segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Fantasiando a correria

Se joga, amiga


Nós sempre comentamos dos times que correm muito por aqui, até tentei parar por um tempo para não ser repetitivo mas a verdade é que esses times encantam. Um time que joga rápido e joga bem sempre parece invencível, parece que não dá chances para os seus adversários. E ainda fazem isso usando as coisas que mais botam fogo em uma torcida de basquete: contra-ataque, bola de 3 e enterrada.

Se você assiste e joga basquete há mais tempo pode até não se exaltar tanto com essas coisas, quer dizer, se você não se exalta de jeito nenhum eu sinto informar que você perdeu o amor pelo jogo. Mas o que quero dizer é que depois que você começa a manjar mais do assunto, passa a berrar “OH MEU DEUS!” depois de uma jogada de garrafão do Duncan ou depois de ver o Kobe humilhar alguém com giros e um simples jumper. Uma questão de repertório.

Mas para todo fã comum e uma parte ainda viva do fã hardcore, os times que jogam em velocidade trazem aquilo que lhes faz gostar do jogo. Você não começou a ver basquete porque o Olajuwon sabia fazer ganchos com as duas mãos, mas porque o Jordan corria e voava nos contra-ataques.

Nessa década o Dallas foi o primeiro grande time da correria, mas o que ficará para a história mesmo é o Suns, provavelmente o mais organizado time que já jogou sem defender na história do basquete. O time encantou, rendeu dois MVPs ao Steve Nash e sucumbiu na mão do outro extremo da velocidade e espontaneidade, o Spurs.

Uma coisa curiosa que o Suns simboliza perfeitamente é a relação dos torcedores com a questão show/resultado. Foi quando o Nash começou a distribuir passes em ângulos que a gente não viu em 15 anos de escola que começou o ciclo dos admiradores da correria, que diziam que era o mais puro basquete-arte. Mas foi com o mesmo Suns, depois de transformar esses basqueteiros comuns em torcedores vorazes, que encerrou-se esse ciclo, com a história de que o run'n'gun estava fadado à derrota e que basquete de playoff é defesa.

Então todo mundo volta a perceber que, mesmo com talento de sobra, esses times vencedores como Pistons, Spurs e Celtics uma hora cansam e a gente quer ver magia de novo, a gente quer ver a defesa mas quer ver o ataque como contra-ponto. Difícil descrever como é divertido os defensores do ataque alucinante e os da defesa sólida defendendo seu ponto como se fossem democratas e republicanos: os dois defendendo a mesma coisa por meios diferentes e os dois sem a razão completa.

Então depois de encantar, de decepcionar e de até tentar mudar de partido, cá está o Suns de novo. Desistiu de tentar virar um time mais defensivo e voltou a correr. Depois de duas semanas de temporada o Suns é o melhor time da NBA, o Nash é líder em assistências por jogo, o Frye está aproveitando sua última chance, eles tem o quinto melhor ataque e tudo isso sendo o segundo time com maior ritmo ofensivo da liga, atrás apenas do Warriors. (O ranking é feito baseado no números de posses de bola por 48 minutos)

Agora uma pergunta que eu já sei a resposta: o Suns vai ser campeão?
Para quem não sabe, não, não vai ser campeão. Talvez a maior beleza desse time do Suns é que provavelmente eles sabem disso. Sabem que estão abrindo mão do basquete que ganha e sempre ganhou títulos na NBA para jogar o único basquete que eles sabem, o mais bonito. É abdicar o fim pelo meio. Arte pela arte.

É bem possível que eu esteja fantasiando isso, que fique claro. Na cabeça do Nash e do Amar'e eles estão indo com tudo para o título e irão chorar se perderem nos playoffs de novo, mas prefiro fantasiar como eles fazem a gente fantasiar. Prefiro pensar que o Suns decidiu simplesmente fazer o que sabe sem pensar no resultado final. Jogar bem, jogar na correria e não se adaptar especialmente para vencer o Spurs, para defender melhor ou qualquer coisa que o valha. Jogar por jogar e ver o que acontece. Para mim esse é o Suns e é por isso que depois de alguns anos com certa raiva deles, volto a sentir aquele prazer infantil ao assisti-los.

...
Nota: A Dime chamou o Channing Frye de "o Raef LaFrentz negro". O LaFrentz, curiosamente, estava naquele time do Dallas que eu citei acima. Pensando nisso achei várias semelhanças entre as equipes: O Leandrinho funciona nem como 1 e nem como 2, é um armador 1,5 como era o Van Exel mas sem a canhota e o lance livre três passos mais longe. O Jason Richardson é o segundo armador que não sabe arremessar de meia distância, é enterrada ou bola de 3, como o Finley dos bons tempos e, claro, o Nash é o Nash. A grande diferença fica entre Amar'e e Nowitzki. Que elenco era melhor?

Se você quiser comparar o lixo também, de um lado tem Louis Amundson e do outro Eduardo Najera.

domingo, 8 de novembro de 2009

O Houston das adversidades

Os da ponta defendem, o do meio não joga


Dois anos atrás, 0 Houston estava com dificuldade de colocar em prática o basquete livre e complexo proposto por Rick Adelman em sua primeira temporada com o time. O técnico pedia paciência, explicando que aos poucos a equipe estaria plenamente familiarizada com o esquema tático. Quando a água bateu na bunda e o Rockets começou a escorregar na tabela, finalmente o elenco pareceu abraçar o que era proposto. Com um basquete de velocidade, passes rápidos no jogo de meia quadra, arremessos do perímetro e um pivô na cabeça do garrafão chamando as jogadas ofensivas, o Houston ganhou 12 partidas seguidas e provou que era um time de verdade. Mas como nós sabemos que o Yao Ming parece "made in Taiwan", que é o Paraguai do oriente, o pivô chinês quebrou a perna e ficou fora pelo resto da temporada.

