça defensiva para o Thunder e um pesadelo para o Perkins.

Por isso, depois da derrota no primeiro jogo o Perkins chamou toda a equipe para a sua casa para comerem (coisa que nenhum pivô abre mão) e para que vissem juntos a gravação do jogo sem a equipe técnica, pausando em cada jogada para criticar o posicionamento um do outro. Genial, coisa de Celtics, de time vencedor, de elenco em que os jogadores não têm medo de reclamar e cobrar uns dos outros em busca da perfeição. Com isso, a defesa de pick and roll do Thunder melhorou muito e é preferível que o Randolph tenha que enfrentar o Perkins no mano-a-mano embaixo da cesta do que arremessar livre de média distância quantas bolas quiser. Mas a preocupação com parar a dupla de garrafão do Grizzlies é tanta que, associada à vontade do Westbrook de forçar o ritmo de jogo no ataque, estragou totalmente o posicionamento para os rebotes defensivos. Dá uma olhada nessa foto:


Vamos contar juntos, crinçada: são um, dois, três, quatro jogadores do Thunder na foto. Um deles contesta o arremesso, os outros três estão no garrafão para o rebote. Então adivinhem só o que aconteceu: o Zach Randolph, único de branco num raio de 1km, saiu com o rebote ofensivo. Foram ao todo 24 rebotes ofensivos para o Grizzlies, 10 do Marc Gasol e 8 do Randolph. A preocupação em pressionar os arremessos da dupla acaba deixando um dos dois livre para um rebote ou um tapinha. A preocupação em sair correndo para acompanhar o Westbrook também faz com que exista menos proteção nos rebotes. É uma combinação mortal e que permitiu que Randolph e Gasol dominassem o jogo mesmo sendo duramente marcados.

O que é de enlouquecer, entretanto, é que o Grizzlies não acionou sua dupla dominante em momentos essenciais da partida. Mike Conley forçou muitas bolas e até o seu reserva Greivis Vasquez (que é da escola Steve Nash de armadores que não pulam, e que esteve naquela polêmica em que o Grizzlies não queria lhe garantir o salário inteiro de novato e que portanto não treinou com a equipe antes da temporada) acertou arremessos fantásticos que foram completamente idiotas, impensados e passíveis de punição se o técnico tivesse bom senso. OJ Mayo, então, nem se fala. Forçou arremessos que fariam JR Smith corar de vergonha, mas acertou alguns que deixariam Ben Gordon orgulhoso. Foi capaz de tomar um toco em uma bola de 3 crucial e, depois de uma falha de arbitragem devolver a bola para o Grizzlies, arremessou de 3 de novo como se tivesse amnésia - mas aí acertou. O Grizzlies conseguiu empatar o jogo no quarto período e levou a partida a 3 prorrogações graças a alguns desses arremessos mágicos, mas que tal manter o padrão ofensivo, tentar o pick and roll e colocar a bola no garrafão ao invés de deixar um armador novato, o Tony Allen se achando o Kobe, e uns arremessadores loucos, tomarem as rédeas do jogo? O Grizzlies às vezes simplesmente sai do seu eixo, esquece quais são as bolas fáceis e coloca tudo a perder porque o ataque é mesmo fraco, desorganizado. Quando tentou voltar a jogar com seus pivôs, eles já haviam jogado 50 minutos e não conseguiam nem se mover. Randolph teve uma bola desviada das suas mãos no fim da terceira prorrogação e nem fingiu que iria tentar recuperar, apenas fez cara de quem queria ir para casa ver os Ursinhos Carinhosos. Gasol tomou um toco absurdo na mesma prorrogação porque deu um giro na velocidade do Ilgauskas, ou seja, como se estivesse debaixo da água. A questão física pesou demais porque, sem trocadilhos, Gasol e Randolph são mesmo pesados e não conseguem passar tanto tempo em quadra sofrendo porrada - fora que conseguir pegar tantos rebotes ofensivos assim cansa qualquer um, vai ver foi uma tática do Thunder para cansar os dois. "Vamos deixar eles fazerem o que quiserem e levar o jogo pra terceira prorrogação, lá não poderão nos deter!". Coisa de gênio maligno.

Da parte do Thunder, eles podem ser geniais quando acertam a marcação e rodam a bola no ataque. São geniais também simplesmente quando envolvem o Durant no jogo, especialmente isolando ele na cabeça do garrafão com um ou dois corta-luzes simples. Esse time cheio de role players, jogadores especialistas e dedicados, e defesa sufocante parece imbatível às vezes. Mas às vezes um dos maiores trunfos da equipe, que é o Russell Westbrook, não é o bastante para compensar um dos maiores problemas da equipe, que é o Russell Westbrook.

Avisei no preview dessa série que uma das questões fundamentais para a vitória do Grizzlies era deixar o Westbrook forçar o ritmo de jogo e cometer turnovers. Quanto mais ele desperdiçar a bola, mais o Grizzlies fica perto de uma final da NBA. Mas os problemas com o Westbrook vão além. Ele é tão bom, tão rápido, tão físico, seu arremesso de média distância (conquistado nos treinos com a seleção americana) tão mais eficiente do que antes, suas bolas de 3 pontos tão mais mortais do que já foram, que ele às vezes simplesmente esquece que tem companheiros em quadra. O Durant tem um dos melhores aproveitamentos da NBA em momentos decisivos dos jogos, mas o Westbrook quer ser herói e se agarra à bola. Na partida de três prorrogações, Durant foi ignorado em várias bolas decisivas ou então foi acionado tarde demais ou longe demais da cesta. O problema é que ninguém quer ver seu armador idiota decidindo o jogo quando ele é o Rafer Alston ou um jogador secundário semelhante, mas como convencer a jovem estrela Westbrook de que ele deve passar essa bola mais rápido e com mais frequência? O paradoxo parece sem saída: quando ataca a cesta e acerta seus arremessos, Westbrook é impossível de ser marcado pelo Grizzlies; mas quando força arremessos no final dos jogos permite que o Grizzlies acabe com a desvantagem de pontos, quando força a velocidade da equipe esquece de passar a bola, e quanto mais rápido corre mais perde a bola permitindo pontos fáceis para o Grizzlies.

