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domingo, 6 de fevereiro de 2011

Quando é a hora de mudar?

Por que separar um casal tão lindo? S2


Podemos até ser piegas e falar sobre a vida como um todo: afinal, quando é hora de mudar? Quando é hora de mudar de casa, emprego, namorada, faculdade ou corte de cabelo? Em todos os esportes, na NBA também, a pergunta sempre vem: quando é hora de mudar? Quando é hora de mandar tudo às favas e recomeçar, ou só trocar de técnico ou mudar metade do time? Para todas essas questões, porém, temo que resposta definitiva só temos depois de tentar. Somos uma sociedade que julga pelos resultados, principalmente quando se trata de esportes.

Faltam 17 dias para o último momento em que os times podem realizar trocas nessa temporada e o assunto das mudanças está bombando. Carmelo Anthony à parte, são inúmeros times pensando se devem ou não dar uma chacoalhada no elenco. O time mais comentado é o Lakers, não só porque o Lakers sempre é um dos times mais comentados não importa o que aconteça no mundo, mas porque o General Manager do time Mitch Kupchak disse com todas as letras que pensa em uma troca para mudar a equipe e ver se eles acordam a tempo de defender o título. Seguido dessa declaração veio a do Ron Artest dizendo, insatisfeito, que queria ser trocado, declaração essa que depois foi negada pelo jogador. Ou seja, disse-me-disse que a imprensa brasileira esportiva chamaria de "crise".

Não é tudo isso, claro, tem muito exagero, mas o que vale é a questão se o Lakers deveria mesmo mudar o time. Para responder isso eu prefiro lembrar de algumas histórias, semelhantes ou não, antes.

Começo com o Indiana Pacers. Eles começaram a temporada arrasando, vencendo Heat e Lakers fora de casa e com a marca de 11 vitórias e 10 derrotas em seus primeiros 21 jogos. O problema é que depois disso eles venceram apenas 7 jogos nos 28 seguintes, perdendo algumas partidas bem humilhantes e, pior, com um aproveitamento ofensivo (pontos a cada 100 posses de bola) pior que o do Cleveland Cavaliers. Sim, Cavs, aquele time que ganha menos que o Vasco e o Corinthians juntos. Escrevemos um post sobre o time nessa época, tentando explicar porque o Roy Hibbert, por exemplo, que começou a temporada como forte candidato a jogador que mais evoluiu, estava virando o vencedor do prêmio TPM de jogador mais inconstante da temporada.

A resposta que o time arranjou para essa queda de produção foi demitir o técnico Jim O'Brien, que também atende pelo nome de Don Nelson II. Suas 11 escalações diferentes nos primeiros 40 jogos sem nenhuma grande contusão para justificar começaram a irritar muito os jogadores, que não entendiam porque jogavam 40 minutos em um dia e 3 no outro. Os mais prejudicados eram Darren Collison, Paul George e Tyler Hasnbrough. O último chegou a se declarar finalmente livre depois da demissão do antigo chefe, e disse que "agora finalmente vai ser mais divertido". Não que ele seja titular agora, o assistente técnico e novo treinador Frank Vogel optou por deixar Josh McRoberts como o ala de força titular e Hansbrough como primeira opção do banco. Simplesmente saber com quem joga, quantos minutos e sua função muda tudo para os jogadores.

Mas mesmo com esses acessos de doideira, O'Brien foi o técnico que fez o Pacers um bom e veloz ataque mesmo com poucos bons jogadores nos últimos anos e uma das melhores defesas da liga nesse ano (8º lugar) mesmo sem o melhor elenco do mundo para essas funções. Para a diretoria então chegou a hora de pesar o que o técnico ofereceu nos últimos anos e como seu comportamento estava incomodando os jogadores, decidiram mandá-lo embora. Essa não foi difícil, O'Brien não é ruim como muita gente acredita mas não é indispensável. A mudança tem dado resultado, apesar de poucos jogos para medir tudo, é consenso geral na imprensa americana que os jogadores parecem felizes e motivados de novo, além do clima bem mais leve no vestiário segundo quem esteve lá. Era hora de mudar mesmo.

Uma história bem parecida aconteceu algum tempo antes ainda nessa temporada quando o Charlotte Bobcats mandou o Larry Brown embora. O cara é um gênio, um dos que melhor armou defesas na história da NBA e até hoje o único treinador a ter levado o Bobcats aos playoffs. Mas também é um mala sem alça que não dá a menor liberdade para os seus jogadores dentro de quadra, cobra sem parar, é ranzinza e usava esse tipo de roupa quando era técnico nos anos 70. Isso sempre provoca um ciclo em que os jogadores começam respeitando o Larry Brown, o amam quando o time começa a vencer, e depois o odeiam quando a rotina infernal se torna maior do que as vitórias. Foi assim em várias de suas equipes, até no vencedor Detroit Pistons de 5, 6 anos atrás. Sem contar o sentimento de que "a gente é bom e pode vencer sem ele" que cresce depois de um tempo.  Foi o que aconteceu no Bobcats e um dia depois de uma declarações pública bem agressiva do Stephen Jackson, o técnico foi demitido. Captain Jack disse que "Como um time estamos jogando muito mal. E no fim das contas é o trabalho do técnico nos preparar para o nosso trabalho que é entrar em quadra e jogar."

Esse caso não é tão óbvio como o do Pacers. Larry Brown faz bem mais diferença que o Jim O'Brien em um time, mas com todo mundo resmungando, o que era mais fácil, trocar Gerald Wallace e Stephen Jackson por pirralhos ou trazer um técnico mais gente fina e sorridente? Diz a lenda que eles até tentaram trocar o Wallace, mas sempre pediram coisas demais em troca e as negociações morriam rápido. Sem conseguir o que queriam para a troca, deram um pé na bunda do Brown e trouxeram Paul Silas, primeiro técnico do LeBron na NBA e que é conhecido por ter bom diálogo com os jogadores e ser bem liberal. O resultado foi um Bobcats mais motivado, com liberdade criativa no ataque e que pelo menos ainda não piorou tanto assim na defesa. Numericamente o time faz um pouco mais de pontos e toma um pouco mais, não é tanta diferença assim, mas ninguém mais reclama e o time voltou a vencer. Dá pra considerar a troca um sucesso, embora o time esteja condenado a não ir para lugar algum com esse elenco limitado.

