Aproveitando que não teve nenhum jogo ontem na NBA para comentar, uso o post de hoje para comentar a vitória do Denver Nuggets contra o Dallas Mavericks, que por problemas de tempo não conseguimos comentar no dia seguinte ao jogo.
Esse jogo 5, que finalizou a série, mostrou bem o que ela foi. O Denver é um time fantástico e o Dallas um time bom, que lutou bastante, mas que nunca seria capaz de vencer uma melhor de 7 contra o Nuggets. O Dallas fez o que dava com o time que tem e agora pensa se desmonta o time e recomeça do zero ou se dá mais uma chance à equipe que tem, dilema de pelo menos metade dos eliminados nessas fases mais avançadas dos playoffs.
Mas falemos do Denver Nuggets. Como vocês já devem ter lido por aí, é a primeira vez que o time do Colorado chega a uma final de conferência desde 1985, época da União Soviética, Zico, Jordan em temporada de novato e de um monte dessas coisas que estão voltando à moda por causa dessa mania idiota de revival da década mais trash do século passado.
Como isso faz muito tempo, dá pra entender a festa que estava no ginásio do Denver na última quarta-feira, foi um espetáculo. Mas pensando menos na franquia e mais em quem fez parte dessa campanha, a história fica até mais bonita.
Há um ano atrás o Denver era um grupo de jogadores bons que tinha dado errado. Que estava na situação do Mavs de agora, de ter um bom elenco e não saber se era hora de reconstruir em volta de sua estrela ou de insistir no grupo como um todo.
Eles decidiram continuar, dar mais uma chance ao time que tinha sido humilhado pelo Los Angeles Lakers na primeira rodada dos playoffs, estágio que era o cemitério do time há tantos anos. A única diferença no elenco que começou a temporada era que eles tinham perdido o Marcus Camby e em troca tinham recebido apenas um cartão de Natal e um pacote de bolacha de maizena.
De repente tudo mudou quando, algumas semanas depois de começada a temporada, apareceu a troca de Allen Iverson por Chauncey Billups. Testemunhas dizem ter ouvido um "oooooh" seguido de um arco-íris e anjos na primeira vez que Billups entrou em quadra com seu novo time.
Sabe aquelas pessoas que têm a vida mudada por completo por causa de igreja, mulher ou por que ganhou na loteria? Isso foi a chegada do Billups. Completamente tudo mudou, até coisas que não tem nada a ver com ele, como a saúde de alguns jogadores e a consciência de outros. Olhemos de perto.
JR Smith: O jogador com menor consciência basquetebolística da história do esporte parecia fadado ao rótulo de jogador talentoso que só atrapalha. Nesse ano virou um dos melhores reservas da NBA, um dos melhores arremessadores de 3 da liga e peça essencial em várias vitórias do time. Até o técnico George Karl já disse que não se importa mais com alguns arremessos idiotas do JR Smith porque "sabe que ele precisa desses arremessos pra pegar ritmo". Onde já se viu um técnico dizer isso?
Kenyon Martin: Pra mim ele ia ficar pra sempre como mais uma viúva do Jason Kidd. Um daqueles jogadores limitados mas que até garantiu um All-Star Game porque jogava do lado de um dos maiores armadores da história nos seus melhores anos. Mas nessa temporada o Denver virou um time completo e ele, mesmo limitado, era útil porque só precisava fazer o que sabe: defender, pegar rebotes e finalizar pontes-aéreas.
Nenê: O brazuca já tinha conseguido a fama de um bom jogador que foi sortudo na hora de ganhar um gordo contrato mas azarado porque não conseguia jogar. Depois de machucar o joelho, que já é um fantasma na vida de qualquer atleta, a última coisa que ele precisava era de um câncer. Mas jogou essa temporada como se nunca tivesse tido problema de saúde algum e se tornou o complemento ofensivo de K-Mart no garrafão do time. Os dois, que até já brigaram em treino, hoje formam uma das duplas de garrafão mais completas da NBA.
Carmelo Anthony: Estava começando a virar um Tracy McGrady depois de tantos anos sem passar da primeira rodada dos playoffs. Além disso, era indisciplinado dentro de quadra, onde não obedecia o técnico e não exercia a liderança que se exigia dele. Nesse ano virou outra pessoa. George Karl certa vez disse que não sabia se tinha sido pela experiência com a seleção americana ou pela influência do Billups, mas que hoje o Carmelo era outra pessoa e um jogador mais completo (ele até passa a bola!).
Chris Andersen: O Birdman para muitos (eu!) tinha encerrado sua carreira após ter sido suspenso da liga por uso de drogas. Geralmente caras secundários que perdem lugar na NBA não costumam conseguir voltar, mas o Denver apostou nele e deu certo. Hoje ele está lá pra pegar os rebotes e os tocos que o Camby dava, mas com muito mais estilo e gel no cabelo.
George Karl: Pessoas que acompanhavam o Denver Nuggets de perto diziam que ninguém respeitava o técnico George Karl dentro do time há um ano. Não obedeciam suas decisões táticas e suas jogadas. Simplesmente ignoravam ele e jogavam naquela correria mal organizada e sem defesa que todos devem lembrar. Um ano depois o Denver tem uma das defesas mais agressivas da NBA e funciona com perfeição no ataque liderado por um armador que é só elogios a seu líder.
Chauncey Billups: Por fim, temos o próprio Mr.Big Shot. Sua chegada no time da sua cidade natal acabou sendo uma mudança para ele mesmo. Depois de tantas derrotas em finais de conferência Leste, parecia que ele e o resto do Pistons estava sem fôlego, ficando sem combustível. Parecia que a carreira do Billups, embora continuasse jogando bem, começaria a entrar em declínio.
A mudança de ares e de companheiros de time rendeu ao Billups possivelmente a melhor temporada da sua carreira e uma vaga no terceiro time da NBA.
Que fique claro que esse não é um texto pra dizer "Que gracinha que vocês chegaram até aqui, mas já tá bom". Se tem um time que jogou bem o bastante nesses playoffs para parecer que tem jogo pra bater o Cavs numa final é o Nuggets, que pra mim entra na final do Oeste como favorito independente de quem enfrentar lá.
E fica a lição para os times que pensam em remontar seus elencos depois de um fracasso. Às vezes basta chegar uma peça certa que arruma todo o time que parecia um desastre do começo ao fim. Boa sorte tentando achar qual diabos é essa peça, Mark Cuban.
"Dê um cacete no Lakers", já diria a tradução livre
Foram 6 jogos na série entre Lakers e Rockets e, ainda, não fazemos a menor idéia de como cada time entrará em quadra. Já vimos os dois times sendo humilhados, os dois times tendo vitórias fáceis, os dois times empolgados e os dois times sentados miseravelmente na guia da calçada esperando que o mundo acabe logo e de uma vez. Essa série deveria ser passada nos cursos de Psicologia como exemplo de "transtorno bipolar", é simplesmente patológico.
