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sábado, 8 de janeiro de 2011

Spurs enganado

O arremesso é feio, mas os cabelos...


Em 2009 a grande brincadeira era que o San Antonio Spurs voltaria para ser campeão de novo. Afinal eles foram o time mais estável dos últimos 10 anos mas nunca conseguiram vencer dois títulos em sequência, insistiam em vencer só em benditos anos ímpares: 1999, 2003, 2005 e 2007. Mas a volta por cima não foi o que aconteceu, o Spurs tomou de 4 a 1 do quase sempre freguês Dallas Mavericks e começamos a achar que a era de ouro de Tim Duncan e Gregg Popovich começava a virar passado.

Sentindo a mesma coisa, Popovich e o General Manager RC Buford mudaram uma de suas regras básicas nesses anos de sucesso e decidiram abusar no dinheiro e trocar por Richard Jefferson. Ultrapassariam o limite do salary cap, pagariam multas e tudo isso que eles sempre abominaram, mas parecia o jogador que faltava para dar um empurrão no envelhecido time. Não foi o que aconteceu, Jefferson teve uma temporada bem abaixo da média no ano passado e a única ajuda além do trio Duncan, Ginobili e Parker veio de contribuições esporádicas dos jovens George Hill e DeJuan Blair. Pouco para compensar as várias contusões e maus momentos de vários jogadores do elenco.

Para essa temporada a grande esperança estava na adição do brazuca Tiago Splitter, que se consagrou na última temporada espanhola e teria tudo para ser um novato diferente, já mais velho e experiente que o resto da pivetada que acabou de sair do Draft. Mas Splitter perdeu boa parte da pré-temporada machucado, pegou o bonde andando e ainda está com dificuldades, ganhando poucas oportunidades para jogar. Ele faz bons jogos volta e meia, em outros não faz nada de errado sem se destacar e em outros fica apagado por não entrar ou só fazer faltas. Se a grande mudança no elenco não está nem jogando às vezes, como o Spurs tem a melhor campanha da liga depois de um terço da temporada?

Essa é uma pergunta que eu demorei muito para poder esboçar uma resposta. Assisti a mais jogos do Spurs nesse ano do que nas últimas duas temporadas juntas e percebi uma coisa logo de cara, estava mais divertido do que costumava ser. Placares altos, infiltrações de Parker e Ginobili, rebotes ofensivos do Blair e um show de três pontos do trio Gary Neal, Richard Jefferson e Matt Bonner. Sim, o Spurs era uma potência ofensiva até nos dias em que o Tim Duncan mal tocava na bola. O Spurs, conhecido por jogar sempre do mesmo jeito até quando mudava de jogadores, revolucionou a sua maneira de jogar. Comecei a explicar isso em outro post semanas atrás:

"Dos últimos muitos anos. Explico, o Spurs é o terceiro melhor ataque da temporada até agora e a oitava melhor defesa. É a primeira vez desde que Tim Duncan chegou ao time, em 1997, que o Spurs é melhor ranqueado no ataque do que na defesa. Pra quem acompanha a NBA há pouco tempo pode parecer normal, mas quem viu o Spurs desses últimos quase 15 anos acha isso uma aberração. O Spurs atacando mais do que defendendo é insano como ver o Barcelona retranqueiro, no mínimo. E tem o ritmo de jogo, eles são hoje o 10º time mais veloz da NBA, nas outras temporadas da "Era Duncan"o Spurs ficou duas vezes com o 19º ataque mais veloz e depois disso sempre depois da casa dos 20, algumas vezes beirando as últimas posições."

Desde que escrevi isso poucas coisas mudaram. Hoje o Spurs é o ataque mais eficiente da NBA (112 pontos a cada 100 posses de bola), marcando 105.3 pontos por jogo (4º melhor) e é o 11º time mais veloz, com 93 posses de bola por jogo. Outros números mostram a mudança: hoje o Spurs é o quarto time que mais faz pontos em contra-ataque, 16.2 por jogo, 4 a mais que no ano passado e à frente de time conhecidos por seus contra-ataques como OKC Thunder e Phoenix Suns. No ano passado o Spurs era o 8º pior no mesmo quesito.

Nesse texto eu já disse muitas das razões do Richard Jefferson ter subido de produção da temporada passada para essa, mas é também bem claro que ele se beneficiou dessa maior velocidade do time. Desde os tempos do Nets que ele gosta e sabe sair no contra-ataque e finalizar perto da cesta. Essa maior liberdade ofensiva do time favoreceu também o Manu Ginobili, que é o cara mais criativo do mundo desde Leonardo Da Vinci e ainda passa a bola melhor que o faz-tudo italiano. Além do Tony Parker, que finalmente pode gastar à vontade e sem restrições toda a velocidade que tem. Desses, o Ginobili merece o maior destaque, ele está jogando mais tempo com os titulares do que o normal e ganhou mais responsabilidades de armação  do que no passado recente, resultado não só da mudança de estilo do time como também da recuperação física do argentino, que parecia meio baleado nas duas últimas temporadas. E sejamos honestos, é assim há um bom tempo: se Ginóbili joga bem, o Spurs joga bem. Nessa temporada até em alguns jogos em que o time não esteve no seus melhores dias ele estava lá pra fazer tudo certo no final. Foi assim contra o Pacers nessa semana e contra o Bucks no começo da temporada, e tantas vezes entre esses dois jogos.

Uma das qualidades do Ginobili está em saber quando tomar conta do jogo e quando envolver todo mundo. E geralmente ele não precisa ser o herói, porque caras imprevisíveis como o novato Gary Neal e Matt Bonner estão jogando melhor do que qualquer cara mais otimista no melhor do seus dias e depois de uma boa noite de sexo poderia prever, é por causa deles que hoje o Spurs é o 2º melhor da NBA em aproveitamento de 3 pontos, 39% por jogo, atrás apenas do Warriors. É compartilhando a bola que o Spurs consegue ser um dos melhores ataques mesmo com Duncan em seu pior ano ofensivo na carreira e nenhuma aberração tipo Kevin Durant no elenco, hoje o time do Popovich é o 5º com mais assistências na liga. Para finalizar as qualidades, impressiona como eles conseguem correr bastante e ser o 8º time que menos comete turnovers.

Eu estou impressionado com a capacidade do time de se reinventar de uma hora para a outra e mais ainda em ver como isso deu resultados tão positivos rapidamente. Muitas vezes times tentam mudar de atitude de uma hora para a outra mas não sabem como, mas como esse texto do blog Spurístico "48 minutes of Hell" confirma, o Spurs sabe contratar. E contrataram bem para cobrir os defeitos ofensivos do time desde a temporada passada e estão colhendo os frutos. Mas apesar de tudo isso, esse post não é uma babação de ovo no melhor time da temporada.

Numa ironia das mais profundas dos últimos milênios, o Spurs pode estar caindo no conto do vigário que ele mesmo ajudou a expor tantas e tantas vezes nos últimos 10 anos. Lembram do espetacular Dallas Mavericks de Steve Nash, Dirk Nowitzki, Michael Finley e Don Nelson? Ou do encantador Phoenix Suns do mesmo Nash e Amar'e Stoudemire? Foram duas das equipes que mais encantaram e divertiram a liga americana em uma época dominada por Spurs e Lakers. Eles faziam tudo isso que o Spurs faz nessa temporada, eram rápidos, criativos, com jogadores talentosos, coadjuvantes que metem bolas de longe com altíssimo aproveitamento e estavam sempre entre os melhores ataques da NBA. Porém, quando chegavam os playoffs esses times tomavam na cabeça. Na hora de passar pela defesa forte e ataque disciplinado do Spurs eles eram desmascarados e caíam quando estavam chegando perto do título.

Foi esse estilo de jogo defensivo e equilibrado (que outros times praticam mas que sempre foi a marca do Spurs) que fez o Mavs largar mão da super velocidade e o Suns ir até atrás do Shaq pra mudar de estilo de jogo (sem sucesso, como lembramos). De repente, em uma das muitas voltas que o mundo dá, o Spurs é o time que ataca, ataca, encanta e defende mal. Tá bom que não é tãaao mal assim, ainda estão com a 11ª melhor marca da NBA, mas volta e meia eles enfrentam times que mostram todos os vários defeitos do sistema defensivo da equipe. Atualmente eles são apenas o 18º no ranking de times que menos cedem pontos no garrafão, o 9º time que mais sofre arremessos de quadra por partida e no aproveitamento de 3 dos adversários é o 3º pior time, só (argh!) Cavs e Clippers são piores. E as bolas de três são porque protegem o garrafão? Necas, são só o 18º também em proteger a área pintada.

Como nem tudo pode mudar tão drásticamente, a Terra ainda é redonda, comer carne humana não é bem aceito socialmente e o Popovich está insatisfeito. Olha o que ele disse sobre essa questão ataque/defesa do Spurs: "Isso não é a gente, nós não jogamos assim. Eu não tenho idéia de como estamos marcando tantos pontos. Eu não estou comprando essa idéia". Quer dizer que o Spurs revolucionou o seu estilo de jogo e nem era isso que eles queriam? Não faz sentido. Mas pelo menos é uma pequena mostra de que não estão satisfeitos com sua defesa.