Esses foram dois casos em que a mudança veio pelo elo mais fraco, o treinador, e que deu resultado mais porque os jogadores voltaram a jogar com vontade do que por questões técnicas e táticas. Vamos lembrar de outro time que mudou, mas que o fez radicalmente e via trocas. O Orlando Magic trocou peças importantes do time, incluindo titulares e os melhores reservas para refazer meio time. Em pouco tempo a defesa se manteve no (bom) mesmo nível e o ataque floresceu de maneira impressionante. Como citamos no último Filtro, todos os principais jogadores (tirando Arenas) tem aproveitamento de arremessos muito acima da média da NBA. O número de vitórias também cresceu e o risco gigantesco de trocar tanta gente no meio da temporada pode ser considerado um sucesso. Mas como nada é perfeito, com a contusão do Brandon Bass e sem Marcin Gortat no banco eles sentem falta de mais alguém forte no garrafão para ajudar Dwight Howard. E sem o carrapato do Mickael Pietrus para marcar o LeBron, King James meteu 51 pontos na fuça do Orlando. Sempre precisamos de tempo para ver todos os lados de mudanças tão drásticas.

Quem tentou mudar nessa temporada, portanto, vem tendo sucesso. Mas isso não quer dizer que o Lakers deve fazer o mesmo. O time não tem jogado tão mal quanto as pessoas tentam empurrar, o problema é quando tem jogado mal, o Lakers perdeu jogos importantes contra Celtics, Heat, Bulls e Spurs, por exemplo. Mas até contra o Heat e Celtics eles não jogaram mal durante toda a partida e na última contra o Spurs jogaram até muito bem, perdendo apenas por um pequeno vacilo ao deixar o Antonio McDyess dar um tapinha no rebote ofensivo no segundo final do jogo. O time não é perfeito, tem defeitos, mas teve também nos últimos três anos e venceu o Oeste mesmo assim. Além disso, se for trocar, vai trocar quem? Odom, Gasol e Bynum não estão jogando mal e Artest ninguém vai querer. Mandar o Phil Jackson embora acho que nem o torcedor mais louco cogita!

Com um elenco tão bom e que ganhou tantas coisas nos últimos anos eu acho muito precipitado tentar qualquer mudança abrupta no elenco, a não ser que alguém proponha uma troca do tipo Derek Fisher e uma foto autografada da Juju Panicat pelo Deron Williams e um abraço apertado. E depois da troca do Pau Gasol ninguém está muito a fim de dar coisas de graça para o Lakers. Se o time precisa jogar melhor contra os seus principais adversários, e precisa mesmo, os ajustes devem ser mínimos, táticos, não extraordinários. Para isso o Gasol precisa descansar mais, o Joe Smith precisa de mais minutos em quadra para os jogadores de garrafão terem um descanso, o Andrew Bynum precisa ser mais acionado no ataque e deixar de ser às vezes a quarta opção ofensiva e até algumas mudanças na rotação do time devam ser consideradas. Sabia que entre todos os quintetos usados pelo Lakers na temporada, os que envolvem o Luke Walton sempre tem bom aproveitamento ofensivo? Ele poderia ganhar mais tempo de quadra. O Matt Barnes também tem bons números, está fazendo falta e deve ser considerado já um bom reforço para os playoffs.

Eu vejo a maioria dos jogos do Lakers por ser torcedor e já vi muitos jogos horríveis deles nessa temporada, mas se tivesse que achar um meio termo entre todos esses jogos irregulares da equipe eu diria que se o banco de reservas jogar bem como jogou no primeiro mês da temporada o time está muito bem na fita. E quando o banco toma muitos pontos e o Lakers fica atrás no placar os titulares mudam o jeito de jogar e tudo vai por água abaixo. Quando o time está ganhando o Kobe está frio, calmo e joga o seu estilo de costurar a defesa, achar oponentes bem posicionados, envolver todo mundo e de repente o Lakers parece imparável. Mas se o Gasol está em um de seus dias de Cisne Negro (como diz o True Hoop) e nada cai pra ele, Kobe para de passar a bola, aí Artest erra meia dúzia de arremessos e o Kobe sente que ninguém está em um dia bom e ele que deve vencer sozinho. É a pior coisa para a equipe, não que ele não consiga marcar os seus pontos assim, ele marca e é lindo de assistir, mas não é coincidência que nessa temporada ele passou dos 35 pontos em 4 ocasiões e o time perdeu 3 desses jogos. E nos jogos em que tentou mais de 25 arremessos o Lakers perdeu 6 e venceu 4 (duas das vitórias sobre o poderoso Wolves).

Por favor não comecem com mais um ataque de loucura achando que a gente odeia o Kobe e quer menosprezá-lo. Busquem por tudo o que já falamos dele nesses três anos e vejam o quanto admiramos o seu talento e como sabemos que ele é espetacular e fora de série. Mas nesse caso, nessa temporada e nessas situações, ele não tem feito bem para o time. Simples assim. E vocês até podem interpretar isso de um jeito bonito, mostrando como ele é competitivo e tem vontade de vencer a qualquer custo (se é que isso é mesmo bonito).

E o problema do Kobe diz tudo sobre os problemas do Lakers. Não é porque existem defeitos a serem corrigidos que uma troca é a solução. O Kobe precisa mudar sua atitude em alguns jogos ou momentos de jogos, mas de jeito nenhum que vão trocar o homem. O mesmo serve para Pau Gasol, Lamar Odom e até o Ron Artest, quem viu o jogo ontem contra o Hornets percebeu como o Ron Ron ainda é um defensor fora de série. Para mim essa não é a hora de Mitch Kupchak tentar mostrar que é um grande General Manager e mudar tudo, mas é a hora do Phil Jackson se mexer e mostrar os talentos que já mostrou tantas vezes para motivar seus atletas e buscar alternativas táticas.

E só para não dizer que só demos exemplos de times que melhoraram mudando, como citei aqui Pacers, Magic e Bobcats, posso lembrar também do Boston Celtics, que decidiu não mudar. No ano passado o time parecia velho, cansado e penou para se classificar em quarto lugar no Leste, a mesma história do Lakers desse ano. Mas aí nos playoffs eles jogaram demais e só por uma inspiração divina do Ron Artest não ganharam o título. Eles poderiam ter trocado o contrato expirante do Ray Allen no meio da temporada passada ou até mesmo não ter renovado depois que ele esteve gelado como uma atuação da Vera Fisher nos últimos jogos das finais. Mas não, decidiram não só manter a base que tinha sucesso como também adicionaram, sem perder nada além de Tony Allen, e o time velho, com mais um ano nas costas e mais os quase 40 do Shaq, é ainda melhor do que antes.