Na tentativa de compreender o comportamento desses dois times, como se fossemos um documentário de animais do Discovery, vamos dar uma olhada em 5 razões para o Houston ter saído de quadra ontem com a vitória.
1. A Argentina
Ao fim da partida, Aaron Brooks foi entrevistado ainda em quadra, e a primeira pergunta foi o que havia acontecido para que o Houston Rockets tivesse conseguido uma vitória tão impressionante. A resposta foi simples:
"Luis Scola!"
Foi ele quem aconteceu. Sem Yao Ming, o Houston não tem uma presença ofensiva no garrafão. Um anão tirando um cochilo de biquini seria uma ameaça ofensiva no garrafão maior do que Chuck Hayes, que está substituindo o chinês no elenco titular. Quando Yao recebia marcações duplas, tanto contra o Blazers quanto contra o Lakers, era Luis Scola o homem livre que deveria punir os adversários por ignorá-lo. Com Chuck Hayes em quadra, Scola nunca está livre mas tem uma pressão ainda maior de estabelecer um jogo no garrafão.
O Houston perdeu o jogo 5 por uns 40 pontos, tão humilhante quanto pagar peitinho no Big Brother. Um dos maiores motivos foi que, sem Yao, o time só tinha como recurso arremessar bolas de três pontos. No jogo anterior elas haviam caído, mas quando não caíram o resultado foi brutal. Dessa vez, com Scola assumindo a responsabilidade de pontuar debaixo do aro logo no começo, o time não se permitiu ficar apenas arremessando de fora, o que mudou completamente a história da série e pegou o Phil Jackson de calças curtas.
O Luis Scola fede mas simplesmente chuta traseiros, e ontem isso ficou mais óbvio do que nunca. Seu arremesso é feio e inconsistente, seus ganchos são desengonçados, ele não sai do chão e não tem a força física para se impor nem no ataque e nem na defesa. Justamente por isso, Scola comanda: joga para a equipe, faz tudo aquilo que for necessário (de cavar faltas de ataque a fazer café), escolhe as jogadas mais simples e contribui nas pequenas coisas. Não vai impedir uma cesta mas vai tomar uma trombada, não vai enterrar no Gasol mas vai girar com facilidade usando seu inteligente jogo de pernas. Scola é o exemplo perfeito do jogador que é bom porque é ruim, em que a inteligência e a consciência das próprias limitações levam o jogador à excelência.
No próximo jogo, Scola pode não ser tão efetivo, pode ser melhor marcado (no segundo tempo, sofreu marcação dupla em todas as bolas e caiu muito de rendimento), mas fará sua parte do modo que ele inventar na hora. Nem que seja lavando a louça, secando a quadra, vendendo pipoca.
2. O Phil Jackson é um cara legal
O Houston Rockets tem falhas óbvias, e o Phil Jackson é um dos melhores técnicos a já ter respirado na atmosfera terrestre. A única razão plausível para o técnico zen não explorá-las é porque ele é um sujeito bacana e quer manter a série equilibrada mesmo com o Houston sendo, obviamente, o time mais fraco. O exemplo mais importante é Chuck Hayes. Acho que todo mundo já viu como o sujeito cobra lances livres, parece que ele está em trabalho de parto ou tendo convulsões (talvez esteja). Na tempora regular, acertou 36% dos seus lances livres, algo que o Shaq conseguiria se arremessasse de costas. Para a sorte do Houston, Hayes não passa muitos minutos em quadra e, nunca, absolutamente nunca, está em quadra nos minutos decisivos.
Só que o Yao Ming é "made in Taiwan", como todos nós sabemos, e está com defeito de fabricação. Chuck Hayes, então, é titular e está o tempo todo em quadra. Se quisesse, Phil Jackson poderia ter usado a técnica do "hack-a-Shaq" (ou "faça uma falta intencional no Hayes para levá-lo para a linha de lances livres, mas tente ser mais explícito do que o Antoine Wright, por favor!") e o Houston seria obrigado a tirar de quadra esse epiléptico descoordenado.
Para quê fazer isso, você se pergunta? Afinal, Hayes é inútil no ataque e mantê-lo em quadra garante que o Houston jogue com apenas 4 jogadores no lado ofensivo. Acontece que Hayes é um excelente defensor no garrafão. Anão, nunca conseguiu sair do chão, mas marca de maneira física, incomoda e rouba muitas bolas, desviando passes. Ele nunca vai dar um toco, nunca vai contestar um arremesso, mas ele impede que Pau Gasol possa se aproximar da cesta e obriga o espanhol a arremessar por cima dele. Sua marcação ontem foi impecável e o Houston teria perdido muito de sua defesa sem ele em quadra.
Hayes também permite, simplesmente por existir, que o Lakers faça marcação dupla em outro jogador em todas as posses de bola do Rockets, porque é como se ele não tivesse braços. Apenas no segundo tempo isso aconteceu, e o Lakers chegou a cortar para 3 a vantagem monstruosa criada logo no primeiro quarto (o Houston começou o jogo com um sensacional 17-1). O Phil Jackson não gosta de dobrar, não gosta de faltas intencionais e não deve gostar muito de ganhar. Obrigado, tio Phil, nós vermelhinhos agradecemos.
3. A síndrome de Gilbert Arenas
Lembram-se quando o Arenas se machucou pela primeira vez (já não faz uns 15 anos que ele está sempre contundido?) e o Wizards, de repente, se tornou um time melhor? As explicações, dadas pelos próprios jogadores, eram duas. A primeira era que, sem sua maior arma ofensiva, o time precisava rodar mais a bola e todo mundo tinha que fazer sua parte. A segunda e mais bizarra era que, sem os pontos que Arenas sempre fazia, o time então tinha que se garantir na defesa e, portanto, apertou na marcação do perímetro. Por que eles não faziam isso ainda quando tinham o Arenas é uma pergunta sem resposta, mas acho que muitos times só fazem esse tipo de coisa quando a água bate na bunda.
A verdade é que sem Arenas o Wizards era um time mais frágil, menos confiante e muito limitado, o que a longo prazo ficou óbvio (eles fedem, afinal de contas). Mas a princípio sua saída foi benéfica em alguns aspectos. O mesmo acontece com esse Houston Rockets sem Yao Ming. Incapaz de fazer pontos no garrafão, o time agora roda a bola para conseguir encontrar espaço para arremessar de três pontos (com o chinês, isso era mais fácil porque sempre tinha um mané livre, malditas marcações duplas). Sem uma presença no garrafão, o time agora precisa se basear única e exclusivamente no pick-and-roll para conseguir se aproximar do aro. E, sem a defesa podendo afunilar o ataque adversário em direção do Yao (vai afunilar em direção do Hayes que tem 40 centímetros de altura?), a defesa do perímetro tem que apertar mais.