Sem espaço para desespero, tudo que Rick Adelman fez foi aumentar o ritmo ofensivo, focar ainda mais no contra-ataque e pedir passes mais velozes e mais arremessos de três. Sem o Yao pra ficar correndo de um lado para o outro com a língua pra fora, o time passou a jogar numa porra-louquisse e mesmo assim finalizar com calma. Mesmo sem o pivô, ganharam mais 10 partidas seguidas, conseguindo a segunda maior sequência de vitórias de todos os tempos e classificaram-se em quinto lugar no Oeste, para então serem eliminados (mas disso não quero falar, hunf).

Na temporada seguinte, Ron Artest foi adicionado à equipe e todo mundo começou a achar que talvez o Houston tivesse chances de título. No entanto, Tracy McGrady passou a maior parte da temporada contundido. Foi sem ele que o time passou finalmente da primeira rodada dos playoffs e foi enfrentar o Lakers na semi-final. Perdendo por 2 a 1 na série, Yao Ming se arrebentou de novo, todo mundo bocejou porque era óbvio que isso eventualmente iria acontecer, e então a série foi dada como encerrada. No entanto, aquela equipe cheia de carregadores de piano e nenhuma estrela venceu mais duas partidas e levou o embate com o Lakers para o sétimo jogo, aliás o único time a levar o Lakers para um jogo 7 naqueles playoffs.

Chegamos então ao Houston de agora. A lesão do Yao Ming, que ainda pode encerrar sua carreira, garante que ele não volta para o time nessa temporada. McGrady, que operou seu joelho pela nonagésima vez (graças a um plano fidelidade com o cirurgião, dessa vez saiu de graça), volta só no ano que vem. Ron Artest, que segurou o time nos playoffs passados, foi concretizar seu sonho de infância e jogar com seu ídolo Kobe Bryant. O que sobrou? Trevor Ariza, que era a quinta opção ofensiva no Lakers, exemplifica a equipe: um monte de jogadores secundários, sólidos, carregadores de piano, que seriam capazes de ajudar qualquer equipe que contasse com um par de estrelas. Mas sem as estrelas, cabe ao Rick Adelman tornar esse bando de coadjuvante um time de verdade.

"Às vezes você tem alguns times que talvez não sejam tão talentosos quanto outros times, mas certamente dá para tirar deles o mesmo que você tiraria de times melhores. Se você consegue com que joguem com todo seu potencial, e joguem duro todas as noites e se esforcem todas as noites, isso já é satisfação. Você não vai ter sempre o melhor time."

A frase de Rick Adelman pelo menos nos mostra que ele está satisfeito. O time pode ser uma droga, mas se ele tirar o melhor do elenco já poderá dormir de noite. Na primeira partida da temporada, deu pra perceber que o time não teria chances de chutar traseiros nos playoffs mas que ganharia muito mais partidas do que se imaginava. É sempre assim, quando o Houston perde as estrelas e precisa depender de correria e de jogadores mais-ou-menos, especialistas em aspectos específicos do jogo, as coisas acabam dando estranhamente certo. No primeiro jogo eu tive uma crise de diarreia porque foi asqueroso ver o time jogando só na raça, na unha, sem saber o que fazer, mas foi só o susto. A derrota na estreia para o Blazers foi devolvida, com uma vitória fácil em cima do mesmo time de Portland, e misteriosamente o Houston se tornou um time delicioso de se assistir. Não tem estrela, não tem showzinho de LeBron ou Kobe, mas tem um grupo de oito jogadores que toma as decisões certas, dá sempre um passe a mais, não força arremessos e joga com velocidade. É um tesãozinho de assistir, dá tanta água na boca quanto o ensaio da Alinne Moraes de lingerie.

O ataque é o sexto melhor em pontos marcados na NBA até agora, atrás apenas de Suns, Nuggets, Magic, Raptors e Grizzlies. No entanto, dessa lista apenas o Magic tem uma defesa que toma menos pontos do que o Rockets. Ofensivamente a ideia é correr bastante, apostar no contra-ataque, e abusar dos arremessos de três quando é preciso um basquete de meia quadra. Defensivamente, a ideia é colapsar todos os jogadores juntos rumo ao garrafão frente a qualquer infiltração, e depois morder na defesa de perímetro com jogadores especialistas nisso como Shane Battier e Trevor Ariza. O vídeo abaixo dá um bom exemplo da defesa que o Houston anda aplicando:



Chega a ser engraçado, parece futebol feminino amador em que todo mundo corre pra cima da bola. Isso torna o Houston exposto a times que penetram e depois passam para fora, e também complica nos rebotes mais longos típicos dos arremessos de três, mas é a única chance de defender o garrafão num time sem nenhum pivô sequer. O titular na posição é o Chuck Hayes, que não tem sequer dois metros! Com 1,98m de altura, o Hayes é de longe o pivô mais baixo que a NBA já viu, seria até o pivô mais baixo do campeonato amador de Catanduva, e por isso precisa de toda ajuda do mundo na marcação. No entanto, o Hayes é um defensor pentelho pra burro, ele estabelece sua posição, intercepta passes e fica cutucando a bola antes de chegar no pivô adversário. Não consegue impedir uma cesta, só sai do chão usando escada rolante, mas inferniza qualquer um e é um dos seis melhores ladrões de bola da temporada, com mais de dois roubos de bola por jogo. O Dwight Howard comeria ele com um pouco de azeite e sal, talvez uma salsinha pra dar gosto, mas é certeza de que o Hayes vai encher um pouco o saco e o Houston inteiro vai pular no cangote do Dwight na cobertura. Aí os arremessos de três do Magic vão trucidar o Rockets, claro, mas é um plano melhor do que se lascar em todo jogo tipo o pobre do Warriors.