Como eu disse no começo do texto, só dá pra saber o resultado da mudança quando se tenta ela. E é o tipo de coisa que temos a tendência de julgar pelo resultado porque o outro lado da história a gente só pode imaginar, mas mesmo assim considero esse caso do Lakers mais fácil que os outros. Pacers e Bobcats praticamente não tem nada a perder, o Magic era um time que precisava de mudança porque o time vencedor de 2009 já havia sofrido uma grande transformação (saída de Turkoglu por Vince Carter) e uma queda de produção nos playoffs do ano passado. O Lakers, ao contrário, vem de um título! O quanto seria precipitado (e inédito) um time bi-campeão ser desmontado ou remodelado só porque perdeu meia dúzia de jogos simbólicos na temporada regular? Sossega, Kupchak.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Pacers do mundo bizarro

Mike Dunleavy sempre foi conhecido pelas belas fotos


Quando comentei aqui sobre a idéia do LeBron James de diminuir o número de times na NBA (ele depois negou ter dito isso), dei o exemplo de como seria a liga sem seis times, um deles o Indiana Pacers. Nos comentários isso provocou a revolta de pelo menos um torcedor que disse que Indianápolis e todo o estado de Indiana eram muito importantes para o basquete e que isso não deveria nem ser cogitado.

Ele tem razão ao dizer que Indiana é um estado importante no basquete. O Pacers e principalmente o Indiana University Hoosiers têm história e tradição no basquete americano, mas isso não é o bastante. O Seattle Sonics tinha 40 anos de NBA e uma base de torcida enorme antes de acabar de vez. Os torcedores então não deveriam se focar tanto na tradição, a cultura americana não é tão apegada a isso, e se preocupar em melhorar sua situação econômica e basquetebolística. Sem saber dos detalhes econômicos do time, nos limitamos a comentar do elenco. E convenhamos, ter um bom time e atrair mais público, TV e jogos de playoff é um bom começo pra arrecadar bufunfa.

No preview da temporada eu disse que considerava o trio do Indiana Pacers com Darren Collison, Danny Granger e Roy Hibbert mais promissor que outros trios de times medíocres e jovens, no caso Wolves (Jonny Flynn, Kevin Love e Wesley Johnson) e Nets (Devin Harris, Derrick Favors e Brook Lopez). As coisas mudaram um pouco de figura quando, depois disso, o Wolves trocou pelo Michael Beasley e ele começou a jogar muito. Hoje prefiro o trio do Wolves, com Beasley e não Flynn, embora nessa temporada o Pacers seja um time melhor.

Não que esteja tudo como planejado, o Darren Collison, por exemplo, não está jogando no mesmo nível da temporada passada pelo Hornets, quando substituiu Chris Paul e foi um dos melhores novatos do ano. Número por número o jogador tem hoje 13 pontos por jogo e acabou a temporada passada com 12, mas o meu critério de comparação é com quando foi titular no Hornets, não reserva. Isso aconteceu nos últimos três meses de 2009-10 e suas médias foram: 21.6 pontos em fevereiro, 17 pontos em março e 19 pontos em abril. Nas assistências foram 8.3, 9.1 e 7.7. Nessa temporada ele tem apenas 4.3 assistências por jogo.

Mas por que diacho o Collison caiu tanto de produção? O Indiana Pacers é um dos times que joga em ritmo mais veloz na NBA, bem mais do que o Hornets, o que eu achei que fosse fazer o Collison se adaptar rápido, mas acabou sendo o contrário. Pode ser só impressão, mas eu acho que ele não funciona muito bem só chegando no ataque e distribuindo um passe preciso para a finalização, como faz o Steve Nash no Suns, por exemplo. Ele funcionava melhor em um ataque de meia quadra que explorava vários pick-and-rolls como no Hornets. O Pacers é um time mais de arremessadores e que deixa o garrafão só para o Roy Hibbert trabalhar, limitando o Darren Collison a arremessos mais distantes ao invés de ter espaço para infiltrações.

A falta de entendimento tático tem influenciado também a confiança do Collison, que muitas vezes aceita ser só um carregador de bola da defesa para o ataque, onde entrega para Danny Granger e Roy Hibbert jogarem como bem entenderem. A passividade do Collison fez ele perder espaço na rotação e não é incomum ver o TJ Ford e até o AJ Price jogando quartos períodos no lugar dele, o técnico Jim O'Brien disse que muitas vezes o Ford joga os finais de jogo por sua agressividade na defesa e experiência no ataque. Quando você perde vaga por causa da defesa furada do TJ Ford e sua "experiência" que faz com que ele tente os arremessos mais imbecis da história do basquete (JR Smith à parte) é porque a coisa tá feia. Às vezes acho que é uma mensagem do tipo "Seja agressivo como o TJ Ford, mas do jeito certo".

Mas é difícil culpar só o TJ Ford por tentar arremessos burros porque esse é um dos times que mais força bolas estúpidas na NBA e eu nem esqueci do Warriors! O Danny Granger arremessa bolas longuíssimas de três com muito tempo no relógio, o Roy Hibbert insiste nos arremessos de Ilgauskas ao invés de jogar perto da cesta e o Brandon Rush só tem um pouco do meu perdão porque ele tem aquela liberdade concedida a todos os grandes arremessadores para arremessar sempre que receber a bola. É o tipo de jogador que se não chutar quando tiver a chance sai do time (embora tenha saído melhor do que a encomenda na defesa individual). O novato Paul George é outro que tenta umas coisas inexplicáveis, mas com a desculpa de ser só um novato, ser um time veloz não justifica tantas bobagens.

O Hibbert e o Granger, aliás, são um caso estranho nessa temporada. Nos primeiros 16 jogos da temporada Granger teve média de 22.6 jogos e Hibbert 16.1. Nos 16 jogos seguintes eles caíram para 19.1 e 11.1 respectivamente, em rebotes o Hibbert ainda caiu de 9 para 7 por jogo. Quer um número pior? Hibbert tem acertado apenas 41% dos seus arremessos! Irgh! Para um ala isso já é ruim, para um pivô é péssimo e para quem começou a temporada tão bem é um colapso inexplicável. E embora eu reclame que ele chuta muito de longe, os números dizem que nos últimos jogos, quando seus números caíram, ele está até arremessando um pouquinho mais de perto. Apenas tem errado, simples assim. O blog especializado no Pacers "Eight Points, Nine Seconds" comenta melhor esses dados.