Arremessando mais de três pontos, aproveitando-se da defesa mais-ou-menos do Lakers, o Houston se coloca na posição de ter dias de mira calibrada e sair em vantagem. Usando o pick-and-roll sem parar, o Houston explora a maior (e mais famosa) deficiência defensiva do Lakers, incapaz de fazer coberturas (como tanto mostrou Chris Paul durante a temporada regular). E, por fim, apertando no perímetro, o Houston complica a vida de Kobe e permite que Gasol e Bynum tenham que decidir a partida lá dentro. Como pudemos ver ontem, "funhé!" para os dois homens de garrafão do Lakers.
A longo prazo, o Houston é pior, mais frágil e mais limitado. De fato, já o é, dependendo muito de bolas de três e de uma boa pitada de sorte. Mas é incrível como essas alterações que o Houston se viu obrigado a fazer casam perfeitamente com as fraquezas do Lakers. Não sei sei o técnico Rick Adelman teria mudado as coisas se Yao ainda estivesse podendo jogar, se foi puro acaso e obra da necessidade ou se foi uma série consecutiva de lances de gênio. Mas o Houston tem um transtorno bipolar positivo: aprendeu a jogar de quinhentas maneiras diferentes porque sempre tem alguma peça fundamental que pifou. Da maneira que está jogando agora, o Houston pode perder uma partida graças a um apagão do ataque no primeiro quarto, mas muitas coisas se encaixam e tornam uma vitória do Rockets nessa série uma real possibilidade. Talvez mais possível do que seria com Yao, ou do que seria para o Denver Nuggets. Será que o Nuggets pode colocar dois jogadores tão espetaculares em defesa no perímetro para encher o saquinho do Kobe Bryant, abusar dos pick-and-rolls, ter um jogador físico e nanico para obrigar o Gasol a arremessar? O Rockets deu sorte.
4. Os Zé-ninguém
Entrei em pânico, ao fim da temporada passada, com a possibilidade de que o Houston não renovasse o contrato de Carl Landry. Será que algum time lhe faria uma proposta muito alta? Fiquei rezando em silêncio para que nenhuma equipe da NBA tivesse percebido como ele é espetacular. O Bobcats percebeu e ofereceu 9 milhões de verdinhas por 3 anos. Acendi uma vela, pelamordedeus o Rockets precisa cobrir a proposta! Todo time precisa de um jogador produzido na máquina de fazer Jason Maxiells, que criou vários clones famosos como Paul Millsap, Leon Powe e Craig Smith. Só que o Landry, bizarramente, acerta arremessos da cabeça do garrafão.
O Houston cobriu a oferta, para minha felicidade, e aqui estão os resultados. Esse time já foi lento, pouco atlético e meio desanimado (provavelmente por causa daquele olho-meio-aberto do Tracy Mcgrady, meio "Amaral", que lhe dá aquela expressão de sono), mas com Scola, Battier e Landry, parece um bando de adolescentes naquele extinto programa que tinha a Tiazinha e a Feiticeira. Todo mundo corre, grita e se taca no chão como pino de boliche. Carl Landry enterra, pula pra burro, traz outra mentalidade pra equipe.
A mesma coisa acontece com Aaron Brooks. Rafer Alston era um armador burocrático, meio traumatizado com o estigma de ser "um armador da And1", só passava para o lado e tentava ser o herói dos jogos com arremessos inconsistentes de três pontos. Quando foi trocado por feijões mágicos, Aaron Brooks assumiu o barco assumidamente cercado por medo e receio. Seus arremessos também são inconsistentes e ele é um nanico, mas como aprendemos nas Ligas de Verão, Brooks é um pontuador nato. Rápido demais, bate para a cesta e ataca o aro. Com um pick-and-roll atrás do outro, invade o garrafão e dá pesadelos ao Lakers.
Com Yao em quadra, a bola vai para dentro do garrafão e depois para fora, obrigando Brooks a ser mais um arremessador. Sem Yao, Brooks não larga a bola e é obrigado a bater para dentro para evitar que a bola só fique no perímetro. Isso dá muito certo contra o Lakers, em especial. O armador lembra o Tony Parker em começo de carreira e não é sempre muito esperto, arremessa demais às vezes. Quando as coisas estão funcionando para ele, no entanto, o Houston é um time infinitamente melhor.
5. "Raça, manô!"
Culpa do Scola, culpa dos zé-ninguém, culpa da "síndrome de Gilbert Arenas", culpa do time ser tão bom jogando em casa, o Houston Rockets não sabe não estar empolgado numa partida. Jogam com uma energia inacreditável em cada posse de bola. Mais uma vez, isso se encaixa perfeitamente numa das fraquezas do Los Angeles Lakers: picados pela famosa mosca tsé-tsé, a mosca do sono, volta e meia a intensidade do Lakers simplesmente desaparece e eles cochilam em quadra.
Ontem, o Rockets ganhou na unha. Não foi na base da técnica do Scola ou dos arremessos certeiros do Aaron Brooks, foi na defesa mordida, nos pulos no chão para salvar bolas perdidas, no Artest atormentando o Kobe (que acabou, na frustração, empurrando o Artest que, por sua vez, saiu literalmente correndo da confusão, com medo de que ele espirrasse e fosse expulso - mas depois voltou para mostrar a língua quenem criança de 3 anos, "seu bobo, feioso!").
Não acho que seja um problema de motivação, Phil Jackson sabe o que faz, creio apenas que seja como o time é, a junção coletiva de jogadores que não são tão intensos, que preferem a técnica, que desistem mais facilmente. Gasol, Odom, Bynum, Farmar, são todos jogadores sem muita confiança, um pouco temerosos, sem nunca saber exatamente se vão ser titulares ou não, se estão fazendo a coisa certa ou não. O espanhol, em particular, gosta do jogo técnico e não do jogo brigado. "Funhé!" pra ele, porque o Chuck Hayes nasceu para apenas três funções no mundo: abrir potes de picles, marcar o Nowitzki, e marcar o Pau Gasol.
É claro que, de certa forma, essa série chegar ao Jogo 7 é mérito do Houston Rockets, mas foi um pouco de sorte. Calhou do time ter aprendido, na raça, a jogar sem suas estrelas, de ter que modificar seu modo de jogar de uma partida para a outra. Calhou do Houston ter que explorar saídas que são, justamente (e talvez por puro acaso), pontos fracos do Lakers. E calhou, principalmente, do Lakers ser um time bipolar que não consegue manter a produção de um jogo para o outro, que sai mentalmente da partida facilmente, e que tem uma série enorme de fraquezas. Quantos séculos vão se passar até que esse time saiba defender um pick-and-roll? (se o Spurs tivesse o mesmo problema, teria sido destroçado pelo Suns ao invés de ter uma coleção de anéis em cada dedo).