Se você pegar os jogos que eles fizeram contra o Mavs (aquele sem o Nowitzki) e o contra o Lakers, verá que esse time é capaz de executar uma defesa bem forte, mas até agora esses jogos foram exceção, não regra. Contra o time de LA a dupla Manu Ginobili e George Hill deu uma aula de como defender Kobe Bryant e a pressão nos passadores no perímetro fez com que eles pouco utilizassem Pau Gasol. Mas em compensação, o que foi aquela derrota para a o Knicks essa semana ? Foi a primeira vez em toda a carreira do Duncan no Spurs que eles tomaram 128 pontos em um jogo sem prorrogação. Aliás, a última vez que o Spurs tinha tomado mais que 128 pontos em um tempo normal havia sido em 1993, quando os hoje técnicos Vinny Del Negro e Avery Johnson ainda jogavam na equipe.

E no dia seguinte outra derrota, dessa vez para o Boston Celtics. Perder para o Celtics em Boston não é nenhum desastre, mas foi mais um exemplo de como o Spurs é um Phoenix Suns de 2011. O jogo foi pau a pau, talvez o melhor da temporada até agora, mas tomaram 105 pontos, deixaram o Boston chutar acima dos 60% nos arremessos de quadra e tomaram 34 pontos no garrafão, incluindo algumas bandejas bem fáceis nos minutos finais de jogo.

O Spurs é mesmo o melhor time desse começo de temporada, talvez por pouco sobre Boston Celtics e Dallas Mavericks e levando em conta que o Miami Heat demorou pra engrenar. Mas reconhecer isso não é dizer que eles tem um futuro fácil pela frente, eles precisam se manter saudáveis (o que foi impossível para eles nos últimos anos) e arrumar um jeito de acertar essa defesa se querem ser realmente levados a sério na disputa pelo título. O Popovich já disse que quer isso e o Duncan afirmou que "nós queremos ser é um clube defensivo", então a vontade está aí, é transformar em realidade para não ser mais um dos times velozes, ofensivos e perdedores que o próprio Spurs ajudou a destruir na última década.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A decisão de Richard Jefferson

Spurs e Knicks jogam durante um terremoto


Logo depois da humilhante eliminação do San Antonio Spurs para o Phoenix Suns nos playoffs do ano passado, uma varrida de 4 a 0 que ninguém poderia prever, o técnico Gregg Popovich chegou para o Richard Jefferson e disse "Entre em forma, treine ou vamos trocá-lo na primeira oportunidade". E completou, "Você tem a chance de voltar para a escola e treinar ou só fazer dinheiro nos últimos anos da sua carreira". 

O Richard Jefferson teve uma carreira ótima no New Jersey Nets e um ano discreto, mas bom, no Bucks antes de ir para o Spurs. Era considerado na época por nós e quase todo mundo como a peça que o Spurs precisava para voltar a lutar pelo título. Não era o defensor fora de série para substituir Bruce Bowen, mas tiraria o peso ofensivo do trio Parker, Duncan e Ginobili, especialmente dos últimos dois, que já estão chegando na menopausa, e não faria feio na defesa. No Nets nunca foi de anular uns Kobes da vida, mas não comprometia um time que precisava da defesa para puxar os contra-ataques, marca registrada daquela equipe liderada pelo Jason Kidd.

Mas sabe quando você vê o Big Mac lindo e grande na TV e aí recebe aquele lanche amassado, fino e com alface velha caindo pelos lados? Isso foi o Richard Jefferson no Spurs. Seus arremessos de longe não caíam, ele pouco infiltrava e na defesa parecia bem mais lento do que o normal, denunciando os 30 anos de idade que batem na sua porta. E o mais triste da história inteira foi que o Richard Jefferson ainda tinha mais um ano de contrato em que ganharia mais de 16 milhões de dólares. Não só ele não havia salvado o Spurs como agora impedia que eles tentassem de novo com outro jogador. Lembremos que o Spurs sempre foi um time muito cauteloso com dinheiro e pela primeira vez em anos toparam ultrapassar o luxury tax (entenda mais sobre o o salary cap da NBA nesse post) e pagar multas só pela chance de ter o Richard Jefferson e voltar a lutar por um título.

E voltando à conversa entre técnico e jogador, Richard Jefferson respondeu ao seu técnico: "Eu não quero só fazer dinheiro, quero jogar o melhor que eu puder".  Foi o "The Decision" que não passou na ESPN.

Fizeram treinos físicos que o Richard Jefferson afirmou "que não eram divertidos", pelo menos duas horas de trabalhos todos os dias com toda a equipe de preparadores físicos e técnicos que o Spurs tinha espalhado pelo país. Ele viajou para onde estava cada um deles para aprender tudo de novo. Praticou bastante o seu arremesso, em especial o do canto da quadra, na zona morta, aquele que consagrou o Bruce Bowen e matou Mavs, Suns e cia. tantas vezes nos últimos anos. Também estudou mais os sistemas ofensivos e defensivos do Spurs. Fez treinos específicos sobre as movimentações de quadra pedidas pelo técnico durante a temporada.  Popovich, aliás, participou de algumas etapas dessa volta à escola do RJ.

Jefferson disse que tinha muitas dificuldades na última temporada e que todo mundo respondia dizendo que no primeiro ano é sempre mais difícil pra sacar como funciona o time, mas que no segundo ano, com a experiência do ano anterior, é mais fácil jogar no Spurs. Um dos motivos é que Gregg Popovich não é um técnico que só aparece na hora do jogo e manda fazer uma jogada, que só delega poderes e faz discursos no vestiário, é um dos raros casos na NBA em que um treinador se preocupa em desenvolver o jogador. As escolhas de segundo round de Draft que viram ótimos jogadores são um mérito duplo, primeiro dos scouts, os olheiros bem treinados e pagos que sabem ver um bom talento, e depois dos técnicos, que sabem aperfeiçoar o jogador ao invés de só esperar pelo melhor.

Junto com os treinos houve a preocupação econômica. O jogador tinha um ano de contrato sobrando no valor de 16 milhões e a opção de sair e virar um Free Agent. Richard Jefferson se sentia mais confortável com um contrato mais longo para não correr o risco de estar sem nada no ano que vem quando os salários podem cair drasticamente, mas também não queria simplesmente optar por não ganhar tanto dinheiro e acabar com um contrato mais longo e também mais vagabundo. Chegaram então a um acordo, o Jefferson optou por desistir dos 16 milhões e já que estava treinando conforme o prometido para Popovich, ganhou um contrato novo de 38 milhões por 4 temporadas. Sem dúvida o voto de confiança mais caro e arriscado que eu já vi o Spurs fazer na vida. Se tínhamos dúvidas sobre o porque do Spurs pagar uma nota preta pelo Jefferson ao invés de investir menos em caras como Matt Barnes, a resposta é confiança.

Só foram cinco jogos pelo Spurs nessa temporada, mas tudo parece ter ido pelo melhor caminho possível. Nesses cinco jogos o Richard Jefferson tem média de 20 pontos por jogo, segundo cestinha do time, meio ponto atrás de Manu Ginóbili, e aproveitamento de arremessos espantoso, de 64%! É o terceiro melhor aproveitamento da liga e o único dos 15 primeiros da lista a não ser um jogador de garrafão. Em bolas de três é atualmente o quinto melhor da liga com insanos 60% de aproveitamento. Em lances livres está cobrando 5,8 lances livres por jogo, mais do que os 3,5 que tinha de média no ano passado. Não só acerta mais de longe como é um jogador mais agressivo ao atacar a cesta. Segundo Manu Ginóbili, RJ também tem jogado com mais confiança sabendo exatamente o que deve fazer em quadra.

O melhor jogo do Jefferson até agora foi contra o Suns, o time que os eliminou no ano passado. Para compensar os 9 pontos de média que teve na série contra eles nos playoffs de 2010, meteu 18 só no quarto período, incluindo quatro bolas de três da zona morta, onde enjoou de treinar na offseason.



Defensivamente o Spurs ainda não alcançou o nível do ano passado, que já não era o ideal, e Richard Jefferson entra no meio do bolo, mas o momento é de otimismo. A aposta do Spurs em renovar com Richard Jefferson e Manu Ginobili rendeu até agora 4 vitórias, só uma derrota, para o impressionante Hornets, e é o sexto melhor ataque da NBA.