O Ariza faz um serviço cada vez melhor na defesa, mas o andamento das partidas depende muito dele ofensivamente. No contra-ataque ele é veloz e explosivo, seus roubos de bola viram enterradas, e mantém o Houston no jogo. Mas é nas suas bolas de três que fica a esperança do time. Ele ainda não tem a capacidade de decidir o jogo criando seus próprios arremessos, e ainda tem muitos problemas batendo para dentro. Na hora do desespero, quando o Houston precisa de uma infiltração, prefere isolar o Aaron Brooks e deixar ele partir pra cima. Mas o Ariza é inteligente, sabe quando arremessar (coisa que o Artest nunca soube), e quando tem bom aproveitamento prova que pode segurar um time nas costas volta e meia. Na pré-temporada e no primeiro jogo do Rockets, Ariza forçou o jogo, ainda bitolado nessa ideia de que ele precisa ser uma estrela, a primeira opção no ataque. O Kobe deu uns conselhos, disse que conhece bem essa transição, e que ele só precisa ir com calma. Agora, parece que ele finalmente entendeu que tem que liderar os contra-ataques, se focar na defesa, nos arremessos de fora, ser um jogador especialista como todos os outros do elenco. Numa equipe em que cada um tem uma função e a mistura precisa ser maior do que a soma das partes, o Ariza não tem que ser estrela coisa nenhuma, tá muito bom se ele fizer seu papel também e todo mundo confiar no trabalho coletivo planejado pelo Rick Adelman. Ele já tirou de letra a perda do Yao, a perda do T-Mac, e não está em busca de um jogador fora de série para se destacar nesse grupo. Quando o McGrady voltar, provavelmente deve ter também minutos reduzidos e um papel secundário, armando jogadas, sem forçar seu físico destruído indo para a cesta.

Por enquanto, a rotação é pequena, com apenas oito jogadores. Battier e Ariza defendem e arremessam de fora, Aaron Brooks bate para dentro mas também é bom arremessador, Luis Scola é o único com um jogo sólido dentro do garrafão, e o Hayes torra a paciência dos pivôs adversários. No banco, Kyle Lowry defende bem como armador, o novato Chase Budinger arremessa bem de três e confunde os adversários por ser loiro e mesmo assim jogar basquete, e Carl Landry prova que veio da máquina de faser Jason Maxiells e leva sua vida nos rebotes ofensivos e marcando pontos fáceis. Qualquer um deles, num dia bom, pode vencer uma partida sozinho. Mas é a junção de todos eles que torna o time tão perigoso. David Andersen é um pivô que veio da Europa dar uma força mas na verdade é só um ala improvisado e envergonhado demais para arremessar, e o Pops Mensah-Bonsu ainda não teve oportunidades, então a rotação é bem limitada mesmo e vai receber de braços abertos o McGrady para dar uma força. Mas até lá, o time vai estar muito bem.

Contra o Lakers, no já lendário "Clássico Bola Presa", Kobe teve que marcar 41 pontos para permitir a derrota do Houston por um mísero ponto na prorrogação. No Houston, seis jogadores marcaram pelo menos 14 pontos e Chuck Hayes saiu de quadra com 14 rebotes mesmo enfrentando Andrew Bynum no garrafão. Se tem como dar canseira no atual campeão com um time desses, cheio de caras secundários, então não tenho dúvidas de que o Houston vai se sair bem na briga pelas vagas de playoffs no Oeste. Por enquanto o time está na frente de Mavs e Spurs e é líder de sua divisão, e esse absurdo tem ainda mais valor quando a gente pensa em como o Houston está conseguindo esse sucesso: sem suas estrelas, nas mãos de um dos melhores técnicos que a NBA já conheceu, e com um basquete bonito, solidário, veloz e que deixa aquela lagriminha de saudade do Kings de uns anos atrás, quando o Stojakovic ainda sabia arremessar. Para quem gosta de torcer pelo mais fraco e para quem gosta de ver um jogo coletivo e metido a porra-louca tipo o Knicks mas com regularidade e sem tanto fracasso, o Houston Rockets merece sua audiência. Aplaudamos o Rick Adelman agora, enquanto ele tira água de pedra, porque é bem possível que com as estrelas de volta ele não consiga a mesma mágica. Tanto ele quanto a equipe só rendem de verdade nas adversidades. E não há nada mais bonito do que ver um grupo de pessoas lutando contra as adversidades, ainda que para isso tenhamos que ver um nanico jogando de pivô e morrer de vergonha.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Os imprevisíveis

Al Harrington foge da mão boba


Tem uns times que eu simplesmente não consigo sacar. Se você assiste a um jogo do Spurs você já percebe qual é a deles, é um time centrado no Duncan, com Parker e Ginobili auxiliando no perímetro e qualquer ser humano capaz de defender e/ou arremessar em volta. Falando sério, qualquer um que acompanha basquete com regularidade saca isso em um jogo deles. Perceber nuances táticas e comportamentos-padrão do time e do técnico aí só pra quem manja mais ou acompanha de pertinho toda a temporada.

Não estou desmerecendo o Spurs com isso, embora seja legal fazer isso de vez em quando. É um sistema simples mas já foi provado zilhões de vezes que é eficiente. Agora o Knicks eu não entendo de jeito nenhum. Eu não assistia o Knicks quase nunca porque era chato, o time era um lixo e tinha o Marbury. Mas a partir da temporada passada, com a aquisição do Mike D'Antoni, resolvi dar uma chance pra eles, mas cada vez que eu os assisto acho uma coisa diferente. Para tentar organizar o pensamento sobre eles, faço esse post.