No final da terceira prorrogação, Durant envolvido no ataque, Westbrook já satisfeito com seus 40 pontos e Randolph e Gasol cansados, a vitória era obviamente do Thunder. Mas o jogo poderia facilmente ter acabado antes disso graças às cagadas do armador e sua dificuldade de impor um padrão de jogo quando se é tão aleatório e impulsivo. O ataque do Thunder é estagnado, cheio de isolações, e isso é culpa especialmente da irregularidade do armador. Quando Westbrook mostra seu melhor e seu pior tantas vezes numa partida, oscilando de um para o outro, e o Grizzlies esquece suas jogadas principais na gaveta por uns tempos enquanto o Tony Allen força as infiltrações mais desastradas do mundo (ele ficou de castigo no banco por ter sido bastante responsável pelo sumiço da liderança de 18 pontos), podemos esperar mesmo muitas prorrogações. Com tanta instabilidade das duas partes, só podemos esperar equilíbrio - e torcer para que algum dos dois times, qualquer um, consiga vencer o cansaço e adquirir uma consistência para enfrentar o Dallas Mavericks. Que, nesse minuto, torce por oito mil prorrogações até que Zach Randolph caia no chão desidratado e abra com isso uma cratera do tamanho de Plutão. Fora o cansaço, o Mavs está assistindo aos baixos das duas equipes e está se preparando. Thunder e Grizzlies estão lascados, mas já não dá pra duvidar deles. Do Westbrook e do Tony Allen dá, mas do conjunto não, por favor. Já são dois times calejados.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Fim da linha

Bynum tenta abraçar Barea para dar parabéns pela vitória

Eu sei que o último post foi sobre o Lakers e que algumas pessoas vão se irritar que falamos sobre eles de novo. Mas podem ter certeza que dessa vez é a última pra valer. O atual campeão está eliminado, varrido pelo Dallas Mavericks e só joga na temporada que vem, que nem sabemos quando começa. Mas é que a repercussão da derrota categórica do Lakers na série, 4 a 0, e no jogo 4, 122 a 86, está rendendo mais comentários do que qualquer outra nos últimos anos. São todos os tipo de espécimes achados na fauna torcedorística: os indignados, os que colocam a culpa em tudo, os conselheiros da ONU que só querem saber da paz entre os atletas, os piadistas, os torcedores adversários, os Kobe-haters, os Kobe-lovers, os que sempre vão achar que o Lakers perde só para si mesmo, as viúvas de Phil Jackson, os que querem explodir tudo e começar do zero, os que culpam a arbitragem e por aí vai. Sério, ficar bem do lado de fora e só ver o circo pegar fogo pode ser uma experiência interessante sobre o comportamento humano diante de eventos que não podem controlar.

Vamos ter outras chances de comentar o Dallas Mavericks, no mínimo mais uma série, mas antes de falar do Lakers temos que lembrar que eles jogaram contra outra equipe de basquete e ela jogou bem demais. Eu sempre digo que vitórias muito expressivas em um jogo não são só mérito de um time e nem demérito de outro, diferenças de quase 40 pontos são uma soma das duas coisas, o mesmo vale para varridas em séries inteiras. Se só o Dallas fosse melhor a série poderia ter sido 4 a 2, se só o Lakers tivesse mal e o Dallas não espetacular poderia ter sido 4 a 1, sei lá, mas quando as duas coisas acontecem ao mesmo tempo dá no que deu. O Lakers foi superior mesmo nos três primeiros quartos do jogo 1 e durante pelo menos metade do jogo 3, só.

O interessante é que é muito normal um time começar uma série mais forte e o outro mudar algumas coisas, deixar mais difícil e aí o outro time responde e essas pequenas mudanças táticas ou de atitude que deixam uma série divertida. É o Zach Randolph e o resto do garrafão do Grizzlies dominando o jogo 1, sendo anulado no 2 e vencendo o 3 na série contra o Thunder. Ou o Celtics tomando pau em dois jogos para, em casa, vencer com um armador de um braço só. E isso é que decepcionou nessa série entre Lakers e Mavs, a série começou com uma estratégia tática do Dallas, o Lakers não conseguiu responder e a série acabou. Histórico para a NBA, sensacional para os torcedores do Mavs, mas uma série bem desinteressante de assistir.

A análise tática pode ser vista um pouco no nosso último post e nesse excelente texto do Fábio Balassiano em seu blog. A defesa do Mavs forçou os arremessos de longe, impediu a entrada da bola no garrafão (Kobe só fez uma bandeja e nenhuma enterrada em toda série!!!) e forçou o Lakers a arremessar, mas as bolas nunca caíram e a série acabou. Funhé. Fim de papo. Mas aí começa a parte difícil de aguentar e de responder: De quem foi a culpa e o que mudar para o ano que vem.

Culpa, antes de mais nada, do Rick Carlisle que reconheceu uma deficiência no jogo do Lakers e a explorou. Culpa também de enfrentar um garrafão que tinha defensores bons o bastante para segurar Gasol e Bynum, coisa que boas duplas como Perkins e Garnett, Boozer e Millsap ou K-Mart e Nenê não conseguiram no passado. Mas ok, ok, tem gente aí querendo tacar pedras, então vamos lá.

O Pau Gasol não jogou nada e ele admitiu isso, ao final da série disse: "aprendi a não deixar problemas de fora da quadra interferirem no meu jogo". Não sabemos exatamente do que ele está falando, mas as Sônia Abrão e os Nelson Rubens dos EUA afirmam que a história é a seguinte: Pau Gasol queria que sua namorada fizesse mais amigos em Los Angeles, ela então começou a sair com Vanessa Bryant, mulher de Kobe. A senhorita Bryant, porém, teria dito coisas sobre os bastidores do Lakers que teriam feito a namorada de Gasol dar um pé na bunda dele. Gasol então culpou Kobe por falar demais para a sua mulher e o clima teria ficado péssimo. Não sabemos se isso é verdade, de confirmado só a frase do Gasol dizendo que algo na vida pessoal dele tirou o foco do basquete. Só que eu preciso realmente me dar ao trabalho de responder todos os torcedores que estão xingando ele? Sério? Como disse um cara gringo no Twitter, "Quem reclamar do Gasol e exigir trocas merece ter Kwame Brown e Smush Parker de volta". Se o Lakers é um time de elite hoje é porque o espanhol chegou por lá.

O próximo alvo é Kobe Bryant, claro. E aqui mais do mesmo: "Ele deveria ter carregado o time nas costas", "ele não envolveu os companheiros", "ele não é capaz de carregar o time nas costas" e todo aquele papo que eu escuto desde que ouvi o nome de Bryant pela primeira na vez na vida. Sinceramente, Kobe teve nessa série os mesmos defeitos e qualidades que teve durante toda a temporada e durante boa parte da carreira, nada de novo. O que acontece é algo que pode surpreender muita gente: não se ganha ou perde jogos sozinho. Mas ei, shhh, não conta esse segredo pra ninguém, poucos sabem. Outro segredo de bônus para os assinantes VIP: Kobe Bryant não é o centro do universo, coisas podem acontecer sem que ele esteja diretamente envolvido.