Com Granger e Hibbert atuando bem, o Pacers tem lugar na briga (medíocre) pelas últimas posições no playoff no Leste, mas com eles jogando como estão, já era. Até porque como alertamos no nosso preview, eles tem dois buracos nas posições 2 e 4 que ainda não foram preenchidos. O Brandon Rush foi o escolhido para algumas ocasiões, mas como ele é muito limitado, costuma vir do banco, deixando lugar para o Mike Dunleavy, o que seria uma boa se ele tivesse só dias inspirados, mas é irregular como uma TPM. Na posição 4 já tivemos o mesmo versátil Mike Dunleavy deixando o time baixo e cheio de arremessadores, o agressivo Josh McRoberts, que é empolgante mas pouco eficiente, e finalmente Tyler Hansbrough nos últimos dois jogos. De todos, o Psycho-T é o que eu acho que vai ficar no time titular porque combina as qualidades dos outros: é agressivo nos rebotes como McRoberts, e tem velocidade e um arremesso decente de meia distância para abrir a quadra como Dunleavy.

Um outro jogador que eu sempre comentei que poderia ganhar espaço é o novato Lance Stephenson, ídolo absoluto nos seus tempos de colegial e que acabou só saindo na segunda rodada do Draft desse ano (uma posição depois do Landry Fields). Mas ele não entra em quadra nem a pau, na sua volta para sua terra natal, Nova York, o NY Daily News entrevistou o garoto e parece que vai demorar para ele entrar em quadra mesmo. O time está tendo paciência com ele, mas ele é ainda, pra falar a verdade, um jogador de streetball. Ainda precisa aprender a se portar como armador, a participar coletivamente da defesa e tantas outras coisas. "Ele precisa trabalhar em todo o seu jogo. Em tudo", disse o técnico Jim O'Brien. Se um dia Stephenson estourar na NBA ele deve muito a essa comissão técnica cheia de paciência.

Ou seja, é um time com bons jogadores, mas todos com muitos defeitos que o fariam reservas na maioria dos bons times por aí. Mas como essa é a realidade do Pacers por muitos anos, alguma coisa tinha que ser feita e o Jim O'Brien, nunca conhecido por sua defesa, fez milagre. Hoje o Pacers é a sétima melhor defesa de toda a NBA! O segredo para essa mudança está na dupla pressão de perímetro e Roy Hibbert . O time rápido pressiona os adversários na linha dos três com defensores atléticos e rápidos (George, Granger e principalmente Posey), evitando penetrações, e o Hibbert, 6º da NBA em tocos, protege bem o garrafão. Os adversários do Pacers acertam em média 43% dos seus arremessos, é a terceira melhor marca da NBA, atrás apenas de Bulls e Heat. Na defesa do garrafão também estão em terceiro, atrás de Celtics e Magic.

A conclusão dessa análise do Pacers é que caímos no mundo bizarro. O Spurs é o time veloz que precisa arrumar sua defesa e tem um dos ataques mais velozes e envolventes da NBA e o Pacers do Jim O'Brien (meu deus!) se mantém na briga pelos playoffs por sua defesa e precisa acertar o ataque para ir longe. Se um dia eu largar o blog é porque estou achando tudo tão estranho que enlouqueci e estou no hospício.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Preview – 2010-11 / Indiana Pacers

Darren Collison mudou de time e Danny Granger parece um bubblehead


Objetivo máximo: Não ser mais uma piada na NBA
Não seria estranho: Continuar sendo uma piada
Desastre: Não conseguir achar um Nets para ser pior que eles

Forças: Danny Granger e jogadores jovens que parecem que vão dar em alguma coisa
Fraquezas: Poucos talentos individuais na defesa, time inexperiente, pouca confiança e, até o ano passado, falta de um armador

Elenco: Se deus existisse ele deixaria eu colar as planilhas como nos primeiros previews. Mas pelo jeito estamos sozinhos nesse mundo e vocês terão que clicar aqui pra descobrir os 15 da rotação Paceriana.

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Técnico: Jim O’Brien
Há algumas temporadas a gente fez a chamada “Semana dos Técnicos”, quando falamos de todos os treinadores de todos os times daquele ano. Sempre que vamos falar de um técnico repetido dou uma olhada lá para lembrar de alguns dados. Mas lendo o texto que o Danilo fez sobre o Jim O’Brien decidi simplesmente colá-lo aqui, ficou muito bom:

“Lembrar de Jim O'Brien é lembrar daqueles bons tempos em que o Celtics desafiava as leis da lógica e do bom senso e vencia jogos, mas sem ter um elenco que parece um All-Star Game e ganha anéis mesmo com o babaca do Doc Rivers. Naquela época, o Celtics era formado por Paul Pierce e Antoine Walker, quebrava todos os recordes em bolas de 3 pontos arremessadas e era muito divertido de assistir. Me sinto velho lembrando de um Antoine Walker retardado porém sensacional, que levava seu time às vitórias. Naquela época a gente podia atravessar a rua sem olhar para os lados e continuar se perguntando quando é que o Papa João Paulo II ia finalmente morrer.


Jim O'Brien era responsável por um ataque veloz, de contra-ataques, baseado no jogo de perímetro, arremessando muito de fora do garrafão. Seu assistente técnico, Dick Harter, era uma das maiores mentes defensivas do mundo desde os bons tempos do goleiro Zetti, do São Paulo. Juntos, levaram o elenco limitado do Celtics até a final do Leste em 2002, mas foi aí que o maluco do Danny Ainge começou a lascar com tudo. Trocou o Walker sem motivo nenhum, passou a obrigar a utilização de novatos sem talento e afundou o time de vez com trocas absurdas que sonhavam apenas com o futuro. Jim O'Brien, então, falou que estava saindo para comprar cigarros e nunca mais voltou.


Foi para o Sixers e levou o time para os playoffs imediatamente, com um ataque que deixou Iverson feliz da vida. Mas como a diretoria do time queria contratar Mo Cheeks (vá entender o porquê), mandou o pobre Jim embora. Passou um tempo como comentarista e então assumiu o Pacers na temporada passada, o pior Pacers para se ter nas mãos nos últimos tempos. Além de Jermaine O'Neal contundido, o time de Indiana é uma tentativa do dirigente Larry Bird de construir um colégio católico para moços politicamente corretos. Todo mundo que arruma encrenca ou tem uma vida fora das quadras conturbada foi, aos poucos, sendo trocado ou afastado. O resultado final é um time que perdeu talentos como Stephen Jackson e Ron Artest e tenta vencer com o branquelo do Troy Murphy, que já tem no nome a certeza de que tudo vai dar errado. Jamaal Tinsley, um jogador que tinha tudo para se dar bem no esquema ofensivo do técnico O'Brien, foi cada vez mais punido por sua conduta e pelas contusões, até chegar ao ponto atual: ele não tem sequer um armário no vestiário, mesmo ainda não tendo sido trocado ou mandado embora. Estão apenas fechando os olhos e fazendo pensamento positivo para que ele desapareça, no melhor esquema "O Segredo".