Uma coisa é bem clara, eles estão lá para atacar. A filosofia dos "7 segundos ou menos" vinda dos tempos de Suns ainda está presente mas, ao que me parece, um pouco distorcida. Esse esquema do D'Antoni cria jogadas rápidas para pegar a defesa desprevenida, ainda em formação, para ter bons e fáceis arremessos. D'Antoni diz que são nos primeiros sete segundos de posse de bola que existem as melhores chances de se conseguir um bom arremesso sem marcação.

Muitas vezes eu tenho a impressão de que o Knicks ignora essa parte de ter um bom arremesso e queima a bola mesmo quando a oportunidade não foi tão boa assim. É uma distorção absurda de uma boa teoria. Mas em compensação, algumas jogadas depois, você vê os mesmos cinco jogadores em quadra fazendo a mesma coisa direitinho: não deu pra dar o arremesso rápido então continuam se movimentando, fazem um ou dois pick and rolls até achar o melhor jogador posicionado. Aí na jogada seguinte alguém tenta um arremesso do meio da quadra só por esporte.

Um exemplo óbvio disso é o Danilo Gallinari. Eu considero ele um novato porque até cara com contrato de 10 dias jogou mais do que ele no ano passado, então tem esse perdão, mas mesmo assim ele parece muito irracional às vezes, um Antoine Walker sem a cabeça de Lego. Em algumas ocasiões ele recebe a bola, fica parado e de repente arremessa de 3 com o marcador na cara dele. Só dois jogadores da NBA fazem isso com um bom nível de sucesso: Kobe Bryant e Carmelo Anthony. Por mais que você goste do Gallo, você sabe que ele não está nesse nível.

E quem dera fosse o caso dele simplesmente não saber driblar ou passar. Se fosse assim ele seria um novo Eddie House e pronto, não é culpa dele não saber outra coisa. Mas não, ele tem uma boa altura, um bom controle de bola pro seu tamanho e poderia muito bem ser um Lamar Odom Jr. no Knicks, pegando rebotes e já saindo pra puxar o contra-ataque.

Duvida que o Gallinari sabe driblar? Olha esse vídeo dele fazendo um clássico God Shamgod, típico do basquete de rua.




Não que ele vá fazer isso todo dia, mas o rapaz tem talento para fazer mais do que brincar de 21-parado no meio da NBA. Outro que eu não entendo é o Larry Hughes. Nesses cinco primeiros jogos dele na temporada, misturou momentos de mediocridade completa (com seus típicos arremessos ruins da época do Cavs) com outros de boa defesa e arremessos de meia distância da época do Wizards.

E se o assunto é irregularidade, não tem como não falar do Chris Duhon. O cara que tem RESERVA tatuado na testa no maior estilo 'Bastardos Inglórios' é um misto constante de mini-Steve Nash com um Nezinho mais afobado. Por tudo o que já disse do run-and-gun consciente do D'Antoni, um armador bom é essencial, é ele quem geralmente tem que tomar a decisão de quem arremessa nos tais 7 segundos. Tem que ser o líder.

Já Al Harrington, apesar de ter virado o sexto homem logo depois dos primeiros jogos, tem sido o líder ofensivo do time até agora, mas ele, como sempre na sua carreira, não é nada confiável e pode jogar um jogo no ralo com a mesma facilidade com que tira uma diferença de 10 pontos em minutos. Aliás, essas viradas tem ocorrido muito nos jogos do Knicks: se tem uma área onde eles estão regulares é no quarto período. Dos 5 jogos disputados até agora (4 derrotas, 1 vitória) eles venceram 4 quartos períodos, marcando duas vezes pelo menos 40 pontos e 3 vezes tirando diferenças superiores a 10 pontos. Com 30,8 pontos por quarto período o Knicks é atualmente líder da NBA nesse quesito, na média geral o NY fica apenas em oitavo.

Eu atribuo essa superioridade nos períodos decisivos à defesa. Uma defesa afobada e desorganizada, claro, é um time do D'Antoni afinal, mas no desespero eles conseguem turnovers e com isso é que melhor executam sua correria inconstante. Até na defesa eles mostram que podem ter flashes de talento mas não conseguem manter isso por muito tempo. Tanto que mesmo depois de quartos períodos tão fantásticos eles perderam as duas prorrogações que disputaram.

Como já é costume há anos, o único ponto sólido do time é o David Lee. Sempre com seus rebotes, pontos vindos de bom posicionamento e muita vontade, é o único porto seguro do D'Antoni. Não é necessário dizer que não é o bastante. Apesar de ser imensamente valorizado, não é jogador pra carregar time nenhum nas costas, muito menos jogando de pivô improvisado de novo. O sonho de ver o Darko Milicic rendendo alguma coisa em um esquema novo já foi para as cucuias depois de poucos jogos. Falando sério, sem querer zoar a escolha de draft mais aloprada da história: o Darko não sabe o que faz numa quadra de basquete. Ele comete erros de amador durante as partidas. Em um momento do jogo contra o Hornets ele deixou o Chris Paul livre três vezes seguidas depois de pick and roll e nas três o Paul acertou um arremesso livre. E isso é só um exemplo, melhor nem começar a comentar do número de passes que ele não segura porque não estava preparado para receber.

É natural comparar esse Knicks ao Suns de alguns anos atrás porque eles tem o mesmo técnico e divertem com a correria. Mas em uma análise um pouco mais profunda é possível ver o que realmente decide na NBA. Não é só esquema tático, técnico ou filosofia, em uma liga de tão alto nível, ganha quem tem técnica, quem tem bons jogadores, simples assim. Enquanto o Knicks tiver o elenco que tem não vai a lugar nenhum nem que se foque em jogar defesa, em atacar melhor ou tudo mais, o time para no limite técnico dos seus jogadores.