Já comentamos aqui que essa temporada nos brindou com times favoritos muito, muito frágeis. Ninguém podia colocar o anel com antecedência simplesmente porque, quem acompanha o Lakers de perto, sabe que eles fedem um bocado às vezes, e quem acompanha o Cavs sabe como eles podem ser limitados no ataque quando são obrigados a jogar de forma mais lenta e cadenciada. Mérito do Houston por ter lutado bravamente e ter coroado esses playoffs com um Jogo 7 que, por si, já é uma vitória. Mas temos que ser realistas e apontar dedos: o Lakers é um time um tanto meia-boca para ser campeão. Pode vencer todo mundo, isso é verdade, mas pode tropeçar feio a qualquer segundo. O mesmo se aplica a todas as outras equipes que se mantém nos playoffs e não podemos apontar um favorito sequer, nem por um segundo. O Celtics está capenga, o Magic joga lideranças fora como se fosse o Silvio Santos tacando aviõezinhos no "Topa tudo por dinheiro".
Houston e Lakers se pegam no domingo, num imperdível Jogo 7. Abaixem as cabeças, crianças, porque será terra de ninguém. Qualquer um dos dois times pode ganhar por 40 pontos. Só que, se o Houston passar, não tem chances contra o Nuggets. Os cinco motivos acima não vão valer muito contra a equipe de Billups e Carmelo Anthony. Mas, desde já, sonho com mais um Jogo 7. Porque essa equipe me ensinou a fazer justamente isso, sonhar, acreditar, vibrar. Enquanto o Lakers, convenhamos, está ensinando outras coisas: ter medo, saber-se superior e mesmo assim fazer xixi na cama com o pavor de jogar tudo fora. Realidades muito diferentes que decidem tudo num jogo final. Preparem-se: vai ter chat do Bola Presa aqui, pra gente acompanhar ao vivo e se pegar no tapa. Não percam!
Lembra quando o assunto do momento no Bola Presa era o jogo físico de playoff? Nossa, aquilo é muito semana passada, é tipo usar shortinho com bota na balada: over. O assunto do momento, meninas, é falar de quem é amarelão ou não.
Um dia depois de discutirmos o assunto dando enfoque no Dirk Nowitzki que, apesar das piadas, não achamos nada amarelão, o Magic veio mostrar pra gente mais uma vez o que é afinar de verdade nos momentos decisivos de um jogo.
Na série contra o Sixers cansamos de falar que o Magic só corria riscos de perder a série porque perdia lideranças imensas no quarto período. Contra o Celtics falamos a mesma coisa. Nessa série eles já tinham desperdiçado até uma liderança de 28 pontos, só que daquela vez tiveram a sorte de ainda conseguir a vitória. Ontem não deu.
Durante três períodos e meio, o Magic foi um time infinitamente superior. Assistindo ao jogo pensei em postar aqui a seguinte frase "O Orlando Magic é o time mais paciente da NBA". Eles pegam a bola, rodam entre todos os jogadores, vão até o Dwight, voltam, driblam, infiltram, tocam pra fora do garrafão e pacientemente trocam bolas até que algum matchup dê certo ou que alguém sobre livre para o arremesso. É Spursisticamente perfeito.
Nesses três períodos e meio, o Magic poderia ter liquidado o jogo, chegou a abrir 14 pontos de vantagem no quarto período, mas mesmo antes do Magic afinar, os deuses do basquete (engraçado como são politeístas todos os esportes, nunca é 'o' Deus do futebol, são sempre 'oS' deuses) iluminaram o time verde. Dessa vez o milagre chegou ao ponto em que o Stephon Marbury, sim, o Marbury, carregou o time nas costas! Durante a primeira metade do quarto período a diferença do Orlando poderia ter aumentado de 14 para 20, 25, mas graças a cestas de Starbury e Big Baby, os únicos a pontuarem no período durante uns bons minutos, o Celtics continuou no jogo.
Isso não é incrível? O time tem tantas estrelas, tantas armas, mas só não perderam um jogo em casa porque na primeira metade do período decisivo, com o jogo escorrendo por entre os dedos, o Marbury ressurge das cinzas e com a ajuda do gordinho segura o time no jogo. Nunca fui muito fã do Marbury e nem estou torcendo para o Celtics, mas vibrei muito com cada cesta dele, foi histórico.
Mas assim que o Marbury começou a jogar sozinho como nos seus tempos de Phoenix Suns e forçou uma bandeja idiota, seu único erro no período em que marcou 12 pontos, o Doc Rivers já tirou ele de quadra e voltou com Rondo e o resto dos titulares, que finalizaram o trabalho.
Na segunda metade do último período, o time mais paciente da NBA se tornou o mais idiota. Ao invés de continuar jogando do jeito que estavam - defesa, saída rápida, paciência na troca de bolas - eles começaram a jogar gastando o relógio à toa e depois arremessando em alguma jogada individual forçada.
Aí foi só Paul Pierce e Ray Allen acertarem umas bolas no ataque e a virada estava feita. Contou com uma pequena ajuda da arbitragem, é verdade, que não marcou um estouro de 24 segundos alegando que uma airball do Rondo tinha sim batido no aro. O curioso é que eles primeiro marcaram o estouro, depois o Kendrick Perkins, que pegou o rebote, deu um piti e eles mudaram a marcação. O Perkins tá com tanta moral assim e eu não sei?
Mas que esse erro da arbitragem e os méritos do Celtics não escondam que o jogo estava completamente nas mãos do Orlando e eles que entregaram o ouro.
Na entrevista após o jogo, o Dwight Howard estava puto da vida e culpou o técnico Stan Van Gundy por mudar alguns jogadores que estavam em quadra quando o time estava dando certo e por não fazer o time voltar a jogar do jeito que estava antes, com menos jogadas individuais e mais passes. Também aproveitou para dizer que queria receber mais a bola em momentos decisivos do jogo, que ele acha que pode marcar pontos lá dentro do garrafão quando o time precisar. Trechos da entrevista podem ser vistas aqui:
Antes de dizer se acho que ele está certo ou errado, vale outra discussão: o Magic está com a corda no pescoço, a uma derrota da eliminação e com só mais um jogo em Orlando à frente. É uma boa idéia falar mal do seu técnico em público nessa situação?
Eu não acho errado, ele quis explicar a derrota para a imprensa e falou o que pensa, mas ao mesmo tempo foi arriscado. Afinal, eu não acho errado, mas é só o próprio Vun Gundy e mais um ou dois jogadores também acharem, e aí o clima dentro do vestiário pode ficar bem pesado, estragando a temporada do time e até o futuro do técnico no Orlando (a não ser que a intenção do Dwight seja realmente estragar o futuro do técnico no time).
Ignorando a situação em que falou e analisando o conteúdo, quase tudo o que Dwight disse faz sentido. Não só para o jogo de ontem como também para a maioria em que o time jogou fora grandes lideranças. O Magic só funciona de duas maneiras, ou consegue defender bem e sai na velocidade com passes rápidos ou faz aquilo que eu disse antes de passar a bola com paciência no campo ofensivo.