A dupla Jim O'Brien e seu assistente defensivo Dick Harter têm uma árdua tarefa nas mãos. O elenco do Pacers está em total reconstrução, tendo se livrado inclusive do Jermaine O'Neal, e agora só tem uma pivetada para cheirar a talco e participar da brincadeira. Mas Jim O'Brien é um ótimo professor de novatos e ensina um ataque espontâneo e livre em quadra. Com ele, o eterno fracasso Mike Dunleavy e a futura estrela Danny Granger (também conhecido no mundo do tracadilho como Granny Danger) tiveram o melhor ano de suas carreiras. O Pacers acabou muito bem a temporada, chegou a tentar pegar a oitava vaga no Leste apesar das contusões e da bagunça que estava acontecendo no time, e era um dos times mais divertidos de se assistir jogar. Eu gosto do O'Brien e coloco uma fé em seu ataque veloz e talento com a pirralhada.”

Pois é, a reconstrução do Pacers não foi nada boa e Jim O’Brien não teve grande sucesso com o time. Ele até conseguiu impor seu ritmo veloz, as bolas de três (duas características que fizeram florescer o jogo do Danny Granger), mas sempre faltaram muitas peças para fechar o time. Um armador, principalmente. E nem o assistente Dick Harter, que se aposentou ao fim da temporada passada, conseguiu arrumar a defesa. Tá bom que ter a 14ª melhor defesa da liga com o elenco que tinham no ano passado foi uma vitória homérica, mas não o bastante para alguém ter percebido isso.

É uma pena que Harter tenha parado, porque é possível que esse seja o primeiro ano que o Pacers tenha peças o bastante para montar um time decente desde que Jim O’Brien assumiu. Uma curiosidade de Harter é que ele já havia trabalhado no Pacers antes, em 2000, quando o time foi até a final da NBA contra o Lakers. Naquela época o Larry Bird era o técnico do time e creditou à defesa montada por Harter o fato do time ter ido tão longe.

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Se nesse ano eles não tem mais Harter, têm como assistentes dois jogadores dos bons tempos de O’Brien no Celtics: Vitaly Potapenko e Walter McCarty. Mas mais importante do que isso, agora eles tem um armador e um pivô. Para um time de basquete ter jogadores bons nessas duas posições, se não for como oxigênio e água, é pelo menos tão importante quanto sexo e chocolate na vida de um ser humano.

Perder os rebotes e as bolas de três do Troy Murphy não foi legal, mas receber em troca o Darren Collison, um dos melhores novatos do ano passado, o cara que conseguiu números de Chris Paul jogando no lugar do próprio CP3, foi um achado. Ele é veloz, tem visão de jogo e deve se adaptar ao esquema do Jim O’Brien em segundos. Só por não ser um retardado que não passa a bola e acha que chuta de três como o TJ Ford já seria uma melhora, mas eles foram além. O pivete tem potencial pra ir muito longe e vai ter todo o espaço e mordomias do mundo para melhorar o seu jogo em Indiana.

No pivô eles tem o promissor Roy Hibbert, que melhorando de pouquinho em pouquinho a cada ano finalmente se tornou um jogador bom. Como foi citado outro dia no nosso formspring, é um dos pivôs que mais dá trabalho para o Dwight Howard em toda NBA. Não prevejo nenhum All-Star Game num futuro próximo, mas ele tem bons movimentos de ataque, dá conta do recado na defesa e não se machuca o tempo inteiro, pra eles tá ótimo! Se você pedir pra qualquer torcedor que acompanha a NBA há pouco tempo para listar os 30 times da liga, ele vai falar o Pacers por último, certeza. Eles não chamam a atenção por absolutamente nada desde que Ron Artest e Stephen Jackson deram o fora.

A espinha dorsal do time está montada com Darren Collison na armação, Hibbert como pivô e Danny Granger na posição três. Falta o miolo das posições 2 e 4. A briga vai ser dura entre muitos jogadores medianos.

Para ser o parceiro de Collison pode-se optar por Danthay Jones, Brandon Rush ou Lance Stephenson. O primeiro, surpreendentemente, fez uma temporada muito boa no ano passado, juntando sua boa defesa com alguns bons jogos no ataque. É o mais cotado para começar o ano como titular, mas tem “RESERVA” tatuado na testa e em todo seu DNA. Brandon Rush é um daqueles caras que ganham vaga na NBA por terem sido bons arremessadores na faculdade mas que demoram para provar o rótulo. Não fez nada de espetacular no seu primeiro ano. E por fim temos Lance Stephenson, talvez o jogador mais talentoso (competindo com Devin Ebanks) do segundo round do draft desse ano, mas um que faz Larry Bird ter arrepios na presidência do time. Ele é bom, jogou bem nas ligas de verão e tudo, mas também empurrou a namorada escada abaixo e está tomando processo na cabeça. É um clássico garoto-problema que joga muito basquete. Chegou a ser proibido de entrar no time logo depois da confusão com a namorada, mas está jogando normalmente a pré-temporada, sempre vindo do banco e jogando poucos minutos.

Com três opções nada convincentes a escolha da pré-temporada tem sido... nenhum dos três. Tá, Rush foi o titular em um jogo, mas no resto o mesmo técnico que passou mais de um ano usando Mike Dunleavy como um ala de força, agora o usa como segundo armador. Não sei se vai dar certo. Era legal quando ele usava sua velocidade contra os alas de força mais pesados, mas Dunleavy não tem o estilo de jogo para usar sua altura contra os armadores baixinhos. Acredito que esse experimento não vá longe.

É mais provável que Dunleavy apareça na briga para ser o ala de força, que tem como concorrentes fortes Tyler Hansbrough e Josh McRoberts. O primeiro foi um dos melhores jogadores universitários dos últimos anos, mas na sua temporada passada, a de novato, jogou poucos jogos porque ele tinha uma contusão que ninguém sabia o que era. Sério! Como contei na temporada passada:

“Mas o destaque na área médica vai para o Tyler Hasnbrough. Ele só jogou 29 jogos na temporada, sua última partida foi em 16 de janeiro e desde então ninguém sabe o que ele tem. Alguns médicos dizem que é uma infecção no ouvido, mas ninguém tem certeza, o cara não pode ser curado porque não sabem o que tratar. Rumores dizem que o Dr. Foreman acha que é câncer, o Taub acha que é uma doença auto-imune, o House acha que o Hansbrough está mentindo e todo mundo sabe que não é Lúpus.”