Acho que depois de escrever tudo isso deu pra entender, a característica básica do Knicks é o "que porra a gente vai ver hoje?" que eles causam antes de cada jogo. Ou de cada quarto.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Antes caro do que nunca

Rondo homenageia os Panteras Negras


Todos os jogadores que foram draftados na primeira rodada de um draft podem ganhar uma saborosa extensão de contrato para encher as orelhas de grana três anos depois do ano em que foram escolhidos. Isso quer dizer que esse ano era o ano dos caras do draft de 2006 brincarem de mocinha esperando o convite do baile.

Aos poucos, caras draftados naquele ano foram ganhando suas extensões, como Brandon Roy, Andrea Bargnani e LaMarcus Aldridge, mas os dias iam passando e nada do Rajon Rondo receber seu dinheiro. Durante toda a offseason esse foi o maior assunto do Celtics, mais até do que a recuperação do Garnett e da contratação do Rasheed Wallace. Por mais que essas duas coisas fossem mais importantes para essa temporada, eram certas, ao contrário do futuro do Rondo em Boston.

O negócio é que o Celtics não queria pagar toda a grana que o Rondo pedia (quase um contrato máximo, diziam na época) porque não acreditavam que o armador era pra tudo isso e porque sua relação com o Doc Rivers não andava nada boa. No nada seguro mundo da boataria até chegaram a comentar que o Celtics estava testando o mercado para ver se conseguia uma boa troca envolvendo o Rondo (chegaram a cotar o Kings, coitado!), mas não conseguiu nada que valesse a pena.

Não é difícil entender porque a situação era complicada pro Celtics. A relação técnico-jogador não era a ideal, o Rondo vinha de um playoff com trocentos triple-doubles e portanto com moral para pedir muita grana e o Celtics já paga uma grana preta (preta mesmo, tipo KG) pelo trio Garnett-Pierce-Allen.

Na dúvida o Celtics foi adiando, adiando e por fim não chegaram a um acordo na data-limite. Quando todo mundo achava que o Rondo iria virar um Free Agent restrito na próxima temporada e estaria bravo com o Celtics, sem motivação para jogar nessa temporada, surgiu uma luz divina: a burocracia. Como a data-limite caiu em um feriado americano, ela foi extendida até o dia útil seguinte, uma segunda-feira. E nesse meio tempo os dois lados finalmente chegaram em um acordo, um contrato de 5 anos no valor total de 55 milhões de verdinhas.

O empresário do Rondo disse que queria tudo isso porque queria um salário condizente com a posição do seu protegido. "um dos 5 melhores armadores da liga", mas, claro, ele é suspeito. O Rondo é mesmo um dos cinco melhores armadores da NBA? E se não é hoje, será nos próximos anos?

A discussão é gigantesca e desnecessária. Envolve caras como Chris Paul, Deron Williams, Steve Nash, Jason Kidd, Derrick Rose, Baron Davis, Andre Miller e mais um monte de gente boa. Mas definir exatamente quem são os 5 é bobagem pra quem gosta de fazer lista, eu acho que a mensagem enviada e a discussão verdadeira é se o Rondo pode ou não carregar um time nas costas, ser o tal franchise player.

Carregar sozinho ninguém carrega, mas se você ganha mais de 10 milhões e não é um espécime raro como um pivô com talento, é porque deve ser bom o bastante para, mesmo em um time com boas peças, ainda ser o destaque, um cara que vai chamar a responsa no momento mais difícil.

Hoje o Rondo não é esse cara. Tirem do Celtics Garnett, Pierce e Allen e substituam por Francisco Garcia, Martell Webster e Kevin Love e o Rondo não fará nenhum milagre. O time seria mediano, o Rondo faria vários triple-doubles mas não sairia vencedor. Em uma última bola o Rondo não arremessaria porque ainda não tem arremesso confiável, em um dia que nada desse certo ele não teria condições de arranjar uma partida de 35 pontos para tirar seu time de uma fria.

Pelo menos não por enquanto. O Celtics está comprando o apartamento na planta, uma planta promissora. Quando entrou na liga o Rondo era um cara que ninguém entendia. Seu perfil no NBADraft.net dizia que ele era um bom arremessador, um pontuador nato e que tinha como ponto fraco o fato de não saber controlar o ritmo de jogo da equipe, era muito individualista.

Não precisamos de muito tempo para perceber que era o oposto. Ele controlava o time como um veterano desde seu primeiro ano mas não conseguia seus pontos porque seu arremesso era tão patético que os times o deixavam livre para arremessar na cara dura, chegava a ser humilhante às vezes.

Mas ano após ano o Rondo foi melhorando. Se tornou um melhor defensor, ótimo ladrão de bola, mortal nos contra-ataques, melhor finalizando bandejas, se tornou um dos melhores reboteiros ofensivos da NBA inteira e hoje volta e meia tem aqueles jogos à lá Jason Kidd com 10 rebotes, 10 assistências e 2 pontos. Até seus arremessos, que ainda estão longe de assustar, pelo menos já saíram do nível do patético, ele tem acertado com certa regularidade nesse começo de temporada. Isso sem falar da sua marca registrada, uma jogada que ele elevou à perfeição, que é quando ele engana o marcador fingindo que vai passar a bola por trás das costas e depois faz a bandeja. Em uma entrevista à Dime, ele disse que às vezes tem vontade de rir quando uns pivozões caem na jogada mas que se segura. Como exemplo de drible engraçado ele citou a jogada abaixo, pobre Nick Collison.



O histórico de evolução a cada temporada e o ambiente vencedor onde cresceu na NBA fazem o Celtics, com razão, pensar que fez um bom negócio. Lembra um pouco o que o Lakers fez pagando um dinheirão para o Andrew Bynum só para não deixá-lo escapar como Free Agent. A diferença no caso do Lakers é que o Bynum tinha provado muito menos coisas do que o Rondo quando ganhou seu contrato, além do amendontrador histórico de contusões.