Após o jogo contra o Suns todos os repórteres estavam atrás de Richard Jefferson e ele atrás de Manu Ginobili. Quando perguntaram o motivo ele explicou que no ano passado era só fazer um jogo um pouco melhor que todos os jornalistas iam lá perguntar se agora ele iria embalar e o Manu começou a fazer piada com isso, ele estava então esperando o argentino chegar para ele ouvir tudo de novo. Se tudo continuar assim a piada vai se repetir tanto que daqui a pouco o narigudo não vai rir mais, vai virar rotina.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Vitória sem vingança

Nash imita o Cristo Redentor


Para quem não é fã do Spurs, os últimos 10 anos não foram tempos muito divertidos. Desde 2003, parece que o Spurs não fez outra coisa além de chutar o traseiro do Phoenix Suns. Quanto mais a NBA ficava defensiva, quanto mais os times se transformavam em enormes retrancas, quanto mais os times pareciam todos iguais tentando arranjar peças similares umas às outras, mais o Suns se levantava como uma alternativa viável, um basquete diferente, uma mentalidade quase insana, mas que também era capaz de dar resultado. Com apenas um único problema: não era capaz de dar resultado coisa nenhuma. Porque o Spurs não deixava.

Como acontece com todo projeto político, para provar que seu plano dava resultado, o Suns teve que - funhé! - abandonar seu plano. Primeiro foi a contratação de Shaquille O'Neal, dando ao Suns um jogo de meia quadra e um cara para trombar com Tim Duncan, depois foi a mudança de técnico para tentar se focar na defesa. Não deu certo.

Os erros foram se acumulando, o tempo foi passando, e a gente desistiu de um monte de coisas: a Alinne Moraes não vai ficar pelada, eu não vou ganhar na loteria, e o Suns não vai ganhar do Spurs. Como surpresas, no máximo esperamos um pneu furado pela manhã que nos poupe de chegar no trabalho, ou um incêndio que acabe com o escritório, talvez um Jogo 7 nos playoffs entre o Spurs e o Suns e olhe lá. Mas não conseguimos acreditar na vitória mesmo quando ela era mais provável.

Levou anos para o Spurs finalmente não ter as peças necessárias para colocar em vigor o esquema tático absurdamente rígido do técnico Gregg Popovich. Faltava um defensor no perímetro, um arremessador de três da zona morta, arremessadores experientes que gostem de arremessar com os pés parados, um biruta de posto no garrafão pra fazer faltas duras no lugar do Duncan. Levou anos para o Spurs sem as engrenagens certas ainda contar com lesões de Ginóbili e Tony Parker, tirando da equipe qualquer esperança de ritmo de jogo, algo tão essencial para um time regular como esse. Durante as últimas semanas recuperaram todos os jogadores de contusão, conquistaram algum ritmo, conseguiram descobrir em George Hill alguém para defender e arremessar da zona morta. Mas ainda ficaram claros os buracos no elenco que Popovich não podia tapar sem jogar seu plano de jogo pela privada.

Levou anos para o Spurs ser um time de defesa mais capenga e que, portanto, depende mais do ataque e joga melhor em velocidade. Levou anos para o Suns ser um time com melhores reboteiros, que joga melhor num ataque de meia quadra, defende melhor e corre menos. Com o Spurs correndo mais, querendo usar um time mais rápido e mais baixo (Parker, Ginóbili e George Hill) e o Suns correndo menos, tendo mais opções no jogo individual (Jason Richardson, Grant Hill), não dava nem pra saber qual dos dois times jogava mais na correria do que o outro. E mesmo assim a gente achava que o Suns iria ganhar sem sequer confiar nas nossas próprias palavras. No fundo aquela certeza de que o Spurs ia dar um jeito, como sempre deu. O Ginóbili iria arrumar um modo de ganhar os jogos no final se tacando no chão argentinamente.

Os quatro jogos da série viram Grant Hill sair contundido para voltar minutos depois como se nada tivesse acontecido, e Steve Nash sair sangrando de quadra para voltar minutos depois - com 6 pontos tomados na cabeça e um olho a menos na cara - como se nada tivesse acontecido. Ué, os dois não deveriam ter morrido misteriosamente enquanto alguém aleatório do Spurs (eu chutava o Matt Bonner) marcaria 50 pontos inesperados? O Nash não deveria morrer em quadra vítima do ataque de um navio bucaneiro por estar jogando caolho, fantasiado de pirata?

Tudo deu certo para o Suns e bizarramente errado para o Spurs. Foi um encontro muito diferente daquele que ficamos acostumados, com um Spurs diferente e baleado que se encaixou muito pior em um Suns diferente e reforçado em aspectos mais diversos do que só o campo ofensivo. É até difícil acreditar que, mais do que vencer o Spurs, o Suns varreu a equipe de San Antonio com um estrondoso 4 a 0 na série. Fico feliz de não ter sido com Shaquille O'Neal, às custas do projeto de um Suns ofensivo, se vendendo apenas para se livrar do rival. Mas não há como não ficar com um pingo de tristeza ao ver as consessões que o Suns fez para sair vitorioso dessa série, jogando com um pivô, segurando a bola, pegando rebotes ofensivos. Há muito do Suns de resistência, do Suns rebelde e subversivo que aprendemos a amar, como um Nash vovô jogando muito, Amar'e pontuando mas incapaz de defender, um pivô chamado Channing Frye que só arremessa de três pontos, um banco de reservas que corre como louco (até mais do que o time titular). Mas essa vitória não muda nem compensa as derrotas anteriores - agora é tarde.

Assisti emocionado ao Duncan se aproximar de Nash, após o fim da partida, e pedir desculpas pelo talho que abriu na cabeça do canadense. Duncan estava sorridente, sinal claro do apocalipse. Depois, Duncan foi dar tapinhas no ombro do Amar'e e dizer que agora é a hora do garoto. Parker abraçou o Nash com nobre admiração, depois de ter dito um dia antes que é um grande fã do armador canadense e que aprendeu muito assistindo a ele jogar durante os últimos anos. Até o Ginóbili conseguiu abraçar Grant Hill sem se jogar no chão e pedir uma falta. Esse time do Spurs é grandioso, saiu de quadra com um sorriso no rosto, consciente de que perde apenas porque a máquina não tem mais as mesmas peças. Simplesmente chegou a hora do Suns de ir em frente. É claro que a equipe de Phoenix respira aliviada e se sente parcialmente vingada, mas pegou um adversário combalido e o enfrentou depois de anos adulterando seu elenco. Legal, estou feliz pra burro e torço para o Suns coroar essa vitória com um anel de campeão depois. Mas ficamos longe de ter aquela vingança, aquela vontade de sangue que as séries passadas tiveram. Não apenas estamos fadados a nunca ver um Jogo 7 entre Suns e Spurs, como também só vimos o Suns vencer frente a esse Spurs sem muitas chances, quase desistente, dócil, cheio de abracinhos no final. Bowen e Horry não abraçariam ninguém, a não ser para bater carteiras - mas felizmente o basquete os engoliu faz um tempo.

O San Antonio Spurs é como chocolate amargo, parece horrível perto do docinho gostoso que estamos acostumados desde bebês tomando Ovomaltine. Mas aos poucos vamos acostumando e tomando gosto pela coisa. Com os anos aprendi a apreciar mais e mais o basquete do Spurs, admirar Tim Duncan e bater palmas para o jogo subversivo de Tony Parker e Ginóbili que, muito aos poucos, foram dobrando o esquema tático de Popovich. Mas esse não é o mesmo Spurs que chegou numa semi-final de conferência passando bolas decisivas para o Richard Jefferson errar seus arremessos livres. Dá pra imaginar o Suns não tendo que marcar um dos arremessadores do Spurs? Culpa do Spurs que apostou as fichas no cara errado, mérito do Suns que fez as trocas certas e soube reforçar fraquezas do time sem colecionar grandes defensores.

Nem acredito que vi o Suns passar do Spurs, resolvi até postar rápido antes que a NBA resolva cancelar o resultado por doping ou alguma loucura do tipo, haverá tempo de se falar melhor dessa partida mais pra frente, enquanto esperamos o vencedor de Lakers e Jazz. Mas uma parte de mim percebe claramente que não há uma vingança acontecendo aqui: um Suns diferente venceu um Spurs mais diferente ainda. Em quatro partidas fáceis, quase sem graça. Todo aquele desgosto de ver o Suns experimento de cientista maluco ser eliminado por um Spurs brutal e violento continuará para sempre entalado na garganta. O Nash sangrou por uma cotovelada sem querer de um Duncan que até pediu desculpas constrangido, é uma outra realidade. A vitória dessa noite vem com alegria para o Suns e com aceitação para o Spurs, que sabe de sua necessidade de, agora, reconstruir. Mas não há espaço para alivio na equipe de Phoenix. Os tempos são outros e o Spurs era uma equipe babinha: pela frente, deve vir Lakers. Não vai adiantar nada se livrar de uma zica que durou uma década para ser eliminado de novo. Se não for campeão, esse Suns vai desmontar e se vender de novo, cada vez mais longe do projeto inicial. Quem será que contratarão, na temporada que vem, pensando apenas em parar Kobe e Gasol?

sábado, 8 de novembro de 2008

O Spurs fede (e outros assuntos menores)

A foto é bonita mas ele errou o arremesso


Aconteceu tanta coisa ontem que é até difícil saber por onde começar, então começo dizendo que aconteceu tanta coisa que é até difícil saber por onde começar. Isso me permite começar o próximo parágrafo já com algum dado, sem precisar de alguma introdução.