Por passar tanto tempo longe das quadras o Psycho-T, segundo Jim O’Brien, está atrás de McRoberts na briga, mas ainda dá tempo de alcançar. O atual titular é bem limitado e só chama a atenção porque, apesar de ser um branquelo, dá umas enterradas alucinantes (veja o vídeo abaixo)! É um jogador bacana de ter no banco, mas ver ele no time titular é assumir que é um time limitadíssimo.



Na posição de palpiteiro que não assiste aos treinos eu posso dizer que eu usaria o Tyler Hansbrough como titular. Ele é ágil e rápido o bastante para se adaptar ao estilo do time e, apesar de meio baixo pra posição, sabe atuar de ala de força. Dentro das suas limitações é a melhor opção do elenco, além de precisar, depois do trágico ano passado, de minutos de jogo para se sentir mais à vontade entre os profissionais e jogar em um nível parecido com o que fazia em North Carolina. Se tem uma vantagem em estar em um time esquecido é poder se dar ao luxo de deixar o cara feder por uns jogos sem que ninguém repare e fique apontando o dedo.

Também não deixaria de fora a possibilidade deles voltarem a improvisar um jogador da posição três como ala de força. Não só Mike Dunleavy como o novato Paul George e o recém-adquirido James Posey são boas opções. Posey em especial já teve boas experiências marcando jogadores mais altos e tem bom arremesso de três, ideal para o esquema aberto e veloz de Jim O'Brien.

Para a posição de segundo armador acho que o negócio é botar o Danthay Jones de titular mesmo,  alguém precisa defender nesse time. Mas ficaria de olho no Lance Stephenson, há algumas semanas ele foi duramente criticado pelo O'Brien pela sua defesa, mas foi na defesa sem a bola. Ele, pelo jeito, marca muito bem no 1-contra-1 mas no coletivo ainda se posiciona mal e falha nas coberturas. Nada que não dê pra aprender. É o bastante para deixá-lo ainda no banco, mas ficando de olho no garoto.

Vai ser difícil para o Pacers sair do ostracismo ainda nesse ano, mas é o elenco mais promissor e talentoso que eles tem desde que desapareceram dos playoffs em 2006. Na briga dos piores times do ano passado eu até me arrisco a dizer que o trio Collison-Granger-Hibbert é mais promissor que Harris-Favors-Lopez do Nets ou Flynn-W.Johnson-Love do Wolves. Mas vai saber, o Carmelo Anthony nem deve saber que o Pacers existe pra cogitar ir pra lá no ano que vem.

domingo, 28 de setembro de 2008

Análise dos Técnicos - Divisão Central

"Vamos lá, primeiro a gente mata o Scott Skiles, depois eu vou para
o garrafão, você passa a bola pra mim, e aí..."



Apesar do pequeno atraso no cronograma (sabe como é, minha mãe comeu minha lição de casa, passei num buraco e furei os quatro pneus, essas coisas) estamos de volta com nossa Semana dos Técnicos. Dessa vez vamos dar uma olhada na Conferência Leste, mais especificamente na Divisão Central. São alguns dos técnicos mais jovens de toda a NBA, incluindo dois treinadores novatos e, para finalizar, o cara mais insuportável desse hemisfério, tentando sua sorte com um time novo. Vamos lá!


Vinny Del Negro, Chicago Bulls

Lembra quando o Bulls impressionou todo mundo ganhando 49 partidas na temporada regular com um elenco jovem composto por Deng, Ben Gordon e Hinrich? E quando o time fedeu perdendo 49 partidas na temporada passada e dando um jeito de se livrar de Ben Wallace, contratado como a peça que faltava para chegar a um título? Bem, o fracasso foi demais para a diretoria do Bulls, mandaram o técnico e pé-no-saco Scott Skiles embora e foram atrás de dois possíveis substitutos: Mike D'Antoni, que prefiriu ir comandar o Knicks, e Doug Collins, que preferiu continuar comentando jogos na televisão. Sem os dois favoritos para o cargo, o Bulls resolveu apelar para um treinador novato, o ex-jogador Vinny Del Negro.

Gostaria de ser capaz de explicar o motivo dessa escolha, mas não consigo pensar em nada que não seja sua força nominal. Del Negro não tem qualquer experiência como técnico ou auxiliar técnico, apenas foi comentarista, trabalhou na parte administrativa do Suns e tem um nome bacana capaz de vender vários CDs de música pop para garotas.

Os responsáveis pelo Chicago Bulls afirmaram que Vinny foi o que se saiu melhor nas entrevistas para o emprego, cheio de novas idéais e uma vontade enorme de aprender. Mas não é o que todo mundo diz em entrevistas de emprego? "Sim, senhor, tenho muita vontade de aprender, sim. Defeito? Ah, eu sou perfeccionista, sabe? Gosto de tudo feito direitinho, faço até hora extra se for necessário." O pessoal no Bulls não tem experiência em mentiras de escritório.

Ao menos o discurso do Vinny ao assumir o time foi sensato. Alegou estar ansioso para dar mais e mais minutos para Thabo Sefolosha, Tyrus Thomas e Joaquim Noah, ou seja, colocar pra jogar o núcleo jovem do time que passou muito tempo no banco na época do Skiles. Além disso, contratou como assistentes técnicos dois veteraníssimos: Del Harris, de 71 anos, e Bernie Bickerstaff, de 63. Os dois foram técnicos de moderado sucesso e afirmaram que Vinny, de apenas 41 anos, absorve cada palavra deles com o respeito e o afinco de um pirralho nerd que senta na primeira fileira da sala de aula (mas não usaram essas palavras, claro). O resultado disso a gente vai ver em breve, mas deve levar algum tempo para que o treinador consiga uma voz própria e dê uma identidade ao time. Como o elenco é jovem, parece que o clima é oficialmente de apagar qualquer rastro de pressa em Chicago. Hora de pensar no futuro.


Mike Brown, Cleveland Cavaliers

Se montar um esquema de ataque no basquete fosse um teste de QI, o resultado do Mike Brown diria que "sua inteligência é equivalente a um mico de circo". Uma criança de 2 anos ou a Luciana Gimenez - que são inteligências equivalentes - seriam capazes de montar uma tática mais complexa do que "passem a bola para LeBron e saiam do caminho".