Nos dois casos são jogadores jovens, promissores e peças fundamentais não só no futuro como no presente das equipes. E o presente é que foi o fator chave dos dois acordos. É um contrato 2-em-1. Se o Celtics fosse um time sem nenhuma chance de título talvez pensasse 10 vezes antes de apostar no Rondo como o seu cara para o futuro. Mesmo com o futuro promissor não é uma escolha certa, mas a parte de dúvida é compensada pelo o que ele pode trazer agora. Paul Pierce, Ray Allen, Kevin Garnett e Rasheed Wallace não terão mais 10 anos de NBA pela frente e estão sedentos por títulos agora, só que não vão conseguir isso com o Eddie House de armador titular. Eles precisam do Rondo como 4º melhor jogador e para isso até pagam ele como se fosse o melhor, exatamente a mesma coisa que o Lakers fez com o Bynum.

Com o Lakers deu resultado. O Bynum foi discreto nos playoffs, ruim em muitos momentos, mas ajudou no título e não impediu o Lakers de continuar com o time forte. Para o Celtics imagino um futuro parecido, o Rondo mantém o nível do time nas alturas até os veteranos começarem a cair de nível técnico. Só aí então, sem a sombra dos gigantes, é que a discussão de onde o Rondo está entre os melhores armadores da NBA será mais relevante.

A jogada da rodada de terça-feira foi do Rajon Rondo, uma jogada bisonha que lembrou muito um lance clássico de outro Celtic, Larry Bird.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Reclamando

Allen Iverson pede aos céus para poder
jogar basquete com duas bolas



O Iverson levou uns minutinhos pra se sentir à vontade no jogo, mas quando entrou no terceiro período já começou a forçar seus arremessos. Teve atuação discreta, acertou alguns arremessos, errou outros que viraram contra-ataques, não bateu cabeça com nenhum companheiro de equipe mas também não deixou ninguém pulando de alegria com um passe caridoso. Como o Denis bem disse em seu comentário sobre a estreia do Iverson no Grizzlies, hoje em dia o lance é ver OJ Mayo chutando traseiros ao invés de ficar todo choramingoso e sentimental reclamando que o Iverson não é mais tudo isso. Um dia a Alinne Moraes vai ter os peitos na barriga, lá pelos 110 anos, e a gente vai ter que aprender a lidar com o fato.

O cara já foi cestinha da NBA, campeão do Leste, colocou o nome na história, então uma hora precisamos lidar com o fato de que haverá um declínio. Só é um pouco triste pensar em jogadores tão bons entrando na fase final de suas carreiras com a fama de fracassados, de perdedores, de São Caetano. Tracy McGrady também já foi cestinha da NBA mas ainda não conseguiu passar de uma primeira rodada de playoffs (o Houston passou ano passado sem ele no elenco, contundido) e no fundo a gente fica torcendo pra tudo dar certo pra ele antes do coitado se aposentar. Mesma coisa com o Vince Carter, e por isso fico tão contente que as coisas estejam dando certo para ele. Com a postura de pensar primeiro na equipe durante sua estadia no Nets, conseguiu ir para o Magic e tem todas as condições para ser campeão por lá nos próximos anos. T-Mac também vai voltar às quadras em breve, num time que bizarramente está funcionando muitíssimo bem apesar de não contar com nenhuma estrela. Depois do susto inicial, em que o time pareceu um horror por não acertar as bolas de três nem ter jogo de garrafão, agora McGrady tem tudo pra ajudar uma equipe com condições reais de passar da primeira fase dos playoffs apesar dos incrédulos bastardos que eu vou encher de porrada na saída. Mas e Iverson, tem chances de escapar de um fim fracassado?

Se o Grizzlies foi uma chance que caiu dos céus e impediu que ele tivesse que se aposentar ou ir parar na Europa, a esperança de Iverson é que essa chance seja bem aproveitada e renda a ele um lugar num time com chances de ganhar um título. Mas ontem ele começou a forçar um pouquinho o jogo, foi colocado no banco para o Mike Conley entrar, passou o quarto período no banco e só voltou para a última posse de bola do período, com o jogo empatado e a bola nas mãos do Grizzlies, com a chance de acertar o arremesso da vitória. Acontece que ninguém sequer lembrou que o Iverson estava em quadra, nem por parte do Grizzlies, que nem cogitou passar a bola para ele, e nem por parte do Kings, que acabou tendo um jogador de garrafão marcando o armador. A jogada deu errado, o Iverson ficou puto por ser ignorado e não foi colocado em quadra na prorrogação. O Grizzlies perdeu, claro, porque o Kevin Martin fez absurdos 48 pontos para o Kings, e a partida foi divertidíssima mesmo sem o pobre Allen Iverson em quadra. Dá pra espiar os melhores momentos no vídeo abaixo, incluindo o arremesso débil mental de horroroso que o Zach Randolph deu pra empatar o jogo, e o Iverson sendo inútil na jogada decisiva.



Tá bom, não foi um começo lá muito animador para quem esperava uma chance de se redimir, ganhar jogos com arremessos no estouro do cronômetro e ter uma oportunidade de brilhar provando que pode se encaixar com os companheiros de equipe. Mas que tal não dar piti como se fosse participante de Big Brother? Ao fim do jogo, Iverson reclamou que os companheiros nem notaram que ele estava em quadra, que ele passou tanto tempo sentado no banco que os outros jogadores devem mesmo ter esquecido dele, e terminou com a reclamação que é um peido final em cima do monte de merda:

"Se estamos ganhando, posso jogar 10 minutos e estou feliz. Quando estamos perdendo, aí eu perco a cabeça."