Jerry Sloan, técnico do Utah Jazz, conseguiu ontem sua milésima vitória no comando do Jazz. Não são 1.000 vitórias na carreira somando os times que treinou (Bulls e Jazz), são só pelo Jazz, é insano! Eu não tenho mil vitórias nem somando todas as vezes que joguei International Superstar Soccer 64, e olha que eu dediquei toda uma adolescência a esse jogo. Mas para o Sloan foi só mais uma partida, ele ficou com aquela cara emburrada o jogo inteiro, disse que o basquete é um jogo de jogadores e não de técnicos, mandou todo mundo trombar uns nos outros, fazer pick and rolls e foi pra casa depois de mais um dia de trabalho. Ou foi porque ele já tinha feito a festa antes do jogo, afinal foi contra o Thunder, ele já sabia que ia ganhar.

Mais uma vez sem nenhum gancho eu mudo de assunto. Devin Harris estragou a estréia do Allen Iverson no Detroit. O Iverson nas suas primeiras duas jogadas pegou a bola, ficou driblando e finalizou com cesta, sem passar a bola - sem dúvida é uma nova era em Detroit. Ele nem foi tão fominha assim o jogo inteiro, mas achei o time muito esquisito, principalmente nos momentos em que usaram Stuckey, Iverson, Hamilton e Prince juntos. O Pistons usando o "small ball", só com jogadores baixos em quadra, é uma aberração, não tem como isso dar certo. Eu não acho que vai ser um desastre, não é pra tanto, mas essa experiência Allen Iverson não dura mais do que uma temporada em Detroit. Ano que vem ele deve estar em algum outro time.

Ah merda, esqueci do Devin Harris! Ia falar dele e só falei do Pistons. Estou parecendo a transmissão de ontem do jogo, que só falava de Iverson, Iverson e Iverson enquanto o Devin Harris estava arregaçando com a defesa do Pistons e não tinha um Billups lá pra parar o garoto. O Devin Harris fez o que mais sabe, costurou a defesa, bateu pra dentro, fez milhares de bandejas e não passou a bola nunca. Grande garoto, aprendeu muito com o Iverson, sem dúvida.

A derrota do Pistons foi notícia ruim para os seus torcedores, mas quem saiu deprimido da rodada ontem foram os torcedores de Hawks e Spurs: Josh Smith e Tony Parker vão perder pelo menos duas semanas de temporada depois de torcer o pé. Sério, tem como as coisas ficarem piores para o Spurs? Ontem eles estavam sendo humilhados, em casa, pelo Heat. Sim, o Heat, o time que tem dois novatos e três alas de força no time titular (o Beasley é as duas coisas ao mesmo tempo). O Popovich estava tão puto com o seu time estar perdendo por 20 no primeiro tempo depois do Tony Parker ter torcido o pé que voltou do intervalo com uma escalação digna da Liga de Desenvolvimento da NBA:

George Hill
Roger Mason
Desmond Farmer
Anthony Tolliver
Tim Duncan

Não precisa gastar seu comentário do dia pra dizer que o Duncan não é de nível de Liga de Desenvolvimento, mas acho que ele não joga do lado de caras tão ruins desde o time de ginásio dele. Dava pra ver nos olhos do Duncan o esforço, cheguei a torcer pelo Spurs durante um período do jogo, mas o time era ruim demais, a única jogada que eles tinham era ficar passando a bola de lado até um deles decidir chutar de 3.

O Miami não é burro e cercou o Duncan de jogadores, implorando pra qualquer outro jogador realizar os arremessos. O resultado foi que o Spurs arremessou 35 bolas de três no jogo! Acho que nunca vi isso em San Antonio, nem nos dias em que eles tinham Stephen Jackson, Ginóbili, Brent Barry ou qualquer outro grande arremessador no elenco.

E coitado do Parker, logo depois de fazer 55 pontos num jogo ele torce o pé? Só não dá pra ter dó dele porque a Eva Longoria é só pixels no papel de parede do meu Windows, enquanto é de carne e osso na cama dele.

O curioso das contusões de ontem é que elas mostram como existem jogadores que correm riscos simplesmente pelo estilo de jogo. O Tony Parker se machucou ao tentar uma bandeja, algo que cedo ou tarde teria que acontecer, é tanto pé naqueles garrafões que uma hora o pezinho delicado do francês ia cair no lugar errado. Já o Josh Smith se machucou depois de uma tentativa de toco. Se eu não me engano, o Gerald Wallace já se machucou uma vez ao pular desesperado para um toco, caindo depois de mal jeito. Por essas e outras é que você nunca vai ver o Jaqcue Vaughn ou o Mark Madsen se machucando. Eles não correm riscos.

Mas pelo menos ontem o Atlanta não sentiu falta do Josh Smith e deu um sacode no Raptors. Sabiam que só tem três times ainda invictos na NBA? São Lakers, Jazz e Hawks! Meu deus, nunca achei que ia dizer isso, mas o Hawks é atualmente o líder do Leste! O nosso leitor Silvano Vianna perguntou se eles são cavalo paraguaio, eu vou responder depois em um post mais detalhado do Hawks, mas, até para minha surpresa, acho que não são não. São um bom time. Ser líder do Leste é temporário, mas espero uma boa campanha deles.

Uma pena que a invencibilidade deve acabar na quarta da semana que vem, quando pegam o Boston. Mas até lá dá pra vencer o Thunder (sempre dá) e o Bulls, fazendo o Atlanta começar sua campanha com um recorde de 6 vitórias e nenhuma derrota.

Quem lê o blog há um tempo sabe que a gente aqui no Bola Presa não é nada patriota. Gosto do Leandrinho porque ele é um grande jogador, não porque ele fala a mesma língua e nasceu dentro da mesma linha imaginária que a gente. É com essa liberdade de falta de patriotismo que digo com todas as letras que o Nenê dispara nessas primeiras semanas como principal candidato ao prêmio de jogador que mais evoluiu na temporda. É patético começar com especulações de prêmios depois de apenas duas semanas de jogos, mas o Nenê está jogando demais mesmo e não parece que seja só uma fase, têm sido atuações convincentes.

Se o Devin Harris roubou o brilho da estréia do Iverson, em Denver quem roubou o show do Billups foi o Nenê. O jogo de ontem do Denver com o Dallas foi espetacular. Teve atuação muito boa do Jason Kidd, jogadas lindas do Dirk e até o Gerald Green foi muito bem, ao mesmo tempo em que vimos o Denver com uma nova atitude em quadra, mesmo depois de apenas um treino do Billups com o time!

O Denver desistiu em parte da correria, dos arremessos preciptados e jogou um jogo mais de meia quadra. E ninguém saiu perdendo. Com as jogadas de isolação o Carmelo rendeu até mais do que rendia antes, e com algumas jogadas mais bem trabalhadas, sem a ânsia pelo arremesso, o Nenê teve a chance de enfrentar o garrafão do Mavs e se deu bem. Acabou o jogo com 19 pontos, 7 rebotes e 1 (bela) assistência, além de várias bandejas de mão esquerda e enterradas poderosas. Só deu medo quando o Dirk trombou com o brazuca bem no joelho operado do Nenê, que saiu mancando. Fiquei com medo que quarta tinha sido o dia das grandes atuações e sexta o dia dos contundidos, mas o Nenê voltou inteirão.

O Billups não fez grande atuação, errou muitos arremessos e até um lance livre quando o jogo estava para ser decidido, mas só sua chegada já rendeu um estilo de jogo menos suicida e algumas boas jogadas na defesa. Mas o que eu achei mais genial por parte do George Karl, técnico do Nuggets, foi usar o Danthay Jones como titular e não o JR Smith. Isso deixou o time titular ainda mais defensivo e possibilitou ao JR Smith continuar jogando na correria, que é o que ele sabe fazer e fez muito bem com seus companheiros reservas Chris Andersen e Linas Kleiza, eles lembravam mais o antigo Nuggets e o resultado foi muito bom.

É muito melhor você ser correria porra-louca por alguns minutos ao invés do jogo inteiro e deu ao banco de reservas uma função de botar fogo no jogo, desestabilizar a defesa adversária. De repente o Nuggets virou um time que tem opções de estilo de jogo, não é só aquela mesma coisa ridícula de antes.

Mas nem tudo é perfeito. Tomaram 14 rebotes ofensivos só no primeiro tempo, deixaram o Mavs arremessar de 3 quando eles quiseram e o Billups, mesmo com a fama defensiva e com alguns bons roubos de bola, tomou um pau no duelo individual com o Jason Kidd, que ficou a uma assistência de seu 101° triple double na NBA.