Então, o time não pode decidir simplesmente querer jogar com jogadas individuais no fim do jogo, vai dar errado, não é a praia deles, é como a Angela Bismarchi decidir parar de fazer o que sabe, plásticas, pra virar cantora. Ainda mais porque não fizeram isso no minuto final, fizeram nos últimos 5 minutos de jogo, é tempo demais.
As jogadas individuais só deram certo no Orlando em quartos períodos quando eles tinham ainda o Jameer Nelson, lembro que ele venceu vários jogos no quarto período (contra o Lakers por exemplo, puto!) só com pick-and-rolls e jogadas individuais simples antes de se machucar.
O que o Dwight não pode dizer tanto é que ele quer a bola nas mãos nos momentos decisivos do jogo. Antes disso ele tem que provar, nos outros três quartos, que é capaz de marcar pontos consistentemente em cima do Perkins. O Dwight Howard ainda é muito limitado em movimentos de costas pra cesta, não tem arremesso e não é bom arremessador de lance livre (embora tenha acertado os mais importantes nos playoffs até agora). Não é à toa que o time e o técnico não confiam a bola nele nos minutos finais.
No meu último post tinha comentado que o Magic ficava mais forte com o Marcin Gortat no ataque, agora explico: o Gortat tem um ganchinho feio mas eficiente com as duas mãos e é ótimo em fazer pick-and-rolls. Simples assim. Não quero dizer que o Gortat é melhor, afinal nunca vimos como ele lidaria com a defesa apertada e com a marcação dupla que o Dwight recebe em todo santo jogo, mas na prática, até por não levarem o polonês tão a sério, ele rende mais no ataque.
Quando o Superman tiver recursos ofensivos mais confiáveis e cometer menos turnovers sob marcação dupla, ele poderá exigir e provavelmente irá receber mais bolas nos momentos decisivos.
Meu palpite é que o Magic se recupera no jogo 6, empata a série, e no jogo 7, em Boston, o Orlando vai jogar bem mas vai perder porque algum maluco do Celtics vai arregaçar. Falta quem ganhar um jogo pra eles nesse ano? O Mikki Moore? O Scalabrine? O Tony Allen? Façam suas apostas.
Kidd tenta soltar raios pelas mãos para marcar Carmelo
A partida entre Hawks e Cavs pode ser resumida num simples espaço de 10 segundos: minutos finais de jogo, perdendo por 6 pontos, o Hawks acabara de pegar um rebote ofensivo e tentou uma bola de três pontos. Errou, pegou o rebote ofensivo de novo e imediatamente tentou de novo, com Flip Murray. Errou, mais um rebote ofensivo e mais uma tentativa imediata, dessa vez com Joe Johnson. Foi mais um erro, mas dessa vez sem rebote ofensivo, e o jogo estava acabado. Quando mais importou, frente ao milagre de três rebotes ofensivos contra um dos melhores times em rebote de toda a NBA, ninguém conseguiu fazer uma maldita bola de três pontos. Vale lembrar, também, que graças ao colapso do Cavs em garantir seus rebotes, todo mundo estava dentro do garrafão e cada um desses arremessos foi consideravelmente livre. Ou seja, "funhé!" para o Hawks e férias merecidas, o que no fundo era tudo que o time de Atlanta implorava para não ter que passar mais vergonha.
Foi exatamente o oposto da partida entre Mavs e Nuggets, em que nos momentos mais cruciais estavam em quadra jogadores especialistas em converter arremessos decisivos: Carmelo Anthony, Chauncey Billups e, vejam só, Dirk Nowitzki. Para comentar esse trio que para muitos pode parecer inusitado, vou me valer de uma das colunas "8 ou 80" do Denis, uma sobre "arremessos decisivos" que, infelizmente, está fora do ar por motivos técnicos.
Através de estatísticas do site 82.games, com dados sobre os arremessos dados nas últimas 5 temporadas quando um time está perdendo por 1 ou 2 pontos ou então empatados, sempre com 24 segundos ou menos restando para o fim do jogo, o Denis lida com alguns mitos e analisa se são reais ou não (quase um Mythbusters, mas ele não usa bigode):
"Dirk Nowitzki amarela em finais de partida"
Falso. Assim como Vince Carter, Dirk Nowitzki não carrega boa fama em momentos decisivos, mas sob o olhar dos números tal fama parece infundada. Em 37 oportunidades de vencer jogos, Dirk acertou 12 bolas, um acerto de 32%, aproveitamento superior a de jogadores como Joe Johnson, Kobe Bryant, Dwyane Wade, e empatado com o Gilbert Arenas, que fez tanta fama com suas bolas de último segundo.
"Chauncey Billups é o 'Mr. Big Shot'"
Falso. Apesar do apelido "Mr. Big Shot" que ele ganhou por acertar arremessos decisivos em momentos importantes dos jogos, Billups não reproduz esses arremessos quando seu time está perdendo na última posse de bola do jogo. Ele é o jogador, ao lado de seu antigo parceiro Rasheed Wallace, com pior aproveitamento de arremessos: 6 acertos em 37 tentativas, 16%. Para compensar, ele já decidiu os jogos muitas vezes em lances livres: dos 19 que tentou na situação estudada, acertou 18.
O Denis, em seguida, utiliza outras estatísticas, que lidam com apenas os últimos 5 minutos de jogos em que nenhum time fica na frente por mais de 5 pontos. A descoberta é sensacional:
"O líder em pontos é LeBron James, que em média faz 57 pontos a cada 48 minutos de jogos decisivos, ou facilitando as coisas, em média 6 pontos a cada final de jogo apertado. Seguido dele está Carmelo Anthony e Kobe Bryant, ambos com 5,6 pontos nos minutos decisivos. A diferença essencial entre os três é que Carmelo tem um aproveitamento muito melhor quando o jogo mais importa. Ele acerta assustadores 59% de seus arremessos em geral e 66% das bolas de 3 que tenta! Para se ter uma idéia, LeBron acerta 51% dos arremessos e Kobe 47%. Nas bolas de 3, LeBron acerta 36% e Kobe 50%.
Na eterna discussão sobre quem melhor finaliza jogos, parece que Carmelo Anthony é o verdadeiro vencedor de que ninguém nunca lembra. (...) Somando todos os dados analisados, a conclusão que podemos chegar é que enquanto o mundo acha que Kobe e LeBron decidem melhor os jogos, os números apostariam em Carmelo Anthony."