Primeiro jogo do cara e ele já surta com os minutos em quadra, com o fato do time feder e com as derrotas. Alguém avisa que ele está no Grizzlies, derrota é tipo o sobrenome da equipe. Se não for o suficiente, alguém avisa que ele está jogando com o Zach Randolph, e que por melhor que o Randolph jogue ele sempre está numa equipe perdedora. E se ainda assim não for o suficiente, alguém avise que ele é o Allen Iverson, e que ele também só se mete em equipe fracassada. Tirando aquele Sixers que era horrível e ele carregou nas costas para uma final de NBA, todo o resto deu bastante errado. Some todos esses fatores e esse Grizzlies, mesmo que pareça estar jogando bem e tenha tanto talento, tem tudo para ser uma bela de uma porcaria. É claro que se, aos poucos, todos esses jogadores se misturarem bem será um time que pode surpreender qualquer equipe, mas o Iverson já quer minutos, o OJ Mayo está comendo a bola, e o Zach Randolph acha que é herói e quer dar os arremessos decisivos. Ou seja, boa sorte para eles, são os votos de Danilo e família.

Enquanto isso, o Magic está chutando traseiros mesmo sem Vince Carter, que torceu o pé, e em sua ausência está usando o JJ Redick, que agora até acerta arremessos. Depois de ser nomeado o melhor arremessador da história do basquete universitário, o Redick só fedeu na NBA e nunca ganhou minutos, oportunidades e nem a liberdade de dar o fora da equipe. Agora, com um pouquinho mais de ritmo e minutos consistentes, virou peça importante no elenco que mais arremessa de três na NBA, até o porteiro do ginásio tem bom aproveitamento nos arremessos de fora. O Carter é mais completo, ataca mais a cesta, e quando voltar torna o time imediatamente melhor. Lembremos também que o Rashard Lewis, suspenso naquela polêmica do doping, voltará às quadras em breve como mais um jogador central focado nos arremessos de três pontos. Nunca o Vince Carter teve tantas chances de enfiar um anel no bolso, mas só saberemos quão perto ele está de ser mesmo campeão quando esse ataque monstruoso nos arremessos de longa distância enfrentar o Boston Celtics, que tem a melhor defesa da temporada - e estatisticamente melhor do que a defesa que a equipe apresentou quando foi campeã, temporada retrasada.

Já o McGrady deve voltar, segundo os médicos da equipe, antes do primeiro dia de 2010. Ele já está fazendo treinos físicos, acompanhando a equipe o tempo todo, e com certeza babando no jogo coletivo que o Houston tem apresentado até agora, em que todo mundo está diposto a dar o passe que for necessário, defender em bloco e fuzilar os adversários da linha de três pontos. Prometo tratar direitinho do Rockets num post só pra eles logo logo, mas por enquanto preciso dizer que o McGrady focado em passar a bola, como vimos na época em que o Yao esteve contundido, tem tudo pra dar certo nessa brincadeira.

Carter e T-Mac são fracassados com chances enormes de retomar suas carreiras. Mas o Iverson, pelo que parece, vai ter que levar um tempo para se acostumar que o time fede, que suas chances são pequenas, e que não dá pra reclamar de minutos logo no primeiro jogo do cara no time. Que tal esperar pela segunda partida, ao menos?

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Quarenta

Apesar da crença popular, Zach Randolph
não engoliu a bola depois da foto



A noite de domingo teve três jogadores alcançando a marca dos 40 pontos - dois deles, inclusive, no mesmo jogo. Esses são os primeiros indícios de uma briga pelo posto de cestinha da temporada entre Kobe Bryant e Carmelo Anthony, especialmente graças às condições de suas equipes.

Kobe marcou 41 pontos contra o Hawks, acertando 15 de seus 29 arremessos, 10 de seus 11 lances livres, e apenas uma bola de três pontos. Mas no primeiro tempo, quem estava chutando traseiros era o Joe Johnson, errando apenas um de seus oito arremessos, marcando 18 pontos e mantendo o jogo disputado. Foi aí que entrou em ação Ron Artest. Embora ele esteja tendo alguns problemas de decisão no novo esquema tático e a pontaria esteja um bocado desregulada (embora nós torcedores do Houston saibamos que sua mira é desregulada por natureza), sua defesa foi o grande diferencial. Tá legal, a gente sabe que o Trevor Ariza é um bom defensor, mas o Artest vai estar em outro nível mesmo com os cabelos brancos e numa cadeira de rodas. Ele é simplesmente mais forte, mais físico, mais chato e mais rápido do que o Ariza pode ser. Não vejo o Artest numa forma física tão boa desde os tempos de Kings, então acho que o sujeito ficou empolgadinho de jogar com seu ídolo Kobe e compareceu de vez em quando a uns treinamentos de férias. Quando ele resolveu defender o Joe Johnson no segundo tempo, que até então havia sido responsabilidade do Kobe, o jogo desandou. O coitado do Joe Johnson não conseguia mais fazer nada, o Kobe ficou livre para ser Kobe, marcou 14 pontos no terceiro período, o time inteiro do Hawks se desesperou, começou a dar uns passes ridículos e aí a partida virou "NBA Live": todo mundo roubando a bola, correndo e terminando com uma enterrada (para quem não sabe, toda jogada no "NBA Live" pode acabar com uma enterrada se você quiser, por favor faça um favor a si mesmo e ao bom gosto e compre imediatamente o "NBA 2K10", combinado?).

Aí está finalmente a diferença que Artest pode trazer ao Lakers. Não é tão inteligente quanto o Ariza, não é tão obediente taticamente, não é tão explosivo atacando a cesta e nem tão concentrado e focado na partida. Mas sua defesa transforma o jogo quando ele não precisa se preocupar em carregar o time nas costas ofensivamente, e o próprio Kobe disse que foi a energia de Artest que transformou o ânimo de todo mundo em quadra no terceiro período. É claro que ele também vai eventualmente discutir com alguém, fazer uma gracinha e tacar sorvete na cabeça de algum torcedor, mas isso são apenas mais coisas que o chato do Ariza não era capaz de trazer ao Lakers. Do jeito que eles são favoritos, com um elenco ainda mais forte e um Andrew Bynum cada vez mais consistente, eles precisam mesmo de um jogador mais fanfarrão pra não virarem uma coisa chata como o Spurs ou uma visita ao pinguinário.