Foi uma bela rodada e ainda bem que foi numa sexta-feira, porque em qualquer outro dia eu não aguentaria ficar acordado até às 4h30 da manhã vendo jogo e em algum outro dia menos movimentado vamos analisar com mais calma tudo isso que começou ontem. O Hawks como time bom, os novos estilos de jogo de Detroit e Denver e, com muito gosto e só um pouquinho de dó, o martírio do Spurs.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

O jogo certo

Se depender do Spurs, essa imagem vai ficar gravada na sua retina


Ontem, segundo dia da temporada regular, foi realmente o início para a grande maioria dos times. Foram doze jogos na rodada e, com a saudade de NBA apertando o peito, a vontade era assistir a todas as partidas. Impossível, claro. Foi-se a época em que a escolha de que jogo assistir ficava delimitada às decisões das televisões brasileiras (o que em geral significava que o jogo a se assistir era "nenhum"), já que a internet permite muitas possibilidades. Mas então, com trocentas partidas rolando em horários muito próximos, qual diabos eu iria escolher?

Na última semana, fizemos os previews para ajudar nessa árdua escolha, apontando os motivos para assistir ou não assistir cada um dos times. Ponderei um pouco com isso em mente e resolvi que veria o maior clássico do basquete moderno, Suns e Spurs, que começaria em pouco.

Verdade seja dita, a saudade era tanta que assisti um bom pedaço de Sixers e Raptors só porque foi o primeiro jogo a começar. Respirei aliviado apesar do jogo meia boca. Para se ter noção, até das propagandas idiotas de comida, carros, cortadores de grama e empréstimos eu estava com saudade (só não fiquei muito feliz com uma propaganda nova da Nike que é nitidamente um plágio do nosso primeiro vídeo, os advogados do Bola Presa estarão entrando em contato com eles, safados - mas quero só ver a Nike ter os bagos necessários para plagear nosso próximo vídeo, atualmente em fase de edição).

Resolvi assistir ao Spurs enfrentado o Suns em seguida, e como resposta à afirmação de Shaq de que "Gregg Popovich e o Spurs vão pagar muito caro nessa temporada por fazerem faltas intencionais" o Popovich mandou o Finley fazer uma falta intencional em Shaq logo na primeira bola do jogo. Ninguém entendeu nada e então o técnico Gregg Popovich acenou bem-humorado no banco de reservas. Como assim o Spurs demonstrou senso de humor? Tantos jogos acontecendo mas eu preciso ver esse, é capaz até que em algum momento da partida o Duncan venha a dar algo que lembre de longe um sorriso!

Ah, quem estou querendo enganar? Escolher um jogo para assistir é uma tarefa impossível, basta alguns segundos sem acontecer nada e você começa a se perguntar o que estará acontecendo nas outras partidas. Cesta chata do Duncan, lance livre do Shaq... diabos, meu Houston vai estrear em minutos. Um ser humano não deveria ser obrigado a fazer escolhas desse tipo. Decidir se um ser humano deve ou não morrer nem se compara às nuances de um fã de NBA frente a uma rodada diversa. Vozes silenciosas ecoam dentro da cabeça, tentando seduzir. Deve ser como descrevem abstinência de cocaína.

E foi assim que eu não vi o Suns finalmente vencer o Spurs, que sentiu muito a falta de Ginóbili. Não vi o Warriors usar o Stephen Jackson como armador principal o tempo inteiro, justo contra o Chris Paul, e a experiência quase dar certo o bastante para roubar uma vitória. Não vi a Guerra Fria de Pacers e Pistons, com o "Granny Danger" chutando traseiros e o Pistons saindo com a vitória aos bocejos. Não vi o Knicks porra-louca do D'Antoni ter uma partida sensacional, com Zach Randolph e David Lee jogando cada vez mais e Marbury e Curry fazendo tricô no banco de reservas, contra um Heat em que Mario Chalmers jogou como profissional e o Beasley demorou para engrenar. Ao invés, eu vi meu Houston Rockets enfrentar a porcaria do Grizzlies.

É claro que eu estava ciente do absurdo, talvez fosse o jogo mais esquecível de toda a rodada. Estava me sentindo um fraco, um tolo, até que na primeira posse de bola do Grizzlies o Artest roubou uma bola e fez uma bandeja no contra-ataque. Na segunda posse de bola, outro roubo do Artest. Então eu fiquei de pé, gritei algumas coisas em uma língua arcaica e não me arrependi mais nem por um segundo de ter escolhido aquele joguinho meia boca.

Estamos muito acostumados com o futebol, com ter um time desde que nascemos e para o qual torcemos sem nunca nos perguntarmos realmente o porquê. Mas com NBA, a coisa é um pouco diferente. Nenhum de nós nasceu no Texas ou em Chicago, nossos pais não nos levaram para ver o Magic Johnson jogar. Nossas mães não compraram macacões para nenê com o símbolo do Sonics, nenhum de nós alopra torcedores do Grizzlies quando vai para a escola como alopraria torcedores do Corinthians na época do rebaixamento. Na esmagadora maioria dos casos, a NBA não está em nossa cultura, em nossa criação. Quando começamos a assistir aos jogos, não tínhamos time algum.

O engraçado é que eu assisto jogos do São Paulo, sou moderadamente informado sobre futebol. Mas não assistiria uma partida entre Ameriquinha e Guarani. O gosto pelo meu time é maior do que o gosto pelo futebol em si. No caso da NBA, eu não perderia um jogo entre Grizzlies e Wolves de modo algum se fosse o único à disposição. Qualquer partida é fascinante, todo jogo é imperdível. Se não fosse assim, provavelmente eu não teria um blog sobre basquete e NBA.

Seja nos lendários tempos das transmissões de basquete na Bandeirantes, na finada Globo.com ou na persistente ESPN, os jogos são impostos e não há como acompanhar um time a fundo. Um torcedor do Bulls pode ter passado os últimos anos sem ver seu time jogar, por exemplo. Mas nem por isso deixa de acompanhar a NBA. Há algo mágico em simplesmente acompanhar o esporte. Quando perguntam pra mim por quem estou torcendo num duelo entre Bucks e Nets, a resposta é que não estou torcendo por ninguém. E mesmo assim eu vibro, aplaudo, degusto e me emociono.

Ou seja, eu não precisava ter escolhido um time para torcer. Mas escolhi. Eu não nasci em Houston, meus pais acham que basquete é aquela coisa em que eu desperdiço minha vida, meus colegas acham que NBA é uma pronúncia errada para "Master in Business Administration". Mas escolher um time torna as coisas mais intensas, mais doídas, mais pessoais. O que antes fora uma decisão consciente de "torcer praquele time vermelhinho do Olajuwon" agora me faz perder os melhores jogos da rodada para acompanhar a porcaria de um Houston Rockets contra Memphis Grizzlies.

Por isso, sempre digo que a competição dentro do esporte é - apesar de um fator fundamental do próprio conceito - totalmente secundária. O esporte pode ser apreciado sem que haja torcida, sem que haja competição, você pode amar e idolatrar o esporte no andamento de uma partida sem querer que nenhum lado em particular saia vitorioso. Mas a competição, adotar um time e vibrar e sofrer por ele, é um tempero a mais, um gostinho diferente em toda a brincadeira. Eu estava mais interessado em saber como T-Mac, Artest e Yao Ming jogariam juntos do que em qualquer outra coisa no mundo. A Alinne Moraes me ligou algumas vezes durante a partida, mas tive que mandá-la esperar. Coitada, até que é uma boa moça.

Quando alguém defende o hack-a-Shaq, a técnica de fazer faltas intencionais no Shaquille O'Neal para levá-lo para a linha de lances livres - onde ele fede -, diz que o importante é a vitória, que está dentro das regras. Isso é fato. É uma visão justa para um torcedor do Spurs, alguém que abraça o time intensamente, que torce e sofre e vibra pela equipe. O hack-a-Shaq enfeia o jogo, é coisa de criança, não deveria valer, é uma tática trazida por alienígenas malignos, deus castiga, coisa e tal. Mas como mostrar isso para alguém que não nasceu em San Antonio mas adotou o time para chamar de seu? Como argumentar para mim, na noite de ontem, que era muito mais importante ver outros jogos bacanudos ao invés do Yao fazendo 21 pontos com 10 rebotes, Artest com 16 pontos e 3 roubos e T-Mac com 16 pontos e 5 assistências? Não dá.

