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segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Tudo por um amigo

Bromance

Sempre que tem uma troca aqui a gente gosta de meter o bedelho, dar palpite, analisar as causas e possíveis consequências. E não é que com menos de um mês de temporada já temos uma grande que envolve cinco jogadores? O Toronto Raptors mandou David Andersen, Marcus Banks e Jarrett Jack em troca de Peja Stojakovic e Jerryd Bayless do New Orleans Hornets. Um detalhe curioso (que não muda nada) é que Bayless, por ter sido adquirido há pouquíssimo tempo pelo Hornets, não poderia ser envolvido em nenhuma troca que envolvesse mais de 2 jogadores até o dia 23 de dezembro. Então, oficialmente, foram duas trocas: Bayless por Andersen e outra envolvendo os outros três atletas.

Foi uma troca bem secundária, dos cinco jogadores só um era titular nessa temporada, Jarrett Jack, e mesmo assim ele só joga 26 minutos por jogo. A média dos cinco envolvidos na troca é de 15 minutos por partida. A questão é, portanto, pra que se deram ao trabalho de fazer a troca se não tem ninguém importante nela?

O Raptors está pensando no futuro. O time que eles tem hoje não tem talento para ir longe e a solução para melhorar nos próximos anos está em conseguir jovens talentos no Draft (bem encaminhado com a campanha ruim), desenvolver alguns jogadores bons e jovens (Sonny Weems, Andrea Bargnani e DeMar DeRozan) e, é aí que entra a troca, conseguir alguns jogadores via Free Agency ou trocas.

Nessa troca o Raptors se livra dos contratos já expirantes de Andersen e Banks e o contrato do Jarrett Jack, que ainda durava mais dois anos com 5 milhões por ano por mais duas temporadas além dessa. Em troca eles recebem a pechincha do Bayless e os 14 milhões do Stojakovic que acaba ao fim dessa temporada. Além de economizar o dinheiro do Jack, que vai poder ser usado para renovar com o Weems, eles tem duas peças valiosas para troca. O próprio contrato do Stojakovic e a trade exception que eles receberam quando mandaram o Chris Bosh para o Miami Heat. Uma trade exception é mais ou menos um pedaço do seu salary cap que pode ser trocado. Ele é usado muitas vezes para fazer funcionar trocas entre jogadores de salários diferentes, como mandar um jogador que ganha 5 milhões por outro que ganha 12.

Portanto a gente espera que esse movimento do Raptors seja a primeira parte de um plano maior. Não é garantia que dê certo, como vimos o Bobcats não conseguindo trocar o contrato não garantido do Erick Dampier é capaz que o Raptors morra com a exception e o Peja na mão, mas eles vão estar ativos nas discussões de troca visando os times que estão interessados em contratos expirantes ou em se livrar de jogadores caros.

Se a troca pelo sérvio foi unicamente econômica, a do Bayless tem um fundo basquetebolístico. O jogador mostrou algum talento no Blazers (vocês lembram daquele jogo com quase 30 pontos contra o Spurs que a ESPN transmitiu?) e ainda é bem jovem, é um projeto que vale a aposta, até porque é uma aposta barata. Devem colocar ele de reserva do José Calderon, entrando para botar fogo no jogo e ver o que acontece, vai que ele resolve explodir e jogar o que poderia bem agora! O sucesso dessa troca vai ser medido pelo o que eles fazem com o contrato do Peja e como o Bayless joga. Vai ser uma temporada movimentada nos bastidores do Raptors.

O lado do Hornets é bem menos econômico e mais afetivo. O Jarrett Jack, jogador mais importante da troca, é amigo bem próximo do Chris Paul e eles sabem a importância que uma amizade pode ter em quadra. Existe um documentário chamado "The Youngest Guns" que acompanha os primeiros anos de carreira de dois jovens jogadores, Darius Miles e Quentin Richardson, na época jogando juntos no Los Angeles Clippers. É um filme ótimo para ver o lado psicológico do jogo: os dois são amigos bem próximos, fazem tudo juntos, descobrem o mundo da NBA, como é ter dinheiro, e não se desgrudam nunca. Até que Miles é trocado para o Cavs e sua carreira vai para o ralo, ele se sente sozinho em Cleveland, sente saudade do amigo, não tem com quem compartilhar as alegrias e as dificuldades e deixa de jogar o bom basquete que o havia transformado em grande promessa do começo da década.

Outro exemplo famoso é o de Steve Francis e Cuttino Mobley. Quando jogava ao lado de Mobley, seu melhor amigo, ele era o Stevie Franchise, um All-Star que era um dos melhores armadores da NBA. Quando foi trocado para o Orlando Magic ao lado do seu amigo ainda jogava muito bem, mas aí quando foi para o NY Knicks sozinho deixou de jogar basquete. Muitos analistas e até o próprio Francis colocam a falta do parceiro para justificar a queda de qualidade. Francis nunca foi dos jogadores com mais cabeça no lugar dentro do mundo da NBA.