Próximo tópico: O Lakers não sabe perder. Primeiro foi a falta dura de Ron Artest sobre o JJ Barea no jogo 2 e ontem duas expulsões, Lamar Odom e Andrew Bynum. Ambos, com o jogo já perdido faz tempo, fizeram faltas covardes sabendo que seriam mandados para fora do jogo. Coisa de gente nervosa, frustrada, que não sabe perder e que certamente merece e terá punição. Mas que note-se a diferença: Ron Artest ficou claramente arrependido e decepcionado no mesmo segundo que fez a falta, Odom e Bynum saíram com ares triunfantes de "foda-se o mundo, eu bato mesmo". Então por favor, xinguem o Artest por jogar mal, por não conseguir ser nessa série o bom defensor que geralmente é, o critiquem por não saber arremessar mesmo depois de uma década como profissional, mas não venham com o papo de que ele nunca mudou e pra sempre será um bad boy. E outra coisa, Kobe e outros jogadores do Lakers foram, depois do jogo, atrás de Barea para pedir desculpas por Bynum e perguntar se ele estava bem. A atitude idiota de uns não quer dizer que o time inteiro não sabe perder.

Alguns estão colocando a culpa dessas agressões no Phil Jackson, já que o comportamento dos jogadores em quadra deveria ser controlado pelo técnico. E isso vale principalmente para o Bynum, já que o Odom tinha sido expulso antes e dado uma razão para Phil chamar todo mundo de canto e dizer para eles se acalmarem. Mas quem diz isso nunca viu o Zen Master em uma partida de basquete. O Phil Jackson é o oposto daquela sua ex-namorada controladora e acha que os jogadores são homens adultos com capacidade de aprender sozinhos, se for pra chutar eu diria que Phil acha que o Bynum aprendeu e amadureceu mais sendo o vilão idiota e imaturo da noite do que se tivesse tomado só um puxão de orelha no banco de reservas. É como quando ele vê o seu time errando sem parar e não pede tempo para que eles aprendam a se virar sozinhos. Para um torcedor em desespero essa atitude pode parecer suicida, mas a longo prazo sempre vemos os times dele como um dos mais autoconfiantes da NBA. Autoconfiança que facilmente vira frustração se os resultados não confirmam sua expectativa, diga-se de passagem.

Se o Phil Jackson errou nessa série foi ao não conseguir mudar o time taticamente para conseguir furar a defesa do Dallas Mavericks, mas quando a coisa chega ao ponto que seus jogadores não acertam um arremesso sem marcação, a coisa complica pra qualquer técnico. Não diria nem que Phil Jackson errou, mas que ele só não conseguiu ser fora de série como sua fama e história sugerem. História essa que acabou na humilhante derrota de ontem, como prometido antes da temporada ele é agora um senhor aposentado. Até cheguei a pensar que talvez Phil Jackson ficasse envergonhado em sair de cena desse jeito e pensasse em continuar, mas logo mudei de idéia. Lembrei de Michael Jordan e Yao Ming: Jordan teve o final de carreira mais cinematográfico que alguém poderia imaginar, um arremesso vencedor depois de um drible desconcertante em um jogo de final da NBA, e mesmo assim não ligou de voltar, velho e sem metade do físico anterior, para jogar em um time horrível e passar dois anos sem ver a cara dos playoffs. Era a vida dele, a vontade dele e o cara foi lá e fez. Se alguém está preocupado com legado, imagem e em endeusar alguém somos nós, não eles. Mesma coisa com o Yao Ming respondendo aos tristes com sua centésima contusão que ele está bem, vivo e feliz. Imagino o Phil pensando da mesma forma, ele queria se despedir com um título (quem não quer?), mas não deu, paciência, hora de ir pra casa, descansar, fazer sexo e fumar charuto.

Ou seja, tentamos dar muita importância para essa derrota do Lakers mas os motivos são meio tolos. São muitos torcedores a favor, muita gente contra, muita expectativa sobre nomes como Kobe Bryant, Pau Gasol e Phil Jackson e aí tudo o que acontece fica muito grande. Mas o Kobe perde como outros jogadores perdem, o Lakers perde por motivos que outros times perdem. E esse pensamento é importante na hora de pensar o futuro da equipe, se fosse outra equipe, com menos pressão e atenção em cima, alguém pensaria que é hora de destruir tudo e começar do zero?

Eu acho que não. O Andrew Bynum e o Pau Gasol tiveram momentos ótimos na temporada e são claramente talentosos, com saúde física para um e mental para o outro podem ser a melhor dupla ofensiva da NBA. Kobe Bryant aos poucos vai perder mais e mais sua potência física, mas ainda faz muito estrago. Lamar Odom foi o melhor reserva da temporada com méritos. Ron Artest não jogou bem na maior parte do ano, mas em determinados momentos também foi ótimo, talvez seja o caso de procurar um titular para que ele fique no banco, mas trocá-lo seria não só tolo como inviável. Quem jogou mal durante quase o ano todo e precisa de mudanças é o banco de reservas, o Steve Blake foi a maior decepção do mundo pra mim, o Matt Barnes não fez grande coisa e chegamos a um ponto triste da nossa vida como torcedor quando ficamos sonhando em ter Vlad Radmanovic ou Sasha Vucjacic no banco só para acertar pelo menos uma bolinha de três num jogo. Só não me venham com esse papinho de torcedor megalomaníaco do Lakers de "Por que não trazemos Deron Williams e Dwight Howard?". Se fosse tão fácil eles não estariam esperando perder para o Mavs para contratar os caras, acreditem.

Eu sei que tem gente que vai discordar, que vai dizer que os adversários já sabem os defeitos do Lakers e que o time está velho. Para esses eu digo, de novo, olhem para o outro lado da quadra, o Lakers não joga sozinho. Para quem eles perderam? Para um time velho, que perdeu anos seguidos na primeira rodada e que toda temporada decide adicionar peças ao seu bom grupo ao invés de se desesperar e explodir tudo. Me parece um bom exemplo a ser seguido.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Lakers na beira do abismo

Uma imagem diz mais que um post inteiro do Bola Presa


Torcedor do Lakers é como nós, paulistas: Se acham o centro do mundo. Mas com uma diferença, os torcedores do Lakers não tem razão. Sempre depois de uma derrota, duas derrotas ou algumas partidas mal jogadas eles aparecem malucos, enfurecidos e perdidos exigindo uma explicação, como o Lakers pode estar perdendo? O que estamos fazendo de errado? Afinal o Lakers é o melhor time do planeta e ninguém pode nos vencer a não ser que a gente deixe.