Mas é importante tentar manter a consciência de que existe algo maior do que isso: o basquete em si. Estamos no segundo dia de uma temporada que terá dezenas de jogos porcaria com o Bucks, por exemplo. Eu verei muitos deles, por amor ao basquete. Não deixemos que algumas atitudes, portanto, prejudiquem o esporte. Torço para que, pela temporada enorme que nos aguarda, o hack-a-Shaq continue só na piada. E que o Popovich não corte a barba, porque de algum modo ele está me lembrando uma versão grisalha do Capitão Haddock, do Tintin.

domingo, 21 de setembro de 2008

Análise dos técnicos - Divisão Sudoeste

O ex-técnico Jeff Van Gundy afirmou que suas
olheiras são culpa do Bola Presa



Você pediu, você implorou, você esperneou e fez birra. Você ameaçou a gente de morte. Alguns caras nos Estados Unidos até mesmo se negaram a pagar suas dívidas do setor imobiliário, gerando uma crise econômica global. Jeff Van Gundy disse não ter motivos para viver ao ser demitido e não poder mais figurar em nosso post. Então é hora da gente deixar a preguiça de lado e cumprir o que prometemos: uma análise de todos os técnicos da NBA, um por um, pra você se mostrar para os amiguinhos e fingir que entende tudo de basquete. Só não vá pensando que vai conquistar alguma garota assim, até porque conhecer técnicos de basquete não vai te fazer ganhar dinheiro. Mas é o que separa os homens dos meninos, porque conhecer o LeBron James é fácil, aloprar o Kwame Brown é comum, mas saber se o técnico Eddie Jordan é bom ou ruim é coisa para um grupo seleto da população. Uma casta de fracassados que não tem mais nada pra fazer da vida além de absorver basquete e ficar escrevendo num blog por aí.

Resolvemos separar os técnicos por divisão, de modo a apresentar diariamente cinco deles de cada vez. Assim, teremos uma espécie de "semana dos técnicos" e, para celebrar a ocasião (não é sempre que fazemos um post tão exigido pelos leitores sem que tenhamos recebido propina), o técnico do Lakers, o vovô Phil Jackson, está olhando para você na nova foto do nosso template. Esperamos que todos os pentelhos que tanto pediram por essa série de posts estejam felizes e saltitantes e vamos então às análises, antes que bata a preguiça e a gente mude de idéia. Para começar, de forma aleatoriamente arbitrária, elegi a conferência do meu time, o Houston Rockets. Então, hora de fuçar nos técnicos da divisão Sudoeste.


Rick Carlisle, Dallas Mavericks

O técnico Rick Carlisle é famoso por ser um dos maiores estrategistas do basquete. Domina a parte tática do jogo como ninguém, ciente de todas as nuances e possibilidades em quadra. Muitos técnicos admitiram invejar a capacidade de Carlisle de adaptar suas táticas ao que está acontecendo no jogo, alterando o que for necessário para manter a partida sob controle. O único problema é que Carlisle é tão inteligente e versado no jogo da prancheta que acaba tendo problemas em se comunicar com seus jogadores no mundo real. Dá pra imaginar o cara falando por uns 15 minutos, citando nomes de jogadas, números, dados, traçando linhas e mais linhas na prancheta com trezentas variações de ataque e infinitas movimentações ofensivas para, ao terminar, ouvir alguém como o Ben Wallace perguntar: "Peraí, professor, o que você quer é que a gente coloque a bola na cesta, é isso?" É como se o PVC, o comentarista enciclopédia-humana da ESPN Brasil, fosse virar técnico de futebol. Ele ia descrever como o ataque adversário está usando uma variação da linha da Iuguslávia em 64 e os jogadores iriam tirar um cochilo. Um equivalente possível no futebol seria o Luxemburgo, que dizem ter problemas para se comunicar com os seus jogadores apesar (ou por causa) do domínio tático.

Quando estava no Pistons por duas temporadas, o Carlisle chegou a ser o técnico do ano e levou o Pistons a mais de 50 vitórias nas duas vezes, apanhando depois nos playoffs e sendo demitido. Quando foi para o Pacers, logo depois, venceu mais de 60 jogos, acabou em primeiro lugar na Conferência mas perdeu na Final do Leste para o Pistons de Larry Brown. Desde então, contusões acabaram com o elenco do Pacers e, diz a lenda, ninguém mais aguentava o blá-blá-blá do Carlisle, principalmente porque ele não tem muito tato para lidar com sujeitos como Jamaal Tinsley e Ron Artest. Agora ele é o novo e feliz técnico do Dallas Mavericks. Na temporada passada, quando Kidd foi trocado para o time, foi simplesmente tacado no elenco, apenas tapando o buraco deixado na armação. Não houve nenhuma adaptação do esquema tático. Agora, do jeito que Carlisle é biruta e do jeito que Kidd é um dos armadores mais inteligentes da NBA, é muito provável que o armador comande um ataque complexo com quatro mil variações. Se existe alguém no mundo capaz de entender o que o Rick Carlisle está pedindo, esse alguém é Jason Kidd. Para a próxima temporada, veremos se esse casamento dará certo e se Kidd parecerá ter menos de 60 anos. O único problema é que Carlisle costuma focar bastante na defesa e Kidd, bem, Kidd não defende mais nem ponto de vista.


Rick Adelman, Houston Rockets

O técnico do meu Houston sempre foi um dos meus favoritos na NBA. Na época em que Nash e D'Antoni não faziam o Suns correr como débeis mentais, o Sacramento Kings era sem dúvida nenhuma o time mais divertido de se assistir. Tudo porque a filosofia de Adelman é criar um ataque que flua naturalmente em quadra, com liberdade e criatividade. As variações ofensivas são muitas, a improvisação é estimulada e todo mundo acaba arremessando muito em seus times. No entanto, a ênfase não é na velocidade, como no Suns de D'Antoni. Aliás, Adelman não é um grande fã de contra-ataques, preferindo que o time tenha calma para desenvolver suas jogadas ofensivas. Alguns dizem que a tática de Adelman é uma suruba, em que todo mundo faz o que bem entende, mas outros afirmam que ele é bastante rígido com as movimentações ofensivas. Ele não se importa se um jogador incompetente errar 100 arremessos no jogo, desde que em todos eles tenha havido movimentação, fluidez e calma no ataque. Imagina como o Marbury ia ficar se coçando num esquema desses!

Num time de Adelman, todo mundo toca na bola. Os pivôs costumam sair de perto da cesta, ficando bastante na cabeça do garrafão, e aproveitando sua altura para dar passes precisos. Com Brad Miller e Yao Ming, funciona. Se tem uma coisa que o Adelman sabe fazer é usar as qualidades de seus jogadores ao máximo, seja altura, velocidade ou arremessos de fora. Mas o único modo de saber se Adelman sabe mesmo se adaptar ou se é ditatorial demais no ataque seria colocar o Kwame Brown em suas mãos e ver se ele insiste em colocar a bola nas mãos de moça do Kwame.

Por ser um técnico tranquilo, Adelman ficou famoso por saber lidar com jogadores problemáticos, tendo sucesso com Ron Artest e até com o Trail Blazers na época em que eles pareciam um episódio do "Cidade Alerta" da Record. Mas também tem fama de não cobrar muito os jogadores, principalmente na defesa. Recentemente, deu o braço a torcer e resolveu manter no Houston a defesa que havia sido instituída com sucesso pelo Jeff Van Gundy, modificando apenas a estrutura ofensiva. Deu bastante certo, o Houston destruiu na temporada regular mesmo sem Yao Ming, mas eu ainda não entendo o motivo de, nos playoffs, Adelman ter mudado a rotação do time. Ainda arrebento ele na saída.


Marc Iavaroni, Memphis Grizzlies

De duas uma: ou o Iavaroni é burro ou precisa muito alimentar suas crianças. De outro modo, não vejo porque teria aceitado o cargo de técnico do Grizzlies. Já foi assistente técnico de Pat Riley, passou os últimos anos se divertindo como assistente técnico na correria do Phoenix Suns, mas preferiu agora ser o capitão responsável por um barco naufragado pela metade. Se o cargo não fosse ruim o bastante, ainda aprontaram feio com o coitado, trocando a estrela do time, Pau Gasol, por três feijões mágicos e mais o Kwame Brown, o pesadelo de qualquer técnico. Talvez o Grizzlies esteja apenas montando um reality show apresentado pelo Silvio Santos, entitulado "Como enlouquecer um técnico novato". Se ele não se matar até o fim da próxima temporada, receberá seu prêmio em barras de ouro, que valem bem mais do que dinheiro.

Se o Marc Iavaroni é bom ou ruim? É impossível dizer. Primeiro porque ninguém assistiu jogo nenhum do Grizzlies na temporada passada, nem a gente aqui no Bola Presa, nem os torcedores do time, nem a família dos jogadores. Segundo porque não dá pra julgar a capacidade de alguém tendo que comandar um dos piores elencos de toda a NBA. Contra o Iavaroni, consta a lenda de que, uns anos atrás, ele achava o Jake Tsakalidis o único pivô que seria capaz de rivalizar com Shaquille O'Neal. Como a especialidade do Iavaroni são os homens de garrafão, imagina só o tipo de merda que ele deve falar de armadores, por exemplo.