São dois casos extremos, eu sei, mas que mais uma vez mostram que ao montar um time existem muitos outros fatores além de só amontoar talento. Eles viajam juntos, treinam juntos, conversam, quanto mais entrosamento tiverem fora de quadra mais fácil fica para jogar, para se apoiar nas derrotas e coisas assim. Se você não gosta do seu companheiro de time é bem fácil jogar a culpa nele depois de uma sequência de derrotas durante a temporada, por exemplo. Com o Chris Paul enchendo o saco para ser trocado antes da temporada começar, o Hornets tem feito de tudo para manter a sua estrela calma, conseguiram primeiro Trevor Ariza, depois o surpreendente Marco Belinelli e agora um grande amigo de Paul. É tudo para manter ele lá jogando bem e feliz.

O problema da troca está quando pensamos nos resultados práticos em quadra. O Jarrett Jack é um armador que pode jogar também na posição dois. Ou seja, ele só vai entrar em quadra quando o Paul descansar ou quando o técnico Monty Williams achar que ele rende mais do que Willie Green, Marco Belinelli e Marcus Thornton como armador de apoio. Isso vai dar o quê, uns 15 minutos por jogo? 20 no máximo. Valeu abandonar o Jerryd Bayless (que veio em troca de uma escolha de 1º round há poquíssimo tempo), e mais o valioso contrato expirante do Peja, só por um amigo e um armador reserva? E o contrato do Jack é longo, quem quer pagar 5 milhões por ano, durante três anos, para um cara que joga tão pouco? O cara é bom, mas ganha demais para ter um papel tão pequeno. Não foi o negócio dos sonhos.

Os outros dois que vieram no pacote não me incomodam. O Marcus Banks vai ficar batendo palmas no banco até seu contrato acabar no fim da temporada e o David Andersen deve até ser bastante usado. Ele é inteligente dentro da quadra e podemos dizer grosseiramente que ele é uma versão piorada do David West. Não tem a mesma capacidade de criar seu arremesso, mas pode passar o dia brincando de pick-and-pop com o Chris Paul e terá números expressivos quando seu arremesso estiver calibrado. Essa foi uma boa adição para ter mais opções no banco. O Andersen tem um Team Option na próxima temporada, isso quer dizer que o Hornets decide se mantém ele para a temporada que vem ou o libera, esse sim foi um bom negócio.

Mais trocas devem acontecer nessa temporada, menos vezes por amiguinhos e mais pelos contratos expirantes. Dêem uma olhada nos valiosos contratos expirantes dessa temporada e como vários envolvem times que estão atrás de mudanças. Michael Redd, Troy Murphy, Kenyon Martin... até fevereiro muita coisa rola.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Quem não tem cão

Sozinho e abandonado no garrafão, talvez
Mensah-Bonsu até pegue um rebote



Não faz muito tempo, escrevi um post mais sério sobre a contusão de Yao Ming, que pode deixá-lo fora das quadras definitivamente. Desde então, o chinês passou pela faca numa cirurgia que foi considerada um sucesso. Foi o mesmo procedimento pelo qual o Ilgauskas passou anos atrás, então podemos concluir que Yao Ming deve ser capaz de jogar por mais alguns anos, mas com a velocidade de alguém que se movimenta debaixo d'água. No entanto, a situação de Yao não se modifica: sua missão cultural está encerrada e seu valor para a China e para o Houston Rockets começa a esvair-se. O pivô retornará às quadras com minutos limitados, importância diminuída, e é apenas questão de tempo para que o Houston tenha que começar do zero, montando um novo garrafão para compor um novo elenco. Será, então, um processo de transição em que Yao Ming vai segurando as pontas enquanto arruma-se alguém para ficar com o garrafão da equipe pelos anos seguintes.

Acontece que, para a temporada que vem, não tem transição, não tem ninguém pra ir segurando as pontas e empurrando com a barriga. O Houston precisa de pivôs imediatamente para tapar o buraco vazio e talvez ter esperança (ou fingir ter esperança, ao menos) de que um deles seja o pivô do futuro para a equipe. E tudo isso sem nenhum jogador relevante para ser trocado e nenhum espaço no orçamento para contratar um jogador de uma posição que já é mais escassa na NBA do que risadas no Zorra Total.

Levando isso em conta, devo admitir que o Houston Rockets fez um excelente trabalho. Conseguiu, sem nenhum esforço e a preço de banana, dois pivôs para tapar buraco. Os dois meio zé-ninguém, mequetrefes, mas cheios de potencial e pelo menos capazes de não passar (muita) vergonha. Pra quem achava que o pivô teria que ser o Olajuwon numa cadeira de rodas, estou quase soltando fogos.