Embora o Cavs seja seu primeiro time de verdade, Mike Brown foi assistente técnico de Gregg Popovich, naquele Spurs campeão da NBA em 2003, além de assistente técnico do Rick Carlisle no Pacers que foi para a Final do Leste em 2004. Ou seja, o sujeito sabe o que são times vencedores, tem experiência nos playoffs e é famoso por ser um grande especialista em defesas. Comandando o Cavs, colocou sua equipe sempre entre as melhores defesas e entre os líderes em rebotes defensivos e ofensivos. Foi campeão do Leste e sempre faz estrago nos playoffs, então como pode ser tão criticado e chamado de burro por aí? Basta assistir um punhado de jogos do Cavs e dar uma olhada em como o ataque funciona, na bagunça, na falta de movimentação, na falta de jogadas planejadas. A não ser, é claro, que ele tenha planejado e treinado deixar quatro jogadores parados olhando para o teto enquanto o LeBron faz chover e anda sobre as águas para fazer qualquer coisa acontecer.

Se sou um defensor do LeBron James, isso deve-se em grande parte à existência do técnico Mike Brown. Eu vejo LeBron querendo envolver seus companheiros, querendo passar a bola, tendo físico para jogar de costas para a cesta, dentro do garrafão, versatilidade para jogar em várias posições, armar o jogo volta e meia. Mas também vejo o técnico mais bocó da atualidade usando o LeBron sempre da mesma forma, mesmo quando ele recebe marcação dupla ou até mesmo tripla. Kobe e Jordan foram treinados pelo Mestre Zen, Phil Jackson. O que teria sido deles se fossem treinados pelo mosca-morta do Mike Brown? É insuportável ver um dos melhores jogadores da NBA, um dos maiores talentos físicos a jogar essa budega, ser tão pessimamente utilizado por seu técnico. Se LeBron sair de Cleveland como dizem todos os boatos, não será apenas porque a diretoria não consegue colocar à sua volta um elenco decente. Será também porque seu técnico não presta, mesmo montando defesas poderosas e tendo vencido o Leste. Tá certo, ele é o técnico mais novo da NBA com apenas 38 anos (só alguns meses mais novo que o Lawrence Frank), mas não parece mostrar nenhum sinal de que está disposto a aprender e mudar seu modo de lidar com o jogo.


Michael Curry, Detroit Pistons

Ex-jogador do Pistons e assistente técnico da equipe nos últimos anos, Michael Curry acabou ganhando pontos de experiência o bastante para evoluir para o posto de técnico depois que o Flip Saunders rodou. O Saunders era um bom técnico, especialista na parte ofensiva, com uma defesa questionável, que levou o Wolves e o Pistons para os playoffs quinhentas vezes mas seus times sempre amarelam na hora mais importante. Coisas como motivação e confiança do elenco passaram a se tornar um assunto comum e o Pistons decidiu tomar uma providência.

Michael Curry não tem experiência alguma como treinador mas foi escolhido simplesmente porque o elenco confia nele. Como assistente técnico, era muito respeitado por todos os jogadores como sendo um cara durão e exigente. É esse tipo de exigência, motivação e confiança que, espera-se, seja o que leve o Pistons a não ser um time que joga no piloto automático muitas vezes e perde justamente quando não pode.

O Michael Curry já vinha sendo cotado para ser técnico faz um tempo. Quando o Suns mandou o D'Antoni empilhar coquinho na descida, tentou entrar em contato com o Curry mas o Pistons não deixou. Eram dois os assistentes técnicos em Detroit, Michael Curry e Terry Porter, e apenas o segundo teve permissão para falar com o Suns. Acabou sendo contratado e, pouco tempo depois, o Curry assumiu o Pistons. O mercado está em alta para assistentes técnicos de Detroit.

Nas declarações que deu até agora, Michael Curry reclamou da preparação física do Pistons e já avisou que vai exigir muito mais. O que ele quer é o físico de seus jogadores aguentando os playoffs numa boa, então todo mundo tem que se apresentar antes da temporada começar com o condicionamento em dia. Além disso, já avisou que Rasheed Wallace, em especial, terá que estar melhor fisicamente justamente porque jogará muito mais no garrafão durante essa temporada. Ou seja, o cara chegou chamando todo mundo de gordo, colocando todo mundo para correr e fazer abdominais, e obrigando o Sheed a ficar lá embaixo do garrafão, algo que mataria ele de tédio? Quanto tempo vai levar para os jogadores do Pistons se encherem dessa mané e tacarem ele pela janela?


Jim O'Brien, Indiana Pacers

Lembrar de Jim O'Brien é lembrar daqueles bons tempos em que o Celtics desafiava as leis da lógica e do bom senso e vencia jogos, mas sem ter um elenco que parece um All-Star Game e ganha anéis mesmo com o babaca do Doc Rivers. Naquela época, o Celtics era formado por Paul Pierce e Antoine Walker, quebrava todos os recordes em bolas de 3 pontos arremessadas e era muito divertido de assistir. Me sinto velho lembrando de um Antoine Walker retardado porém sensacional, que levava seu time às vitórias. Naquela época a gente podia atravessar a rua sem olhar para os lados e continuar se perguntando quando é que o Papa João Paulo II ia finalmente morrer.

Jim O'Brien era responsável por um ataque veloz, de contra-ataques, baseado no jogo de perímetro, arremessando muito de fora do garrafão. Seu assistente técnico, Dick Harter, era uma das maiores mentes defensivas do mundo desde os bons tempos do goleiro Zetti, do São Paulo. Juntos, levaram o elenco limitado do Celtics até a final do Leste em 2002, mas foi aí que o maluco do Danny Ainge começou a lascar com tudo. Trocou o Walker sem motivo nenhum, passou a obrigar a utilização de novatos sem talento e afundou o time de vez com trocas absurdas que sonhavam apenas com o futuro. Jim O'Brien, então, falou que estava saindo para comprar cigarros e nunca mais voltou.

Foi para o Sixers e levou o time para os playoffs imediatamente, com um ataque que deixou Iverson feliz da vida. Mas como a diretoria do time queria contratar Mo Cheeks (vá entender o porquê), mandou o pobre Jim embora. Passou um tempo como comentarista e então assumiu o Pacers na temporada passada, o pior Pacers para se ter nas mãos nos últimos tempos. Além de Jermaine O'Neal contundido, o time de Indiana é uma tentativa do dirigente Larry Bird de construir um colégio católico para moços politicamente corretos. Todo mundo que arruma encrenca ou tem uma vida fora das quadras conturbada foi, aos poucos, sendo trocado ou afastado. O resultado final é um time que perdeu talentos como Stephen Jackson e Ron Artest e tenta vencer com o branquelo do Troy Murphy, que já tem no nome a certeza de que tudo vai dar errado. Jamaal Tinsley, um jogador que tinha tudo para se dar bem no esquema ofensivo do técnico O'Brien, foi cada vez mais punido por sua conduta e pelas contusões, até chegar ao ponto atual: ele não tem sequer um armário no vestiário, mesmo ainda não tendo sido trocado ou mandado embora. Estão apenas fechando os olhos e fazendo pensamento positivo para que ele desapareça, no melhor esquema "O Segredo".