Eu sou torcedor do Lakers, eu sou paulista, eu entendo como é isso. Mas simplesmente não é assim que funciona. Se vocês caçarem o histórico do blog, que acompanhou os três títulos seguidos do Oeste que Kobe e seus fiéis escudeiros venceram, irão encontrar uma enxurrada de críticas à equipe. Já que eu torço pra eles gosto de assistir aos caras jogarem e quanto mais você assiste, mais fácil é achar defeitos e qualidades. Escrevi muito sobre os defeitos deles. Em 2008 era a defesa que não acompanhava a boa produção ofensiva, em 2009 o time que tinha apagões constantes, em 2010 a ineficiência de furar defesas por zona. Nos três anos as inúmeras surras sofridas contra armadores velozes, os dias em que não tínhamos um arremessador confiável de três pontos e a eterna mulher de TPM que é o banco de reservas angelino. Isso sem contar as acusações de time soft, do Kobe forçar demais o jogo, das contusões do Andrew Bynum, da velhice do Derek Fisher, etc, etc, etc.

Não quero dizer que o Lakers é um time ruim, muito longe disso, posso mostrar uns vídeos do Minnesota Timberwolves se vocês querem ver um time ruim de verdade, mas não é porque eles ganharam títulos que isso apaga os erros. Aliás, só deixa o feito mais impressionante, já vimos times muito mais perfeitinhos como o San Antonio Spurs de 2005 ou 2007, o Boston Celtics de 2008 ou o Detroit Pistons de 2004 não conseguir sequer fazer duas finais seguidas, que dirá três e com dois títulos. Esse sucesso do Lakers se dá a uma qualidade essencial: Eles tem altos e baixos, mas jogam o seu melhor quando precisam. Foi assim quando viraram aquele jogo 1 quase perdido para o Spurs na final do Oeste de 2008, quando estavam tomando um pau do Phoenix Suns na final do Oeste do ano passado ou naquela série contra o Denver Nuggets em que parecia que Kenyon Martin, Nenê e Chris Andersen iriam cortar o garrafão do Lakers em pedacinhos e comer com azeite de oliva e pedacinhos de queijo. Foi contra a parede que eles acharam uma maneira de se safar e sair com a vitória. Vencer quatro vezes em sequência uma conferência, como o Lakers está tentando agora, é tão difícil que a última vez que um time fez isso a maioria dos nossos leitores nem tinha nascido! Foi o Celtics que venceu o Leste em 84, 85, 86 e 87.

Portanto, antes de mais nada, se o Lakers realmente perder para o Dallas esse é um dos motivos: É muito difícil para qualquer time manter o alto nível por tantos anos, sem encontrar pelo caminho nenhuma contusão, má fase, azar ou simplesmente um adversário que tenha assistido tanto ao Lakers vencer que tenha sacado uma nova estratégia para vencê-lo. No caso dessa série, eu apostaria muito nesse último caso.

O Dallas Mavericks tem um técnico da linha nerd-bitolado que tem dominado a NBA ultimamente. Rick Carlisle é conhecido por ter um livro do tamanho da envergadura do Lamar Odom de diferentes jogadas, ele estuda basquete e aos poucos transformou esse Dallas Mavericks de um time de jogadas de isolação (mais ou menos como é o Hawks hoje) em uma equipe cheia de variações que pode se adaptar a qualquer adversário. E que, isso é assustador de pensar, está sem Caron Butler, um cara que sabia atacar muito bem a cesta e dava ainda mais opções ofensivas para o time.

Mas sabe que apesar do massacre que o JJ Barea causou na defesa do Lakers no quarto período do último jogo (lembram do problema em marcar armadores velozes?), não é ali que a derrota está acontecendo. Tá, nem Pau Gasol e nem Lamar Odom são Gamarras defendendo o Dirk Nowitzki, o alemão acertou 9-16 arremessos contra Gasol e 8-16 contra Odom, mas é só ele que está deitando e rolando. Nenhum outro jogador tem média superior a 12 pontos por jogo nas duas primeiras partidas e a média de aproveitamento dos arremessos do Dallas está em 45%, não longe dos 44% a que o Lakers manteve seus adversários para ter a 5ª melhor marca da temporada regular.

É no ataque que o Lakers tem se complicado. E o motivo, por mais impressionante que isso pareça, é que o Mark Cuban, dono do Mavs, é um bilionário que não liga de gastar dezenas de milhares de dólares com pivôs. Na última offseason ele ofereceu uma extensão de contrato enorme para o Brendan Haywood, mas quando viu o Bobcats trocando o Tyson Chandler foi lá e conseguiu o cara quase de graça. Não importa que ele deixasse o milionário Haywood no banco e jogando só uns minutinhos por jogo. Agora são Chandler e Haywood que revezam minutos junto com Dirk Nowitzki para segurar Lamar Odom, Pau Gasol e Andrew Bynum. O Lakers quase sempre joga com uma escalação mais alta que a do adversário e toma vantagem disso, mas nessa série não é sempre que isso é possível. Quando Odom e Gasol formam o garrafão angelino contra o Nowitzki e Haywood, por exemplo, são mais baixos. Nos minutos em que o Lakers não é o time mais alto em quadra eles tomaram 43 pontos e marcaram 25 nesses primeiros jogos.

A combinação alta e de talento defensivo do Mavs tem feito o Lakers penar para marcar pontos dentro do garrafão. Kobe Bryant, por exemplo, tentou em média 7 arremessos perto do aro contra o New Orleans Hornets, contra o Mavs tem sido metade disso. E pior, de 58% de aproveitamento caiu para 28% nessas ocasiões. Outro número que mostra como o Mavs tem defendido bem o Lakers é o que mostra o número de vezes que o Andrew Bynum participou do jogo; ele esteve em quadra durante 78 posses de bola e apenas recebeu a bola em 15! Arremessou em 11 delas e acertou 8, um ótimo aproveitamento. Pau Gasol recebeu mais a bola, mas onde não devia. Nas posses de bola em que Pau Gasol recebeu a bola fora do garrafão, o Lakers como um todo acertou 6 de 16 arremessos, quando recebeu dentro da área pintada o aproveitamento foi de 7 em 10.