Byron Scott, New Orleans Hornets

O ganhador do prêmio de técnico do ano na temporada passada é um dos utilizadores na NBA da denominada "Princeton offense", um conjunto complexo e rígido de táticas ofensivas utilizadas durante décadas pela Universidade de Princeton. Trata-se de priorizar a movimentação de bola, com uma infinidade de passes, a maioria dos jogadores atrás da linha de três pontos, até que exista espaço para arremessos livres ou infiltrações por trás dos defensores (sem duplo sentido, por favor). É um ataque lento, que visa a marcar poucos pontos, exige um grande esforço coletivo e é ideal contra adversários mais atléticos. Normalmente, armadores não são muito necessários na "Princeton offense", porque qualquer um pode iniciar a movimentação ofensiva, então basta um armador mediano que esteja disposto a passar a maldita bola. Fica fácil de entender o porquê de Byron Scott ter trocado Marbury pelo Kidd assim que assumiu o Nets, não fica? Com Kidd, aliado à "Princeton offense" e aos famosos recursos motivacionais de Scott, o Nets chutou traseiros e foi campeão do Leste. Agora, no Hornets, quem rege a "Princeton offense" é o Chris Paul, um armador inteligente e disposto a passar a bola a todo custo.

É claro que a implantação da tática é mérito de Byron Scott, e ele é famoso por colocar em seus jogadores uma mentalidade de jamais desistir em momento algum das partidas, fazendo todo mundo acreditar que pode ganhar. Mas como seria seu desempenho sem armadores espetaculares como Kidd e Chris Paul para reger uma das movimentações mais complexas do universo basquetebolístico? E se você quer saber mais sobre a "Princeton offense", pense duas vezes antes de pedir para o Bola Presa fazer um artigo a respeito: é difícil pra burro entender a fundo essa porcaria e também lembramos que toda vez que nos cobram algum post, o mercado financeiro dos Estados Unidos entra em colapso. Cuidado.


Gregg Popovich, San Antonio Spurs

O técnico que todos amam odiar, o técnico que não cansa de ganhar, que faz os nerds das pranchetas terem orgasmos múltiplos e coloca para dormir todo o resto da civilização ocidental contemporânea. Tudo porque Popovich foca seus esforços na defesa enquanto tem fama de ser um dos técnicos mais severos e controladores no ataque (ele é tipo mulher ciumenta). Tente dar um arremesso que Popovich não planejou com antecedência de 48 horas e você será colocado no banco. Para conseguir arremessar uma simples bola, Tony Parker precisa preencher um formulário e autenticar em três vias - seja lá o que isso significar. Mas a verdade é que os jogadores no Spurs apenas obedecem o que está instituído, colocando em prática um ataque maquinal e absurdamente funcional. Duncan estará sempre em posição para seu clássico arremesso usando a tabela, Tony Parker sempre poderá infiltrar e passar a bola para a zona morta e Bruce Bowen sempre estará livre por aquelas bandas, pronto para arremessar de três e ser um bundão. Apenas Ginóbili é inesperado porque ele faz as mesmas coisas de modos extraordinários, com aquelas passadas malucas e destrambelhadas que, segundo o próprio Popovich, matam ele do coração.

Quando falo do Popovich, sempre uso como exemplo sua relação com Tony Parker. O francês tinha uma cota máxima de arremessos que podia dar de trás da linha de 3 pontos (sem brincadeiras!) e, quando começou sua sua carreira no Spurs, era obrigado a passar a bola para fora do garrafão ao invés de fazer as bandejas que hoje lhe são marca registrada. Com o tempo, foi ganhando mais liberdade com o técnico - o que equivaleria a uma mãe dizer que a filha não pode ir para a balada, mas que agora pode passar maquiagem dentro de casa. Para nós, fracassados que perdemos para o Spurs a torto e a direito, sua relação ditatorial com o time, respostas mal humoradas e cara de quem está com uma eterna apendicite nos fazem odiar Gregg Popovich como poucos no mundo. Mas tem mais: "Pop" (como alguém tão mal encarado pode ter um apelido tão fofucho?) era dirigente do Spurs, demitiu injustamente o técnico do time e se auto-proclamou o novo treinador, cargo que exerce desde então. Se ele não fosse um branquelo em um time texano, provavelmente o presidente Bush iria colocar o exército para intervir na questão. E o mais engraçado é que Popovich disse que deve se aposentar assim que acabar o contrato de Tim Duncan, ou seja, provavelmente não quer testar como seriam seus resultados sem um dos melhores jogadores de todos os tempos ao seu lado. Bem, se pudesse escolher, eu também não testaria.

E não adianta me dizer que estou com dor de cotovelo porque sim, estou com dor de cotovelo. O Gregg Popovich ganhou demais na vida, deixa pelo menos um blog na internet dar a entender que o cara é fracassado, tá legal?

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Eu taco fogo!

A bola é completamente secundária nesse esporte


Sempre existe aquela coisa em que somos especialistas embora não nos orgulhemos disso nem um pouco. Pode ser todas as coreografias da época áurea do "É o Tchan" com a Carla Perez, o nome de todos os pokémons ou então todas as discussões do Toninho do Diabo e do Inri Cristo no programa da Luciana Gimenes. No meu caso, como blogueiro de basquete, a especialidade da qual não me orgulho é justamente sobre NBA: sou especialista quando o assunto é perder para o Utah Jazz.

Como torcedor do Houston Rockets, conheço cada pequeno detalhe que possa levar a uma derrota para o time de Salt Lake durante os playoffs. Basta um jogador do Jazz dar uma cutucada no nariz e eu sei dizer se seu time ganhará ou não. Ontem, no duelo entre Lakers e Jazz, todos os sinais da vitória vindoura estavam presentes: Okur passeando livre na linha de 3, Deron Williams deitando e rolando nos passes picados, Kirilenko participando do ataque, Millsap acertando jumpers da cabeça do garrafão.

Aliás, pode acreditar, já vi o Houston perder trocentas vezes assim: se o Millsap acertar arremessos da cabeça do garrafão, nem que seja apenas um ou dois, o Jazz vai acabar ganhando. É tipo o Sixers de uns anos atrás que era invicto nos jogos em que Iverson desperdiçava mais de 4 bolas na partida. Faz sentido? Não. Mas que funciona, ah, funciona.

O Lakers pode ser amplamente favorito, pode ter o MVP, pode ter feito a troca mais café-com-leite da história da NBA, mas nada disso importa quando se trata do Jazz. O negócio com esse time é que eles são capazes de vencer qualquer jogo de qualquer equipe e ninguém, nem mesmo eles, sabem o que vai acontecer em quadra. Talvez não vençam 4 jogos numa melhor de 7, é verdade, mas nenhum dos jogos terá um favorito: seja com quem for, o Jazz poderá vencer. Eles são simplesmente profundos demais, com recursos demais, e quando as coisas dão bastante certo, a vitória acaba saindo. Basta uns arremessos do Millsap, um par de bolas seguidas de 3 pontos de Okur ou Deron Williams (aliás, alguém sabia que o D-Will está acertando 56% de suas bolas de 3 pontos nos playoffs?!), uma cravada de Kirilenko, um arremesso de Kyle Korver e lá está, o time dos mórmons ganhou mais uma.

Na partida de ontem, Kobe Bryant estava sofrendo com dores nas costas, tomou uma pancada na perna esquerda e a dor pareceu torná-lo um psicótico completo. No quarto período e na prorrogação, arremessou sem parar de todos os lugares da quadra - sem acertar coisa alguma. Em um punhado de jogadas, Kobe ignorou movimentações ofensivas, tática ou mesmo bom senso e simplesmente arremessou por cima de seu marcador. Arremessos forçados e desnecessários, principalmente tendo em vista que Kobe estava engolindo seus marcadores vivos quando jogava de costas para a cesta, dentro do garrafão. O atual MVP estava fora de si, num estado mental lastimável. Se ele fosse técnico, provavelmente teria aceitado ir treinar o Knicks.

Apesar de Kobe numa noite atípica, bolas certeiras de Fisher no final do tempo regular colocaram o Lakers na partida, até Odom acertar um improvável arremesso de 3 pontos para empatar o jogo. Eu adoro Lamar Odom e Monta Ellis, são jogadores monstruosos que atacam a cesta como ninguém, mas prenda os dois num ginásio e só permita que saiam quando um deles acertar dois arremessos seguidos - meses depois, um terá assado o outro numa fogueira para sobreviver. Quando Odom acertou o arremesso sem sequer mexer a redinha da cesta e Fisher deu um toco em Deron Williams na posse de bola final, levando o jogo para a prorrogação, os torcedores do Lakers ficaram esperançosos. Ah, pobres ignorantes! Por acaso não viram o Millsap acertando arremessos da cabeça do garrafão logo no começo do jogo?! Não sabem o que isso profetiza?

A prorrogação foi demais para o Lakers numa noite em que Kobe estava com a barra de energia vazia e tudo funcionava para o Jazz na hora em que precisava funcionar, ainda mais com a partida sendo em Utah. Todos aqueles que apostavam num 4 a 0 para o Lakers obviamente não torcem para o Houston e não conhecem a minha especialidade. O Jazz pode perder as próximas partidas mas pode ganhar a série sem muitas dificuldades, o que fará 400 bilhões de chineses torcedores do Houston levantarem placas de "Eu já sabia". E depois voltarem a comer arroz.