Incrível como esse lance de "jogador decisivo" tem muito mais a ver com fama do que com a realidade mesmo. Por causa da série contra o Warriors, Nowitzki ficou conhecido por não atacar a cesta. Por causa de alguns momentos ruins em jogos importantes (incluindo uma atuação fantástica no jogo anterior contra o Nuggets, mas com um quarto período apagado e silencioso), acabou com fama de amarelão. Dia desses brinquei que o alemão poderia colocar seu troféu de "jogo roubado pela arbitragem" em sua estante amarela, mas o Nowitzki não tem senso de humor e sempre nos lembra de que ele falha às vezes, como qualquer jogador, mas que sempre carrega seu time nas costas. O que ele fez na noite de ontem, no quarto período, não foi nem amarelão e nem teve nada a ver com a fama de "fobia de garrafão" que o Nowitzki ostentou contra o Warriors. O vídeo abaixo não mente:
Não é engraçado que a maioria de seus pontos no vídeo tenha sido dentro do garrafão, com direito a receber pancadas, cestas com falta, e até umas enterradas desengonçadas? Ele não é o ser humano mais coordenado do mundo indo para o aro, mas é bastante eficiente e é isso que importa (o Shawn Marion não tem o arremesso mais bacanudo do mundo, mas quem é que vai reclamar?). Mesmo eficiente no garrafão, foi com um arremesso em sua cara, no entanto, que Kenyon Martin ficou vendo estrelinhas de desenho animado e o Mavs passou à frente no placar de forma definitiva, apenas coroando a vantagem depois com uma série de lances livres nos segundos finais.
Enquanto isso, Billups tem até um apelido fodástico por acertar arremessos importantes, mas quem realmente merece ter a bola quando conta é Carmelo Anthony, que por anos tem sido um dos jogadores mais eficientes da NBA em finais de jogos. Sempre bato o pé que o Carmelo tem o maior e mais técnico arsenal ofensivo da liga, mas todo mundo ri da minha cara, me tranca no armário e rouba meu lanchinho. O que ele pode fazer no ataque é fora de série e ainda incomparável na NBA, nem mesmo Kobe tem um arsenal tão completo, por não poder jogar dentro do garrafão, de costas para a cesta, abusar de ganchos e "tear-drops" (aquela bola "vou tacar pra cima e ver no que dá" que Tony Parker e agora Rajon Rondo levaram à perfeição). Carmelo já decidiu partidas importantes nesses playoffs, incluindo a bola que deu a vitória contra o Mavs naquele lance imbecil em que sofreu falta do Antoine Wright mas a arbitragem só apita contato de quem eles sabem o nome.
De acordo com as estatísticas, tínhamos tudo para ter uma série entre Nuggets e Mavs que lembrasse a inesquecível série entre Celtics e Bulls, com milhares de bolas decisivas acertadas, mudanças de liderança e mais prorrogações do que a Mari Alexandre tem capas de revista masculina. Todo mundo sabe que o Nuggets tem mais time, isso nem se questiona, mas o Lakers também tem mais time do que meu Rockets e nem por isso a série está sem graça. Agora é que voltamos a ser atormentados pelo fantasma da arbitragem: sem aquela lambança na falta em cima de Carmelo, a série poderia estar empatada em 2 a 2, com cada time tendo vencido dentro de casa, e agora teríamos a promessa de jogos espetaculares com Carmelo e Nowitzki trocando lideranças enquanto seriam ignorados pela mídia ou chamados de amarelão. Se a série fosse um passeio, como eu imaginava (defendo-me: simplesmente não entendo esse Mavs!), o erro dos árbitros não mudaria nada no bom andamento da série. Mas agora, com 44 pontos e 13 rebotes de um Nowitzki endiabrado mesmo quando o espírito do time deveria ter descido pelo ralo com a derrota dentro de casa, está claro que a série não é tão desigual assim. Poderia estar emocionante, competitiva, coroando a temporada aos trancos e barrancos do Mavericks com uma disputa digna, honrada. Mas não, um par de carinhas com apitos estragaram tudo, para desespero do nerd-mas-milionário Mark Cuban, que não sabe nem para onde apontar seus dedos (já pagou tantas multas por criticar juízes na NBA que agora pareceu mais fácil xingar o Kenyon Martin na frente da pobre mãe do rapaz, provavelmente porque o K-Mart bateu no Nowitzki, por quem Cuban é completamente apaixonado e deve ter fotos dele no quarto e num altar onde faz rituais satânicos).
A verdade é que o Dallas poderia - e deveria - ter ganhado o jogo antes da lambança da arbitragem se tivesse acertado seus arremessos no quarto período, mas não se trata de um padrão (como é o caso do Magic em perder grandes lideranças), foi mais um deslize. Punidos pela arbitragem, a série não tem qualquer esperança e já está morta e enterrada, embora ainda exista, tipo o Silvio Santos. Mas o Dallas ainda tem algo a provar, Nowitzki ainda tem uma fama para enfiar na orelha, e o Mark Cuban ainda tem algumas multas milionárias para pagar pro David Stern. Todo mundo no Mavs está jogando por alguma coisa e outra noite de 44 pontos do alemão provavelmente nos espera. Que o time possa ao menos ser eliminado de forma justa, mostrando que trata-se de uma grande equipe, e engrosse a série para o Nuggets. Sonhando alto, dá até para imaginar um Jogo 7 e aí, com tantos especialistas em decidir partidas, teríamos um espetáculo realmente memorável. Mesmo que o Mavs não tenha muitas chances de avançar para a Final de Conferência, o Nowitzki pode ganhar mais um troféu de "Valeu a tentativa", para colocar em sua estante amarela-cor-de-manga. Só porque ele é um cara antenado e sabe das cores da estação, veja bem.
Cada jogo a mais que o Mavericks arranjar deve nos tirar um sorriso. Porque a sensação, infelizmente, é de que vemos os últimos suspiros desse time. Tirem fotos, mostrem para os seus filhos, comprem camisetas: Mark Cuban é nerd mas não é bobo e, depois de ir assistir ao filme do Star Trek, vai começar a reconstruir essa equipe. Das certezas, apenas uma: o alemão fica. Não importa que cor a torcida ache que ele tenha.
O ursinho carinhoso foi melhor que Bynum, Yao e KG ontem
O Orlando foi para o jogo 4 em casa pra abrir 3 a 1 e ficar perto de liquidar a série, o Boston jogou com a corda no pescoço pela milésima vez desde a temporada passada. E como sempre venceu.
Nunca acreditei nesse negócio de time "com camisa", muito menos na NBA, mas parece que acontece mesmo com o Boston. E estou dizendo "com camisa" no sentido de uma camisa que pesa, que tem tradição, não no sentido de jogo dos "com camisa versus sem camisa" que você faz no churrasco no sítio do tio Paulão.
Tudo parece que vai dar errado com o Boston e de repente alguma coisa salva eles. Pode ser o Paul Pierce encarnando o Jordan, o Ray Allen acertando bolas de Reggie Miller,Eddie House acertando bolas de Ray Allen ou até o Ursinho Carinhoso Glen Davis se transformando no herói da noite.
Na partida de ontem o Boston estava focado em conseguir a vitória e estava perto disso no quarto período, mas de repente a série virou Sixers e Magic e todo mundo começou a errar no final.