A primeira aquisição foi o David Andersen. Ele é um pivô australiano de 2,13m que já jogou no CSKA na Rússia, foi campeão italiano trocentas vezes e acabou de ser campeão espanhol com o Barcelona. É um daqueles caras que nunca vão pra NBA, preferem ficar passeando pelo mundo, jogando pouquíssimos minutos e nunca dá pra saber se são capazes de fazer aquilo que seu potencial parece indicar. Nem na seleção australiana ele teve muitas oportunidades, o que é sempre um péssimo sinal. A NBA costuma ter um pé atrás com jogadores assim, deixando para escolher o Scola e o Ginóbili bem tarde no draft, no receio de que eles não funcionem num basquete mais físico ou, pior, nunca resolvam ir jogar nos Estados Unidos (basta pensar no Splitter, por exemplo, que parece que vai passar as próximas décadas na Europa e o Spurs daqui a pouco até esquece que ele existe). Scola e Ginóbili, no entanto, eram estrelas consagradas no basquete europeu, enquanto o David Andersen ainda é só uma aposta. Foi escolhido no draft pelo Hawks, na segunda rodada, em 2002. Sem contrato garantido, sem segurança, ganhando tufos de dinheiro na Europa, ele nunca viria brincar em Atlanta. Mas o Rockets mandou uma futura escolha de segunda rodada, uma grana, recebeu os direitos ao David Andersen e então foi negociar. Ajudou a pagar a recisão de contrato, garantiu o australiano na equipe por pelo menos dois anos (o terceiro é opcional) e colocou mais de 2 milhões nos bolsos dele por temporada. Pronto, agora o rapaz vai ser bonzinho e vir jogar na NBA.

Se a experiência der certo, Andersen foi uma grande sacada. Pelo seu tamanho, ainda permite que a defesa do Rockets afunile os jogadores adversários em sua direção. No ataque, Andersen gosta de jogar longe da cesta, arremessando de longe (e acertando cerca de 40% dos seus arremessos de três pontos!) e, portanto, não é tão diferente taticamente do que o Yao Ming gosta de fazer. Se ele for uma porcaria, também não ganha tanto dinheiro assim e depois de duas temporadas volta pra Europa continuar com a vida. Posso viver com isso.

A outra aquisição da equipe foi o Pops Mensah-Bonsu. E se você acha que esse é o nome de maior força nominal da última década, é porque não viu seu nome inteiro: Nana Papa Yaw Dwene Mensah-Bonsu. Minha nossa, é o nome mais bacanudo desde Dikembe Mutombo Mpolondo Mukamba Jean-Jacques Wamutombo! Só isso já justificaria sua contratação sem dúvida alguma, vou comprar uma camiseta agora mesmo - especialmente se eles conseguirem enfiar o nome inteiro nela, mesmo que tenha que ser frente e verso.

O Pops (eu prefiro chamar de "Nana Papa", que parece nome de banda ruim) teve uma carreira interessante no basquete universitário, atlético pra burro, cravando na cabeça de todo mundo e fazendo a festa no mundo do YouTube. Acontece que ele se machucou feio e passou um tempão fora das quadras, voltou meia-boca e acabou sequer sendo draftado na NBA (o que é meio bizarro, porque nas últimas escolhas da segunda rodada a força nominal conta muito!). Acabou tendo que se virar na Liga de Desenvolvimento da NBA, onde chutou traseiros, e também na Europa. Ganhou oportunidades com o Mavs e o Spurs, mas sempre jogando mais na D-League do que qualquer outra coisa, onde ele é atlético demais para o resto da criançada. Mas foi o Raptors quem decidiu dar para o Nana Papa uma chance de verdade, com minutos em quadra e um papel na equipe: vir do banco de reservas e trazer energia, enterradas e - por que não? - cabeçadas. Rapidinho virou um dos favoritos da torcida e o Houston percebeu que, em terra de cego, quem tem um olho é caolho. Ou seja, para um time sem pivôs, um cara que vem do banco para incendiar o jogo e dar um par de cravadas já é um baita avanço.

No fundo, o Pops é a reencarnação do Stromile Swift, embora o Swift ainda não tenha morrido (taí um caso para intrigar a mente dos budistas!). Cheio de potencial, vive em Top 10 de melhores enterradas, abarrotado de energia, mas deve morrer aos 80 anos sem ter feito muita coisa, sem evoluir seu jogo e ainda ouvindo papos, no leito de morte, de que tem muito potencial e deveria receber uma chance de algum time da NBA. O engraçado é que o Rockets já foi um dos 482 times do globo a apostarem no Swift e desistirem bem rápido. Se o Pops for minimamente superior, se ele for capaz de trazer qualquer outra faceta ao seu jogo (defesa, visão de jogo, cozinhar mariscos, costurar meias furadas), então a aposta terá dado resultado.

Com tantos times incapazes de acrescentar qualquer jogador (Heat, estou olhando pra você), é surpreendente que o Houston tenha arrumado duas apostas sei lá de onde. Pra mim está ótimo, o time vai feder uns tempos mas pelo menos tenho um par de jogadores para acompanhar de perto (e xingar pra burro, se for o caso) durante minha maratona assistindo aos jogos do Rockets na temporada (o League Pass vem aí, moçada!). Vou deixar todos vocês bem informados com o desempenho da dupla, e podem apostar em pelo menos alguns vídeos de enterradas do Pops aqui e no nosso Tumblr. Aliás, por falar em vídeos do sujeito, a Dime postou há um tempo atrás algo que me deixou um tanto sorridente (a não ser pela música, mas deixa pra lá):



Dá pra se entreter e salivar um pouco antes da Copa América, não dá?