A dupla Jim O'Brien e seu assistente defensivo Dick Harter têm uma árdua tarefa nas mãos. O elenco do Pacers está em total reconstrução, tendo se livrado inclusive do Jermaine O'Neal, e agora só tem uma pivetada para cheirar a talco e participar da brincadeira. Mas Jim O'Brien é um ótimo professor de novatos e ensina um ataque espontâneo e livre em quadra. Com ele, o eterno fracasso Mike Dunleavy e a futura estrela Danny Granger (também conhecido no mundo do tracadilho como Granny Danger) tiveram o melhor ano de suas carreiras. O Pacers acabou muito bem a temporada, chegou a tentar pegar a oitava vaga no Leste apesar das contusões e da bagunça que estava acontecendo no time, e era um dos times mais divertidos de se assistir jogar. Eu gosto do O'Brien e coloco uma fé em seu ataque veloz e talento com a pirralhada.


Scott Skiles, Milwaukee Bucks

O Skiles é a esposa que ninguém quer ter: faz uma comida deliciosa mas critica o marido o tempo todo e em todo lugar, na cozinha, na cama, no banheiro e na frente dos amigos. Grita o tempo todo, cola na geladeira a lista de regras da casa (se não levantar a tampa da privada antes de mijar, tem que pagar 50 flexões) e nunca dá o braço a torcer. Ou seja, Scott Skiles é um divórcio sempre esperando para acontecer.

Poucos técnicos são tão bons estrategistas quanto ele, é verdade. Se eu tivesse que escolher alguém para desenhar a jogada final de uma partida que levasse à cesta da vitória, escolheria o Skiles. Mas vá ser pentelho assim no inferno! A palavra principal com ele é "disciplina". O que ele exige do time não é talento, mas obediência irrestrita. Grita com os jogadores de forma exigente, o que pode ser até motivador a princípio, mas quando ele grita por qualquer coisa, critica os jogadores o tempo inteiro e não tem vergonha de esculachar seus jogadores quando está falando com a imprensa, está criando um clima insuportável em seu elenco.

Sua especialidade é a defesa e é exatamente isso que ele cobra de seus jogadores sem parar, integralmente. Quem não defende não tem vez, vai parar no banco, assim como quem não obedece. Na ditadura de Scott Skiles, o Bulls viu Eddy Curry e Tyson Chandler indo parar na reserva e sendo trocados por ordens suas. Curry é um gordo que ainda é um talento ofensivo, mas Tyson Chandler é um dos melhores pivôs da NBA e não pára de evoluir um ano sequer - a troca foi uma cagada. Às vezes, a visão rígida de Skiles acaba prendendo ele próprio, evitando que use seus melhores jogadores e entregue o melhor resultado em quadra. Não faz sentido a sua visão de disciplina ser mais importante do que as vitórias dentro das partidas. Por exemplo, Ben Gordon não defende e então é punido com o banco de reservas, com minutos limitados, com castigos físicos. E assim o time perde, todo mundo fica descontente e não vê a hora de dar o fora. Quando o Luol Deng e o próprio Ben Gordon pedem quatrocentos bilhões de dólares por ano para jogar no Bulls, acho até justo: é um valor mínimo para encarar o Scott Skiles diariamente durante uma temporada.

Diz a lenda que, desde seus tempos de Phoenix Suns, o Skiles não grita mais. Mas isso não quer dizer que ele não reclame o tempo todo, não cobre o impossível e não castigue seus jogadores fisicamente. No Bulls, sob seu regime, quem não atinge o padrão "paga 100", e uma visão comum por lá é um bando de jogadores crescidos correndo ao redor da quadra porque erraram uma bandeja. Eu sei, tem gente que adora esse tipo de coisa, que acha que basquete se aprende na porrada, que criança se educa no chicote. Mas a fama do Skiles no Bulls é o bastante para fazer jogadores free agents evitarem jogar pra ele. Ninguém quer ficar sofrendo só de alegre, a não ser masoquista, mas é melhor nem entrar nesse assunto.

Quando o Ben Wallace chegou ao Chicago Bulls como a grande esperança de tornar o time um real candidato ao título, acabou trombando de frente com Skiles. Logo de cara, o Skiles obrigou os jogadores a enfaixarem seus tornozelos antes de treinos e partidas, algo que o Big Ben nunca tinha feito e assumidamente achou uma merda ter que botar em prática. Além disso, estava em voga no elenco uma lei idiota que proibia o uso de faixas na cabeça. Quando o Big Ben entrou em quadra com uma, o Skiles colocou ele no banco assim que percebeu. Todos os assistentes técnicos foram falar com o Wallace, pedir para ele tirar, mas ele não obedeceu. Só tirou a faixa no fim do primeiro quarto e, segundos depois, sem falar nada, Skiles colocou ele de volta em quadra. No segundo tempo, Ben Wallace voltou com a faixa do vestiário e nem foi colocado em quadra. Assim que tirou para coçar a cabeça, foi colocado em quadra. Tudo um jogo de crianças, uma brincadeira de mentes entediadas, uma vontade grande demais de ter poder. Por que alguém se importaria com faixas de cabeça? Que vontade é essa de ser obedecido que faz ele só colocar o Ben Wallace nos segundos em que ele tira a maldita faixa da cabeça? Freud explica, algo a ver com falos e mães.

O clima com o Ben Wallace ficou insuportável e ele teve que ser trocado. Mas quando o clima com o resto do time ficou insuportável, não dava pra trocar o time inteiro, a não ser que mandessem eles para Seattle. O jeito foi mandar o Skiles pro olho da rua e aguardar alguém apaixonado por seu estilo "obedece essa merda e defende direito" dar uma chance para o rapaz. Rapidinho ele se tornou o novo técnico do Bucks. A troca do fominha maluco Mo Williams deve ter tudo a ver com a chegada de Skiles, ele não duraria nem 5 segundos nesse esquema, e agora é o elenco de Milwaukee que deve sofrer. Se a disciplina vai dar algum resultado nesse elenco cheio de modificações e mais atlético, só saberemos na próxima temporada. Mas eu sempre acho que esse tipo de coisa dá errado a longo prazo, você pode até se esforçar mais no começo, mas ninguém fica sofrendo em silêncio por anos a fio. A não ser masoquistas, mas, bem, deixa pra lá.