O Celtics passou seis minutos sem uma cesta de quadra e o Magic simplesmente não soube responder com uma virada, de tantos erros que cometeram. Eles até ameaçaram quando o novato Courtney Lee virou o Detroit Pistons: primeiro com aqueles pull up jumpers vindos de um magrelo de máscara, uma emulação do Rip Hamilton. Depois porque um novato tomar as rédeas de um jogo de playoff cheio de veterano é a coisa mais Tayshaun Prince de todas. Só faltou ter braços que encostam no chão enquanto ele anda.
Porém, não foi o bastante, ele errou algumas bolas depois e o Magic falhou feio ao decidir o jogo. A única jogada que estava dando certo foi a que eles acertadamente tentaram no minuto final: Rashard Lewis isolado contra seu marcador. Ele é grande demais pro Paul Pierce e rápido demais pro Glen Davis. Ele também superou facilmente a marcação do Scalabrine, mas não precisa ser nem alto e nem rápido pra isso.
Faltando poucos segundos pro fim do jogo, o Lewis sofreu falta do Big Baby e acertou seus dois lances livres, colocando o Orlando na frente.
O Celtics tinha pouco mais de 10 segundos pra tentar vencer o jogo e resolveu esperar até o último segundo. Rondo segurou a bola atéver se Pierce ou Ray Allen ficavam livres e a bola acabou indo pra mão de Pierce, que depois de um corta-luz do Glen Davis, ao invés de arremessar, tocou a bola pro gordinho que, com seu arremesso característico - feio, chutando as pernas pra frente enquanto pouco sai do chão -, fez o arremesso mais importante da sua carreira. Curioso que a bola anterior, a chutada antes dos lances livres do Lewis, também tinha sido do Glen Davis, o segundo arremesso mais importante da sua carreira.
Apesar de ter sido uma surpresa ver ele decidindo um jogo que tinha Paul Pierce, Ray Allen e o Rajon Rondo, que joga cada vez melhor, não foi a primeira vez em que o Boston colocou suas fichas nele. Ele já tinha acertado importantes arremessos na temporada regular (como esse contra o Spurs, em San Antonio) e mesmo nesses playoffs contra o Bulls a bola caiu na sua mão várias vezes nas milhares de prorrogações.
Aqui uns trechos da entrevista do Glen Davis depois do jogo de ontem. Curioso é que ele tenta explicar como é arremessar uma bola dessas e a sensação, mas no fim das contas ele só joga um monte de palavra e não diz nada:
"Sempre que eu arremesso eu me visualizo acertando arremessos de último segundo. Você sempre tem que ver, se você vê, você acredita. Eu sempre acerto milhares de arremessos iguais a esse e acredito que sempre vou acertar."
"Você tem que estar focado nessas horas, entender o momento, a situação, o relógio. Basicamente você tem que pensar sem pensar. Apenas arremessar."
Valeu, Big Baby, mas poderia ter usado a entrevista para se desculpar com o coitado do garotinho torcedor do Magic que tomou um puta empurrão seu depois do arremesso. O coitado pagou uma nota preta pra ver o jogo de perto e não só o time dele perdeu como ele ainda foi empurrado por um gordo sorridente. Dá pra ver no vídeo abaixo:
Agora a série está empatada e o Orlando precisa arrancar mais uma vitória em Boston. Não vai ser fácil, claro. O Boston apesar dos defeitos está sabendo se virar, o Rondo está jogando pacas e o Celtics defende melhor em casa.
Por mais bizarro que pareça, a solução para dificultar a vida da defesa do Celtics parece ser deixar o Dwight mais tempo no banco e usar mais vezes o Marcin Gortat, mas falo mais a fundo desse assunto outro dia porque tenho medo de ser apedrejado por preferir o Polish Hammer ao Superman no ataque.
Momento Bola Presa Classic
Primeiro o desabafo: tem algum time que entra mais vezes de salto alto em quadra do que o Lakers? Ontem era dia de pegar o Rockets sem Yao Ming, que está fora do resto dos playoffs com uma contusão no pé, meter 3 a 1 na série e fechar o caixão no jogo 5 em LA. Mas não, tem que ser do jeito mais difícil.
O Rockets entrou em quadra sabendo como jogar (já estão acostumados a perder o Yao por contusão) e sem responsabilidade alguma de vencer, agora eles são mais zebras do que nunca e só tinham que ser agressivos. Foram, defenderam muito e atacaram a cesta o jogo inteiro, com a defesa do Lakers sempre um passo atrás. Destaque para o Aaron Brooks (34 pontos), que tem sido o fator decisivo dessa série. Jogou bem nos dois jogos em que o Houston ganhou e fedeu bem fedido nas duas derrotas. Ontem até ponte aérea no último segundo ele fez, foi um espetáculo.
O Lakers nem tem o que dizer, foi dominado em todos os aspectos do jogo e a diferença de 12 pontos do placar final foi só pra não ficar feio nos livros de história, já que chegou a ser de 29. Nós já fizemos um post falando sobre o Lakers ser um time muito irregular durante a temporada, falamos que era um bocado assustador o time do Phil Jackson, que sempre foi famoso por saber motivar seus jogadores, jogar tão mal partidas fáceis e ter seus melhores jogos na temporada contra Celtics, Cavs, Spurs e outros grandes times. Por que não jogar com aquela vontade e qualidade sempre?
Não sei, mas achei que nos playoffs essa intensidade ia ser em todo jogo, como é para o Cavs e para o Nuggets, por exemplo, mas não está sendo assim. Relaxaram no jogo 3 contra o Jazz e relaxaram demais ontem também. Ao invés de ter o instinto assassino de pegar o adversário sem seu melhor jogador e arrebentar, jogaram como se fosse um jogo de temporada regular onde uma derrotinha a mais não faz diferença.
Como o quarto período mostrou de maneira um pouco exagerada mas ainda real, o Rockets não tem garrafão para parar Gasol e Bynum. Eles não tem Yao e nem Mutombo, é Chuck Hayes e Scola pra segurar dois jogadores grandes demais. Mesmo com esforço acho que o Rockets não passa, mas o Lakers passa e vai pegar o Nuggets sem favoritismo algum.
Só é falta se o juiz contar até 10 e você não levantar
Depois de uma primeira rodada de playoffs cheia de surpresas, jogos 7 e momentos memoráveis, a NBA já está de volta à sua normalidade: LeBron James está passeando como sempre (dessa vez foram 47 pontos na cabeça do Atlanta), o Hawks só perde feio (o Cavs se nega a marcar o Josh Smith no perímetro, obrigando ele a tentar - e errar - apenas arremessos de longe), o Mavs não vence jogo nenhum, o Nowitzki erra os arremessos no final dos jogos, o Artest foi expulso e o Yao Ming, vejam que legal, quebrou o pé. Se eu estivesse perdido numa ilha deserta sem contato com o mundo exterior e tivesse que chutar como estão sendo os playoffs da NBA para a minha bola de vôlei Wilson, teria acertado tudo direitinho. Mas eu iria chutar que o Yao quebraria o pé antes e o Houston teria sido eliminado na primeira rodada, então ao menos alguma coisa acabou saindo do padrão.