Para compensar a falta de jogo dentro garrafão, o Lakers tentou arremessar de longe e aí o bicho pegou. Tentaram 20 bolas de três pontos e acertaram duas, ambas quando o jogo já estava perdido nos minutos finais. O aproveitamento de 10% é o pior da história dos playoffs entre os times que tentaram pelo menos 20 bolas de três em um jogo. É pouca zoeira? Com dificuldades em marcar pontos perto e longe da cesta é de se surpreender que o Lakers não tenha tomado uma surra maior ainda.

Para a próxima partida, hoje, o Dallas tem uma estratégia simples: Mais do mesmo. Congestionar o garrafão, marcar por zona de vez em quando e continuar vendo por quanto tempo eles conseguem assistir ao Lakers errar arremessos de longe. Mas isso não impede o Rick Carlisle de dar um puxão de orelha em alguns jogadores, o Jason Terry precisa acordar. Contar que o JJ Barea vai fazer uma boa série em geral tudo bem, mas ele não é cara para decidir no quarto período sempre.

Já o Lakers precisa de uma pequena revolução. Primeiro de confiança e motivação, na última partida dava pra sentir no ar o desespero de não saber o que fazer, eles precisam da frieza que tiveram nos jogos importantes dos últimos anos. Só com essa frieza é que eles vão poder executar o seu ataque com a precisão necessária para chegar mais perto da cesta e conseguir vencer o duelo contra Haywood e Chandler. E se tiver dando errado não podem se contentar com arremessinhos forçados de meia distância, tem que forçar, tentar de novo, de outro jeito. É perto da cesta, com enterradas, bandejas e rebotes ofensivos que o Lakers ganha seus jogos. Admitir a derrota nesse duelo e tentar mudar o estilo de jogo é admitir a derrota em toda a série. Também é importante que Kobe pense assim, todos sabemos que ele pode acertar arremessos de qualquer lugar da quadra, o que não quer dizer que ele deve tentar arremessos impossíveis o tempo inteiro. O jeito mais fácil de abrir espaços no garrafão adversário é ter um jogador driblador que costure a defesa, Kobe precisa ser esse cara. Temos que ver se ele vai ser o Kobe frio que vai fazer tudo certo ou se vai ser o cara com cara de maluco que quer arremessar todas as bolas como se ele fosse o herói do universo.

Uma última notícia muito interessante que acabei de ler é que o Phil Jackson resolveu substituir o Ron Artest, que foi suspenso por essa falta no JJ Barea, pelo Lamar Odom no time titular! É muito, mas muito raro o Lakers jogar com Odom, Gasol e Bynum ao mesmo tempo. Phil Jackson percebeu que precisa do time mais alto e provavelmente vai usar os três para atacar a cesta e tentar pegar todos os rebotes ofensivos do mundo. Mas como fica a rotação? Odom joga mais minutos que o normal? E o entrosamento? Faz tempo que o Lamar Odom não joga na posição três. Medidas extremas para situações extremas, vai ser divertido de assistir.

E sobre o Artest: Foi uma falta dura, desnecessária e a punição até que é compreensível. Mas pegar todo o passado distante do cara e jogar na cara dele dizendo que "ele nunca mudou" é uma injustiça enorme. Faz anos que ele só aparta briga e não se envolve em nenhuma contusão, dessa vez fez uma falta dura e obviamente se arrependeu no mesmo segundo, dá pra ver na cara de bunda dele. Está suspenso, beleza, mas não cometeu nenhum crime e não merece a hostilidade que tem recebido da maioria dos torcedores e da imprensa.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Jogo feio

K.O! You Lose!

A série entre Miami Heat e Boston Celtics tinha tudo para ser muito interessante, divertida, disputada e, já que estamos na internet, épica. Mas acima de tudo feia, no melhor dos sentidos. Quem acompanha NBA há algum tempo deve lembrar da final do Leste de 2004 quando o Detroit Pistons que viria a ser campeão com Chauncey Billups, Rip Hamilton, Tayshaun Prince, Rasheed e Ben Wallace enfrentou o Indiana Pacers de Jamaal Tinsley, Ron Artest, Jermaine O'Neal e Reggie Miller. Foi uma série vencida por 4 a 2 pelo Detroit e que teve placares do tipo 69-63 e 72-67, o máximo que um time marcou em um jogo foi 85 pontos, o Pistons do jogo 3. Esses jogos foram uma guerra, com muita porrada, contato físico, defesa forte em todas as posições e em que os times tinham que batalhar por todo santo ponto; as cestas poderiam ser comemoradas como gol no futebol de tão difíceis de conseguir. Os 26 tocos (19 do Pistons, 7 do Pacers) no jogo 5, se não me engano, ainda são o recorde de um jogo de playoff na história da liga. O mais famoso deles é chamado simplesmente de "The Block", vocês devem conhecer:



O jogo 5 teve 25 tocos (13 a 12 para o Pistons) e inúmeros roubos de bola, defesas exemplares. Foi o momento que eu admiti  pela primeira vez que um jogo com poucos pontos e muitos erros poderia ser tão ou mais bonito que uma partida corrida que acaba 130 a 128. E é exatamente isso que eu esperava da série entre Heat e Celtics: partidas feias que vão dar gosto de assistir pela qualidade defensiva das duas equipes e para ver como esses talentos individuais vão quebrar as defesas. Alguém decepcionado com isso até agora? Por características individuais dos jogadores os jogos não têm muitos tocos como a série que eu citei, mas eu nunca vi uma série onde cada rebote fosse tão disputado. Não dou mais dois jogos pra alguém sair sangrando.

O curioso é que esse jogo pegado e feio acontece na série de playoff mais estrelada da história. São 6 jogadores em cada lado que já passaram por um All-Star Game, Mike Bibby, Jamaal Magloire (eu sei, eu sei...), LeBron James, Dwyane Wade, Chris Bosh e Zydrunas Ilgauskas pelo Heat e Rajon Rondo, Ray Allen, Paul Pierce, Kevin Garnett, Shaquille O'Neal e Jermaine O'Neal pelo Celtics. Somando todo mundo dão 80 aparições em All-Star Games!

Um dos motivos que fizeram o Boston Celtics trocar o Kendrick Perkins, dizem, foi que o Leste não tinha equipes com pivôs bons o bastante para necessitar da defesa do Perk, a exceção era o Dwight Howard, que já está de férias. Se isso é mesmo verdade, foi um erro primário e nada digno de um General Manager que montou essa equipe fantástica que foi o Celtics nos últimos anos. Defender o garrafão não é só marcar pivôs ou alas de força, envolve muito mais do que isso e é nesse aspecto que o Celtics está sofrendo nesses dois primeiros jogos da série. Na temporada regular eles venceram o Heat porque fizeram um paredão na frente do garrafão (quando Perkins estava machucado era com Shaquille O'Neal) e simplesmente impediram qualquer tipo de infiltração. O Heat então tentava vencer os jogos com arremessos forçados de três pontos e arremessos longos e forçados de LeBron James e Dwyane Wade, a parte mais fraca do jogo de ambos.