Mas não se pode acertar todas, não é mesmo? Se eu apostava no empate do Jazz desde o princípio, mostrando toda minha genialidade, também apostei numa varrida do Hornets em cima do Spurs, mostrando toda minha burrisse, insanidade e ingenuidade. No entanto, eu tinha alguns argumentos para não acreditar numa recuperação do Spurs. Pra começar, a defesa que o Hornets arrumou para lidar com o Duncan é algo para ser ensinado nas escolas, de preferência no lugar das aulas de Química. Quando Tim Duncan começa a bater bola, a marcação dobra nele mas há uma rotação imediata, antes mesmo de Duncan passar a bola, de modo a manter um marcador sempre em cima dos jogadores mais próximos do Spurs na linha de 3 pontos. Um jogador corre para cobrir o espaço deixado por seu companheiro até que o jogador do Spurs que sobre livre esteja no canto oposto da quadra, dificultando assim os passes de Duncan pela distância e até pela imprevisibilidade da marcação. Some a isso o fato do técnico do Spurs, Gregg Popovich, ser um dos caras mais chatos e metódicos da história da humanidade. Ele é do tipo que taca a mulher pela janela se não puder dormir no seu lado de sempre da cama. Quem acompanha o San Antonio sabe o quanto Tony Parker sofreu até ganhar a pseud0-liberdade que tem hoje em quadra, e se o francês tivesse um pouco menos de paciência, estaria jogando gamão. Consequentemente, concluí que Popovich não iria mudar o estilo de jogo do Spurs de modo algum, algo que, aliás, ele pessoalmente afirmou depois de perder o segundo jogo em New Orleans. Mas o sujeito resolveu parar de frescura e colocou Ginobili como titular (afinal, ele já ganhou o prêmio de melhor 6o homem mesmo, não precisa mais manter as aparências), para meu espanto. Quando achei que isso era ousado, me deparei com as outras coisas que Popovich fez na série.

Depois de perder dois jogos para Chris Paul, o técnico do Spurs resolveu tirar Bowen de cima do homem. A idéia, provavelmente, era deixar Paul fazer o que quisesse e incentivar Tony Parker a fazer o mesmo, dando o troco. A série virou um duelo pessoal entre os dois que beira o ridículo e Bowen ficou livre para anular uma das armas ofensivas do Hornets na linha de 3 pontos: Stojakovic. Agora, Chris Paul faz o que quer mas tem menos ajuda no perímetro, enquanto Parker também faz o que bem entende e o Spurs ainda se garante nas bolas de fora. Além disso, Duncan foi instruído a agir diferente quando dobram a marcação em cima dele, sendo agora mais agressivo e aproveitando sua altura para passar a bola diretamente para o homem livre que fica do lado oposto da quadra. A defesa do Hornets ainda é eficiente nesse sentido, mas os passes de Duncan foram certeiros e Tyson Chandler, também agora vítima de sua versão do hack-a-Shaq, tem sido obrigado a descer o braço no Duncan mais do que seria o ideal.

Agora, virou xadrez. Se o Byron Scott nos fez acreditar, com sua defesa ousada, que o Hornets iria levar a série fácil, agora Gregg Popovich nos leva a crer que o Spurs vai ganhar as próximas partidas graças a contra-ataques certeiros às ações do adversário. E agora, qual será a inovação tática dos dois lados no Jogo 5 da série?

Lakers e Jazz fazem uma série imprevisível enquanto Spurs e Hornets jogam xadrez nas pranchetas. Não posso perder mais nenhum jogo, finalmente os playoffs estão mais legais do que aquelas discussões do Toninho do Diabo com o Inri Cristo que eu mencionei antes. Aliás, os dois dariam excelentes mascotes na NBA. Já consigo até imaginar uma propaganda na TV gringa, falando sobre como os playoffs estão pegando fogo, ao som do Toninho do Diabo cantando "Eu taco fogo!". Imperdível.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Briga de mulherada

Alguns bons motivos para torcer para o Houston


Recentemente descobri o que me falta para ter uma carreira de sucesso na NBA: a Adriana Lima. Pelo menos é o que vem funcionando para o Marko Jaric recentemente. O armador sérvio do Wolves era um completo fracassado, passou as últimas duas temporadas com atuações pífeas afundado no banco e ficou famoso por entrar em quadra uma vez com a camiseta ao contrário. Esse é provavelmente o modo mais fácil de virar motivo de piada, só perdendo para aparecer na escola de pijama e fazer cocô nas calças.

Esse derrotado que não sabe nem vestir o uniforme e deve apanhar dos companheiros de time no vestiário está agora namorando a modelo brazuca. Tinha ouvido dizer que os derrotados, nerds e geeks estavam na moda mas não imaginava que era pra tanto. Pelo jeito tem mulheres por aí que gostam de trocar fralda, amarrar os cadarços do namorado bobão e vestir ele direito pra não ficar com a roupa do avesso.

Seja como for, o relacionamento anda fazendo bem para o Jaric. Desde então, passou a ser titular (pelo menos enquanto o Foye está machucado) e sua média de pontos dobrou de 8 para 16 por partida, com aproveitamento de 57% nos arremessos e mais 6 assistências por jogo. É um aumento de rendimento para "água do Jordan" nenhuma botar defeito.

O fenômeno não é solitário. Outro armador extrangeiro também conhece os bons resultados de namorar famosas: Tony Parker. No seu começo de carreira com o Spurs o rapaz era talentoso mas inexpressivo. Rápido pra burro ele sempre foi, claro, mas quando infiltrava facilmente no garrafão era obrigado a passar pra fora ao invés de fazer a bandejinha característica. É óbvio que a culpa era do Popovich porque ele é um chato burocrático que exigia, antes que o Parker pudesse fazer qualquer arremesso, um requerimento carimbado e autenticado em cartório em duas vias na presença de um advogado. Por isso o francês que não toma banho era obrigado a passar a bola para os Bowens da vida e desistir de seus pontinhos. O que fazer para mudar a situação? Convencer o Popovich a virar um cara tranquilo, relaxado e parar de fazer amor com sua prancheta?

Não. A solução que o Tony Parker arranjou foi conseguir uma namorada famosa. Foi só com a Eva Longoria torcendo em San Antonio que Parker foi All-Star, ficou entre os líderes em pontos feitos no garrafão e começou a colecionar anéis de campeão.

Virou então padrão para os times que querem ser campeões ter uma gostosinha famosa fazendo figas na torcida. Nenhum time que preste vai ter coragem de abrir mão dessa tática. Os responsáveis pelas franquias da NBA precisam começar a pensar nisso já: se o time está meio capenga, o mais importante não é contratar um reforço de peso, e sim, arrumar alguma estrela boazuda pra ficar existindo no ginásio. E, pelo bem dos times, quanto mais delas, melhor.

O Miami Heat, por exemplo, resolveu investir no ramo das tenistas. A Kournikova foi o bastante para levar o Heat a um campeonato, mas como as coisas andam difíceis por lá e a Kournikova é uma beleza meio decadente e esquecida, resolveram substituir pela mais nova sensação, a Sharapova. Que é uma substituta à altura da Kournikova em beleza e ainda tem a vantagem de, num duelo de tênis contra um orangotango, sair vitoriosa.

O Warriors pode não ter durado muito nos playoffs, mas a vitória em cima do Mavs está na história como uma das maiores zebras de todos os tempos. Cada um arranja um motivo: Don Nelson, acaso, Nowitzki amarelão, Baron Davis MVP, macumba, gnomos, dopping, aros menores de um dos lados, George Bush (dá pra culpar ele por qualquer coisa hoje em dia).

Mas, depois de ver outros times vencedores usando a tática das famosas, alguém duvida que a vitória em cima do time de Dallas tem tudo a ver com a Jessica Alba? Eles só não foram mais longe nos playoffs por um simples motivo: não arrumaram uma camiseta "We Believe" para ela que fosse mais justa e de preferência mostrasse a barriguinha. Acharam que iam vencer com a Alba vestindo algo que parecia um lençol?

Na hora de fazer previsões para os times, palpitar sobre quem deve ganhar cada divisão ou conferência, não basta olhar a escalação das equipes. É necessário ver também quem é a gostosinha da vez que está sentada na torcida. Estava até querendo criar uma liga de fantasy em que cada time pudesse draftar uma beldade famosa e ela influenciasse um pouco o resultado das partidas. Vou maturar a idéia e ver no que dá.

Mas por enquanto, o que importa é que a Adriana Lima nos dá um motivo para assistir pelo menos alguns jogos do Wolves. E é o maior motivo para assistir esse time capenga pelos próximos anos. Para o bem da equipe, é bom que o Jaric mantenha o namoro. Mas, a julgar pela capacidade de vestir a camiseta ao contrário, isso não deve durar.