O azar do Houston já era mais do que esperado, tinha que acontecer em algum momento porque vi o Tracy McGrady perto do banco de reservas dia desses e miséria e agonia sempre acontecem num raio de 50 metros em volta do pobre coitado. Yao Ming jogou boa parte da terceira partida da série contra o Lakers mancando um bocado, aguentando o que parecia ter sido uma torção após cair de mal jeito num arremesso. Assim, incapaz de ser efetivo no segundo tempo inteiro (após ter chutado traseiros no primeiro tempo, com 14 pontos), permitiu que o Houston fosse caindo num buraco sem volta, mesmo jogando dentro de casa. Ele tentou, se arrastou, puxou aquela perna que deve pesar mais do que toda a população do Acre, e só foi sentar nos segundos finais do jogo, quando ficou óbvio que já não dava mais para vencer o jogo. Nesse momento, Ron Artest já havia sido expulso numa faltinha mais-ou-menos no Pau Gasol.
Negócio é o seguinte: parece que minha função no planeta é reclamar, porque nunca dá para estar satisfeito. Eu bato o pé porque a arbitragem da NBA é muito severa, chata e impede as expressões pessoais dos jogadores; aí depois a arbitragem entra em "clima de playoff" e permite que o jogo vire uma disputa de judô, com quinhentas cotoveladas para todos os lados. Torci para uma partida mais tranquila, mas aí uma falta simples de Artest foi imediatamente punida com expulsão, e eu já não sei mais do que reclamo: da arbitragem apitar demais ou da arbitragem apitar de menos?
Em todo caso, fica bem óbvio que qualquer coisa que o Artest faz já dá arrepios em todos os engravatados na NBA e, portanto, todo cuidado é pouco. Sabendo que qualquer mínimo confronto pode virar um espetáculo nas mãos de Ron Artest, que corre para cima dos adversários, bate boca, atiça a torcida e deita nas mesas dos juízes, quando ele espirra é melhor deixá-lo fora do jogo. Numa falta tão comum quanto o Shaq errar lances livres, Artest foi expulso para que não pudesse mais haver espetáculo. Fica até difícil culpar a arbitragem porque eles não são uma tela em branco e, portanto, têm o direito de entrar em quadra munidos de memórias, medos e preconceitos. Sabem que as coisas funcionam diferente com Artest e por isso acabam reagindo diferente, mas sem dúvida não é justo com o jogador do Houston. Felizmente ele tem sido cada vez mais e mais sensato em suas entrevistas coletivas, elogiou a postura dos árbitros que explicaram para ele o que tinha acontecido e colocaram ele pra fora de maneira calma e polida, e então torceu para que a falta fosse "repensada" pela NBA. De fato foi e tornou-se apenas uma falta flagrante, que não levaria a nenhuma expulsão, e ainda assim acho exagero. Mas que seja, o Artest tem sua fama, seja ela merecida ou não, e os árbitros reagem a ela como podem. Acabou não mudando os rumos do jogo e pelo menos não tivemos uma partida de hockey dessa vez.
Mas a arbitragem acabou mudando completamente o rumo de outra partida, entre Nuggets e Mavs. Após dominar completamente o jogo e amarelar no finalzinho, Nowitkzi viu seu time vencendo por 2 pontos nos segundos finais. Tentaram cometer uma falta em Carmelo Anthony, uma daquelas táticas "oi, meu nome é Spurs e eu sou um desgraçado" de enviar o jogador para a linha de lances livres para que ele possa fazer no máximo dois pontos, ao invés dos três necessários. Além disso, o Nuggets tinha uma falta sobrando, então ainda poderia tentar roubar a bola na cobrança de lateral após a falta. Acontece que a arbitragem ignorou as duas faltas em sequência que Antoine Wright tentou fazer em Carmelo Anthony. Mais uma vez não podemos culpar tanto a arbitragem porque, se eles não leram a nossa coluna "Desconhecido do Mês" do Antoine Wright, simplesmente não sabiam que ele existia e não marcariam uma falta num jogador invisível. Parte da culpa vai para o Wright, também, que não anda armado: depois dos dois empurrões dados em Carmelo, ele claramente deveria ter dado dois tiros certeiros na altura do peito, evidenciando a agressão. Por outro lado, se fosse Bruce Bowen, podemos ter certeza de que ao invés de um empurrão teria sido uma voadora e Carmelo Anthony jamais teria conseguido dar o arremesso que deu a vitória ao Denver Nuggets. Ironicamente, se ao invés do Carmelo fosse o Ginóbili, ele teria se jogado no chão após o empurrão mesmo que o melhor a se fazer fosse arremessar. Força do hábito, sabe como é.
Numa hora só são marcadas "faltas de playoff", ou seja, se não sangrar não foi nada, mas em outras qualquer faltinha é falta flagrante. Onde diabos foi parar o critério? Achei que os árbitros ruins só fossem apitar Spurs e Suns, mas parece que agora eles estão se espalhando para as outras partidas mais rápido do que produtos com a cara da Maísa! Toca a NBA, toda hora, ficar revendo os lances e mudando de opinião: a falta do Artest foi amenizada, e a falta do Antoine Wright não marcada foi reconhecida como um erro dos árbitros presentes. Legal, o Mavericks agora pode levar para casa o troféu "Perdemos mas com um asterisco", tenho certeza de que o Nowitzki vai adorar colocar em sua estante amarela.
As lambanças de arbitragem, no entanto, só estão levando as coisas aos seus rumos esperados (as próprias lambanças são bem normais e esperadas). Era bem claro que o Houston ganhar a primeira partida fora de casa havia sido um acidente de percurso, e agora sem Yao o Lakers vai passear. Do mesmo modo, é bem claro que Nuggets e Cavs são muito superiores aos seus adversários e deveriam emplacar simples 4 a 0 e ir pra casa tirar um cochilo. Nas Finais de Conferência, talvez, tenhamos séries mais disputadas e divertidas.
Quanto ao Yao, talvez seja o momento de admitir que um ser humano não foi feito para ter 2,29m e ficar correndo de um lado para o outro humilhando Greg Odens e Andrew Bynums no caminho. Sua estrutura óssea não é adequada para a tarefa, seus ossos sempre vão trincar em algum lugar, e o Houston sempre vai ficar na mão nos piores momentos possíveis. Com Yao, T-Mac e Artest, esse time é sempre um acidente esperando para acontecer.
Mas pensem pelo lado bom: dessa vez passamos do primeiro round. Podemos começar, agora, uma maldição milenar de não conseguir passar do segundo round. Talvez meus netos vejam o Houston perdendo nas Finais de Conferência, vamos lá, um passinho de cada vez.