Mas se a troca trouxe Jeff Green, uma boa alternativa para defender LeBron, deixou frágil a área pintada. Com Perkins fora e Shaq machucado sobram para defender o garrafão o decadente Jermaine O'Neal e a dupla Kevin Garnett e Glen Davis, que até defende bem outros pivôs, mas não é ameaça de toco para armadores que decidem invadir o garrafão. Do Nenad Krstic eu nem comento, nem uma criança medrosa de cueca borrada teria medo de fazer uma bandeja em cima do careca. As infiltrações eram tudo o que o Miami Heat queria para parecer um time imbatível, toda vez que o bicho pega eles podem fazer um pick-and-roll ou uma isolação simples e mandar LeBron James ou Dwyane Wade para uma bandeja ou lances livres. Nos dois primeiros jogos o Heat tem 70% de aproveitamento em arremessos tentados embaixo da cesta, contra 48% do Celtics.

Quando bate o desespero no Celtics e todo mundo tenta compensar as falhas de marcação, sobra alguém livre para chutar de longe. É a vez das não-estrelas James Jones e Mike Bibby brilharem, um alívio para o Heat já que ambos tiveram muitos altos e baixos durante toda a temporada e não se sabia como se comportariam nos playoffs. O Bibby, alías, é uma espécie de Derek Fisher de Miami, virando outro jogador com o começo da pós-temporada. O trio de estrelas vai dar uns 70% dos arremessos, isso é claro, mas é importante que o resto do time seja eficiente nos outros 30% para desafogar; embora sejam piores do que antes, o Celtics ainda é uma defesa bem forte.

Outro fator importante nesses dois jogos, especialmente no primeiro, são os turnovers. O Miami Heat até tem errado mais que o Boston Celtics, mas os verdinhos não conseguem transformar os erros em pontos, enquanto o Heat cria contra-ataques monstruosos que resultam em pontos fáceis, enterradas ou jogadas humilhantes:



A transição defensiva do Celtics sempre foi muito boa, assim como sua defesa de pick-and-roll e a proteção do aro. Porém, tudo isso está falhando na hora que não devia. Méritos do Heat, que até agora parece mais motivado (sangue nos óio, mano!), concentrado e com um plano de jogo certeiro. O estranho é ver o LeBron James focado e comemorando de um lado com o Paul Pierce perdendo a cabeça do outro, não era pra ser diferente? Parece que aquele jogo 5 entre Cavs e Celtics no ano passado foi na verdade há uma década. Muita água pra rolar, mas eu acho que é hora do Celtics passar o bastão para o novo Big 3 do Leste.


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Na outra semi-final do Leste, um assunto que não queremos abordar. Depois que o Atlanta Hawks venceu o jogo 1 contra o Chicago Bulls o Danilo pediu que eu escrevesse sobre o time, ele estava cansado de falar mal dos caras e eles irem lá provar o contrário. Eu topei porque sou bróder, amigão, mas na verdade queria fugir dessa também e o motivo é bem simples: eu não sei como eles estão ganhando.

Contra o Orlando Magic até que deu para usar de desculpa o aproveitamento bisonho nas bolas de três do adversário, mas e nesse jogo contra o Bulls? O Hawks não tinha Kirk Hinrich, machucado, para marcar Derrick Rose, tinha tudo para ser um desastre. Além disso três titulares, Al Horford, Josh Smith e Marvin Williams, nem chegaram aos 10 pontos marcados. E eles só forçaram o Bulls a 10 turnovers. Como diabos eles venceram esse bendito jogo?

Bom, eu posso chutar como, só não sei a chance de isso acontecer de novo: o Joe Johnson fez uma das melhores partidas da sua vida com 34 pontos em 18 arremessos e teve ajuda dos 22 pontos de Jamal Crawford. Aliás, o JJ fez 51 pontos somando todos os 4 jogos contra o Magic na semi-final do Leste do ano passado, já passou com sobras da metade disso em um só jogo dessa vez, está fazendo os 120 milhões investidos valerem alguma coisa. Os dois jogarem bem é normal, jogarem tão bem, ao mesmo tempo e contra uma das melhores defesas da liga é que foi impressionante. Ajudou também os 15 pontos em 6-9 arremessos que o trio de reservas Damien Wilkins, Zaza Pachulia e Jason Collins e isso, temos que admitir, é mais raro que passagem do cometa Halley! Ainda mais se você lembrar que os pontos do Jason Collins vieram até em jogada de isolação, uma aberração sem tamanho.

Detalhe, a melhor jogada do Jason Collins no jogo 1 foi essa aqui. Fatality:



Vale ressaltar o bom trabalho do Jeff Teague no ataque, sem medo de atacar e ser atacado pelo Derrick Rose, mas acho que o grande segredo foi ter conseguido defender o Bulls sem faltas. O Rose, eleito ontem o MVP da temporada, não cobrou nenhum lance livre no jogo, Carlos Boozer cobrou apenas dois, o mesmo número de todo o banco de reservas da equipe somado. Na temporada regular o Bulls foi o 11º time com mais lances livres tentados por jogo, 24, no jogo 1 foram apenas 16 e eles nem foram cobrados pelos seus principais jogadores. Para se ter uma idéia o último colocado na temporada foi o Warriors com 20 por jogo.

Convenceu? Eu não me convenci. Nem sei como eles conseguiram parar o ataque do Bulls sem fazer faltas! Sei que mais uma ou duas vitórias impressionantes assim e eu vou ficar sem explicações mesmo para esse time. Se não falarmos mais sobre o Hawks a partir de agora é porque estamos envergonhados e não sabemos o que dizer, ele é nosso elefante no meio da sala que vamos ignorar na cara dura até que ele desapareça.

PS. Ah, só para quem não viu, ontem nos questionaram sobre o Hawks no formspring e a resposta que eu dei na hora até merece ser compartilhada aqui, talvez convença alguém:

Pergunta: Tem coisas que não da pra explicar simplesmente o destino quis e pronto. Te dando uma idéia de post sobre porque o Hawks ganhou do Bulls

Denis: Uma vez eu vi um documentário bem legal sobre o infinito. Nele alguns matemáticos dizem que se o infinito realmente existe, existem infinitas planetas, universos, civilizações e que em algum lugar do infinito existem partículas se combinando de uma maneira idêntica ao do nosso planeta aqui. E que a coisa mais improvável que podemos imaginar está acontecendo nesse exato segundo em algum lugar, já que o infinito engloba todas as possibilidades. Então só calhamos de estar no bizarro universo onde o Atlanta Hawks ganha do Chicago Bulls. É a minha melhor explicação.