Mas enquanto o Kobe tinha o apoio de Artest para marcar 41 pontos, o Carmelo foi lá e marcou 42, só de pirraça. Sempre bati na tecla de que o Carmelo Anthony é o jogador ofensivamente mais completo da NBA, e dia desses uma velhinha me deu uma bengalada na rua por causa disso. Eu sinto muito, mas nem Kobe, nem Wade, nem o Chuck Norris têm o arsenal ofensivo que o Carmelo tem, tudo por culpa do seu tamanho, habilidade, distância no arremesso e possibilidade de jogar com as costas para a cesta como praticamente ninguém na NBA consegue. Muito mais maduro, longe daquela besteira de querer ser reconhecido pela mídia e ser melhor do que LeBron James, Carmelo está mais focado, lendo melhor as defesas que tacam em cima dele, sabendo quando parar de forçar os arremessos e quando passar a bola. O resultado é bastante engraçado: os colegas de equipe agora confiam em seu julgamento, o Billups não tem medo de deixar a bola em suas mãos, e o que acontece é que Anthony ganha mais oportunidades de finalizar - e converter - do que em qualquer outro momento de sua carreira quando ele apenas se preocupava em arremessar sem parar. Não dá pra enganar ninguém, o Nuggets é o time do Billups, foi ele quem tornou a equipe uma coisa séria, e se ele falar que o Mark Madsen é melhor que o Carmelo, a equipe provavelmente coloca o Carmelo pra vender cachorro-quente na porta do ginásio. Se o Billups disse que a maturidade do Carmelo é evidente e que coloca a bola em suas mãos mais vezes agora, então o time inteiro também o fará e, tendo em vista o arsenal e aproveitamento que vem apresentando, não tenho como imaginar que ele não seja o cestinha da temporada. Em três jogos, a média é de quase 38 pontos por jogo (foram mais de 40 em duas partidas seguidas), e tudo isso sem precisar acertar mais do que uma bola de três por jogo. O Carmelo joga mais perto da cesta, cobra mais lances livres, e o Nuggets é muito mais eficiente. Apesar de não ter se reforçado como as principais equipes do Oeste, o time de Denver tem tudo para melhorar muito a campanha já irrepreensível da temporada passada.

Mas o mais curioso é que os 41 pontos do Carmelo ontem fizeram todo mundo esquecer dos 40 pontos que o OJ Mayo fez no mesmo jogo. Ao contrário da overdose de arremessos com a qual o Mayo nos acostumou, ontem ele atacou a cesta, foi agressivo, abusou das infiltrações - principalmente nos momentos decisivos do jogo - e manteve o time sempre na cola do Nuggets. Ué, mas o Grizzlies não ia ser um dos piores times do Oeste, não ia feder pra burro, não ia ter que jogar com seis bolas em quadra para conseguir deixar Mayo, Rudy Gay, Zach Randolph e Iverson felizes? Pois é, mas estranhamente o time está bastante contido. Rudy Gay está focado na defesa, Iverson ainda está machucado e não estreiou, e Zach Randolph se diz um novo homem. Não porque ele perdeu peso, afinal aquelas bochechinhas gordinhas de Quico a gente reconheceria em qualquer lugar, mas porque Randolph está decidido a não arremessar mais bolas de três nessa temporada, deixando isso para quem realmente sabe o que está fazendo, e com isso forçando menos arremessos, ficando mais perto da cesta e tentando se encaixar numa rotação ofensiva que tem que deixar todo mundo feliz. É o ápice de maturidade de um sujeito que antigamente já veio a público reclamar que sua pontuação no videogame era mais baixa do que a do Nenê e que isso era uma afronta. Em três partidas, Randolph ficar mais perto do aro já deu resultados, com uma média de 5 rebotes ofensivos por jogo. Quer mais? Randolph deu pelo menos duas assistências em todos os jogos, incluindo 7 ontem quando ele resolveu deixar o OJ Mayo brilhar e tentou pouquíssimos arremessos. A média de assistências por jogo já é de 4, o que é um absurdo para o homem conhecido como "Buraco Negro", afinal quando a bola chega nele não volta nunca mais.

Com esse Randolph mais transformado do que bêbado em programa da Igreja Universal, Mayo parando de arremessar só de fora e o time focado em colocar a bola nas mãos de todo mundo, o Grizzlies já surpreendeu vencendo o Raptors, que por sua vez já venceu o Cavs, o que numa lógica fajuta significa que o Zach Randolph é melhor do que o LeBron James. Hoje, Carmelo e Kobe tiram uma folga de sua disputa pelo título de cestinha, mas o Grizzlies volta às quadras e merece que todo mundo dê uma espiada em como os jogadores estão funcionando juntos. Até porque hoje estreia Allen Iverson, que fará parte de uma rotação de três jogadores junto com Mike Conley e OJ Mayo. Um Randolph mudado já é milagre o suficiente, será que veremos um novo Iverson em quadra, obstinado a se encaixar na equipe para salvar sua carreira? Quando Vince Carter topou se encaixar naquele Nets porcaria, ganhou fama o bastante para que o Magic topasse colocá-lo num elenco sem medo de destruir a química do time. Iverson precisa ganhar a mesma fama, e o primeiro passo é hoje. Estaremos de olho, até porque só acredito num Randolph que não é fominha vendo com meus próprios olhos - e o Iverson, quer você ame ou odeie, merece sua audiência. Sempre.