Colou?

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Na cagada

Jamal Crawford: cagado


Muita gente apontou entusiasmada, tanto aqui no blog quanto no Twitter, que acertamos em cheio com nossa leitura da série entre Grizzlies e Thunder. Esperávamos que o Grizzlies não usasse nenhuma marcação especial para Durant e Westbrook, neutralizando os passes para o garrafão e o perímetro, e forçando os desperdícios de bola de Westbrook com forte defesa e incentivando um ritmo acelerado de jogo. Para minha surpresa o Grizzlies mudou sim um pouco a defesa contra o Durant, dobrando com Randolph em algumas oportunidades, e usando uma tática defensiva que eu chamo de "enlouqueça o Dirk Nowitzki", que é marcar o Durant no perímetro o mais perto possível, umbigo com umbigo, forçando o jogador a ter que colocar a bola no chão para cortar o defensor. No mais, o Thunder realmente tropeçou na própria velocidade, os turnovers viraram pontos fáceis para o Grizzlies, e a alta pontuação de Westbrook e Durant não foram o bastante. Até os números que indicamos se mantiveram: depois de cometer quase 17 turnovers por jogo contra o Grizzlies na temporada regular, o Thunder cometeu ontem 18 (sendo 7 deles apenas do Westbrook). No duelo de duas fantásticas defesas, o ataque atrapalhado do Grizzlies não é tanto um problema - especialmente porque Randolph continua achando pontos fáceis e o Grizzlies garantiu que ele não será incomodado pelo Perkins no garrafão, colocando nosso gordinho contra o Ibaka ou nos arremessos de média distancia (que o Marc Gasol também acertou, bem longe do titio Perk). Então eu desconfiava que, se a defesa do Grizzlies funcionasse do mesmo modo que conseguiu contra o Spurs, engoliria o Thunder. E tá lá, engoliu.

Essa leitura acertada da série não esconde, no entanto, o fato de que errei miseravelmente na série entre Magic e Hawks - e nem impede legiões de leitores frustrados de me cobrar diariamente uma retratação lá no nosso formspring. Que o Magic iria perder a série quase ninguém imaginava, erro normal, mas eu não tive receio de dizer que a série seria uma vergonha, uma lavada histórica do Magic, e que ninguém deveria sequer se dar ao trabalho de assistir a um jogo dessa palhaçada. Funhé. Disse a mesma coisa nos playoffs passados, quando o Magic eliminou o Hawks pela maior margem média de pontos da história da NBA, mas dessa vez as coisas simplesmente não funcionaram como o esperado. No primeiro jogo, o Magic claramente perdeu por ter acionado demais Dwight Howard, algo que gera turnovers demais e tira completamente os arremessadores do jogo, porque o pivô não consegue passar a bola para o perímetro. O Magic arrumou isso, isolou menos o Dwight nos outros jogos, passou até a fazer mais pick-and-rolls, que estavam faltando, entre Dwight e Jameer Nelson. E, mesmo assim, foi eliminado em 6 jogos. Era de se imaginar então que o Hawks tivesse tido atuações espetaculares, um plano tático fantástico, tivesse tirado o Magic de sua zona de conforto e vencido a série na raça, na unha. Mas não. O Hawks continua uma merda.

A defesa de perímetro da equipe de Atlanta é boa, sem dúvida, mas a rotação defensiva é uma vergonha. Isso quer dizer que eles defendem mal o pick-and-roll e não conseguem parar os arremessos de equipes que giram bem a bola, algo que sempre foi característica dos arremessadores do Magic. O Hawks fez um bom trabalho defensivo, Josh Smith se sacrificou na série saindo do garrafão e marcando arremessadores (o que é certamente seu ponto fraco defensivamente), e mesmo assim o Magic conseguiu um trilhão de arremessos simples de três pontos de jogadores que saíam do corta-luz completamente livres - só que ninguém converteu. É verdade que o Magic insistiu demais em jogadores isolados criando arremessos no perímetro e não rodou a bola como estava acostumado, mas ainda assim é seguro dizer que o Magic não forçou muitos arremessos idiotas. Tentou na maior parte bons arremessos, com distância dos marcadores, de jogadores recebendo livres. Só que nada caiu.

Os números são completamente assustadores: o Magic, como time, acertou apenas 26% dos seus arremessos de 3 pontos. JJ Redick, o especialista da equipe e que em geral só arremessa em jogadas desenhadas para que ele saia livre, acertou 1 dos 15 arremessos de três pontos que tentou. Turkoglu, o jogador que mais arremessou de 3 pelo Magic na série, acertou 7 de suas 30 tentativas. Jameer Nelson acertou 6 em 26 arremessos. Jason Richardson, o jogador que mais converteu bolas de 3 pontos na última temporada, acertou 8 em 25 arremessos (além de estar mal na série, conseguiu a proeza de pisar em vidro em casa e jogar a última partida com trocentos pontos no pé). Sempre dissemos que o Magic vivia e morria nas bolas de 3 pontos, podia abrir uma vantagem repentina de 40 pontos de uma hora para a outra, e perder a mesma vantagem numa fase ruim durante o mesmo período. É um time com muitos altos e baixos, típico de quem aposta nas bolas de fora, mas quando chegaram numa final da NBA ninguém mais questionava a tática. Ficou bem claro que os momentos bons compensavam os ruins e que numa série de 7 jogos é difícil manter a seca nos arremessos por muito tempo. Mas foi o que aconteceu com o Magic, e eu sequer posso dar o mérito para o Hawks por isso. As bolas não caíram mesmo quando eram arremessos simples, bem desenhados. Se existem culpados, além do azar a que times construídos assim se sujeitam a enfrentar, é o psicológico da equipe completamente abalado depois das trocas quando nenhum jogador sabia exatamente qual era seu papel, quando devia arremessar ou passar para o lado, quando dar o passe a mais ou quando forçar o arremesso e assumir a responsabilidade. Ninguém soube definir as funções desse elenco e isso teve os piores resultados possíveis durante essa série.

O mérito do Hawks foi conseguir construir uma boa defesa de garrafão para incomodar o Dwight Howard. Jason Collins mostrou que tem físico e posicionamento para atrapalhar o jogo atlético do pivô, a defesa soube apertar o garrafão para roubar bolas do Dwight constantemente, e souberam jogar com força e intensidade inclusive na hora de cometer faltas e deixar o Howard cobrando lances livres a noite toda (e cortando o ritmo do resto da equipe do Magic). Mas assim que perceberam que o Dwight não iria ganhar sozinho, que o Magic era pior acionando demais o pivô, e que o perímetro do Magic estava catastrófico, o técnico Larry Drew tirou Jason Collins e nada de ruim aconteceu. Não foi punido por isso. Conseguiu usar formações mais baixas, dando mais minutos para Jamal Crawford, Kirk Hinrich e Marvin Williams sem sofrer o peso de não ter um pivô de verdade para defender Dwight. Ou seja, a única cartada do Hawks sequer precisou ser utilizada, porque o Magic não confia no seu pivô, não sabe procurá-lo quando ele conquista posicionamento, e não acertou bulhufas no perímetro. Foi um total e completo desastre. O próprio Dwight deu os parabéns para o Hawks por não ter se desmontado apenas para ir atrás de um pivô para pará-lo, como fez o Cavs (ou o Suns para tentar vencer o Spurs). Mas esses parabéns significam simplesmente que o Hawks não precisa se preocupar com o Dwight se o resto do Magic não fizer o que deveria, o time não fez, e o Hawks vai para a semi-final de conferência. Mesmo sendo o time mais fraco. Mesmo não tendo vencido a série taticamente. Mesmo sendo uma porcaria.

A defesa do Hawks é o ponto positivo, eles conseguem vencer alguns jogos bem feios, mas o ataque se baseia em jogadas de isolação e arremessos forçados. Não há uma presença física no garrafão que atraia a marcação, o Al Horford se sente mais confortável arremessando da cabeça do garrafão. O Jamal Crawford acertou 17 bolas de 3 pontos (quase metade do que o Magic acertou coletivamente) e não consigo lembrar de uma única bola dessas que tenha sido pensada, construída, conquistada. Mesmo o arremesso do Crawford que venceu o jogo 3 foi forçada, ridícula, improvável e bateu na tabela antes de entrar. Enquanto isso, o Magic podia levar o jogo 6 para a prorrogação com um arremesso bem construído de JJ Redick, deixado livre na jogada, mas que não entrou - lembremos de novo, ele só acertou um dos 15 que tentou! Jamal Crawford foi demais para a defesa do Magic, foi a única força no perímetro da equipe e manteve o ataque do Hawks funcionando apesar de não haver nada trabalhado ali. O Hawks é um time muito, muito, muito ruim quando está atrás no placar, algo típico de equipes que não conseguem pontos fáceis, que não possuem um jogador capaz de decidir com facilidade ou uma jogada de segurança. O Magic e suas bolas de 3 pontos aleatórias costumam criar vantagens do nada, e bastaria isso acontecer uma única vez para o Hawks desmontar e não conseguir recuperar o placar. Mas as bolas do Magic nunca caíram, e o Jamal Crawford e suas bolas improváveis mantiveram o Hawks ofensivamente no jogo evitando que ficassem atrás no marcador.

Por mais defeitos que eu encontre nesse Bulls, e por mais problemas que Derrick Rose tenha tipo ao enfrentar um bom defensor como Paul George na série contra o Pacers, creio que o Bulls ainda tem tudo para deixar bem explícito como o Hawks está nas semi-finais por cagada. O Hawks tem problemas em parar armadores rápidos, é o ponto mais fraco da defesa, e a defesa do Kirk Hinrich (que foi tão importante contra Jameer Nelson) não estará presente, porque o Capitão Kirk lesionou a coxa e pode ficar fora a série inteira contra o Bulls. Derrick Rose será contestado apenas no aro, onde poderá acionar seus companheiros e quebrar a defesa do Hawks. O grande jogador de garrafão do Atlanta gosta de ficar nos arremessos de média-distância como o Boozer, então até ele se sentirá mais à vontade na defesa quando voltar de sua lesão num dedo do pé. Jamal Crawford e suas bolas aleatórias agora serão contestadas por uma das melhores defesas de perímetro da NBA, com um jogador designado apenas para ficar no seu cangote. Eu sei que eu já disse isso da série contra o Magic, sei que eu já disse isso ano passado, nos playoffs passados, mas isso aqui vai ser um massacre. Daqueles de desistir da NBA e levar a namorada no cinema. Eu sei, o Crawford pode acertar bolas espíritas, as jogadas individuais do Hawks podem estar num bom dia, Al Horford pode encontrar espaço se o Boozer feder e o Noah não sair de perto do aro, e o Derrick Rose pode comprometer a equipe se forçar demais o ritmo de jogo e cometer muitos turnovers (algo pelo que o Hawks reza, já que eles não sabem pontuar de outro jeito). Mas nada disso deve acontecer se as leis da física estiverem em vigor. Minhas reclamações do Bulls são porque eu sou chato e detalhista, contra o Hawks o Bulls é um time perfeito, uma Alinne Moraes para o Hawks versão Playboy-da-Mara-Maravilha.

Por isso mesmo, o jogo que importa hoje é Lakers e Mavs. Esse sim será disputado - aliás, mais disputado do que muita gente está achando por aí. Fisher está aliviado porque só terá que marcar Jason Kidd, o grande ponto fraco da defesa do Lakers não será explorado, mas o armador vovô do Mavs está com a mão calibrada nos arremessos e isso pode complicar bastante a defesa do Lakers. Aliás, como o Lakers lidará com a marcação do Nowitzki será algo para estudo: ele se incomodaria muito com o Artest marcando colado, mas alguém do garrafão vai ter que sair para contestar os arremessos. Por alguém, quero dizer provavelmente o Gasol, que anda mal defensivamente - e isso tem tudo para abrir espaço para rebotes ofensivos caso os grandões do Mavs, como Tyson Chandler e Brendan Haywood joguem o que sabem. O Lakers mostrou na série contra o Hornets que é muito melhor quando coloca a bola no garrafão, então Chandler e Haywood vão ser os responsáveis por manter a série competitiva. O Mark Cuban não tevo medo de gastar toda sua grana pra trazer alguns pivôs capazes de incomodar o Lakers - sabe, aquilo que o Dwight criticou que algumas equipes fazem e se lascam. Se der certo, teremos uma série bacana. Esqueçam Hawks e Bulls, troço chato, o negócio é ficar de olho nos pivôs do Mavs e o que eles representam: uma possível série competitiva contra os atuais campeões.